‘Temos de preservar o passado para conhecer o presente’

2007-10-22 –Jornal da Tarde

O jornalista da rádio CBN e da TV Cultura fala sobre tudo:de Lula a budismo. Mas entende mesmo é de São Paulo. Em novo livro,Heródoto critica a mania de grandeza e a falta de memória do paulistano

Para ouvintes da rádio CBN,a voz grave de Heródoto Barbeiro,de 61 anos,no noticiário matutino traz o conforto da credibilidade. A mesma sensação têm os espectadores da TV Cultura,emissora que trouxe a ele reconhecimento nacional. Mas a identidade do jornalista é mesmo paulistana,como prova seu novo livro,Meu Velho Centro –Histórias do Coração de São Paulo (Boitempo). Ao JT,ele falou sobre a paixão pela Capital e comentou budismo e política com a naturalidade de quem sabe um pouco de tudo. Nada de erudição,ele assegura. Heródoto só admite ser aprendiz.

Por que escrever sobre o centro?

A idéia era recuperar um pouco aquela região do Centro Velho,que se a gente não tomar cuidado vai perder muito rapidamente. Gosto muito de lá. Meus amigos iam para a Paulista,etc. E eu ia para o centro,a sebos,ao Cinerama. Diziam:“Você é louco,vai ao centro? Vai ser assaltado…” Mas sempre gostei de ir. Freqüento e conheço essa região. Trabalhei como office boy por ali.

Por que o centro pode se perder?

Por causa da especulação imobiliária. Em vez de a gente ter congelado o centro,como se fez em Buenos Aires,Paris,e outros lugares,nós aqui identificávamos progresso com destruir o passado e construir uma coisa em cima. Ainda hoje,no centro da cidade,vários casarões estão ameaçados. Há uma certa euforia paulistana. Tudo aqui é o melhor da América Latina. Isso é uma coisa ridícula. Isso ajudou a derrubar essa cidade. “São Paulo não pode parar. Vamos derrubar tudo e fazer uma nova”.

Você milita contra isso?

Sim. Além de ter uma ligação sentimental,tenho uma ligação cultural porque fui professor de História. E História também se faz em cima da preservação de monumentos.

Há um culpado nisso tudo?

Não diria que tem um culpado. Acho que a cidade foi administrada por muitos políticos e poucos estadistas. Por exemplo,imagine o cara que acabou com os bondes nessa cidade? Porque o bonde representava um atraso. É o fim da picada. O que houve foi a vinda das empresas multinacionais de ônibus,então o cara tirou os bondes. Acho,por exemplo,que o prefeito poderia tirar o asfalto de algumas áreas e os trilhos estão lá,conservados. Poderíamos ter naquela região central um transporte de bonde.

O brasileiro não tem memória?

Claro,se tivesse memória não teria derrubado isso. Quantos museus de história tem na cidade? Tem o Museu do Ipiranga,que é de uma pobreza franciscana. Vou uma vez lá ver o acervo e não volto. Se tivesse exposição itinerante,voltaria.

Qual o papel da imprensa nisso?

A imprensa não é suficiente. Ela tem de relatar o que a sociedade faz,então tenho que organizar meu bairro,provocar um fato e aí a imprensa faz. Aqui no meu bairro teve uma associação que andou tirando placas publicitárias,antes do (prefeito Gilberto) Kassab. Precisamos fazer mais isso na cidade.

Você tem uma opinião formada sobre o governo Kassab?

Olha,não tenho nenhuma opinião formada sobre o governo do Kassab. (risos)

Mas você é a favor dessa lei?

Sem dúvida. Participo dessa discussão antes dele. Foi um avanço.

Seria vereador ou prefeito de SP?

Não,não. (risos)

Como você avalia o ‘Jornal da Cultura’? Há críticas sobre o ritmo do noticiário,a audiência é baixa…

Acho que temos muitas emissoras comerciais com muitos telejornais no ar. A missão da TV Cultura não é fazer um telejornal igual a esses. É procurar um outro tipo de telejornal que provoque mais discussão no telespectador. Agora,gostar é decisão do telespectador. E quanto à audiência,existe a pirâmide cultural…Você tem uma opção de ter um telejornal mais analítico,diferenciado dos demais.

Ampliaria isso para todo o canal?

Olha,estive 15 dias com uma bolsa na BBC. Eles estão muito na nossa frente. A questão fundamental da TV pública é financiamento. Lá pagam 155,5 libras por ano para ter a BBC,e ela ser independente. Por aí você tem uma idéia do nível das pessoas. É uma lei,as pessoas pagam. O dinheiro não vai para o governo,vai direto para a BBC.

É um modelo inatingível para nós?

Não! Acho que no caso da Cultura é um caminho a ser percorrido. O avanço do canal é ter um conselho que representa a sociedade na direção da TV. Isso não tem nas outras.

Mas o conselho funciona?

Funciona,se reúne sempre e se articula com a diretoria executiva que elabora os projetos.

Com a nova direção,o que mudou?

A principal mudança atualmente é a programação,porque o resto não se muda de uma hora pra outra. A questão organizativa,gerencial,se muda gradativamente. O (Paulo) Markun assumiu há poucos meses. Acho que a programação está voltando às origens da TV Cultura.

Que outras mudanças precisariam ser feitas?

Quando se tem uma televisão à sua disposição,a primeira coisa que tem de fazer é perguntar:para quem se está fazendo TV? A Cultura está fazendo programação para o público infanto-juvenil,durante o dia,e à noite,para o público adulto. Tem o Roda Viva,por exemplo.

O ‘Roda Viva’ não está menos confrontador?

No passado,os debates eram mais acirrados,porque era época de abertura política. Hoje não se tem mais confronto político. A imprensa é um reflexo da sociedade.

A sociedade está mais apática?

Acho que sim. Não tem mais tanto confronto trabalhista. Há quanto tempo não se ouve mais falar de greve de metalúrgicos? E a aguerrida CUT? A Força Sindical? Mas acho que as pessoas estão melhores hoje do que estavam há dez anos.

Por quê?

Pega,por exemplo,o número de crianças mortas por tantos mil habitantes. Caiu bastante. Isso é sinal de que alguma coisa melhorou.

Você aprova o governo Lula?

Votei no Lula. Acho que ele tem duas coisas interessantes que não gosta que digam:primeiro que ele é uma continuidade do (ex-presidente) Fernando Henrique Cardoso. Segundo,que ele adicionou ao continuísmo econômico do FHC o fator que não tinha antes,o social,gostem os tucanos ou não. Então,o País está indo bem.

O País está indo bem?

Muito bem. Nunca deu tão certo. No social,tem menos pobres hoje. No salário mínimo,que melhorou. Podem dizer que o Lula errou nisso e naquilo. Todo mundo lá erra e acerta. Vamos pegar no macro.

Você se considera erudito?

Não. Toda vez que pensei ser erudito,vinha alguém e me ensinava alguma coisa. Então é melhor parar com isso. Me considero uma pessoa em constante aprendizado.

Você teve uma fase mais ”louca”?

Olha,que quando tive minha fase louca,digamos assim,devia ter 19,20 anos,e fui parar num templo budista. (risos) Cheguei na USP e conheci um professor de História da Ásia que me convidou para dar aulas de inglês para a esposa do superior do templo do qual ele era monge. Fui até lá e tinha um casarão enorme. Só que ela não falava português,só japonês. Então perguntei sobre o que era aquilo ali. Era um templo budista. Acabei meditando ali,sem entender direito. Achei que era um desafio e resolvi tentar para ver o que era. Virei budista.

E a famosa paixão pelas Kombis?

Começou porque,como tenho um sítio,a Kombi era a melhor coisa para carregar tralha. Me acostumei de tal forma que essa é minha sexta ou sétima Kombi. Eu e minha mulher pensamos esses dias em comprar uma camionete. Mas aí pensei:na Kombi cabe tudo e ainda podemos dar carona para as pessoas. Resolvi comprar uma Kombi nova. Aliás fiz test drive da Kombi nova. (risos) No final,falei para eles:Por que quando tem test drive de Ferrari vocês não me chamam? (risos)

Mesmo gostando de coisas antigas você não se considera saudosista?

Não! Saudosista é o cara que quer voltar para o passado. Eu não quero. Acho que a gente tem que preservar para conhecer o presente. A Kombi tem 50 anos,mas não compro a antiga. A minha é nova.
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A vitória latino-americana

2007-11-04 –Agência Carta Maior
Emir Sader

A Latinoamericana – Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe – foi escolhida a melhor obra de não-ficção publicada no Brasil em 2006,após ter recebido o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ciências Humanas,outorgado pela Câmara Brasileira do Livro. A obra,um volume de 1.344 páginas,publicada pela Boitempo Editorial e pelo Laboratório de Políticas Públicas da Uerj,foi concebida e produzida em três intensos anos de trabalho,reunindo o que de melhor existe no pensamento latino-americano,expresso em verbetes sobre todos os países da região,em várias dezenas de temas fundamentais – de energia a movimentos sociais,de literatura a cinema,teatro,artes plásticas,de esportes a Estado,de gastronomia a feminismo,entre tantos outros –,além de personagens,fenômenos,instituições e outros temas do continente,sob coordenação de Ivana Jinkings,Carlos Eduardo Martins,Rodrigo Nobile e minha.

A obra não foi concebida,nem de longe,buscando reconhecimentos públicos,justamente porque procuramos resgatar um continente que costuma ser desconhecido ou maltratado pela mídia e até mesmo por grande parte da academia e das editoras. Sabíamos que trabalhávamos contra a corrente. O pensamento conservador – a direita – não gosta da América Latina e do Caribe. Procura até mesmo descaracterizar que nossos países componham um mesmo continente. Alegam diferenças entre México e Argentina,entre Brasil e Equador,entre Guatemala e Uruguai,entre Cuba e Chile para tentar desfazer a identidade do continente. Como se essas diferenças fossem maiores do que as existentes entre Bélgica e Portugal,Alemanha e Itália,Espanha e França.

O que dá a identidade da Europa e da América Latina são destinos históricos comuns. Eles foram colonizadores do nosso continente,fazendo de nós colonizados. Seguiram sendo imperialistas e nós,dominados. Hoje pertencem ao universo dos globalizadores e nós,ao dos globalizados. Por isso eles têm uma identidade comum e nós,a nossa,a despeito das diferenças culturais,lingüísticas e outras.

A direita não gosta da América Latina e do Caribe porque não se pode falar dela sem falar de colonialismo e de escravidão,antes de tudo. Porque o nosso continente foi ocupado e explorado pelas potências coloniais com o fim único de acumular riqueza para as metrópoles. O capitalismo chegou à América Latina perpetrando os dois maiores massacres da história da humanidade:a dizimação das populações indígenas e a escravidão – arrancando milhões de seres humanos da África para trabalhar como escravos,discriminados,reprimidos,humilhados,ofendidos,em outro continente,separados dos seus países e das suas famílias,para produzir riquezas para os colonizadores brancos.

O continente foi incorporado à força ao sistema capitalista mundial nascente,sob hegemonia ibérica,depois inglesa e finalmente estadunidense,mediante a espoliação colonial e a exploração dos trabalhadores africanos,tornados escravos. Sem esses antecedentes,é impossível compreender sua história,sua trajetória,sua identidade.

Depois de ter visto se impor – com a ditadura de Pinochet – o neoliberalismo no continente,que se estendeu como em nenhuma outra região do mundo,a América Latina e o Caribe é hoje a região do mundo que mais resiste ao neoliberalismo e à hegemonia imperial estadunidense. É a única que constrói processos de integração regional,aquela onde se desenvolve a primeira grande experiência de alternativas ao livre comércio – a Alba –,com espaços de intercâmbio solidário.

A Enciclopédia abarca os últimos cinqüenta anos do continente,incorporando ainda o período desenvolvimentista,todo o período neoliberal e a situação atual,de criação de alternativas ao neoliberalismo. Apresenta a América Latina e o Caribe com todas as suas fisionomias,suas tonalidades,seus risos e suas lágrimas,suas lutas e suas festas.

A Latinoamericana será proximamente publicada em castelhano,enquanto buscamos a possibilidade de traduzi-la para o inglês. A obra merece. Mas sobretudo a América Latina e o Caribe merecem. Como disse ao recebermos o prêmio,na Sala São Paulo,este representa um reconhecimento da importância da América Latina e do Caribe,do trabalho coletivo e dessa extraordinária pequena grande editora,a Boitempo,e quem a dirige – Ivana Jinkings,a melhor editora do Brasil.

O melhor do livro em meio século

2008-02-01 –Revista Panorama Editorial

Desde que Jorge Amado venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance por Gabriela,Cravo e Canela,em 1959,um sem-número de escritores de talento aguarda ansiosamente pela entrega anual da honraria. Não é para menos. Uma prova de que o Jabuti conquistou a posição de mais importante prêmio das letras no Brasil encontra-se em seu extenso rol de vencedores. Nele,entre muitos,figuram nomes como Clarice Lispector,Rubem Fonseca,Sergio Buarque de Holanda,Haroldo de Campos e Lygia Fagundes Telles.

Ao longo da trajetória do Jabuti,contudo,fazer parte dessa lista deixou de ser um privilégio dos grandes escritores. Foi justamente por abrir espaço para outros atores da cadeia produtiva do livro que o Jabuti ampliou seu prestígio no mercado editorial brasileiro. Sem tirar o papel de protagonista do autor,fez crescer paulatinamente o número de categorias,que passaram de sete em sua primeira edição para 20 no ano passado,contemplando tradutores,ilustradores,ensaístas,críticos literários,produtores gráficos e também autores de obras didáticas,técnicas e científicas.

“O Jabuti já não é um prêmio exclusivamente literário. Hoje,ele abarca o reconhecimento de vários profissionais responsáveis pela feitura do livro”,afirma José Luiz Goldfarb,curador do evento desde 1991 e coordenador do São Paulo:Um Estado de Leitores,programa de incentivo à leitura da Secretaria Estadual de Cultura. A própria expansão do setor nos últimos anos motivou a busca por uma maior abrangência no que diz respeito aos segmentos premiados. “O volume de publicações cresceu muito de dez anos para cá,e o aumento no número de categorias é apenas um dos reflexos disso”,observa Ana Maria Haddad,professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e jurada do prêmio desde 2003.

Para Hubert Alquéres,presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp),o Jabuti se destaca entre os demais prêmios literários por estimular uma competição no mercado,o que ele considera bastante saudável. “O fato de a grande maioria das editoras brasileiras inscrever suas obras indica um enorme prestígio. E,ao avaliar outros aspectos,como a capa de um livro,o Jabuti movimenta o setor editorial no sentido de revelar talentos para além daqueles que se dedicam ao conteúdo.”

Alquéres fala com propriedade:nos últimos quatro anos,a editora Imesp conquistou 14 prêmios,incluindo o de Livro do Ano Ficção de 2007 para Resmungos,coletânia de crônicas escrita pelo poeta Ferreira Gullar e ilustrada pelo artista plástico Antonio Henrique Amaral. “Quando cito o Jabuti que ganhamos,ainda fico impressionado. Todo mundo conhece e reconhece seu valor”,garante o presidente da Imesp.

A própria longevidadê do prêmio,que completa 50 edições ininterruptas em 2008,é um sinal claro do peso que ele representa. “O Jabuti passa cada vez mais credibilidade com sua história. Não é um prêmio ‘cometa’,que acaba depois de alguns anos”,avalia Maria Emília Bender,diretora editorial da Companhia das Letras,que reúne em seu catálogo nada menos que 98 obras premiadas. “Quando uma condecoração desse gabarito alcança meio século de existência,é sinal de que ela cumpre seu papel”,completa Rosely Boschini,presidente da Câmara Brasileira do Livro.

Diferencial estratégico
Membro da diretoria da Associação Nacional de Livrarias (ANL),Samuel Seibel acredita que a qualidade chancelada pelo Jabuti faz dele um instrumento fundamental para o negócio do livro. “Indiscutivelmente,é um prêmio importante para o autor,para o editor e também para o livreiro,que aposta naquelas obras vencedoras. Se isso se traduz em vendas,depende de como cada um usa essa ferramenta. Mas esse aspecto fica evidente quando se compara uma lista de dez livros em que apenas um deles ganhou o Jabuti. Até eu gostaria de ganhar um se fosse escritor”,brinca Seibel,proprietário da Livraria da Vila,na capital paulista.

Luciana Villas-Boas,diretora editorial da Record,concorda com a idéia. “Quando um livro nosso é premiado,tentamos automaticamente valorizar a obra por esse aspecto,já que o Jabuti tem se mostrado uma peça determinante na construção da carreira do escritor”,diz. Para Augusto Massi,diretor editorial da Cosac Naify,vale o mesmo raciocínio. “Todo autor premiado faz menção ao Jabuti em seu currículo,sinal de que,além de prestígio,ele realmente apresenta um impacto de mercado.”

Maria Emília,da Companhia das Letras,usa as obras didáticas e paradidáticas cómo exemplo do endosso que um prêmio como o Jabuti pode garantir. “Se eu fosse professora,o fato de um livro indicado para adoção ter vencido um Jabuti é muito favorável,pois leria aquela obra com outros olhos. E,no caso dos nossos livros,trata-se de um reconhecimento de terceiros que complementa a chancela da própria editora.”

Nesse sentido,o trabalho de divulgação dos eleitos,a cada edição,é tão importante quanto ganhar o prêmio. Além do anúncio espontâneo feito pela mídia,os representantes da cadeia produtiva entendem ser essencial fazer com que esta informação chegue ao leitor por outros canais,como o destaque das obras vencedoras no ambiente da livraria. A estratégia de marketing mais comum dos editores ainda é envolver o livro com uma cinta que indica a honraria.

“É uma credencial que certamente tem apelo de vendas. Ou serve ao menos para dar um fôlego à obra. No ano passado,assim que Resmungos ganhou,passamos a colocar a cinta nos exemplares antes de saírem para as livrarias. É quase o que acontece quando um filme ganha o Oscar:o mercado cinematográfico fica à espera de um novo campeão de bilheterias”,compara Alquéres,da Imesp. “Os leitores brasileiros estão cada vez mais preocupados com a questão da qualidade. Ninguém entra numa livraria para comprar qualquer coisa”,acrescenta.

A despeito dessa comparação com Hollywood,está claro que as atenções do Jabuti não estão voltadas apenas aos blockbusters. “O prêmio tem se mostrado bastante abrangente,como foi o caso do ano passado,quando muitas pequenas editoras se destacaram”,observa Luciana,da Record. Os números falam por si:na cerimônia de 2007,as 60 obras que alcançaram as três primelras colocações foram publicadas por 44 editoras distintas.

Análise criteriosa
A pulverização na premiação reflete a qualidade da produção alcançada por um número cada vez maior de editoras. E o rigor do processo de seleção do Jabuti é uma confirmação dessa excelência. Uma das maiores preocupações de Goldfarb,desde que assumiu a curadoria,foi estabelecer mecanismos criteriosos de avaliação e destacar profissionais e especialistas para o júri,que a partir de 2003 passou a ser orientado por um guia criado especialmente para a disputa. “Qualquer julgamento,notadamente para um prêmio como o Jabuti,é uma responsabilidade muito grande. Sabemos que há um peso no nome de cada editora,de cada autor,mas esse quesito não faz parte dos critérios do guia que orienta os jurados”,assegura Ana Maria Haddad.

Por mais de 30 anos,toda essa credibilidade do Jabuti esteve calcada em sua constância e num corpo de jurados sempre formado por profissionais renomados. Faltava agregar a este prestígio,contudo,um envolvimento maior da própria categoria,pois até o início dos anos 1990 as inscrições giravam em torno de 300 livros,lembra Goldfarb. Para mudar o quadro,o Jabuti foi,progressivamente,aprimorado pela Câmara Brasileira do Livro,inclusive instituindo prêmios em dinheiro como forma de recompensar financeiramente o trabalho do escritor. ”’Ano a ano,foi aumentando o número de inscrições;em 2007 recebemos 2.052,cerca de cem por categoria.”

O curador diz,ainda,que esse número encontrou uma estabilidade a partir do momento em que a CBL começou a cobrar uma taxa de inscrição. “As editoras passaram a fazer uma seleção prévia do que consideram o melhor de sua produção. Até porque,ainda que sejam premiados três livros por categoria,sempre haverá bons autores de fora”,acredita Goldfarb.

Para Rosely,presidente da CBL,a valorização do Jabuti também é um reflexo do empenho da equipe responsável por organizar a premiação,das inscrições até a entrega dos troféus. “Saber que este prêmio é referência para o mercado editorial é ao mesmo tempo o reconhecimento dos esforços de todos aqueles que trabalham para que ele aconteça”,ressalta ela,lembrando que as inscrições para 2008 estarão abertas a partir deste mês.

O próprio interesse dos escritores em participar da competição evidencia a importância do Jabuti. “Quando um livro é contratado,a primeira manifestação do profissional é se perguntar qual a chance de sua obra vencer o prêmio. Na época das inscrições,chega a ser difícil lidar com essa expectativa dos autores. Por isso,inscrevemos no Jabuti todos aqueles livros que cabem na disputa. Nunca faltamos com isso,é automático”,afirma Luciana,da Record.

Para Ivana Jinkings,sócia-diretora e editora da Boitempo Editorial,o caráter democrático do Jabuti também se expressa na escolha do título de Livro do Ano Ficção e Não-Ficção –indicados por ampla votação entre os associados da CBL,ANL,ABDL (Associação Brasileira de Difusão do Livro) e Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros). Foi o que ocorreu em 2007,quando a obra Latinoamericana tornou-se a primeira enciclopédia a ser indicada Livro do Ano Não-Ficção. “A Boitempo já recebeu vários Jabutis,além de outros prêmios,mas esse foi,entre todos,o de maior significado. Antes de tudo porque coroou um longo trabalho de coordenação,que envolveu 123 autores e uma equipe de mais de 20 pessoas ao longo de três anos”,comemora.

“Foi a consagração de uma pesquisa séria:contra aqueles que apontaram na obra indícios de partidarismo,o mercado deu provas de independência”,prossegue a editora da Boitempo. O sociólogo Emir Sader,professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos organizadores da enciclopédia,faz coro com Ivana e acrescenta:“As pequenas editoras enfrentam uma máquina muito forte,que ocupa os principais espaços nas livrarias,na imprensa,nas compras públicas. Um prêmio concedido por uma entidade do mercado editorial é sempre um reconhecimento de significado.”

Valorização do suporte
O espaço ocupado por pequenos e médios editores no Jabuti encontra alguns reflexos na maneira como o mercado editorial tem se comportado frente à profusão de conteúdos nos meios digitais. “Do avanço da internet ao crescente interesse pela TV e o recuo das livrarias independentes,tudo parece conspirar contra o livro”,alerta Ivana. A saída,na visão da editora da Boitempo,é buscar nichos e investir em qualidade. “Penso que não há outra forma de as editoras independentes sobreviverem que não seja demarcando território e dedicando-se ao apuro das publicações.”

Por se tratar de uma empresa pública,a editora Imesp sempre apostou nesses requisitos para conquistar espaço. “Nunca tivemos a intenção de concorrer com as editoras privadas. Nossa linha definiu-se por livros que,de alguma forma,resgatam a memória e a história das artes e das ciências humanas,entre outros temas que fogem ao interesse do mercado”,considera Alquéres. “No caso de Resmungos,foi um desafio superar o caráter perecível da crônica,pois alguns temas ficam muito datados. Felizmente,desenvolvemos um projeto especial,bem ilustrado,de capa dura,para mostrar que um livro de crônicas pode ser uma obra perene.”

Também foram esses preceitos –apostar num nicho e no acabamento –que deram destaque à Cosac Naify nas recentes edições do Jabuti. Em 2003,a editora conquistou um feito inédito:a obra Bichos que Existem &Bichos que Não Existem,de Arthur Nestrovski,vencedora na categoria Infantil/Juvenil- hoje separadas -,levou o prêmio de Livro do Ano Ficção. “Foi a coroação de um investimento que a editora fez para esse público. Depois disso,voltamos a vencer na categoria com o Gabriel [O Pensador,por Um Garoto Chamado Rorbeto,em 2006] e com o Fernando [Vilela,por Lampião &Lancelote,em 2007]. Usando aquelas metáforas futebolísticas,é como se a editora tivesse sido tricampeã da categoria nos últimos cinco anos”,festeja Massi.

É preciso dizer que Lampião &Lancelote também figurou em primeiro e em segundo lugares,respectivamente,nas categorias Ilustração de Livro Infantil ou juvenil e Capa. “Quando o autor apresentou seu trabalho,imediatamente busquei uma forma de imprimi-lo no maior tamanho possível para dar conta das imagens,que são lindas. Mesmo em papel,o livro do Fernando consegue se fantasiar de multimídia. Aberto,tem o impacto de um cenário para o pequeno leitor brincar. Isso por si é um apelo para levá-lo ao texto”,ressalta o diretor da Cosac Naify.

Para o autor da obra,o Jabuti serviu para coroar o experimentalismo gráfico e a idéia original do livro,que promoveu um improvável encontro entre o cangaceiro brasileiro e o cavaleiro bretão. “Independentemente da categoria em que venci,o valor do prêmio está no fato de que todos voltaram seus olhares para a literatura em geral”,acredita o autor e ilustrador Fernando Vilela.

Massi reforça a idéia de que os livros precisam se modernizar para não seguir apenas a reboque das novas tecnologias. “Hoje,o livro comum é muito individual. Já uma obra diferenciada,grande,pode ser acompanhada por quatro,cinco crianças. É preciso alterar os hábitos de leitura justamente para reforçá-las”,defende o editor.

Mas,se o mercado deve estar em constante transformação,ao menos uma coisa não mudou ao longo desse meio século de Jabuti:sua importância segue em alta para leitores,escritores,e para o próprio mercado. “Cada livro é uma dádiva do escritor,que cria novos mundos,personagens e emoções usando apenas as palavras como ferramenta. Por isso,é fundamental reverenciar todo profissional envolvido em sua produção. Esta é a função do Jabuti:incentivar a literatura,o hábito de leitura e a própria cultura do Brasil”,conclui a presidente da CBL.

Uma criação acadêmica indispensável para Nuestra América

2008-01-01 –Sociologia,Ciência e Vida
Aurelio Alonso

A origem do termo enciclopédia se perde na Idade Média,mas a primeira obra publicada com esse título data de 1630 (Encyclopaedia Septem Tomis Distincta,de Johann Heinrich Alstein). Porém,foi a obra dos iluministas franceses do século XVIII,L’Encyclopédie,ou Dictionnaire Raisonné des Sciences,des Arts et des Métiers,compilada entre 1751 e 1765 por Diderot,D’Allembert,Monresquieu,Condillac,entre outros,que consagrou a intenção de resumir,em um produto editorial,o conhecimento universal e oferecê-lo aos leitores.

Desde então,as enciclopédias têm como vocação a universalidade,quer se trate de obras gerais quer se trate de obras específicas. Entre as primeiras,sobressai-se a Encyclopaedia Britannica,cuja primeira edição,de 1768,foi lançada quase imediatamente ao monumento criado pelos franceses. Tornou-se memorável a 14ª edição,publicada em 1929,na qual cada artigo de seus 24 tomos constituía um verdadeiro tratado. Uma tendência ulterior nessas obras de amplo caráter tem sido a redução do tamanho dos verbetes com a substituição do estilo extensivo pelo desafio sintético.

Progressivamente,tiveram importância ao longo do século XX as enciclopédias especializadas,simultaneamente à relevância adquirida pela bibliografia de referência no fazer teórico,uma decorrência do ritmo imposto pela modemidade. A especialização na produção de enciclopédias se vincula principalmente a três dimensões:a temática,a geográfica e a histórica.

Meu único propósito no momento é tratar da Latino-Americana:Enciclopédia contemporânea da América Larina e do Caribe. Por isso começo por destacar que a obra delimita muito bem suas fronteiras geográficas e históricas,a começar pelo título escolhido por seus autores.

Esplêndida realização em muitos sentidos,editado e ilustrado com beleza e propriedade. A introdução escrita por Emir Sader e a apresentação de Ivana Jinkings compartem a responsabilidade de,rapidamente,situar o leitor em relação ao alcance da obra. O sociólogo nos oferece uma leitura do cenário larinoamericano e caribenho do século XX,em especial de sua segunda metade:os fatos ocorridos nas relações econômicas,políticas e sociais,os efeitos dos nexos de dependência,os acontecimentos revolucionários,as religiões e a criação cultural. Todo o apanhado da hisroria é compactado com lucidez até o começo do século atual.

Ivana Jinkings por sua vez,apresenta-nos brevemente os colaboradores,um total de 123 pessoas entre as mais relevantes do pensamento latino-americano e caribenho,mostra-nos a seriedade dos critérios seguidos na elaboração da obra,o esforço para atingir uma linguagem acessível,a estrutura dada ao conjunto,o rigor com que se processaram as estatísticas contidas nas 136 tabelas e nos 21 gráficos indispensáveis para a caracterização econômica e social de nossos países.

Essa primeira tentativa,desde já magnífica,de realizar uma obra de referência (que expressa ainda os anseios e as inquietudes populares do nosso continente) demonstra também como uma pequena editora pode alcançar realizações verdadeiramente decisivas.

Os verbetes mais extensos consistem em ensaios de até quarenta páginas e aqueles dedicados a cada país são muito bem documentados,rigorosos e dotados de uma visão coerentemente progressista. As mesmas características possuem os que se referem aos grandes temas como “economia”,“energia”,“migrações”,“movimentos sociais”,“música”,“teatro”,entre outros.

Sem desprezar os diversos verbetes dedicados às personalidades,vivas ou falecidas,que deixaram sua marca no século XX,Latino-Americana pretende oferecer “uma visão geral sobre os processos políticos,sociais,econômicos,ambientais e culturais que caracterizaram o continente nos últimos cinqüenta anos”.

As ilustrações,numerosas sem ser excessivas,tanto as fotográficas –essenciais em um trabalho desse alcance –como os mapas,foram cuidadosamente selecionadas para oferecer suporte gráfico eficaz aos textos.

Entre os colaboradores encontramos Theotonio dos Santos e Laura Tavares (Brasil),Edelberto Torres-Rivas (Guatemala),Marcos Roitman e Jaime Estay (Chile),Ana Esther Ceceña e Néstor Garcia Canclini (México),Vivian Martínez Tabares e Fernando Martínez Heredia (Cuba),Wilfredo Lozano (República Dominicana),Atilio Boron e Hector Alimonda (Argentina),Victor Manuel Moncayo (Colômbia),Margarita López Maya (Venezuela) e Marco Gandásegui(Panamá),entre outros. A coordenação teve assessoria de um conselho consultivo integrado por Boaventura Santos,Eduardo Galeano,István Mészáros,Marilena Chauí,Michael Lõwy e Pablo González Casanova.

A publicação da Latino-Americana,cuja edição em espanhol ainda aguardamos,constitui um indiscutível acontecimento editorial em escala continental e,creio poder afirmar,mundial. Digo isso sem ânimos de adulações gratuitas,porque tenho a certeza de que se tornará insubstituível como obra de referência e igualmente como meio de formação,instrumento para as gerações presentes e futuras dos povos e de instituições acadêmicas,políticas e civis dessa América que,com muita razão,José Martí chamou de nuestra.

Aurelio Alonso é sociólogo cubano,editor da revista Casa de las Americas

Livro:Latino-Americana –Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.
Autores/as:Emir Sader,Ivana Jinkings,Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile
Editora:Boitempo
Ano:2007
Cidade:São Paulo
Páginas:1.344
Preço:R$ 190,00

2008-01-01 –Sociologia,Ciência e Vida
Aurelio Alonso

A origem do termo enciclopédia se perde na Idade Média,mas a primeira obra publicada com esse título data de 1630 (Encyclopaedia Septem Tomis Distincta,de Johann Heinrich Alstein). Porém,foi a obra dos iluministas franceses do século XVIII,L’Encyclopédie,ou Dictionnaire Raisonné des Sciences,des Arts et des Métiers,compilada entre 1751 e 1765 por Diderot,D’Allembert,Monresquieu,Condillac,entre outros,que consagrou a intenção de resumir,em um produto editorial,o conhecimento universal e oferecê-lo aos leitores.

Desde então,as enciclopédias têm como vocação a universalidade,quer se trate de obras gerais quer se trate de obras específicas. Entre as primeiras,sobressai-se a Encyclopaedia Britannica,cuja primeira edição,de 1768,foi lançada quase imediatamente ao monumento criado pelos franceses. Tornou-se memorável a 14ª edição,publicada em 1929,na qual cada artigo de seus 24 tomos constituía um verdadeiro tratado. Uma tendência ulterior nessas obras de amplo caráter tem sido a redução do tamanho dos verbetes com a substituição do estilo extensivo pelo desafio sintético.

Progressivamente,tiveram importância ao longo do século XX as enciclopédias especializadas,simultaneamente à relevância adquirida pela bibliografia de referência no fazer teórico,uma decorrência do ritmo imposto pela modemidade. A especialização na produção de enciclopédias se vincula principalmente a três dimensões:a temática,a geográfica e a histórica.

Meu único propósito no momento é tratar da Latino-Americana:Enciclopédia contemporânea da América Larina e do Caribe. Por isso começo por destacar que a obra delimita muito bem suas fronteiras geográficas e históricas,a começar pelo título escolhido por seus autores.

Esplêndida realização em muitos sentidos,editado e ilustrado com beleza e propriedade. A introdução escrita por Emir Sader e a apresentação de Ivana Jinkings compartem a responsabilidade de,rapidamente,situar o leitor em relação ao alcance da obra. O sociólogo nos oferece uma leitura do cenário larinoamericano e caribenho do século XX,em especial de sua segunda metade:os fatos ocorridos nas relações econômicas,políticas e sociais,os efeitos dos nexos de dependência,os acontecimentos revolucionários,as religiões e a criação cultural. Todo o apanhado da hisroria é compactado com lucidez até o começo do século atual.

Ivana Jinkings por sua vez,apresenta-nos brevemente os colaboradores,um total de 123 pessoas entre as mais relevantes do pensamento latino-americano e caribenho,mostra-nos a seriedade dos critérios seguidos na elaboração da obra,o esforço para atingir uma linguagem acessível,a estrutura dada ao conjunto,o rigor com que se processaram as estatísticas contidas nas 136 tabelas e nos 21 gráficos indispensáveis para a caracterização econômica e social de nossos países.

Essa primeira tentativa,desde já magnífica,de realizar uma obra de referência (que expressa ainda os anseios e as inquietudes populares do nosso continente) demonstra também como uma pequena editora pode alcançar realizações verdadeiramente decisivas.

Os verbetes mais extensos consistem em ensaios de até quarenta páginas e aqueles dedicados a cada país são muito bem documentados,rigorosos e dotados de uma visão coerentemente progressista. As mesmas características possuem os que se referem aos grandes temas como “economia”,“energia”,“migrações”,“movimentos sociais”,“música”,“teatro”,entre outros.

Sem desprezar os diversos verbetes dedicados às personalidades,vivas ou falecidas,que deixaram sua marca no século XX,Latino-Americana pretende oferecer “uma visão geral sobre os processos políticos,sociais,econômicos,ambientais e culturais que caracterizaram o continente nos últimos cinqüenta anos”.

As ilustrações,numerosas sem ser excessivas,tanto as fotográficas –essenciais em um trabalho desse alcance –como os mapas,foram cuidadosamente selecionadas para oferecer suporte gráfico eficaz aos textos.

Entre os colaboradores encontramos Theotonio dos Santos e Laura Tavares (Brasil),Edelberto Torres-Rivas (Guatemala),Marcos Roitman e Jaime Estay (Chile),Ana Esther Ceceña e Néstor Garcia Canclini (México),Vivian Martínez Tabares e Fernando Martínez Heredia (Cuba),Wilfredo Lozano (República Dominicana),Atilio Boron e Hector Alimonda (Argentina),Victor Manuel Moncayo (Colômbia),Margarita López Maya (Venezuela) e Marco Gandásegui(Panamá),entre outros. A coordenação teve assessoria de um conselho consultivo integrado por Boaventura Santos,Eduardo Galeano,István Mészáros,Marilena Chauí,Michael Lõwy e Pablo González Casanova.

A publicação da Latino-Americana,cuja edição em espanhol ainda aguardamos,constitui um indiscutível acontecimento editorial em escala continental e,creio poder afirmar,mundial. Digo isso sem ânimos de adulações gratuitas,porque tenho a certeza de que se tornará insubstituível como obra de referência e igualmente como meio de formação,instrumento para as gerações presentes e futuras dos povos e de instituições acadêmicas,políticas e civis dessa América que,com muita razão,José Martí chamou de nuestra.

Aurelio Alonso é sociólogo cubano,editor da revista Casa de las Americas

Livro:Latino-Americana –Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe.
Autores/as:Emir Sader,Ivana Jinkings,Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile
Editora:Boitempo
Ano:2007
Cidade:São Paulo
Páginas:1.344
Preço:R$ 190,00

Vida além-mar

2007-09-22 –Correio Braziliense
Pedro Paulo Rezende

É cada vez maior o interesse das editoras brasileiras pela África. E ele não se limita à poderosa Companhia das Letras,que detém os direitos autorais de Mia Couto,Luandino Vieira,Ondjaki,Pepetela e do sul-africano J. M. Coetzee,ganhador do Nobel. Uma nova editora,a Língua Geral,foi criada por um dos mais destacados escritores angolanos contemporâneos,José Eduardo Agualusa,para ampliar o intercâmbio entre os países lusófonos. Sob esse novo selo,lançou o fabuloso As mulheres de meu pai simultaneamente em Luanda,Rio e Lisboa. Um fluxo constante de publicações também é assegurado por editoras especializadas,como a pequena Selo Negro e a Palas Atenas,e universitárias –entre elas,a Unesp.

Ao mesmo tempo,editoras independentes lançam-se em projetos ambiciosos. Em dezembro,o filósofo István Mészáros lançará sua nova obra mundialmente pela Boitempo,em co-edição com a Casa Editora Chá de Caxinde,de Luanda,e a Campo das Letras,de Lisboa. Em outubro,na Feira Internacional de Livros de Frankfurt,Ivana Jinkings,editora da Boitempo,assinará contrato com a Oxford University Press,adquirindo os direitos para o Brasil da Africana:enciclopédia daÁfrica e da experiência afro-americana,a maior obra de referência sobre o continente e a diáspora negra,organizada por Henry Louis Gates e KwameAnthony Appiah. Foi um namoro de quatro anos e meio para fechar o acordo.

O trabalho,por enquanto,é conduzido pela própria Ivana e pelo sociólogo Emir Sader. “Estamos montando o esqueleto do projeto”,diz a editora. “Ainda não formamos a equipe que irá tocar a adaptação da obra a uma visão brasileira. Vamos substituir alguns verbetes. A versão original tem três volumes,mas é bem possível que o nosso lançamento,previsto para o primeiro semestre de 2009,fique com apenas um volume grande de 1.500 páginas,como a Enciclopédia latinoamericana que lançamos no ano passado –aliás,inspirada no modelo da Africana –ou em dois volumes”.

A Boitempo vai contratar um quadro de africanistas para traduzir e revisar os verbetes. Ivana está otimista com a futura entrada em vigência do Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. “O intercâmbio cultural irá aumentar consideravelmente. Algumas de nossas obras não podem ser adotadas hoje nas escolas de Angola,só para citar um exemplo,porque não foram impressas no português do país. Autores como João Ubaldo Ribeiro tiveram de ser ‘traduzidos’para o português de Portugal para serem comercializados na Europa e na África. Essas limitações serão rompidas,ampliando o alcance das edições preparadas dos dois lados do Atlântico.”

A luta pela qualidade da informação

2008-06-01 –O Estado de S. Paulo
Ubiratan Brasil

O sociólogo espanhol Ignacio Ramonet defende a pressão pacífica pela verdade

Jornalista e sociólogo espanhol,Ignacio Ramonet tornou-se uma das vozes mais vibrantes contra a globalização no formato atual. Diretor desde 1991 da publicação francesa Le Monde Diplomatique e fundador das organizações Media Watch Global e ATTAC,ele escreveu vários livros sobre geopolítica e crítica da comunicação mundial,nos quais relaciona os meios de comunicação com o projeto estratégico da globalização.

Sua defesa da esquerda e,em especial,do governo cubano de Fidel Castro,provocou diversas críticas pelo mundo,especialmente contra seu livro Biografia a Duas Vozes (Boitempo,624 págs.,R$ 66,tradução de Emir Sader),considerado dócil e servil ao ex-ditador cubano. ‘Ramonet tem a companhia de Noam Chomsky,caso flagrante de esquizofrenia intelectual,que é inspirado e até genial quando limita-se à lingüística transformacional e um ‘idiota’irredimível quando desata a falar de política’,observou Vargas Llosa,em artigo publicado no Estado no ano passado.

Controverso,Ramonet esteve em São Paulo na semana passada,quando participou de um debate,no Instituto Cervantes,ao lado do sociólogo Emir Sader. Juntos,discutiram sobre o poder dos meios de comunicação frente aos sistemas econômicos. Antes,Ramonet respondeu as seguintes perguntas.

Como enfrentar os perigos dos conglomerados de mídias,que podem ameaçar a informação de qualidade?

Os conglomerados de mídia dominam hoje a informação. Sua preocupação básica não é a qualidade da informação. Nem sequer sua veracidade. O que mais lhe interessa é a rentabilidade da empresa. Essa é sua obsessão principal. Por isso,dão absoluta prioridade à informação-espetáculo,à informação-entretenimento. Concebem a notícia como uma variedade da cultura de massas e não como item da formação e educação do cidadão. O que importa é um maior número de pessoas consumindo essa informação-lixo. Porque,hoje em dia,o negócio noticioso não consiste em vender novidades aos cidadãos,mas vender cidadãos aos anunciantes. Essa é a nova equação,que constitui uma regressão copernicana. A população precisa tomar consciência dessa mudança radical. E defender seu direito a ser bem informada,porque a qualidade da informação depende da qualidade da democracia.

O crescimento da internet está diretamente ligado à formação desses conglomerados?

A internet foi apresentada,em princípio,como uma possibilidade para os cidadãos se livrarem da dominação dos conglomerados de mídia. Mas hoje,na prática,a internet foi integrada ao império desses conglomerados. Ainda assim,todos podemos abrir um blog,que nos permite falar com todo o planeta. Na realidade,se consideramos o ranking dos sites de informação mais freqüentados em qualquer país,vemos que os primeiros lugares são ocupados por empresas de mídia que dominam a informação nesse país. Por isso,a internet só veio a reforçar o poderio dos conglomerados.

Na França,dois grupos de imprensa,Dassault e Lagardère,têm ligação com atividades militares. Qual o perigo disso quando se travam guerras como a do Iraque?

Sim,na França,os grupos Lagardère e Dassault,cujas atividades industriais principais são militares,estão entre os que dominam o setor de mídia. O perigo é que a informação difundida por esses grupos (como acontece nos Estados Unidos com os meios dominados pela General Electric) seja,em caso de conflitos,favorável,independente do pretexto,a uma intervenção francesa com a única intenção de que,dessa forma,as empresas proprietárias conquistem maiores benefícios. Até o momento,isso não aconteceu,tampouco em 2003 quando se comentava sobre a possibilidade de a França integrar a coalizão que invadiu o Iraque no dia 20 de março daquele ano.

Como os cidadãos devem atuar contra este desvio da liberdade de imprensa?

Os cidadãos devem se organizar como fizeram os consumidores,durante os anos 1960,contra os abusos dos construtores de automóveis ou contra o uso de produtos cancerígenos nos alimentos. Consumimos a informação com nossa mente e,se ela é de má qualidade,acaba por envenenar nosso espírito e nossa personalidade. Devemos criar observatórios dos meios –no Brasil,já existem e são muito sérios e profissionais –para denunciar mentiras,manipulações ou o silêncio dos meios de comunicação. Essa denúncia não tem caráter ideológico (meios de qualquer ideologia podem errar),mas unicamente a busca da perfeição da qualidade da informação. Os cidadãos devem mobilizar-se e fazer pressão pacífica e democrática para os meios melhorarem a informação.

O senhor conversou muito com Fidel Castro e até escreveu um livro sobre esse relacionamento. O senhor acredita que o destino de Cuba,agora sem Fidel,depende diretamente de quem será o próximo presidente dos Estados Unidos?

Sim. Fala-se muito,nos meios de comunicação,sobre a ‘necessidade de Cuba mudar’. Mas inúmeros jornalistas se esquecem da enorme responsabilidade que têm os Estados Unidos em algumas das dificuldades,particularmente econômicas,sofridas por Cuba. A manutenção do cruel bloqueio durante quase 50 anos é um grande crime. Por isso,os Estados Unidos devem iniciar uma mudança em relação a Cuba,no sentido de reconhecer os direitos daquele país de descobrir seu próprio destino. Mudar no sentido de respeitar Cuba e considerá-lo um Estado soberano. Se o republicano John McCain vencer a eleição presidencial de novembro,a atitude de Washington pode endurecer ainda mais –mesmo que essa atitude beligerante não tenha frutificado em meio século. Por outro lado,a eleição de um candidato como o democrata Barack Obama abre certas perspectivas positivas. O temor de muitos observadores é o de que,especificamente sobre essa opinião a respeito de Cuba,Obama seja simplesmente assassinado antes de novembro pela máfia anticubana de Miami.

Qual a melhor herança deixada por Fidel? E a pior?

Fidel Castro é o maior latino-americano da história,ao lado de Simon Bolívar. Ainda que sua contribuição continue muito valiosa,sua herança é imensa. Não apenas material (educação,saúde,cultura,ciência,emprego pleno) mas também espiritual:latinoamericanidade,ética,independência real,resistência. Graças a ele e à revolução,Cuba foi depositária,durante o período negro da repressão e das ditaduras (1964-1979),dos grandes valores latinos de independência,soberania e republicanismo. Valores que hoje estão no auge em todo o continente,democraticamente aprovados pela maioria dos cidadãos.

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Não haverá um substituto para Fidel

2008-02-19 –Agência Carta Maior
Ignácio Ramonet

Não pode haver um substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades como líder,mas porque as circunstâncias históricas nunca serão as mesmas. Fidel presenciou tudo desde a revolução cubana até a queda da União Soviética,e décadas de confronto com os EUA. A análise é de Ignácio Ramonet.

A longa e extraordinária carreira política de Fidel Castro chegou ao fim –pelo menos no que se refere à presidência. Mas sua enorme influência irá continuar viva. Suas colunas regulares para o Granma,o jornal do Estado –para onde ele continuou escrevendo durante sua doença –irá continuar. Apenas agora,a assinatura será alterada –ao invés das reflexões do comandante chefe,agora será velho camarada Fidel. Os cubanos e observadores internacionais em geral continuarão lendo.

Não pode haver um substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades como líder,mas porque as circunstâncias históricas nunca serão as mesmas. Fidel presenciou tudo desde a revolução cubana até a queda da União Soviética,e décadas de confronto com os Estados Unidos. O fato dele se afastar em vida irá ajudar a assegurar uma transição em paz. O povo cubano agora aceita que o país ainda pode ser conduzido no mesmo caminho,mas por um time diferente. Há um ano e meio,eles estão se acostumando com a idéia,enquanto Fidel permaneceu teoricamente como presidente. Como sempre,Fidel era o mentor.

A coisa mais surpreendente que eu achei sobre esse homem,em mais de cem horas que passamos juntos em conversas para a compilação de sua memória,foi o quanto ele era modesto,humano,discreto e respeitoso. Ele tem uma enorme moral e senso ético. Ele é um homem de princípios rigorosos e existência sóbria. Ele também é – eu descobri – apaixonado pelo meio ambiente.

Ele não é nem o homem que a mídia ocidental pinta nem o super-homem que a imprensa cubana às vezes apresenta. Ele é um homem normal,ainda que um homem incrivelmente batalhador. É um estrategista exemplar,que conduziu sua vida com permanente resistência. Ele contém uma curiosa mistura de idealismo e pragmatismo:ele sonha com uma sociedade perfeita,mas sabe que as condições materiais são muito difíceis de serem transformadas.

Ele deixa seu gabinete confiante que o sistema político de Cuba está estável. Sua preocupação atual não é mais sobre o socialismo no seu país do que a qualidade de vida ao redor do mundo,onde muitas crianças são iletradas,famintas e sofrendo de doenças que poderiam ser facilmente curáveis.

Ele também pensa que seu país deve ter boas relações com todas as nações,independente de seus regimes ou orientações políticas. Agora ele está passando a responsabilidade para um time que já foi testado e no qual tem confiança. Isso não irá trazer mudanças espetaculares. Muitos dos próprios cubanos – mesmo aqueles que criticam aspectos do regime – não desejam mudanças. Eles não querem perder as vantagens que foram conquistadas,a educação gratuita até a universidade,o acesso gratuito e universal à saúde,ou o fato de que há segurança e paz,num país onde a vida é calma.

Relações com os EUA
E enquanto Fidel Castro atua em tempo integral como colunista,então,a principal tarefa de seus herdeiros políticos será a forma de enfrentar o desafio perpétuo de Cuba:as relações com os Estados Unidos. Nós devemos esperar para ver se vão ocorrer mudanças. Por duas vezes,Raul Castro anunciou que está preparado para dialogar com Washington sobre os problemas entre os dois países.

E os próprios Estados Unidos podem ter uma mudança em sua política. O democraca Barack Obama já sinalizou,por exemplo,desejo de interagir com países tidos como inimigos da América,como o Irã,a Venezuela ou Cuba. No entanto,uma imediata e radical mudança é improvável,embora exista razão para esperar que as eleições de novembro nos Estados Unidos provoquem ao menos no médio prazo uma atmosfera diferente dos anos Bush – uma gestão que Fidel considerou a mais perigosa dos 10 presidentes estadunidenses com quem ele teve experiência,não apenas para Cuba,mas também para o povo estadunidense e para o mundo.

A saída de Bush provavelmente conduzirá a uma reavaliação da política externa:aprendendo com as desastrosas lições do Iraque e do Oriente Médio e retornando o foco para a América Latina. Os Estados Unidos vão encontrar um cenário político transformado:pela primeira vez,Cuba tem verdadeiros amigos no governo na América Latina,sobretudo na Venezuela,mas também no Brasil,Argentina,Nicarágua e Bolívia,uma série de governos que não são particularmente pró-estadunidenses. É do interesse dos Estados Unidos redefinir suas relações com todos eles,de forma não-colonial,não-explorativa e baseada no respeito.

Ao mesmo tempo,Cuba tem desenvolvido estreita relações com países parceiros como a Alternativa Bolivariana para as Américas – uma organização política e econômica – e acordos com o Mercosul na área comercial. No quadro internacional maior,Cuba deixou de ser um caso único.

As mudanças mais visíveis que podem ocorrer no plano internacional são o fortalecimento dos laços com a América Latina. O socialismo será sem dúvida alterado,mas não nos moldes do que ocorreu na China ou no Vietnã. Cuba continuará seguindo o seu próprio caminho. O novo regime começará as mudanças no nível econômico,mas a perestroika cubana não a abrirá politicamente,não haverá eleições multiparditárias. Suas autoridades estão convencidas de que o socialismo é a correta escolha,mas o sistema deve ser sempre melhorado. E sua preocupação agora,mais do que o afastamento de Fidel,é ser unitário.

Mas em Cuba tudo é relacionado aos Estados Unidos:aquilo que é um aspecto global da política externa precisa ser compreendido. O afastamento de Fidel,antecipado há tempos,significa continuidade. Mas para a evolução dessa pequena nação histórica,a eleição de Obama poderia ser sísmica.

Ignácio Ramonet é diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique,faz parte da coordenação internacional do Fórum Social Mundial e é autor do livro Biografia a Duas Vozes,pela Editora Boitempo.

Paulo Arantes:

2007-10-01 –Cult
Márcia Tiburi

Autodescrito como “um intelectual destrutivo”,Paulo Arantes não deixou de ser um intelectual marxista. Paulistano,nasceu em 1942,doutorou-se pela Universidade de Paris 10,em 1973,fez carreira como professor na Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas da USP e se aposentou em 1998. Provocou um terremoto na intelligentsia em 2001,com o ensaio “Apagão”,publicado na Folha de S.Paulo,em que atacava a adesão dos intelectuais brasileiros ao governo Fernando Henrique Cardoso.

Em 2003,outro artigo,“Beijando a cruz”,arrasa va os adesistas à ortodoxia econômica do governo Lula. Multiplica-se,então,em textos jornalísticos,faz coordenação de coleções para editoras (“Zero à Esquerda”para a Vozes,“Estado de Sítio”para a Boitempo),publica livros como Sentimento da dialética (1992),Um departamento francês de ultramar (1994),Ressentimento da dialética (1996),O fio da meada (1996),Hegel- a ordem do tempo (2000) e Zero à esquerda (2004).

Participou da criação do Partido Socialismo e Liberdade(o PSOL). Publicou recentemente o livro Extinção (Boitempo,318 págs.,R$ 43),com 21 artigos,destacando-se a abordagem das várias formas do imperialismo americano.

Chamamos a atenção do leitor para as evidentes e pertinentes relações entre a entrevista de Paulo Arantes,concedida para Márcia Tiburi,e o dossiê sobre a Nova Esquerda,também publicado neste número de CULT

CULT –O seu último livro refere-se à extinção dos seres humanos,ameaça constante à nossa própria civilização. Uma per gunta ainda legítima é:quem pode fazer alguma coisa que faça sentido? Há uma tarefa que possa nos levar a outro lugar?

Paulo Arantes –A rigor,você está querendo que eu lhe diga o que fazer depois do fim do mundo. Nada mais,nada menos do que uma pergunta leninista num cenário adorniano,algo como Brecht esperando Godot. Tanto mais inusitado esse reencontro,se revisto pelo ângulo utópico redescoberto por Slavoj Zizek,no Lênin que nasce das cinzas da catástrofe de 1914,quando,acertando as contas com o evolucionismo da Segunda Internacional,vislumbra naquele naufrágio de todo um mundo da ordem e do progresso a janela aberta para o salto na Revolução. Segundo Zizek,naquele período em que praticamente ficou só,Lênin não teve medo de triunfar,em contraste com o pathos negativo característico de um Theodor Adorno,para o qual só a admissão plena do fracasso lançaria luz sobre a verdade daquela situação terminal. Mesmo assim,não acho a equação impossível,descontado,é claro,o fuso histórico específico de suas duas incógnitas:a luta de classes no auge do imperialismo e a sociedade totalmente administrada pela autoridade imediata do capital. Vistas,no entanto,em retrospecto,à luz do caos sistêmico de agora –as duas épocas e seus respectivos diagnósticos -,podem e devem ser pensadas em continuidade. A guerra total que selou o destino da civilização burguesa se perpetuou no estado de mobilização permanente da era exterminista,que se abriu com a aliança entre o capital,a bomba e o consumo de massa. Não é,portanto,um paradoxo que,com o aparente degelo dos anos 1990,a lógica da desintegração tenha assumido o comando do processo,pois se trata da mesma corrida contra o relógio que Walter Benjamin identificou no âmago da luta de classes. A urgência em desarmar o dispositivo capitalista,de sujeição da vida ao processo produtivo,deriva da autonomização crescente de um aparato econômico e técnico com hora quase calculável para explodir. Como se depreendia então de sinais alarmantes como a hiperinflação e a guerra química recente. Se assim é,nunca houve Era de Ouro alguma no breve século 20 de Eric Hobsbawm. Está claro,porém,que essa recapitulação sob o signo da emergência extrema,se nos habilita a articular a verdade da catástrofe sob a qual vivemos,nem por isso indica a rota de fuga que você me pede para traçar. Aliás,curiosa pergunta,pois nela convivem a demanda por intervenções “do contra”,que retardem a derrocada,com a procura de um refúgio onde se abrigar enquanto não se apresenta a macro instância superadora em condições de medir forças com o capital. O mais surpreendente nisso tudo é que esse mesmo capital onipotente também está em fuga. Para variar,está fugindo do seu outro;o trabalho vivo e seu correlato;o estorvo da produção material intercalada entre o dinheiro e ele mesmo;mais dinheiro. Daí o desvio pelo capital fictício,que vem a ser a dominância financeira no atual regime de acumulação,conjugado com a introdução da mercadoria-conhecimento no processo de valorização,e as formas de acumulação primtiva por apropriação direta nos espaços desregulamentados abertos pelas privatizações e deslocalizações. Essas providências,que se qualificam também de saídas de emergência buscadas pelo próprio capital –para não falar nas urgências sociais,alvos de procedimento de mera gestão compensatória -,não deixam de,entretanto,assinalar que os riscos temidos ainda continuam sendo esperados como sempre do mesmo lado,a fonte real da valorização,hoje pulverizada pelos quatro cantos do planeta. Em uma década,essa fuga global não impediu que a massa trabalhadora tenha simplesmente dobrado. Diante da avalanche de um proletariado informal se espraiando pelas mega-favelas do mundo,qual o sentido dessa esfera microscópica,como você mesmo a dimensiona,a vida privada encarada como derradeiro baluarte da vida justa,imagino que na acepção antiga do termo? Mesmo vivida despretensiosamente,com a modéstia e a discri ção de quem não quer se enredar alienando sua independência de letrado,à maneira da resposta humanista de um Cícero acossado pela crueldade do espetáculo romano,essas novas “tranqüilizações”,como se dizia no Baixo Império,parecem caracterizar os virtu ases de uma nova imigração interior,cujas alegações não custam repassar:como as possibilidades de alterar os pressupostos objetivos do atual beco praticamente inexistem,melhor tomar o rumo das condições subjetivas,esclarecendo o distinto público acerca dos riscos de recaída na barbárie,caso se caia na tentação de alguma iniciativa menos anódina de mudança. Melhor resignarse a um mal menor à sociedade realmente existente. Mas por aí esbarramos de novo no contraponto evocado por Zizek:jamais se arriscar sem a garantia de que,dessa vez,a história está do nosso lado. É fato que o desenvolvimento histórico “normal”dava razão aos que achavam que a revolução só explode no seu tempo certo de maturação. Lênin,no entanto,não era bem um alucinado da utopia por decreto,apenas achava que o extraordinário conjunto de circunstâncias da Rússia em 1917 configurava uma exceção em condições de abalar a própria norma

CULT –Nesse contexto da guerra cosmopolita e da miséria crescente que é corolário da guerra,o que dizer do silêncio dos intelectuais transformado em jargão numa campanha que,só podemos crer,é a da “imbecilização planetária”,para usar uma expressão de Theodor Adorno,a meu ver,sempre muito atu al? Esse filósofo também dizia que a “burrice era uma categoria moral”. A extinção é também extinção da inteligência? A Filosofia ainda pode alguma coisa diante do que o senhor chama “estado de sítio moral”?

P. A. –O silêncio parece ser decorrência natural do encapsulamen to que acabamos de comentar. Silêncio oracular,coisa que não falta nesses profissionais do desengajamento,é o discurso sobre a inibidora ultracomplexidade do mundo,sobretudo a deles próprios. Mas não foi esse silêncio intelectual que esteve na berlinda há dois anos,mas o silêncio obsequioso dos engajados no novo oficialismo de esquerda. Silêncio paradoxal,aliás,pois nunca se tagarelou tanto sobre as circunstâncias atenuantes da reviravolta em questão. Dois anos depois,inundam as colunas de opinião sobre fatos de sociedade. É o milagre de sempre,a cada crise ou descalabro,as instituições democráticas ressurgem ainda mais fortalecidas. Passa por convergência ao centro algo como uma apoteose do senso comum. Como lembrou certa vez Bento Prado Jr. –cuja falta pesa ainda mais nestas horas em que besteiras brotam ,do fundo da alma -,o senso comum é esse tribunal de última instância,diante do qual devemos pensar exatamente como de fato pensamos. Dele não escapam nem,ou muito menos,os supracitados encaramujados,o precioso ornamento crítico das sociedades hipercomplexas. É preciso notar que essa flagrante extinção da inteligência diz respeito,antes de tudo,à casta dos inteligentes com resposta para tudo. Quanto ao comum dos mortais,a própria engrenagem que os aprisiona,tanto faz se o espetáculo da guerra permanente ou o tormento do trabalho sob pressão total,encarrega-se de tornar o pensamento dispensável,ou então uma impossibilidade. Quando isso ocorre,esses mesmos mortais,em cujo silêncio ninguém presta atenção,tornam-se ainda mais facilmente descartáveis. No tempo em que a Filosofia vinha a ser o próprio espírito de contradição organizado,podia sim,aliás,dispensando sua denominação de origem,romper o círculo desse “estado de sítio moral”,cuja certidão de batismo é uma frase de Karl Marx acerca da abdicação da burguesia francesa diante do golpe de Luis Bonaparte,em 1851 . Jean-Paul Sartre o chamou de neurose objetiva,estudando a epidemia de ressentimento nos contemporâneos de Gustave Flaubert,cuja estética antiburguesa justamente se converteu na mais poderosa máquina de guerra no front da estupidez intelectual de que há pouco falávamos. Mas hoje é a própria Filosofia que se encontra em estado de sítio. Incapaz de narrar em grande formato o curso do mundo,encontra-se confi nada ao círculo íntimo do governo de si e dos outros,integrando assim o gigantesco aparato gestionário dos medos contemporâneos,a começar pelo medo de pensar.

CULT –No mesmo Extinção,no capítulo “O Governo Lula acabou?”,o senhor diz que pressupor que acabou implicaria que tivesse começado. Tal não-começo se deve,segundo sua expressão,à irrelevância da política,à sua extinção. Nesse contexto,o que dizer da corrupção cometida por comunistas ou socialistas ou simplesmente por pessoas de esquerda? É ingênuo pensar na contradição entre lucro (e roubo,desvios e conseqüente assassinato em massa de pobres e miseráveis) e mentalidade comunista? Cobrar “ideologia”hoje é absurdo? Como ser comunista depois de Josef Stálin? Como ser de esquerda depois dos eventos que que transformaram um partido representativocomo o PT em um projeto cancelado? A questão seria continuar confiando na política? Ou,com o seu fim,ficar em casa esperando o país explodir pela TV?

P. A. –Até a corrupção não é mais a mesma. Precisamos de um outro conceito à altura do modus operandi do novo capitalismo,aliás,por ela mesmo turbinado. Como o Estado era patrimônio da oligarquia,corrupção era apenas o patrimonialismo dos outros,um sintoma trivial da degenerescência populista. Depois,finança de mercado em tempo real,privatizações e fusões,parcerias e concessões terceirizáveis etc. acabaram produzindo uma vasta sociedade de compadres,em que já não é mais possível distinguir o oficial do paralelo. O “estado de exceção”também vem a ser justa mente o modo de gestão desse limbo jurídico onde todos os colarinhos são pardos. A corrupção é,assim,coextensiva de uma inflação normativa tal,que a insegurança jurídica assim produzida pede uma correção suplementar,por meio de derrogação permanente do ordenamento. Isto é:mais atalhos e desvios,por sua vez multiplicadores de pedágios,recomeçando a ciranda dos ilícitos banalizados. Onde se lia hegemonia (e olhe lá),leia-se hoje rackett –em qualquer cenário corporativo,sabe-se que o vencedor leva tudo. Ser ou não ser de esquerda,nisso tudo,é apenas um elemento biográfico a mais entre operadores manipulando uns aos outros. Agora,como ser comunista depois de Stálin? Para começar,lembrando que havia esquerda e comunismo muito antes de Stálin. Simples assim,depois,é claro,de explicar muito bem explicadocomo se deu a fusão entre economia de comando,marxismo de caserna e…Stálin.

CULT –Considerando sua tese sobre o “estado de sítio global”e a questão do estado de exceção tal como aparece em seus comentários aos pensadores da política Carl Schmitl e Giorgio Agamben,o senhor vê chance de o Brasil deixar de ser um “campo”onde crescem as “classes torturáveis”? Há futuro para os po bres e miseráveis nessa sociedade?

P. A. –Desde que nos entendamos acerca da desvalorização do futuro,em curso nas sociedades contemporâneas. Pois é dessa mesma desvalorização e da subseqüente supremacia conferida a um presente vulnerabilizado por todo tipo de urgências,que se descortina o imenso futuro dos pobres no Brasil,bastando para isso que permaneçam pobres. Os programas sociais de massa estão aí para isso:45 milhões de pobres assistidos significa que vivemos numa outra sociedade,paradoxalmente uma sociedade do desamparo perene,porém “cuidado”. A menos que a retomada da longa duração do ciclo da cana os reabsorva num regime de trabalho que sabemos de antemão qual seja. A conclusão do execrável movimento “Cansei!”é um notável acerto sociológico acerca da distribuição de poder numa sociedade cujas anomalias não cessam de surpreender,sendo o tal “Cansei!”a última delas. Hoje no Brasil,as classes dominantes se encontram “dominadas”pelas classes dominadas.

CULT –O que o senhor estará fazendo na próxima eleição para presidente? Desculpe perguntar assim,mas mesmo levando a sério a política no Brasil,poderemos continuar a votar sem vomitar? Como enfrentar essa contradição?
P. A. –Uma outra campanha. Desta vez para “que se vayan todos”. Votar,nem pensar. Decididamente,o capitalismo não é uma sociedade de conflitos negociados.

CULT –Ao ler sua entrevista a Beth Néspoli do O Estado de S. Paulo em julho passado,é animador ver sua percepção sobre o fenômeno que atualmente ocorre com o teatro em São Paulo. O senhor pensa que a estética pode ser o cerne de uma revolução política? Gostaria,inclusive,que o senhor enfrentasse o potencial desse termo,se é que ele ainda possui algum.

P. A. –Pois é,a atuação artística e política dos coletivos teatrais em São Paulo não deixa de lembrar que,em tempos de invenção social acelerada,estética antiburguesa e ruptura política correm pela mesma pista. Para voltar ao nosso tópico inicial,com as óbvias ressalvas exigidas pelo caso,a “intuição”leninista acerca da hora e vez da revolução tinha a mesma data histórica do ataque vanguardista ao aparelho artístico instituído. A mesma irrupção utópica visava à destruição do Estado e à liquidação dos monumentos culturais da barbárie. Multiplicando de novo as ressalvas,no Brasil dos anos 1930,e outra vez no pré-64,ocorreu uma transfusão análoga,ainda que,como no precedente europeu,a precoce ossificação da esquerda tenha banido a experimentação artística do seu campo. Com a esquerda hibernando,hoje a ameaça vem da própria sociedade no seu presente estágio espetacular nem o mais enérgico movimento hip-hop está fora de perigo,et pour cause. Como a paradeira é geral no campo das artes estabelecidas,não espanta que o sopro novo venha desses ambientes de penúria material aguda e abundância de raiva artística acumulada à procura de novas embocaduras sociais.

CULT –O que seria a política após sua extinção? Como sobrevive essa estrutura,ou podemos deixá-Ia de lado como apenas um paraíso perdido de um romantismo sem volta?

P. A. –Nunca será demais recordar que a tese da irrelevância da política foi levantada em primeira mão pela direita. Ao mesmo tempo que operava o consenso econômico a caminho,encaminhava os novos “atores”sociais para longe das instituições políticas que aquele mesmo consenso estava tornando obsoletas,no rumo mais “participativo”,por exemplo,da sociedade civil e de seus incontáveis canais de gesticulação cívica. Num segundo momento,a esquerda dos movimentos dourou essa mesmíssima pílula com o vocabulário new look da cidadania etc. Inócuo,como a direita honestamente anunciara. Chegou então a hora de virar o disco e retomar no patamar da agonia presente o paradigma de luta política eclipsada pela novidade momentosa do PT.
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Estado de Sítio Global

2007-08-01 –Le Monde Diplomatique
Bernardo Alves

Paulo Arantes costuma dizer que,para entender o complexo momento em que vivemos,não basta ficar com as “boas verdades de sempre”. É preciso olhar para as coisas “novas e ruins”. É o que faz em Extinção,coletânea de ensaios e entrevistas sobre o mundo pós-11 de Setembro e sobre o Brasil pós-eleição de Lula. Segundo Arantes,vivemos hoje um estado de sítio global,no qual os Estados Unidos substituíram o direito internacional e assumiram a função de polícia a fim de preservar sua nova ordem imperial.

Arantes dialoga com a formulação do Império,de Michael Hardt e Toni Negri,mas,ao contrário desses autores,o identifica claramente com o “novo imperialismo”norte-americano,baseado em uma rede global de bases militares.

Sua análise chama a atenção para uma regressão histórica na qual o “novo imperialismo”estaria ressuscitando antigas práticas coloniais e até medievais,como renascimento da acumulação primitiva por meio da pilhagem dos territórios anexados e a reedição do conceito de “guerra justa”. A transformação mundial vem acompanhada de um processo equivalente no Brasil,onde a compreensível frustação com o governo Lula abre caminho para uma onda reacionária que fortalece o lado mais autoritário da sociedade.
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Em Bagdá,São Paulo,Rio

2007-08-01 –Caros Amigos
Danilo Siqueira e José Arbex Jr.

No Rio de Janeiro,como em Bagdá:“Não é preciso remontar à vida nua dos prisioneiros de Guantánamo ou Abu Ghraib. Basta mencionar a recente onda de execuções sumárias no Complexo do Alemão,para saber do que estamos falando. Não por acaso,a ‘ocupação’ de Bagdá segue a mesma lógica do desprezo social e da violência desproporcional na invasão diária das centenas de ‘barracos’ iraquianos”,afirma o filósofo Paulo Arantes. Provocação:ele não gosta de ser qualificado como filósofo,mas como professor de filosofia (aposentado) da Universidade de São Paulo e (efetivo) da Escola Nacional Florestan Fernandes,criada e construída pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Autor de Extinção (Boitempo Editorial),um alarmante livro que reúne ensaios e análises sobre o mundo contemporâneo,Arantes propõe questões urgentes para uma esquerda não raro cega aos desafios contemporâneos,ainda quando bem intencionada e hostil aos esquemas de cooptação tão ao gosto dos “neo-companheiros”. Denuncia um mundo em que a exceção (o poder do soberano de fazer uso da força extrema) tornou-se regra,em que os corpos nus de civis iraquianos,favelados cariocas e sem teto paulistanos são reduzidos à condição de uma massa indiferenciada de carne. Como diz o rap:pra quem vive na guerra,a paz nunca existiu. E a esquerda? Cadê? Bem…

P –A ocupação da reitoria da USP foi saudada como um acontecimento,não só por oxigenar o movimento estudantil,mas por romper com um longo hiato de apatia política. Chegou-se a falar de uma volta de maio de 68 a caminho. Até mesmo a imprensa conservadora concedeu ao evento uma cobertura desproporcional. Enquanto isso,na periferia de São Paulo,mais de 4.000 famílias organizadas pelo MTST participavam de um outro processo de ocupação. No centro da cidade,a tropa de choque não pensou duas vezes para “desocupar” um show dos Racionais. Gostaria que você comentasse este novo capítulo da histórica fratura brasileira,entre seres comuns (homo sacer?),viventes miseráveis e massacráveis,e seres politicamente relevantes (sapiens?).

Paulo Arantes — Se fosse para resumir numa palavra o drama que você está me pedindo para encarar do ângulo da assim chamada,a torto e a direito,fratura social brasileira,aproveitaria sua própria deixa,ao estranhar a “cobertura desproporcional” que a grande mídia deu à ocupação da reitoria da USP — aliás não mais do que um reles puxadinho,como observou um professor muito próximo do movimento. Acho de fato que a marca do momento é a desproporção. No exemplo que você trouxe,salta aos olhos a flagrante e escandalosa assimetria no tratamento dispensado entre as duas ocupações,a uspiana e a dos trabalhadores sem teto em Itapecerica da Serra,que no seu auge chegou a abrigar 10.000 pessoas. Desproporção também no furor punitivo dos bem-pensantes,dentro e fora da universidade:uma gota d’água de desobediência civil num recinto fechado acadêmico,acompanhada por um deus-nos-acuda,do tipo pega-ladrão de outros tempos. Lembro que no levante dos presídios paulistas no ano passado,os mesmos varões sabedores e proprietários se revezaram em palácio exigindo do governador uma rodada exemplar de carandirus. Mais rotineira,mas não menos desproporcional,como você mesmo lembra,a tropa de choque reprimindo um show dos Racionais em plena noite de glamour oficial (Virada Cultural) na praça da Sé. Se valer o registro,um boletim de ocorrência pessoal:pelo fato de ter sustentado a nota da ocupação,esperava como um fato da vida o habitual xingatório ideológico de sempre,e no entanto fui surpreendido sendo tratado de velho,falsificador de diploma,bolsista estelionatário,etc. Um outro repertório,que soa desafinado porque a matriz da velha proporcionalidade entre fato e sanção está mudando — vai ver esta violação do Estatuto do Idoso já é uma manifestação paroquial do novo biopoder hegemônico. Enfim,todo mundo está perdendo a cabeça,a começar por quem não deveria,professores e assemelhados.

P. Por falar em universidades políticas e presos comuns,estamos completando pouco mais de um ano desde os famigerados “alarmes do PCC”e,sobretudo,da polícia,os quais,como se sabe,só entre maio e junho de 2006 deixaram mais de 700 “suspeitos”mortos. Democracia…Por medidas provisórias e preventivas,à imagem e semelhança da “guerra infinita contra o terror”no plano planetário,favelas continuam sendo ocupadas (ou invadidas?) por tempo e corpos indeterminados.

PA – Em escala planetária,o sintoma mais gritante deste desconjuntamento todo se encontra bem visível,como era de se esperar,no efetivamente desproporcional poder militar-punitivo americano:quando a guerra não tem mais fim,sendo difusos seus objetivos e indeterminados seus limites temporais,o princípio da proporcionalidade entre meios e fins,que comandava a antiga racionalidade capitalista da guerra deixou de fazer sentido. Se fôssemos cavar mais um pouco,chegaríamos à desproporcionalidade básica do nosso tempo,matriz do atual despotismo do capital,a desproporção qualitativa,nas palavras de um Marx profético,entre a imensidão da riqueza livre socialmente produzida pela inteligência humana e seu acesso violentamente bloqueado por um processo de valorização capitalista cada vez mais desencarnado. Relembro de passagem que dois pensadores alemães,Oskar Negt e Alexander Kluge,identificaram justamente na proporção entre os termos envolvidos num confronto social a relação constitutiva da política,sem a qual não se formam comunidades emancipadas duradouras. Em contrapartida,o que há de incomensurável no poder soberano meramente instrumental — pensemos no espaço descontrolado em que se exerce a autoridade monetária hoje — nos converte em seres apolíticos,quer dizer,em pessoas sem resposta. Ou por outra,tomadas por respostas desproporcionais,da ordem da gesticulação inócua e truculenta. Dito isso,voltemos à dissonância realmente inquietante entre as duas ações de despejo. O mais espantoso é que uma não soube da outra,socialmente falando. De resto,só o povo aglutinado pelo MTST foi de fato despejado,tangido pelos PMs de sempre,ludibriados pela encenação dos habituais mediadores de fachada. Enxotados como massa nômade e no limite elimináveis. Na sua perplexidade,você evoca a figura do homo sacer,recolhida no direito romano arcaico pelo filósofo Giorgio Agamben,no intuito de qualificar melhor o limbo jurídico em que vivem hoje as populações impunemente massacráveis que o capital tornou redundantes. Não é preciso remontar à vida nua dos prisioneiros de Guantánamo ou Abu Ghraib. Basta mencionar a recente onda de execuções sumárias no Complexo do Alemão,para saber do que estamos falando — aliás uma outra “ocupação” rigorosamente contemporânea das duas outras em nosso radar. Não por acaso,a “ocupação” de Bagdá segue a mesma lógica do desprezo social e da violência desproporcional na invasão diária das centenas de “barracos” iraquianos. Num caso se alucina a figura abstrata do traficante,no outro,a do insurgente-terrorista,um tipo de pele escura que não fala inglês,espécie de variante do índio morto do general Custer:um iraquiano morto é apenas um iraquiano morto. Na camada intermediária da mesma sociedade global do desprezo,para voltar ao desconforme local,a mesma conjuntura de ilimitação do ódio prossegue através dos sucessivos atos delinqüentes de violência contra pobres praticados por jovens bem-nascidos,como o recente espancamento de uma doméstica na Barra da Tijuca e de um gari na praia de Copacabana. Novamente desproporção,redobrada desta vez,se pensarmos na comoção efêmera e meramente estatística quando se trata de um rifado homo sacer chacinado numa quebrada qualquer.

P –Encarceramento em massa;extermínio concentrado ou difuso dos irrelevantes;e reengenharia genética (eugênica;pós-humana),três biocombustíveis fundamentais de uma fórmula neoimperialista explosiva que em meio à derradeira Crise do Petróleo e das Energias,na periferia do capitalismo se traduz em neofavelização urbana e num neoplantation de terra arrasada…O autor de Extinção acredita,realmente,que esta biogestão primitiva da pobreza “não leva a lugar nenhum”,deixando esta massa “estacionada no lugar”,ou trata-se de uma solução final de curta duração ao longo e duradouro pós-África que vivemos?

PA –Em contraste com a vida nua do povo escorraçado de Itapecerica,você realça a irônica condição de homo sapiens do povo estudantil da Reitoria,preservado assim do choque punitivo por um sem número de mediações,possivelmente decorrentes desta mesma distinção pelo ethos espiritual,por mais que esses primos pobres e radicais do mundo acadêmico vivessem em imaginação uma intensa e sincera relação fraterna com os espoliados do outro lado do fosso. Não empreguei por acaso o termo espírito. Se descontarmos a retórica superlativa embutida no sapiens a que você recorre por derrisão,substituindo-o por algo menos enfático,porém não menos ideologicamente contundente no corte discriminador,como “capital humano”,e todas suas variantes como senha de um ingresso na sociedade contemporânea do intelecto geral — da qual de resto nossos estudantes precarizados serão invariavelmente rechaçados,daí a revolta preventiva —,creio que nos aproximaremos melhor da desproporção abismal entre as duas ocupações. Pois à vida nua dos “despejáveis” se contrapõe justamente a distinção social indivualizante daqueles que em princípio estão sendo treinados para o desempenho mental elevado. Sem querer simplificar demais os esquemas que o sociólogo Jessé Souza vem elaborando para explicar as tremendas desigualdades de classe no Brasil e o buraco negro da guerra social que está nos engolindo,tudo se passa como se um enorme confronto subordinasse desclassificados sociais que são meros corpos — despejáveis,atropeláveis,espancáveis,torturáveis,chacináveis,etc.,mas também economicamente exploráveis como simples corpos na prostituição,no trabalho doméstico,na estafa do corte de cana etc. — à uma casta superior de seres literalmente intocáveis,que por isso mesmo se podem dar ao luxo rotineiro,por exemplo,de atropelar um daqueles corpos como quem passa por cima de um cão sem dono. De um lado,corpos anônimos apenas contados por uma cifra quando morrem,de outro,titulares competitivos de um “capital” portador de reconhecimento social exclusivo,quer dizer,indivíduos cujo corpo por assim dizer se apresenta trespassado pela “alma” de um conhecimento com valor de mercado incorporado. Faz então todo o sentido identificar nas antigas instituições disciplinares sucateadas pelo colapso do processo de valorização capitalista — escolas e hospitais públicos,manufaturas em regime de zona franca,presídios,etc. etc. — apenas carcaças de armazenagem e gestão desses corpos desprezíveis. Sobretudo o último círculo,os presídios,estação terminal do homo sacer brasileiro.

P –Vemos uma relutância da maior parte da chamada esquerda,eterna fã do turismo tele-revolucionário,do Chico Buarque bossa-nova,da Tropicália forever e da “política” por sobrevivência de gabinete (“políticas públicas,Amém!”) –,relutância em encarar o “cortejo de monumentos à verdadeira selvageria” que sempre foi a história dos dominados,e atracar tal realidade pelos chifres. Chifres,por sinal,neomalandramente capitalizados por igrejas evangélicas e pelo verdadeiro Partido –do Crime falsamente Organizado –que restou,os quais neomorro acima têm conseguido prometer respectivamente o Reino dos Céus e a Cidade de Deus na Terra. Por que tanta insistência em não encarar de frente a Justiça neokafkiana das 1,2,3,mil Guantánamos? E de forma mais ampla,gradual e decadente:por que a insistência em resignar-se?

PA –Foi no inferno da Ilha Grande,nos anos 70,onde conviveram por um breve período presos políticos e presos comuns,juridicamente amalgamados pelas leis de exceção,que essa fratura abissal entre corpos e mentes esteve a ponto de ser pela primeira vez problematizada num coletivo utópico superador. No entanto,mal despontou no horizonte o aceno da anistia,foi suficiente para dissolver a mistura embrionária:a galeria foi dividida por um muro de alvenaria com um portão de ferro,de um lado os presos políticos,do outro,os “corpos” comuns dos presos proletários,como eles próprios passaram a se auto-denominar. Não deu outra na insurreição da massa carcerária contra os agentes do Estado em maio de 2006:entregues à própria mísera sorte,sob o pretexto filistino de serem manipulados e extorquidos por uma facção criminosa,correu solta outra vez a sempiterna percepção compartilhada por direita e esquerda,de que naquele tumulto se agitavam como sempre meros corpos infames,pedindo quando muito ação pastoral. Resposta política,nem pensar.
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Extinção:Exercício de desencanto e crítica radical

2007-07-15 –Estado de S. Paulo
Luiz Zanin Oricchio

A extinção da política no mundo contemporâneo – é dela que trata,usando apenas uma das palavras da sentença,o novo livro do filósofo Paulo Arantes. Extinção compõe-se de 21 artigos,lançados em publicações diferentes. Revistos e alguns ampliados pelo autor,guardam entre si uma sólida – e as vezes terrível – coerência.

Sólida,porque sabem os que foram alunos de Arantes na Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas da USP quanto ele preza o rigor. Terrível,porque,como também é sabido,Arantes é um ensaísta radical,adepto da “crítica impiedosa”,árdua e saneadora,de que falava Marx. Assim,esses escritos aparecem,em bloco,como uma disciplina do desencanto. Tendemos a concordar com parte deles,discordar do resto. Quem pensa diferente de nós,fará a leitura inversa. É uma coerência crítica,difícil de ser mantida.

No entanto,os textos funcionam como um mecanismo de lógica implacável,articulando,como diz no prefácio Laymert Garcia dos Santos “a estratégica das forças vencedoras da era da globalização no plano da geopolítica e o modo como essa mesma estratégia se impõe e se compõe com as forças internas da sociedade brasileira”.

Do todo ao particular;da aldeia global à aldeia propriamente dita,Arantes encontra ecos desse estado de beligerância permanente como decorrência deste estágio histórico no qual prevalece a potência única. Que implica a redefinição (unilateral) do direito internacional (como no caso da invasão do Iraque sem aval da ONU) e também das relações tradicionais entre centro e periferia. Vivendo sob o domínio da estrita necessidade econômica,a política,ou o que resta dela à esquerda ou à direita,resume-se a gestão consensual da nova ordem.

Sob essa lente rigorosa,Arantes esmiúça,de forma impiedosa,tanto os governos do PSDB quanto os do PT. Fala da “crapulização dos ricos” no reinado Collor,do “glamour da era tucana,conferindo brilho intelectual e verniz sociológico à adaptação predadora à nova ordem econômica” e batiza o período Lula de “estrago conclusivo”. Põe uma estaca no coração da esquerda ao escrever com todas as letras que “o voto que elegeu Lula foi majoritariamente despolitizado” e que,com a frustração contemporânea,veio à luz “um sentimento cínico do mundo”. Junto com ele,uma onda reacionária,com o desrecalque de preconceitos e ódios sociais por parte das classes médias:“Agora o povo pobre,al´[em de feio,sujo e malvado,é também corrupto.”

Não encontra o futuro político para Lula,salvo um populismo raso,ancorado no marketing. Mas acha os dois partidos,no fundo,muito parecidos:“Ainda têm tudo para se entender,são tão semelhantes que estão se matando no momento.” Não é livro para se ler com o espírito frágil. Quer dizer,é absolutamente indispensável,em nome da lucidez.
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A extinção da política no mundo contemporâneo – é dela que trata,usando apenas uma das palavras da sentença,o novo livro do filósofo Paulo Arantes. Extinção compõe-se de 21 artigos,lançados em publicações diferentes. Revistos e alguns ampliados pelo autor,guardam entre si uma sólida – e as vezes terrível – coerência.

Sólida,porque sabem os que foram alunos de Arantes na Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas da USP quanto ele preza o rigor. Terrível,porque,como também é sabido,Arantes é um ensaísta radical,adepto da “crítica impiedosa”,árdua e saneadora,de que falava Marx. Assim,esses escritos aparecem,em bloco,como uma disciplina do desencanto. Tendemos a concordar com parte deles,discordar do resto. Quem pensa diferente de nós,fará a leitura inversa. É uma coerência crítica,difícil de ser mantida.

No entanto,os textos funcionam como um mecanismo de lógica implacável,articulando,como diz no prefácio Laymert Garcia dos Santos “a estratégica das forças vencedoras da era da globalização no plano da geopolítica e o modo como essa mesma estratégia se impõe e se compõe com as forças internas da sociedade brasileira”.

Do todo ao particular;da aldeia global à aldeia propriamente dita,Arantes encontra ecos desse estado de beligerância permanente como decorrência deste estágio histórico no qual prevalece a potência única. Que implica a redefinição (unilateral) do direito internacional (como no caso da invasão do Iraque sem aval da ONU) e também das relações tradicionais entre centro e periferia. Vivendo sob o domínio da estrita necessidade econômica,a política,ou o que resta dela à esquerda ou à direita,resume-se a gestão consensual da nova ordem.

Sob essa lente rigorosa,Arantes esmiúça,de forma impiedosa,tanto os governos do PSDB quanto os do PT. Fala da “crapulização dos ricos” no reinado Collor,do “glamour da era tucana,conferindo brilho intelectual e verniz sociológico à adaptação predadora à nova ordem econômica” e batiza o período Lula de “estrago conclusivo”. Põe uma estaca no coração da esquerda ao escrever com todas as letras que “o voto que elegeu Lula foi majoritariamente despolitizado” e que,com a frustração contemporânea,veio à luz “um sentimento cínico do mundo”. Junto com ele,uma onda reacionária,com o desrecalque de preconceitos e ódios sociais por parte das classes médias:“Agora o povo pobre,al´[em de feio,sujo e malvado,é também corrupto.”

Não encontra o futuro político para Lula,salvo um populismo raso,ancorado no marketing. Mas acha os dois partidos,no fundo,muito parecidos:“Ainda têm tudo para se entender,são tão semelhantes que estão se matando no momento.” Não é livro para se ler com o espírito frágil. Quer dizer,é absolutamente indispensável,em nome da lucidez.
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O declínio do império americano

2008-03-24 –Diário do Nordeste
Dellano Rios

Estudiosa dos processos culturais,a pesquisadora norte-americana Susan Willis lança hoje,no MAUC,os livros ´Cartas a Legba´ e “Evidências do Real:os Estados Unidos Pós-11 de Setembro”

Quando dois aviões comerciais se jogaram contra as torres gêmeas do World Trade Center,em Nova York,o mundo soube que sérias mudanças viriam pela frente. A data da investida terrorista em território norte-americano ficou marcada na memória:11 de setembro (de 2001). Não tardou para que muitos intelectuais percebessem que a data havia se tornado um divisor de águas. As transformações e os conflitos que atravessaram o império americano e atingiram o resto do mundo são analisadas em uma série de ensaios no livro “Evidências do Real:os Estados Unidos Pós-11 de Setembro”,publicado pela Boitempo Editorial. A autora,a escritora e pesquisadora norte-americana Susan Willis,lança a obra hoje,no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará.

Professora da Universidade de Duke,na Carolina do Norte,Willis chega à cidade para lançar sua coletânea de ensaios e outro livro,“Cartas a Legba:um texto encontrado”,reunião de missivas/poemas de um autor anônimo,organizada pela pesquisadora. O evento faz parte da programação do seminário “Diálogos com Maria Elisa Cevasco e Susan Willis”,que acontece hoje e amanhã na UFC. Cevasco é especialista em Estudos Culturais e na obra de pensadores contemporâneos como Raymond Williams e Frederic Jameson,e tradutora da obra de Willis no Brasil.

Contra o império

“Evidências do Real” reúne seis ensaios de Susan Willis. Neles,a autora faz análise das relações entre a história,o cenário sócio-político e econômico dos EUA e a produção cultural relacionados à crise deflagrada pelos atentados terroristas.

A administração de George Bush é um alvo declarado e um dos componentes centrais desse fenômeno. “Os Estados Unidos vivem sua história como uma produção cultural. A era pós-11 de Setembro,definida como uma época de incertezas diante de um Estado superconfiante e repressor,embora muitas vezes equivocado,testemunhou uma explosão extraordinária de formas culturais cuja função é explicar e conter a crise. A vida cotidiana norte-americana é articulada por meio de uma série conflitante de ficções populares. Uma das mais persistentes é o faroeste,segundo o qual nosso presidente é um caubói que acena do seu rancho,tem problemas com termos mais refinados da língua inglesa e freqüentemente pratica a arte sofisticada de dirigir seus olhos apertados na direção do sol”,dispara Willis na introdução do livro.

A crítica de Willis,em alguns momentos,lembra a análise do filósofo francês Guy Debord,em seu clássico “A sociedade do Espetáculo” (1967). Temas como a construção de discursos de teor patriótico para as massas,a censura de produções culturais e a violência de Estado estão na pauta,relacionados a práticas publicitárias do governo norte-americano – mais interessado em fazer valer sua “versão” dos conflitos econômicos no mundo.

Cartas da Bela

“Cartas a Legba” revela outro lado da produção de Willis. O teor político não é tão explicito. Ainda assim,ele está nas entrelinhas da obra e da escolha da pesquisadora em publicar o manuscrito anônimo. Na apresentação do volume,ela afirma que os aspectos “mundanos e rotineiros” da narrativa “são contrapostos ao cataclismo da reação dos Estados Unidos aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001”. “A oposição está desorganizada,e a escritora revela seu desânimo ante uma nação que se prepara para recriar o inferno da guerra”.

As cartas trazem uma história de amor,narrada por “Bela Adormecida”,que se dirige a seu amante,“Legba”. A autora se revela uma mulher contemporânea,que não teme revelar suas fraquezas,contradições e,principalmente,seus desejos. “As cartas que Susan reúne e apresenta são uma tentativa de dar sentido ao indizível da experiência fundamental do amor”,escreve Maria Elisa Cevasco,no posfácio do livro.

Escritas em verso,as cartas apresentam um tom fabular. Ao final de cada uma,a narradora deixa seu relato inconcluso. Utilizando uma forma fixa – escreve sempre “a seguir…” -,“Bela” remete ao artifício de Sherazade,heroína do clássico da literatura árabe “As 1001 noites”,que para evitar a própria morte se vê obrigada a contar uma história dividida em várias partes para instigar,dia após dia,o interesse do sultão.

Cultura em pauta

A presença de Susan Willis em Fortaleza,hoje e amanhã,complementa o seminário “Diálogos com Maria Elisa Cevasco e Susan Willis”,promoção conjunta do Departamento de História,Núcleo de Documentação Cultural (Nudoc),Mestrado em História Social,Mestrado em Comunicação,Núcleo Antônio Cândido de Estudos de Literatura e Sociedade e Museu de Arte da UFC (Mauc).

Hoje,Maria Elisa Cevasco dá início ao seminário “Para ler Raymond Williams”,às 14 horas,no Auditório do Departamento de História. Às 19 h,no Mauc,Williams lança os livros “Evidências do real,os Estados Unidos pós- 11 de Setembro” e “Cartas a Legba,um texto encontrado”,com palestra e sessão de autógrafos. Amanhã,os trabalhos do seminário com Cevasco recomeçam às 9 horas,no Auditório do Departamento de História e prosseguem no turno da tarde.

Estudos culturais

“Evidências do Real” e “Cartas a Legba” marcam a colaboração entre as duas pesquisadoras. Maria Elisa Cevasco é a tradutora das duas obras de Willis,além de assinar o posfácio da coletânea de suas cartas reunidas.

Doutora em Letras pela USP,Cavasco é professora de Estudos Culturais e Literatura em Língua Inglesa na mesma instituição. A pesquisadora é um dos principais nomes dos Estudos Culturais no País. São dela,obras referenciais de introdução e síntese aos temas desta linha. Caso de “Dez Lições de Estudos Culturais” e “Para ler Raymond Williams”.

Sua obra mais recente é “Um crítico na periferia do capitalismo:reflexões sobre a obra de Roberto Schwarz” (Companhia das Letras,2007). Organizada em parceria com o pesquisador Milton Ohata,a coletânea reúne material apresentando durante um seminário dedicado à obra de Shwarz,realizado na USP em 2004.

Mais informações:Lançamento dos livros da escritora norte-americana Susan Willis,às 19 horas no Museu de Arte da UFC (Mauc). Contato:(85) 3366 7741.

Crônica cultural do 11 de Setembro

2008-05-10 –O Globo
João Camillo Penna

Susan Willis analisa a noção do real a partir dos franceses Baudrillard e Virilio

Num diálogo famoso do filme Matrix dos irmãos Watchowski,Morfeu,ao apresentar a Neo a terrível verdade sobre a realidade,faz-lhe uma pergunta aparentemente retórica:“O que é real? Como você define o que é real?” “Evidências do real”de Susan Willis retoma e expande a pergunta em uma espécie de crônica cultural temática dos dias e meses que se seguiram ao 11 de setembro nos EUA.

Uma pequena amostra do que os comentaristas disseram na época a respeito do atentado terrorista ao World Trade Center demonstra que ele recolocava de forma insistente o problema do excesso ou falta de realidade da realidade. Falou–se de uma bolha de representação finalmente perfurada pelos aviões terroristas. Susan Sontag em um artigo escrito no calor da hora afirmou,para depois se desculpar,que o heroísmo dos homens-bomba contrastava com a covardia dos pilotos dos B-52 que jogavam suas bombas a 50 mil pés de altura.

Mas foi talvez o esloveno Slavoj Zizek quem disse de forma mais clara e sistemática o que todo o mundo pensava:as imagens dos aviões perfurando os prédios como barras de manteiga assemelhavam-se a cenas quase idênticas que Hollywood produzira tantas vezes em filmes de catástrofe,que não nos cansamos de ver. O interessante era que,ao ser para a maioria de nós apenas imagens televisivas,desrealizadas e desmaterializadas na pequena tela,elas apontavam para o aspecto virtual de toda a nossa experiência de realidade,mesmo aquelas não simuladas.

A afirmação escandalosa de Stockhausen de que a explosão das torres gêmeas consistia na mais perfeita obra de arte demonstra o quanto a arte se interessa pelo real. Há algo de pornografia na arte contemporânea—a pornografia consistindo na forma de representação que visa diretamente a produzir com mais intensidade possível sentimentos reais. Nesse sentido,afirmava Zizek,as explosões das torres gêmeas estão para os filmes de catástrofe como os snuff films (filmes pornográficos sadomasoquistas com imagens reais) estão para os tradicionais filmes “ficcionais” sadomasoquistas.

Os próprios terroristas não visavam outra coisa senão a espetacularização do efeito de real transmitido pelo mundo todo. É dessa forma que Zizek vai analisar,por exemplo,em comentário retomado por Susan Willis,as fotos de tortura de Abu Ghraib:tinha razão Bush e Rumsfeld quando diziam que a guerra do Iraque visava a exportar os valores da democracia,liberdade e dignidade. As fotos lembravam uma performance artística de humilhação sadomasoquista,as conhecidas fotos de Mapplethorpe e os filmes de David Lynch. O que as fotos revelavam é o reverso obsceno da cultura popular norte-americana,as práticas imorais que fingimos não conhecer,mas que constituem o outro lado da moral pública. Bush tinha razão,no final,mesmo quando repudiava as fotos:elas consistiam de fato em um insight nos “valores americanos” tal qual o conhecemos.

É essa mesma ironia cáustica que modula o texto de Susan. A matriz teórica nessas leituras extremamente finas da cultura norte-americana não são os Estudos Culturais anglo-saxões,mas as teorias francesas do simulacro de Jean Baudrillard e Paul Virillio,e,sobretudo,a retomada de Zizek da noção lacaniana de real traumático. A bandeira americana,as cartas envenenadas de antraz,as milhares de cartas de cidadãos norte-americanos endereçadas a Bin Laden e as fotos de Abu Ghraib são lidos como sintomas culturais,expostos a uma técnica associativa que os liga a outras tantas produções culturais,todas concebidas como figuras ou evidências do real.

João Camillo Penna é professor de literatura comparada e teoria literária na UFRJ

Evidências e consequências do 11/9 nos EUA

2008-05-02 –Fazendo Média
Marcelo Salles

Muito já foi publicado a respeito do significado e das conseqüências do ataque de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas,em Nova York. Desde Noam Chomsky até os mais diversos colunistas de jornais e revistas do mundo inteiro,todos abordaram as dimensões políticas e militares do episódio. Assim como também analisaram as perspectivas das relações internacionais e até investigaram o trauma psicológico que se abateu sobre o povo estadunidense. Mas até a publicação de “Evidências do Real” (Boitempo) ninguém havia trazido para primeiro plano o impacto cultural daquele acontecimento,pelo menos não com a maestria de Susan Willis.

Em 127 páginas ela disseca as evidências daquele 11/9 na realidade subjetiva do povo estadunidense. Para tanto,observa desde o papel central exercido pelos meios de comunicação de massa ao uso de bandeirinhas dos EUA como demonstração de apoio ao governo Bush.

O livro é dividido em seis capítulos,além da introdução. Na abertura,é a máxima de Mao Tsé Tung quem indica o teor da obra:“O ensinamento de Mao está correto:em sua forma mais radical,uma revolução possui caráter cultural”,assinala o escritor Slavoj Zizek.

Se o líder comunista chinês versava sobre a luta contra o capitalismo,a professora Susan Willis desloca a centralidade da cultura e nos ensina que o peso subjetivo do 11 de setembro foi manipulado com exímia habilidade pelos neoconservadores de Washington. Em lugar de uma revolução anti-capitalista,tivemos um aprofundamento do capitalismo. Ao invés da revolução cultural preconizada por Mao,o que se viu foi uma involução cultural que sabotou qualquer possibilidade de resistência organizada em solo estadunidense. O país foi atacado em seu interior – territorial e mental.

Daí o feliz trocadilho do segundo capítulo,intitulado “Antraz are US”. Isto é:“Antraz somos nós” ou “Antraz são os EUA”. A autora mostra como o pânico do pó branco foi muito maior do que a real ameaça,enquanto ameaças reais não são vistas como tal. “Nem todos nós recebemos uma ameaça de antraz pelo correio,mas colhemos diariamente os frutos da combustão do carvão sob a forma de chuva ácida e gases provenientes do efeito estufa. O veneno também é um fato da vida industrial,vai dos solventes petroquímicos que absorvemos através da pele até o chumbo que inalamos e ingerimos. Substâncias tóxicas industriais contaminam o ar,a água e o solo”,afirma.

Claro está que numa sociedade pautada pelo espetáculo,tudo o que escapa ao circo parece não existir enquanto objeto merecedor de atenção. Como escreveu Guy Debord no livro “A sociedade do espetáculo”,vivemos tempos em que a própria mercadoria é espetacularizada tão visceralmente que sua utilidade vem sendo progressivamente substituída pelo fetichismo. O prazer se realiza no consumo e não no usufruto do objeto adquirido. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível,mas não se consegue ver nada além dela:o mundo que se vê é o seu mundo” (página 30).

Um dos casos estudados por Susan Willis é o dos atiradores,que também causaram pânico na população,em grande parte devido à irresponsabilidade dos meios de comunicação de massa,para alegria dos que lucram com o desespero alheio. “O atirador sinaliza o avanço militar sobre a vida cotidiana e a transformação de nossas cidades em campos de batalha”,interpreta a professora. Aqui se encaixa com perfeição uma declaração de Bush durante o início do segundo genocídio ianque no Iraque:“I’m a war president”.

O presidente da guerra,isto posto pelo próprio em meio a risadas,é a chave para a compreensão do retrocesso cultural a que foram submetidos os Estados Unidos. Enquanto soldados destruíam parques arqueológicos e obras de arte datadas de milhares de anos,o imbecil chantageava a França com a mudança do nome das batatas fritas. “Se não se juntarem a nós,as ‘french fries’ vão passar a se chamar ‘freedom fries’”. A cultura da arrogância,da mediocridade,do “manda quem pode,obedece quem tem juízo” encontrou campo fértil nos EUA pós-11/9. Nunca tantos idiotas prosperaram tanto em tão pouco tempo.

No penúltimo capítulo,intitulado “O maior show da Terra”,a autora retoma a crítica à mídia de massa,que cuida de anestesiar pela imposição do terror. “Três anos após os ataques o sentimento de medo é estimulado pelos meios de comunicação,nos quais abundam o sensacionalismo,as mensagens dúbias e uma quantidade considerável do que poderíamos considerar evidentes mentiras (…) A CIA,o FBI e a NSA constituem uma babel de desinformação”. A proposta desse sistema é muito clara,inclusive com relação às válvulas de escape – até elas mantidas sob o controle da espiral do lucro acima da vida:“Como terapia contra o estresse,vamos às compras. Contra a ansiedade,comemos”.

Susan Willis passa a analisar o impacto do Ato Patriota,conjunto de leis aprovado apenas 45 dias após os ataques de 11 de setembro,que aumenta a regulamentação,o controle e a fiscalização das atividades cotidianas dos cidadãos norte-americanos,exacerbando o poder de policiamento do governo. Vale ressaltar a observação do cineasta Michael Moore,em seu documentário Fahrenheit 11/9:a maioria dos parlamentares que votaram pela aprovação do Ato Patriota não leu seu texto.

Não chega a surpreender que uma cultura ancorada na espetacularização imediatista produza políticos desta monta. Mas sempre assusta saber que sua ignorância causará impactos em todos os cantos do mundo,sobretudo quando se trata de aprovar bilhões de dólares para a maior máquina de matar da História,também conhecida como Exército dos EUA. E talvez seja este o grande mérito de Willis em “Evidências do Real”:retirar a cultura de seu suposto campo subjetivo e apresentá-la como algo palpável,tangível e,portanto,passível de ser utilizada como ferramenta para transformação da realidade.

Do Sonho às Coisas –Retratos Subversivos

2007-12-01 –Verinotio Revista On-line de Educação e Ciências Humanas
John Kennedy Ferreira

Luiz Bernardo Pericás organizou uma seleção de textos escritos por José Carlos Mariátegui,durante a década de 20,no livro La Escena Contemporânea e na revista Variedades. Como bem assinalou Pericás,trata-se da construção de retratos subversivos,feitos de personagens que de formas distintas,marcaram realidade mundial daquele período.

O livro é bem cuidado e apresenta,no início,uma ótima narrativa,escrita pelo organizador,da vida,da trajetória política e social de José Carlos Mariátegui. Pericás toma como pano de fundo as profundas mudanças econômicas e sociais que ocorriam no Peru,na América Latina e no mundo. Destaca a formação de Mariátegui,tipógrafo autodidata que através da vivência,do estudo e das amizades que foi realizando no jornal La Prensa,construiu profunda paixão pelas palavras,pelas artes,pelos debates e militância política.

Seu ativismo e inquietação nasceram na juventude,quando criou,juntamente com dois amigos,os poetas Cezar Falcón e Abrahan Valdelomar,o grupo da revista Colonida,responsável por diversas intervenções culturais,religiosas e políticas. Algumas foram pitorescas e ousadas,como a realizada pela bailarina suíça Norka Rouskaya,que dançou no cemitério de Lima aos acordes da marcha fúnebre de Chopin.

Um pouco depois,em 1918,abandonou a vida poética e a boemia “contaminada de decadentismo e bizantinismo finisseculares”,que ele,com boa dose de auto-ironia,chamou de “idade da pedra”,para aderir ao socialismo. Fundou,juntamente com Falcon,o jornal La Razon,que apoiou ativamente as várias manifestações contra a carestia,promovidas pelo comitê constituído por operários e populares de Lima,e também a luta dos estudantes pela reforma universitária.

A oposição aos governos conservadores de Pádua (1915 –19) e depois Leguia (1919 – 32) levaram Mariátegui uma estada na Europa,especialmente na Itália,onde travou contato com diversas correntes de pensamento e personagens como Benedette Croce,D’Annunzio,Gobetti,Papini,Marinete,Turatti,Gorki e Sorel. A partir da leitura de O Capital,na Alemanha,Mariátegui tornou-se marxista,fundando ainda em sua permanência na Europa,a célula comunista peruana,embrião do Partido Socialista Peruano (PSP),depois Partido Comunista do Peru (PCP).

Em seu retorno ao Peru,num primeiro momento foi confundido e saudado como poeta tertúlico,mas aos poucos foi mudando sua postura e,a convite de Victor Raul Haia de La Torre,envolveu-se em atividade de formação política e na prática militante promovida pela Aliança Política Revolucionária Americana (APRA),que se propunha ser uma frente internacional antiimperialista voltado para a unidade latina americana. À medida que Haia de La Torre redefinia o APRA de movimento antiimperialista para partido nacional eleitoral,Mariátegui foi se afastando e rompendo com as estruturas políticas e os limites nacionais sinalizados por esta organização.

Fundou então a revista Amauta,que significa em incaico,sábio (apelido pelo qual pouco depois passou a ser chamado),voltada para temas políticos,sociais e literários e também o jornal Labor,dirigido exclusivamente à organização da classe operária e à constituição de sua central sindical. Ainda nesse período publicou sua principal obra,os Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. Após a ruptura definitiva com o APRA,fundou o PSP,sessão peruana da III Internacional,que participou ativamente do I Encontro de sindicalistas e de comunistas organizados pelo Cominten em 1929. Alguns meses depois,com pouco mais de 36 anos,Mariátegui morreu.

Uma mostra do talento,criatividade de Mariátegui é nos dada pelos textos cuidadosamente selecionados por Pericás. Observa-se nos artigos sobre Mussolini,D’Annuzio e Wells a preocupação em entender a crise do Estado liberal e ascensão do fascismo. Mariátegui busca ampliar os elementos de abordagem sobre o tema,avança para além da política,da economia,das estruturas de classes,tentando deter os mais variados ângulos da educação,cultura,psicologia,ilusões,esperanças e os mitos que possibilitaram à classe burguesa construir um amplo arcabouço e identidade afirmativa pela direita na nação italiana. As debilidades e fragilidades da classe operária são pensadas através da caduquice e perda de estratégia do Partido Socialista Italiano (PSI),de um lado,e pela juventude e imaturidade do Partido Comunista Italiano (PCI),de outro.

A crise do Estado e da democracia liberal e o pós-I Guerra Mundial nos são apresentados por uma série de artigos sobre personagens de proa,protagonistas que discutem e agem diante de uma vontade revolucionária insurgente,da contra revolução fascista e da decadência do sistema liberal. Keynes é mostrado como uma dos pensadores políticos mais ativos desse período,ao perceber,por exemplo,que os tributos cobrados em Versalhes,à Alemanha,pela França e Inglaterra,colocam uma pá de cal no liberalismo e preparavam uma nova guerra e com ela,a revolução.

A luta anticolonial e antiimperialista tem seu destaque em diversos e diferentes personagens,do fundador do Kominteng,Sun Yat Sen,a Mahatma Gandhi,do poeta Tagore ao Don Quixote de barbas,o boliviano Tristan Marof. Assuntos como a não violência,as lutas nacionais,o antiocidentalismo também povoam as páginas escritas pelo Amauta. Mas o centro de suas preocupações é a proximidade ou distância desses temas e personagens frente à revolução. Esta é o pano de fundo de todos os “retratos”;define o ângulo e o foco da “câmara” que Mariátegui direciona para seus modelos e personagens. Nos artigos sobre Ziniovisk,Trostky,Gorki ou France são observadas as tramas do futuro,a forma como a revolução se aproxima,encanta e ilumina o mundo e o aproxima do amanhã.

O livro traz ainda uma nota autobiográfica redigida em 1927 e,elaborados por Luis Bernardo Pericás,uma cronologia de Mariátegui,um glossário dos títulos publicados pelo Amauta e um bom catálogo biográfico de vários dos personagens mencionados. Este livro feito com erudição e paixão possui somente uma quase imperceptível falha:a ausência de notas bibliográficas na apresentação de Pericás,o que poderia contribuir ainda mais para novas pesquisas sobre a obra teórica e prática de Mariátegui.

Neste momento de avanço das forças populares e aumento da consciência antiimperialista – e mesmo socialista – na América Latina,a leitura de Mariátegui é fundamentalmente recomendada.

[1] PERICÁS,Luiz Bernardo (Org.). São Paulo,Boitempo,2005. * Mestrando do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais e membro do NEILS.