Arquivo de Che Guevara

A leitura na vida e na morte do Che

Para Guevara, a leitura foi como um filtro que lhe permitiu dar sentimento à experiência. Um espelho que a definia, dava-lhe forma. Além disso, a leitura serviu como metáfora da diferença entre sua vida política e a pessoal, permanecendo como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência

Tiago Nery

(13/11/2008)

No poema Lisboa revisitada, Fernando Pessoa escreveu: “(…) só és lembrado em duas datas, aniversariamente: quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste (..)”. Ernesto Che Guevara parece uma dessas pessoas que só são lembradas no aniversário de sua morte. Com freqüência, exalta-se a figura do herói-mártir do voluntarismo revolucionário, do guerrilheiro heróico. No último dia 14 de junho, Guevara completaria 80 anos. Mais uma vez, as poucas referências ao seu aniversário natalício não mencionaram outras dimensões da vida deste ser profundamente complexo e humano.

Guevara passou por várias metamorfoses ao longo da vida, e essas mutações bruscas foram a marca de sua personalidade. Teve muitas vidas simultâneas – a do viajante, a do médico, a do aventureiro, a do crítico social - que se condensaram e se cristalizaram, por fim, em sua experiência de condottiere, como gostava denominar-se. No entanto, pouco se escreveu sobre a paixão que tinha pela leitura, que remonta à sua infância, e que o acompanharia até seu assassinato na Bolívia.

De acordo com o próprio Guevara, seu interesse pela leitura começou ao tentar ocupar-se durante os ataques de asma, quando seus pais o obrigavam a ficar em casa, fazendo inalações prescritas por eles. Devido às crises, a mãe ensinou-o a ler, pois muitas vezes ele não pôde ir à escola. A partir de então, Guevara se transformou num leitor voraz. Alberto Granado, o amigo que o acompanhou na viagem pela América do Sul, ficou intrigado quando descobriu que o jovem Ernesto “já estava lendo Freud, gostava da poesia de Baudelaire e lera Dumas, Verlaine e Mallarmé em seu idioma original, bem como a maioria dos livros de Émile Zola, os clássicos argentinos, como o épico Facundo de Sarmiento, e as mais recentes obras de William Faulkner e Jonh Steinbeck”. [1]

Ao longo de sua trajetória, Guevara procurou unir a leitura à vida. Como leitor, buscava completar o sentido de sua vida por meio de imagens extraídas das leituras que fazia. Assim, viveu a partir de certos modelos de experiência que leu e procurou repetir e realizar; encontrou em cenas lidas um modelo ético de conduta, a forma pura da experiência. Cortázar escreveu um conto, sobre uma passagem na sua vida, em que el Che, ferido, pensando que está à morte, lembra-se de um relato que leu. Assim escreveu em Passagens da guerra revolucionária: “Na mesma hora comecei a pensar na melhor maneira de morrer, naquele minuto em que tudo parecia perdido. Lembrei-me de um velho conto de Jack London, em que o protagonista, apoiado no tronco de uma árvore, toma a decisão de acabar a vida com dignidade, ao saber-se condenado à morte, por congelamento, nas regiões geladas do Alasca. É a única imagem de que me lembro”.

A vida de Guevara foi marcada pela constante tensão entre o ato de ler e a ação política: a leitura, na figura sedentária do leitor e prática, do guerrilheiro que avança. Mais que paixão, a leitura era para ele uma dependência. “Minhas duas fraquezas fundamentais: o fumo e a leitura”. E leitura feita em situações de perigo, em situações extremas, fora de lugar, em circunstâncias de desorientação, de ameaça, de morte. A leitura opondo-se a um mundo hostil, como restos ou lembranças de outra vida. No excelente ensaio Ernesto Guevara, rastros de leitura, o escritor Ricardo Piglia define esses momentos do guerrilheiro nos intervalos da marcha contínua: “essas cenas de leitura seriam o vestígio de uma prática social. Trata-se de uma pegada - um tanto borrada -, de um uso do sentido que remete às relações entre os livros e a vida, entre as armas e as letras, entre a leitura e a realidade". [2]

Existem duas fotos extraordinárias da revolução cubana. Numa Che lia uma biografia de Goethe num acampamento guerrilheiro. A outra captou o momento em que lia na Bolívia, em cima de uma árvore, em meio à desolação e à experiência terrível. Trata-se de Guevara como o último leitor

Para Guevara, a leitura foi como um filtro que lhe permitiu dar sentimento à experiência. Um espelho que a definia, dava-lhe forma. Além disso, a leitura serviu como metáfora da diferença entre sua vida política e a pessoal, permanecendo como um resto do passado, em meio à experiência da ação pura, do desprovimento e da violência. Isso já era percebido no período da luta em Cuba. Em um testemunho sobre a experiência da guerra de libertação cubana, alguém afirma, referindo-se ao Che: “leitor incansável, abria um livro quando fazíamos uma parada, ao passo que nós, mortos de cansaço, fechávamos os olhos e tratávamos de dormir”. Há uma foto conhecida dessa época, em que lia uma biografia de Goethe num acampamento guerrilheiro. Outra foto extraordinária, captou o momento em que lia na Bolívia, em cima de uma árvore, em meio à desolação e à experiência terrível. Trata-se de Guevara como o último leitor.

Ademais, costumava registrar em seu diário a experiência pessoal e a coletiva a qual estava inserido inteiramente. Escrevendo, Guevara fixou a experiência em si, o que permitiria em seguida ler sua própria vida como se fosse a de outro, e reescrevê-la. No entanto, o Diário da Bolívia é excepcional, por não ter sido reescrito.

Na marcha da história, o leitor sobrevive em Guevara, sob o eterno conflito entre ação do ser político e a leitura do ser isolado, sedentário, reflexivo. Há um relato sobre o primeiro combate da guerrilha boliviana em que estava lendo estendido em sua rede, enquanto esperava o momento exato do início à emboscada. Ainda no país andino, quando por fim é capturado, no dia 8 de outubro de 1967, Che, sem forças, carregava seus livros, dos quais não abriu mão, enquanto todos os outros já se haviam desfeito daquele peso supérfluo.

Nos momentos finais de vida, uniram-se o Che leitor e o Che político, talvez porque estiveram juntos desde o início. Enquanto estava preso na escolinha de La Higuera, aguardando ser assassinado, Julia Cortés, professora e única a assumir uma atitude solidária com Ernesto, foi levar-lhe de casa um prato de comida. Quando entrou na sala, encontrou o Che jogado no chão, ferido. Então – e estas seriam suas últimas palavras - Guevara mostrou-lhe uma frase escrita na lousa e disse que a mesma não estava correta; com enfática perfeição, falou: “falta o acento”. A frase era “yo sé leer” (‘eu sei ler’). Por uma dessas ironias do destino, como um oráculo, uma cristalização quase perfeita, a frase que Guevara corrigiu tinha a ver com leitura.

Como afirma Ricardo Piglia, Guevara “morreu com dignidade, como o personagem de Jack London”. Morre o homem. Ficam suas idéias, sua determinação, seu exemplo.

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O Legado do Che

Há que avaliar sua vida com seriedade. Por Claudio Katz.

A comemoração do 80º aniversário do nascimento de Guevara tem dado lugar na Argentina a numerosos atos e seminários, que serão coroados com a inauguração do monumento em Rosario. Estas iniciativas aparecem poucos meses depois de concluídas as atividades que recordaram seu assassinato. Qual o secreto de tanto respeito e reivindicação?

Biografia política

Para compreender o interesse que suscita o Che há que avaliar sua vida com seriedade descartando a frivolidade. Guevara foi um líder socialista e não um aventureiro de telenovelas. Sua transformação em personagem justiceiro dilui o sentido revulsivo que teve sua existência.

O Che foi um guerrilheiro heróico odiado pela grande imprensa que o maltratava com mais fúria do que a Bin Laden. A cobertura que atualmente recebe sua memória era inconcebível na sua época e aponta a apagar seu combate contra a opressão.

Esta deformação inclui a paradoxal absorção mercantil de um militante que rejeitava frontalmente o culto ao dinheiro, a glorificação da propriedade e a apologia do empresariado. Os jovens que adquirem mercadorias com a figura de Guevara freqüentemente perdem de vista, que as empresas vendem o Che com as mesmas técnicas que fazem publicidade de um perfume de Antônio Banderas.
Frente a esta distorção é necessário politizar os estudos de Guevara, comparando-o com teóricos socialistas (Lenin, Trotsky), marxistas latino-americanos (Mella, Martí) e dirigentes revolucionários (Fidel). Há que sublinhar esta localização na esquerda frente àqueles que o veneram como um “Cristo laico”.

A biografia política do Che esteve marcada pelo decurso que iniciou com sua viagem pela América Latina nos anos 50. Esta experiência transformou o espírito nobre em um lutador social. O médico solidário adotou a ação política para enfrentar a pobreza e a exploração quando compreendeu as limitações do auxílio aos humildes.

Sua definição militante se produziu na Guatemala sob o impacto do golpe militar que derrocou o presidente Arbenz (um antecessor de Salvador Allende). Com este episódio superou toda a ingenuidade frente à CIA e o Pentágono. Entendeu que a resistência contra o imperialismo requer gestar uma resistência organizada e preparada com antecedência.

Guevara se converteu em revolucionário pleno durante seu encontro com Fidel. Atraiu-lhe a conseqüência e decisão do projeto democrático-radical de derrubar o ditador Batista e nessa batalha reafirmou sua convicção de avançar até a captura do poder. Nenhuma ilusão era mais alheia ao espírito do Che que a atual convocatória a “mudar o mundo sem tomar o poder”.

O líder argentino-cubano foi protagonista da radicalização socialista que fez comoção na ilha nos anos 60. Participou ativamente na sucessão de contragolpes frente à direita que conduziram à expropriação do capital. Madurou junto à aluvião coletivo da revolução cubana e nessa comoção transformou suas leituras marxistas em elaboradas convicções.

Atualidade de un enfoque

O Che reaparece porque América Latina se converteu em um grande foco de resistência popular. O auge neoliberal, o colapso da URSS e a preeminência de governos menemistas durante a década passada, determinavam um quadro pouco propício para sua reivindicação. A trajetória de Guevara tem sido atualizada pelos levantamentos na Bolívia, as sublevações no Equador, as mobilizações na Venezuela e a levantamento da Argentina.

Certamente o mapa da luta social na América Latina é muito desigual. Mas, tem se verificado ações massivas e convergentes na demanda de anular as privatizações, nacionalizar os recursos naturais e democratizar a vida política. E embora o neoliberalismo arremetesse com força, não conseguiu sepultar as tradições combativas e a herança do nacionalismo antiimperialista, em um contexto de conquistas democráticas superiores ao passado [2].

O legado do Che pode resumir-se em uma mensagem: valorizar as rebeliões recentes e desenvolvê-las em uma dinâmica de radicalização socialista. Esta conclusão se inspira, pela sua vez, em duas lições: os processos que não avançam sofrem uma involução e a direita não fica imóvel frente a um desafio à dominação.

Estes ensinamentos são muito importantes para o devir dos governos nacionalistas radicais (Chávez, Morales, Correa) que concentram as expectativas populares e enfrentam as típicas disjuntivas das experiências reformistas. O antecedente cubano demonstrou que é possível derrotar os opressores com medidas revolucionárias tendentes a reduzir a desigualdade e melhorar o nível de vida popular. Mas, outros precedentes indicam que na ausência destas decisões, a direita recupera o governo por meio golpistas (Chile), eleitorais (Nicarágua) ou estabilizando regimes conservadores (México).

Semelhanças e diferenças

Freqüente se afirma que a “época do Che já não é a nossa”. E é óbvio que os últimos 40 anos transformaram substancialmente o quadro político internacional. A expansão do neoliberalismo, a implosão do “socialismo real” e o pulo registrado na mundialização do capital constituem três novidades significativas.

Mas, a miséria e a exploração que empurraram o Che à ação persistem sob o mesmo sistema capitalista. Basta observar a praga de fome que afrontam vários países periféricos ou o abandono de seus lares que padecem as famílias norte-americanas endividadas, para perceber as conseqüências deste regime.

O capitalismo recreia as crises e os sofrimentos das maiorias populares. É um sistema alimentado por concorrentes que não podem ser disciplinados e se baseia em mecanismos de exploração, que são incompatíveis com a humanização da sociedade. O capitalismo incluso acrescentas a polarização social na América Latina, na atual conjuntura de crescimento e bonança exportadora.

As principais diferenças com os anos 70 se localizam -na região- no terreno político. A substituição das ditaduras por regimes constitucionais modificou os tempos e as formas de gestação de um poder popular. A preparação desta transformação exige promover a coesão social, o protagonismo massivo e a radicalização ideológica dos oprimidos, em processos que transitarão por caminhos diferentes da clássica trilha guerrilheira. Em um novo cenário as conquistas dentro das trincheiras institucionais podem constituir um elo do avanço popular, se as reformas complementam a ação revolucionária. Por esta razão a areia eleitoral apresenta uma gravitação superior ao passado.

Também a intensidade das rebeliões tem sido diferente às revoluções precedentes. As novas sublevações arvoraram demandas antiliberais, democráticas e anti-imperialistas, mas, não deram lugar a organismos de poder popular, desenlaces militares ou derrubamentos do estado burguês equiparáveis à revolução cubana ou nicaragüense.

O nível de consciência popular é diferente ao prevalecente nos anos 70, já que a atual geração de lutadores não cresceu como seu país em um contexto de triunfos revolucionários. A visibilidade e confiança em um modelo socialista são inferiores, nem tanto pela queda da URSS como pela herança das ditaduras e o bloqueio que sofreu a insurgência centro-americana.

Controvérsia de estratégias

O Che adotou uma postura revolucionária ao compreender que as classes dominantes se perpetuam no poder para garantir seus privilégios. Lembrava que os poderosos jamais renunciaram a usufruir de seus benefícios de forma voluntária.

Estas conclusões são mais perduráveis que a teoria do foco como desencadeante do levantamento popular. Alentado pelo sucesso da experiência cuba Guevara generalizou erradamente a conveniência da ação guerrilheira, como método apto para as variadas situações latino-americanas. Mas, sua defesa do princípio da revolução resulta de valor, especialmente frente aos apologistas do capitalismo que proclamaram durante a década passada o “fim das utopias igualitárias”.

Estas mensagens ficaram deslocadas frente à nova onda de resistências sociais. A revolução como um momento chave das rupturas com a ordem vigente constitui um aspecto essencial do projeto socialista. A renúncia a discutir esta perspectiva conduz à auto-imolação da esquerda.

Mas, o principal aporte central do Che neste terreno foi sua defesa da revolução ininterrupta, em oposição à estratégia de transitar por duas etapas rigidamente diferenciadas. Rejeitou a ação anticapitalista por uma fase de alianças com a burguesia nacional e proclamou a necessidade de optar pelo socialismo ou conformar-se com uma “caricatura” da revolução.

Guevara se inspirou em uma gesta que demonstrou a possibilidade de confrontar-se com o imperialismo a 90 milhas de Miami. Seu enfoque convulsionou as teorias predominantes na esquerda, desatou fortes disputas com setores conservadores dos Partidos Comunistas e incentivou a literatura crítica à burguesia nacional que desenvolveram vários teóricos da dependência.

É importante lembrar estas controvérsias em um momento de ressurgimento de teses neo-desenvolvimentistas, que propõem repetir o caminho das etapas mediante “alianças que afiancem o MERCOSUL” e facilitem a “expansão do capitalismo regional autônomo”. Estas concepções costumam idealizar o empresariado industrial em detrimento dos financistas e evitam reconhecer os obstáculos que impõe esse projeto à conquista de melhoras populares.

Os promotores das etapas também não registram os custos sociais da sustentação (ou criação) de uma classe patronal com os fundos públicos. Seus enfoques conduzem a adaptar as demandas sociais às prioridades das classes dominantes e desembocam na frustração popular. Com essa concepção se empurra na atualidade o congelamento do processo bolivariano na Venezuela ou ao uso capitalista da nova receita petroleira que poderia gerar-se na Bolívia.

Internacionalismo e anti-imperialismo

Guevara defendia um projeto de expansão internacional do socialismo muito diferente à coexistência perpétua com o imperialismo que propiciavam os líderes da ex URSS. Em seu discurso da Argélia foi particularmente crítico com a escassa solidariedade destes dirigentes às sublevações do Terceiro Mundo. Convocou a forjar “um, dois, três, muitos Vietnã” em oposição à passividade do Kremlin.

O Che desenvolveu uma concessão internacionalista afastada do simples enunciado de consignas. Transformou sua experiência juvenil em um programa raciocinado e assentado na simbiose da teoria com a prática. Implementou no Congo e na Bolívia o que postulou na Conferência Tricontinental.
Guevara propiciava o socialismo internacional frente à utopia de restringir da edificação anticapitalista a um só país ou região. Mas, debatia táticas e estratégias, sabendo que o socialismo não emergirá de um ato simultâneo em escala planetária.

Os ecos de seu internacionalismo tem emergido nos últimos anos nos movimentos contra a guerra do Iraque e nas iniciativas dos Foros Sociais Continentais. Nestes dois âmbitos a figura do Che tem estado presente.
Mas, seu legado se verifica mais nitidamente na América Latina, já que em nenhum país se consideram atualmente projetos exclusivamente nacionais. Frente às classes dominantes que debatem convênios comerciais para forjar blocos competitivos, despontam várias iniciativas de projetos de emancipação em escala regional.
O Che sabia que nenhum progresso popular é factível sem derrotar o imperialismo norte-americano e alçou sua voz contra o gendarme estadunidense na OEA e na ONU. A vigência deste clamor salta à vista em uma era marcada pelo massacre de 600.000 pessoas no Meio Oriente, a legalização da tortura, o crescente uso de mercenários e a generalização dos seqüestros em qualquer parte do mundo.

O reconhecimento a Guevara tem se estendido junto ao desprestígio que rodeia ao mandatário estadunidense. Basto contrastar as comemorações que reivindicam o Che com o repúdio que acompanha as viagens do Bush. Este clima obedece à perda de influência da primeira potência em seu pátio traseiro. O pântano de Meio Oriente lhe tirou ao imperialismo capacidade de intervenção militar direta contra a Venezuela ou Cuba.

Mas, perante a falta de condições presentes o Pentágono se prepara para o futuro. Propiciou um ensaio de guerra preventiva da Colômbia contra o Equador, militariza as cidades do México, constrói novas bases no Peru e reativa a Quarta Frota que opera desde Miami.

A tradição anti-imperialista que legou o Che é fraternal a todos os povos do mundo. Não é uma batalha contra os oprimidos dos Estados Unidos, senão contra os governos, corporações e bancos desse país. O comportamento da filha de Guevara no Irã -quando se retirou de uma homenagem oficial que questionava o socialismo e o ateísmo- ratifica este sentido de uma concepção alheia a qualquer dogma religioso.

Socialismo integral

A atração que exerce Guevara também obedece à sobrevivência da revolução cubana ao fim de 50 anos de conspirações e bloqueios. Dificilmente o interesse pelo Che apresentaria a envergadura atual, se se houvesse repetido na ilha o acontecido na URSS. Mas, sua reivindicação expressa, ademais, o ressurgimento de convocatórias ao socialismo.

Tem concluído o período de auto-censura que expurgou esse termo dos discursos da esquerda e na América Latina voltam a se debater os caminhos para construir uma sociedade de igualdade e justiça. Este projeto se recria em oposição aos presidentes centro-esquerdistas, que abandonaram qualquer alusão ao socialismo para se congraçar com as classes dominantes.

Como a figura do Che é indissociável do horizonte anticapitalista, sua obra tem sido também debatida nas recentes comemorações do Maio francês. O socialismo constitui o eixo destas reflexões, já que alude ao único sistema efetivamente pós capitalista.

Neste terreno Guevara deixou também importantes lições em seu papel de funcionário da revolução (1959-64). Desenvolveu em Cuba uma concepção integral do militante como lutador e administrador. O Che não aceitava as especializações restritivas e combinou o perfil guerrilheiro com seu papel de Ministro da Indústria.

Em sua gestão das empresas públicas impulsionou mecanismos de participação e democratização opostos à primacia do mercado e à arbitrariedade dos burocratas. Objetava o esquema de concorrência entre os trabalhadores de empresas estatais que se instrumentava na Iugoslávia e questionava a simulação mercantil na administração de companhias públicas na Hungria. Opôs-se antecipadamente à “Perestroika” que conduziu à restauração do capitalismo na URSS e ao modelo que empurra à China ao mesmo sistema. Mas, Guevara também não aprovava o esquema de planejamento compulsivo, que a Nomenklatura do Kremlin manejava em forma ineficiente e esbanjadora.

Em sua breve experiência como economista deixou sem resolver o desenho dos mecanismos que permitiriam gestar uma transição anticapitalista bem sucedida. Este avanço requereria desenvolver formas de planejamento sustentadas na democracia socialista, afim de assegurar a participação coletiva. Esta presença é indispensável para corrigir os erros e discutir as alternativas, em um sistema que combine o poder popular com a representação indireta.

Mas, qualquer debate sobre a gestão pressupõe a nacionalização prévia das empresas estratégicas. Este passo se consumou em forma muito acelerada em Cuba e apresenta enorme atualidade nos países que encaram a nacionalização dos combustíveis.

“O Homem Novo” no século XXI

Nos debates sobre a impulsão à produtividade em uma transição socialista, Guevara tomo partido pelos incentivos morais contra os estímulos materiais. Mas, adotou esta postura para o contexto cubano dos anos 60, sem emitir um juízo aplicável a qualquer momento ou país.

Sua postura foi coerente com o projeto comunista de gestar uma ética do homem novo. Promovia a expansão da solidariedade e da irmandade desde o início da revolução, sem esperar estes efeitos de uma ampliação do bem-estar material. Destacava a impossibilidade de construir uma consciência socialista eludindo compromissos ativos com o próximo e repudiava o cinismo que observava entre os hierarcas do “socialismo real”. Esta mensagem humanista tem permeado profundamente os jovens que atualmente admiram o Che.

Guevara localizava os obstáculos para erigir uma sociedade pós-capitalista no terreno político. Não as localizava no egoísmo ou o individualismo inato de pessoas. Por esta razão seu legado inclui um código de condutas, atitudes e comportamentos que incentivam para continuar sua obra.

Buenos Aires, 9-6-08.

Notas

[1]Economista, Pesquisador, Professor. Membro do EDI (Economistas de Izquierda). Sua página web é: www.lahaine.org/katz
[2] Temos desenvolvido esta caracterização em nosso último livro: Katz Claudio, As disjuntivas da esquerda na América Latina. Ediciones Luxemburg, Buenos Aires, 2008.

Versão em português: Raul Fitipaldi de América Latina Palavra Viva.

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CHE Guevara: Mensagem de aniversário

Por Frei Betto.

Em 14 de junho Che Guevara cumpriria oitenta anos. Seu militância entre nós terminou aos trinta e nove. Mas não conseguiram o matar. Hoje está mais vivo que em suas quatro décadas de existência real. Aliás, são raros os revolucionários que como Mao e o próprio Fidel, envelhecem.

Muitos derramaram cedo seu sangue para contribuir ao projeto de um mundo de liberdade, justiça e paz: Jesús, com 33 anos; Martí, 42; Sandino, 38; Zapata, 39; Farabundo Martí, 38; só para citar uns poucos exemplos.

O inimigo deve estar arrancando os cabelos ao constatar que, hoje, Che se encontra mais presente que na época em que eles criam poder assassinar as idéias. Fizeram de todo para condená-lo ao esquecimento; cortaram seu corpo e esconderam seus membros em diferentes lugares; inventaram sobre ele toda sorte de mentiras; proibiram que sua literatura circulasse em muitos países.

Qual Ave Fênix obstinada, Che renasce em fotos, música, espetáculos teatrais, filmes, poemas, novelas, esculturas e textos acadêmicos. Até uma cerveja foi batizada com seu nome, a Unique Garden, a imagem de seu rosto conforme a famosa foto de Korda, ocupa o centro das salas das moradias.

Ao constatar que as cadeias não aprisionam os símbolos, nem as balas matam os exemplos, inventaram falsas biografias para tentar difamá-lo. Em vão.

Até nos jogos de futebol os aficionados levantam cartazes com seu rosto. E vejam que não se gasta um centavo nessa propagação de sua imagem. Ela sozinha tem importância por refletir as idéias que fizeram dele um revolucionário. Nada disso é fruto do marketing. São gestos espontâneos dos que querem enfatizar que a utopia permanece viva.

Hoje, ao resumir o legado do Che e celebrar seus oitenta anos exige-nos manter o coração e os olhos voltados para a preocupante situação de nosso planeta, onde impera a hegemonia do neoliberalismo. Multidões, sobretudo jovens, são atraídas ao individualismo e não ao espírito comunitário; à competitividade e não à solidariedade; à ambição desmedida e não à luta em pró da erradicação da miséria.

Fala-se tanto da falência do socialismo no Leste europeu e quase nunca da falha inevitável do capitalismo para os dois terços da humanidade, dos quatro bilhões de pessoas que vivem sob a linha de pobreza.

Angustia-nos também a degradação ambiental. Se os líderes mundiais tivessem ouvido o alerta de Fidel na Cúpula de 92 no Rio de Janeiro talvez a devastação não tivesse chegado ao extremo de provocar freqüentes tsunamis, tornados, tufões e furacões jamais vistos, sem falar do esquentamento global, do degelo dos casquetes polares e a desertificação dos bosques. A devastação da Amazônia é alarmante.

O barril de petróleo, que custa dez dólares na boca do poço, já custa mais de cento vinte dólares no mercado. É triste constatar que grandes áreas agrícolas para a alimentação são reservadas para a produção de etanol destinado a nutrir os 800 milhões de veículos automotores que circulam em todo o planeta e não aos 824 milhões de bocas famintas ameaçadas pela morte precoce.

Perante esse mundo em que a especulação financeira suplantou a produção de bens e serviços, em que a carteira de valores serve de termômetro da suposta felicidade do homem, que fazer?

Bolívar deve estar feliz com a primavera democrática em América do Sul. Após os ciclos de ditaduras militares e governos neoliberais, agora o povo elege governos que recusam a ALCA, aprovam a ALBA e reforçam o MERCOSUL e repudiam a invasão do Iraque e o bloqueio a Cuba por parte do governo dos Estados Unidos.

Qual é a melhor maneira de comemorar os oitenta anos de Che? Acho que o melhor presente seria ver às novas gerações crendo e lutando por outro mundo possível, onde a solidariedade seja hábito, não virtude; a prática da justiça uma exigência ética; o socialismo o nome político do amor. Construir um mundo sem degradação ambiental, fome e desigualdade social!

Em vésperas do aniversário 50 da Revolução cubana, todos devemos a encarar a cada vez mais, não como um fato do passado e si como um projeto de futuro.

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Vigência do Che nas crianças

Por Jorge Jorge González.

Especial para DESACATO-Brasil

Quando no ano de 2003 levei comigo até Paris um grupo de pinturas em cartolina cujo motivo central era a figura de Ernesto “Che” Guevara e seu destino final a exposição e venda das mesmas a preços econômicos na festa que a cidade de Ivry/ Sul/ Seine dedica cada ano a convencer muitos de que um mundo melhor é possível, não sabia então que aqueles modestos ingressos seriam fundamentais para erradicar definitivamente a lixeira maior de San Agustín, em La Lisa, a oeste de Havana, e Cuba, pois foi o único pressuposto que conseguimos para iniciar naquele sítio a construção do que seis meses depois se conheceria como a oficina comunitária “Colorindo Meu Bairro” e que hoje é conhecida mundialmente não somente por determinados acontecimentos relacionados com o bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba e no qual esteve como centro da polêmica, um aluno da oficina que ganhou o Prêmio da América Latina e Caribe do Concurso de desenho infantil do PNUMA, o menino Raysel Sosa Rojas, senão porque em somente 3 anos de trabalho o centro conseguiu arquivar um total de 231 prêmios e menções com desenhos enviados por suas alunas e alunos aos mais importantes concursos organizados nesse período na Argentina, Japão, Espanha e Cuba, em particular aqueles vinculados a divulgar práticas conservacionistas do meio ambiente, assim como outros dedicados a divulgar a obra de José Martí ou o trabalho social dos bombeiros, para somente mencionar alguns.

Se aquela homenagem pessoal a havia realizado pelos 75 anos de Che, não seria nada estranho que uma vez aberta a oficina, sua figura fora motivo constante para a criação diária de meus discípulos, ao ponto que o estímulo que recebe aquela menina ou menino que é aprovado para ingressar como matrícula, seja pintar um Che de cor, a partir do que conheçam sobre o personagem histórico, mas desenhado com materiais profissionais doados por amigos de vários continentes e além, essa obra, ficará como patrimônio de todos na comunidade, fazendo-se exposições que percorrem casas de cultura, escolas ou se mostram nas paredes do próprio local social.

Em Cuba temos a sorte de que o Che Guevara não é um símbolo de “moda”, ainda quando esteja presente em camisetas ou suéteres esportivos, pulôveres, em chaveiros ou outras lembrancinhas, é alguém próximo que muitos temos como exemplo de revolucionário, de ser humano e de desprendimento dos bens materiais vãos; os que usam as lembrancinhas realmente sabem quem foi na vida e seus pais lhes falam sobre seus contatos com ele nos trabalhos voluntários, na rua, nas oficinas, sempre simples, disposto a compartilhar com os mais humildes e, em nossa oficina. Esse é o Che que se ensina, que se venera desde as paredes, mas também desde os coraçãozinhos que amanhã se encarregarão do futuro de Cuba e devem ser melhores pessoas que os que hoje vinculamos a sua educação.

Agora quando Santa Clara tem suas estátuas, La Higuera a sua e Rosario, Argentina, estréia uma novinha fabricada com o amor de tantas pessoas do planeta que se uniram em forma de bronze para parir a idéia, “Colorindo meu Bairro” terá, enquanto exista, tantos CHE como meninas e meninos sejam capazes de aprovar seus 18 desenhos para o ingresso porque assim se mantém vivo e não é um pôster que muda de cor quando o sol o maltrate e a chuva. A inocência não se pode destruir dessa maneira e seus sentimentos sempre serão verdadeiros, diáfanos e puros como as idéias defendidas por Guevara ao longo de sua curta existência.

Havana, 14 de junho de 2008

Versão em Português: Vanessa Bortucan, de América Latina Palavra Viva.

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O Homem que É um Caminho

Ainda olharia de esguelha para alguma mulher bonita. Por Elaine Tavares.

Imagine aquele homem, de riso largo e olhos penetrantes, sentado em sua cadeira de balanço, charuto entre os dedos e um mate quentinho a lhe aquecer as juntas gastas. Do alto dos seus 80 anos ele ainda olharia de esguelha para alguma mulher bonita e sairia às ruas nas passeatas, serelepe como um menino. Mas, El Che não chegou lá. Não soube o que é perder a força, os hormônios, sentir o corpo fraquejar. Não perdeu a beleza heróica, não envelheceu. Caiu, executado numa escola pobre, de um longínquo lugar da Bolívia. Seus olhos de lâmpada, que iluminaram a luta mais bonita do século XX, ficaram abertos, mirando os assassinos, numa expressão quase de pena.

Ernesto nasceu na Argentina e viveu sempre no limite. Asmático, venceu cada crise, recusando-se a cenas de auto-piedade. Quando o ar lhe faltava, ele arfava, barulhento, e se escondia para que ninguém o visse lutar contra a doença que tentava impedi-lo de viver à larga. Foi assim que se embrenhou pela América Latina e descobriu que muito mais do que argentino, ele era um revolucionário, prisioneiro das causas do povo. E assim foi até o fim.

El Che é homem sem igual. Não é à toa que vive para sempre. Enfrentou a doença, enfrentou o império, se embrenhou nas selvas e defendeu com seu próprio corpo os sonhos coletivos de uma multidão. E é tão especial que, mesmo morto, consegue levar adiante milhões de almas em rebelião. Seu rosto anguloso de olhar firme é presença segura em qualquer lugar onde haja gente em luta. Sua força revolucionária é tão grande que nem apropriado pela Fórum conseguiu se transformar num pastiche. A cara do Che nas camisetas da famosa marca não podiam mesmo encantar a classe que compra roupas caras. Essa gente não o conhece, não sabe do seu valor. Assim, não vingou.

O Che vive mesmo é nas camisetas de malha ruim, produzidas nos fundos de quintal, em fabriquetas de serigrafia, que se vendem nos encontros populares. Porque essa gente é a sua gente. Os empobrecidos, os desvalidos, os oprimidos, os marginais, os que dizem não, os que sonham, os que transformam, os que anunciam boas novas, os que fazem rebeliões, os profetas.

O Che vive porque não é mais um homem, é um caminho, vereda de liberdade, de vida digna, de riquezas repartidas. O Che e seu olhar de infinito está sempre ali, a dizer: sim, é possível. Vamos em frente, em luta. Esse homem de junho, esse homem outonal, essa chama. É sua voz de trovão que nos convida a acreditar que as lutas coletivas sempre serão as armas mais seguras para chegar a uma nova organização da vida. O Che de Rosário, de Alta Gracia, de Córdoba, da Bolívia, da Venezuela, do Peru, do Equador, da Guatemala, de Cuba… O Che do mundo… Ele nos acena, invencível, e nós o seguimos… Porque assim como ele, vive, eterna, a esperança deste ainda-não almejado. Nós o faremos… Eu sei!

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