A Ditadura segundo a Folha de S. Paulo
A Folha de S. Paulo, na sua tentativa desvairada de desqualificar o governo Chávez, insultou a memória histórica e o direito à verdade do povo brasileiro. Em seu editorial do dia 17 de fevereiro - Limites a Chávez - a Folha chama o período militar brasileiro de 64 a 85 de Ditabranda.
Não bastasse isso, frente às cartas que chegaram ao painel do leitor do jornal, contestando tal editorial, o jornal respondeu tentando de forma leviana desqualificar os intelectuais Fabio Comparato e Maria Victória Benevides. Reproduzimos abaixo as cartas publicadas pelo jornal e o infeliz editorial.
Pedimos aos leitores do Blog do IZB que se manifestem, escrevam para Folha de S. Paulo, Painel do Leitor: painel@uol.com.br e expressem seu repúdio ao flagrante desrespeito com a história do nosso país e com as milhares de vitimas, diretas e indiretas da DITADURA MILITAR resultante do GOLPE MILITAR que criou um regime de exceção que torturou, perseguiu, seqüestrou e assassinou cidadãos brasileiros.
Vejam algumas das cartas publicadas pelo Painel do Leitor da Folha de S. Paulo sobre o tema, mais abaixo reproduzimos o editorial "Limites a Chávez"
Ditadura
"Lamentável o uso da palavra "ditabranda" no editorial "Limites a Chávez" (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes ("Painel do Leitor", ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível "comparativamente baixo’? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande "Julgamento em Nuremberg" (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: "Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente". A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?"
MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS)
"Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros."
LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO)
"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!"
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)
Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.
Ditadura
"Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.
Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre "as chamadas ditabrandas -caso do Brasil entre 1964 e 1985" (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma "ditabranda", um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma "ditabranda" ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal?
É a "novilíngua"?
Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo.
É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário."
SERGIO PINHEIRO LOPES (São Paulo, SP)
Nota da Redação - Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional.
Íntegra do editorial:
Limites a Chávez
Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder
O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.
Folha de S. Paulo - 17 de fevereiro de 2009
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silvio freitas disse,
21 de Fevereiro de 2009 @ 22h 26m 18s
E quanto a Chaves,o tema principal do editorial,nenhum comentário publicado neste blog.Gostaria de saber o que pensam os que já comentaram,se acham o governo atual da Venezuela um modelo de democracia ou nesta parte ojornal esta certo.Eu acho que esta.
Márcio Luís Chila Freyesleben disse,
22 de Fevereiro de 2009 @ 09h 24m 41s
A análise desconstrucionista da Contrarrevolução de 64 permitiu à esquerda brasileira afirmar que os militares perseguiram pessoas que lutavam pela democracia e pela liberdade, assim subvertendo a verdade, pois qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual sabe que aqueles indivíduos eram terrorista que lutavam pelo comunismo, regime que despreza a democracia e a liberdade. Fazem isso porque, para o marxismo cultural, a história resume-se à análise das lutas de classes: luta dos bons contra os maus. Para eles, a Contrarrevolução foi um Golpe Militar.
Parabéns à coragem da Folha!
Márcio Luís Chila Freyesleben
Procurador de Justiça
Ministério Público
Minas Gerais
Blog do IZB » Intelectuais lançam manifesto em repúdio à ‘Folha’ disse,
22 de Fevereiro de 2009 @ 20h 00m 58s
[…] A Ditadura segundo a Folha de S. Paulo […]
Valdeci Alves disse,
23 de Fevereiro de 2009 @ 09h 07m 22s
Ontém assisti o filme “Zuzu Angel’, muito bem interpretado po Patrícia Pilar, que retrata a hitória de uma estilista da classe média, mãe de um jovem militante que lutava por democracia no Brasil nos anos de chumbo e que foi covardemente torturado e morto pela tal “ditabranda”.Zuzu Angel também foi assassinada pelos mesmos que mataram seu filho. Mesmo após 39 anos depois me emocionei com a história e chorei. Hoje, ao ler um editorial como este, não choro, mas fico indignado.
Obs: ” Os filhotes da ditadura estão soltando suas asinhas”.
Mahatma Dandt disse,
28 de Fevereiro de 2009 @ 05h 57m 06s
Nossa, tristemente não me surpreendo com o fato de que pessoas (se é que esta denominação é adequada) como Márcio Luís Chila Freyesleben sejam procuradores da justiça.
Além de uma grande amostra de sua postura autoritária ao fazer o que me parece um elogio do “Golpe Militar” ao chamá-lo de “Contrarevolução” também nos mostra sua ignorância travestida de intelectualidade, ao falar de “análise descrontrucionista” e “marxismo culutural”, e reduzír anos de historiografia do período em afirmações de que os punidos (terroristas ao que parece, não?) eram todos reponsáveis por “atos suberversívos”, e mesmo os que foram parecem ter sido reduzidos à estar alinhados por ideologias autoritárias de esquerda (comunismo?). Ah! Luta de Classe também foi reduzida à “luta dos bons contra o mal’.
Sua postura perante à violência do período aplicada ou não à autoritários de esquerda me enoja, e deveria fazê-lo à todos que lêssem seu testículo. E sua ignorância é tamanha que me faz pensar que alguém usou o nome de tal de Márcio Luís Chila Freyesleben apenas para difamá-lo, pois é surpreendente tamanha capacidade de escrever merda.
IVAN disse,
1 de Março de 2009 @ 23h 50m 15s
Caros companheiros brasileiros:
Não quero distender longevas verbalizações passionais, mas desejo aperfeiçoar uma modesta proposta que vi em outro artigo: Acaba-se a lei da anistia, os torturadores são processados, e em troca, o pessoal que praticou terrorismo também será processado e ainda, os que receberam indenizações, devolvem o din-din. Que tal?
Jorge disse,
11 de Março de 2009 @ 08h 05m 08s
Puxa vida, fico pensando….
Só o nome ditadura fala por si só, um regime de excessão ocorrido no Brasil, nao precisa dizer mais nada, e ainda existem pessoas que defendem isso!
Os que defendem, acredito eu, precisam ler um p ouco mais da Historia.
Eliseo D. disse,
21 de Fevereiro de 2010 @ 15h 05m 42s
A burguesia, que morre de medo que cada vez mais países adotem regimes que tirem (ou tentem tirar) parte do poder das mãos dos grandes empresários, banqueiros e monopólios que lucram no sistema atual, ataca insistentemente o Hugo Chavez. Por que nao fazem isso como outras dezenas de regimes ditatoriais existentes no mundo atualmente?
É evidente que a repressão a liberdade de imprensa e as mortes em Cuba dos “opositores” do regime são condenáveis. Só que o grande problema é que isto é o que menos importa p/ 90% dos que criticam Fidel e seu regime. O que é preciso é unir a igualdade social do país caribenho com a dita “liberdade civil” existente no Brasil e em outros países capialistas.
Já a ditadura burguesa existente no Brasil, que, embora proporcione a chamada “liberdade de expressão” p/ todos, condena sem prévio julgamento milhões de brasileiros a fome e a miséria, esta eu repudio veementemente.
Dizer que o sistema capitalista é o “menos pior” encontrado até hoje e que o problema encontra-se na corrupção dos políticos é tão primário como dizer que o problema da violência são os crimes que passam em programas como o Brasil Urgente.
O problema é mais profundo: a violencia é causada pelos valores passados de geração a geração que mostram que um tênis, um Ipod ou outros consumismos valem mais que os olhos amargurados de uma criança com fome.
Como a cínica classe média quer que um “miserável qualquer” tenha algum senso de respeito ao próximo e não saia matando por ai covardemente, sendo que este mesmo “miseravel qualquer” passou a infância inteira sentindo o desprezo e a falta de compaixão desta mesma sociedade?
Ou alguém deixa de ir p/ uma festa ou deixa de comer p/ pensar nos milhões que estão em casa indo dormir porque não comeram nada o dia inteiro e estão sofrendo de fome? E neste “alguém” não entram só os grandes burgueses e pertencentes à classe média, que têm casas de 50 quartos ou gastam milhares de Reais em uma singela peça de roupa (os mesmos que patrocinam o sistema atual, inclusive, comprando a mídia e os políticos); devem vestir a carapuça todos que se beneficiam de alguma forma com o sistema, independente de serem bem sucedidos ou não.
O sistema capitalista é feito p/ que os banqueiros lucrem trilhões, os magnatas de diversos segmentos (telefonia, combustível, informática, vassoura, papel higiênico etc) lucrem a rodo, enquanto grande parte das pessoas tem que se contentar em limpar banheiro dos outros, trabalhar em dois empregos por dia, nao ter tempo p/ dormir, viver e ainda são obrigados a ver o filho passar fome sem poder fazer nada.
Como o salário é pouco e não há educação de qualidade, os filhos destes individuos tem que trabalhar logo cedo, nao podem se dedicar aos estudos e, no futuro, limparão os banheiros dos filhos de quem controla o sistema.
Coincidencia? Não! O sistema é feito justamente p/ isso. Hipocrisia criticar a desigualde social mas querer chegar um dia no mesmo estágio de riqueza ou, p/ quem já chegou, não querer dividir renda!
E a culpa não é so da minoria que manda no país. A culpa é da classe média baixa, que se deixa subornar pelo parco dinheirinho p/ tomar um cerveja no fim de semana, ir a uma balada ou comprar o seu Ipod.
Assim, esta classe média baixa (classificada também como pobres em algumas metodologias), que são a maioria do país, simplesmente fecha os olhos, lavando as mãos como Pilatos, p/ o sofrimento dos mais explorados (miseráveis em algumas metodologias), que, por sua vez, não tem consciencia e nem educação escolar suficientes p/ entender que a coisa não é assim, que as esmolas dos bolsas famílias da vida ou das caridades dos “ricos” são troco perto da quantia que eles acumulam.
Já que as leis são favoráveis a que estes “crimes legais” continuem sendo praticados impunimente (e já que o sistema de valores faz com que todos sonhem em um dia poder praticar estes “crimes legais” também), é preciso que algum maluco como o Chavez assuma o poder por acaso (ou por vaidade, ou por vontade de desviar dinheiro, enfim) e concentre o poder nas mãos do estado.
Desta forma, já que 90% do que se arrecada e produz em um país vai p/ as mãos sujas de sangue alheio da burguesia, este maluco no poder confiscaria boa parte do dinheiro (através de estatizações, leis de limitação nos lucros etc) e reaplicaria a grana p/ o povo, seja na saude, na educação (irretocáveis em Cuba) ou mesmo em projetos puramente populistas.
Perto dos grandes e inibados burgueses responsáveis pelo sofrimento de milhões de pessoas no mundo, o Hugo Chavez é um cara bonísssimo. Ele é um ladrão de galinhas comparado aos genocidas burgueses.
Antes que alguem pergunte, é crime hediondo sim lucrar trilhões e compactuar com um sistema como o atual (independentemente de que ponta do sistema voce estiver, seja na parte que mais se da bem, ou seja na parte que so fica com o dinheiro p/ a cervejinha do fim de semana) enquanto milhões passam pelos mais terríveis sofrimentos causados pela falta de oportunidade, de comida, de respeito.
Que país e que mundo é esse? Brasil, mostra a sua cara!