Arquivo de 4 de Março de 2010

O Projeto Popular em 2010

Escrito por Frederico Santana Rick

25-Fev-2010 – Correio da Cidadania

eleicoes2010 Em 1997, lutadores e lutadoras dos movimentos populares e militantes comprometidos com um Projeto Popular para o Brasil, após intensas marchas do MST, realizaram a Conferência de Itaici. Estavam ali grandes lideranças de todos os estados e segmentos sociais da esquerda brasileira, incluindo diversos partidos, movimentos rurais e urbanos, pastorais e sindicais. A preocupação era uma só: o resgate de valores e práticas militantes rumo à transformação do Brasil, através da construção de um amplo processo de participação do povo nos destinos da nação. Isso exigia retomada do trabalho de base, da formação política e das lutas de massa.

Da Conferência de Itaici nasce a convicção da necessidade de se construir um grande mutirão, uma Consulta Popular. Desde o início, a questão colocada não era a simples conquista do Estado através das eleições, mas fundamentalmente a necessidade de permitir que o povo brasileiro tomasse seu destino em suas mãos. Construir com o povo as bases de um projeto de nação. Para isso afirmamos que necessitávamos "refundar a esquerda", pois só assim "refundaríamos o Brasil". O caminho hegemônico, que vinha sendo trilhado, e que tinha como bússola exclusivamente a busca de mais espaço na institucionalidade, através da eleição de vereadores, prefeitos, governadores, senadores e enfim, do presidente, pouco a pouco deixou claro o preço que exigia. A esquerda aumentou sua participação em governos, mas a que preço? Perdemos a referência militante na luta de classes e o horizonte estratégico.  

O resgate de valores e práticas militantes - lutadores e lutadoras do povo que trazem consigo a mística, a entrega, a ousadia, a dedicação, o estudo e a disciplina para construir outra sociedade – passou de necessário para urgente, urgentíssimo, ao longo dos anos 2000, principalmente após os dois mandatos do presidente Lula. Nesse processo, um conjunto cada vez maior de lutadores foi percebendo essa necessidade. A fragmentação que existia antes do surgimento do PT, e que de certa maneira se manteve representada através das suas muitas tendências internas, e ainda do PC do B e PCB, dentre outros, veio à tona ao longo da década. Essa divisão de projetos e propostas rumo à construção do Brasil do povo brasileiro se expressou em candidaturas diferentes em 2006, e irá novamente se expressar assim em 2010.

Existe base social popular, lutadores e lutadoras do povo, e mesmo militantes, junto às candidaturas identificadas com a esquerda que se apresentarão para escolha do povo brasileiro em outubro desse ano. Lutadores e lutadoras que aprenderam lutando contra a escravidão, contra a ditadura Vargas e a dos militares/civis de 64, durante a Guerra Fria, contra as ditaduras na América Latina, mas também com as experiências de governos populares e movimentos revolucionários, daqui e de outros continentes. Aprenderam com a atuação do império dos Estados Unidos ao longo do século. Atuação hoje tão visível quanto sempre, haja vista a militarização da ajuda humanitária no Haiti, o golpe de Honduras, as bases militares na Colômbia, seu governo a serviço dos EUA, e o golpe de 2002 na Venezuela. E de outro lado, nesse momento temos oportunidade ímpar de aprender com os governos latino-americanos, que colocam em curso um projeto de integração latino-americana baseado na solidariedade entre os povos, a ALBA (Aliança Bolivariana Para as Américas). Lutadores que aprenderam com a Teologia da Libertação e a prática militante que valoriza a mística, a espiritualidade e a afetividade.

Para os lutadores e lutadoras brasileiras é fundamental aprender com a experiência do governo brasileiro, que deveria ser dos trabalhadores e trabalhadoras, mas não o é. Prefere ser da conciliação, e com isso conforma toda uma militância nessa prática. Prefere ser do Mercosul, e exercer um papel sub-imperialista na América Latina, abrindo caminho para a ganância das multinacionais. Prefere conciliar a ter a coragem que Celso Furtado pediu em janeiro de 2003 na primeira página do primeiro número do jornal Brasil de Fato. Prefere assistência à emancipação.

A esquerda militante, antes de colocar seu sectarismo e vanguardismo em ação, terá de compreender que os demais lutadores e lutadoras do povo, que estão atuando sob o propósito da social-democracia (se tanto!), estão tendo oportunidade de se confrontar com tais distinções de projetos. Além, de como já dito, terem tido vários aprendizados. Se é assim, devemos nos perguntar: porque não está fácil refundar a esquerda e construir como horizonte a Refundação do Brasil? 

Parece-nos que mais que ‘ver’, é preciso fortalecer a capacidade de ‘julgar’ e ‘agir’ dos milhares de lutadores e lutadoras do povo. O aprendizado precisa se materializar em nova prática política. Essa prática precisa gerar novos coletivos. Esses coletivos produzirão novos valores e práticas. Esses novos valores e práticas precisam estar conectados com outros coletivos e práticas. Essa força material e espiritual nasce do trabalho de base, do objetivo e clareza da necessidade do Projeto Popular. Aquele trabalho de base de 1997 segue sendo a urgência que temos em 2010.

Esse trabalho de base é para ser feito não só para fora, como fermento na massa, mas também entre nós, lutadores e lutadoras do povo.

O projeto em movimento

Desse trabalho de base nasceu em 1999 a Marcha Popular pelo Brasil, um feito memorável que constituiu um grande exemplo pedagógico. Nasce também a consulta popular na forma de plebiscito, em 2000, sobre as dívidas externa e interna e sobre a base militar que os EUA queriam instalar em Alcântara. Coroando o Grito dos Excluídos e a 3ª Semana Social Brasileira, puxada pelas pastorais sociais e movimentos.

Com essa luta conseguimos barrar a base dos EUA no nosso território. Vitória nossa. Em 2002 realizamos outro plebiscito, dessa vez para barrar a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Vale lembrar que o neoliberalismo, as mídias, o próprio presidente e mesmo parte da oposição davam como certas sua implementação, estavam dispostos a negociar apenas os termos nos quais a ALCA seria implantada. Nós barramos o pacote tal como veio, não só no Brasil, mas no continente.

Em 2005 a confluência das forças do Projeto Popular avança organizativamente na construção da organização da Assembléia Popular – Mutirão por um novo Brasil, realizando encontro nacional com 8.000 pessoas. Conseguimos também encantoar a Vale do Rio Doce e sua chacina ao meio ambiente e aos trabalhadores com o terceiro plebiscito popular que realizamos em 2007. A empresa, após mudar de nome, segue sendo foco da pressão social.

É preciso que o povo brasileiro construa seu projeto experimentando-o, tentando construí-lo. Ao fazer isso, coloca em movimento suas idéias, anseios e demandas. Seu Projeto, seu aprendizado, se tornará vivência. Será identidade. A solidariedade e capacidade de se indignar são molas propulsoras desse aprendizado. Os lutadores e lutadoras do povo que forem se despertando para a militância em comunhão com a libertação do povo brasileiro se confrontarão com as velhas práticas (paternalismo, caudilhismo, currais eleitorais, assistencialismo, busca de construir a imobilidade via o tutelamento e o "deixa que eu faço", "deixa que o vereador aqui do bairro consegue" (ou "o deputado da nossa categoria"). Esse aprendizado é rico.

Mas também a luta que se trava pelo Projeto Popular pelos que estão embrenhados na disputa institucional precisa avançar em seus aprendizados. Há duas formas de fazer com que isso ocorra. Podemos buscar inserir os militantes que já estão atuando nesse segmento dentro da construção dessa nova estratégia. E outra iniciativa é atuar com coerência na institucionalidade, deslocando quadros políticos que atuem como exemplo pedagógico.

Não nos iludamos. Não há trabalho de base por osmose. Não há permanência da coerência e do respeito ao projeto coletivo maior, fora desse coletivo e dessa centralidade. É preciso organizar os militantes estejam eles atuando em que espaço for. É na célula partidária (no sentido de tomar partido e assumir para si um compromisso que é com o Projeto - chamem esse projeto de Reino de Deus ou de socialismo, traduzido na sua estratégia e na sua tática), que se forma o novo homem e a nova mulher.

Arregacemos as mangas. 2010 não é só eleição, mas também luta

Em setembro de 2010 teremos mais um plebiscito popular. Esse, como os demais, toca em um ponto fundamental se queremos refundar o Brasil em novas bases: o limite da propriedade da terra e a reforma agrária. Motivo do acirramento da disputa entre o projeto das elites e o popular ao longo dos séculos na história brasileira, igualmente vivo e significativo nos dias de hoje. Em 2010 teremos também uma marcha das mulheres, de 8 a 18 de março, entre Campinas e São Paulo. Será ainda o ano da II Assembléia Popular Nacional, de 25 a 28 de maio.

Como vemos, elevar nosso próprio nível de consciência, através da formação, nossa capacidade de trabalho de base e de lutas que garantam conquistas para o povo (hoje somos 14 milhões de brasileiros que passam fome, milhares de sem teto, sem terra, sem universidade, sem trabalho, mulheres mercadoria, crianças que não deveriam ser "de rua"), é nossa tarefa para 2010 e até que nós tenhamos o nosso destino em nossas mãos. Até que um verdadeiro Projeto Popular se realize, e seja o motor, prática e identidade dessa nação.

Frederico Santana Rick é cientista social e militante da Consulta Popular e da Assembléia Popular.

 

1. Escrito por Raymundo Araujo Filho

Falso Plebiscito e Vanguarda às Avessas

A leitura do artigo extanquisada de sua intencionalidade e interlocução dirigida, isto é, do ponto de vista apenas teórico, pode lá ter seus atrativos. 
Porém, quando contextualizamos e lemos o sub texto, não podemos deixar de discordar, sob alguns aspectos, alguns fruto de alguma ilusão, causada, certamente, pela sincera vontade do autor em ter a Justiça Social minimamente (se não máxima) realizada entre nós. 
A começar, pelo enunciado do tal "plebiscito" eleitoral que ele diz se aproximar. Primeiramente que não vejo como plebiscito, até porque as macro propostas e macro diretizes dos principais candidatos (refiro-me a Dilma, Serra e Marina)são as mesmas, isto é, total adaptação aos ditames capitalistas, tendo o Brasil uma posição politicamente de destaque, muito mais por esta adesão e subserviência, do que outra coisa qualquer. 
Depois, porque nenhum dos candidatos está propondo o que o autor diz como "o caminho que queremos seguir". O "limite da propriedade da terra e a reforma agrária" não está na pauta estratégica de nenhum candidato (uns ainda o mencionam figurativamente…).  
O máximo que o Programa do PT fez foi pedir a "descriminalização dos Movimentos Sociais- parece até que é FHC o presidente…. E, como o próprio presidente do PT, o Dutra, disse em entrevista “O programa que o PT apresenta à coalização é uma coisa. O que o governo vai aprovar e fazer é outra. Cumprimos a nossa obrigação". 
E, acho que era hora de parar de chamar de "vanguardistas e sectários", os divergentes à esquerda, desta posição complascente com o governo e o Lullo Petismo, sob a falácia que nós combatemos "os lutadores e lutadoras sociais", quando o que fazemos é criticar as lideranças e "vanguardas internas", quase todas cooptadas ideologica e muitos materialmente pelo Lullo Petismo, para operarem a Anestesia Social, quer saibam disso ou não (eu acho que a maioria sabe).  
E, de preferência, dar a relevância necessária à frase "Não há trabalho de base por osmose". Eu acrescentaria "não há Socialismo ou Anti Capitalismo por osmose".  
Se não estivermos, a todo o momento, levando esta mensagem ao Povo, assim como a palavra de Jesus Cristo, que dizem que foi levada, mesmo nos tempos mais difíceis, sempre à frente de tudo, não ficará ninguém para continuar a tarefa, por falta de informação. E, se a nossa massa de Trabalhadoras e Trabalhadores do Povo está ainda em um nível de primarismo nas suas formulações políticas e ideológicas, grande parte disso deve-se à conduta complascente de muitas lideranças, com a política institucional e governantes, acudidos por falsas "disputas de projeto" e parcas verbas para seus projetos.

2. Escrito por Daniel Lage

Arregacemos as mangas

Belo texto. 
Mas vejo com preocupação o fato de pessoas mobilizadas na cidade defenderem como bandeira principal a reforma agrária. Entenda que não sou contra nem vejo como questão secundária a reforma agrária, mas creio que para trabalhos de base na cidade há questões específicas do meio urbano que podem ser exploradas no conjunto organizativo.  
Questões que mobilizam e organizam pessoas nos bairros e comunidades onde nossa esquerda chega com poucos recursos e preparo, e onde a reforma agrária não é uma questão cotidiana.

3. Escrito por Hélio Q. Jost

Projeto popular em 2010

Prezado Daniel.As reivindicações devem ter caráter universal. Seja em favor das cidades (saneamento, emprego, etc) seja em favor do campo. Aliás a recente migração rural para as cidades, tem gerações inteiras ainda vivas e com alguma ligação rural. O certo é que, -e os cientistas sociais que me desmintam-, o atual modelo de cidades está falido e necessitamos urgentemente de uma nova redistribuição espacial, preferencialmente para o interior, o que custará ao poder público bem menos que no modelo atual, gerador de desemprego, desigualdades, insegurança e criminalidade. Nossas cidades sim, e não os acampamentos dos movimentos sociais, é que são um barril de pólvora que, aliás, já explodiu e faz suas vítimas na marginalidade, no tráfico, na falta de habitação, etc. etc. etc. A reforma agrária, portanto, não é uma questão de escolha. É a única saída. Que Lula não logrou oportunizar.

Comentários

08 DE MARÇO - Mulheres marcharão 100 km de Campinas a São Paulo

3359dbcdedce80fdd5d6b043fee4bb8a

Faixa alusiva à 3ª Marcha Mundial das Mulheres - 2010

Dia Internacional da Mulher - Ação da Marcha Mundial de Mulheres sairá de Campinas no dia 8 de março

Entre os dias 8 e 18 de março, a Marcha Mundial das Mulheres organizará sua 3ª Ação Internacional no Brasil. Neste período, 3 mil mulheres – a previsão toma como base as inscrições já realizadas -  de todas as regiões do país farão uma caminhada entre as cidades de Campinas e São Paulo. 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher.

 

Cartaz.indd

Cartaz da 3ª Marcha Mundial das Mulheres, em 2010,
que se iniciará em 08 de março próximo

 

O lema das mobilizações é “Seguiremos em Marcha Até Que Todas Sejamos Livres”, e a mobilização se baseia em quatro pontos principais: a) autonomia econômica das mulheres; b) bens comuns e serviços públicos (contra a privatização da natureza e dos serviços públicos); c) paz e desmilitarização; e d) violência contra as mulheres.
Formação
Durante o trajeto, com saída de Campinas, as caminhantes passarão por Valinhos, Vinhedo, Louveira, Jundiaí, Várzea Paulista, Cajamar, Jordanésia, Perus e Osasco, concluindo em São Paulo. Além da caminhada pela manhã, no período da tarde, as mulheres participarão de atividades de formação sobre diversos temas, entre os quais: trabalho doméstico; saúde da mulher e práticas populares de cuidado; sexualidade, autonomia e liberdade; educação não sexista e não racista; economia solidária e feminista; soberania alimentar, reforma agrária e trabalho das mulheres no c ampo; agroecologia; biodiversidade, energia e mudanças climáticas; políticas de erradicação da violência doméstica e sexual; tráfico de mulheres e direito ao aborto.
Início com ato público
No Dia Internacional das Mulheres – 08 de março - um grande ato público em Campinas marcará o lançamento desta 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial de Mulheres. No meio da caminhada, no dia 13, haverá uma ação pública em Várzea Paulista, onde será lançado o livro sobre o histórico da data.  Em Perus, no dia 16, o debate sobre paz e desmilitarização contará com a presença da filha mais velha do revolucionário Ernesto Che Guevara, a pediatra cubana Aleida Guevara.  E o encerramento da Ação será em São Paulo, quando as caminhantes farão um balanço da Marcha e planejarão seus próximos passos.
No calendário internacional de lutas do movimento feminista em 2010, o segundo período de ação ocorre rá de 7 a 17 de outubro, com novos atos e marchas simultâneas que se encontrarão em Sud Kivu, na República Democrática do Congo.
Sobre a Marcha Mundial das Mulheres
A Marcha Mundial das Mulheres nasceu em 2000 como uma grande mobilização contra a pobreza e a violência. Naquele ano, as ações começaram justamente em 8 de março e terminaram em 17 de outubro (Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza), organizadas a partir do chamado “2000 Razões para Marchar contra a Pobreza e a Violência Sexista”.

Marcha das Mulheres em 08 de março de 2005,
na avenida Paulista, em São Paulo

 

A inspiração para a criação da Marcha partiu de uma manifestação realizada cinco anos antes (em 1995), no Canadá. Na ocasião, 850 mulheres marcharam 200 quilômetros, pedindo, simbolicamente, “Pão e Rosas”. A ação marcou a retomada das mobilizações das mulheres nas ruas, fazendo uma crítica contundente ao sistema capitalista como um todo. Ao seu final, diversas conquistas foram alcançadas naquele país, como o aumento do salário mínimo, mais direitos para as mulheres imigrantes e apoio à economia solidária.
Histórico de ações internacionais
A Marcha Mundial das Mulheres já realizou duas ações internacionais, em 2000 e 2005. A primeira contou com a participação de grupos de 159 países e territórios. No ano de lançamento da Marcha, as militantes entregaram à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, um documento com 17 pontos de reivindicação, apoiado por cinco milhões de assinaturas.
A segunda ação mundial, em 2005, novamente levou milhares de mulheres às ruas. A Marcha construiu a Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade, em que expressa sua visão das alternativas econômicas, sociais e culturais para a construção de um mundo fundado nos princípios da igualdade, liberdade, justiça, paz e solidariedade entre os povos e seres humanos em geral, com respeito ao meio ambiente e à biodiversidade.
De 8 de março a 17 de outubro daquele ano, as feministas construíram uma grande Colcha Mosaico Mundial de Solidariedade, composta por um retalho de cada país. Tanto a carta quanto a colcha viajaram por 53 países e territórios dos cinco continentes.

e63b2d2e9285c2fb94b0475d4836f231

Grupo das Mulheres na passeata de abertura do
Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre/RS

Mais informações
Mais informações sobre a Ação de 2010 da MMM em
www.sof.org.br/acao2010 . Contato com a imprensa Ana Maria Straube pelo e-mail anamaria@sof.org.br e fones (11) 3819.3876 e (11) 8445.2524.

Por Ana Maria Straube – Ação 2010 da MMM

DO UNIFICADOS:

Você oprime?

Mais um Dia Internacional da Mulher. Nos próximos dias, milhares de companheiras marcharão pela rodovia Anhanguera no trajeto Campinas/São Paulo, com chegada prevista para o dia 18. É a terceira edição da Marcha Mundial das Mulheres, que ocorre também em diversos outros países.
O que faz com que estas companheiras assumam cumprir, em nossa região, tão dolorosa caminhada de100 kms, sob imenso calor ou chuva, com refeições de forma desconfortável, banheiros improvisados e dormindo precariamente, entre tantas outras dificuldades?
O que as move é o desejo de quebrar as algemas da opressão, da discriminação, de ser só objeto sexual, do preconceito e do machismo que sofrem diariamente, no trabalho e em casa. É a luta pela liberdade do corpo e do ser, da própria vida! Uma vida que é dela, única e finita, e que , na prática, não pode ser vivida plenamente.
Mas quem é que coloca as algemas da opressão nas mulheres?
Tudo bem… existe a indústria da moda, a da “beleza”, o explorador capitalismo, a alienação e a futilidade das mídias “para a mulher”. Tudo isso é significativo. No entanto, em casa, no local de trabalho, como é que cada um de nós trata a companheira?
Quem participa ativamente das tarefas domésticas? Quem respeita as limitações sexuais da companheira? Quem as trata de igual para igual, entende suas características naturais, não apela para rótulos tipo fracas, choronas, reclamonas, gastadoras, frias…?
Quem as trata assim não é “a sociedade”, enquanto algo abstrato, indefinido, sem nome e sem rosto. Quem as trata assim, uma a uma, entre quatro paredes, sou eu e é você, é o amigo de fábrica, de bar, de futebol… Ou seja, o opressor das mulheres somos nós mesmos. Eu e você! Assim, hoje as mulheres marcham também em razão da forma pela qual eu e voc ê as tratamos.
A sociedade tem que mudar… Mas isso somente ocorrerá quando, cada um de nós, individualmente, antes, mudar o próprio comportamento.
E este 8 de março é uma ótima oportunidade. Eu e você, vamos todos deixar de sermos opressores e passar a companheiros de verdade.
Assim, cada um de nós, de mudança em mudança, um dia mudaremos a sociedade.

8 de Março, Dia Internacional da Mulher e dia de luta

Seus salários são menores. Elas têm dupla ou tripla jornada de trabalho (acumulando empregos fora de casa e cuidando sozinhas dos serviços domésticos). São inferiorizadas por padrões de beleza impostos pela indústria de cosméticos, vestuário, etc. São as maiores vítimas da violência dentro de casa. Muitas vezes, são as que levam a culpa por serem estupradas e mortas. Quanto pior a situação econômica, mais vulner áveis elas estão.
Apesar de conquistas, como o direito ao voto, descoberta da pílula anticoncepcional e maior inserção no mercado de trabalho, as mulheres ainda hoje sofrem ofensas e abusos de todo tipo.
Por isso, neste 8 de março, vamos dar e receber flores, em homenagem ao Dia Internacional das Mulher. Mas, vamos também lembrar que a luta por respeito e igualdade deve ser feita em todos os dias do ano, junto com a luta pela libertação de toda a classe trabalhadora.
Mais do que flores e presentes, a data marca a necessidade de se romper preconceitos e discriminações
Data tem origem na luta de classes
A luta pela libertação da mulher nasceu junto com a busca da transformação de toda a sociedade pelos trabalhadores, no fim do século XIX e começo do século XX. Em diversos países que iniciavam a industrialização, mulheres e crianças eram a maioria nas fábricas, sob longas jorna das e péssimas condições de trabalho. Greves e manifestações fervilhavam nas cidades americanas e na Europa.
Não há consenso do porquê da escolha de 8 de março. A versão mais disseminada é a de que nessa data, em 1857, 129 tecelãs teriam sido queimadas vivas pelos patrões que as tinham trancado em uma fábrica durante um incêndio, em Nova Iorque. Mas, estudiosos como Naumi Vasconcelos, professora da UFRJ, afirmam que esse incêndio, nessa data, nunca aconteceu.
Em 1914, Clara Zetkin (1857-1933), dirigente do partido Comunista Alemão, propôs que 8 de março marcasse a luta contra a dominação das mulheres pelos homens numa perspectiva socialista.
A data não remetia a nenhum acontecimento especial. Depois de três anos, em 23 de fevereiro do calendário russo, que correspondia a 8 de março no ocidente, uma greve espontânea das costureiras de Petrogrado foi o estopim da onda que culminou na Revolução Russa. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) institui u 8 de março como o Dia Internacional da Mulher.

Fonte: NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação - www.piratininga.org.br/

O Dia da Mulher Nasceu das Mulheres Socialistas, de Vito Giannotti.

Comentários

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Brasil

Escrito por Daniel Chutorianscy

25-Fev-2010 – Correio da Cidadania

cerebro O Acidente Vascular Cerebral no Brasil não é causa grave para Saúde Pública, e sim Segurança Nacional.

No Brasil, morrem por ano 250.000 pessoas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) - ou "derrame". Quem sabia isso? E ainda mais, milhões de brasileiros ficam seqüelados, tornando-se "invisíveis" para a sociedade. Ninguém sabe, ninguém viu….

É a maior causa de mortes no país, superando infartos, câncer, acidentes de trânsito. Esses dados são fornecidos pelo canal oficial de informações do governo, a TV Globo (novembro 2009, "Bom Dia Brasil"). Talvez seja muito mais. Quem sabe?

A cifra de 250.000 é um número assustador, corresponde ao tamanho das guerras e tragédias como furações ou "tsunamis". E ninguém sabe nada disso… Perguntamos: como é que pode, nenhuma informação ou prevenção?

Para os governos atuais ou do passado, trata-se do fenômeno da "invisibilidade", não vê, não existe, não toma nenhuma medida e deixa rolar.

Certamente existe uma vinculação imediata do AVC com as indústrias de fumo, álcool, drogas (lícitas ou ilícitas), alimentação (o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, o transgênico tomou conta do mercado do consumidor brasileiro), baixíssimos salários, hipertensão, diabetes e o "tigre nosso de cada dia" que é o estresse de enfrentar essa realidade alienadamente, uma espécie de "AVCerização" social. Um sistema de saúde (saúde?) moribundo, com a mídia propagando aos quatro ventos o consumo de bens pouco duráveis, repetindo a "invisibilidade" com o mesmo bordão: "não vê, não existe… e deixa rolar". A doença não traz lucros institucionais.

O acidente vascular cerebral é uma interrupção do circuito cerebral. Pode ser de dois tipos: isquêmico (85% dos casos) e hemorrágico (15% dos casos). Saiba você que até quatro horas após um incidente de AVC isquêmico, pode-se usar medicamento específico (o trombolitico alteplase), cuja performance é de 50% de melhoras, não deixando seqüelas.

Tal medicamento existe no Brasil, aprovado seu uso em protocolos do Ministério da Saúde. Você sabia? Não. É somente usado em alguns poucos hospitais particulares, a preço muito alto.

Milhares de vidas podem ser salvas, milhares de pessoas podem dispensar a "invisibilidade ou AVCerização social", mas a que preço?

Investir na doença ou na saúde? A opção pela saúde implica em remover a "AVCerização social" e começar a nos mexer. "Ninguém quer adoecer ou morrer", "ter saúde é o principal".

Forcemos, já que é nosso direito, as campanhas nacionais de informação e prevenção, inclusive o diagnóstico rápido, os hospitais do SUS e conveniados, bem como os particulares, a ter o medicamento adequado; organizemos grupos nas unidades de saúde de pacientes avecerizados e seus familiares, repetindo o modelo dos grupos de hipertensos, diabéticos etc.; revisemos os critérios de aposentadoria para pacientes com AVC; forcemos o governo e o Ministério da Saúde a "verem" o que não querem "ver".

Temos certeza absoluta de que, quando conseguirmos detonar essa campanha, o país inteiro cobrará as medidas, em vez do "avecê social", teremos um verdadeiro "pulando a cerca" de saúde, cidadania, solidariedade e justiça. "Pular a cerca" é dar visibilidade, não é a sacanagem habitual, aquela do fenômeno da invisibilidade "não vê, não existe…".

Daniel Chutorianscy é médico, teve um AVC cerca de um ano atrás, não se manteve "invisível", voltou a trabalhar com algumas seqüelas, não fez uso, lamentavelmente, do alteplase, fundou o Grupo AVC-PULANDO A CERCA em agosto de 2009, que, neste pequeno período de tempo, continuou brigando pela Saúde, e "pulando a cerca" pela visibilidade, pela justiça e contra a "avecerização" social. Que o AVC, ou derrame, não mais seja um "derrame" de alienações e engodos. Exigimos Saúde, Educação, Justiça como instâncias primeiras.

Daniel Chutorianscy é médico. CRM: 52-27646-7

E-mail: trenzinhocaipira@vnet.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Comentários