Arquivo de Abril de 2009

De caso com a Ditabranda

Como a Folha de S.Paulo demonstrou ter telhados de vidro e provocou a maior crise de credibilidade em toda sua trajetória

Por André Cintra

No dia 24 de fevereiro, tão logo soube que o Movimento dos Sem-Mídia (MSM) tinha convocado um protesto em frente à Folha de S.Paulo, o representante comercial Wilson Cunha Júnior, de 42 anos, tomou a decisão de participar do ato, custasse o que custasse. Não deu a mínima para a distância que separava sua casa e o prédio do jornal — algo como mil quilômetros. Wilson mora em Goiânia, onde trabalha por conta própria. Sem saber como chegar à sede da Folha, entrou em contato com Eduardo Guimarães, presidente do MSM, que tentou imediatamente dissuadi-lo. “Isso é loucura — você está tão longe. Não, não venha”, rogou Eduardo, por telefone. “É claro que eu vou. A responsabilidade é toda minha”, rebatia Wilson.

Depois de desembolsar R$ 128 na passagem de ônibus Goiânia–São Paulo, ele iniciou sua viagem às 16h30 da sexta-feira, 6 de março. A previsão era chegar ao Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo, às 7 horas do dia seguinte, mas um incidente na estrada retardou o desembarque em duas horas. “Desci do ônibus e fui logo ao guichê. Comprei passagem de volta para 5 horas da tarde”, conta Wilson, que gastou aí mais R$ 139 — e sem reclamar. “Olha, se houvesse ato todo mês, eu iria todo mês a São Paulo. Pode ser na Folha ou na Globo. Meu problema maior é contra a ditadura da mídia.

Uma meia-dúzia domina e determina tudo que a gente lê.” Da rodoviária, Wilson entrou no metrô, atravessou oito estações e, às 9h50, um sábado, atingiu a alameda Barão de Limeira, onde viu centenas manifestantes, além de dezenas de cartazes e faixas. “Foi um alívio. Não perdi nenhum minuto.”

O que motivou a pequena epopeia desse animado goiano e de outras 500 pessoas, aproximadamente, até o prédio da Folha foi o que Wilson qualificou como “um tapa na cara das pessoas que viveram a ditadura no Brasil”. Tudo começou com o editorial “Limites a Chávez”, escrito por Vinicius Mota e publicado na edição de 17 de fevereiro. Aos enxovalhos de praxe contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, o jornal acrescentou um comentário sobre o governo dos generais-presidentes brasileiros. Segundo o editorial, “as chamadas ‘ditabrandas’ — caso do Brasil entre 1964 e 1985 — partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.

A relativização do regime é um fenômeno da Folha nos anos 2000. O diretor editorial, Otavio Frias Filho, também chamado de Otavinho, e o historiador Marco Antônio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), são expoentes desse movimento. “A ditadura militar foi alvo também de um esquema maniqueísta”, escreveu Frias Filho em 2003. “A imagem que ficou foi a de um despotismo de generais que suprimiu as liberdades, governou contra o povo, matou e torturou quem resistia. Isso é verdade, mas não toda a verdade.” Sobre o fim do regime, o diretor da Folha minimizava em 2004 a pressão popular pelo voto, condicionando a volta da democracia a fatores não-políticos. “Basta verificar o crescimento econômico nos anos que antecederam a campanha das diretas: -6,3% (1981), -1,3% (1982) e -5,0 (1983)”. No texto “Ecos de 64”, Frias Filho Escreve: (…) “fracassada, a aventura guerrilheira conferiu legitimidade ao período de ditadura nua e crua, entre 68 e 74”.

Marco Antonio Villa — que, sob encomenda, escreveu uma coleção conservadora de livros de história para o Instituto Teotônio Vilela, do PSDB — incorpora esse espírito, sobretudo quando o tema é a indenização a ex-presos perseguidos políticos. Na Folha, ele costuma entrar em cena sempre que se trata de deslegitimar a resistência armada ao regime militar. “Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. (…) É urgente enfrentarmos essa falácia”, escreveu, em 23 de maio de 2008, quando o tema das indenizações às vítimas das torturas e perseguições políticas estava na ordem do dia. Villa citou o “espaço democrático” dos governos Castello Branco e Costa e Silva: “basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968”. Para o historiador, “é fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos”. Não é toa que a Folha recorreu a Villa para defendê-la no episódio da “ditabranda”.

Embora o Grupo Folha, adquirido pela família Frias em 1962, tenha laços históricos indisfarçáveis com a ditadura, é provável que o neologismo tenha sido publicado por descuido. Diferentemente do pai, Octavio Frias de Oliveira — que fazia questão de ler, checar, corrigir e aprovar todos os editoriais do jornal —, Frias Filho tem obsessões de outra ordem, como o controle estatístico dos erros cometidos em cada edição do jornal. “Muita gente aqui acha que o Otavinho não se preocupou em avaliar o texto do Vinicius”, conta um repórter da Folha que não se identificou para evitar represália. “Como o tema era Chávez, e a Folha tem uma posição muito clara e óbvia a respeito dele, o risco de sair alguma polêmica parecia nulo.”

Eis que, dado o primeiro escorregão, o jornal precisou de três dias para cometer o segundo. Na sexta-feira de Carnaval, 20 de fevereiro, ao publicar na seção de cartas (o “Painel do Leitor”) as primeiras críticas vindas do meio acadêmico — do jurista Fábio Konder Comparato e a historiadora Maria Victoria Benevides, ambos da USP —, a Folha partiu para a baixaria. Uma “nota da Redação” qualificava a indignação desses intelectuais como “obviamente cínica e mentirosa”, uma vez que — segundo o desinformado jornal — os professores são “figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba”. Na realidade, tanto Konder quanto Benevides já criticaram publicamente o regime cubano, sendo que o jurista chegou a expressar suas críticas a Cuba no mesmíssimo “Painel do Leitor”

Da abominável relativização da história, o jornal pago de maior circulação no Brasil passou a uma agressão a leitores típica da imprensa panfletária do século XIX. Frias Filho  agiu como se fosse necessário um atestado ideológico para se beneficiar do jornalismo “crítico, democrático e apartidário” da Folha. Sua resposta grosseira a dois intelectuais renomados põe em perigo a imagem pluralista de uma publicação que, supostamente, exibe sem medo os seus princípios e procedimentos à sociedade e, em especial, aos seus leitores. Essa é uma marca que a Folha passou a construir no começo dos anos 80, quando passou a divulgar seu Manual de Estilo e os seus sucessivos projetos editoriais, e consolidou com a campanha publicitária em que se apresentava como um veículo corajoso e independente – “de rabo preso com o leitor”, ou seja, desvinculado de interesses políticos, econômicos ou ideológicos. Na avaliação do sociólgo Rudá Ricci, há um componente psicológico na reação – claramente desproporcional – de Frias Filho às críticas que o editorial da “ditabranda recebeu”. “Quando é repreendido por intelectuais do peso de um Comparato ou de uma Benevides, ele perde a cabeça e mostra destempero, como se tivesse sido censurado na sua juventude e na sua imaturidade intelectual”, avalia Ricci. “Assim, vai perdendo o status da kaiser da imprensa nacional”.

A revolta contra o jornal da família Frias, diluída no início, se intensificou durante e logo após o carnaval. Na internet, foi lançado em 21 de fevereiro o manifesto “Repúdio e Solidariedade” — um abaixo-assinado eletrônico que condenava “o estelionato semântico” do termo “ditabranda” e a agressão sem precedente da Folha. Na opinião de Caio Navarro de Toledo, professor da Unicamp e um dos idealizadores do manifesto, a iniciativa de fazer um abaixo-assinado on-line abriu um espaço para tornar públicos os protestos que pipocavam em grande quantidade. “Muitos colegas me encaminharam as cartas que escreveram à Folha e que não foram publicadas”, conta. “Ao lançarmos o manifesto, abrimos espaço para essas vozes críticas, que não queriam engolir a mentira de ‘ditabranda’.

O abaixo-assinado “Repúdio e Solidariedade” teve ampla repercussão na web, impulsionado por sites progressistas e blogs alternativos. Essas páginas na internet difundiram o chamado para a manifestação do Movimento dos Sem-Mídia em frente à Folha. De nada adiantaram as tentativas do jornal em minimizar o estrago, levado a cabo pelo editor de Brasil, Fernando Barros e Silva, pelo ombudsman Carlos Eduardo Lins e Silva e pelo colunista Marcelo Coelho. A poucos dias do ato do MSM, o jornalista Leonardo Sakamoto divulgou em seu blog que a Folha, nos dias subsequentes à querela, perdeu 2 mil assinantes, o que indicava impactos não só na imagem e na credibilidade do jornal — mas também no bolso. Em 5 de março, a dois dias do ato dos sem-mídia à frente da Folha, o historiador Marco Antonio Villa reapareceu no jornal com o artigo “Ditadura à brasileira”, para sustentar que o país só teve ditadura de fato entre 1969 e 1979 — a duração do AI-5. “Só pode ser ‘a democracia’ dos historiadores à brasileira”, respondeu, três dias depois, na própria Folha, o colunista Janio de Freitas. “Os historiadores à brasileira não sabem que as ditaduras vão até onde lhes é vitalmente necessário, e enquanto podem fazê-lo.” Villa sentiu o golpe e, encurralado, retratou-se no “Painel do Leitor”: “Em momento nenhum (…) defendi a ditadura militar.”

Àquela altura, o manifesto “Repúdio e Solidariedade” já tinha mais de 8 mil signatários, desde donas-de-casa até celebridades como o sociólogo Antonio Candido, o arquiteto Oscar Niemeyer e o cantor Chico Buarque. Em 8 de março, Frias Filho voltou atrás e admitiu que o termo “ditabranda” é errado, pois “tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto”. Mas continuou a desancar Fábio Comparato e Maria Benevides, tachando-os, dessa vez, de “democratas de fachada”. No sábado seguinte, dia 14, os dois professores conseguiram um direito de resposta no jornal. “Levar mais de duas semanas para reconhecer um desatino editorial (a classificação do regime militar brasileiro como ‘ditabranda’), imputando a responsabilidade pelo episódio ao teor de nossas críticas, não parece um comportamento compatível com a ética do jornalismo”, escreveram. A Folha, porém, manteve sua postura agressiva. “Imaginava-se encerrado o episódio, mas os professores Comparato e Benevides estão empenhados em extrair dele o máximo rendimento possível”, comentou o jornal.

As 500 pessoas que participaram do ato contra a “ditabranda”, às portas da Folha, demonstraram que, nessa batalha, quem ganhou foi a sociedade. Um post publicado por Flavia Brites, no blog Nas Retinas, registra um cálculo expressivo: cem blogs agregados a partir do tema “ditabranda” contabilizavam, ao longo da manifestação, mais de 60 mil visitas. Com a cobertura do ato, o site Vi o Mundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, registrou seus melhores índices de audiência. “Eu me atrevo a dizer que foi a primeira manifestação política convocada pela internet que terá consequências práticas para o ativismo digital”, escreveu Azenha. Foi um protesto sem panfletos ou convites impressos, mas com apoio espontâneo de entidades de direitos humanos e de ex-presos políticos, movimentos organizados, partidos políticos, jornalistas independentes, sites, blogs, e muita gente mais. À sua maneira, cada um deles mostrou que, antes das paredes envidraçadas, o que a Folha de S.Paulo tem são telhados de vidro.

 

Do site da Revista Caros Amigos

Comentários

Caros Amigos lança novo olhar sobre a Palestina

Indicação Cultural
Edição Especial

Está nas bancas o especial de maio da revista Caros Amigos - Especial Oriente Médio -“Somos Todos Palestinos”. Na edição de 32 páginas, análises e reportagens sobre a situação nos Territórios Ocupados e da questão palestina, de uma forma mais geral. Destaque para a entrevista de Adriana Mabilia com Mustafá Barghouti, secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestina. Também na edição, artigo da historiadora Arlene Clemesha.

Do site do Instituto de Cultura Árabe

Comentários

México

090430_f_002

 

Estátua é coberta com máscara cirúrgica em Acapulco, no México; após a Organização Mundial de Saúde (OMS) elevar para 5 o nível de alerta em relação ao risco de uma pandemia de gripe suína, o ministro da Saúde do México, José Córdova, anunciou uma série de medidas para tentar frear o avanço da doença no país. Entre as medidas estão a suspensão das atividades em repartições públicas entre os dias 1 e 5 de maio Jesus Trigo/Reuters

Comentários

Ativistas pedem investigações sobre uso de tortura no governo Bush

090430_f_022

 

Ativistas da Anistia Internacional protestam nas proximidades do Capitólio, em Washington, nos EUA. Eles pedem uma investigação isenta das violações aos direitos humanos praticadas no governo Bush

Comentários

Curso - Marxismo na América Latina

Apresentação

A América Latina vive na atualidade situações particulares que indicam a necessidade de formação permanente e capacitação dos seus agentes sociais. A crescente globalização, a automação, a constituição das redes informacionais, a crise orgânica do capital, a atuação significativa de Comitês, Partidos e Organizações Sociais na busca de mudanças políticas estruturais e de reformas apontam para a premência de uma associação mais estreita entre as formas de compreender a dinâmica social e as estratégias de sua mudança.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

Ajude a instalar a CPI da Dívida Pública

cpi A CPI da dívida pública foi criada pela mesa da Câmara em dezembro de 2008, após a apresentação de um requerimento de autoria do deputado federal Ivan Valente que recebeu a adesão de 185 parlamentares. No entanto, até agora a CPI não foi instalada, uma vez que apenas cinco partidos indicaram seus representantes na CPI, restam a indicação dos seguintes partidos: PMDB, PT, PP, PTB, PSC, PTC, PtdoB, PSDB, DEM, PSB e PV. O movimento Auditoria Cidadã da Dívida elaborou uma proposta de carta a ser encaminhada para as lideranças dos partidos solicitando a indicação imediata dos membros da CPI.
CPI da Dívida - indicações dos membros

Cinco partidos (PCdoB, PDT, PPS, PR e PRB) indicaram os seus deputados representantes na CPI da Dívida, que havia sido criada dia 8 de dezembro de 2008, conforme notícia constante na página da Auditoria Cidadã da Dívida .

Isto representa um passo importante para a instalação da CPI. Restam indicar seus representantes os seguintes partidos: PMDB, PT, PP, PTB, PSC, PTC, PtdoB, PSDB, DEM, PSB e PV. Assim que estes sejam indicados, a CPI já pode começar a funcionar.

Portanto, estamos encaminhando abaixo a lista com os endereços, telefones e e-mails dos líderes destes partidos, aos quais cabe fazer a indicação. Encaminhamos também uma proposta de carta, para que as entidades possam fazer as alterações que julgarem necessárias e enviarem a estes parlamentares.

Assunto: Indicação dos membros da CPI da Dívida Pública

Exmo(a) Sr(a). Deputado(a)

Dirigimo-nos a V. Exa. para solicitar que sejam indicados os representantes deste partido na Comissão Parlamentar de Inquérito da Dívida Pública, criada pela Presidência da Câmara dia 8 de dezembro de 2008. Esta CPI é de fundamental importância para o país, especialmente em um contexto de crise econômica e financeira, que compromete a arrecadação tributária, ocasionando sérias consequências às contas públicas. O endividamento público consome mais de 30% do orçamento federal, mesmo sem computar a “rolagem” da dívida, ou seja, o pagamento de amortizações por meio da emissão de novos títulos. Caso consideremos a “rolagem”, cerca da metade do orçamento é comprometido com a dívida. A crise já está levando à drástica redução nas transferências a estados e municípios, e certamente colocará a dívida no centro dos debates nacionais. Portanto, o partido de V.Exa. tem a possibilidade de participar desta Comissão que certamente terá papel privilegiado na discussão da crise econômica.

Certos da compreensão de V. Exa. sobre o tema, agradecemos antecipadamente

 

Bloco: PMDB,PTB,PSC,PTC,

Henrique Eduardo Alves
Gabinete: 539  Anexo IV
(61)3215-9181
(61)3215-5539

lid.pmdb@camara.gov.br

dep.henriqueeduardoalves@camara.gov.br

__________________________________________________

PT
Pardido dos
Trabalhadores
Cândido Vacarezza
Gabinete: 958
Anexo: IV
(61)3215-9102
(61)3215-5958

lid.pt@camara.gov.br

dep.candidovaccarezza@camara.gov.br

__________________________________________________

PSDB
Partido da Social Democracia Brasileira
José Anibal
Gabinete:832
Anexo: IV
(61)3215-9345/9346
(61) 32155832

lid.psdb@camara.gov.br

dep.joseanibal@camara.gov.br

_________________________________________________

DEM
Democratas
Ronaldo Caiado
Gabinete:227
Anexo: IV
(61)3215-5227

lid.dem@camara.gov.br

dep.ronaldocaiado@camara.gov.br

________________________________________________

PV
Pardido Verde
Sarney Filho
Anexo I, 23º
Andar, Sala  2310
(61) 3215-9790 /9791
9792-9795 / 9796
Fax: 3215-9794

lid.pv@camara.gov.br

dep.sarneyfilho@camara.gov.br

_______________________________________________

PSB
Partido Socialista Brasileiro
Rodrigo Rollemberg
Anexo II Sala 112 á 118
(61) 32159650

lid.psb@camara.gov.br

dep.rodrigorollemberg@camara.gov.br

______________________________________________

PT do B
Parito Trabalhista do Brasil
Vinicius Carvalho
Anexo: III, Gab.587
(61) 3215-5587
dep.viniciuscarvalho@camara@camara.gov.br

______________________________________________

PTB
Partido Trabalhista Brasileiro
Jovair Arantes
Gab. 504 Anexo: IV
(61) 3215-9502 / 9503
(61)3215-5504

lid.ptb@camara.gov.br

dep.jovairarantes@camara.gov.br

______________________________________________

PP
Partido Progressista
Mário Negromonte
Gab.345
Anexo: IV
(61) 3215-9421 / 9425
(61)3215-5345

lid.pp@camara.gov.br

dep.marionegromonte@camara.gov.br

Comentários

luta de classes na Igreja !

Trabalho veta o capital na missa do 1º de Maio
Cardeal queria convidar empresários: pastoral não deixou

 

MISSA DE PASCOA A missa de 1.º de Maio na Catedral da Sé, às 9 horas de sexta-feira, que deveria reunir trabalhadores e empresários em torno do altar, conforme o cardeal arcebispo d. Odilo Scherer prometeu no ano passado, será uma celebração classista, voltada só para os trabalhadores, porque a Pastoral Operária, da Arquidiocese de São Paulo, resistiu à mudança.

D. Odilo disse ontem ao Estado que pretendia convidar empresários porque, em sua opinião, deve haver harmonia entre capital e trabalho. "Não queremos trazer luta de classes para dentro da igreja, embora possa transparecer algum confronto nas manifestações que haverá, depois da missa, em praça pública", afirmou o cardeal. Além de empresários, ele queria convidar funcionários públicos e empregados de outra categorias.

"Esta não é a nossa visão, porque para nós o 1.º de Maio sempre será o Dia do Trabalhador, dia de luto e de lutas", advertiu o metalúrgico aposentado Waldemar Rossi, militante da Pastoral Operária e um dos articuladores da manifestação. Ele critica os shows que a Força Sindical e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) promovem nessa data. "Os sindicatos e movimentos comprometidos com a luta por Justiça repudiam as atividades com caráter de conciliação com o empresariado, em conluio com o capital explorador", argumenta.

A Pastoral Operária sugeriu a d. Pedro Luiz Stringhini, bispo auxiliar que vai celebrar a missa em lugar de d. Odilo, alguns pontos que, na visão dos trabalhadores, devem ser refletidos na homilia da celebração da Catedral da Sé. "Que os ricos paguem pela crise que eles criaram, não nós", esta é a sugestão para uma análise sobre acumulação de riquezas, especulação financeira e distribuição de lucros com acionistas, desfalcando as empresas.

Rossi sugeriu a d. Pedro Luiz, em nome da pastoral, que denuncie o "assalto ao dinheiro público para ?salvar? empresas que se dizem em crise", defenda os direitos dos trabalhadores, aponte a precarização do trabalho (contratos temporários, bicos), fale do achatamento de salários e a pressão dos poderosos contra o movimento social.

D. Pedro Luiz informou que vai aproveitar essas sugestões na homilia, ao lado mensagens bíblicas e de uma referência a São José Operário, cuja festa a Igreja comemora no dia 1.º de maio. O bispo acredita que os trabalhadores católicos não entenderam bem a intenção de d. Odilo, ao propor a participação de empresários na missa.

Responsável pela pastoral social na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Pedro Luiz informou que a nota sobre o 1.º de Maio, que a Assembleia Geral de Itaici vai divulgar, seguiu a mesma linha da Pastoral Operária de SP.

A começar pelo título - Dia do Trabalhador, em vez de Dia do Trabalho. O texto, aprovado ontem, mas ainda não divulgado, fala da crise econômica mundial e seus reflexos na vida dos brasileiros.
MENSAGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
PARA O DIA DO TRABALHADOR - 1º DE MAIO

“O salário que vós deixastes de pagar está gritando
e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor” (Tg 5,4).

Ao celebrar o Dia do Trabalhador, a CNBB confirma seu compromisso em favor dos direitos sociais do povo e, em especial, dos direitos trabalhistas e dos esforços para consolidar as suas organizações. Expressa também a solidariedade com todos os desempregados, vítimas da crise ou dos que se aproveitam dela. Os princípios da Doutrina Social da Igreja - a dignidade da pessoa humana, a destinação universal dos bens da terra e a prioridade do trabalho sobre o capital - inspiram alternativas para uma nova ordem econômica, em vista de um mundo justo e solidário.
Neste ano, o dia 1º de maio acontece no contexto da crise que assola o conjunto da economia mundial. A crise mostra a sua face mais cruel ao se deslocar do capital financeiro para o setor produtivo, dizimando milhares de postos de trabalho, na cidade e no campo. Os países e as populações pobres sofrem mais diretamente as conseqüências do atual modelo capitalista de desenvolvimento, incapaz de assegurar a dignidade humana, garantir os direitos sociais básicos e preservar a vida em nosso planeta.

Na origem da crise estão o sistema neoliberal globalizado e a falta de ética na economia e na regulamentação do mercado, gerando corrupção e especulação. O mercado financeiro, na medida em que comanda as relações dos seres humanos entre si e com a natureza, reforça o consumismo comprometendo a justiça social e o equilíbrio ambiental. A crise financeira e econômica é apenas uma parte da crise mais profunda que é social, política, cultural, ambiental, ética e espiritual. Todas essas dimensões devem ser consideradas com coragem e lucidez, na busca de uma saída sustentável.

A crise atinge, sobretudo, os trabalhadores, os pobres, as pequenas e médias empresas. Os bancos recebem verbas milionárias dos governos para salvar o sistema financeiro. No entanto continuam as demissões, levando muitas pessoas a buscarem sua sobrevivência no trabalho informal. Tal situação corre o risco de ser agravada, caso seja aprovada a Proposta de Emenda Constitucional sobre a Reforma Tributária, do modo como está sendo apresentada. Ela atingiria o cerne do sistema de Seguridade Social e reduziria gravemente a proteção de mais de 36 milhões de trabalhadores aposentados e pensionistas.

Os tempos atuais, mesmo difíceis, representam oportunidades para as mudanças necessárias em direção a uma nova ordem econômica. Nesse contexto, a Igreja faz ressoar o clamor dos trabalhadores por vida e dignidade. As aspirações do povo trabalhador, por meio de suas organizações, indicam caminhos para a consolidação dos direitos, tais como: não às demissões, valorização das aposentadorias, queda nos juros, redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar e agro-ecológica, combate ao trabalho escravo e degradante, valorização dos movimentos de trabalhadores desempregados, incentivo às iniciativas de economia popular solidária, investimento nas políticas públicas de saúde, educação e moradia.
A CNBB convida trabalhadoras e trabalhadores a manterem viva a fé, a esperança e a alegria em Jesus Cristo Ressuscitado. Que Nossa Senhora Aparecida e São José Operário, o Carpinteiro de Nazaré, intercedam junto a Deus, a fim de que as mais copiosas bênçãos sejam derramadas sobre todos os que, irmanados pelos laços do trabalho, constroem o nosso País.

Indaiatuba- SP, 28 de abril de 2009.

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana-MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus-AM
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro-RJ
Secretário Geral da CNBB

 

Comentários

Assista vídeo sobre reorganização das lutas de resistência dos trabalhadores e sociais

Postado: Químicos Unificados

Produzido: COT

Produzido pela Intersindical e pela Conlutas, ele traz encontro realizado no FSM/2009 em Belém/PA; seminário em abril em São Paulo e as mobilizações de rua em 30 de março, o Dia Nacional de Luta

Sob iniciativa do Sindicato Químicos Unificados e com o objetivo de dar partida em um movimento que viesse a reorganizar as lutas de resistência contra a exploração capitalista e rumo à construção da sociedade socialista foi realizado um encontro entre representantes de diversos sindicatos de várias categorias profissionais, de entidades de trabalhadores e de movimentos sociais e populares no Fórum Social Mundial (FSM), em Belém/PA, no dia 29 de janeiro.
No FSM ficaram então estabelecidas as bases primeiras da vontade política e, desde então, o projeto tem sua implantação em um crescente.
Acompanhe em vídeo
Para que todos possam acompanhar o momento, a Intersindical e a Conlutas produziram um vídeo com as falas de representantes de várias entidades e movimentos que integram essa construção, tanto no próprio FSM como em Seminário Nacional realizado nos dias 19, 20 e 21 de abril, em São Paulo.
O vídeo também traz imagens das mobilizações de ruas nas atividades do Dia Nacional de Luta, em 30 de março último.
CLIQUE AQUI para assistir o vídeo
Próximos passos
No prosseguimento do projeto, estão previstos seminários regionais, estaduais e por categoria; um novo seminário nacional em outubro próximo; fortalecer as lutas nas fábricas e nas ruas contra as demissões e retiradas de direitos; e um novo Dia Nacional de Lutas já em junho próximo.

 

Comentários

Chicos del Pueblo’ critica redução da maioridade penal

Argentina

Adital

O assassinato de um homem cometido por um adolescente fez ressurgir no Congresso Nacional argentino o debate acerca da redução da maioridade penal. O crime ocorreu no último dia 15 de abril, quando Daniel Capristo estava na porta de sua casa, em Valentín Alsina, e foi atingido por nove tiros por um adolescente de 14 anos.

Alguns parlamentares defendem a redução da maioridade para os 14 anos; outros querem a adoção de o Regime Penal Juvenil específico para adolescentes de 14 e 15 anos. Na Câmara dos Deputados, a discussão dos projetos começou na semana passada. Onze textos estão em debate. No Senado, alguns textos também estão sendo analisados e a previsão é de que sejam votados amanhã (29). 

A redução da maioridade penal é criticada pelo Movimento Nacional dos Chicos del Pueblo. Em nota, o coordenador nacional do Movimento, Alberto Morlachetti, afirma que os responsáveis pela pobreza e pela insegurança não são esses meninos famintos "que pedem um pouco de amor, mesmo que seja de segunda mão".

Morlachetti denuncia que os legisladores de normas duras e penas severas não saíram em outros momentos a incentivar rebeliões, quando o neoliberalismo saqueava o país com privatizações enquanto amontoava pobres desamparados. Ele ressalta que atualmente 60% das crianças e dos adolescentes são pobres na Argentina e que a fome mata por dia 25 crianças, a maior parte é menor que um ano.

O regime especial para adolescentes de 14 e 15 anos prevê penas menores e diferentes daquelas aplicadas aos maiores de 18 anos. Esses adolescentes ficariam reclusos em institutos especializados e teriam direitos que até agora não possuem, como um julgamento para determinar se são culpados e a designação de um advogado de defesa.

A legislação atual estabelece que adolescentes de 14 e 15 anos não podem ser submetidos a processo. Para esses casos, um juiz é quem decide discricionariamente sobre a privação de liberdade em algum instituto, mesmo que a imputação não tenha sido provada. Para os de 16 e 17 anos, há um regime limitado. Estes podem ser penalizados e cumprem sua pena a partir dos 18 anos.

Comentários (1)

CNBB divulga declaração contra a redução da maioridade penal

Brasil

Adital -

   Esteve em pauta nas discussões da última sexta-feira (24), da 47ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada em Indaiatuba (SP), a redução da maioridade penal. Após refletirem sobre o assunto, os bispos se mostraram contrários à proposta do Senado Federal. Para eles, reduzir a idade penal não resolve o problema de criminalidade e violência no País.

A declaração aprovada pela CNBB afirma que "A redução da maioridade penal violenta e penaliza ainda mais os adolescentes, sobretudo os mais pobres, negros, moradores de periferias". Acrescenta que crianças, jovens e adolescentes não são responsáveis por ações violentas como muitas campanhas querem mostrar, e ressaltam que os verdadeiros culpados, muitas vezes, ficam impunes.

"A realidade revela que crianças, adolescentes e jovens são vítimas da violência. Muitas vezes são conduzidos aos caminhos da criminalidade por adultos inescrupulosos", informa o texto.

De acordo com a conclusão dos religiosos, é necessário buscar as verdadeiras causas para diminuir a violência no País. Entre os principais fatores geradores de criminalidade considerados pelos Bispos estão a desagregação e falta de estrutura familiar, desigualdade social, perda de valores éticos e religiosos, deficiência das políticas públicas sociais e o narcotráfico.

O documento enfatiza a importância de se desenvolver projetos socioeducativos, seja por meio da Igreja, seja por meio de movimentos sociais, que deem acesso a cursos profissionalizantes e tratamento para recuperação dos dependentes químicos. Os bispos ressaltam, ainda, o valor das ações educativas e não punitivas.

No final da declaração, o texto lembra a todos os brasileiros e brasileiras o cumprimento da premissa básica da Constituição Federal, em seu artigo 227: "Criança e Adolescente Prioridade Absoluta".

As matérias do projeto "Ações pela Vida" são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF 2008.

Comentários

Menos horas pro patrão, mais tempo pra revolução

  • Por Sérgio Domingues

8 horas para de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de educação. Este foi o lema da histórica greve que deu origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores. A greve foi marcada pela AFL, central sindical dos EUA. Esta central tinha acabado de ser fundada e, em 1864, marcou o início de uma greve geral pelas 8 horas para 1º de maio de 1886. A greve começou forte em Chicago e se espalhou por várias outras cidades.

Mas a luta pela redução da jornada já vinha de longe. Já em 1864, em sua fundação, a Internacional apontara para a redução e fixação da jornada de trabalho. A bandeira era fruto de várias greves que vinham desde os anos 1840/1850, nos países mais industrializados. Naquela época, os operários da Bélgica, França, Inglaterra já sabiam que quanto menos trabalhassem, menos seriam explorados. Sabiam que os lucros dos patrões vinham do trabalho não pago.

Mas os trabalhadores só queriam diminuir a exploração? Só queriam descansar o suficiente para repor as forças necessárias para continuar a ser explorados? Não. 8 horas de descanso, sim! Mas também havia as 8 horas de educação.

A burguesia assumiu o poder usando o poder econômico. Se apoderando de riquezas com que compravam e chantageavam reis, nobres, bispos, generais.

Mas a classe trabalhadora só tem sua força de trabalho e a força das idéias socialistas pra enfrentar a burguesia. Portanto, os trabalhadores precisam de tempo para aprender e cultivar suas idéias. Para se organizar e enfrentar os patrões. Para visitar outros operários, em outras fábricas. Para ler e escrever jornais, boletins, cartilhas e livros.

Até o início do século 20, os patrões tinham os jornalões e os operários tinham os boletins e jornaizinhos. Era muito desigual, mas ainda dava para competir. Hoje, continuamos com nossos jornaizinhos e a burguesia tem a TV, as rádios, o cinema. A maioria dos trabalhadores já não trabalha 16 horas por dia, mas sai do emprego e vai direto para casa assistir novelas, o Jornal Nacional, filmes, os ratinhos e os bóris casoys. Todos, de um jeito ou de outro, defendendo os valores dominantes. O que fazer?

Em primeiro lugar, é preciso aproveitar o pouco tempo livre que temos para aumentar nossa consciência. Porque a redução da jornada de trabalho não é só uma luta para diminuir a exploração e o desemprego. Também é uma luta para ganhar mais guerreiros pro nosso exército.

Em segundo lugar, não ficar só fazendo reuniões intermináveis, mas promovendo atividades culturais. Organizar vídeo-clubes e palestras com lutadores veteranos da classe trabalhadora. Publicar cartilhas e livros com as lutas dos trabalhadores no Brasil e do mundo. Formar grupos de estudo. Divulgar a cultura popular de resistência. Tudo isso pode e deve ser feito pelos sindicatos, centrais sindicais e partidos de esquerda.

Sem isso, a luta dos trabalhadores fica capenga. Fica sem o apoio que é fornecido pela consciência de que somente a própria classe trabalhadora pode romper suas amarras. O 1º de Maio continua sendo um marco na luta pela redução da jornada. Para melhorar a vida, criando empregos e oportunidades de lazer. Mas também, e principalmente, pra fazer a revolução!


Núcleo Piratininga de Comunica

Comentários

Flexibilização da jornada derruba conquista histórica da classe trabalhadora

Por Vito Giannotti, em abril de 1996

"Declaramos que a limitação da jornada de trabalho é a condição prévia, sem a qual todas as demais aspirações de emancipação sofrerão inevitavelmente um fracasso"

Essa frase foi escrita em 1866, como resolução da Conferência de Genebra da recém criada 1ª Internacional. Quem redigiu o texto foi Karl Marx. Foi nesta ocasião que os trabalhadores, em nível mundial, definiram a luta internacional pelas 8 horas.

A luta pela redução da jornada foi considerada pelo autor de O Capital, como a reivindicação central. A condição prévia, sem a qual todas as outras reivindicações estariam fadadas ao fracasso.

Como conseqüência desta deliberação, durante um século se fizeram inúmeras lutas pelas jornadas de 8 horas.

A lógica de Marx e da 1ª Internacional é simples. O capital tira seu lucro do trabalho não pago. Quanto maior a jornada, maior o lucro. Então, a classe operária deve lutar para acabar com a apropriação do lucro pelo patrão. Ou seja, diminuir a jornada é atacar o coração do mecanismo de acumulação do lucro.

Hoje, no mundo todo, a burguesia se esforça para quebrar a coluna vertebral da classe trabalhadora. Por isso, precisa derrubar a conquista do horário fixo de trabalho e, conseqüentemente, impedir qualquer tipo de redução da jornada. Ao contrário, ela precisa aumentá-la.


Núcleo Piratininga de Comunicação

Comentários

Emir Sader: A débâcle do jornal ‘Folha de S.Paulo’

A Folha era um jornal totalmente inexpressivo até a década de 70. Havia uma supremacia clara do Estadão, a Folha não tinha cara definida. Participou do coro de conclamação de toda a imprensa brasileira – menos a Ultima Hora - ao golpe militar de 1964, contribuindo à construção do plano de desestabilização do governo legitimamente eleito que teve a participação direta do governo dos EUA, assim como da hierarquia da Igreja Católica, dos partidos de oposição e das grandes entidades empresariais.

Por Emir Sader

Uma vez dado o golpe, o apoiou, assim como a instalação da ditadura militar, acobertou todos os crimes da repressão, reproduzindo as mentirosas versões oficiais, assim como todos os outros jornais.

Nos anos 70, Claudio Abramo assumiu a direção do jornal, na tentativa da família Frias de conquistar graus de credibilidade, que o jornal nunca tinha tido. A nova orientação, valendo-se da hegemonia da orientação liberal que triunfava na oposição, levou o jornal a ganhar uma identidade de jornal democrático, pluralista.

A abertura gradual de espaços opositores, depois da derrota da resistência armada, e o caráter conservador do Estadão, possibilitaram a aparição de um espaço que a FSP soube aproveitar.

A imagem da FSP como expressão da “sociedade civil” ficou graficada nas fotos que o jornal fazia anualmente com representantes dela, que eram fotografados em cima do prédio do jornal, pretendendo consolidar a marca do jornal como representante orgânico da sociedade civil, espaço opositor ao regime. Colunistas progressistas se somavam a espaços para artigos na pagina 3 de intelectuais e dirigentes opositores consolidaram essa imagem do jornal. A campanha pelas eleições diretas teve no jornal seu instrumento mais direto, enquanto as lutas sociais encontravam cobertura antes restrita à imprensa alternativa.

Essa imagem se consolidou e se prolongou mais além da direção de Claudio Abramo. Ao longo da década de 80 o jornal se beneficiou dessa imagem, que se firmou quando o jornal se colocou na oposição ao governo Collor, diferenciando-se do resto dos jornais. Foi o seu momento de maior prestígio e de maior tiragem. Dos seus leitores vinculados a partidos, a maioria era do PT. Tinha colunistas, às segundas-feiras, como Marilena Chaui, Florestan Fernandes, Paulo Sergio Pinheiro, Darcy Ribeiro, abrigava outros intelectuais de esquerda na sua página 3, dava cobertura jornalística que o diferenciava claramente do Estadão e do Globo.

O declínio da FSP veio com a ascensão de FHC ao Ministério de Economia do governo de Itamar e com o lançamento do Plano Real. Nesse momento o jornal já era dirigido por Otavio Frias Filho, acompanhando o mesmo mecanismo de oligarquia familiar que se dá no Globo, na Editora Abril, no Estadão. A combinação desses fatores apontou para a decadência irreversível do jornal desde o governo FHC, consolidando-se no governo Lula.

A identificação com a elite branca dos jardins paulistanos – em que coincide rigorosamente com a elite tucana – foi fazendo do jornal um componente essencial da nova direita brasileira. Neoliberal na economia, liberal com os traços autoritários e discriminatórios no social e no político, pretensamente sofisticado, mas na verdade provinciano no plano cultural.

A adesão expressa ao tucanato fez com que o jornal baixasse de mais de 600 mil exemplares de tiragem, a menos de 300 mil em 10 anos, com uma queda que não se detêm – apesar do esforço desesperado do apelo aos brindes. Além de que o publico do jornal ficou muito seletivo – centralmente tucanos e classe média alta e burguesia.

A adesão aos tucanos e a feroz e obscurantista oposição ao governo Lula fez com que o jornalismo perdesse toda qualidade. Tudo passou a ser editorializado no jornal. Todos os colunistas – à exceção de José Simão – passaram a ser iguais. O jornal chegou a cobrir as eleições internas do PT sob a rubrica do “mensalão”, a grande sacada jornalística do jornal, com que acreditou que derrubaria a Lula. Na sua histeria chegou a publicar na primeira página o artigo de um suposto psicanalista, que dizia que o governo Lula tinha assassinado a mais de 100 pessoas no acidente da Tam em Congonhas.

Houve uma radical perda de credibilidade da FSP, que era seu diferencial, tornando-se um jornal tucano e serrista, que editorializa todo o jornal, revelando uma incapacidade para compreender o governo Lula e sua imensa popularidade, assim como as transformações que o país vive. (O Força Serra Presidente é uma sacada muito real para caracterizar o tucanalhanato de todo o jornal, em particular da editoria política e dos cronistas políticos, assim como da família proprietária da empresa.) Alguns cronistas tentam enganar que fazem criticas de esquerda ao governo, mas não conseguem esconder suas penugens tucanas.

Intelectuais de esquerda são entrevistados a cada tanto tempo ou se lhes dá espaço de artigo, contanto que se reservem a criticar o governo e o PT, sem qualquer critica à direita, menos ainda ao monopólio de imprensa da direita.

O FSP (Força Serra Presidente) revela que vai jogar ainda mais pesado na campanha presidencial, em que seu candidato e eterno colunista será o candidato da direita. O episódio da “ditabranda” e o da publicação de uma ficha falsa da Dilma, retirada de um site de extrema direita, de ex-oficiais das FFAA a favor da ditadura, confirmam isso. A perda de assinaturas e de tiragem do jornal os exaspera, a crise econômica vai chegar em cheio a toda a imprensa escrita – já chegou à Editora Abril, salva por enquanto por Serra com a compra dos fascículos -, que tira muito menos do que dizem e se dão conta que vai minguando cada vez mais também as publicidades.

É o episódio final, sem pena nem glória, de uma imprensa que chancelou o golpe e a ditadura militar, foi o sustento central do governo FHC, foi derrotada duas vezes por Lula e se desespera com a hipótese de ter que ficar na oposição outro período mais. Nunca confessou, mas confirmou com o silêncio, ter emprestado carros da empresa para a repressão da ditadura. (Como se sentem supostos esquerdistas que trabalhar lá diante disso? Nem se pronunciaram sobre a “ditabranda”, revelando que já não lhes sobra nada de caráter, que estão plenamente comprometidos com a empresa, à qual muitos emprestam seus nomes para constar no comitê editorial.)

O filho do proprietário original é eleito e reeleito como editor chefe do jornal, reproduzindo o mecanismo de uma empresa de oligarquia familiar. Ele só ocupa esse cargo, porque é filho do seu pai, como seu nome indica. Nenhum outro mérito, salvo membro a segunda geração de uma empresa familiar. Nenhuma democracia rege na redação do jornal. O consolo é que, ainda que tivesse filho, não poderia colocar a sucedê-lo, porque é a ultima geração dessa imprensa escrita no Brasil.

Do Blog do Emir

Comentários

Ato contra o AI-5 Digital

A Internet é uma rede de comunicação aberta e livre. Nela, podemos criar conteúdos, formatos e tecnologias sem a necessidade de autorização de nenhum governo ou corporação. A Internet democratizou o acesso a informação e tem assegurado práticas colaborativas extremamente importantes para a diversidade cultural. A Internet é a maior expressão da era da informação. A Internet reduziu as barreiras de entrada para se comunicar, para se disseminar mensagens. E isto incomoda grandes grupos econômicos e de intermediários da cultura. Por isso, se juntam para retirar da Internet as possibilidades de livre criação e de compartilhamento de bens culturais de de conhecimento. Um projeto de lei do governo conservador de Sarkozi tentou bloquear as redes P2P na França e tornar suspeitos de prática criminosa todos os seus usuários. O projeto foi derrotado. No Brasil, um projeto substitutivo sobre crimes na Internet aprovado e defendido pelo Senador Azeredo está para ser votado na Câmara de Deputados. Seu objetivo é criminalizar práticas cotidianas na Internet, tornar suspeitas as redes P2P, impedir a existência de redes abertas, reforçar o DRM que impedirá o livre uso de aparelhos digitais. Entre outros absurdos, o projeto quer transformar os provedores de acesso em uma espécie de polícia privada. O projeto coloca em risco a privacidade dos internautas e, se aprovado, elevará o já elavado custo de comunicação no Brasil. Gostaríamos de convidá-lo a participar do ato público que será realizado no dia 14 de maio, às 19h30, em defesa da LIBERDADE NA INTERNET CONTRA O VIGILANTISMO NA COMUNICAÇÃO EM REDE CONTRA O PROJETO DE LEI SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO O Ato será na Assembléia Legislativa de São Paulo e será transmitido em streaming para todo o país pela web. PLENÁRIO FRANCO MONTORO ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE SÃO PAULO AV PEDRO ALVARES CABRAL S/N - IBIRAPUERA O Ato também terá cobertura em tempo real pelo Twitter e pelo Facebook. Contamos com a sua presença. Comitê Organizador

Comentários

Crise econômica: é hora de auditar a dívida, não de cortar gastos sociais

 

Do site da Auditoria Cidadã da Dívida

Dia 19 de março de 2009, o governo federal anunciou cortes de R$ 21 bilhões no orçamento deste ano, anunciando a suspensão de concursos públicos, o adiamento da contratação dos já aprovados, e a possibilidade de não honrar os acordos de reajustes do funcionalismo, firmados no ano passado. Tal medida se deve à forte queda na arrecadação, causada pela diminuição da atividade econômica. Ao mesmo tempo, mantém intocado o pagamento de uma dívida repleta de ilegitimidades, e que deveria ser auditada, conforme prevê a Constituição Federal de 1988.

Para 2009, estão previstos R$ 234 bilhões para juros e amortizações da dívida, sem computar os gastos com a chamada “rolagem”, ou seja, o pagamento de amortizações por meio da emissão de novos títulos. Se computarmos a “rolagem”, os gastos com a dívida chegarão a R$ 756 bilhões, o que significa a metade de todo o orçamento. Enquanto isso, para toda a folha de pessoal estão previstos somente R$ 169 bilhões, incluindo todos os professores, médicos, e demais servidores ativos, aposentados e pensionistas. Ou seja: o Brasil é um país no qual se gasta mais com a dívida do que com o pagamento de todos os seus funcionários! E quando ocorre uma queda na arrecadação, os servidores públicos é que pagam a conta! Outra grave conseqüência da crise é a queda nas transferências da União a estados e municípios, o que já está levando governadores e prefeitos a realizarem pesados cortes orçamentários.

Diante dessa situação de crise e desemprego, a saída mais óbvia seria o aumento significativo nos gastos sociais, de modo a fomentar a economia e gerar muitos empregos, com a construção de casas, obras de saneamento básico, reforma agrária massiva, etc. Porém, a dívida pública impede que estas medidas sejam tomadas.

Diante da crise, é fundamental que os bancos ofereçam empréstimos a juros baixos, e prazos longos, para que sejam criados novos postos de trabalho. Porém, os bancos têm preferido aplicar a poupança dos brasileiros nos títulos da dívida pública, que rendem os maiores juros do mundo, sem risco algum, ao invés de emprestar ao setor produtivo.

Em suma: a crise torna claro como a dívida pública é o centro dos problemas nacionais, e que precisa ser enfrentada, para que os trabalhadores não tenham de pagar a conta. É possível enfrentá-la, e a maior prova disso vem do Equador, onde o governo chamou a sociedade para participar da auditoria oficial da dívida e, respaldado nas conclusões do relatório da auditoria e nos documentos que comprovam inúmeras ilegalidades, tomou a decisão soberana de suspender pagamentos aos bancos privados internacionais dos juros dos “Bonos Global”.

Solidarizamos-nos com os servidores públicos e reforçamos o convite à participação da luta pela auditoria da dívida, que agora pode se tornar oficial também no Brasil, tendo em vista que já foi criada a CPI da Dívida na Câmara dos Deputados. Solicitamos às entidades que entrem em contato com os líderes dos partidos na Câmara, para que estes indiquem seus representantes na CPI, possibilitando assim o início dos trabalhos de investigação do processo de endividamento brasileiro, medida fundamental especialmente neste momento de crise.

Coordenação da Auditoria Cidadã da Dívida

Brasília, 20 de março de 2009

CLIQUE AQUI PARA AJUDAR A INSTALAR A CPI

Comentários

« Publicações anteriores ·