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O sonho de Salvador Allende

No Chile da década de 60, Salvador Allende foi um revolucionário atípico: acreditava na via eleitoral da democracia representativa e na possibilidade de instaurar o socialismo dentro do sistema político vigente
Tomas Moulián

A análise de toda a trajetória de Salvador Allende e, particularmente, de suas posições ao longo do agitado período da Unidade Popular, permite interpretar de maneira adequada o fim de sua vida. Seu suicídio, no dia 11 de setembro de 1973, no palácio presidencial La Moneda, não foi nem um ato desesperado nem um ato romântico procurando forçar uma entrada heróica na História. Esse gesto prolonga a vida de um realista e, na verdade, de um grande homem político. Em meio à desolação e ao pipocar das metralhadoras, soube buscar a maior eficiência para sua última ação. Nos dias de hoje, esta afirmação pode parecer enigmática. Nosso objetivo é transformá-la em verossímil e convincente, para transpor esse gesto de um contexto épico para um político.

Na esquerda chilena, que há muito se valia do marxismo e de um Partido Socialista que, na década de 60, afastava-se em direção ao maximalismo, Salvador Allende representou um tipo particular de revolucionário. Depositara suas esperanças nas urnas e acreditava na possibilidade de instaurar o socialismo no interior mesmo do sistema político.

O embrião da Unidade Popular
O suicídio de Allende, no dia 11 de setembro de 1973, não foi um ato de desespero ou romântico: foi um gesto que prolongou a vida de um grande homem
Allende não tinha nada de um tribuno revolucionário com gosto pela retórica. Era um homem político forjado nas lutas cotidianas. Visava conquistar espaços para uma política popular, num sistema democrático representativo, em que as políticas de aliança para favorecer a esquerda fossem factíveis. Mas nunca abandonou a crítica ao capitalismo e o desejo de socialismo. Isto é a grande diferença entre suas posições e as do atual Partido Socialista chileno, membro do Acordo Democrático no poder desde o fim da ditadura. Para Allende, ser realista não significava negar o futuro, contentando-se com uma política pragmática.

Sua visão foi construída no período das coalizões de centro-esquerda (1938-1947), particularmente durante o governo de Pedro Aguirre Cerda, do qual foi ministro da Saúde. Descobriu, então, o que iria tornar-se, a partir de 1952, o centro de sua estratégia: a busca da unidade entre os grandes partidos populares, o Partido Socialista e o Partido Comunista. As rivalidades entre estas duas forças enfraqueceram até então a coalizão governante e limitaram suas reformas, favorecendo as possibilidades de manobra do aliado do centro, o Partido Radical, que fez pender a balança.

Esses governos seriam os executores de um programa democrático burguês ou, em outros termos, de uma modernização capitalista acompanhada de uma legislação social e do papel de árbitro para o Estado, o que Allende, diferentemente de outros dirigentes socialistas, nunca criticou.

A transição pacífica para o socialismo
Allende nunca abandonou a crítica ao capitalismo e o desejo de socialismo. Ser realista não significava negar o futuro contentando-se com o pragmatismo
Para realizar essa política de unidade entre socialistas e comunistas, Allende se viu obrigado, em 1952, a um gesto paradoxal: enfraquecer seu próprio partido. Sua obsessão era, então, a busca por um caminho latino-americano para a revolução, inspirado principalmente pela idéia da “terceira via” de Victor Raúl Haya de la Torre e dos “apristas1”, mas cuja materialização, naquele momento, era encarnada por Juan Domingo Perón e pelo justicialismo argentino. Allende opunha-se a esse desvio para o populismo. Saiu do Partido Socialista para organizar a Frente da Pátria com os comunistas, ainda na clandestinidade. Daí surgiria sua primeira candidatura à Presidência, em 1952.

Esse gesto o tornou o líder da união com os comunistas e porta-voz do primeiro embrião, ainda impreciso em sua formulação teórica, da política de conquista eleitoral do governo por uma coalizão revolucionária. Tal estratégia começou a ser aplicada antes do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), mas, de fato, tratava-se de um prolongamento das teses das frentes de libertação nacional, defendidas pelos partidos comunistas em quase toda a América Latina.

Colocando Allende bem perto da vitória, os resultados das eleições de 1958 fizeram dele o líder da década de 60, um período durante o qual a linha de transição institucional para o socialismo, chamada também de via pacífica, ou não militar, se opunha à tese da tomada do poder pela luta armada, rumo “à destruição do Estado burguês”, que se mostrara possível em Cuba.

Coalizão PS-PC ou frente ampla?
A partir de 1952, Allende descobriu sua estratégia: a busca da unidade entre os grandes partidos populares, o Partido Socialista e o Partido Comunista
Mais próximo dos comunistas que de seu próprio partido, Salvador Allende não se deixou arrastar na virada para a esquerda dada pelos socialistas chilenos após o fracasso da campanha presidencial de 1964. Inúmeros homens políticos desse partido apressaram-se, então, a decretar o fim da opção eleitoral e anunciaram a necessidade de uma mudança de estratégia, sem se darem o trabalho de estudar as especificidades do caso chileno, com sua complexa estrutura de classes, seu sistema de partidos e sua longa e constante tradição democrática.

Allende se manteve à margem desse turbilhão. Sem nunca deixar de admirar e apoiar Cuba, continuava a acreditar, quase sozinho entre os socialistas, que era possível ganhar as eleições presidenciais e, a partir daí, promover uma transição institucional para o socialismo. Esta atitude fez com que se tornasse alvo de inúmeras críticas.

A mentalidade triunfalista da década de 60, um período otimista em relação à atualidade da revolução, impedia os partidos e os intelectuais marxistas de se colocarem as questões essenciais para a construção do socialismo no Chile pela via institucional. Seria o socialismo realizável quando um grande fosso o separava dos setores progressistas do partido democrata-cristão, dinamizados pela liderança de Radomiro Tomic? Como obter a indispensável maioria institucional e popular, sem antes construir um bloco favorável às mudanças, uma ampla frente progressista?

Um humanista e um democrata
Durante o intenso período da Unidade Popular (etapa de felicidade para a construção do futuro, mas uma tragédia em germe), Allende foi mais longe do que qualquer outro na definição do horizonte estratégico. Em seu discurso de 21 de maio de 1971, falando sobre a meta e não apenas sobre a etapa, definiu o socialismo chileno como libertário, democrático e pluripartidário. Esta concepção fez dele o precursor das teses do eurocomunismo. Ele foi mais longe que os comunistas chilenos: estes não abandonavam a concepção ortodoxa do socialismo a construir e estavam fechados na lógica do momento decisivo em que seria necessário tomar “todo o poder”. Situando tal fase no tempo, eles a consideravam indispensável. A famosa metáfora de seu dirigente, Luis Corvalán, sobre “o destino final do trem do socialismo” o diz com precisão: ele chegará até Puerto Montt, no extremo sul do Chile, mas alguns aliados momentâneos descerão antes.

Para Allende estava claro que não havia transição institucional sem a criação de uma aliança estratégica com todos os setores progressistas para gerar uma sólida maioria. Mas sua lucidez era inútil: não conseguiu impor essa política no momento adequado.

Tendo chegado ao poder, nunca pensou em abandonar sua ética humanista nem recorrer ao autoritarismo do poder, como fizeram quase todos os presidentes desde 1932. Na verdade, esta atitude impediu que sua “revolução” amedrontasse seus inimigos. Mas o grau de desenvolvimento da crise no início de 1973 o obrigou não só a perseguir legalmente alguns setores da oposição, como também os grupos de esquerda que se opunham à sua política, o que o levou a um impasse. Foi um democrata, mesmo nos períodos de constantes ameaças contra o governo, de intervenções estrangeiras ostensivas e de práticas terroristas da extrema-direita.

A democratização da vida social
Sua obsessão era a busca de um caminho latino-americano para a revolução, inspirado nos “apristas”, mas, naquele momento, encarnado por Juan Domingo Perón
Sem chegar ao autoritarismo, ele deveria ter assumido o papel de presidente forte num sentido preciso: distanciando-se dos partidos e impondo suas decisões nos momentos cruciais. Foram as hesitações das organizações políticas e sua lentidão para tomar decisões que precipitaram o desfecho e facilitaram a tarefa de seus inimigos, numa Unidade Popular dilacerada pela paridade catastrófica entre os que aceitavam a necessidade de negociar e os que propunham “avançar sem transigir”.

Allende não procurou criar um novo reformismo nem um caminho social-democrata. Tratava-se de fazer da democratização radical de todas as esferas da vida social o eixo de transformação da sociedade. Nisso estava seu caráter revolucionário e não no uso da violência para resolver o problema do poder. Infelizmente para o futuro dos ideais socialistas, essa tentativa fracassou.

O presidente chileno não entrou para a História por causa de sua morte, mas, sim, por causa de sua vida, e sua morte fortaleceu o mito. Graças a seu instinto político e a seu realismo histórico, ele veio a representar a expressão simbólica de uma “nova maneira” de chegar ao socialismo, num momento em que os sintomas de crise dos socialismos reais já começavam a se fazer sentir.

O domínio ascético de si mesmo
Foi um período em que a transição pacífica para o socialismo se opunha à tese da luta armada e “à destruição do Estado burguês”, que fora possível em Cuba
No dia do golpe de Estado, Salvador Allende se suicidou. Por que ter ocultado esta realidade durante tantos anos? Seu suicídio foi um ato de combate. Na terrível manhã do dia 11 de setembro, o presidente passou da dor à lucidez. Primeiro foi a traição que o deixou arrasado. Inúmeras testemunhas falaram de sua preocupação com “Augusto”. Aliás, em um de seus discursos daquela manhã, ordenou aos militares leais que defendessem o governo. Em que outro general poderia ele pensar se não em Pinochet, a quem havia confiado as “estrelas” de comandante-em-chefe das Forças Armadas?

Que dor foi essa? Shakespeare fez Júlio César dizer “Até tu, Brutus?”. Um lamento de estupefação diante da baixeza em que caíra o amigo. Uma pergunta que representa a dor mais intensa que existe diante do sentimento de frustração. Allende, certamente, se fez esta pergunta várias vezes ao longo da manhã.

Porém, em dado momento, ele conseguiu o domínio ascético de si mesmo. Controlou a dor para colocá-la a serviço da política. Na realidade, nunca considerou a hipótese de sair vivo do palácio La Moneda. Provavelmente, pressentia que morreria combatendo. Pensava na resistência, nos militares capazes de honrar seus juramentos e em partidos capazes de transformar suas palavras em atos, em enfrentamentos, portanto. Ele não se imaginava sozinho, abandonado, cercado unicamente por seus fiéis enquanto a Unidade Popular decretava o cessar-fogo.

Pinochet, pesadelo e desonra
O triunfalismo da época impedia partidos e intelectuais marxistas de colocarem questões essenciais para a construção do socialismo pela via institucional
Diante desta nova perspectiva, diante daquela de sua sobrevivência aos bombardeios e de sua derrota sem resistência, Allende procurou obter o melhor resultado político. Descartou o exílio e preparou a resposta mais adequada, a que deveria expressar melhor seus ideais e acarretar as conseqüências mais nefastas para aquele que arrastou o Chile para a tragédia. Foi o gesto do suicídio. Este ato, que manchou com seu sangue o general Pinochet, permanecerá para sempre uma marca indelével.

No momento mesmo em que vai triunfar, o general começa a se dirigir para o local onde acabará como um soldado sem honra que foge de suas responsabilidades, que sobrevive graças a trapaças legais. Triunfante, certamente, porque modelou a sociedade chilena atual. Mas nunca poderá alcançar o pedestal do herói, pois o herói pode ser Agamenon, mas não Egisto2.

Por que Pinochet agiu assim? Porque era ávido de um poder que não viria do “pai”, daquele que o designara chefe. Este impulso inconsciente e incontrolável o levou a um erro: ter mais medo de Allende vivo do que de Allende morto. Este parricídio simbólico é a marca que Allende lhe impôs como destino. Ele nem sequer pôde matá-lo, porque Allende escolheu sua própria morte.

Por um novo socialismo
Como na peça de Sartre, Pinochet já está cercado de moscas. É por isso que seus discípulos e seus favoritos agora o renegam. Seus tenentes militares repudiam abertamente suas violações dos direitos humanos. Devem fazê-lo para conservar a legitimidade do modelo. Querem que se esqueça que isso foi produto da força maquiavélica do poder sem entraves, de um terror pelo qual o general Pinochet foi o responsável ao lado deles.

Salvador Allende perdeu a primeira batalha por um novo socialismo. Mas não é um fantasma que se esgotou. Ele continua sendo a bandeira de uma luta a ser retomada pelo socialismo de amanhã.

Le Monde Diplomatique

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Trinta anos sem Allende (2003)

Artigo publicado por ocasião dos 30 anos do golpe no Chile

Alberto Aggio - 2003

Há 30 anos Salvador Allende foi deposto por um golpe de Estado que alterou profundamente a história do Chile. Comandada por Augusto Pinochet, a ditadura que se impôs nas duas décadas seguintes tornou-se, como já se disse, o show case dos processos de imposição do neoliberalismo. O Chile passou a ser, sob o regime de Pinochet, o modelo do liberalismo real, em analogia contundente ao extinto socialismo real, nas palavras do sociólogo chileno Eugenio Tironi.

Para compreender amplamente aquele acontecimento, é preciso pensar historicamente sobre o período do governo Allende (1970-1973). O 11 de setembro de 1973 não foi um golpe militar como tantos que se processaram na história contemporânea da América Latina. O seu significado é muito poderoso e é importante tema de reflexão para todas as correntes políticas do continente, especialmente para as esquerdas.

O golpe militar de 1973 colocou por terra não apenas o governo da Unidade Popular (UP) que Allende encabeçava. Ele suprimiu a democracia chilena e tudo o que ela significava de desenvolvimento econômico e integração social promovidos pela política democrática e pelo Estado. A partir de 1973, o regime que se instalou impôs ao país uma nova ordem econômica, social e política. O regime de Pinochet não foi apenas regressivo. Foi também o inverso de todos os anseios revolucionários da esquerda chilena daquela época. Paradoxalmente, como também já se disse, os chilenos somente conheceram, de fato, o significado da palavra “revolução” com o regime de Pinochet.

A chamada “via chilena ao socialismo”, vocalizada por Allende, buscava seguir um caminho institucional para alcançar o seu objetivo, isto é, construir o socialismo pela democracia. Foi um esforço inédito na história, embora, naquela época, socialismo fosse entendido essencialmente como poder popular e estatização. O presidente e a UP escolheram a via do Executivo para implementar seu programa de governo, embora Allende tivesse tentado, por um momento, o caminho das alianças no Parlamento com a Democracia Cristã, partido reformista de centro. Por outro lado, fortemente influenciados pela Revolução Cubana, amplos setores da UP e do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionário) conseguiram impor uma perspectiva radicalizada de aceleração das mudanças rumo ao socialismo. O governo atuou como um pólo que seguia a via institucional e as bases sociais da esquerda como um outro pólo que buscou permanentemente resolver a chamada questão do poder, para implantar o mais rapidamente possível o socialismo.

Mesmo com todas essas diferenças de conduta e de estratégias, o que fica claro é que, no fundo, a esquerda no período Allende buscava realizar uma revolução feita por mecanismos legais do Estado chileno, mas pretendia implantar um socialismo que não era outra coisa senão algo equivalente ao que se passava na União Soviética, na China ou em Cuba. A partir da posse de Allende, para amplos setores da esquerda chilena uma definição a respeito do caráter de classe do Estado estaria inevitavelmente colocada e era preciso enfrentar essa questão nas melhores condições possíveis. Amplos setores construíam uma retórica sobre a luta insurrecional, contrariando, nesse caso, a visão de Allende, que pretendia encaminhar esse problema nos termos definidos pela institucionalidade, seguindo o calendário eleitoral.

A luta política do período indica, portanto, que Allende acabou se tornando uma liderança disfuncional, uma vez que não advogava a ruptura institucional e, por outro lado, não teve capacidade de dirigir e controlar por inteiro o processo político, que, por fim, redundou numa polarização catastrófica. A partir dessa análise, fica claro que, em primeiro lugar, implantar o socialismo da mesma maneira como ele havia sido implantado nos países do “socialismo real” era inviável nas condições do governo Allende. Em segundo lugar, em nenhum sentido estava amadurecido o significado da via democrática ao socialismo que a esquerda chilena, a partir do governo, deveria implementar.

Dessa forma, o governo Allende não pode ser pensado como uma experiência prática da impossibilidade histórica de uma via democrática ao socialismo, como pensou a esquerda latino-americana por vários anos. De fato, ele apenas anunciou essa possibilidade. Allende e a UP concebiam o socialismo a partir de uma cultura política convencional que predominava na esquerda latino-americana. O desafio que emergiu no Chile de Allende era novíssimo e obrigava a conceber não só o socialismo de outra maneira como também um tipo novo de estratégia para chegar a ele. Ator e circunstâncias se contraditaram e a história, por meio de outros atores, se impôs implacavelmente.

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Alberto Aggio é professor livre-docente em História da Unesp/Franca e autor de Democracia e Socialismo: a experiência chilena.

Gramsci e o Brasil

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A queda de Salvador Allende

O presidente do Chile, Salvador Allende, declarou logo após sua eleição: “A história nos ensinou que os grupos ultra-revolucionários não desistem do poder e lutam para conquistá-lo”. Ao custo de sua própria vida, a história lhe provaria isso.

Em 1970, o Chile, aliado dos Estados Unidos, vê com ansiedade o líder marxista Salvador Allende subir ao poder. Em 1964 ele já concorrera às eleições, quase vencendo o candidato democrata cristão Eduardo Frei. Fidel Castro apóia Allende. Os objetivos básicos de Allende são a nacionalização das minas de cobre do Chile - Kenecott Copper e Anaconda, duas imensas multinacionais americanas - e a redistribuição da terra aos camponeses. Apesar dos milhões de dólares dados pela CIA aos opositores de Allende, ele é eleito em 4 de setembro de 1970. A CIA tenta evitar a posse do presidente. Os investimentos privados do Chile caem a zero e o desemprego aumenta.

Allende afirma seu direito de chefe de Estado eleito e, em 4 de novembro de 1970, a presidência é confirmada pelo Congresso. É o triunfo do partido de Unidade Popular. O governo de Allende declara-se socialista.

Ao descobrir que os trusts americanos levavam lucros excessivos para fora do país, Allende nacionaliza as minas de cobre. Logo surge o espectro da ala da direita e dos militares. A companhia americana Telefone e Telégrafo Internacional - ITT -, com mais de duzentos milhões de dólares investidos no Chile, organiza o estrangulamento econômico do país. Prova-se isso por este telegrama: “As linhas de crédito bancário não devem ser renovadas e nem os prazos dilatados. As companhias devem adotar um ritmo lento no envio de verbas, nas entregas e no embarque de peças sobressalentes. Devemos retirar toda ajuda técnica e não daremos assistência técnica no futuro.”

4 de setembro de 1972. Allende denuncia em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile. A situação econômica logo torna-se catastrófica. O povo protesta em manifestações turbulentas. A organização da extrema direita “País e Liberdade” torna-se violenta. As mulheres protestam contra a penúria e falta de alimentos básicos. Os caminhoneiros organizam um boicote na estrada, bloqueando o tráfego com cinqüenta mil caminhões. A economia entra em colapso. Por todo lado vê-se o caos.

11 de setembro de 1973. Apoiada e possivelmente subornada pela CIA, a maioria do exército e da polícia subleva-se. O governo de Allende é derrubado. Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Allende e alguns colaboradores leais resistem de armas na mão. São todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas.

O exército chileno - liderado por Augusto Pinochet -, que naquele dia derrubara Allende, é pouco misericordioso com os revolucionários do Partido de Unidade Popular. A repressão militar é vingativa. Mais de cem mil pessoas são presas e torturadas; trinta mil são assassinadas. A ditadura sangrenta de Pinochet dura mais de 16 anos.

TV Cultura - Alô Escola

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‘Pagarei com a minha vida a lealdade do povo’

Últimas mensagens difundidas ao povo chileno, por Salvador Allende, através da Rádio Magallanes de Santiago, na manhã de 11 de setembro de 1973.

09:03
Rádio Magallanes

Neste momento passam os aviões. È possível que nos alvejem. Mas saibam que aqui estamos, pelo menos com nosso exemplo, pois neste País há homens que sabem cumprir com sua obrigação. Hei de fazê-lo pelo mandato do povo e pelo mandato consciente de um Presidente que tem a dignidade do cargo entregue por seu povo em eleições livres e democráticas.

Em nome dos mais sagrados interesses do povo, em nome da Pátria, clamo a vocês para dizer-lhes que tenham fé. A história não se detém nem com a repressão nem com o crime. Esta é uma etapa que será superada. Este é um momento duro e difícil: é possível que nos esmaguem. Porém, o amanhã será do povo, será dos trabalhadores. A humanidade avança para a conquista de uma vida melhor.
Pagarei com minha vida a defesa dos princípios que são caros a esta Pátria. Caíra uma injúria sobre aqueles que romperam seus compromissos, faltando com sua palavra… rompendo a doutrina das Forças Armadas.

O povo deve ficar alerta e vigilante. Não deve deixar-se provocar, nem deve deixar-se massacrar, mas deve igualmente defender suas conquistas. Deve defender o direito de construir com seu esforço uma vida digna e melhor

9:10
Certamente, esta será a ultima oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas sim, decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem as traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autoproclamou comandante da Armada, mais o senhor Mendoza, general rasteiro que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou Diretor Geral dos carabineiros. Diante disso só me resta dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar!

Colocado num transe histórico, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenham a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares de chilenos, não poderá ser ceifada em definitivo. Eles têm a força, poderão subjugar-nos. Porém, os processos sociais não se detém nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelos povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra no respeito à constituição e à lei, e assim o fez. Neste momento definitivo, o último em que posso digir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes fora ensinada pelo general Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítima do mesmo setor social que hoje estará esperando, com mão alheia, reconquistar o poder para continuar defendendo suas mordomias e seus privilégios.
Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher modesta de nossa terra, à camponesa que acreditou em nós, à mãe que soube de nossa preocupação pelas crianças. Dirijo-me aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição estimulada pelas associações de profissionais, associações classistas que também defenderam as vantagens de uma sociedade capitalista.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e doaram sua alegria e seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, pois em nosso País o fascismo já teve presente várias vezes: nos atentados terroristas, explodindo pontes, cortando linhas ferroviárias, destruindo oleodutos e gasodutos, perante o silêncio daqueles que tinham a obrigação de tomar providências.

Eles estavam comprometidos. A história irá julgá-los

Certamente, está Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz já não chegará até vocês. Isso não é importante. Vocês continuarão a ouvi-la. Ela estará sempre junto de vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal para com a Pátria.

O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não pode deixar-se arrasar nem se deixar balear, mas tampouco pode humilha-se. Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens hão de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!

Estas são minhas ultimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição.”

Santiago do Chile, 11 de setembro de 1973

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