* Tiago Fappi – Historiador
Militante do Psol Osasco
Recentemente assisti a um filme que está verdadeiramente mexendo com a cabeça das pessoas, cujo ensejo é uma alusão a uma sociedade desconhecida e cheia de mistérios. O nome do tal filme é Avatar, do diretor estadunidense James Cameron. Uma produção cheia de recursos eletrônicos e efeitos especiais.
Desde o dia que comentei com meus amigos que tinha finalmente visto o filme eu venho sendo cobrado para apresentar um parecer, uma avaliação, sobre o filme. Sendo assim decidi que a melhor maneira de fazê-lo seria através de um pequeno texto, pois assim posso expor com mais propriedades aquilo que penso.
Para meter o nariz numa obra do âmbito de Avatar é preciso levar em consideração alguns elementos, sobretudo o fato de James Cameron ser estadunidense e ter feito o filme de olho no público daquele país. Apesar de viver em uma sociedade cujos valores são permeados pelo sentimento do medo, do ódio, da guerra, o filme apresentou uma perspectiva progressista o suficiente para se diferenciar dos demais filmes Hollywoodianos.
Tente se lembrar, o início do filme apresenta forças militares em uma missão de ocupação de um território, totalmente coberto por uma densa e desconhecida selva, habitada por seres “selvagens” totalmente hostis. A missão do mocinho do filme, fundamentalmente, era a de auxiliar os militares num plano de invasão do território dos Na’Vi, no entanto, este acaba se adaptando ao universo deste povo, se apaixonando pela filha do comandante e, por fim, salvando toda a sociedade e tornando-se o chefe máximo. Eis que começam os problemas.
Apesar de muito lindo, com uma história fantástica, o filme acentua uma idéia, comum ao público estadunidense, mas muito cara para toda a América Latina. Tenho de corroborar aqui com as criticas que foram feitas pela jornalista Elaine Tavares, em uma matéria intitulada “Outro fim para Avatar”, publicada no jornal Brasil de Fato.[1] Neste artigo Tavares aponta uma verdade, nestes filmes hollywoodianos “o autóctone parece nunca ser capaz de tomar o destino de seu povo nas mãos. Terrível metáfora de todos nós”. Ela critica duramente o fato de o herói da história ser um americano típico, engraçadinho, sortudo, que vem para resolver todos os problemas, que por fim se casa com a filha do chefe dos Na’vi, tornando-se ele próprio o chefe. Quando a sociedade autóctone se torna verdadeiramente ameaçada é o homem de fora, o “mariner”, o grande salvador da pátria. Tavares imaginou um outro final para o filme, ponderando que talvez o próprio filho do chefe dos Na’vi, ex-noivo da mocinha azul, devesse ser o encabeçador e salvador daquela sociedade a qual ele sim pertencia, sem, deixar, é claro de ter aceito o terráqueo. Fez ainda alusão que na América Latina vivemos muitos Avatares, em Cuba, Haiti, Bolívia, Equador, Venezuela . . .
No entanto, eu apontaria outros elementos. No exato momento em que assistia ao filme, mais precisamente em uma cena em que o “mocinho” diz “eles não querem calças jeans e cervejas. Sinto muito, eles não deixaram a sua árvore”, logo me veio a mente a sociedades dos Andes. Os EUA tentam constantemente empurrar garganta abaixo daquela gente, através de elites locais cooptadas – os Na’vi criados em laboratório – a idéia da legalidade de decretos sobre investimentos ligados ao petróleo na selva. Até agora já foram 34 mortos em confrontos entre policiais e indígenas.[2]
Em outras cenas do filme, diria, na maior parte dele, me lembrei das ações de empresas ganan-ciosas, das corporações, multi nacionais, mineradoras, do setor de cosméticos, tal como a Natura, a Unilever, que invadem, matam, desmatam, destroem todo o ecos-sistema de regiões amazônicas, empresas como a Shel, a Cia Vale
do Rio Doce, nada mais são que aquela grande empresa do filme Avatar, disposta a desalojar toda uma sociedade, destruir todo o meio ambiente com um único objetivo, o lucro.
Lembrei-me também dos muitos lutadores, Avatares da vida real, como Dorothy Stang, morta a tiros por defender os interesses dos autóctones do Pará, vitimados pelos conflitos agrários. Antes de ser morta seu assassino perguntou “Você está armada?” e Dorothy respondeu “eis a minha arma!”, mostrando uma biblia ao seu algoz. Foi morta com sete disparos.
Lembrei-me de Chico Mendes, morto defendendo a Amazônia, do Pe Ruggero Ruvoletto, morto em Manaus por criminosos, de dom Luiz Flávio Cappio, exímio defensor dos interesses dos autóctones do “Velho Chico”, mas sobretudo um me veio a mente em todo momento, SubComandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional.[3]
De identidade desconhecida, vive entre dois mundos, um anônimo na sociedade estritamente urbana e o grande Subcomandante entre os indígenas de Chiapas, no México. Segundo sua própria definição é :
"Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestiniano em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, rockero na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e agüentar. Todos os intolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos."[4]
Embora o filme Avatar apresente um final feliz, infelizmente, não é o que vemos na vida real. A luta em Chiapas acontece desde 1994, no entanto, as ambições de multinacionais e empresas insaciáveis por lucros exorbitantes continuam ameaçando a integridade das comunidades indígenas.
É interessante como o filme apresenta uma realidade já em curso. A busca pelos minerais e outros recursos naturais, tão preciosos a fabricação de bilhões de objetos desnecessários,[5] já está pondo fim a um ciclo que teve início há milhões de anos. Então, quando tudo estiver destruído e esgotado o homem irá destruir e esgotar o mundo do outro.
Desta forma, acredito ter esmiuçado minimamente – uma vez que poderia citar milhões de coisas que me irritam diariamente – algumas razões que me levaram a ver em Avatar algo de produtivo. Infelizmente eu compreendo que muitas pessoas que assistiram este filme, ainda assim, irão defender, de modo despolitizado, em sem culpa,[6] ações arbitrarias da polícia contra um indígena, contra um trabalhador em greve, um estudante na rua.
Tenho certeza que se Willian Bonner pudesse ler este texto, certamente, ao final, ele iria dizer que eu sou um “Bicho”, um selvagem, um monstro a ser extirpado da sociedade. No entanto, mais uma vez, voltando ao filme, são os novos Na’Vi, a cientista e o soldado, os novos bichos, os novos selvagens, os artífices da salvação daquele povo. Engraçado é que os soldados do exército invasor, incapazes de enxergar a realidade daqueles cientistas, seguiam cegamente as ordens de um militar maluco, no entanto, aqueles que tomaram contato com as informações alternativas, por fim, apoiaram a decisão da cientista e do soldado de se unirem aos Na’Vi.
Gostaria que as pessoas entendessem a mensagem daquele filme e não ficassem presas apenas aos fatos românticos e tecnológicos do filme. Gostaria que questionassem as informações oficiais e buscassem entender os bastidores defendidos pelos “bichos da sociedade”, como costumam nos chamar a Veja e a rede Globo. Política se faz em qualquer dia, a qualquer momento. O mocinho azul do filme fez política sem estar coligado a partido algum. Se ele fosse brasileiro certamente ele não votaria nem no Serra, nem Lula e muito menos em Marina Silva.
Gostei muito do filme, com ele eu poderia trabalhar diversas aulas diferentes, no entanto, entre o Avatar do cinema e o Avatar da vida real, eu ainda fico com o da vida real, mesmo não tendo um casal apaixonado e um final feliz. A América Latina ainda precisa de muitos Na’Vi para a defesa da nossa grande árvore mãe.
O Avatar na vida real!!!
Assista o traller do Filme
[1] - Cf. Brasil de Fato. 28 de janeiro a 3 fevereiro de 2010. Pag.12.
[2] - Cf. http://www.radiomundial.com.ve/yvke/noticia.php?25891
[3] - Adotou o pré-nome “Subcomandante” pois o comandante em chefe são autóctones da região.
[4] - Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Subcomandante_Marcos
[5] Ex. Um carro para cada habitante ao invés de transporte coletivo de qualidade. Estradas como principal via de transporte ao invés de ferrovias e meios fluviais. A lógica do lucro ao invés da lógica da vida.
[6] - Uma vez que as concessões de Mídia, Jornais e TVs ainda estão concentradas nas mãos de apenas doze famílias, isso mesmo, doze família, que buscam decidir o que temos de ver e o que devemos considerar como bom. Eu sou um singelo exemplo de que nem sempre eles conseguem.