Arquivo de 9 de Fevereiro de 2009

Protestos contra as demissões e a retirada de direitos agitam fevereiro

Nos próximos dias 11 e 12, os trabalhadores vão às ruas contra os efeitos da crise
Da redação

Na medida em que a crise econômica se agrava, aumenta a pressão para a flexibilização de direitos, redução salarial e demissões. Apesar dos lucros recordes do último período, os patrões querem reduzir salários e direitos por conta da crise. Caso mais expressivo é a Vale, que quer reduzir para metade os salários de 19 mil trabalhadores de Minas e Mato Grosso do Sul, sem ao menos garantir os empregos.
Os trabalhadores, porém, não aceitarão arcar com os custos da crise. No próximo dia 11 ocorre um grande ato em frente à sede da Vale, no Rio de Janeiro. O protesto é organizado por uma ampla gama de entidades, que vai da Conlutas, Intersindical até a CUT. No Fórum Social Mundial em Belém, o dia de luta foi referendado pelo seminário unitário que envolveu, além da Conlutas e Intersindical, pastorais sociais e organizações como o MTL.
Já no dia seguinte, dia 12 de fevereiro, ocorrem dois atos. Um em São Paulo, em frente à sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Outro, em Minas Gerais, em frente à FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), na capital Belo Horizonte. Essas entidades patronais promovem uma intensa campanha de pressão pela retirada de direitos e redução de salários, ao mesmo tempo em que exigem mais benefícios do governo e nem consideram a hipótese de estabilidade no emprego. Os protestos vão exigir a estabilidade e a redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, a fim de combater o desemprego.

Comentários

István Mészàros: "Solução neokeynesiana e novo Bretton Woods são fantasias"

Em entrevista à revista inglesa Socialist Review, István Mészàros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade, analisa a crise econômica mundial e critica aqueles que apostam que ela será resolvida trazendo de volta as idéias keynesianas e a regulação. "É uma fantasia que uma solução neo-keynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais", defende Mészàros. Para ele, estamos vivendo a maior crise na história humana, em todos os sentidos.

Judith Orr e Patrick Ward - Socialist Review

Em 1971 István Mészàros ganhou o Prêmio Deutscher pelo seu livro A Teoria da Alienação em Marx e desde então tem escrito sobre o marxismo. Em janeiro deste ano, ele conversou com Judith Orr e Patrick Ward, da Socialist Review, sobre a atual crise econômica.
Socialist Review: A classe dominante sempre é surpreendida por crises econômicas e fala delas como fossem aberrações. Por que você acha que as crises são inerentes ao capitalismo?
István Mészàros – Eu li recentemente Edmund Phelps, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia, em 2006. Phelps é um tipo de neokeynesiano. Ele estava, é claro, glorificando o capitalismo e apresentando os problemas atuais como apenas um contratempo, dizendo que “tudo o que devemos fazer é trazer de volta as idéias keynesianas e a regulação.”
John Maynard Keynes acreditava que o capitalismo era ideal, mas queria regulação. Phelps estava reproduzindo a idéia grotesca de que o sistema é como um compositor musical. Ele pode ter alguns dias de folga nos quais não pode produzir tão bem, mas se você olhar no todo verá que ele é maravilhoso! Pense apenas em Mozart – ele deve ter tido o velho e esquisito dia ruim. Assim é o capitalismo em crise, como dias ruins de Mozart. Quem acredita nisso deveria ter sua cabeça examinada. Mas, no lugar de ter sua cabeça examinada, ele ganhou um prêmio.
Se nossos adversários têm esse nível de pensamento – o qual tem sido demonstrado, agora, ao longo de um período de 50 anos, não é apenas um escorregão acidental de economista vencedor de prêmio – poderíamos dizer, “alegre-se, esse é o nível baixo do nosso adversário”. Mas com esse tipo de concepção você termina no desastre de que temos experiência todos os dias. Nós afundamos numa dívida astronômica. As dívidas reais neste país (Inglaterra) devem ser contadas em trilhões.
Mas o ponto importante é que eles vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo. Não é um acidente que a moeda tenha inundado de modo tão adventista o setor financeiro. A acumulação de capital não poderia funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva.
Agora estamos falando da crise estrutural do sistema. Ela se extende por toda parte e viola nossa relação com a natureza, minando as condições fundamentais da sobrevivência humana. Por exemplo, de tempos em tempos anunciam algumas metas para diminuir a poluição. Temos até um ministro da energia e da mudança climática, que na verdade é um ministro do lero lero, porque nada faz além de anunciar uma meta. Só que essa meta nunca é sequer aproximada, quanto mais atingida. Isso é uma parte integral da crise estrutural do sistema e só soluções estruturais podem nos tirar desta situação terrível.
SR - Você descreveu os EUA como levando a cabo um imperialismo de cartão de crédito. O que você quer dizer com isso?
IM – Eu lembro do senador norte-americano George McGovern na guerra do Vietnã. Ele disse que os EUA tinham fugido da guerra do Vietnã num cartão de crédito. O recente endividamento dos EUA está azedando agora. Esse tipo de economia só avança enquanto o resto do mundo pode sustentar sua dívida.
Os EUA estão numa posição única porque tem sido o país dominante desde o acordo de Bretton Woods. É uma fantasia que uma solução neokeynesiana e um novo Bretton Woods resolveriam qualquer dos problemas dos dias atuais. A dominação dos EUA que Bretton Woods formalizou imediatamente depois da Segunda Guerra era realista economicamente. A economia norte-americana estava numa posição muito mais poderosa do que qualquer outra economia do mundo. Ela estabeleceu todas as instituições econômicas internacionais vitais com base no privilégio dos EUA. O privilégio do dólar, o privilégio aproveitado pelo Fundo Monetário Internacional, pelas organizações comerciais, pelo Banco Mundial, todos completamente sob a dominação dos EUA, e ainda permanece assim hoje.
Não se pode fazer de conta que isso não existe. Você não pode fantasiar reformas e regulações leves aqui e acolá. Imaginar que Barack Obama vai abandonar a posição dominante de que os EUA dispõe, nesse sentido – apoiada pela dominação militar – é um erro.
SRKarl Marx chamou a classe dominante de “bando de irmãos guerreiros”. Você acha que a classe dominante vai trabalhar junta, internacionalmente, para encontrar uma solução?
IM – No passado o imperialismo envolveu muitos atores dominantes que asseguraram seus interesses mesmo às custas de duas horrendas guerras mundiais no século XX. Guerras parciais, não importa o quão horrendas são, não podem ser comparadas ao realinhamento do poder e da economia que seria produzido por uma nova guerra mundial.
Mas imaginar uma nova guerra mundial é impossível. É claro que ainda há alguns lunáticos no campo miliar que não negariam essa possibilidade. Mas isso significaria a destruição total da humanidade.
Temos de pensar as implicações disso para o sistema capitalista. Era uma lei fundamental do sistema que se uma força não pudesse ser assegurada pela dominação econômica você recorreria à guerra.
O imperialismo global hegemônico tem sido conquistado e operado com bastante sucesso desde a Segunda Guerra Mundial. Mas esse tipo de sistema é permanente? É concebível que nele não surjam contradições, no futuro?
Algumas pistas vem sendo dadas pela China de que esse tipo de dominação econômica não pode avançar indefinidamente. A China não será capaz de seguir financiando isso. As implicações e consequencias para a China já são bastante significantes. Deng Xiaoping uma vez disse que a cor do gato – seja ele capitalista ou socialista – não importa, desde que ele pegue o rato. Mas e se, no lugar da caçada feliz do rato se termine numa horrenda infestação de ratos de desemprego massivo? Isso está acontecendo agora na China.
Essas coisas são inerentes nas contradições e antagonismos do sistema capitalista. Portanto, temos de pensar em resolvê-los de uma maneira radicalmente diferente, e a única maneira é uma genuína transformação socialista do sistema.
SR - Não há em parte alguma do mundo econômico desacoplamento dessa situação?
IM- Impossível! A globalização é uma condição necessária do desenvolvimento humano. Desde que o sistema capitalista se tornou claramente visível Marx teorizou isso. Martin Wolf, do Financial Times tem reclamado de que há muitos pequenos, insignificantes estados que causam problemas. Ele argumenta que seria preciso uma “integração jurisdicional”, em outras palavras, uma completa integração imperialista – um conceito fantasia. Trata-se de uma expressão das contradições e antagonismos insolúveis da globalização capitalista. A globalização é uma necessidade, mas a forma em que é exequível e sustentável é a de uma globalização socialista, com base nos princípios socialistas da igualdade substantiva.
Ainda que não haja desacoplamento na história do mundo, é concebível que isso não signifique que em toda fase, em todas as partes do mundo, haja uniformidade. Muitas coisas diferentes estão se desenvolvendo na América Latina, em comparação com a Europa, para não mencionar o que eu já assinalei sobre a China, o Sudeste Asiático e o Japão, que está mergulhado em problemas mais profundos.
Vamos pensar no que aconteceu há pouco tempo. Quantos milagres tivemos no período do pós-guerra? O Milagre Alemão, o Milagre Brasileiro, o Milagre Japonês, o Milagre dos cinco Tigres Asiáticos? Engraçado que todos esses milagres tenham se convertido na mais terrível realidade prosaica. O denominador comum de todas essas realidades é o endividamento desastroso e a fraude.
Um dirigente de um fundo hedge foi supostamente envolvido numa farsa envolvendo 50 bilhões de dólares. A General Motors e outras estavam pedindo ao governo norte-americano somente 14 bilhões de dólares. Que modesto! Eles deveriam ter dado 100 bilhões. Se um fundo hedge capitalista pode organizar uma suposta fraude de 50 bilhões, eles devem chegar a todos os fundos possíveis.
Um sistema que opera nesse modo moralmente podre não pode provavelmente sobreviver, porque é incontrolável. As pessoas chegam a admitir que não sabem como isso funciona. A solução não é desesperar-se, mas controlá-lo em nome da responsabilidade social e de uma radical transformação da sociedade.
SRA tendência inerente do capitalismo é exigir dos trabalhadores o máximo possível, e isso é claramente o que os governos estão tentando fazer na Grã Bretanha e nos EUA.
IM – A única coisa que eles podem fazer é advogar pelos salários dos trabalhadores. A razão principal pela qual o Senado recusou a injetar 14 bilhões de dólares nas três maiores companhias de automóveis é que não puderam obter acordo sobre a drástica redução dos salários. Pense no efeito disso e nos tipos de obrigações que esses trabalhadores têm – por exemplo, repagando pesadas hipotecas. Pedir-lhes que simplesmente passem a receber metade de seus salários geraria outros tipos de problemas na economia – de novo, a contradição.
Capital e contradições são inseparáveis. Temos de ir além das manifestações superficiais dessas contradições e de suas raízes. Você consegue manipulá-las aqui e ali, mas elas voltarão com uma vingança. Contradições não podem ser jogadas para debaixo do tapete indefinidamente, porque o carpete, agora, está se tornando uma montanha.
SRVocê estudou com Georg Lukács, um marxista que retomou o período da Revolução Russa e foi além.
IM – Eu trabalhei com Lukács sete anos, antes de deixar a Hungria em 1956 e nos tornamos amigos muito próximos até a sua morte, em 1971. Sempre nos olhamos nos olhos – é por isso que eu queria estudar com ele. Então aconteceu que quando eu cheguei para estudar com ele, ele estava sendo feroz e abertamente atacado, em público. Eu não aguentei aquilo e o defendi, o que levou a todos os tipos de complicações. Logo que deixei a Hungria, fui designado sucessor, na universidade, ensinando estética. A razão pela qual deixei o país foi precisamente porque estava convencido de que o que estava acontecendo era uma variedade de problemas muito fundamentais que o sistema não poderia resolver.
Eu tentei formular e examinar esses problemas em meus livros, desde então. Em particular em "A Teoria Alienação em Marx" e "Para Além do Capital" (*). Lukács costumava dizer, com bastante razão, que sem estratégia não se pode ter tática. Sem uma perspectiva estratégica desses problemas você não pode ter soluções do dia-a-dia. Então eu tentei analisar esses problemas consistentemente, porque eles não podem ser simplesmente tratados no nível de um artigo que apenas relata o que está acontecendo hoje, ainda que haja uma grande tentação de fazê-lo. No lugar disso, deve ser apresentada uma perspectiva histórica. Eu venho publicando desde que meu primeiro ensaio justamente substancial foi publicado, em 1950, num periódico literário na Hungria e eu tenho trabalhado tanto como posso, desde então. À medida de nossos modestos meios, damos nossa contribuição em direção da mudança. Isso é o que tenho tentado fazer ao longo de toda minha vida.
SR- O que você pensa das possibilidades de mudança neste momento?
IM – Os socialistas são os últimos a minimizar as dificuldades da solução. Os apologistas do capital, sejam eles neokeynesianos ou o que quer que sejam, podem produzir todos os tipos de soluções simplistas. Eu não penso que podemos considerar a crise atual simplesmente da maneira que o fizemos no passado. A crise atual é profunda. O diretor substituto do Banco da Inglaterra adimitiu que esta é a maior crise econômica na história da humanidade. Eu apenas acrescentaria que esta não é apenas a maior crise na história humana, mas a maior crise em todos os sentidos. Crises econômicas não podem ser separadas do resto do sistema.
A fraude e a dominação do capital e a exploração da classe trabalhadora não podem continuar para sempre. Os produtores não podem ser postos constantemente e para sempre sob controle. Marx argumenta que os capitalistas são simplesmente personificações do capital. Não são agentes livres; estão executando imperativos do sistema. Então, o problema da humanidade não é simplesmente vencer um bando de capitalistas. Pôr simplesmente um tipo de personificação do capital no lugar do outro levaria ao mesmo desastre e cedo ou tarde terminaríamos com a restauração do capitalismo.
Os problemas que a sociedade está enfrentando não surgiram apenas nos últimos anos. Cedo ou tarde isso tem de ser resolvido e não, como o vencedor do Prêmio Nobel deve fantasiar, no interior da estrutura do sistema. A única solução possível é encontrar a reprodução social com base no controle dos produtores. Essa sempre foi a idéia do socialismo.
Nós alcançamos os limites históricos da capacidade do capital controlar a sociedade. Eu não quero dizer apenas bancos e instituições financeiras, ainda que eles não possam controlá-las, mas o resto. Quando as coisas dão errado ninguém é responsável. De tempos em tempos os políticos dizem: “Eu aceito total responsabilidade”, e o que acontece? Eles são glorificados. A única alternativa exequível é a classe trabalhadora, que é a produtora de tudo o que é necessário em nossa vida. Por que eles não deveriam controlar o que produzem? Eu sempre enfatizei em todos os livros que dizer não é relativamente fácil, mas temos de encontrar a dimensão positiva.
István Mészàros é o autor do recentemente publicado "The challenge and burden of Historical Time", "Os Desafios e o Fardo do Tempo Histórico", publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, 2007.
(*) Ambos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.
Artigo originalmente publicado na Socialist Review
Tradução: Katarina Peixoto

Comentários (1)

MST no Fórum: sectarismo preocupante

 

O MST conta com o ódio visceral da direita brasileira e da maioria dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, alguns líderes do Movimento têm assumido, nos últimos meses, uma postura sectária e pouco construtiva para a convivência e convergência das forças democráticas e populares.

Gilberto Maringoni

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra é um patrimônio nacional. Seus 25 anos de existência mostram como um trabalho sério, dedicado e constante transformaram as lutas pela democratização da propriedade no Brasil. Por causa disso, o MST conta com o ódio visceral da direita brasileira e da maioria dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, alguns líderes do Movimento têm assumido, nos últimos meses, uma postura sectária e pouco construtiva para a convivência e convergência das forças democráticas e populares. O ápice da falta de tato, beirando os maus modos, foi dada por um dos principais dirigentes do Movimento, João Pedro Stédile, em discurso no Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Belém do Pará.
Vale a pena nos determos na atuação de alguns dirigentes do MST em ato realizado na tarde do dia 29 de janeiro último, no ginásio da Universidade Estadual do Pará (UEPA). A cerimônia, que contou com a participação de quatro presidentes sul-americanos, representou um dos pontos marcantes do FSM, para bem e para mal. A mesa foi composta por Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai) e Hugo Chávez (Venezuela), além de Stédile e outros dirigentes de movimentos sociais. Lula não foi convidado. Um segundo ato, realizado na noite do mesmo dia, em outro local de Belém, o reuniria aos seus colegas. As alegações pouco claras para a exclusão do brasileiro davam conta de que o tema em tela seria a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), proposta de integração regional, lançada pela Venezuela, da qual o Brasil não faz parte.
Fora da Alba
"Não convidamos o presidente Lula porque o Brasil está fora da Alba. Não se trata de um problema político ou de retaliação. Nós não fomos convidados para o ato de Lula com estes mesmos presidentes e compreendemos, porque o ato não incluiu os movimentos sociais. Assim como aqui não caberiam países fora da Alba", explicou ao portal Vermelho João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST. A CUT era uma das promotoras do ato noturno e, até onde consta, é um movimento social.
O curioso é que a proposta da Alba mereceu apenas menções laterais por parte dos oradores daquela tarde chuvosa e abafada. A causa principal para a exclusão parece ter sido a alegada paralisação dos projetos de assentamento para a reforma agrária ao longo do segundo governo Lula.
Tudo bem, não quer convidar, não convida. Mas é preciso ficar claro: realizar um ato em território brasileiro com quatro chefes de Estado estrangeiros, por mais afinados politicamente com estes que se possa ser, não tira de cena a péssima educação de quem patrocina o evento e a quebra de qualquer decoro diplomático do gesto. Presidentes de outros países não podem participar unilateralmente de audiências de qualquer ordem no interior de qualquer país sem a anuência da diplomacia local. Não são pessoas físicas, são representantes de outras nações. Inexiste demanda possível de ser atendida por eles que não passe pelos canais democráticos e institucionais nacionais.
"Frouxos"
Discursando em espanhol para uma platéia majoritariamente brasileira, ao final do ato, João Pedro Stédile citou os governos brasileiro e argentino como progressistas e integrantes de "um movimento histórico da América Latina de rompimento com o neoliberalismo na região". Se é assim, o sectarismo é maior. Mas o dirigente foi além e, após uma curta análise da situação regional, disse, entre outras coisas, o seguinte:
1. "Os governos que me perdoem, exponho o que pensam os movimentos. Vocês têm andando muito frouxos. Fazem suas reuniões aí, comentam algo de conjuntura, mas nós esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital. Nas próximas cúpulas regionais, convidem os movimentos de seus países", cobrou.
Quer dizer, Chávez que enfrentou e derrotou um golpe de Estado, Morales que venceu a direita separatista no processo constituinte, Correa que realiza uma auditoria de sua dívida pública e Lugo que mandou à lona uma ditadura de 60 anos do Partido Colorado não seriam mais do que "frouxos". Sensacional.
2. Comentando a reunião da Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC), realizada nos dia 16 e 17 de dezembro, na Costa do Sauípe, na Bahia, o dirigente Sem-terra declarou: "Todos os presidentes da América Latina estiveram lá e nada decidiram. Comeram bem, andaram na praia e nós na expectativa de mudanças". Hugo Chávez não passou recibo: "Eu não fui à praia". Em tom de brincadeira, Stédile corrigiu: "Alguns gordos não foram à praia".
O encontro na Bahia teve o caráter simbólico de se contrapor à OEA - que exclui Cuba e inclui os Estados Unidos - e buscar caminhos para uma maior integração continental. Cuba estava presente e os EUA não. Trata-se de um evento inédito e alentador, do ponto de vista político. Não se deve subestimar o acontecimento, que foi atacado sem dó pela grande mídia.
3. A certa altura, Stédile opinou que as eleições não resolvem os problemas da região. "Se fosse assim, a Itália estaria muito bem", disse ele. Curiosa lógica. Todos os mandatários latinoamericanos foram eleitos, reeleitos e referendados em seguidas consultas populares. Fazem parte de uma vaga eleitoral antiliberal. Se a democracia real não conseguiu resolver os problemas, as soluções devem ser buscadas nas combinações de demandas sociais com o alargamento dos espaços institucionais. O próprio Fórum Social Mundial não existiria se governos democráticos não tivessem sido eleitos e investido dinheiro e estrutura em iniciativas desse tipo.
O MST, sempre que se vê acuado em seus embates com a direita, solicita apoio de governos e parlamentares progressistas, eleitos pelo povo, o que é muito justo. Mudará de tática daqui por diante?
Anti-política
É bom lembrar que o discurso antieleitoral, pretensamente radical, esconde o fato de que as eleições diretas foram uma conquista democrática da sociedade. Estiveram no centro da maior mobilização de massas da história do Brasil, organizada por partidos e movimentos sociais. Falamos da campanha das Diretas Já, em 1984.
Os ataques à participação eleitoral têm por base a idéia de negação da atividade política e da prática partidária, que seriam espaço de uma mal denominada "institucionalidade burguesa". Os movimentos sociais seriam o haveria de mais avançado na sociedade. É preciso mediar as coisas.
Movimentos são por natureza organizações com reivindicações focadas em temas determinados, como terra, salário, direitos, água, etc. Em seu conjunto, podem fornecer as bases para a formação de um programa de ação abrangente e transformador. Isoladamente, buscam a satisfação de objetivos determinados. Equiparar sua atividade a de partidos, que buscam formular e articular projetos mais amplos é incorrer em comparações entre sujeitos de naturezas diversas entre si.
Os ataques da direita
O MST enfrenta hoje uma tentativa de isolamento social, promovida pelos meios de comunicação e pelo grande capital. No meio disso tudo, o governo Lula paralisa-se, subordinando-se à lógica do agronegócio voltado para exportação.
A expansão do capitalismo no campo coloca em xeque um tipo de reforma agrária produtivista, historicamente pleiteada pela esquerda brasileira. O latifúndio agora é agronegócio e não mais um anacronismo econômico. Tornou-se parte do pólo dinâmico de uma economia que se reprimariza. É uma modalidade que emprega poucos trabalhadores e os submete - especialmente aos da cana - a condições de trabalho extremamente precárias. Para completar o quadro, na área de grãos, o patenteamento de sementes geneticamente modificadas aumenta exponencialmente a produtividade da terra, tornando culturas de trigo e soja característica cada vez mais de lavouras extensivas e não de pequenas propriedades.
Embora, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, exista um aumento de recursos para o financiamento da agricultura familiar - modalidade em que se enquadra grande parte dos trabalhadores já assentados - os números de novos assentamentos estacionaram. Essa contradição, entre os que já têm terra e os que não tem, coloca o MST em uma encruzilhada. Assentados e acampados formam a base social do movimento. Um setor conta com mais recursos e outro vê suas esperanças de conquistar um lote serem reduzidas. Neste caminho difícil, o Movimento busca encontrar um norte. A luta pela terra no Brasil, tarefa de todos os que se batem pela justiça social, precisa ter este nó desatado o mais rápido possível.
Sem lugar
Uma lembrança final. O ato entre os movimentos sociais e os quatro presidentes, sem Lula, estava planejado para acontecer no Hangar, imenso centro de convenções da capital paraense. Quatro dias antes de sua realização, o governo do Estado comunicou ao MST que a cessão do espaço não seria possível. Na mesma noite aconteceria ali a cerimônia com os cinco mandatários, promovida pela CUT, pelo Ibase e pelo Instituto Paulo Freire.
Os dirigentes do movimento tentaram em vão obter o empréstimo de outro lugar que comportasse o número de pessoas previsto para a atividade. Em vão. Todos os locais fechados da capital paraense estavam com as agendas lotadas para o dia 29.
A saída foi buscar o auxílio do PSOL, que realizaria uma plenária sindical no ginásio da UEPA. O partido abreviou suas atividades, que iriam até o final do dia, e com isso, cerca de 1,2 mil ativistas de diversos movimentos puderam participar do encontro.
Um pedido foi feito pelo partido ao MST: que um representante seu pudesse saudar brevemente os presentes. Tudo foi acertado no dia anterior. Quando a atividade tem início, surpresa! O representante do PSOL é convidado a se retirar do palco. A explicação para a quebra do acordo foi do dirigente João Paulo Rodrigues: "É uma plenária de movimentos, na qual não cabem partidos". Pode ser, mas a boa educação não funciona bem assim.
Não é bom para a democracia brasileira e para a esquerda que dirigentes de uma organização com a respeitabilidade internacional do MST incorram em sectarismos de tal ordem. O movimento não vai alcançar seus objetivos sozinho, sem a luta política dos partidos populares, sem os o auxílio de governos progressistas e sem a ampliação de sua base de apoio, à esquerda e à direita.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Artigo publicado originalmente pela Agência Carta Maior - 5/2/09

Comentários (1)

Naomi Klein: ‘Todos eles devem sair’

"Ver as multidões na Islândia fazendo panelaço até que o seu governo fosse derrubado me lembrou de um canto popular dos círculos anticapitalistas em 2002: ‘Vocês são a Enron. Nós somos a Argentina’."

Por Naomi Klein, para o The Nation

A mensagem dele era bem simples. Vocês — políticos e CEOs reunidos em alguma reunião de cúpula sobre comércio — são como os executivos inconseqüentes e golpistas da Enron (obviamente, nós não sabíamos a metade disso).

Nós — a multidão aqui fora — somos como o povo da Argentina que, em meio a uma crise econômica estranhamente semelhante à nossa, foi para as ruas fazer panelaço. Eles gritavam, "Que se vayan todos!" ("Todos eles devem sair!") e derrubaram quatro presidentes em menos de três semanas.

O que tornou a revolta argentina de 2001/2002 única foi o fato de ela não ser dirigida a um determinado partido político e nem mesmo à corrupção de modo geral. O alvo foi o modelo econômico dominante — esta foi a primeira revolta nacional contra o capitalismo desregulamentado contemporâneo.

Demorou algum tempo, mas da Islândia à Letônia, da Coréia do Sul à Grécia, o resto do mundo está finalmente tendo o seu momento Per se Mayan toddies!

As estóicas matriarcas islandesas batendo suas panelas ao mesmo tempo em que seus filhos vasculham a geladeira à procura de projéteis (ovos, com certeza, mas iogurte?) imita a tática que se tornou famosa em Buenos Aires. O mesmo ocorre com a raiva coletiva contra as elites que arruinaram um país uma vez próspero e pensaram que podiam escapar impunes.

Como Garden Jonsdottir, um funcionário de escritório islandês de 36 anos, disse: "Estou farto de tudo isso. Eu não confio no governo, não confio nos bancos, não confio nos partidos políticos e não confio no FMI. Nós tínhamos um país bom e eles o arruinaram."

Outro eco: Em Reykjavik, capital da Islândia, os manifestantes claramente não se contentarão com uma simples mudança de rosto no poder (mesmo que a nova primeira-ministra seja lésbica). Eles querem ajuda para as pessoas, não apenas para os bancos; investigações criminais sobre o colapso e uma profunda reforma eleitoral.

Reivindicações semelhantes podem ser ouvidas atualmente na Letônia, cuja economia se contraiu mais acentuadamente do que em qualquer país da União Européia, e onde o governo está balançando à beira do abismo. Há semanas a capital vem sendo agitada por protestos, incluindo um tumulto completo com direito a arremesso de pedras em 13 de janeiro.

Tal como na Islândia, os letões estão estarrecidos com a recusa de seus líderes em assumir qualquer responsabilidade pela bagunça. Questionado pela TV Bloomberg sobre o que causou a crise, o ministro das finanças da Letônia deu de ombros: "Nada de especial."

Mas os problemas da Letônia são mesmo especiais: As mesmas políticas que permitiram que o "Tigre Báltico" crescesse a uma taxa de 12% em 2006 também estão fazendo com que o país se contraia violentamente a um crescimento estimado de 10% este ano.

O dinheiro, livre de todas as barreiras, sai tão rapidamente quanto entra, com grande parte dele sendo desviada para os bolsos políticos. (Não é coincidência que muitos dos países com graves problemas econômicos e sociais de hoje sejam os "milagres" de ontem: Irlanda, Estônia, Islândia, Letônia).

Algo mais "argentinesco" está no ar. Em 2001, os líderes da Argentina responderam à crise com um brutal pacote para redução de gastos governamentais determinado pelo Fundo Monetário Internacional: US$ 9 bilhões em redução de despesas, sendo que grande parte dessa redução atingiu a saúde e a educação. Isso se revelou um erro fatal. Os sindicatos fizeram uma greve geral, os professores deram aula nas ruas e os protestos jamais cessaram.

Esta mesma recusa de baixo para cima a suportar o peso da crise une muitos dos protestos de hoje. Na Letônia, grande parte da raiva popular se concentrou nas medidas do governo para redução de despesas — demissões em massa, redução de serviços sociais e cortes drásticos nos salários do setor público — tudo isso para ter direito a um empréstimo de emergência do FMI (não, nada mudou).

Na Grécia, os tumultos de dezembro aconteceram depois que a polícia baleou um jovem de 15 anos. Mas o que tem mantido a revolta acesa, com os agricultores tomando a liderança dos estudantes, é a raiva generalizada com relação à resposta do governo à crise.

Os bancos obtiveram um resgate financeiro de US$ 36 bilhões enquanto os trabalhadores tiveram suas aposentadorias cortadas e os agricultores não receberam quase nada.

Apesar dos transtornos causados pelos tratores bloqueando as estradas, 78% dos gregos dizem que as reivindicações dos agricultores são razoáveis. Da mesma forma, na França, a recente greve geral, desencadeada em parte pelos planos do Presidente Sarkozy de reduzir drasticamente o número de professores, inspirou o apoio de 70% da população.

Talvez o fio mais forte conectando a esta reação mundial seja uma rejeição da lógica da "política extraordinária" — a expressão cunhada pelo político polonês Leszek Balcerowicz para descrever como, em uma crise, os políticos podem ignorar as regras legislativas e fazer às pressas "reformas" impopulares.

Esse truque está ficando desgastado, como o governo da Coréia do Sul descobriu recentemente. Em dezembro, o partido dominante tentou usar a crise para forçar a aceitação de um acordo de livre-comércio altamente controverso com os Estados Unidos.

Levando a política a portas fechadas para novos extremos, os legisladores se trancaram na Câmara para que pudessem votar secretamente, bloqueando a porta com mesas, cadeiras e sofás.

Os políticos da oposição não toleraram isso. Com marretas e uma serra elétrica, eles entraram à força e fizeram um protesto de 12 dias no Parlamento ocupando o local e recusando-se a sair. A votação foi adiada, permitindo mais debates — uma vitória para um novo tipo de "política extraordinária".

Aqui no Canadá, a política é nitidamente menos adaptável ao YouTube — mas mesmo assim ela tem sido surpreendentemente cheia de acontecimentos. Em outubro, o Partido Conservador ganhou as eleições nacionais com uma plataforma despretensiosa.

Seis semanas depois, o nosso primeiro-ministro conservador encontrou seu ideólogo interior, apresentando um projeto de lei orçamentária que tirou dos trabalhadores do setor público o direito à greve, cancelou o financiamento público para os partidos políticos e que não continha nenhum estímulo econômico.

Os partidos de oposição responderam formando uma coalizão histórica que somente foi impedida de tomar o poder por uma suspensão abrupta do Parlamento. Os conservadores acabaram de voltar com um orçamento revisto: As políticas de direita favoritas desapareceram e ele está repleto de estímulo econômico.

O padrão é claro: os governos que respondem a uma crise criada pela ideologia do livre mercado com uma aceleração daquela mesma agenda desacreditada não sobreviverão para contar a história. Tal como os estudantes italianos gritaram nas ruas: "Nós não vamos pagar pela sua crise!"

Comentários

Carta Capital e o país de Pinocchio

POLÊMICA

Os artigos de Mino Carta e Walter Maierovitch, contra o refúgio a Cesare Battisti, ferem a tradição da revista que os publica. Como textos jornalísticos, são desinformados e omissos. Politicamente, sugerem que todos podem rever suas posições – exceto os revolucionários italianos dos anos 1970

Giuseppe Cocco

(06/02/2009)

No Brasil, as vivas polêmicas suscitadas pelo caso Cesare Battisti foram e são atravessadas por dois grandes vieses. Obviamente, um deles tem origem na Itália. O outro, só um pouco menos óbvio, é fato da conjuntura política brasileira.

A violenta reação da classe política italiana à decisão brasileira de conceder “refúgio” a Battisti tem dois determinantes. O primeiro diz respeito à composição fortemente reacionária do atual Executivo, presidido por Silvio Berlusconi. Se o berlusconiano ministro do exterior, Franco Frattini, chamou de volta o embaixador, foram os pós-fascistas a ameaçar com a suspensão do amistoso de futebol entre Brasil e Itália; e um deputado da "Lega Nord" a declarar que o Brasil é conhecido por suas dançarinas e não por seus juristas.

O segundo determinante diz respeito à composição da classe política italiana, considerada em conjunto. Apesar de seu pouco peso (o regime italiano é parlamentar, e quem “manda” é o primeiro-ministro), até o presidente italiano, o pós-comunista Giorgio Napolitano, protestou veementemente e de maneira deselegante, em carta aberta ao presidente brasileiro.

A cobertura da grande mídia brasileira não traz nenhuma novidade. Quando se trata de Bolívia e Equador, ela prega firmeza e critica a postura conciliatória do governo brasileiro. Quando se trata de Itália, ela repercute (e dá legitimidade) à pressão italiana, sem nenhuma preocupação com a firmeza “nacional” que prega nos outros casos. A elite é isso mesmo: “forte com os fracos e fraca com os fortes”!

Mas, há uma segunda vertente de críticas à decisão brasileira no caso Battisti: trata-se das colunas de Mino Carta, o editor-proprietário de Carta Capital,e de um magistrado, ex-chefe da repressão ao narcotráfico (sob FHC) que publica colunas no mesmo semanário. Na realidade, a atitude de Mino e Walter Maierovitch flerta com a histeria da direita anti-Lula e mancha a postura de independência editorial que Carta Capital ostentar. Há dois traços específicos nessa segunda vertente.

Em primeiro lugar, Mino Carta e Walter Maierovitch pretendem-se inseridos no cenário político brasileiro nacional, no campo progressista, até de centro-esquerda. Em segundo lugar, ambos apresentam-se como profundos conhecedores da realidade italiana — sabe-se lá se por suas origens familiares, ou por algum outro critério pessoal indecifrável. E é assim que se lê, na Cartado Mino (de 28 de janeiro de 2009 ) que “o ministro Tarso Genro expõe ignorância em relação à história recente da Itália”.

Por que esse tratamento desigual, em artigo de jornalista tão bem informado? Será que Mino não sabia como resolver a incongruência dessa unanimidade entre “comunistas” e “fascistas”? O jornalista omitiu um fato que atrapalhava sua coreografia

As colunas desses dois autores atacam a decisão de Tarso com argumentações supostamente mais rigorosas no plano histórico, jurídico e político. Muitos, na esquerda, ficaram perplexos com o que leram essa semana. fato é que aqui se viu uma interpretação reacionária à brasileira do balé reacionário encenado por praticamente toda a classe política italiana. Em outro site, Walter chega a formulações de bem baixo nível, que deixamos que o leitor avalie: “Caso Battisti: Tarso Genro protagoniza tragicomédia e vai do masturbador a Bobbio”.

Mas em italiano existe uma frase bem adequada ao paradoxo aparente dessa situação: non tutto il male vien per nuocere –nem todo o mal vem (só) para o mal! A postura dos dois colunistas nesse caso é uma boa ocasião para ver, por um lado, que, nesse caso, seu jornalismo não é tão independente como eles desejariam que fosse; por outro, que eles são incapazes de apreender as dimensões políticas dos processo sociais e de seus conflitos.

Grosso modo, Mino mobiliza três argumentos.

Um, geral, que diz muito sobre sua visão dos problemas do Brasil: trata-se de um país que deve firmar-se em nível internacional – ou seja, ser sério, nos termos dos palpiteiros que decidem sobre "níveis de risco".

Assim, para Mino, o que pensa The Economistconstituiria alguma espécie de Magna Carta – ou seja uma Carta Capital… decisão sobre Battisti é ruim, diz ele, também porque The Economistnão gostou. Para Mino o Brasil ainda seria uma criança que “vive em estado de ignorância”.

O segundo argumento mobiliza um método jornalístico estranho. Afirmando-se como especialista dos detalhes da vida política italiana e de sua história, Mino elogia a carta aberta enviada a Lula pelo presidente italiano – o “comunista” (diz ele) Giorgio Napolitano. Mino não chama de pós ou de ex-comunistas os membros do Partido Democrático (para onde convergiram os ex-membros do PDS (antes Partido Comunista Italiano) e os ex-membros da Democrazia Cristiana, DC). Tudo bem: até aí, nada de grave.

Mas logo depois, Mino fala de uma outra carta, dessa vez enviada pelo presidente da Camera dei Deputati , Gianfranco Fini, a seu homólogo Arlindo Chinaglia. Ora, no Brasil, todo mundo sabe que Chinaglia é do PT. Mas ninguém sabe de que partido é Fini. Se usamos o mesmo critério pelo qual Mino apresentou Napolitano ("comunista"), Fini tem de ser apresentado como "fascista": é dirigente do partido (MSI) criado pelos sobreviventes do regime mussoliniano no imediato pós-guerra. Partido que, recentemente, se transformou em "Alleanza Nazionale". Diante disso, o que pensar?

Por que esse tratamento desigual, em artigo de jornalista tão bem informado? Será que Mino não sabia como resolver a incongruência dessa unanimidade entre “comunistas” e “fascistas”? O nariz de Pinocchio não cresceu. O jornalista não escreveu uma mentira.

Simplesmente omitiu o fato que atrapalhava sua coreografia. E isso depois de anunciar que, “como recomendaria Hannah Arendt, vamos à verdade factual”(sic). Ou ignorância da situação italiana, ou por ter-se atrapalhado com tantos malabarismos jornalísticos, Mino surrupia ao leitor um elemento importante: o drama da classe política italiana está justamente no fato de que comunistas e fascistas têm idêntica opinião sobre os anos 1970, sobre o Brasil de hoje e sobre várias outras coisas. Pobre Hannah Arendt, condenada à revelia a nos ensinar esse tipo de “verdade”.

Ninguém aqui pretende mobilizar Gramsci em prol de Battisti. Mas o que pensaria o filósofo sobre o apoio dos ex-comunistas italianos às guerras do Afeganistão e do Kosovo; ou sobre direita e esquerda italianas estarem hoje unidas numa furiosa discriminação dos imigrantes?

A “verdade” que Mino noticia nada é além da “verdade” de todos os ex-comunistas e ex-fascistas que negam aos militantes revolucionários dos anos 1970 a possibilidade de, hoje, quase 40 anos depois, serem diferentes do que foram. Por que tantos são hoje “pós”… e os militantes revolucionários daquela época não podem ser?

Por que, em outro parágrafo, falar do fato de que o advogado de Battisti defende também Dantas, e não lembrar que o mesmo advogado defendeu também o MST? MST que assinou manifesto em favor de Battisti e ocupa oito páginas do mesmo número do semanário? Por que quando fala do Tortura Nunca Mais pelo avesso que haveria na Itália, não citar o detalhe de que o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro apoiou a decisão do Ministro Tarso?

No mesmo numero do semanário, Walter começa sua coluna falando de Gramsci morto na prisão, por mãos dos fascistas. Não faz a pergunta indispensável: o que pensaria o pobre Gramsci, se visse uma situação na qual pós-comunistas e pós-fascistas andam juntinhos?

Não: ninguém aqui pretende mobilizar Gramsci em prol de Battisti. Mas haveria boa coluna a escrever, sim, sobre o que pensaria Gramsci a respeito de dois votos dos ex-comunistas italianos: a favor da guerra do Afeganistão e da guerra Kosovo. E o que pensaria ele sobre direita e esquerda italianas estarem hoje unidas numa furiosa discriminação dos imigrantes estrangeiros? E sobre a imposição das bases militares dos EUA em Vicenza, algo que a população daquela cidade rejeitou em plebiscito legal (e estamos falando de 2008!) e que direita e esquerda italianas aprovaram? E o que pensaria Gramsci sobre o ex-comunista Walter Veltroni, líder do “Partido Democratico”, que, quando prefeito de Roma, ante um fato de delinqüência sexual praticado por um grupo de imigrantes romenos, clamou por punição coletiva, étnica, para todos os “roms” (quer dizer, todos os ciganos)?

Mino e Walter falam da volta do “Febeapá do Lalau” e se pretendem conhecedores finos da realidade italiana. Walter nos explica que as leis especiais de repressão da luta armada não eram “de exceção” mas de “emergência” – sutileza equivalente ao requinte busheano de chamar a tortura praticada em Guantanamo de “novos métodos de interrogatório”. E então vem Mino e nos diz que “a Itália (…) não alterou uma única, escassa vírgula da sua Constituição para combater o terrorismo”.

Difícil supor que Mino não saiba que a Constituição italiana co-habitou por muito tempo não apenas com a máfia e a corrupção, mas, sobretudo, com o "Códice Rocco" – que leva o nome do jurista fascista que o redigiu durante o período mussoliniano. Assim também, as relações entre Estado e Igreja continuaram sob o marco do também mussoliniano “concordato”, sem que a Constituição representasse obstáculo a qualquer daquelas legislações fascistas. Até a discriminação atual dos imigrantes é constitucional.

A Itália inteira sabe: a explosão de Piazza Fontana, em 1969, foi o primeiro de uma série de atentados cometidos por fascistas ou agentes de Estado ligados à Gladio (uma organização paralela à OTAN), como parte da strategia della tensione

Walter afirma-se profundo conhecedor da vida política italiana e escreve: پg[na Itália] o terror começou em dezembro de 1969 com a explosão de Piazza Fontanaپh. Não. A Itália inteira sabe que esse atentado, conhecido como strage di Stato (massacre praticado pelo Estado), está na base da chamada strategia della tensione – uma série de atentados (nos trens, em manifestação em Brescia, na estação de trens de Bologna) cometidos por fascistas ou agentes do Estado ligados a uma organização paralela da OTAN, chamada "Gladio", dirigida por Licio Gelli entre outros.

O que fez a Itália supostamente democrática dos anos 1970 – a Itália do tão elogiado presidente Pertini – para salvar as centenas de italianos e milhares de descendentes de italianos que eram torturados e exterminados na Argentina? Será que a seleção nacional italiana se recusou a jogar o mundial argentino por causa disso? Será que Walter sabe nos dar alguma resposta?

A Itália dos anos 1960 e dos anos 1970 era assim: políticos da Democrazia Cristianamisturados com mafiosos, generais golpistas, logiasmaçônicas, bancos do Vaticano e bombas cegas destinadas a ameaçar o movimento operário e estudantil. Afirmação política que chegou à imortalidade na peça de teatro “Morte acidental de um anarquista” de Dario Fo, Pêmio Nobel literatura. É essa verdade política nossos dançarinos optaram por não revelar a seus leitores.

O primeiro ato violento (armado) da esquerda foi – em 1972 – o homicídio do Delegado Calabresi, acusado de ter defenestrado o anarquista Pinelli para acusar o movimento desse horror. O intelectual Adriano Sofri, na época dirigente do grupo "Lotta Continua" (que tinha 20 mil militantes e publicou ao longo da década um jornal quotidiano do mesmo nome), está pagando, com longos anos de prisão, uma condenação por responsabilidade moral nesse assassinato. E isso não é político? E Feltrinelli, editor, homem de esquerda e amigo pessoal de Fidel Castro, que morreu também em 1972, tentando sabotar uma torre de energia para tentar acordar os grupos de resistência contra as ameaças fascistas? Feltrinelli foi criminoso comum?

Essa verdade política estava na rua, nas manifestações de milhões de italianos ao longo de toda a década. O Estado italiano nunca desvelou as conspirações e cumplicidades que o ligaram à estratégia da desestabilização strategia della tensione. Aliás… por que os ministros italianos fascistas não mandam chamar de volta o embaixador italiano no Japão, para conseguir prender, afinal, um dos acusados por vários atentados?

Mino e Walter não lembram do clima daqueles anos? O golpe militar contra Allende (em 1973), o esmagamento da revolta dos estudantes gregos pelos tanques não teria tido, para eles, nenhum impacto nos movimentos de toda a Europa? Não eram pequenos grupos. Eram manifestações oceânicas, sistemáticas e repetidas, manifestações de rua que diziam: Grecia, Chile: mai piú senza fucile[Grécia, Chile, nunca mais sem fuzil]. O próprio compromisso histórico não foi, pelo menos em parte, fruto do veto norte-americano à chegada ao poder do Partido Comunista Italiano? Para não falar de Ustica: será que Mino e Walter ouviram falar de Ustica?

Se sim, como justificam que o Estado italiano tenha acobertado todos os elementos que indicavam que o avião foi derrubado por um míssil, em acidente que matou 81 pessoas? Por que a Itália nunca chamou o embaixador dos Estados Unidos, quando Washington retirou clandestinamente de território italiano os pilotos militares que derrubaram a cabine de um teleférico (“bondinho”), matando 20 italianos? Por que não se romperam relações diplomáticas com os Estados Unidos quando norte-americanos metralharam um carro do serviço secreto italiano, cujos ocupantes participavam de uma operação de libertação de uma refém em Bagdá, matando um agente italiano e ferindo a refém?

Para além de seus graves erros políticos, na Itália como no mundo todo, o ciclo revolucionário da década de 1970 está presente – inclusive nos governos democráticos de América do Sul. A decisão do ministro Tarso é uma dessas dinâmicas radicalmente democráticas

Por que as mortes ligadas a Battisti seriam mais pesadas de todas as outras? Não é problema de justiça, ainda menos de moral. Trata-se afirmar uma razão de Estado.

A Itália quer afirmar sua razão de Estado como a única, para que ninguém ouse mais contestá-la. Mino e Walter dançam por essa música.

Chegamos assim à terceira argumentação. Mino e Walter tentam demonstrar tecnicamente que Battisti seria delinquente comum. Usando magistralmente os relatórios de polícia (que, diga-se de passagem, denominava-se na época"polícia política"; passando depois a ser designada por uma sigla, DIGOS), Mino e Walter dizem que Battisti teria sido recrutado pelas organizações armadas, depois de ter sido preso por crimes comuns.

Aí, Mino e Walter têm de se decidir, uma coisa ou outra: se na Itália daquela época não havia crimes políticos… quando ter-se-ia dado a mágica de se transformar o crime de Battisti, de crime comum em crime político? Por que os relatórios de polícia tanto se empenhariam para estabelecer o momento e a forma de sua “politização”?

O fato é que Mino e Walter estão constrangidos numa visão da história que – por mais crítica que por vezes seja à histeria anti-Lula da elite brasileira, não tem nenhuma dimensão política. Além disso, tampouco têm capacidade de apreender o papel constituinte das lutas sociais, inclusive quando são violentas.

Será preciso lembrar a Constituição dos Estados Unidos que prevê o direito à revolta contra o poder constituído? Thomas Jefferson, agora, mais um perigoso terrorista?

Bem mais recentemente, em seu discurso sobre a questão do racismo, o atual presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, não reivindicou explicitamente as lutas dos negros, inclusive das revoltas violentas? Não tentou a direita republicana usar contra ele sua relação com um antigo militante dos weathermen(movimento de guerrilha contra a guerra do Vietnam)?

Battisti – e, com ele centenas de milhares de jovens operários, estudantes, desempregados na Itália dos 1970 – participou de um movimento revolucionário, que atacava as bases do sistema de acumulação capitalista e alimentou, até meados dos anos 1970, um processo de libertação que a normalização pós-comunista e pós-fascista ainda não zerou.

Sim, os operários italianos lutavam contra a ordem fabril e contestavam a constituição italiana “fundada sobre o trabalho” — ou seja, sobre a exploração do trabalho. Sim, os novos movimentos contestavam a sociedade disciplinar como um todo e construíram a base da abolição dos hospitais psiquiátricos, das lutas pela democratização das prisões, contra o serviço militar autoritário, pela universalização do acesso horizontal ao ensino superior, pela habitação popular e a gratuidade dos serviços. Essas lutas conquistaram o direito ao divórcio, os direitos das mulheres ao aborto e até as vitórias do Partido Comunista nas eleições municipais de 1975.

Depois, as mesmas lutas foram derrotadas pela espiral dos massacres perpetrados pelo Estado e das respostas armadas que militarizavam o movimento. A repressão desse movimento, pela qual optou a esquerda institucional (por meio do “compromisso histórico”, ou seja, a conciliação com o histórico partido de poder, a Democrazia Cristiana), não significou apenas a derrota do movimento: significou a derrota da própria esquerda.

Um ano depois da grande operação política de repressão do dia 7 de abril de 1979, a Fiat demitiu dezenas de milhares de operários e embarcou na contra-revolução neoliberal que se tornaria hegemônica mundialmente. Resultado: a esquerda institucional italiana não existe mais!

Os pobres que lutam todos os dias – renovando os princípios éticos, ou constituintes, dos direitos e do direito – entendem muito bem que, para além do graves erros políticos da década de 1970, na Itália como no mundo todo, aquele ciclo revolucionário está presente. Inclusive, e sobretudo, nos governos democráticos de América do Sul, nas dinâmicas de radicalização democrática que os atravessam. A decisão do ministro Tarso é uma dessas dinâmicas radicalmente democráticas.

Le Monde Diplomatique

Comentários

Emprego na indústria registra a maior queda desde 2001

O IBGE divulgou hoje seu relatório de informações sobre o nível de emprego e salário na indústria no mês de dezembro, os dados vão na mesma direção de outros índices sobre a atividade econômica, ou seja, revelam a intensidade da crise, o que, seguindo a tendência, deve ter piorado em janeiro. Veja abaixo matéria sobre o informe do IBGE publicada pela Folha Online e o comunicado do próprio IBGE.

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio

Atualizado às 9h53

O nível de emprego na indústria seguiu o ritmo da produção e caiu pelo terceiro mês consecutivo. Em dezembro, houve variação negativa de 1,8%, na comparação com o mês anterior, informou nesta segunda-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Trata-se da maior retração observada desde 2001, quando a série histórica foi iniciada. Em novembro, na mesma base de comparação, a queda havia sido de 0,6%.

Em relação a igual período do ano passado, houve queda de 1,1%. Essa retração interrompeu uma série de 29 resultados positivos nessa relação. Foi o menor resultado desde janeiro de 2004, quando o empego na indústria havia recuado 1,2%.

Ao longo de 2008, o IBGE verificou crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior. De janeiro a setembro, antes do agravamento da crise mundial, a expansão do emprego industrial havia chegado a 2,7%. No último trimestre de 2008, houve variação negativa de 1,1% na com paração com o trimestre imediatamente anterior, interrompendo série de dez trimestres com variações positivas.

O valor da folha de pagamento dos trabalhadores da indústria registrou também a terceira contração consecutiva, com queda de 0,7 % em dezembro, na comparação com o mês anterior. Em relação a dezembro de 2007, houve incremento de 4,1%, 36ª alta consecutiva. Em 2008, a folha de pagamento na indústria avançou 6%.

O IBGE indicou que, na comparação com dezembro de 2007, houve diminuição dos postos de trabalho em nove dos 18 setores pesquisados. Entre as 14 regiões avaliadas, houve queda em 11 locais, com destaque para Santa Catarina (-3,2%), Paraná (-3,1%), Região Nordeste (-2%) e São Paulo (-0,8%). Foi a primeira queda nesse indicador, na indústria paulista, desde abril de 2004.

Em Sâo Paulo e em Santa Catarina, o destaque negativo ficou por conta do setor de vestuário, com retrações de 11,3% e 14,2%, respectivamente. No Paraná, o nível de emprego na indústria madeireira caiu 21% em relação a dezembro de 2007.

No resultado fechado de 2008, o IBGE observou crescimento em 12 dos 18 ramos e em 11 dos 14 locais pesquisados. As principais influências no ano vieram de São Paulo (3%) e Minas Gerais (4,2%).

Entre os setores, destacaram-se máquinas e equipamentos (10,4%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (10,6%) e meios de transporte (8,5%).

Em relação a dezembro de 2007, o ganho salarial na indústria foi constatado em 12 das 14 áreas avaliadas, com destaque para São Paulo (6%), Paraná (5,4%) e Minas Gerais (4,1%).

A folha de pagamento real cresceu em 15 dos 18 ramos investigados, na comparação com dezembro de 2007. Os maiores impactos positivos vieram de meios de transporte (10,5%), produtos de metal (10,2%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (7,1%).

Ao mesmo tempo, foram constatadas quedas na folha de pagamento dos setores de vestuário (14%) e madeira (-9,9%), na comparação com dezembro de 2007.

O número de horas pagas na indústria caiu 1,7% em relação ao mês anterior. A retração foi semelhante ao que havia sido verificado em novembro, quando foi notada a, maior queda desde o início da série histórica.

Em relação a dezembro de 2007 apresentou recuo de 1,8% em dezembro, menor taxa desde dezembro de 2003, cuja retração chegara a 1,9%.

Folha Online - Dinheiro - 9/2/09

Em dezembro, emprego industrial recuou 1,8%

Comunidado: IBGE

Foi a maior queda na comparação com o mês imediatamente anterior (com ajuste sazonal) desde o início da série, em 2001. Confrontado com dezembro/07, o indicador registrou a primeira taxa negativa (- 1,1%) após 29 meses consecutivos de expansão. Contudo, no acumulado no ano, o resultado ficou positivo (2,1%). Em 2008, o número de horas pagas cresceu 1,9%, mas recuou tanto na comparação com o mês imediatamente anterior (- 1,7%) - série ajustada - como também frente a dezembro/07 (- 1,8%, a menor taxa em cinco anos). A folha de pagamento real fechou o ano de 2008 com ganho de 6,0%, mas recuou 0,7% no confronto com novembro/08 (série ajustada), assinalando, na comparação com dezembro/07, a 36a alta (4,1%) consecutiva.

PESSOAL OCUPADO ASSALARIADO

Em dezembro de 2008, na série livre de influências sazonais, o emprego na indústria recuou 1,8% em relação a novembro, maior retração observada na série histórica com início em 2001. Esse resultado foi o terceiro negativo consecutivo, período em que acumulou perda de 2,5%. Com isso, o índice de média móvel trimestral em dezembro (-0,8%) acentuou o ritmo de queda frente ao mês anterior (-0,2%).

No confronto com dezembro de 2007, o pessoal ocupado registrou a primeira taxa negativa (-1,1%), interrompendo uma sequência de 29 meses de crescimento, com o menor resultado desde janeiro de 2004 (-1,2%). O indicador para o fechamento do ano ficou em 2,1%, abaixo do resultado acumulado até setembro (2,7%), antes da alteração no cenário econômico mundial. Na análise trimestral, o quarto trimestre de 2008 registrou variação positiva de 0,3% frente a igual período de 2007, mas na comparação com o trimestre imediatamente anterior - série ajustada sazonalmente - recuou 1,1%, interrompendo uma série de dez trimestres de expansão nessa comparação.

No indicador mensal, o contingente de trabalhadores foi 1,1% menor do que em dezembro de 2007, com redução em onze dos quatorze locais e em nove dos dezoito ramos pesquisados. São Paulo (-0,8%), Santa Catarina (-3,2%), Paraná (-3,1%) e região Nordeste (-2,0%) exerceram as pressões negativas mais significativas no total do país. Nesses Estados, os segmentos que mais contribuíram para a redução do emprego foram: vestuário (-11,3% e -14,2% nas indústrias paulista e catarinense, respectivamente); madeira (-21,0%) na indústria paranaense; e têxtil (-8,3%) na indústria nordestina. Vale destacar que São Paulo, que responde por aproximadamente 35,0% do emprego industrial, não mostrava queda nesse indicador desde abril de 2004 (-0,8%). Neste local, os setores de meios de transporte, máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações e máquinas e equipamentos, que vinham liderando o crescimento nacional até setembro, apontaram clara redução no ritmo de expansão frente aos resultados de meses anteriores. Em termos setoriais, no total do país, os principais destaques negativos na média global foram vestuário (-8,4%), calçados e artigos de couro (-8,7%) e madeira (-11,9%).

Em bases trimestrais, o emprego industrial vem sustentando resultados positivos há dez trimestres consecutivos, com desaceleração na passagem do terceiro (2,5%) para o quarto trimestre (0,3%), ambas comparações contra igual período do ano anterior. A perda de dinamismo observada entre esses dois períodos atingiu a maioria dos locais (11 dos 14) e dos setores (16 dos 18). No corte setorial, as perdas mais significativas, entre julho-setembro e outubro-dezembro, foram as de máquinas e equipamentos, que passou de 10,9% para 5,8%; produtos químicos (de 9,4% para 1,4%), meios de transporte (de 8,7% para 4,1%) e máquinas e aparelhos de comunicações (de 11,1% para 5,8%). Entre os locais, os destaques foram: São Paulo (de 3,1% para 0,5%), Minas Gerais (de 6,1% para 3,0%), Paraná (de 1,1% para -1,6%) e Rio Grande do Sul (de 3,1% para 0,8%).

No índice para o fechamento do ano de 2008, o contingente de trabalhadores registrou expansão de 2,1%, praticamente repetindo o resultado de 2007 (2,2%), com destaque para as contribuições positivas de onze locais e de doze ramos. São Paulo (3,0%), Minas Gerais (4,2%), região Norte e Centro-Oeste (2,6%) e Rio Grande do Sul (2,1%) exerceram as influências mais relevantes sobre a taxa geral. A liderança na média global, em termos setoriais, ficou com máquinas e equipamentos (10,4%), meios de transporte (8,5%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (10,6%) e alimentos e bebidas (2,3%). Vale destacar que os três primeiros setores citados mostraram clara perda de ritmo frente ao acumulado no ano até setembro, influenciados pela desaceleração que se deu de forma mais acentuada no último trimestre do ano. Em sentido contrário, calçados e artigos de couro (-8,7%), vestuário (-6,1%) e madeira (-8,7%) permaneceram apontando os principais recuos de 2008 e, entre os locais, Santa Catarina (-1,4%), Pernambuco (-0,9%) e Espírito Santo (-0,4%).

NÚMERO DE HORAS PAGAS

O número de horas pagas aos trabalhadores da indústria, em dezembro, recuou 1,7% pelo segundo mês consecutivo, no confronto com o mês imediatamente anterior, na série livre dos efeitos sazonais. Com isso, o indicador de média móvel trimestral que, em outubro, interrompeu a trajetória de crescimento presente há quatro meses e assinalou -0,4% em novembro, intensificou o movimento de queda em dezembro (-1,2%). Ainda na série com ajuste sazonal, no confronto com o trimestre imediatamente anterior, o quarto trimestre de 2008 mostrou redução de 1,7%, após aumento de 0,9% no período anterior.

No confronto com igual mês do ano anterior, o número de horas pagas recuou 1,8% em dezembro, menor taxa desde dezembro de 2003 (-1,9%). Com isso, o indicador acumulado em 2008 ficou em 1,9%. Na análise trimestral, os últimos três meses do ano apontaram variação negativa de 0,2% frente a igual período do ano anterior.

Na comparação com dezembro de 2007, o número de horas pagas caiu 1,8%, com decréscimo em onze dos quatorze locais e onze dos dezoito ramos pesquisados. Em termos setoriais, as principais contribuições negativas vieram de vestuário (-8,7%), madeira (-11,5%) e têxtil (-7,8%). Em sentido contrário, minerais não-metálicos (6,2%), refino de petróleo e produção de álcool (12,3%) e metalurgia básica (4,3%) exerceram as pressões positivas mais importantes. Vale destacar que os setores de máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-3,0%), meios de transporte (-1,2%) e máquinas e equipamentos (0,7%), que vinham liderando em termos de magnitude de crescimento, mostraram clara desaceleração no número de horas pagas frente aos resultados de setembro e outubro.

Ainda no indicador mensal, os locais que assinalaram os maiores impactos negativos no resultado nacional foram: São Paulo (-1,4%), Paraná (-3,8%) e região Norte e Centro-Oeste (-3,5%). No primeiro, oito segmentos reduziram o número de horas pagas, com destaque para borracha e plástico (-11,1%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (-8,4%). Na indústria paranaense, madeira (-23,7%) e vestuário (-19,4%) exerceram as maiores influências negativas, assim como na região Norte e Centro-Oeste (respectivamente, -17,6% e -13,9%).

Na análise trimestral, com a variação de -0,2% no período outubro-dezembro, o número de horas pagas interrompeu sequência de onze trimestres consecutivos de taxas positivas. Entre o terceiro (2,5%) e o quarto (-0,2%) trimestre de 2008, ambas comparações contra igual trimestre do ano anterior, os quatorze locais e dezessete atividades apontaram perdas entre os dois períodos. Entre os setores, os destaques ficaram com máquinas e equipamentos (de 12,3% para 5,4%), meios de transporte (de 9,4% para 2,7%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (de 10,3% para 1,2%), enquanto entre os locais sobressaíram Minas Gerais (de 6,8% para 3,0%) e São Paulo (de 3,2% para 0,0%).

O indicador acumulado no ano cresceu 1,9% em 2008, praticamente repetindo o resultado observado em 2007 (1,8%). Onze locais aumentaram o número de horas pagas nesta comparação, com destaque para São Paulo (2,8%), Minas Gerais (4,6%) e região Norte e Centro-Oeste (2,5%). No corte setorial, doze segmentos apontaram expansão no número de horas pagas, com as seguintes contribuições mais relevantes: máquinas e equipamentos (11,0%), meios de transporte (8,9%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (8,4%). Por outro lado, as pressões negativas mais significativas foram exercidas por calçados e artigos de couro (-9,2%) e vestuário (-6,1%), entre os ramos, e por Santa Catarina (-0,9%) e Pernambuco (-2,1%), entre as áreas pesquisadas.

Em síntese, a mudança do quadro macroeconômico a partir de setembro teve impactos negativos sobre a atividade industrial e, consequentemente, sobre o número de horas pagas e o emprego. A desaceleração nestes indicadores ficou evidente nas comparações mensal e trimestrais, com reflexos no fechamento do ano. Outro sinal de menor dinamismo foi observado nas comparações livres de influências sazonais, onde o emprego e o número de horas pagas mostraram, pelo terceiro mês consecutivo, taxas negativas frente ao mês anterior, o que levou a comparação com o trimestre imediatamente anterior a apontar recuos recordes para as duas variáveis (-1,1% no pessoal ocupado e -1,7% no número de horas pagas).

FOLHA DE PAGAMENTO REAL

Em dezembro, o valor da folha de pagamento real dos trabalhadores da indústria ajustado sazonalmente recuou 0,7% em relação ao mês imediatamente anterior, assinalando a terceira taxa negativa consecutiva, acumulando uma perda de 3,6%. Com estes resultados, o indicador de média móvel trimestral decresceu 1,2% entre novembro e dezembro, após virtual estabilidade (-0,1%) no mês anterior. Ainda na série com ajuste sazonal, no índice trimestre contra trimestre imediatamente anterior, o valor da folha de pagamento real apontou queda de 0,7% no último trimestre do ano, interrompendo dez trimestres consecutivos de taxas positivas.

Nos confrontos com iguais períodos do ano anterior, os resultados continuaram positivos: 4,1% no indicador mensal, 4,3% no quarto trimestre e 6,0% no acumulado no ano.

O indicador mensal da folha de pagamento real cresceu 4,1%, assinalando a trigésima terceira taxa positiva consecutiva. Para este resultado contribuíram doze dos quatorze locais pesquisados, cabendo a São Paulo (6,0%) a maior pressão positiva, em função, principalmente, de meios de transporte (8,3%), máquinas e equipamentos (8,2%) e produtos de metal (14,4%). Em seguida, vale citar Minas Gerais (4,1%) e Paraná (5,4%). Estes locais apresentaram, respectivamente, os principais ganhos salariais em meios de transporte (31,6%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (24,9%); e máquinas e equipamentos (15,3%) e alimentos (8,4%). Por outro lado, somente Rio Grande do Sul (-1,1%) registrou perda, por conta, principalmente dos setores de alimentos e bebidas (-12,9%) e calçados e artigos de couro (-4,3%).

Setorialmente, ainda no indicador mensal, o valor da folha de pagamento real aumentou em quinze dos dezoito setores fabris. As maiores influências positivas vieram de meios de transporte (10,5%), máquinas e equipamentos (8,2%), produtos de metal (10,2%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (7,1%). Em sentido oposto, as principais retrações foram verificadas em vestuário (-14,0%) e madeira (-9,9%).

Na análise trimestral, o valor real da folha de pagamento industrial sustenta taxas positivas há vinte períodos consecutivos, na comparação com igual trimestre do ano anterior, mas desacelera entre o terceiro (7,1%) e o quarto (4,3%) trimestres de 2008. Doze locais e treze ramos reduziram o ritmo de crescimento da folha real entre os dois períodos, com destaque para produtos químicos, que passou de 17,8% para 3,5%, meios de transporte (de 12,4% para 7,7%) e metalurgia básica (de 15,0% para 8,1%), entre os setores; e Paraná (de 10,0% para 6,0%), Minas Gerais (de 11,9% para 8,2%) e São Paulo (de 8,4% para 4,8%), entre os locais.

O indicador acumulado no ano fechou em 6,0%, com incremento da folha de pagamento real em todos os locais pesquisados. Os maiores impactos positivos vieram de São Paulo (7,0%) e Minas Gerais (9,0%), sobressaindo, respectivamente, os aumentos de meios de transporte (11,2%) e produtos químicos (15,1%); e meios de transporte (17,8%) e minerais não-metálicos (19,1%). Em termos setoriais, das treze atividades que registraram expansão na massa salarial, meios de transporte (11,7%), máquinas e equipamentos (8,1%) e produtos de metal (13,0%) exerceram as principais influências. Do lado negativo, as principais pressões vieram de calçados e artigos de couro (-6,1%) e papel e gráfica (-2,4%).

Comunicação Social
09 de fevereiro de 2009

Fonte: Site do IBGE - www.ibge.gov.br

Comentários

Emprego na indústria registra a maior queda desde 2001

O IBGE divulgou hoje seu relatório de informações sobre o nível de emprego e salário na indústria no mês de dezembro, os dados vão na mesma direção de outros índices sobre a atividade econômica, ou seja, revelam a intensidade da crise, o que, seguindo a tendência, deve ter piorado em janeiro. Veja matéria sobre o informe do IBGE publicada pela Folha Online.

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio

Atualizado às 9h53

O nível de emprego na indústria seguiu o ritmo da produção e caiu pelo terceiro mês consecutivo. Em dezembro, houve variação negativa de 1,8%, na comparação com o mês anterior, informou nesta segunda-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Trata-se da maior retração observada desde 2001, quando a série histórica foi iniciada. Em novembro, na mesma base de comparação, a queda havia sido de 0,6%.

Em relação a igual período do ano passado, houve queda de 1,1%. Essa retração interrompeu uma série de 29 resultados positivos nessa relação. Foi o menor resultado desde janeiro de 2004, quando o empego na indústria havia recuado 1,2%.

Ao longo de 2008, o IBGE verificou crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior. De janeiro a setembro, antes do agravamento da crise mundial, a expansão do emprego industrial havia chegado a 2,7%. No último trimestre de 2008, houve variação negativa de 1,1% na com paração com o trimestre imediatamente anterior, interrompendo série de dez trimestres com variações positivas.

O valor da folha de pagamento dos trabalhadores da indústria registrou também a terceira contração consecutiva, com queda de 0,7 % em dezembro, na comparação com o mês anterior. Em relação a dezembro de 2007, houve incremento de 4,1%, 36ª alta consecutiva. Em 2008, a folha de pagamento na indústria avançou 6%.

O IBGE indicou que, na comparação com dezembro de 2007, houve diminuição dos postos de trabalho em nove dos 18 setores pesquisados. Entre as 14 regiões avaliadas, houve queda em 11 locais, com destaque para Santa Catarina (-3,2%), Paraná (-3,1%), Região Nordeste (-2%) e São Paulo (-0,8%). Foi a primeira queda nesse indicador, na indústria paulista, desde abril de 2004.

Em Sâo Paulo e em Santa Catarina, o destaque negativo ficou por conta do setor de vestuário, com retrações de 11,3% e 14,2%, respectivamente. No Paraná, o nível de emprego na indústria madeireira caiu 21% em relação a dezembro de 2007.

No resultado fechado de 2008, o IBGE observou crescimento em 12 dos 18 ramos e em 11 dos 14 locais pesquisados. As principais influências no ano vieram de São Paulo (3%) e Minas Gerais (4,2%).

Entre os setores, destacaram-se máquinas e equipamentos (10,4%), máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (10,6%) e meios de transporte (8,5%).

Em relação a dezembro de 2007, o ganho salarial na indústria foi constatado em 12 das 14 áreas avaliadas, com destaque para São Paulo (6%), Paraná (5,4%) e Minas Gerais (4,1%).

A folha de pagamento real cresceu em 15 dos 18 ramos investigados, na comparação com dezembro de 2007. Os maiores impactos positivos vieram de meios de transporte (10,5%), produtos de metal (10,2%) e máquinas e aparelhos eletroeletrônicos e de comunicações (7,1%).

Ao mesmo tempo, foram constatadas quedas na folha de pagamento dos setores de vestuário (14%) e madeira (-9,9%), na comparação com dezembro de 2007.

O número de horas pagas na indústria caiu 1,7% em relação ao mês anterior. A retração foi semelhante ao que havia sido verificado em novembro, quando foi notada a, maior queda desde o início da série histórica.

Em relação a dezembro de 2007 apresentou recuo de 1,8% em dezembro, menor taxa desde dezembro de 2003, cuja retração chegara a 1,9%.

Folha Online - Dinheiro - 9/2/09

Comentários

Infernópolis: o pecado de ser pobre

Ricardo Alvarez

Ação da Polícia Militar de SP na segunda maior favela da cidade peca pela agressividade contra pobres e o direito de protestar, mistifica a origem dos confrontos e alimenta a idéia de "limpeza social".

Tudo começou com o atropelamento e morte de um garoto que teve duplo azar na vida: nasceu pobre e morreu nos primeiros anos de sua frutífera vida. Seguiu-se ao acidente uma manifestação dos moradores por equipamento público, para coibir novas mortes. Nada mais justo e compreensível.

Na manifestação ocorreram quebradeiras provocadas por garotos que não têm muito a perder, mas não contavam com o apoio dos manifestantes e da Associação de Moradores. Quando se vive no limite, relegado a uma mobilidade restrita numa metrópole repleta de possibilidades, sem a presença efetiva de equipamentos públicos de qualidade, assombrado pela violência, pelo desemprego, miséria, álcool e rendimentos risíveis, a fronteira entre o legal e o ilegal é muito tênue. Não se trata simplesmente de "desvio de caráter", ou de vandalismo inconsequente como parte da imprensa e a própria SSP fez crer. Mas o teatro estava apenas no começo.

Paraisópolis é uma grande mancha urbana de pequenos casebres, alta densidade demográfica e com indicadores sociais perversos: apenas 0,45% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior. Em 1991 o índice era de 1,19%. Apenas 20% do mesmo grupo social estão no ensino médio (Moema tem percentual de 84%) e a baixa escolaridade colabora no desemprego: 1 em cada 4 adultos está sem trabalho. A renda média entre seus moradores é de R$ 367,00 ao passo que na cidade de São Paulo o valor chega a R$ 1.325,00. A degradação persistente da qualidade de vida destas pessoas desceu em profundidade abissal.

Ao seu redor encontramos situação inversa: cercada de edifícios majestosos, casas de alto padrão, com imensos terrenos gramados e arborizados, seguranças particulares e abastecidos de total infra-estrutura. Seus vizinhos gastam mais dinheiro num ano em manutenção das piscinas do que o Estado em educação a estes deserdados urbanos.

Cito esta contradição explícita na paisagem da geografia local para reforçar a idéia de que o convívio permanente entre os socialmente desiguais é sempre explosivo, apesar da repetitiva ladainha que o problema reside na personalidade das pessoas, que a delinqüência vem de berço e a violência está no sangue de alguns. Tolos, não percebem que este mesmo discurso embala as políticas de segurança pública há décadas sem solução definitiva.

Também não façamos coro com a tese dos "dois Brasis", pois as relações entre estes dois mundos são próximas. Trabalhar com o doméstica nestas residências é uma das principais fontes de empregos para as mulheres de Paraisópolis e o assistencialismo corre solto e evidencia sua incapacidade em apontar saídas: Kaká doou bolas, ONG´s distribuem alimentos e roupas, a BOVESPA montou uma Biblioteca, Colégio de classe alta da redondeza oferece bolsas de estudos, enfim, ações apoiadas em responsabilidade social que não dão conta de suprir a irresponsabilidade social dos governos constituídos.

Quando carros foram atacados, pneus queimados e comércios destruídos, num ato espontâneo de revolta contra uma realidade insuportável, a resposta foi o show da operação policial. Estar rodeado de ricos e, principalmente, muito próximos do Palácio do Governo de São Paulo, habitado e dirigido pelo Sr. José Serra, foi outro baita azar.

Na ótica do governo, era preciso agir e rápido. Primeiro, a desculpa padrão: a culpa é da própria população que protege os traficantes que atacaram a Polícia. Segundo, uma movimentação policial exemplar: desfile de viaturas pela Marginal do Rio Pinheiros mostrando que o Governador não tergiversa, age. Terceiro, a grande mídia entra em cena: como sempre criando cenários que levam a conclusão imediata de que a ação se justifica, e mortos e feridos são inevitáveis.

O mais irônico é que ocupar casas sem mandato de segurança virou rotina, matar jovens suspeitos, uma necessidade e, aterrorizar a população local, um aviso. Minha suspeita é que por detrás deste modus operandi, que se diga não é uma exclusividade de São Paulo, existe uma política mal disfarçada de redução das pressões populacionais por emprego e serviços públicos, que acomete principalmente crianças e adolescentes pelo Brasil afora. São grupos de extermínio institucionalizados e que comumente recebem aplausos de telespectadores confortavelmente instalados diante de seus televisores, e crentes de que o melhor foi feito.

Poderia haver o caminho do diálogo, sem dúvida nenhuma, houvesse interesse do Gabinete do Governador. O Cel. Ailton Araújo Brandão, comandante da ação em Paraisópolis tem, inclusive, folha corrida a este respeito. Ele foi um dos participantes daquela malfadada reunião ocorrida com a cúpula da Polícia Militar de SP e o PCC, em 2006, quando era Comandante da PM na ponta oeste do estado de São Paulo, justamente onde estavam presos os membros da cúpula da organização. Um ano depois recebeu o título de cidadão prudentino, com direito a almoço e placa da honraria pelos serviços prestados.

O Cel. Brandão apontou seu dedo para as novas tecnologias como culpada pelo sumiço de gravações contra a PM pela morte de 104 pessoas nos confrontos com o PCC. O gravador do 190 falhou e o backup automático também falhou.

Mas ele foi condecorado pela Assembléia Legislativa de São Paulo em setembro de 2007 como Comandante do Policiamento da Capital da Polícia Militar do Estado de São Paulo, junto com o Governador Serra. Recebeu importante medalha dos paulistanos, embora o povo de Paraisópolis possivelmente nem saiba que ela exista. Talvez por isso a raiva.

A PF também chegou ao referido Cel. através da Operação Santa Tereza. Em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo foi revelado um esquema de distribuição de ingressos para uma festa de peão no interior de São Paulo com artistas consagrados. O "mimo" era a contrapartida pelo oferecimento de segurança pública a um prostíbulo privado que lavava dinheiro do BNDES na capital. Vê-se, portanto, que o crime maior não está em Paraisópolis, mas em outros lugares e o Cel. sabe quais são.

A ação da polícia é a síntese de uma imbricada teia de interesses que passa pela definição, a priori, de que pobre em favela é culpado antes de mais nada, de que é preciso fazer alguma coisa contra a criminalidade e é na favela que o tráfico manda. Humilhar pessoas, revistando-as, invadindo suas casas, num show travestido de caça aos traficantes explicita mais do que uma prática condenável, mas um tratamento de choque para um problema social.

A ocupação da favela de Paraisópolis na cidade de São Paulo, neste começo de fevereiro, é emblemática sobre o papel do tucanato diante dos problemas sociais no estado de São Paulo. Para fazer justiça, o Demo Kassab também foi condecorado na Assembléia Legislativa num ambiente agradável e de confraternização.

Pena que enquanto alguns desfrutam deste conto de fadas com dinheiro público outros vivem num inferno constante e são condenados ao castigo da morte lenta e silenciosa. Mesmo vivendo na "cidade do paraíso".

Ricardo Alvarez
Professor e editor do Blog Controvérsia
blog.controversia.com.br

Link da matéria no Blog Controvérsia: http://blog.controversia.com.br/2009/02/05/infernopolis-o-pecado-de-ser-pobre/

Comentários

Apocalipse now

Matéria da Editoria:
Economia

31/01/2009

 

Em um debate sobre a crise, quatro especialistas convidados para o Fórum Social Mundial trouxeram más notícias. Pareciam os quatro cavaleiros do apocalipse. Segundo eles, os problemas estão só no começo e vão se aprofundar, jogando milhões de pessoas no desemprego. E as esquerdas, alerta um dos debatedores, estão paralisadas, sem coragem de denunciar isso e exigir mudanças reais. A análise é de Bernardo Kucinski.

Bernardo Kucinski

Data: 30/01/2009

BELÉM - Tenho más notícias. A crise econômica está só no começo. Vai se aprofundar, durar anos, jogar milhões no desemprego e na rua da amargura. A profecia é de gente que entende; quatro especialistas convidados para o Fórum Social Mundial em um debate organizado por uma entidade também respeitável, a Fundação Friedrich Ebert. Pareciam os quatro cavaleiros do apocalipse.

Um deles, Joseph Borrell, com PhD em economia, ex-ministro de Obras da Espanha, cheio de outros títulos e credenciais, disse com todas letras que "os banqueiros que provocaram essa crise deveriam ser presos e processados por crimes contra a humanidade," tal o estrago que provocaram no mundo e ainda provocarão. Mas em vez disso, estão soltinhos da vida, e ainda levaram de prêmio milhões de dólares como bônus de gratificação.

Na Espanha, diz Borrell, um milhão de pessoas perdeu o emprego só nos três últimos meses. A taxa de desemprego deve atingir 17% da força de trabalho, a que havia na Espanha 15 anos atrás. "Recuamos 15 anos de nossa história econômica", diz ele. Outra dimensão da profundidade da crise na Espanha é o estoque de 12 milhões de moradias vazias, sem comprador.

O economista do DIEESE Adhemar Mineiro, escolado e escaldado em economia internacional, disse que se trata de uma crise de todo o sistema econômico baseado na supremacia do capital financeiro e expansão ilimitada do crédito. Não é coisa pequena, localizada. É uma crise estrutural desse modo de produção e consumo.

A idéia de que a América Latina estaria imune ou menos vulnerável aos efeitos da crise também já foi para o ralo. Adhemar ressaltou o fato de que previsões cada vez mais pessimistas estão se sucedendo com rapidez. A previsão de que o PIB do Brasil cresceria 4% este ano foi rapidamente rebaixada à metade e hoje já se fala em crescimento zero.

O prognóstico é ainda pior para outros países da América Latina, de economia menos diversificada, que dependem de exportação de uma ou duas commodities, como Venezuela, Argentina, Chile. Vai ser pesado o efeito combinado do estrangulamento do crédito e queda no preço das commodities.

O sistema simplesmente parou e não conseguem religá-lo, diz Oscar Ugarteche, do Instituto Nacional de Pesquisas do México. Outro que tem Phd. Para ele ainda estamos na primeira etapa da crise. Uma montanha de títulos podres continua entupindo o sistema. O total de títulos e papéis criados pelos bancos é de 16 vezes o valor da riqueza real que os poderia lastrear. Essa montanha de títulos podres ainda está para desabar, só não se sabe quando e como. A bolha das hipotecas foi só a primeira.

Igualmente agourenta estava Modly McCoy, ativista da Confederação Internacional Sindical, que atua em nome dos trabalhadores no FMI e Banco Mundial. O discurso dessas entidades mudou com a crise, mas a prática não. Mesmo nos empréstimos emergenciais oferecidos nos últimos meses para tentar aplacar a sede de crédito continuaram impondo as condicionalidades neoliberais: privatizar a previdência, reduzir salários de funcionários públicos e por aí afora. Não houve mudanças substantivas nessas estruturas de poder.

Por que está tão difícil atacar a crise? Em primeiro lugar porque precisaria haver um novo poder sobre o funcionamento da economia. Não adianta querer que o poder financeiro resolva, diz Adhemar Mineiro. Em segundo lugar, a crise já é global, mas as medidas anti-cíclicas que vêm sendo tomadas limitam-se a países. Poderiam até dar resultado nos marcos de uma integração regional porque a produção hoje em dia se dá numa escala que exige mercados ampliados, diz Oscar Ugarteche.

O pior de tudo, diz Joseph Borrell, é que a condução das soluções está nas mãos dos mesmos sujeitos que provocaram a crise. Os governos estão enchendo os bancos de dinheiro, sem exigir nada em troca. Ao contrário, ainda prometem que vão fazer de tudo para não nacionalizar os bancos, e pedem desculpas, se tiverem que nacionalizar será tudo temporário. E "os paraísos fiscais, que ele chama de "o lado escuro do sistema financeiro", continuam intocáveis".

Comentários