Arquivo de Cidades

Apenas 37% das prefeituras têm verba para meio ambiente

Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Os problemas ambientais, como queimadas, desmatamento e assoreamento de rios, lagos e lagoas são detectados em nove de cada dez municípios brasileiros. Apesar disso, faltam recursos para conter essa degradação. Apenas 37,4% das prefeituras – o que corresponde a 2.079 do total de 5.564 existentes no país – contam com verba para a área do meio ambiente.

Além disso, somente 18,7% das cidades no país têm, simultaneamente, uma secretaria de meio ambiente ou órgão similar, recursos específicos para a área e conselho de meio ambiente ativo.

A constatação faz parte da sétima edição da Pesquisa de Informações Municipais (Munic), divulgada hoje (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para realizar o estudo, técnicos do órgão investigaram a gestão pública e as condições do meio ambiente, do transporte e da habitação em todos os municípios brasileiros durante 2008.

Na análise por regiões, o estudo mostra que a incidência das queimadas é maior no Norte (74,2% dos municípios) e no Centro-Oeste (62,4%). O desmatamento também foi constatado de forma expressiva no Norte (71% dos municípios) e no Nordeste (64,8%). O assoreamento foi predominante entre os municípios do Centro-Oeste (63,3%) e do Sudeste (60,2%).

O levantamento também indica que um outro problema ambiental, a poluição da água, é mais freqüente nos municípios localizados em regiões mais urbanizadas e economicamente mais desenvolvidas: Sudeste (43,6%) e Sul (43,2%). Nessa última constatou-se também maior incidência de escassez de água (53,5%), ao lado do Nordeste (52,3%).

Nordeste (27,1%) e Sul (25,9%) também lideram a lista de ocorrências de contaminação do solo, enquanto a poluição do ar predominou no Norte (36,3%) e no Centro-Oeste (29%).

Os problemas ambientais, enfrentados por mais de 90% dos municípios brasileiros, causam prejuízos sobre as atividades econômicas primárias em 35,7% das cidades. O maior impacto observado refere-se à redução da quantidade e diversidade ou perda da qualidade do pescado, seguida dos impactos sobre a agricultura e a pecuária.

Apesar de ser freqüente a constatação desses problemas ambientais em quase todos os municípios brasileiros, a pesquisa do IBGE mostra que alguns deles se mantiveram estáveis em 2008, na comparação com 2002, como o assoreamento de rios, lagos e lagoas, a poluição do ar e a degradação de áreas legalmente protegidas. Os problemas de poluição da água, porém, foram mais citados este ano do que em 2002 e as ocorrências de contaminação do solo e alteração que tenha prejudicado a paisagem diminuíram.

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Três de cada dez municípios têm favelas

Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Pelo menos três de cada dez municípios brasileiros têm favelas, casas sobre palafitas e outras moradias consideradas precárias. Essas construções são mais freqüentes nos municípios mais populosos, conforme dados da Pesquisa de Informações Municipais (Munic), divulgada hoje (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com o levantamento, o percentual de municípios que relataram existência de favelas passa de 27,7% (naqueles com até 50 mil habitantes) para 70,8% dos 319 que têm entre 50 mil e 100 mil habitantes, chegando a 84,7% dos 229 municípios que têm entre 100 e 500 mil habitantes. Das 37 cidades com população acima de 500 mil habitantes, só Cuiabá informou não ter esse tipo de moradia.

Na análise por regiões, o estudo constata que as favelas são mais freqüentes no Norte e Sul, onde 41% dos municípios informaram conviver com este tipo de habitação. Em seguida, aparecem o Nordeste (32,7%), o Sudeste (29,7%) e o Centro-Oeste (19,5%).

Os loteamentos irregulares ou clandestinos estão presentes em mais da metade dos municípios brasileiros (53,2% de um total de 5.564). A maior parte deles está no Sul (62,4%) e a menor, no Nordeste (41,9%).

O estudo mostra, ainda, que as políticas públicas voltadas para a área de habitação foram executadas, nos últimos dois anos, por 80,2% das prefeituras. As Regiões Nordeste e Centro-Oeste foram as que lideraram a lista, com 85,9% e 90,8% de municípios com programas de moradia, respectivamente. Por outro lado, no Sudeste foi registrada uma proporção de 70,6%, considerada baixa pelo IBGE.

Entre os estados, conforme consta no levantamento, o Amapá obteve o menor percentual (37,5%) enquanto o Tocantins (97,8%) apresentou a maior proporção de iniciativas nessa área.

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Leilão em SP cria 61 pedágios e eleva custo

Levantamento de agência do governo estadual mostra que usuário vai pagar mais, ao contrário do que sugeriam os deságios

Reajuste no trecho leste da rodovia Marechal Rondon será superior a 400%; em apenas um dos casos valor do pedágio será reduzido

AGNALDO BRITO
DA REPORTAGEM LOCAL

As concessionárias vencedoras do leilão de rodovias paulistas, comemorado pelo governador José Serra (o Estado receberá R$ 3,4 bilhões nos próximos 18 meses), vão criar 61 novas praças de pedágio em São Paulo e elevar o custo para os usuários que transitam pela malha. A Folha obteve com exclusividade acesso aos valores dos novos pedágios calculados pela Artesp (agência reguladora de transporte do Estado).

Ao contrário do que sugeriam os deságios de até 55% obtidos nos leilões da última quarta-feira, o custo da tarifa subirá em quase todas as rodovias licitadas, alcançando reajuste superior a 400% em um dos casos, o trecho leste da Marechal Rondon. A exceção ficou para o corredor Ayrton Senna/Carvalho Pinto, cujo valor de uma viagem de ida e volta baixará dos atuais R$ 27 para R$ 13. A razão para isso foi a decisão do grupo gaúcho Triunfo, vencedor da licitação, de tentar tirar parte do tráfego da rodovia Presidente Dutra.

A maior elevação de custo será sentida pelos usuários do trecho leste da Marechal Rondon, que interliga as cidades de Laranjal Paulista e Bauru, no centro do Estado. O valor da tarifa em viagens de ida e volta nesse trecho passará de R$ 7,20 para R$ 37,60, um aumento de 422,2%, de acordo com dados da agência reguladora. O número de pedágios passará de um para dez.

O consórcio Brasinfra, formado pelas empresas Cibe, Ascendi e Leão & Leão, venceu o leilão do trecho com a oferta para tarifa quilométrica de R$ 0,093774, deságio de 13,09% sobre o preço teto de R$ 0,107910 fixado no edital. Esse foi o preço geral do leilão, não o valor do custo por quilômetro do próprio trecho arrendado. Segundo o secretário dos Transportes, Mauro Arce, o preço por quilômetro do trecho estava defasado em todas as rodovias. Se fosse usado, não existiria deságio no leilão.

No corredor da Raposo Tavares (que liga as cidades de Bauru, Ourinhos e Presidente Epitácio), em que o número de pedágios será multiplicado por cinco (de dois para dez), o custo de uma viagem de ida e volta será inflacionado em 376,1%.
Para rodar os 457,4 quilômetros de ida e volta, o valor passará de R$ 9,20 para R$ 43,80 por eixo. Um caminhão com até nove eixos que tenha de cruzar todo o trajeto pagará R$ 394,20. Atualmente essa viagem para um caminhão com as mesmas características sai por R$ 82,80.

Segundo dados da Artesp, o trecho oeste da Marechal Rondon passará a ter 16 praças de pedágio, número quatro vezes maior do que o atual. O preço, como nos demais trechos, vai subir. Com a assinatura do contrato de concessão com o consórcio BR Vias SP, o valor será de R$ 24,50. Esse valor é ligeiramente menor do que o atual, R$ 26,50. Mas, com o cumprimento do programa inicial de investimento, a BR Vias poderá instalar mais 12 praças de pedágio no corredor.

Ao cruzar todo o trecho oeste da rodovia Marechal Rondon, o custo com pedágios passará a ser de R$ 50,40, aumento de 105,71% em relação ao preço pós-assinatura de contrato.

O relatório da agência reguladora mostra ainda que para o trecho da D. Pedro, que liga Campinas ao município de Jacareí, a elevação de custo para os usuários será de 77,90%. A tarifa sairá dos atuais R$ 17,20 para R$ 30,60, isso devido à construção de novas praças de pedágio. Hoje, são duas. Em seis meses, serão seis.

Pedágios
Em todos esses casos, a cobrança de mais pedágio pelos novos concessionários deixa de ser feita num sentido só da rodovia. Todas as praças serão espelhadas, com cobrança no trecho de ida e de volta. Por isso, os cinco lotes concedidos terão no total 74 pedágios até meados de 2009 -13 já existem hoje.

Vale ressaltar que esse número global inclui não só os pedágios dos cinco corredores principais (Dom Pedro 1º, Ayrton Senna/Carvalho Pinto, Raposo Tavares e trechos oeste e leste da Marechal Rondon), mas novas praças em rodovias que trazem fluxos para as estradas principais. Nessas, praticamente não existiam pedágios.

A instalação de novos pontos de cobrança deve ocorrer seis meses depois de assinados os contratos de concessão, o que está previsto para acontecer em dezembro, segundo o secretário dos Transportes de São Paulo. Antes, as concessionárias terão de cumprir um programa inicial de investimento. A agência reguladora será a responsável por checar o cumprimento das metas iniciais e autorizar a cobrança nas praças.

Alguns grupos que participaram do leilão se queixaram da decisão de mantê-lo no auge da crise. Isso pode se refletir agora no preço do pedágio. “Para um leilão no auge da crise, o resultado para o governo foi excepcional. Terá R$ 3,4 bilhões. Houve até uma competição razoável, mas ninguém poderia esperar 40 grupos competindo”, disse Geraldo Villin Prado, diretor da Odebrecht Investimentos em Infra-estrutura.

Matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo - 2/11/08

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Folha de São Paulo - Juíza proíbe entidade privada de gerir AMAs em São Paulo

Notícia de hoje na Folha de S. Paulo, Justiça Federal proibiu a prefeitura de SP de contratar empresas privadas para gerir as unidades de saúde do município. O modelo também é adotado pelo governo estadual e tem o apoio não só do DEM, mas da campanha Marta, apesar das ressalvas do PT.

No caso da gestão do Kassab a coisa é tão escandalosa que mereceu intervenção judicial, além de gastar mais com as empresas contratadas do que com a própria rede municipal, estas empresas que gostam de serem chamadas de organizações sociais para tentar disfarçar seus interesses de lucrar com saúde pública, são contratadas sem licitação. Segundo a decisão da juíza Maria Lucia Lencastre Usaia, da 3ª Vara Cível Federal, a legislação municipal que permite essas contratações é inconstitucional. Além de ofender o princípio de isonomia entre os que poderiam se interessar pelo serviço, deixa ao bel prazer da administração os critérios de contratação, podendo, portanto, haver favorecimento.

A decisão sem dúvida é muito importante, pois questiona um dos pilares daquilo que vem se consagrando com administração moderna e conta com o apoio entusiasmado da grande mídia. As privatizações na área de saúde viraram coisa corriqueira, tanto é assim que o governo Lula apresentou projeto similar no Congresso Nacional, as chamadas Fundações de Saúde.

A decisão da Justiça recoloca o debate e permite que outros elementos, além da ausência de licitações possam ser questionados, o principal deles é a entrega de recursos públicos para empresas privadas. Veja a matéria abaixo.
(Márcio Bento – da coordenação do IZB)

Juíza proíbe entidade privada de gerir AMAs em São Paulo

ROGÉRIO PAGNAN
EVANDRO SPINELLI
da Folha de S.Paulo

A Justiça Federal determinou que a Prefeitura de São Paulo acabe com a contratação de entidades privadas para gerir suas unidades de saúde.

Pela decisão, a prefeitura tem 90 dias para reassumir a gestão de 119 unidades de saúde -entre AMAs (Assistência Médica Ambulatorial), UBSs (unidades básicas de saúde) e Programas de Saúde da Família- além dos hospitais de Cidade Tiradentes e M’Boi Mirim.

A administração Gilberto Kassab (DEM) informou que irá recorrer da decisão de 26 de agosto, divulgada ontem. A medida atinge boa parte do sistema de saúde da cidade.

Contratadas sem licitação, as parcerias com as organizações sociais são uma das principais bandeiras do prefeito Kassab para tentar se reeleger.

No total, são nove contratos de gestão já assinados pela prefeitura com oito organizações sociais. Só no primeiro semestre de 2008, dos R$ 2,2 bilhões empenhados na área de saúde, R$ 617,7 milhões foram gastos nessas contratações.

O mesmo modelo já é adotado pelo governo do Estado para a gestão de hospitais e o governo federal também tenta aprovar no Congresso projeto com teor semelhante.

Segundo a decisão da juíza Maria Lucia Lencastre Usaia, da 3ª Vara Cível Federal, o município tem 90 dias para reassumir todas as unidades públicas repassadas às organizações sociais e, ainda, retirar todos os funcionários cedidos às instituições -mesmo aqueles sem ônus ao erário municipal.

Além disso, a juíza determinou que a União fiscalize o processo de retorno das unidades de saúde à prefeitura e impeça o repasse de recursos públicos para entidades privadas.

Para a juíza, a legislação municipal que permite essas contratações, aprovada pela Câmara Municipal em dezembro de 2005 (lei 14.132), é inconstitucional porque, ao dispensar a licitação, a prefeitura fere o princípio da isonomia e igualdade de condições entre os interessados nessa gestão.

“Ofende o princípio da legalidade administrativa não fixando critério algum para escolha das entidades como organizações sociais, deixando a juízo exclusivo do secretário municipal de Gestão e do secretário do órgão regulador da área de atividade correspondente ao objeto social”, afirma.

A prefeitura alega que esse modelo de gestão agiliza o atendimento e melhora a qualidade do serviço prestado.

Para a juíza, porém, esses argumentos não justificam a dispensa da licitação. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal em 2006, que teve quase todos os seus pedidos atendidos. Não conseguiu apenas que a Justiça determinasse a suspensão imediata ao município de São Paulo dos recursos do FNS (Fundo Nacional de Saúde).

A procuradora da República Sônia Maria Curvello, uma das autoras da ação, disse esperar que a decisão seja cumprida. “O MPF mantém o entendimento de que a terceirização da saúde municipal é inconstitucional”, disse por meio de nota.

Em junho de 2006, a juíza Maria Lucia Lencastre Usaia já havia concedido liminar ao Ministério Público com as determinações julgadas em mérito agora. A liminar foi derrubada, porém, dez dias depois pelo TRF (Tribunal Regional Federal) 3ª Região. Caberá a esse mesmo tribunal analisar agora o novo recurso da prefeitura.

Outro lado

A Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos, por meio de nota oficial, afirma que a sentença dada pela juíza Maria Lucia Lencastre Usaia contradiz decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que, em liminar, já considerou constitucional a contratação de organizações sociais na área da saúde.

‘O STF, que é a corte suprema para questões constitucionais, ao apreciar ação direta de inconstitucionalidade que questionava a lei federal 9.637/98, de conteúdo semelhante ao da ‘Lei das OSs’ paulistana, declarou em caráter liminar a constitucionalidade daquela lei’, diz a nota.

Além disso, a prefeitura avalia que a sentença não tem efeito imediato porque o TRF (Tribunal Regional Federal) já analisa um recurso no mesmo caso.

Campanha

A prefeitura defende o modelo de gestão das unidades de saúde por organizações sociais, sem fins lucrativos. O prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, defende o projeto em discursos e na propaganda eleitoral.

Em 25 de janeiro deste ano, ao assinar novos contratos de parcerias com as organizações sociais, Kassab afirmou que o evento ‘é a consolidação de um modelo para a saúde com parceiros de qualidade, que nos dão a tranqüilidade de mostrar que estamos melhorando a saúde na cidade’.

‘As organizações sociais representam a modernização dos processos de gestão em saúde. A população sentirá o impacto da mudança no seu dia-a-dia, com a qualidade dos serviços oferecidos pela rede pública’, disse, na ocasião, o secretário de Saúde, Januario Montone.

colaboraram FLÁVIO FERREIRA e RANIER BRAGON

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Abandono histórico

O desprezo das autoridades para com os símbolos do centro da Paulicéia deixa marcas indeléveis em obras de escultores consagrados, apagando da história da cidade de 454 anos retratos de acontecimentos marcantes

Daniel Marques

Praça das Esculturas
A Praça da Sé, considerada o marco zero da cidade de São Paulo, ficou cercada por tapumes durante um ano, como parte dos projetos de revitalização do centro histórico, porém o descaso público em conjunto com a deterioração natural permanece agindo sobre as valiosas esculturas do local. A concepção original da Subprefeitura da Sé de recuperar o grande espelho d’água, que circunda entre obras modernas de reconhecidos artistas plásticos, como o Condor, de Bruno Giorgi, e o Totem da Sé, de Domenico Colabrone, foi concluída, mas da fonte ainda jorra uma estranha água esverdeada. O prédio do Palácio da Justiça com sua fachada apontada para os jardins da praça também sofre um processo minucioso de restauração que deve ser finalizado em março de 2009. Destoando do cenário limpo e bem cuidado, ergue-se uma escultura sem título do mineiro Amílcar de Castro, instalada em 1979, com fundo para a renovada Catedral da Sé. A iniciativa de recuperar a praça não foi estendida a essa peça arquitetônica: a falta de cuidados deixou a chapa de ferro com coloração típica de ferrugem, não evitou as pichações de giz e tinta e permitiu a colagem de um cartaz contra a fome, bastante comum no centro histórico da capital paulista. À vista, nenhuma viatura da Guarda Municipal, enquanto quatro carros faziam a ronda da Prefeitura de São Paulo no mesmo momento.

Largo do Arouche
O monumento que adorna uma pequena praça do Largo do Arouche ostenta o irônico título de Progresso e representa mais uma faceta da desigualdade social da capital paulista. A um quarteirão de distância da obra do escultor grego Nicolas Vlavianos, inaugurada em 1993, encontram-se tradicionais pontos turísticos como o restaurante O gato que ri e o mercado de flores do Arouche, que passou a ocupar seu lugar definitivo em 1953. No local da escultura, que não possui nenhuma placa com especificações de data e motivos de sua instalação, moradores de rua utilizam a base da peça de ferro pintada em vermelho para dormir, contrastando com um dos pontos mais elegantes do centro. Taxistas que trabalham em um ponto próximo da praça afirmam que o monumento não recebe atenção dos órgãos públicos responsáveis pela sua manutenção e que a péssima iluminação serve como convite aos sem-teto. Com o abandono completo, a tortuosa obra de Vlavianos, figura constante na Bienal de Artes de São Paulo desde o início da década de 1960, permanece no esquecimento.

Praça Júlio Mesquita - Avenida São João
O histórico da Fonte monumental, implantada pela Prefeitura em 1927 para celebrar a construção da Praça Júlio Mesquita, junto à Avenida São João, sempre foi tumultuado por constantes degradações e tentativas frustradas de manter o projeto original da escultora Nicolina Vaz de Assis. Desde a segunda metade da década de 1980 a fonte foi rodeada por resistentes grades de ferro após denúncias de pichações. A iniciativa provou-se desastrosa desde o início, mas somente em 2004 a Subprefeitura da Sé decidiu livrar o monumento de sua jaula. Os efeitos de anos sem limpeza e conservação eram evidentes: rebuscadas lagostas de bronze, detalhes que rodeavam a escultura, haviam sido retiradas e grande parte da base de mármore estava danificada. Atualmente, a Fonte monumental figura no programa municipal Adote uma obra de arte, que pretende atrair investimentos privados para ajudar na recuperação do patrimônio histórico da cidade, porém ainda é nítido o descaso: o forte cheiro de urina comprova a utilização da fonte como banheiro público e inscrições feitas com giz de cera são detalhes facilmente vistos por toda a peça.

Ladeira da memória
Entre todas as obras retratadas nesta reportagem, o Obelisco da Memória é a mais antiga, e inclusive ostenta o rótulo de monumento mais remoto da cidade de São Paulo. Sua inauguração, idealizada pelos escultores Daniel Pedro Mulher e Vicente Gomes Pereira, data de 1814 e diversas restaurações já foram realizadas, principalmente nos murais de azulejos portugueses que circulam a peça de pedra e nos jardins adjacentes. A FAMBRA (Federação de Amigos do Museu do Brasil) foi responsável pelos últimos reparos, concluídos em 13 de dezembro de 2005, a partir dos quais o chafariz central voltou a funcionar. Hoje o grande mural de azulejos pintados por José Wasth Rodrigues permanece sujo, com pinturas gastas, e disputa a atenção dos olhares com pichações nas cores preto e laranja.

Praça Doutor João Mendes
A estátua O engraxate e o jornaleiro, do italiano Ricardo Cipicchia, é um exemplo triste. O engraxate Amadeu Gonçalves da Cruz, que trabalha na Praça Doutor João Mendes há 12 anos, relembra como os dois rapazes esculpidos em bronze quase foram parar em um ferro velho: “Acho que há quase quatro anos um grande temporal derrubou algumas árvores aqui na praça e uma delas atingiu a estátua. Ela caiu e quase foi levada pela enxurrada”, conta o senhor de 68 anos. Reerguida seis meses depois do acidente, hoje a escultura carrega uma marca de tinta com símbolos indecifráveis na parte traseira de seu pedestal.

A grande peça de bronze Mãe preta, criação de Júlio Guerra e instalada no Largo do Paissandu em 1955, serve de ponto de encontro para adolescentes de rua fumarem maconha. O Imperador Cícero, esculpido por Humberto Galimberti Poletti em 1960 e colocado no Largo do Arouche, perdeu sua placa de identificação e agora carrega um cartaz do Movimento da Negação da Negação com os dizeres “Você Paga”. Depois de ter arrancada sua dedicatória, o monumento ao ex-governador de São Paulo Abreu Sodré, na Praça da Liberdade, permanece apenas com uma cabeça desfigurada. Enquanto isso, o busto de Álvares de Azevedo, poeta que amou a vida e morreu aos 20 anos de idade, é alvo de pedestres que passam pelo Largo São Francisco e utilizam a homenagem do centro acadêmico da Faculdade de Direito da USP como banheiro.

Revista Cult

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São Paulo fora dos trilhos

QUESTÃO URBANA A cidade em colapso é a pura expressão da sociedade em crise, o que se expressa em fatos como a pane dos trens

Tiaraju Pablo D´Andrea

UM ACONTECIMENTO recente expôs as veias abertas da desigualdade na cidade de São Paulo. No dia 21 de maio, um problema mecânico ocorrido num trem da linha Guaianazes-Brás bloqueou todo o sistema ferroviário na Zona Leste. Desesperados, milhares de passageiros que viajavam nas composições rumo ao trabalho desceram das mesmas, fazendo o trajeto dos trens a pé. A cena da multidão humana tomando os trilhos foi chocante, materializando, como poucas, a humilhação cotidiana a que é submetida a classe trabalhadora, moradora dos bairros pobres da cidade. No total, cerca de 10 mil pessoas fizeram a referida peregrinação.
Expressão trágica e evidente da falta de investimentos em transporte público para as classes populares, o acontecimento foi simplesmente a contraface de um outro evento ocorrido na cidade alguns dias antes: a inauguração da ponte Estaiada, no dia 10 de maio. Para a referida inauguração, foram dedicados centenas de minutos nos telejornais, milhares de fotos na internet e muita badalação da mídia impressa. Para a peregrinação dos pobres, exatos quatro segundos no Jornal Nacional.
Cabe ressaltar que a ponte tem como nome oficial Otávio Frias de Oliveira, um dos fundadores do Grupo Folha, e liga a marginal Pinheiros à avenida Roberto Marinho, falecido dono das organizações Globo, cuja sede foi valorizada pela construção da mesma ponte em questão, que hoje serve de pano de fundo ao telejornal diário SPTV. Como cereja do bolo da premiação simbólica, o túnel milionário que unirá a avenida Roberto Marinho à rodovia dos Imigrantes (que leva ao litoral) homenageará o jornal O Estado de S.Paulo.
Lisonjeada com tais homenagens prestadas pelo poder público, fundamentalmente em sua face tucana, a imprensa corporativa não dá visibilidade às relações promíscuas existentes entre a direita no governo e a elite paulistana, principal beneficiada pela concepção de cidade exclusivista e segregadora desses dois grupos, que no fundo são a mesma coisa. Moradores de bairros nobres, grandes empresários do ramo imobiliário e políticos encrustados no aparato estatal fazem da edificação do urbano uma máquina de favorecimentos pessoais.

Público e/ou privado?
Tomemos como exemplo a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), tema da principal matéria de capa da edição 273 do Brasil de Fato. Na reportagem, aponta-se a propina paga pela empresa francesa Alstom ao Governo do Estado para ser beneficiada em licitações públicas que envolvem a compra de equipamentos para os trens do Metrô. Pura promiscuidade entre o poder público e o capital internacional, o fato é realmente a ponta do iceberg do que escondem as relações entre a direita brasileira no aparato estatal e o capital privado nacional e internacional.
Nesse ponto, o caso da Linha 4 do Metrô é vergonhoso e nos dá a dimensão das tramas existentes. Em primeiro plano, é no mínimo suspeito que a referida obra seja efetuada por cinco empreiteiras que, formando um consórcio, venceram a licitação. São elas a Norberto Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a Queiroz Galvão, a Camargo Corrêa e a OAS. Nesse caso, é realmente difícil saber qual era a força dos concorrentes da licitação, dado que as cinco empreiteiras são as maiores do Brasil, e, acordadas entre elas, levaram a licitação e o dinheiro público, sem prejuízo para nenhuma.
Para quem ainda acreditava na implantação de um capitalismo puro no Brasil, aquele da concorrência, vigente nos manuais do liberalismo clássico, é melhor mudar os pressupostos e passar a enxergar esses arranjos como a face mais plena do capitalismo monopolista, cada vez mais em voga nos tempos neoliberais. Dito capitalismo sem risco, e sem concorrência, é ainda mais claro quando observamos que 70% do total do custo da obra sairá dos cofres públicos.
Como se não bastasse, há grupos que participam, simultaneamente, como gestores responsáveis pela fiscalização do projeto e como executores contratados para a construção. O resultado é um desprezo absurdo em relação à cidade, aos seus moradores e aos trabalhadores empregados na obra, cuja principal expressão, mas não a única, foi o buraco aberto nas obras da Estação Pinheiros, e que resultou em sete mortes em janeiro de 2007.
Desde que começada a sua construção, a tônica da Linha 4 têm sido mortes, obras embargadas, laudos que apontam falhas técnicas, esquema ilegal de contratações, favorecimentos, acordos mal explicados, dentre outros fatos que demonstram como as parcerias público-privadas gerem a questão urbana.

Especulação imobiliária
Outro elemento que evidencia a quem serve o projeto da Linha 4 é o seu trajeto. Ao ligar o Centro antigo ao bairro do Morumbi, cruzando a avenida Paulista, o caminho é um traço por sobre o sentido de expansão histórica das elites paulistanas, começando no Centro, em direção à zona sudoeste do município.
Como é longamente sabido, a localização das linhas de Metrô e de suas estações valoriza o entorno. Não por acaso, a Linha 4 liga uma Operação Urbana, a da Vila Sônia, a outra Operação Urbana, a da Luz. As Operações Urbanas implementadas nos últimos anos na cidade têm servido para atender aos interesses do mercado imobiliário, valorizando regiões por meio da expulsão dos pobres e da implantação de grandes obras.
No caso da Linha 4, numa ponta, a Operação Urbana Vila Sônia valorizará de tal forma a região que até a classe média baixa ali residente é contra sua implantação. Já na outra ponta da Linha 4, temos o bairro da Luz, que passa por um processo de gentrificação (enobrecimento do espaço urbano) encabeçado pelos governos PSDB (estadual) DEM (municipal). Nesse caso, a impressa também faz sua parte. Ao insistentemente nomear a região como Cracolândia, prepara ideologicamente a intervenção no local, que ocorrerá com a destruição total de 103 mil metros quadrados de casarões e a construção de edifícios de escritórios e residenciais para a classe média. Empresas do ramo imobiliário como Odebrecht, Gafisa e Company S.A. já estão interessadas na região que, além de fornecer infra-estrutura urbana às empreiteiras e construtoras, oferecerá abatimentos nos impostos das empresas que se instalarem na região.
Cabe lembrar que o capitalismo é um sistema econômico que vive necessariamente da guerra ou da destruição de mercadorias para a circulação de outras em seu lugar, até o capital se realizar enquanto tal. Logo, nessa lógica, é necessário derrubar um bairro inteiro para construir outro. Nota-se claramente nesse caso como a confecção da cidade acontece por interesses econômicos, visando o favorecimento de meia dúzia de empresas e tendo por decorrência a expulsão dos pobres da região. Esperamos que o bairro da Luz não se transforme numa nova Berrini, um espaço privatizado, sem comércio e sem pessoas. Simplesmente o pior estilo de vida que São Paulo já produziu.

Mão-de-obra barata
Ainda no que se refere à Linha 4, cabe ressaltar novamente seu trajeto. Ao passar por bairros com um número considerável de ofertas de empregos, como a região da Paulista, de Pinheiros e dos escritórios e residências da Marginal Pinheiros e do Morumbi, viabiliza o deslocamento até esses bairros de mão-de-obra de todas as partes da cidade, sobretudo mão-de-obra barata das regiões mais pobres e longínquas.
O percurso planejado para a Linha 4 a conecta com a Linha 3 (Leste-Oeste), a Linha 2 (Vila Madalena-Imigrantes), a Linha 1 (Norte-Sul) e os trajetos de trem Luz-Francisco Morato e Osasco-Jurubatuba. Dessa forma, a Linha 4 é, de todas as do Metrô, aquela que mais facilmente ativa populações de todas as zonas da cidade, diminuindo o tempo de deslocamento e oferecendo uma vasta quantidade de mão-de-obra para essa nova centralidade da cidade expressa pela avenida Luis Carlos Berrini e arredores. Com toda a oferta de trabalhadores possíveis de serem ativados em qualquer ponto da cidade, e estando estes a menos de quarenta minutos no pólo de emprego, justifica-se a campanha impiedosa de remoção das favelas da região sudoeste.
Hoje, os trabalhadores moradores das favelas Jardim Panorama, Real Parque, Jardim Edite, Beira-Rio, Coliseu, dentre outras, já não são funcionais. Mais importante que esses trabalhadores são os terrenos onde localizam-se suas casas e barracos, prontos para servirem à expansão do capital imobiliário que se dá sob a forma de construção de novos empreendimentos. Os trabalhadores que antes eram oferecidos pelas favelas da região serão no futuro deslocados pelo Metrô, o que impede também a proximidade entre ricos e pobres.
Para terminar, é da Estação da Luz que partirá a nova linha de trem que atenderá o Aeroporto de Cumbica. O trecho, orçado em R$ 200 milhões, já é visto como mais uma oportunidade de investimentos para a iniciativa privada e atenderá escassos 20 mil passageiros por dia, não servindo a população do município de Guarulhos. Espécie de trem expresso, a linha se conectará com a já comentada Linha 4, beneficiando moradores das regiões nobres da cidade de São Paulo, em seu deslocamento para o Aeroporto Internacional.
Na outra ponta, o governo municipal torrou R$ 275 milhões na obra da faustosa ponte Estaiada, proibida para ônibus e ciclistas. A sua construção, o investimento no túnel que liga a avenida Roberto Marinho à rodovia dos Imigrantes e a remoção de todas as favelas do eixo nada mais é do que a implementação da rota Morumbi-Guarujá, servindo ao rápido deslocamento da elite de suas residências ao litoral, e sem favelas por perto.

“Senhores feudais”
Todos esses fatos demonstram como o Estado se expressa, na confecção da cidade, como um grande benfeitor das elites, distribuindo concessões e obras de infraestrutura viária para poucos. Montantes imensos de recursos concentrados em poucas construções, com o intuito de favorecer uma pequena parcela da população, nos fazem lembrar as estradas construídas pelos velhos coronéis para atenderem melhor suas fazendas, enquanto o resto era mato.
Na verdade, o pensamento pseudo-moderno de nossas elites nada mais é do que um medievalismo bruto e ignorante. Contudo, a referida forma de gestão das cidades – que prioriza o transporte privado, a segregação sócio-espacial e os interesses econômicos –, tem seus dias contados. A cidade que se colapsa é a mais pura expressão da sociedade em crise, que se colapsa também, e que se expressa em fatos como a pane generalizada dos trens da CPTM no dia 21 de maio. Tão absurdo quanto as tramóias realizadas entre o Estado e agentes privados é a população peregrinar passivamente pelos trilhos da cidade.

Tiaraju Pablo D’Andrea é sociólogo, mestrando em Sociologia Urbana pela USP e técnico social da Assessoria Técnica Usina

Brasil De Fato

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Por linhas tortas

No trajeto rumo ao subúrbio, flagrantes de um sistema que atende 1,8 milhão de usuários por dia

Mônica Manir

O bêbado caiu. Não estava preparado para aqueles 215 metros de comprimento, 26 metros de altura, 40 metros de vão. Vertiginou-se. Levantou assim assim, coxa ante coxa, e sentou no banco de ferro. Coisa chique aquilo ali. Concluída em 1938 no estilo Luís XVI, a Estação Júlio Prestes mantém a imponência da fase áurea do café. Bem verdade que caiu em decadência, feito bêbada, a partir dos anos 50, quando os ônibus roubaram seu lugar na malha de transporte paulista. Mas na década de 90 Mário Covas botou pra quebrar e mandou restaurar o monumento. O imenso hall da estação virou a Sala São Paulo, reduto de concertos de música clássica. O bêbado não sabe que o erudito está à vista, logo atrás da parede de vidro. Pouca gente da plataforma sabe. Querem é saber do trem.

Juntam dois seguranças em volta do ébrio, que se percebe figura non grata. “Se ele cair na linha, babau!”, diz um funcionário. “Pessoas embriagadas ou intoxicadas por álcool ou outras substâncias tóxicas” fazem parte da lista de proibitivos da CPTM, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que cuida de 84 estações operacionais na região metropolitana de São Paulo. As estações estão distribuídas em seis linhas, todas com rótulo de pedras preciosas: Rubi, Diamante, Esmeralda, Turquesa, Coral, Safira. A Júlio Prestes, preciosíssima, encabeça a Diamante. O bêbado não sabe disso. Ninguém na plataforma sabe. Querem é saber da composição sentido Itapevi, que estaciona sem buzinaço. São 6 da manhã. O bêbado ficou na saudade.

A vantagem de sair do terminal é poder viajar sentado, talvez na janelinha. A desvantagem é que, mesmo proibitivamente, as janelinhas estão rabiscadas com traços helicoidais, circulares, elípticos ou na linguagem indefectível das pichações. Dá para identificar um Radicais, um Autopsia e um Libertação Animal. Pueta TM? Shoo? Herb Deg? Nos bancos em vermelho vigoram declarações de amor de Jefferson para Talene, de Ninho para Kleiton. Nos bancos azuis, idem. Deviam ser bancos de respeito. Estão destinados a pessoas com deficiência, crianças de colo, gestantes, idosos e obesos com I.M.C. maior que 40. Uma gordinha de considerável volume, aliás, reclama com a amiga do pífio bufê degustado em uma Casa Grande no dia anterior. “Rico não come, experimenta.”

O vandalismo é freqüente nas composições. Entre janeiro e junho deste ano, a CPTM registrou 1.392 ataques contra portas, janelas, lacres de extintores de incêndio, luminárias e bancos. Os gastos com os reparos chegaram a R$ 1.730.400 e uns quebrados. Daí o anúncio nesta semana de que, a partir de fevereiro de 2009, será implantado um sistema de vigilância com câmeras nos trens.

Se o vandalismo não atingir as ditas cujas, elas devem flagrar os ambulantes que se esgueiram entre um vagão e outro com mochilas de zíper quebrado. Comercializar e/ou distribuir mercadorias ou impressos está previsto na lista de proibições.

- Bala de gengibre, descongestiona os brônquio, 3 reais nas drogarias e farmácias, 1 real na minha mão.

- Mapa de São Paulo, mapa do Brasil, com praça de pedágio nos dois sentido, 1 real.

- Isqueiro e lanterna de 1 real. O isqueiro era 2, agora é 1.

- Três barra de cereal por 1 real.

- O mais novo e completo livro da Ana Maria Braga, comida baiana, comida gaúcha, 6 reais na banca (o livro, de bolos, é de 2004). 1 real para acabar.

“É o shopping dos pobres”, classifica Edson Ferreira, atendente de uma loja de aparelhos eletrônicos em Itapevi. Edson tira os fones de ouvido para conversar. Ele engrossa a estatística amadora, porém evidente, dos zilhões de usuários - 394 mil diários na Linha Diamante, 1,8 milhão por dia no total - que sintonizam seus celulares e MP3 em músicas para suportar o cansaço dantesco cá dentro e a paisagem de guerra lá fora. A Diamante contempla o maior número de estações: 25. Segue na direção oeste da periferia, passando por Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira e Itapevi. Quem quiser se estender até a Parada Amador Bueno, em Itapevi, dá, desde que em vagões pequenos, grafitados até a alma. De bitola menor, sacolejam lentamente como uma gangorra. Até Amador Bueno, a previsão de tempo é de 1h30.

Seu Eljásio Teixeira, de 81 anos, saiu de Amador com uma mochila e um caça-palavras. Atual vendedor de borracha de panela, gilete e isqueiro, vulgo camelô, trabalhou por uma dúzia de anos na antiga Fepasa. Gosta de trem porque é bem atendido, tudo pessoa qualificada. “Tem que pegar pessoas com relações humanas, quem não gosta de gente que vá trabalhar com enxada, que é objeto e não fala.” Eljásio jogou na loto esta semana. Almeja ir para Alphaville, condomínio encravado em Barueri que é sonho de consumo da vizinhança. “Quero ficar no meio dos ricos, onde o mais pobre seja eu.” Conhece as pessoas pela pele, sabe quem está bem de situação e quem é marreteiro, mas se diz analfabeto de pai e mãe. Estranho… Catou muito bem as palavras na minha frente… “Sou analfabeto, estou te dizendo, menina.” Desceu na Estação Antônio João, não sem antes anunciar o “epocalipse”: “Precisa de mais trens; um dia vai dar um relâmpago e tudo isso aqui vai derreter”.

Discurso mais inflamado corre no segundo vagão, o dos evangélicos. A pregação do dia é feita por um irmão e duas irmãs, que assim se chamam, anonimamente. O irmão pertence à Comunidade Pentecostal Adonai e anuncia o fim dos tempos na linguagem da aleluia: “Os alcoólatras, aleluia, mentirosos, aleluia, falsos mentirosos, aleluia, vão cair num lago de fogo ardente, aleluia”. Ele conta ainda que, antigamente, todo o mundo era bagunçado. O homem tinha 4 esposas e 20 concubinas. Aquele povo do Egito pereceu. Deus mandou umas pragas. Nosso Deus era fulminante. Não permitia o erro. Mas Jesus veio e você está vivo graças a Jesus Cristo. Aleluia.

As irmãs entoam cantos de louvor em altos decibéis, e quem está à volta parece conformado com o seu destino. Ou mais ou menos. No ano passado, 137 pessoas registraram incômodo babilônico com a pregação, que, aliás, é proibida pela CPTM. Enquanto isso, o grupo de 2 mil evangélicos de diferentes denominações persevera para manter uma atividade que já dura 28 anos. Inclusive convidam a assembléia itinerante para o IV Congresso dos Pregadores de Trem, neste fim de semana.

No extremo oposto, ou seja, no 12º vagão, o último, habita a perdição. É o que dizem as boas e as más línguas. Ali consumidores de drogas alimentariam a nóia. Isso quando podem, porque seguranças de uma empresa terceirizada, vestidos de azul, invariavelmente circulam na área com os seus cassetetes. Na quarta-feira à noite, o trem apitou, mas não saiu de Jandira. “Põe a mão na cabeça, põe a mão na cabeça”, gritava o segurança. Um cego no vagão da frente enrijeceu. “Tem gente aí?”, perguntou. “São aqueles marrom?”, perguntou de novo. Um moço respondeu que era azul. Marrons são os guardas que ardam armados. O trem apitou de novo e partiu. Sabe-se lá o que aconteceu porque ninguém foi à janela. O cego esperou a próxima estação, Jardim Silveira, e se encorujou à porta. Tirou um creme da bolsa e o espalhou no rosto e no pescoço. A tampa caiu. “Ô, inferno!” Aflitivamente, com a bengala encostada à porta, ele rastejou no chão atrás do envoltório. Ei-la. A porta abriu. Ele desapareceu na escuridão, amaldiçoando o breu.

Lembrou, em certa medida, o Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria, conto de António de Alcântara Machado, em que um cego de Belém arma um salseiro ao descobrir que o trem em que navegava não tinha luz. “Não pode ser! Estrada relaxada! Não se pode viver sem luz! A luz é necessária!” Os trens da CPTM são bem iluminados, dá para ver as pegadas no chão, os chicletes que já se incorporaram ao piso, o degrau metálico no final do vagão, onde é proibido sentar e onde todo mundo senta, claro. Mas falta brilho na maioria dos passageiros. Enlatados ou com espaço digno, seguem muitos em silêncio, numa apatia assustadora, dormindo sobre o colo ou reproduzindo desgraças. “Se tiver sangue sujo vai sair furúnculo até não poder mais; a tendência é estourar sete de uma vez”, anuncia um garoto para os colegas da escola, aterrorizados com a praga que pode pegar em qualquer um, se já não pegou.

Renato Ferreira destoa um tanto. Tira um Crime e Castigo da mochila e demonstra se deliciar com o tempo livre. Em horário de volta da maioria, está no contrafluxo. Entra às 5h30 da tarde na Telefonica, onde trabalha com atendimento ao consumidor. Certamente não é daí que vem seu bom humor… Renato é formado em química, estuda filosofia e por dez anos foi maquinista da CPTM, experiência de onde extrai sua teoria sobre os trens: “Aqui é um reflexo bem pequenininho da sociedade”. Como trabalhador invisível que foi, flagrou o farol baixo da população que esperava o trem sempre adiante da faixa amarela. Como maquinista, atropelou dois transeuntes, não sabe se por opção de suicídio ou por descuido do atropelado. “Mas a morte é castigo inerente a essa profissão”, sentencia. Ao anúncio estridente da Estação Barra Funda, ele guarda Dostoievski e vangloria Nietzche. Gostou deveras de Humano, Demasiado Humano.

E entra Dionísia. Pela segunda vez Dionísia, a única passageira que se repetiu na viagem. Entrou calada, distribuindo um papel xerocado, sem um erro de português, em que não se diz surda-muda, mas vó de dois netos e catadora de sucata. Só que não está dando. Ela tem 50 anos e está ali humildemente pedindo a sua colaboração para pagar a conta de luz e água. Dela. Aceita qualquer trocadinho ou passe e vale-refeição. Pedir esmola é proibido pela CPTM, Dionísia sabe. Mas Deus abençoe todos vocês.

Linha Diamante
Linha 8 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM)

DE TUDO, UM POUCO
“O mais novo e completo livro de Ana Maria Braga, 6 reais na banca,
1 real para acabar”

NO SEGUNDO VAGÃO
“Os alcoólatras, aleluia, mentirosos, aleluia, vão cair num lago de fogo ardente, aleluia”

ANGÚSTIA DE CEGO
“Põe a mão na cabeça”, gritava o segurança. Um cego enrijeceu. “Tem gente aí?”

SEGUNDA, 11 DE AGOSTO
Big Brother nos vagões
A CPTM anuncia que, a partir de fevereiro, câmeras serão implantadas nos trens, primeiramente nas Estações Esmeralda, Turquesa e Coral. Além da segurança, a companhia quer que os equipamentos coíbam o vandalismo nos vagões e na estação.

“Estado de S. Paulo”

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Promotoria denunciará por homicídio responsáveis por cratera no metrô em SP

da Folha Online
28/08/08

O Ministério Público de São Paulo recebeu nesta quinta-feira o laudo do IC (Instituto de Criminalística) sobre o desabamento da estação Pinheiros do Metrô, que matou sete pessoas em janeiro de 2007. Segundo o promotor criminal Arnaldo Hossepian Junior, responsável por investigar o caso, pessoas envolvidas diretamente na construção e fiscalização da obra serão indiciadas por homicídio culposo –sem intenção de matar– até o final deste ano.

O laudo do IC, adiantado pela Folha, aponta que a tragédia não foi resultado de uma fatalidade, conforme parecer do Consórcio Via Amarela. Segundo o documento, não há um motivo único do desabamento, mas sim cinco fatores que prevaleceram como causas, além de uma série de outros fatores que contribuíram para o acidente.

Na lista das causas aparecem a seqüência de explosões para a abertura do túnel no solo de “rocha podre” –mesmo depois do rebaixamento do terreno–, a falta de reforço nas paredes antes do aparecimento de sinais de instabilidade e a não conclusão da instalação de tirantes (estruturas de sustentação).

” “A grosso modo’, ele [laudo] concluiu que houve culpa na execução e fiscalização da obra e, conseqüentemente, prestigia o que estamos sustentando, ou seja, homicídio culposo”, disse Hossepian Junior.

O promotor recebeu o laudo por volta das 12h30 de hoje, disse que ainda não leu todo o documento. Hossepian Junior vai examinar o documento e encaminhar ao delegado-assistente da 3ª Delegacia Seccional Eduardo Hirata Aoki. “Se não houver nenhuma outra providência a pedir, vou encaminhar ao delegado dentro de uns 15 dias. Ele [Aoki] fará um relatório onde pode apontar os indiciados ou encaminhar de para que o Ministério Público aponte [os culpados na denúncia]”, afirmou o promotor.

Após a entrega do relatório da Polícia Civil, Hossepian Junior encaminhará a denúncia à Justiça. Esse processo, segundo ele, deve terminar até o final do ano. O promotor não citou os nomes das pessoas que devem ser indiciadas. O delegado disse que ainda não leu o laudo do IC e deve se manifestar após ler o documento.

Desabamento

O acidente aconteceu no dia 12 de janeiro de 2007, matando sete pessoas: três que iam a pé para a estação de trem, duas que estavam em uma lotação engolida pelo buraco, um office-boy que circulava pela região e um motorista de caminhão que estava na superfície do canteiro.

Com Folha de S.Paulo

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Construtoras responsáveis por cratera vencem nova licitação do Metrô

RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online

As construtoras Camargo Correa e Queiroz Galvão venceram a licitação para a construção da via permanente e do sistema de terceiro trilho da expansão da linha 2-Verde do Metrô de São Paulo. Os envelopes com as propostas foram abertos na manhã de hoje e o orçamento das construtoras, de R$ 219,7 milhões, foi o escolhido.

Queiroz Galvão e Camargo Correa são duas das empresas que fazem parte do consórcio Via Amarela, responsável pela construção da linha 4-Amarela e pela cratera que se abriu em janeiro do ano passado nas obras da futura estação Pinheiros. Sete pessoas morreram. Além das duas vencedoras, só a Andrade Gutierrez e a OAS –que também fazem parte do Via Amarela– foram consideradas aptas a participar da concorrência. Perderam.

A licitação era contestada pelas construtoras Tejofran e o consórcio formado pela Carioca, Convap e Sutelpa junto ao próprio Metrô e na Justiça.

As outras duas também fazem parte do consórcio Via Amarela, ou seja, apenas as responsáveis pela cratera puderam participar da nova licitação. As outras construtoras foram desconsiderados por não cumprir critérios jurídicos ou técnicos.

Obras

A expansão da linha 2-Verde até a Vila Prudente já está em obras. Em março deste ano, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o secretário estadual de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portela, anunciaram a expansão até a estação Oratório. Na mesma época o governo do Estado também prometeu construir a linha 6-Laranja (Freguesia do Ó - São Joaquim) até 2012.

Folha Online - 28 de agosto

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Barbariecracia

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Escrito por Frei Betto
Por: Correio da Cidadania


O êxodo da população do bairro carioca de Vigário Geral, acossado pelo tiroteio entre traficantes e policiais, deixa sem aulas 3.071 crianças, fecha o comércio local, impede os moradores que ali permanecem de exercerem o direito elementar de ir e vir.

A frágil democracia brasileira se encontra ameaçada nas grandes cidades. À margem do Estado legal se expande e fortalece o Estado ilegal. A barbárie se faz presente lá onde o poder público se faz ausente. Quando muito, o Estado marca presença eventual como força repressiva, jamais como ente administrativo.

Em favelas, impera o narcotráfico, que coopta crianças e jovens, cobra proteção do comércio local, administra bailes e quadras de esportes, pune severamente quem transgride a “lei do cão” e ainda presta assistência social a vizinhos, como internação hospitalar, compra de remédios, bolsas de estudo, consertos domiciliares e ampliação de barracos.

Nas periferias, as milícias, em geral dominadas por policiais, ditam normas e procedimentos: cobram pedágio dos moradores e comerciantes, controlam o fornecimento de gás, monopolizam o transporte em vans e microônibus, impõem aos eleitores seus candidatos.

Quanto mais omisso o poder público nessas áreas densamente povoadas por famílias de baixa renda, maior o império da barbariecracia – o regime da barbárie, que se impõe pelo terror.

Moradores de favelas e subúrbios, em sua imensa maioria, são gente honesta e trabalhadora, como constatei nos cinco anos em que morei na favela de Santa Maria, em Vitória. Porém, são desprotegidos enquanto cidadãos. Não dispõem de áreas de lazer, esporte e cultura; as escolas são sucateadas, os professores mal remunerados (e ainda há governos que reagem ao piso nacional), o ensino é de má qualidade; o serviço de saúde agoniza; o saneamento é precário; o número de moradias construídas com financiamento público é ínfimo.

Basta mapear as obras do poder público, como a expansão do metrô carioca, para se constatar que a prioridade recai sobre a minoria da população de renda média ou alta. A parcela capaz de retribuir em dividendos eleitorais. É esta reduzida, mas poderosa faixa da população – formadora de opinião –, que merece o melhor serviço público. O resto, considerada a inexistência do Deus-dará, é empurrado às mãos dos meliantes.

Entre os municípios do Rio e São Paulo, há pelo menos 2 milhões de jovens, de 14 a 24 anos, que não terminaram o ensino fundamental. Desse contingente procedem 80% dos homicidas e também 80% dos assassinados. O que comprova que a violência urbana não decorre da pobreza, mas sim da falta de educação de qualidade.

Se o Estado se fizesse presente nessas áreas explosivas, através de escolas e cursos profissionalizantes, atividades esportivas e artísticas, com certeza o narcotráfico perderia força a médio prazo. Nem o próprio traficante deseja que seu filho lhe siga os passos.

E quando o governo fará uma ampla reforma nos critérios de seleção e formação de policiais civis e militares? Como se explica que agentes do Estado cometam assassinatos, tráfico de armas e drogas, tortura e roubo de bens encontrados em mãos de bandidos?

Infelizmente, no Brasil cultura é luxo da elite. Basta conferir o orçamento do Ministério da Cultura. As poucas iniciativas dependem do mecenato de empresas que raramente investem no mundo dos pobres.

Esta é a mais perversa forma de privatização: a que cede aos traficantes e às milícias clandestinas o direito de agir como um Estado dentro do Estado. Como todos sabemos que eles não delimitam seu raio de ação às áreas de baixa renda, as classes média e alta se tornam reféns permanentes da barbárie, seja invadidas pelo pavor ao risco de violência, seja pelo compulsório confinamento às grades de suas moradias e à blindagem de seus veículos.

Imaginem se os R$ 60 bilhões gastos por ano em segurança privada no Brasil fossem investidos em educação de crianças e jovens em situação de risco e na formação de policiais íntegros!

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

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A luta de Animal

Izabela Moi

O anglo-indiano Indra Sinha, que concorreu ao Booker Prize, conta a tragédia de uma cidade contaminada por gases químicos em seu novo livro

Animal teve um dia um nome, mas ele nunca soube qual. Antes, andava sobre as duas pernas, como um ser humano qualquer. Mas, por volta dos seis anos de idade, uma dor na coluna o dobrou até ficar de quatro no chão. E ele nunca mais se levantou.
Animal é também o narrador e o personagem principal de um dos livros finalistas da edição 2007 de um dos mais importantes prêmios literários do Reino Unido, o Booker Prize. Embora não tenha vencido, “Animal’s People” (O Povo de Animal), do anglo-indiano Indra Sinha, 57, já teve seus direitos de tradução vendidos para editoras na França, Grécia, Holanda, Israel, Itália, Japão, Noruega, Polônia, República Tcheca e Romênia. O Booker Prize do ano passado foi dado à escritora irlandesa Anne Enright pelo romance “The Gathering”.
Há seis anos atrás, Sinha estava à procura, segundo ele mesmo diz, de “uma história humana”. Seu envolvimento de mais de uma década com a causa dos sobreviventes do vazamento de gás venenoso da fábrica da Union Carbide, em Bhopal (India), há quase 25 anos, acabou ajudando a montar as peças de seu quebra-cabeças.
“Animal´s People” não é um relato da tragédia. É a história de Animal e de sua luta, ao lado de tantos outros, por uma vida melhor para os habitantes de uma cidade contaminada por gases químicos depois de um acidente em uma fábrica. Sinha não usa nomes reais.
Na ficção, a cidade chama-se Khaufpur (que em urdu significa “cidade do medo”) e tem seu próprio site (veja link no final). Kampani é o nome da empresa contra a qual os habitantes da cidade lutam -não só por justiça pelo acidente, mas principalmente pela despoluição da área e de sua água. A voz narradora é sempre de Animal, que se tornará um dos líderes do movimento, mas que é também um marginal na camada já marginal dessa sociedade.
Sinha foi redator de publicidade premiado. Tornou-se ativista por acidente, como ele mesmo insiste em afirmar. A primeira vez foi num trabalho profissional para uma campanha da Anistia Internacional. Em 1993, um amigo bateu a sua porta. A associação dos sobreviventes de Bhopal precisava levantar fundos para construir uma clínica gratuita. Sinha escreveu o apelo e conseguiu um espaço para publicá-lo no jornal inglês “The Guardian”, em 1994. Foi dessa forma que a clínica Sambhavna surgiu.
O acidente real com vazamento de gás em Bhopal, capital de um Estado da região central da Índia, ocorreu entre os dias 2 e 3 de dezembro de 1984. A Union Carbide (comprada pela Dow Química em 2001) reconhece a morte imediata de 3.800 pessoas. A associação criada pelos sobreviventes, a Bhopal Medical Appeal and Sambhavna Trust, afirma que foram 20 mil as mortes diretas. Além disso, contabilizam em mais de 120 mil o número de vítimas da contaminação. Sinha está envolvido com a organização de um concerto, o Bhopal 25 Concert, para levantar fundos para a clínica. Além disso, um acordo com a Amazon inglesa faz com que todos os exemplares de “Animal´s People” que são comprados pelo seu site (veja ao final) doem 60 centavos de libra para o fundo Sambhavna. Não é muito, conforme Sinha admite, mas ele conta em vender muitos livros. “Arte é sempre política, porque está enraizada em um ponto de vista político do mundo, mesmo se a política ali está enterrada vários metros abaixo da superfície”, afirma o escritor. Sinha, que se mudou há um ano para o sul da França com a família, depois de 39 anos vividos na Inglaterra, dedicou “Animal’s People” a um de seus amigos de Bhopal, Sunil Kumar, foi vítima do acidente e depois se tornou um dos principais líderes entre os ativistas. Em julho de 2007, suicidou-se, usando uma camiseta com os dizeres: “No more Bhopals”.
“Eles, Animal e Sunil, não são a mesma pessoa, mas muito do humor e da coragem de Sunil impregnaram-se na personalidade de Animal. É uma pena que Sunil não tenha visto o livro publicado”, diz Sinha.
*
Antes de ser um animal, seu personagem principal é humano, e quer contar a história à sua maneira. Por que você fez essa escolha? Fazer da tragédia de Bhopal uma ficção foi uma das maneiras que encontrou para chamar a atenção do mundo?
Indra Sinha: Eu não planejei escrever sobre Bhopal. Estou envolvido com a realidade dos sobreviventes há 14 anos, e há seis anos atrás tive a idéia deste livro. Eu procurava personagens com alma e uma história humana. Não estava interessado em fazer campanha e, por isso, mantenho a verdadeira tragédia apenas como pano de fundo.
Claro que, ao mesmo tempo, adoraria que o livro chamasse a atenção do mundo sobre o que ainda está acontecendo em Bhopal, mas antes eu tinha de fazer o livro funcionar como ficção, como literatura. Só quando os leitores se comovem e são envolvidos pelos personagens é que se interessarão em descobrir de onde toda a história veio.

Suas obras anteriores não tiveram tanto sucesso. Foram elas um treinamento para chegar em “Animal’s People”?
Sinha: Todo livro é um ensaio para o próximo, você aprende alguma coisa diferente a cada nova criação. Para mim, o mais difícil é decidir sobre a voz narrativa -quem vai contar a história. Quando eu a encontro, todo o resto fica mais fácil, e mais prazeiroso.

Por que você criou o site de Khaufpur?
Sinha: A idéia inicial era uma brincadeira, e mais uma forma de promover meu livro, um espaço a mais para a sátira e a ironia. Eu também queria estender meu relacionamento com a história, porque quando acabei o livro eu não conseguia me separar de seus personagens. Mas, com o tempo, o site tornou-se parte do livro, como sua extensão em um novo formato, ao mesmo tempo em que dava uma nova dimensão à história em si, uma nova “profundidade”, principalmente porque é um trabalho que não tem fim, que evolui sempre. Para mim, é a liberdade de experimentar a literatura.

Quando você aceitou dar esta entrevista, disse que a história de Animal poderia ter sido contada num ambiente como uma favela no Rio de Janeiro. As misérias do mundo são parecidas?
Sinha: Eu assisti há alguns dias o filme “Cidade de Deus” e fiquei todo o momento pensando em como Animal se adaptaria perfeitamente a esse ambiente hostil, onde crianças endurecem para poderem se proteger, porque não há ninguém por perto com quem possam contar. O senso de humor e a dor sempre estão próximos. Eu nunca fui ao Brasil, mas é um lugar que mexe com minha imaginação.

Você escreve sobre a Índia, mas mora há 40 anos fora do país. Como lida com isso?
Sinha: Culturalmente, sou tanto um escritor inglês quanto indiano. Conheço profundamente a literatura indiana, apesar de estar fora há tantos anos, e leio tanto poesia em sânscrito quanto os autores modernos. A Índia é um país que entra na sua corrente sanguínea e nunca vai embora, como a malária.
Eu volto sempre. Estive em Bhopal muitas vezes, e muitos dos meus amigos mais íntimos estão entre os sobreviventes (e atuais ativistas) da tragédia. Talvez a voz narrativa de Animal seja a voz de todos eles reunidos.

Você deixou a publicidade para se dedicar exclusivamente à literatura. O que mudou?
Sinha: Aposto que você leu uma declaração minha dizendo que troquei um tipo de ficção por outro. Na verdade, não há muita coisa em comum entre as duas criações. Na publicidade, você trabalha dentro de uma visão miniatural do mundo e com um objetivo específico. Num romance, sua visão de mundo se amplia para uma escala bem maior, onde é preciso imaginar ao mesmo tempo com profundidade e em detalhe –e o único objetivo é ser coerente em relação à vida dos personagens criados.

Você acha que os autores vindos do subcontinente indiano, como Salman Rushdie, Hanif Kureish e Arundhati Roy estão colonizando a cena literária inglesa?
Sinha: Não, essa cena já foi colonizada pelos próprios ingleses antes. Muito da produção literária indiana hoje tem suas raízes no pós-colonialismo, e muitos autores ingleses, como Kipling, Burton e sir John Woodruff, contribuíram para o florescimento da cultura indiana no Ocidente. As duas culturas estão amalgamadas, uma relação que não aconteceu por exemplo com a literatura americana.

Você pode nos falar um pouco sobre o próximo livro, uma história sobre o apóstolo João já envelhecido?
Sinha: Fui capturado por uma história que imaginei enquanto lia o Apocalipse de São João. E por que eu estava lendo esse livro? Tenho um primo que é pastor de uma igreja pentecostal e que um dia me disse que, apesar de sermos uma família de boas pessoas, iríamos todos para o inferno porque não éramos crentes.
Normalmente, com pessoas assim, eu simplesmente não discuto, mas volto o assunto para elas mesmas e pergunto porque acreditam em “x” ou “y”. E ele começou a me contar histórias do Evangelho. Eu resolvi ler por curiosidade, e enquanto lia, comecei a imaginar o que aconteceria se o apóstolo realmente tivesse escrito o livro. Isso foi antes de eu começar a escrever “Animal’s People”, em 2001. Agora, vou voltar à história que imaginei. Eu me mantive fiel a ela, vamos ver se ela também se manteve fiel a mim.

Izabela Moi
É jornalista e vive em Paris.

“Trópico”

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A economia macabra da ocupação

GAZA Para racionalizar custos com o controle militar da Palestina, Israel impõe bloqueio à entrada de combustível no território

João Alexandre Peschanski

O governo israelense iniciou, em setembro de 2005, uma nova etapa na ocupação dos territórios palestinos. Esta começou com a retirada das colônias – conjuntos residenciais, localizados para além das fronteiras de Israel, determinados pela Organização das Nações Unidas – de Gaza e tem seu desdobramento mais recente no bloqueio à entrada de combustível nessa mesma região, em curso desde 17 de janeiro.
Na macabra lógica sionista, o objetivo da mudança na ocupação é encontrar uma forma economicamente sustentável de manter a Palestina sob controle. De acordo com dados de 2007 do Ministério das Finanças de Israel, 13% do orçamento anual do governo é gasto com a ocupação – algo como 9,3 bilhões de dólares por ano, aos quais se somam os 2,2 bilhões de dólares enviados anualmente por Washington. Enquanto o crescimento médio do orçamento israelense é de 1,7% por ano, nesse mesmo período o aumento dos custos da ocupação atinge 8%. Mantido esse ritmo, em cerca de 20 anos os gastos totais com o controle militar dos territórios palestinos equivalerá a 50% do total orçamentário.
“Não há Estado moderno que possa se manter com esse tipo de gastos. Na medida em que o governo israelense não está disposto a acabar com a ocupação, está desenvolvendo uma forma de ‘racionalizar’ a economia da violência”, explica o economista israelense Shir Hever, da organização não-governamental israelo-palestina Alternative Information Center (AIC – Centro de Informações Alternativas), uma das principais entidades de denúncia das mazelas da política belicista israelense.
A economia da ocupação se insere dentro de um plano governamental mais amplo, revela Hever, segundo quem há uma mentalidade hegemônica nos líderes de que “o ônus do controle sobre os territórios palestinos tem de ser garantido pela população israelense”, como o aumento de impostos e a redução de investimentos em políticas sociais – 9% em 2007, principalmente em saúde, assistência social e educação. Influenciado por órgãos financeiros multilaterais, o governo iniciou um processo de privatização das maiores estatais, principalmente das refinarias de petróleo.
Em 2006, de acordo com um relatório do AIC, o governo vendeu bens que somam 1 bilhão de dólares. “É um cálculo demente, pois, por mais que postergue um pouco a crise, logo os bens públicos à disposição de compradores vão acabar e o colapso será ainda mais profundo”, afirma o economista israelense.

Retirada das colônias
Desde 1967, o governo de Israel promoveu a construção de colônias em Gaza, geralmente habitadas por judeus radicais. A iniciativa contrariava acordos internacionais, como a Convenção de Genebra. Mas não importava para os governantes israelenses: com seu apoio financeiro, a população das colônias de Gaza passou de menos de 10 mil, em 1972, a quase 100 mil, em 2005. Organizados pelo Exército, os conjuntos residenciais foram construídos em locais estratégicos, para garantir o controle sobre a maior área possível, além de confiscar terras aráveis e recursos hídricos. Em 2005, quando da retirada, os israelenses das colônias representavam 0,5% dos 1,5 milhão de habitantes de Gaza, mas controlavam 20% de todo o território e das fontes de água.
A retirada das colônias de Gaza, aplaudida pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como uma iniciativa de paz, se caracterizou por uma intensificação do controle israelense sobre a população palestina, a custo inferior do que a manutenção da segurança dos colonos. Um quarto dos israelenses que saíram de Gaza foi diretamente deslocado para conjuntos residenciais na Cisjordânia. De acordo com dados do AIC, o governo gastou 144 milhões de dólares em 2004 com a segurança dos colonos, montante que crescia mais de 10% a cada ano.
A retirada foi acompanhada de uma intensificação militar da ocupação, com repetidas investidas militares nas principais cidades de Gaza.
Os ataques agravaram o desastre social que os israelenses deixaram para trás: informações do Banco Mundial revelam que, sem ajuda internacional, o nível de miséria na região passaria de 16% para 41%. “A situação em Gaza é emergencial. Não há indústria, não há agricultura, não há bases para uma economia sólida”, diz Hever.

Dependência coagida
Assim como o governo israelense não considera os representantes palestinos, especialmente os do Hamas, interlocutores razoáveis para negociar a paz da região, também não toma Gaza como um potencial parceiro comercial.
“Os economistas israelenses que assessoram o governo estipulam que o controle sobre os territórios palestinos é uma forma de arrecadar dinheiro para custear a ocupação”, afirma Hever, para quem o que ocorre em Gaza “é uma pilhagem”. Os recursos que entram em Gaza passam todos por Israel – já que não há portos e aeroportos na região. Há cobranças de taxas de transporte – e a maioria dos bens comprados é produção israelense.
O bloqueio à entrada de combustíveis, segundo o economista israelense, é uma forma de acentuar a dependência, impedindo o desenvolvimento de infra-estruturas. A economia macabra da ocupação israelense, com o bloqueio da entrada de recursos fundamentais para o funcionamento de serviços básicos, leva a um colapso humanitário em Gaza. Hever fala em “holocausto palestino”.
Um abaixo-assinado de entidades israelenses, divulgado na mídia em 29 de abril, descreve a situação em Gaza: “Expressamos nossa preocupação em relação à sistemática destruição de construções essenciais para a vida em Gaza, um território sob ocupação de Israel, que impede que haja combustível para gerar eletricidade, que funcionem os hospitais e as bombas de água. Essa situação é inaceitável, pois marca uma represália e uma punição coletiva contra civis, injustificáveis e passíveis de serem consideradas crimes de guerra”.

“Brasil De Fato”

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No país do clientelismo

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SOCIEDADE

Enchente no bairro do Rochidalle

Luiz Antonio Cintra

Arquiteta e urbanista, Erminia Maricato foi secretária-executiva da equipe pioneira do Ministério das Cidades, nos tempos em que o ex-governador gaúcho Olívio Dutra era o ministro. Do início do primeiro mandato de Lula a 2005, o ministério concentrou-se em criar instâncias públicas de planejamento urbano, na contracorrente da tradição nacional, sempre “capturada” pelos interesses econômicos e a política clientelista, da troca de favores, características da formação brasileira. Foi atropelado pela crise do mensalão, que fez o governo entregar a pasta ao nanico Partido da República (PR), em busca de apoio no Congresso.

As conferências municipais, estaduais e nacionais que ocorrem no País inteiro desde 2005 vão são exemplo da orientação encampada no ministério. “Acredito em um esforço civilizatório, “paulofreiriano”, pedagógico, das pessoas conhecerem a própria realidade para atuarem sobre ela”, afirma Ermínia, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo.

Na entrevista a seguir, a urbanista comenta alguns dos principais entraves para a melhoria da qualidade de vida nas principais regiões metropolitanas do País, bem como os interesses em jogo no momento em que o Brasil é visto é como a “bola da vez” da economia mundial, a quem caberia fornecer commodities e biocombustíveis aos países desenvolvidos.

CartaCapital: Há quem compare São Paulo a metrópoles estrangeiras, como Tóquio ou Londres. São realidades comparáveis?

Erminia Maricato: São completamente diferentes. O que existe hoje é um verdadeiro assédio de entidades internacionais e universidades, que estão vindo ao Terceiro Mundo. Antes, o prestígio era você ir para lá, fazer um doutorado, um mestrado, e ainda é. Mas é muito significativo o número de convites e de visitas que estamos recebendo no Brasil. Mas agora há também o fluxo no sentido contrário. A London School of Economics (LSE), por exemplo, vai realizar no Brasil o Urban Age, um grande evento já realizado na China e África do Sul…

Quando me convidaram, falei que preferia não participar, já que eles não têm nada a nos ensinar. Aqui é muito mais complicado do que nas cidades dos países desenvolvidos, que podem ser planejados ainda que sob o neoliberalismo, mas com regras sendo seguidas. No Brasil, o planejamento é inviável. Aliás, sempre foi, pelo fato de termos um Estado patrimonialista, privatizado, clientista, que vive ao sabor dos gestores de plantão. No atual período da globalização e do neoliberalismo, ficou muito mais difícil planejar. O Estado brasileiro não tem controle sobre uma grande parcela das cidades brasileiras, principalmente sobre as metrópoles.

Então, não dá para discutir com o mesmo padrão dos países desenvolvidos. Na Inglaterra, em Paris, não existe essa falta de controle, ainda que exista alguma dose de informalidade. Em Nápoles, é como o Rio de Janeiro, a autoridade não entra em determinados bairros sem fazer acordos. Mas trata-se de um nível marginal de informalidade. Aqui não. Temos bairros inteiros ilegais, como na área dos mananciais, em São Paulo. E não é falta de lei nem de plano. As leis existem, mas não são aplicadas.

CC: Dá a impressão de que as grandes metrópoles desenvolvidas têm a aprender com a gente, pois seguem em um processo aparentemente parecido com o nosso.
EM: Teve até um autor estrangeiro que falou isso.

CC: É correto dizer que o processo de formação das metrópoles brasileiras é marcado pela ausência do Estado?
EM: É preciso qualificar melhor essa ausência. Vamos pegar o exemplo de certos bairros em áreas sob proteção ambiental. Há certos casos em que existe a sobreposição de leis federais, estaduais e municipais, como no caso dos mananciais em São Paulo, mas o Estado não está lá, as leis não são aplicadas. Eu estou falando apenas de leis sobre o território, leis ambientais, da questão florestal, das águas. Mas não se aplicam também as demais normas de um certo contrato social. As normas legais para a resolução de um conflito. Em uma favela de Cubatão, sobre as palafitas, não há nem como chegar à última palafita, quanto mais resolver um conflito. Não há corte nem tribunal. Porém, não podemos dizer que o Estado está totalmente ausente. O que existe é uma relação de clientelismo. Ou seja, o Estado chega de forma perversa. Ele chega sob a forma universal da política do favor, por meio das trocas. Você me dá o seu voto e eu te dou a ambulância que você está precisando.

CC: Durante a sua gestão, no Ministério das Cidades, foram criados o Conselho das Cidades e as conferências municipais, estaduais e nacional para discutir os problemas de planejamento urbano. Como você avalia essas duas iniciativas?
EM: Hoje, eu tenho uma visão um tanto contraditória a respeito. De um lado, a criação do ministério é interessante porque a sociedade brasileira demorou a enxergar o problema do Brasil urbano. O País tomou consciência quando contava com algumas das maiores metrópoles do mundo, depois que 80% da população vivia nas cidades. Se você pegar a Constituição federal, em relação às distribuições de competências e poderes, percebe-se que a questão urbana está dividida entre as três esferas de poder, ainda que predominantemente municipal porque o município tem competência para o uso e a ocupação do solo em seus limites.

No caso de uma metrópole, isso é ainda mais complicado… por isso, eu considero a política que começamos a implementar com o Ministério das Cidades uma política interrompida. Existia um caminho para se alcançar uma política metropolitana e um plano nacional de desenvolvimento urbano que foram cortados, isso parou. A Constituição federal atribuiu aos estados competência sobre a governabilidade metropolitana. Não existe um governo metropolitano, porém o arranjo da negociação e da administração foi atribuído a Constituição estadual.

Nesse sentido, a Constituição de 88 foi descentralizadora, liberal, porque cada estado pode chegar a um arranjo próprio. Mas existe uma dificuldade para a elaboração de uma política nacional. Nós estávamos pensando em trabalhar para a construção de acordos, arranjos, normas, talvez uma lei federal. Mas nós cansamos de ver lei não sendo posta em prática, como no caso do Estatuto da Cidade, uma das leis urbanas mais festejadas do mundo. Há muita gente faturando internacionalmente com o Estatuto da Cidade, no entanto, não conseguimos aplicá-lo no Brasil. E isso porque ele é contra o patrimonialismo, que é a essência da sociedade brasileira. Mas a gente estava tentando construir isso, porque em uma região metropolitana há a autonomia dos municípios, reconhecida pela Constituição federal e nesse sentido ela é contraditória.

Agora temos a lei de consórcios públicos, mas não é compulsória. É um esquema bem liberal. Na prática, as regiões metropolitanas estão ao “deus-dará”, do ponto de vista da governança metropolitana. Por causa dessa complexidade jurídica e política. Nas questões ambientais, existem leis estaduais, municipais e federais. Na hora em que o poder de polícia é tão fragmentado, ninguém o exerce. Não há um lugar para a população pobre se instalar na cidade legal. Ou seja, a lei tem pretensões que contrariam a realidade. E a realidade é mais forte. Na hora em que o governo federal é quem define diretrizes de política urbana, mas o governo municipal tem a competência sobre o uso e a ocupação do solo, a efetividade é do governo municipal. E é justamente onde você tem interesses do mercado imobiliário, que não deve ser demonizado. Um amigo meu diz que todo brasileiro vira bicho quando se desvaloriza a sua propriedade. E isso se estende a todas as classes proprietárias. Você vê gente humilde se mexer porque tem uma favela cresce ao lado do pequeno conjunto habitacional. E o motivo não é segurança, mas a desvalorização do imóvel.

CC: Como o ministério tentou enfrentar essa situação?
EM: No governo federal, buscamos construir acordos sobre as regiões metropolitanas, sobre a habitação social, a política fundiária e a aplicação do Estatuto da Cidade. E também discutir o financiamento imobiliário, saneamento, temas que ficaram por muito tempo no limbo. A nossa idéia partia do princípio de que é necessário um esforço de capacitação, de quadros municipais para a modernização dos cadastros e mapas, construção de informações fidedignas para o planejamento. Fomos disseminar cursos, trabalhar com universidades e técnicos das prefeituras. A outra vertente foi a questão da participação dos agentes políticos, daí surgiu a idéia do Conselho da Cidade.

A partir disso, tentamos disseminar a construção de outros conselhos e hoje nós estamos com um número absolutamente assombroso de conselhos municipais espalhados pelo País. A intenção é fazer a sociedade discutir alguma coisa que ela conhece pouco. A sociedade brasileira tem aquilo que eu chamo de analfabetismo urbanístico, conhece pouco o território, como ele é ocupado, quais são as tendências. Por exemplo, a cidade de São Paulo está se esvaziando no centro expandido e crescendo nas áreas de proteção ambiental, algo completamente irracional do ponto de vista do interesse da sociedade. Então, é importante levar o debate para a sociedade.

Acredito em um esforço civilizatório, em um esforço “paulofreiriano”, pedagógico, das pessoas conhecerem a própria realidade para atuarem sobre ela. Os conselhos das cidades e as conferências nacionais reuniram um número muito grande de pessoas, com uma prévia preparação que vem dos municípios, depois dos estados e, em alguns casos, das regiões metropolitanas ou conurbadas. Até porque, quando isso está mais colocado de forma transparente e participativa, é muito mais difícil ter os assaltos aos orçamentos.

CC: No Brasil, a chave do cofre orçamentário fica a cargo do Ministério da Fazenda. Qual o impacto desse controle?
EM: A lei orçamentária, além de no Congresso ser submetida a um esforço de privatização, também convive com a hegemonia das finanças e dos interesses da globalização, herdados do governo de Fernando Henrique Cardoso. Há uma ditadura do Ministério da Fazenda e do Ministério do Planejamento sobre o orçamento. Nos três primeiros anos do governo Lula e durante todo o governo FHC, tornou-se absolutamente inviável qualquer tipo de planejamento do Estado, porque a área econômica contingencia o orçamento no inicio do ano. E, 50% do total é liberado na última semana do último mês do ano, e isso não é para você gastar, mas para ser empenhado. Então metade dos orçamentos é jogada para o ano seguinte. E isso tudo é desconhecido pela sociedade. Elabora-se um orçamento de acordo com o plano plurianual. Aí você passa pela centralização do Ministério da Fazenda, manda para o Congresso, onde passa por coisas inimagináveis… volta para o Executivo e contigencia. Depois sai liberando de acordo com as decisões da Fazenda. Nesse processo, o Secretário do Tesouro manda mais do que qualquer ministro. Daí a idéia de remeter a discussão para uma construção social.

CC: Mas a discussão precisa ser conduzida por critério técnicos, não?
EM: No ministério, criamos uma equipe ligada à academia, à militância social, com experiências anteriores de governo. E todos falavam. É preciso construir uma esfera de participação política e social forte, em que a gente começa a colocar todos esses problemas. Como vamos construir a governança das regiões metropolitanas? Será preciso convencer os prefeitos e as câmaras municipais a abandonar um pouco do seu poder paroquial para colaborar com os outros. Como é que a gente vai fazer uma integração entre a política de habitação e transporte, algo fundamental? Como convencer os ambientalistas de que se não houver política de habitação, nós não vamos salvar o meio ambiente?

Nós tínhamos uma agenda, mas o problema é saber como convencer os outros ministérios, cada um se achando o centro da integração. A Saúde se acha, o Meio Ambiente se acha, o Ministério da Integração Regional se acha, e assim por diante. No inicio do governo Lula, houve uma produção de documentos, planos e políticas, algo impressionante. Há documento e diagnósticos do País que não acabam mais. Mas, na hora de executar, faltou unidade, faltou o Ministério da Fazenda ser um ministério como os outros. Ou faltou discutirmos o padrão de financiamento dos planos. Quando se faz um superávit como o que se faz hoje e se paga 200 bilhões de reais de juros da dívida interna, realmente não há plano que se consiga por em prática. São 200 bilhões de reais para o pagamento dos juros da dívida e 14 bilhões para o Bolsa-Família… E ainda reclamam do Bolsa-Família.

CC: Hoje, qual é sua avaliação de problemáticas iniciativas como os conselhos e conferências?
EM: A idéia era colocar as grandes questões nacionais, com a participação, nos estados e municípios, das categorias profissionais, empresários, movimentos sociais, academia… Ocorre que não são apenas os partidos, nesse período da globalização, nessa revolução dos novos tempos, que se tornaram pragmáticos. Há um fim das utopias e o pragmatismo tomou conta de tudo. Os empresários sempre foram muito pragmáticos, mas os movimentos sociais não eram.

Não digo que todos os movimentos sociais estejam pragmáticos, mas uma parcela, pelo que vi, se acomodou muito bem nessa linha da troca de favores. Não estou falo trocas por favores individuais, mas para movimentos, grupos, específicos. Ainda acho que seja uma coisa possível de mudar.

CC: Mas qual o balanço da atuação do governo em relação às questões urbanas?
EM: A característica marcante é o pragmatismo. É preciso buscar a maioria dentro do Congresso, portanto entrega-se alguns ministérios. Não dá para a gente esconder o motor dessa historia. Todo mundo, quando quer um pedaço do governo para “participar e contribuir”, quer um ministério com recursos. E era esse o caso do Ministério das Cidades.

CC: Hoje convivemos com o otimismo do noticiário econômico e com a degradação das maiores metrópoles do País. Não é um paradoxo?
EM: Ah, mas a situação das nossas metrópoles não interessa para os agentes da globalização, o drama é este. O que temos hoje no Brasil é uma verdadeira revolução. Fomos escolhidos para produzir commodities. Se olharmos para a pauta brasileira de exportação – carne, grãos, minérios e celulose –, veremos uma reedição de uma relação colonial. Estamos produzindo produtos agropecuários, e é isso o que interessa. Não interessa se as favelas estão crescendo. E estão crescendo de uma forma assustadora, principalmente a partir de 1980.

De 1980 até 2003, quando não houve investimento em saneamento e habitação. Retomamos esses investimentos muito recentemente, foi, aliás, parte da nossa política e que pouca gente reconhece. Os bancos não estavam investindo nem aquilo que a lei manda, em financiamento imobiliário, e agora estão. Isso foi possível a partir de uma resolução, porque não é dinheiro publico. Isso não é assunto para a mídia internacional. O fato de nós sermos a bola da vez em commodities interessa. E isso está aumentando a complexidade do padrão de ocupação de terra no Brasil, que já era muito complexo. É a historia de caminharmos para o Norte, depois que o Centro-Oeste foi ocupado. Trata-se de uma expansão do latifúndio, diferente do latifúndio do coronelismo embora eles estejam coexistindo, com um padrão de financiamento completamente novo porque agora vem o capital global financiar. Então você tem uma revolução no território brasileiro, nas regiões e nas cidades.

CC: Na avaliação da senhora o que é o Ministério das Cidades hoje?
EM: Muito do que nós deixamos de programa está sendo levado para frente por causa do PAC. O que realmente tem no ministério de vivo e efetivo é o que está no PAC, que é saneamento e habitação. Não foi possível mexer no transporte, não houve dinheiro. E o transporte brasileiro urbano é uma tragédia, os números são estarrecedores. O número de viagens a pé por falta de dinheiro e por má qualidade nos transportes aumentou. É uma questão absolutamente central nas metrópoles brasileiras. Os governos estaduais não estão interessados no assunto e, em algumas metrópoles, vive-se o caos. Em outros casos, o transporte está na mão do crime organizado, principalmente o transporte interurbano. E a moto-táxi generaliza-se. O ministério das cidades é uma construção interrompida.

Entrevista Carta Capital:
Foto: Camara de Osasco

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Projeto de Kassab autoriza pedágio urbano

Mais uma medida elitista do prefeito do higienismo social. Kassab afirmou e reafirmou várias vezes durante esta campanha eleitoral ser contra o pedágio urbano, mas agora apresentou um projeto de lei à Câmara Municipal que entre outras coisas autoriza a cobrança do pedágio. Contradição? Talvez não, pode ser a pura desfaçatez de um político desequilibrado em busca de votos mas que mantém o norte de administrar para os mais aquinhoados. O pedágio no centro só vai elitizar ainda mais a ocupação urbana, os ricos terão as ruas só pra eles, como querem, como é a marginal pedagiada na região de Barueri/Alfavile, um dos exemplos mais notórios de segregação social em nosso país. Essa vergonha agora poderá ser estendida para as ruas do centro de São Paulo. Veja matéria publicada pela Folha de S. Paulo de hoje.

Prefeito enviou à Câmara proposta para adoção da medida dentro de política de redução de gases do efeito estufa

Texto prevê a cobrança em áreas com trânsito saturado; recursos iriam obrigatoriamente para o transporte público

JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
DA REPORTAGEM LOCAL

O prefeito Gilberto Kassab (DEM) enviou à Câmara um projeto que autoriza a criação de pedágio urbano em São Paulo, medida que vem sendo discutida há anos para tentar minimizar os congestionamentos.

Embora a idéia tenha sido sempre atrelada aos problemas no trânsito, a proposta está no texto que estabelece a Política Municipal de Mudança Climática, uma espécie de plano diretor com regras e metas gerais para diversas áreas, como tráfego, resíduos e construção civil.

A implantação na prática do pedágio urbano, no entanto, dependerá ainda de projeto de lei específico sobre o assunto, no qual seriam estabelecidos itens como locais e valores.

Além do pedágio urbano, a tal Política Municipal de Mudança Climática traz uma série de ações com o objetivo de reduzir ou compensar a emissão de gases que contribuem com o efeito estufa, com ênfase em intervenções na área do transporte.

Outro item do projeto, que começou a tramitar ontem à tarde na Câmara, prevê a “restrição gradativa e progressiva” do uso de automóveis particulares no centro da cidade.

O projeto estipula também incentivos para o uso de energia não poluente em novos prédios e a obrigatoriedade de implantação de coleta seletiva de resíduos (veja quadro).

Os dispositivos que tratam de transportes e de tráfego mexem de forma direta com o dia-a-dia do paulistano. No item mais polêmico, o projeto autoriza o pedágio em áreas com trânsito saturado e obriga o uso dos recursos arrecadados no transporte público.

O texto prevê ainda a criação de faixas exclusivas para carros com duas ou mais pessoas, a fim de estimular o aumento da ocupação dos veículos.

Em julho, em entrevista à Folha, o secretário municipal de Transportes, Alexandre Moraes, disse que Kassab, candidato à reeleição, é contra o pedágio na cidade por considerá-lo “socialmente injusto”.

Questionado ontem sobre a posição do prefeito, o secretário Eduardo Jorge (Meio Ambiente) disse que Kassab é contrário ao pedágio até a “médio prazo”, mas que essa é uma solução que não pode deixar de ser discutida. Jorge liderou a montagem do projeto.

“Vi o que ocorreu com o pedágio em Londres. Não podemos tirar verba da educação para aplicar em transporte”, diz.

Em maio, o líder do prefeito na Câmara, José Police Neto (PSDB), apresentou proposta para cobrar pedágio dentro da cidade, mas só dos veículos não registrados no município e que entram em São Paulo pelo Rodoanel; a idéia não vingou.

Datafolha
Estabelecer o pedágio urbano como política de transporte é algo polêmico em São Paulo. Segundo pesquisa Datafolha de março, a idéia é reprovada por 74% -24% aprovam, 1% é indiferente e 2% não sabem.

Tem defensores, como o urbanista Candido Malta Campos Filho, que vê, mesmo com tarifas baixas, uma forma de arrecadar recursos para investir no transporte coletivo.

Mas enfrenta opiniões contrárias, caso do engenheiro de tráfego Horário Augusto Figueira, para quem a medida é uma forma de “segregação social”. “Se for barato, não reduz o trânsito nem gera arrecadação. Se for caro, os milionários vão adorar, terão vias só para eles.”

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SÃO PAULO CULTURALMENTE SUSTENTÁVEL

Cultura é cultivar. A relação consigo, com os outros, com a natureza.

É o modo de vida da sociedade, da cidade. Assim, a cultura está no meio ambiente, nas relações sociais, na mobilidade do cidadão, na economia, na política, nos valores e na imaginação.

Pensar hoje na cultura é relacioná-la com o desenvolvimento humano e sustentável e não apenas com as políticas do fazer/saber cultural especifico, ligado às artes ou a eventos dos departamentos ou secretarias de cultura. Somente uma noção ampliada e transdisciplinar de cultura pode dar conta dos grandes desafios culturais da cidade. Uma noção de cultura que leve em conta as dinâmicas socioculturais e a rica diversidade da cidade de São Paulo, o fazer/saber e a decisão sobre os fazeres culturais (conselhos, conferências, planos e sistemas) e uma cultura de paz que crie um sentimento de sociabilidade solidária e o diálogo em toda a cidade.

As políticas públicas de cultura deverão ser o resultado de ações, propostas e diretrizes oriundas da sociedade, facilitada pelos governos, e do diálogo intercultural na cidade.

As políticas públicas sustentáveis de cultura devem propor ações de integração em todas as áreas e espaços da cidade: no transporte, na economia, no planejamento urbano, no meio ambiente, na saúde, na segurança alimentar, na comunicação, na educação, no lazer e na cultura.

Entender a cultura como uma fatia da realidade, com pequena influência e orçamento mínimo, é abrir mão da diversidade presente nas culturas da cidade e empobrecer o desenvolvimento humano, a identidade, a qualidade de vida do cidadão. Uma visão fragmentada da cidade pode resultar na construção de uma cidade global sem apropriações e soluções locais e, portanto, sem as cores, os sons, os movimentos, os saberes e os matizes que enriquecem a singularidade da vida humana em São Paulo.

Uma outra idéia de cidade também não pode prescindir do entendimento de que vivemos numa cidade desigual, excludente e com populações vulneráveis, principalmente os mais jovens sujeitos a toda sorte de influências.

Trata-se, portanto, de identificar quem somos, qual a vida que queremos e a nossa contribuição civilizatória.

Tendo em vista estas considerações entendemos que a cultura deve estar no centro das políticas e deve deixar de ser periférica, complementar ou suplementar.

Devemos compreendê-la como um cenário do conhecimento e um cenário do reconhecimento da diversidade, não apenas da informação, do evento e do desconhecimento. A cidade da informação pressupõe construir a cidade do conhecimento que possa favorecer redes de trocas no intuito de implementar a cidadania cultural e humanizar a cidade.

Devemos desenvolver a idéia da cultura como conjunto de iniciativas que atendam demandas de diferentes linguagens e gêneros dos indivíduos criaturas criadoras.

Por tudo isso precisamos compreender uma outra idéia de política cultural firmada na centralidade da cultura, que busque soluções criativas para a vida da cidade a partir de diálogos interculturais.

A cidade e a cultura não podem ser reduzidas a simples espetáculos ou reconfigurar um imaginário arbitrário de cidade.

A cidade é o centro onde cultura acontece e é vivida.

Levando-se em conta o papel que a cidade exerce na definição de políticas públicas num momento de intensas relações globais e desigualdade social é de fundamental importância que a governança atribua à cultura a função crucial.

Não há desenvolvimento econômico sem cultura, nem desenvolvimento humano sem compreender a cultura como direito coletivo e individual.

Desta forma propomos algumas premissas e princípios:
- o cidadão (criatura criadora) é produtor e criador de cultura;
- o diálogo intercultural entre centro e bairro, linguagens, grupos, movimentos, redes e fóruns, idéias e visões plurais da cidade deve orientar a construção da cidade sustentável;
- o respeito à diversidade é essencial para o desenvolvimento humano e cultural;
- a descentralização deve gerar oportunidades culturais e fortalecer a localidade;
- a integração transdisciplinar deve ser a base da ação e das políticas de uma cultura sustentável;
- toda ação cultural deve ter no horizonte a promoção da Cultura de Paz e a convivência entre os diferentes, e destes com a natureza.

Movimento Nossa São Paulo

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“Mapa da Violência” subestima homicídios

Fonte: Folha de S.Paulo

IMLs, peritos e policiais lançam mortes a esclarecer como “intenção
indeterminada” e, muitas vezes, dado não é atualizado após a investigação

Distorção mostra que total de assass