Arquivo de Cinema

A reinvenção do cinema e os jurássicos

A digitalização e a internet podem transformar todo o processo cinematográfico, democratizando a produção e multiplicando as platéias. Mas, agarrada a seu monopólio, a indústria do audiovisual quer manter as tecnologias superadas e a idéia de que arte é para quem pode pagar

Felipe Macedo

O cinema mudou pouco até o advento das tecnologias digitais. O som, a cor, melhoramentos nas películas, na projeção, entre muitos outros, foram aperfeiçoamentos numa tecnologia básica que se consolidou no finalzinho do século 19, na famosa sessão dos irmãos Lumière. O modelo básico de produção, de circulação e de exibição permaneceu o mesmo. Já a digitalização das imagens e sons mudou tudo. Criou um paradigma novo, em que todas as etapas do processo cinematográfico se transformam: a captação, montagem, finalização; a difusão, que já nem precisa ser física; e a exibição, que gera novos formatos, espaços, relações. Essas mudanças implicam também, é obvio, em novas bases e condições econômicas para todas as etapas.

Este período – e processo – de adaptação do paradigma de cinema, que estamos vivendo, tem curiosas similitudes com o que aconteceu na época do surgimento do cinema. Durante um tempo, não se sabia muito bem o que fazer com ele. É certo que aquilo podia dar dinheiro, mas não havia um modelo de negócio (como se diz hoje) estabelecido. Que formato deveria ter o espetáculo; como devia ser negociado, distribuído, exibido? Os primeiros vintes anos do cinema foram de formatação do produto, com o desenvolvimento da linguagem e o estabelecimento de uma narrativa adequada ao consumo. Foi um período de formação de platéias, que evoluíram das feiras e teatros de variedades para as salas fixas proletárias e finalmente para um público mais “respeitável”. Foram anos de uma verdadeira guerra, para que se estabelecesse um modelo de comercialização entre produtores, distribuidores e exibidores.

Hoje há interessantes analogias com aquelas situações. As novas tecnologias criam novas possibilidades, que se tornam formatos, que necessitam de novas formas de distribuição e consumo, engendrando novos mercados, que pedem novos modelos de comercialização. E quanto isto estará mexendo com a linguagem?

O fato é que essa etapa de grandes transformações está estruturada em um modelo. Um modelo que não é muito duradouro, que ainda não tem regras estáveis – apenas entendimentos comerciais mais ou menos provisórios. Uma situação que procura segurança, tão cara aos grandes negócios, mas que de momento trava batalhas complexas e violentas pela repartição dos mercados. Uma realidade que, para a quase totalidade da população e para os produtores e realizadores audiovisuais, é elitista, excludente, unilateral e concentradora.

Retratos da exclusão atual: mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos nunca foram ao cinema. E 92% dos municípios não têm sequer uma sala
Há trinta anos, o Brasil tinha pouco mais da metade da população de hoje e pouco menos de 5 mil salas de cinema. O número de espectadores, por ano, andava em torno de 300 milhões. Nos anos 70 e 80, o modelo foi se transformando, de um cinema barato e popular para o figurino atual. Houve um período de crise aguda, quando o número de salas caiu para cerca de 900 e o público para quase 70 milhões anuais. Foi o fim dos cinemas na grande maioria das cidades e o desaparecimento dos cinemas de bairro.

Depois de uma “recuperação”, sob o novo modelo de consumo de elite, nos multiplexes de xópins, o número de salas chegou a 2.200. No entanto, essas salas são bem menores que as daquele tempo não tão distante (que tinham 500 lugares ou mais) e fica a dúvida de se houve efetivamente um aumento do número de assentos oferecidos. Porque o público cresceu pouco, e tem rondado em torno de 90 milhões de espectadores anuais.

O senso comum diagnostica rapidamente: “é por causa do vídeo, do DVD, da TV a cabo, da banda larga”. No entanto, nos países onde há mais acesso a todos esses recursos audiovisuais, o cinema apresenta números muito mais significativos. Nos EUA, são quase 40 mil salas de cinema. Mesmo no México, com condições mais parecidas e a metade da nossa população, o número de salas de cinema é 40% maior.

Em outras palavras, segundo dados de uma distribuidora estadunidense, mais ou menos 10% da população “vai pelo menos uma vez por ano ao cinema”. Ou seja, 90% não vão nunca. Mais de 60% dos jovens entre 15 e 29 anos, nunca foram ao cinema. Outro corte: 92% dos municípios brasileiros não têm sala de cinema. Aliás, quase a metade dos cinemas (48%) está concentrada nos estados de São Paulo e Rio. Sergipe, com 75 municípios, só tem cinemas em Aracaju; de fato, 17 estados brasileiros têm 15% das salas de cinema do País.

O cinema plural, mundial, é exibido numa rede minúscula, de menos de uma dezena de cidades brasileiras, que contam com um bom “circuito de arte”
Do lado da produção, o Brasil hoje faz quase 70 filmes de longa metragem por ano. No entanto, pelo menos 30% desses filmes simplesmente não são exibidos. Dos que conseguem chegar aos cinemas, quase todos são exibidos em situações muito precárias – de salas, datas – raramente atingindo números minimamente significativos. Explicando melhor: os filmes brasileiros ocupam cerca de 10% do mercado de exibição, ou seja, atingem em torno de 9 milhões de espectadores por ano. Desse público, uns dois terços concentra-se em dois ou três filmes (geralmente os que têm participação financeira de distribuidoras hollywoodianas, ou estão associados a empresas de comunicação), conforme o ano. E os outros 30, 40 filmes “partilham” o restante do público. Resumindo: 10% de um mercado que mal atinge 10% da população, significa que o cinema nacional se relaciona com menos de 1% dos brasileiros.

Que não se confunda esta constatação com uma forma qualquer de xenofobia. O cinema mundial — quer dizer, europeu, asiático, latino-americano, e mesmo o dos Estados Unidos, quando não é produto das corporações daquele bairro famoso de Los Angeles — enfrenta uma situação ainda pior. Na verdade é o concorrente, por excelência, do cinema brasileiro na mesma estreita faixa de 10% do mercado. O cinema plural, mundial, é geralmente exibido num circuito ainda mais limitado, de menos de uma dezena de cidades brasileiras, que contam com um bom “circuito de arte”. No ano passado, durante várias semanas, dois títulos apenas ocuparam mais de 70% de todas as salas do País. Logo em seguida esse número passou para três títulos, em cerca de 80% dos cinemas. Ou seja, mesmo com uma arquitetura multiplex, a exibição é cada vez mais simplex, concentrada. Hoje entra no Brasil um terço do número de filmes que vinha nos anos 80, inclusive norte-americanos. E 85% das bilheterias de cinema no Brasil estão concentrados em três distribuidoras de Hollywood.

As tecnologias digitais, associadas aos recursos propiciados pela internet, criam condições para uma democratização muito grande da produção. A distribuição elimina as cópias em película — que custam milhares de reais cada uma — e a própria instalação de salas e equipamentos de projeção diminuem muito de custo. Tudo aponta para a oportunidade e a necessidade de um modelo de circulação dos produtos audiovisuais em bases diferentes das atuais e, principalmente, com ingressos a preços compatíveis com o poder aquisitivo da população. É como um novo parto do cinema, na virada de outro século.

No entanto, na transição de paradigmas, a chamada indústria do audiovisual tem procurado garantir um controle exclusivo do processo, garantindo suas “margens” através da manutenção de tecnologias superadas, pela restrição do acesso e com a preservação de uma situação geral de monopólio. Desta forma, o modelo não serve para o público, não atende às necessidades dos realizadores e impede uma verdadeira integração cultural com o mundo.

Le Monde diplomatic

Comentários

"Primeira MOSTRA LUTA!" de Campinas

http://camaracom.com.br/mostraluta/

No Brasil, seis famílias (Civita, Marinho, Frias, Saad, Abravanel e Sirotsky) "produzem" praticamente toda a informação que chega aos 184 milhões de habitantes. Quase sem fiscalização, concentram em suas mãos um poder gigantesco de manipulação, contrariando a legislação federal. Para garantir seus lucros e os de seus investidores, essas famílias não hesitam em criminalizar as lutas dos movimentos sociais e distorcer a realidade vivida pelos trabalhadores. Em Campinas, não é diferente: a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) monopoliza os meios impressos na cidade e região (Correio Popular, Diário do Povo, Notícia Já, Gazeta do Cambuí, Gazeta de Piracicaba, Gazeta de Ribeirão). É com esse poder que (de)formam a opinião pública,  tratando, em geral, as manifestações populares como casos de polícia.

A "Primeira MOSTRA LUTA!" surge para afirmar um dos direitos mais básicos do ser humano: o direito à comunicação. De 1 a 6 de dezembro, em Campinas, muitos sem-voz falarão, através de vídeos, sobre sua realidade, sonhos e lutas: a luta dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-trabalho, a luta contra a privatização das nossas riquezas, pela diversidade sexual e pelo acesso à arte e cultura, a luta operária e estudantil, a luta antimanicomial, enfim, a luta geral pela sobrevivência. Esperamos que a população de Campinas não se deixe levar pelo silêncio enorme que nos engole e venha ver, com seus próprios olhos, e discutir, com sua própria boca e cabeça, a realidade que não passa na TV.

Programaçao:
Local: Museu da Imagem e do Som - Palácio dos Azulejos
Rua Regente Feijó, 859 - Centro,  Campinas - SP
telefone: (19) 32367851

Segunda 1/dez - 19hs
Companheiro Arcênio. Presente!

Cilla Amaral e Rafael Prata (TV COT), 2003 - 40′
O vídeo pincela a história do movimento dos trabalhadores de São Paulo da década de 60 aos anos 2000 através da biografia de Arcênio Rodrigues da Silva, um dos fundadores do Movimento Metalúrgico de SP (Momsp).

Lutar Sempre! – 5° Congresso Nacional do MST
Brigada de Audiovisual da Via Campesina, 2007 - 29′
O documentário "Lutar Sempre! – 5° Congresso Nacional do MST" pretende ir além do registro daquele que foi considerado o maior congresso de camponeses da história na América Latina, reunindo mais de 17.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra de todo o Brasil e convidados. Tem como objetivo ser um material formativo que discuta a situação atual das lutas sociais e a construção de um projeto popular.

Terça 2/dez - 19hs
JanaJana
Identidade, 2007 - 11′46"
Jana e Jana são a mesma pessoa, respondendo às mesmas perguntas, em duas entrevistas gravadas em um intervalo de poucas semanas. Estas duas Janaínas, duas travestis, que são uma, recontam sua história com o ensino formal. Sutilmente, cada narração transfigura o passado, reforçando ou enfraquecendo cada ponto do que é recontado. 

Movimento Passe-Livre Presente!
Denis Forigo e Jefferson Vasques (CAMARÁ), 2005 - 17′
Este vídeo retrata as movimentações do Movimento Passe-Livre em Campinas, em 2005, mostrando sua organização, suas manifestações e a repressão da mídia, polícia e governo.

Do Corpo à Palavra
c. e. m. – Centro em Movimento (Lisboa/Portugal), 2007 - 48′
Um grupo de mulheres com histórias de vida que passam pela prostituição de rua, na cidade de Lisboa, desenvolve um trabalho baseado no corpo e na dança, no contexto de um programa de reintegração social. No âmbito deste programa, participam num laboratório de cinema documental com o objetivo de realizarem um filme coletivo. No decorrer do processo surge a urgência de abordar o tema da prostituição e o direito à maternidade. No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o grupo organiza um evento público na Igreja dos Anjos, onde é apresentado um vídeo criado por elas, "Mães de Corpo Inteiro", seguido de um debate. O processo de trabalho, momentos do laboratório de dança e de cinema, a preparação do evento, os conflitos, as escolhas, e a reflexão sobre o tema da maternidade, até chegar ao dia da exibição do vídeo, são o fio condutor deste documentário. Uma reflexão sobre a vida deste grupo de mulheres, as suas histórias pessoais, lutas e conquistas.

Quarta 3/dez - 19hs
Loucos por Jornalismo
Cleyton A Jacintho, Andreia Durta e Lucimeire. 2008 -  20′ 
O vídeodocumentário "Loucos por Jornalismo" tem como objetivo mostrar como a comunicação, em especial o jornalismo, pode ser um importante instrumento para inclusão social. O programa é elaborado desde a pauta, produção, edição e locução pelos usuários do Cândido Ferreira. Em cinco anos de existência, o programa tem se revelado fundamental na recuperação da cidadania, auto-estima e inclusão social destas pessoas. Não pretendemos com este trabalho simplificar o processo de recuperação destas pessoas, mas enfocar, em especial, os resultados alcançados pela oficina de comunicação, uma vez que ela está inserida dentro de um contexto muito mais amplo, que é a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial.

Eles não vão a Daslu
Vinicius Zanotti, 2008 - 19′46"
Júlio e Eunice são catadores de recicláveis e vivem marginalizados no sistema capitalista. "Eles não vão a Daslu" traz os conflitos, alegrias e angustias de 1 dia de suas vidas.

Frei Tito
Grupo Risco, 2008 - 20′13"
O vídeo relata as duas semanas da ocupação Frei Tito em Campinas, desde a ocupação do terreno por 3000 pessoas até o despejo, entre março e julho de 2008.

Quinta 4/dez - 19hs
O Protesto
Identidade, 2008 - 7′15"
Em uma noite de sábado, em fevereiro de 2008, a militância LGTTB contabilizou seis assassinatos de travestis em todo o país. Uma delas foi morta em Campinas, com um tiro no rosto, em seu próprio apartamento. No final de semana seguinte, um grupo de ativistas indignados, vestidos de preto, toma a principal rua do centro da cidade. Dentre eles, algumas travestis carregando junto ao peito símbolos que intencionam mostrar às milhares de pessoas que faziam compras e passeavam que elas poderiam ser os próximos alvos da violência.

Excluídos
Video Kulatra, 2007 - 20′
"Excluídos" é um vídeo-manifesto produzido a partir de imagens feitas em Campinas/SP no Grito dos ExcluÌdos, 2007. Tem como objetivo, ao contrário da imprensa entorpecente, demonstrar parte da atual realidade brasileira. O vídeo, no qual a população expressa por si o quanto está farta deste governo discriminatório e opressor, provoca questinamentos acerca da idéia de exclusão, e os conflitos gerados quando a polícia intervém para obrigar a submissão e a exploração.
Sapphadas (lançamento!)
CAMARÁ, 2008 - 30′
"Sapphadas" é resultado do curso "Introdução ao vídeo-documentário como instrumento de comunicação popular" oferecido em parceria com o MO.LE.CA (Movimento Lésbico de Campinas). "Sapphadas" retrata a vida de dois casais de lésbicas: como se descobriram lésbicas, como se conheceram, as dificuldades do relacionamento e os desafios na luta pela afirmação de sua orientação sexual. 

Sexta 5/dez - 19hs
Em defesa da Previdência Pública
Denise Simeão (TV COT), 2007 - 8′
Uma exposição sobre os principais pontos da Reforma da Previdência no governo Lula e suas conseqüências para os trabalhadores.

Deus e o Diabo nas ondas do AR
Júlio Matos (Rádio Muda), 2002 - 16′
Curta que conta um pouco da vivência da Rádio Muda, um Rádio Livre que transmite em 105.7FM a mais de 15 anos.

Manifesto da TV Piolho + 1 programa da tv
Tv Piolho, 2006 -  2′(manifesto); 6′(programa)
Manifesto que marca o início de uma das primeiras, se não a primeira, TV Livre do Brasil - a TV Piolho, que transmite no canal 20 UHF. Um marco na história da comunicação livre.

Chamada a cobrar - 10 anos de privatização do CPqD/Sistema Telebrás (lançamento!)
Cristina Beskow (CAMARÁ e SINTPq), 2008 - 20′
O vídeo-documentário faz uma reflexão sobre a privatização do CPqD/Sistema Telebrás e as consequências deste processo para a população brasileira.

Sábado 6/dez
Sessão das 16hs

Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?
Grupo Risco, 2005 - 12′37"
Imagens do despejo violento da ocupação "Plínio Ramos", prédio ocupado no centro de São Paulo, em agosto de 2005. Capturado com cameras fotograficas digitais.

Prestes (lançamento!)
Grupo Risco, 2007 - 30′14"
Documentário com entrevistas a moradores e imagens da maior ocupação vertical da América Latina, 2 meses antes de sua reintegração de posse. A ocupação, organizada pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), localiza-se na região da Luz, centro da cidade de São Paulo.

Ninguém leva nossa casa! (lançamento!)
Sérgio Souza, Ike banto e Christhian Osyo, 2008 - 17′37"
No interior de um loteamento na região sudoeste de Campinas, grupos culturais e a comunidade estão organizados para garantir que o casarão histórico da Fazenda Roseira não seja demolido por seu antigo proprietário e que o espaço seja transformado em Casa de cultura, uma historia de luta da periferia consciente contra a especulação imobiliária, e a omissão do poder publico.

Sessão das 19:30hs
Flaskô: Fábrica sob o controle dos trabalhadores
Rafael Prata (TV COT), 2003 - 20′
A política ecônomica nas últimas décadas levou ao fechamento de muitas empresas, atraso de salários e demissões. A CIPLA e a INTERFIBRA (SC) e a FLASKÔ (Sumaré/SP) são exemplos disso. Só que nesses casos a resposta dos trabalhadores foi ocupar e controlar as fábricas, em defesa dos direitos e dos empregos.

Nem um minuto de silêncio
Brigada de Audiovisual da Via Campesina, 2007 - 23′
O documentário Nem um minuto de Silêncio: Fora Syngenta do Brasil foi produzido de forma independente pela Brigada de Audiovisual da Via Campesina Brasil. Camponeses e camponesas, acampados e acampadas, assentados e assentados, todos moradores da periferia rural brasileira, começam a se organizar para produzir um contraponto audiovisual à deturpação e violência engendrada pelas transnacionais e pelos representantes do agronegócio. Uma violência que é legitimada e defendida pela grande mídia - através de suas novelas e telejornais - e por cineastas subjugados à lógica comercial. 
O presente documentário analisa os acontecimentos que levaram ao assassinato - em outubro de 2007 - do camponês Valmir Mota Keno no interior do estado do Paraná, por uma milícia armada contratada pela transnacional Syngenta Seeds. Keno era integrante do MST e já vinha sofrendo ameaças de morte. O documentário pretende aprofundar a discussão sobre a questão agrária brasileira, contrapondo o modelo de desenvolvimento voltado para a produção de transgênicos e liderado por grandes empresas transnacionais - que não descartam a utilização da violência para alcançar seus objetivos -, ao modelo que busca o fortalecimento da agricultura familiar voltado para a garantia da soberania alimentar de todo o povo brasileiro. A  Syngenta é uma transnacional suiça, que dentre outras atividades ilegais, mantinha um campo de testes com transgênicos dentro da faixa de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu, patrimônio natural da humanidade.

2 meses e 23 minutos
Rogério Pixote e Fábio Ranzani (MTST), 2007 - 23′
Sob a perspectiva das mulheres e crianças, a luta pelo direito à moradia de 5 mil pessoas organizadas pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-teto) no acampamento João Cândido.

Para informações detalhadas acesse o site do evento: http://camaracom.com.br/mostraluta/

Comentários

Fascismo no cinema

A notícia de que "Tropa de Elite" ganhou o prestigiado prêmio "Urso de Ouro" do Festival Internacional de Berlim foi recebida com deleite no Brasil. O pTropa de Eliteaís deveria se envergonhar.
"Tropa de Elite" tornou-se o filme brasileiro mais popular de todos os tempos quando foi liberado ano passado. Estima-se que 11 milhões de pessoas assistiram às cópias piratas do filme antes do seu lançamento oficial, tendo quebrado recorde de bilheteria quando chegou aos cinemas.
O filme segue o sucesso de "Cidade de Deus", que conta a árida história de como as favelas em volta do Rio de Janeiro gradualmente caíram nas mãos dos traficantes de drogas. "Tropa de Elite" se baseia no mesmo tema, tendo início, cronologicamente, de onde "Cidade de Deus" terminou. A cena de abertura mostra um baile funk no qual adolescentes narcotraficantes dançam ao mesmo tempo em que abertamente sacodem suas armas automáticas. Dois policiais à paisana tentam armar uma cilada, que não sai como esperado. Eles acabam encurralados na favela, sendo resgatados com a chegada do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro), comumente conhecido como "Tropa de Elite".
O filme é visualmente impactante e a trilha sonora contribui para o drama, mas a trama é deplorável e os diálogos são fracos. O enredo se desenvolve em torno do destino de três homens: Capitão Nascimento, o chefe do Bope, e dois policiais que ele resgata, Neto e Matias.
Nascimento quer abandonar a polícia, pois sua esposa está grávida, mas primeiro ele deve encontrar alguém que o substitua, sendo este evidentemente o modo como o sistema de recrutamento da polícia brasileira opera. Neto e Matias decidem entrar para o Bope e se submetem ao processo de recrutamento, que envolve, principalmente, duro exercício físico, porque, como nos é dito, essa é uma boa maneira de arrancar-se a corrupção pela raiz. Matias, que é negro, freqüenta a faculdade onde seus colegas, universitários brancos, sentados em círculo, discutem Foucault e condenam a brutalidade da polícia. Poderiam os clichês serem mais banais?
Alguns dos estudantes, incluindo a namorada de Matias, estão envolvidos em um projeto social na favela, mas parece que não fazem muito além de fumarem maconha, fornecida por um traficante local. Eles são posteriormente assassinados pelos mesmos traficantes, que também mataram Neto e o desenlace sangrento do filme ocorre à medida que o Bope entra na favela atirando na busca dos assassinos.
O filme causou polêmica porque mostrou a polícia torturando mulheres e crianças para obter informações sobre o líder da quadrilha. Aparentemente, enquanto estava ocorrendo a filmagem no set, um oficial do Bope interrompeu os atores e lhes disse: "Olha, você está fazendo tudo errado. Você deve segurar o saco plástico assim, para que não fique nenhuma marca". Nos cinemas Brasil afora, as pessoas gritaram e aplaudiram durante a cena e o capitão Nascimento fictício, que é baseado em personagem real, foi amplamente aclamado como um herói nacional".
Tropa de elite 1 Ninguém nega a realidade na qual "Tropa de Elite" é baseado. Favelas como Complexo do Alemão parecem realmente zonas de guerra, onde a polícia é considerada um exército de ocupação. Mas o Brasil é também o país mais desigual do mundo e, ao ignorar as razões sociais da violência, o filme enaltece uma estratégia que por si só demonstra seu fracasso. Um governador populista do Rio uma vez ofereceu pagamento em espécie aos policiais que matassem criminosos, o famoso "bônus do oeste selvagem", mas a taxa de crimes continuou a aumentar.
Aproximadamente meio milhão de brasileiros foram assassinados na última década, o que torna o país mais violento do que a maioria das zonas de guerra. Os brasileiros estão zangados e com medo do que está acontecendo em seu país, procurando desesperadamente por soluções.
Em um determinado ponto no filme, Matias confronta um grupo de pessoas em passeata protestando contra a morte de seus colegas universitários assassinados, acusando-os de só se importarem quando a violência atinge a classe média. Demonstrações como estas são comumente organizadas por ONGs como "Eu sou da Paz", que também incrementa programas sociais em favelas. Uma série de estudos tem demonstrado que estes programas, que o filme extrapola ao difamá-los, têm obtido sucesso na redução dos crimes.
"Tropa de Elite" acusa a classe média brasileira de alimentar a onda de crimes através do consumo de drogas, o que é provavelmente verdade, mas sua mensagem excessivamente política é de cinismo e desespero. As cenas de tortura e violência não são apenas chocantes por causa do seu impacto, mas também porque desumanizam os moradores das favelas a quem são infligidas.
A violência no Brasil é um sintoma de um largo conjunto de problemas sociais, em relação aos quais os brasileiros devem assumir sua responsabilidade. A maioria da classe média brasileira nunca pôs o pé numa favela e fala sobre elas como se fossem outro país. Filmes como "Tropa de Elite" ajudam a mantê-la nessa alienação.

(*) Artigo publicado originalmente no jornal inglês The Guardian em 18/02/2008, por ocasião da premiação do filme "Tropa de Elite" no Festival de Berlim. Tradução de João Paulo Gondim Cardoso, colaborador do Fazendo Media. Clique aqui para ler o original.

Comentários

Ensaio sobre a Cegueira diante à crise

Quem assistir ao filme dificilmente resistirá à analogia. A crise iniciada nos EUA, que aos poucos contamina o resto do planeta, é o Ensaio sobre a Cegueira de quem vive sob a supremacia dos mercados desregulados no alvorecer do século 21

15/10/2008

Saul Leblon

No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistêmica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência econômica, mas sim da virtual incapacidade política de seus protagonistas para acionar uma mudança de rumo, comportando-se cada qual como parte indissociável da engrenagem em pane. São tempos trágicos nesse sentido.

Numa das cenas do filme Ensaio sobre a Cegueira, adaptação de Fernando Meirelles para o romance de Saramago, o personagem pergunta à esposa cuja visão subsiste na solidão de um mundo que perdeu a capacidade de enxergar e se auto-gerir: “Há sinais de governo?”.

A resposta é dada pelo angustiante passeio da câmera nas ruas de uma metrópole onde nada funciona. O que as lentes mostram são bandos esfarrapados e famintos vagando sem destino. Modalidades previsíveis da barbárie preenchem um hiato em que o Estado desmoronou e os valores da convivência humana se eclipsaram. A auto-regulação dos mercados não funcionou.

Quem assistir ao filme nesses dias de convulsão financeira dificilmente resistirá à analogia. A crise iniciada nos EUA, que aos poucos contamina o resto do planeta, é o Ensaio sobre a Cegueira de quem vive sob a supremacia dos mercados desregulados no alvorecer do século 21.

Da esquerda à direita, dos trabalhadores aos banqueiros, passando por governantes, economistas e líderes políticos quase ninguém consegue enxergar a real extensão de um colapso que se arrasta desde agosto de 2007. Num crescendo ele se derrama de um setor a outro, salta de país a país como uma fatalidade intangível e ingovernável cuja visita cabe apenas aguardar.

Mais inquietante, sobretudo, é a invisibilidade de alternativas que possam conduzir a sociedade a uma nova visão da economia e do seu desenvolvimento, escapando à propagação inexorável de solavancos que eclodem em intervalos cada vez menores, com virulência cada vez maior (1987-1988-2001-2003-2007-2008).

Pavimentando o caminho

Como na alegoria do escritor português, o que se “enxerga” por entre um noticiário errático são figuras trôpegas de uma tragédia grega. Cada passo hesitante que os governantes dão para impedir que ela se espalhe e se cumpra é mais um passo que pavimenta o caminho para que ela avance. A cegueira é a jaula ideológica construída ao longo de décadas de recuos e concessões aos mercados e a seus dogmas.

Múltiplos de 100 bilhões de dólares ocupam as manchetes há semanas anunciando a solução definitiva para o impasse. No dia seguinte uma nova quebra sinaliza a dinâmica de um colapso subterrâneo. O que se esfumou foi o indispensável consenso que sustenta a fixação dos valores de troca no coração do sistema. Os mercados financeiros não sabem, ou escondem, quanto valem os ativos podres inscritos em seu metabolismo. A segurança que sustenta e ordena a arquitetura do valor de troca no capitalismo patina perigosamente. Bilhões e trilhões se equivalem e nada detém o esfarelamento em marcha.

No filme de Fernando Meirelles, um grupo de cegos envereda pelo mesmo labirinto quando assume o poder num campo de concentração. Em princípio mimetizam a ordem anterior exigindo dinheiro em troca da comida escassa. Depois, pragmáticos, adotam o valor de uso: “Enviem as mulheres”.

Às armas, se preciso for

O que se assiste hoje é um movimento de fuga para a segurança cuja última trincheira, antes de a vida imitar a arte, são os títulos do Tesouro estadunidense. Não importa que os treasures ofereçam rendimento quase negativo nessa hora. O que a riqueza fiduciária mira é um abrigo de poder. Busca-se o derradeiro oásis capaz de legitimar, militarmente se preciso for, a suposta equivalência entre a riqueza fictícia e fatias da riqueza real disponíveis na sociedade – ouro, máquinas, terras, petróleo, alimentos, armas…

A inexistência de forças para impor uma outra regulação empresta coerência à intuição dos detentores da riqueza. Ao contrário da parábola de Saramago, o capitalismo real não se auto-destrói. Assim como não existe auto-regulação não há auto-revolução do capital. Lênin deduziu que política é economia concentrada. Mas se ela não atingir a densidade necessária à esquerda, a resposta virá da direita como de fato ocorre nesse momento.

Na crise de 29, quando a Bolsa derreteu e o desemprego atingiu um em cada quatro estadunidenses (em 1933, a taxa de desemprego foi de 24,9%), a relação de forças existente no mundo era bem diferente da atual. Doze anos antes do crack, uma revolução operária instalou o primeiro governo comunista da história numa das maiores nações do planeta. A Alemanha drasticamente atingida pela confluência entre a crise internacional e as reparações da Primeira Guerra, também viu eclodir um poderoso movimento socialista que quase tomou o poder no país. Seu fracasso levou à ascensão expansionista do nazismo.

Favela em Washington

O economista Paul Krugmann [que, no dia 13, foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia] lembra ainda que os desempregados e veteranos da Primeira Guerra Mundial ergueram uma favela na principal avenida de Washington durante a crise. Famílias famintas, desempregados rurais e urbanos entraram em conflito com o Exército estadunidense nas ruas de cidades em vários pontos do país. O PIB recuou 27% entre 1929 e 1933.
Nove mil bancos quebraram. A taxa de desemprego só retornaria a um dígito com o esforço de mobilização provocado pela Segunda Guerra, em 1941. Foi um tempo de miséria e simultâneo avanço social, com expansão do sindicalismo e das idéias socialistas em todo o mundo. Foi essa relação de forças que impôs à crise de 29 um New Deal feito de uma dura regulação estatal dos mercados financeiros, associada a frentes de trabalho, bônus de alimentos, refinanciamento de moradias e investimento público maciço em infra-estrutura, habitação e agricultura. É a ausência dessa mesma correlação que dá ao atual secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, a liberdade de um bombeiro vesgo, cuja mangueira só enxerga a cobertura do edifício e ignora as chamas que devoram os andares debaixo.

A história destes dias é a história de uma agonia repetidas vezes anunciadas nos últimos anos. Mas a agonia ainda não é a morte para um neoliberalismo comatoso e cego. Vale relembrar a lição de Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não consegue nascer. Nesse interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece”. (IPS/Envolverde)

Saul Leblon é jornalista.

Comentários

Viagem com o Submarino Vermelho

Entrevista com o grupo de jovens cineastas que aceitou organizar uma mostra sobre cinema político no 19º Festival de Curtas de São Paulo. Em debate, a importância de 1968, quarenta anos depois, as novas relações entre arte e política e a atitude dos que decidem agir em vez de mergulhar na militância burocrática

(05/10/2008)

Terminou em 29 de agosto o 19º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, realizado em diversas salas da cidade, que reuniram grande público na maioria de suas sessões — muitas delas tiveram ingressos esgotados. A programação do festival foi dividida em diferentes mostras, como as dedicadas a filmes brasileiros, latinos, internacionais. Um dos principais destaques foi a mostra de cinema político Carta Branca ao Submarino Vermelho, organizado pelo coletivo Submarino Vermelho, que se propôs a herculana tarefa de selecionar curtas políticos de todos os tempos e lugares. Le Monde Diplomatique – Brasil esteve presente no festival e procurou entender as relações que se delinearam entre cinema e política.

Nada a declarar
Na sessão [1] marcada pela presença de filmes sobre movimentos negros, o público, formado em sua maioria por brancos, teve seu momento de maior manifestação — gargalhadas e aplausos — durante a exibição do filme Nada a declarar, de Gustavo Acioli. Nele, o “personagem” entrevistado apresenta um discurso bem elaborado, pautado por atraentes clichês e armadilhas retóricas. O texto tem a ambigüidade de ser uma crítica sarcástica a uma classe intelectual bastante propensa à inação ou à própria justificativa retórica para sua inércia. Como Desnoes [2] nos lembrou, ao falar de Memórias do Subdesenvolvimento, a longevidade e a riqueza de uma obra residem justamente na ambigüidade, na polissemia. Neste sentido, será bastante eloqüente nos determos sobre armadilhas retóricas e reação do público, pois certamente trazem à tona as contradições próprias de uma geração que não aceita o rótulo de “geração simpática” e decide realizar uma mostra chamada Carta Branca ao Submarino Vermelho, dentro do Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo.

Esta mostra, cuja proposta foi realizar uma ponte entre o cinema político dos anos 60 e o cinema militante dos dias de hoje, foi um dos destaques do festival, que este ano chegou a sua 19ª edição. O coletivo Submarino Vermelho surgiu a partir do convite que a organizadora do festival, Zita Carvalhosa, fez ao estudante do audiovisual da USP, Rica Saito, após assistir seu filme Procura-se durante o festival É tudo Verdade deste ano. Procura-se, um documentário que recorre a diversos cânones do gênero para contar a vida do “desconhecido” Mário Rocha, pode ser visto como um interessante questionamento sobre a própria linguagem do documentário — de seus mecanismos próprios de legitimação. Por meio da desconstrução do mito de 68, ao qual nossas gerações parecem estar amarradas, Saito afirma que procurava, com o filme, pensar como a juventude de hoje se insere no mundo e encontra suas próprias formas de ação política.

Por ora, retornemos ao filme de Acioli. “Considero um desrespeito, uma afronta, falar de fome para quem tem fome, ou em nome dos que têm fome. Eu não vou falar de revolta com a polícia, porque a polícia não me pára, não me revista, não me bate. Quando um policial tem que falar comigo, ele me chama de doutor, entendeu?”, diz o personagem. No filme, este é um artista, realizador de documentários, que concede uma entrevista — feita nos moldes de um talkshow —, na qual explica porque não tem nada a declarar. Sua fala baseia-se principalmente nessa postura aparentemente respeitosa que resgata o tema da indignidade de se falar em nome dos outros. A franqueza do personagem, beirando confissões próprias de um exame de consciência que oscila entre avalizar seu heroísmo e pôr a nu todas suas contradições, opõe-se às expressões da jornalista que, mesmo pasma, não lhe contrapõe qualquer argumento — talvez convencida de que seria um esforço vão.

Até que ponto, ao querer falar em defesa dos outros, dos menos favorecidos, não estamos colocando nossas palavras em suas bocas, fabricando seus discursos e uma vez mais domesticando sua revolta? Até que ponto, essa mesma pergunta sobre as conseqüências do “lugar de onde se fala” não é simultaneamente um envolvente convite para a inércia? Essas contradições multiplicam-se e emaranham-se em um filme simples feito apenas com uma câmera fixa, que registra o discurso do entrevistado, com ocasionais cortes para a jornalista. Tais contradições encontram eco na platéia, que oscila entre risos de quem reconhece um espelho renegado e uma certa indignação. Que lugar político é este, que é preciso inventar? Eles, os que sofrem, que se articulem e protestem; nós, privilegiados, comemos nosso queijo e tomamos nosso vinho e não temos “nada a declarar”.

Além de exortar de modo tão sagaz à inação, tal fala oculta (ou, antes, revela) outro aspecto significativo no que diz respeito à perversidade de um sistema que se infiltra nos mais recônditos capilares das relações humanas. Dizer “eu não sofro” coloca a priori toda uma visão do político, que tornou a política o cenário onde se dão as lutas em defesa de direitos individuais e particulares demais para se tornarem lutas políticas comuns. Imaginar que se possa viver em uma sociedade estruturada na desigualdade gritante, onde há miséria e sofrimento, sem que isso implique nosso sofrimento individual, conota, de imediato, uma postura de apatia em relação aos processos de dominação e exploração do qual fazemos parte. Mesmo que rejeitássemos a questão do sofrimento da própria classe média, oprimida em sua posição de kapo, não poderíamos descartar seu papel de carrasco em tal processo. Se a indignidade de falar em nome dos outros é inapelável, não menos indigno é omitir-se e não se perceber como parte de um determinado processo sóciometabólico. Talvez o ponto seja falar em nome próprio ao perceber-se parte deste processo. Falar a partir de um lugar que se reconhece como tal. Como sugeria Padre Jaime, enfim, “a cabeça pensa onde os pés pisam”.

Livros e armas
Outro momento de grande reverberação na sala ocorreu durante a exibição do filme Vaguei os livros, me sujei com a merda toda, de Akins Kinte, Mateus Subverso e Allan da Rosa. Em um dos testemunhos, uma jovem conta que sua família não era muito preocupada com a questão do negro no Brasil, até o dia em que ela foi parar no hospital após tentar clarear seus olhos com sabão em pó e sua pele com água sanitária. O filme procura enfatizar como a dominação sobre o negro ocorre não apenas pela força, mas também pela apropriação de sua história. A história oficial, tal qual é narrada pelo colonizador, destina ao negro um papel em que este só pode reconhecer-se em uma condição de inferioridade. Daí a importância estratégica de reconstruir sua própria história, de uma ação afirmativa que permita criar uma identidade a partir da própria literatura negra — isto é, a importância de dominar os meios de produção cultural, especialmente a escrita. Os organizadores da mostra realçam, que, a princípio, chegaram a pensar se tais questões não teriam um caráter secundário em relação à idéia de uma luta maior. Mas ao ver esses filmes, entenderam a relevância de sua temática e a dificuldade em desligar um ato de resistência das demandas imediatas.

O choque maior, porém, estaria por vir, como conta Paulinho, um dos integrantes do coletivo. Durante a mostra, estava prevista a realização de um ato no DOI-CODI, um dos maiores centros de tortura da ditadura no Brasil. Por um remanejamento na programação do festival, porém, o ato coincidiria com uma performance dos realizadores do filme chamada Versos Pretos. Para resolver a questão, o coletivo os procurou para trocar o horário. A resposta, segundo Paulinho, foi muito impactante: “Tudo bem, nós já estamos começando a nos acostumar com esses 508 anos de palavra metamorfoseada”. Essa resposta conotava um ceticismo em relação às próprias intenções do coletivo, como se rememorar o que ocorreu no DOI-CODI fosse algo que não dissesse respeito ao próprio movimento negro. “Em que momento na história ocorreu essa fissura?” – pergunta-se Paulinho – em que já não é mais possível pensar numa luta que se articula para além das diferenças?

Parece ser diante de todas essas questões e tensões que o coletivo Submarino Vermelho formou-se para realizar a mostra de cinema político dentro do festival. Um mostra que não se contenta em ser apenas mais uma mostra de cinema político, pois deseja ir além da tela, tirar o espectador da passiva posição de contemplação. Nesse sentido, a importância de se pensar 68, não para ratificar o mito, mas para desconstruí-lo e tornar vivo aquilo que em nós persiste. Não é a perpetuação de um mito, mas sim a continuidade de uma luta por parte de uma geração que se sente obrigada a combater o rótulo de geração apática ou, ainda pior, de “geração simpática”. A pergunta, porém, que retumba inquieta para os próprios organizadores é, justamente, como fazer isso.

Como não deixar que seja “apenas mais uma mostra de um bando de estudantes”? Eles assumem que criar espaços de resistência e encontrar o sentido político da arte em um sistema capaz de absorver e digerir tudo é algo difícil. Especialmente se lembrarmos a crítica que o coletivo enfrentou de outros grupos, por aceitar fazer parte de um festival, que há 19 anos, conta com o patrocínio de uma grande empresa estatal. Mas, se algum dia “como fazer isso” foi uma questão, agora, optaram pela ação — por fazer e usar esse espaço que se abre, para promover encontros. Entrar pela brecha que desponta, para então transformar. Fazer do cinema não só o templo moderno da contemplação, mas o fórum mesmo de encontro entre os grupos realizadores e o próprio público, onde se possam dar os debates acerca das demandas específicas. Um encontro que permitiu, por exemplo, que o grupo Favela Atitude trouxesse à luz uma versão que a mídia oficial recusou-se a mostrar, sobre a ocupação da favela do Real Parque, em São Paulo. O evento ficou largamente conhecido como o conflito que paralisou o trânsito na Marginal do Pinheiros. No filme Na real da Real, realizado por um coletivo formado por moradores da favela, podemos conhecer um processo de desocupação cheio de irregularidades, levado a cabo de forma desumana em nome de interesses econômicos. É nesse espaço, que o cinema é capaz de propiciar, como fez nos anos 60, reflexões sobre as possibilidades de articulação nos dias de hoje. E, como nos lembra Kelly, integrante do Submarino Vermelho, isto nos permite refletir como a transformação pode se dar por meio desta grande linha de resistência: a arte.

Submarino Vermelho
No sábado à noite nos reunimos com o Submarino Vermelho após o término do Festival. Ali ficamos por três horas conversando sobre a experiência do coletivo na mostra Carta Branca.

Le Monde Diplomatique: Como surgiu o grupo? Por que 68?

Kelly: Tem um pouco a ver com o filme (Procura-se, de Rica Saito), no sentido de ser uma tentativa de trazer os questionamentos para o hoje. Brincamos na nossa Carta Branca ao Submarino Vermelho, no Catálogo do Festival - “geração simpática”. Esta idéia de que as coisas só aconteciam nos 60 e hoje, somos uma geração apática. Pensamos um pouco nesta relação de que as coisas estão acontecendo hoje, que somos protagonistas deste hoje, e que ele faz parte desta época ali. Os anos de 68/2008 não são momentos estanques — há continuidades. As coisas estão relacionando-se. Então, o filme trouxe um pouco disto.

Tom: Acho que isto é uma coisa minha e do coletivo… nossa. Pelo menos no ambiente que convivemos. Há um excesso de saudosismo na Universidade e as pessoas adoram discutir horas, mas falta algo propositivo. É um lugar onde parece que “agora” é uma palavra proibida. Sempre é antecedida de plenárias, congressos. Então, cada decisão, cada acontecimento, entra nessa escala – legitimando-se para não legitimar. É o militante apropriando-se do discurso burocrático para não militar. Tentamos cuidar para que não acontecesse isso. Então, partimos da seleção de filmes. O Oliver se opôs, já que queria uma discussão anterior. Falamos “vamos discutir, mas quais filmes você quer mostrar?” Quando tínhamos que decidir o que queríamos mostrar, estávamos lidando com um campo restrito. As questões tornavam-se mais palpáveis e aparentes. A questão novamente colocou-se quando decidimos promover atividades para além das telas. Vamos fazer um ato! Mas que ato? Em cada uma dessas escolhas e desenho de ações, tentamos trazer elementos do agora — projetando no agora. Nesse sentido, foi muito significativo ter ido ao ato do DOI-CODI no domingo. Ver muita gente que quase morreu lá — e que hoje não passa nem na frente — indo lá, se emocionando. Eles foram pisando e a gente desenhando linhas vermelhas no chão, enquanto os policiais nos chamavam de dualistas — “somos do socialismo e eles do capitalismo” —, quando na verdade tratava-se apenas de algo anterior a isso, do reconhecimento de um momento histórico do Brasil.

Somos muito colonizados. Negamos nossa história, negamos a escravidão. O filme Vaguei os livros e me sujei com a merda toda fala desta colonização brasileira, que começou com a escravidão, já colocando o negro em um outro patamar. E hoje, vemos várias permanências. No Brasil, questões cruciais tornam-se tabus. Uma vez, Zé Celso me falou que os tabus viram totens. Os tabus são vários, os totens também, o do Zé é outro… Quais são os nossos? Acho que é bom tocar onde ninguém esta querendo falar. Por exemplo, vai fazer 40 anos do Maria Antônia e no Mackenzie é proibido falar. E nossos filmes é igual, acontece a mesma coisa. Falam de atitudes e totens.

Paulinho: As considerações vão para vários lados. Eu gostaria de colocar minha visão sobre nossa geração e a de 68. A nossa tentativa foi de trazer o que continua vivo do 68. O que já não é uma coisa do passado, mas que continua presente. As questões que foram levantadas em 68, mas que continuam atuais e que, em nosso contexto político, histórico, encontram outras possibilidades de diálogo. E vejo que tentamos mais do que fazer um resgate de 68 para cá, tentamos ir de hoje para 68. Ao invés de edificar o mito, lidar de forma crítica com os vários questionamentos que continuam latentes e que se recolocam sob outras perspectivas. E, antes de apontar para respostas de caminhos, atentar às várias possibilidades. Ver quais são as questões que estão apontadas hoje. Há muitos grupos, movimentos, que estão atuando. E estas ações não têm espaço na mídia. Não há lugar na imprensa para se conversar sobre estas transformações na sociedade. E muitas delas já estavam apontadas lá em 68.

“Quisemos trazer 1968 para o momento atual. Usamos frases que são muito atuais: “fechar as ruas, abrir os horizontes”. Existem muitos coletivos que estão organizados; estão na rua e reivindicando seus espaços”
Wilk: Neste sentido, o filme do Rica – Procura-se — contribui com o que pensamos. O filme desconstrói o mito de 68, ao mesmo tempo que cria um outro mito. Esse foi nosso ponto de partida para construir a curadoria da mostra Carta Branca ao Submarino Vermelho. Pegamos 68 para trazer para o momento atual. Por exemplo, pegamos as frases de 68 que são muito atuais: “fechar as ruas, abrir os horizontes”. Existem muitos coletivos que estão organizados; estão na rua e reivindicando seus espaços. A principal questão de ter a Carta Branca é pensar tais desdobramentos. Há uma geração que não está calada, está tentando organizar-se. E há um cruzamento entre movimentos e coletivos.

Padre Jaime tem uma frase, “a cabeça pensa onde os pés pisam”. Que juventude somos? Quais são as questões que se colocam neste momento para nossa juventude? Não há uma distância entre as juventudes dos centros e as juventudes das periferias?

Tom: Eu não concordo que nossas questões são diferentes. Somos todos colonizados. Eu não divido a sociedade por classes ou “cores”. Tento viver na plenitude e me perguntar sobre o humano.

Paulinho: Acho interessante o que o Tom está falando, pois o Submarino conseguiu juntar pessoas que são muito diversas entre si. Eu, por exemplo, diferente do Tom, vejo uma sociedade de classes e concordo com muitos dos apontamentos do Marx em sua leitura histórica. Mas há também uma entrevista do Carlos Lira em que ele diz “eu sou burguês economicamente, socialista ideologicamente e aristocrata culturalmente”. Então são essas várias contradições que existem dentro do homem e que, de certa forma, conseguimos conviver. Há uma ideologia dominante, da qual a classe média faz parte e reproduz. Mas há resistências. Há um não aceitar o estado das coisas como estão. Não é porque eu nunca passei fome, que eu tenho que concordar com tal situação. Ao mesmo tempo, tiveram vários conflitos deste encontro, desta tentativa de articular as várias faces da sociedade para pensar a transformação, a revolução viva. O ato do DOI-CODI surgiu de uma proposta de intervenção visual na rua. Estávamos perguntando o que conecta nossas sessões de filmes com a história do DOI-CODI, com o processo das pessoas torturadas, desaparecidas e mortas. A proposta era fazer uma intervenção. Ligar a Cinemateca, antigo Matadouro Municipal, à Delegacia Paraíso, antigo DOI-CODI. Fazer uma linha vermelha pelas ruas que fosse de um lugar ao outro. Realizar, ao longo deste trajeto, um cortejo com intervenções para refletir sobre as várias facetas destes 40 anos. E no final, por conta das várias organizações que vieram, deixou de se fazer a linha da Cinemateca à Delegacia para fazer algo pontual. O ato começou a ganhar corpo, independência. E várias pessoas tomaram para si a questão de como articular tal evento.

Gostaríamos de fazer um debate sobre os mitos que ficaram deste período da ditadura para nossa. Também o mito da luta armada, o romantismo do guerrilheiro. Estávamos tentando procurar, onde se encaixaria uma sessão para fazer esse debate e não tinha horário. Às seis da tarde, haveria um concerto em homenagem ao Vladimir Herzog e nós queríamos fazer uma sessão de filmes - Se as eleições pudessem mudar, há muito teriam sido proibidas e recuperar Marighela. Havia, então, este horário de domingo à noite em que haveria a intervenção dos Versos Pretos. E queríamos fazer uma conexão da ditadura com a tortura hoje, levantar a questão de onde está hoje a repressão deliberada da polícia. Fizemos um remanejamento de horários, e quando dissemos que iria mudar o horário da intervenção do Versos Pretos, eles nos falaram “já estamos acostumados aos 508 anos da palavra metamorfoseada da burguesia. Você não tem palavra para arcar com o compromisso que vocês armaram”. E foi muito estranho, toda a falta de comunicação que se gerou ali. Perceber que aquela proposta do ato não fazia sentido também aos Versos Pretos. Essa percepção de que estaria tudo desconectado é, ao mesmo tempo, impactante e reveladora. Ver como que para muita gente esta história não faz sentido. A história parece estar cindida. Não se conecta a tortura de hoje com a tortura na ditadura, com a tortura na escravidão. Parece que rolou uma fissura na história.

Tom: Hoje tínhamos que fazer três faixas. “Nossos mortos estão vivos em nossas lutas”, “DOI-CODI nunca mais” e outra para a abertura dos arquivos da ditadura. Fomos a uma moça… Estávamos conversando e perguntei: você sabe porque queremos fazer estas faixas? Ela falou não. Você sabe o que foi o DOI-CODI? Ela falou não. Você sabe porque queremos a abertura dos arquivos da ditadura? Ela falou da ditadura como algo dos anos 60, “mas eu não vivi isso”… E eu falei “eu também não’… Mas tá aí… E ela até fez um desconto super bacana para a gente… (risos)

Wilk: Retomando sua pergunta sobre origem social, classes… Acho que existe sim a luta de classes, Marx colocou isso há 160 anos. Faz 120 anos que a princesa Isabel assinou abolição. O Brasil foi o último país a assinar. Acho que a luta de classes existe e ainda é muito viva. Quando começamos a pensar a curadoria, estas questões apareciam. O que a gente vai fazer, o que queremos discutir? Uma das preocupações era a integração entre as diferentes lutas.

Tom: Acho que estamos todos na mesma busca. É preciso encontrar os pontos que unem. O Edu Viola fala no filme do Rica “o Brasil é feito por nós, o difícil é desatá-los”.

“Há uma ideologia dominante, da qual a classe média faz parte e reproduz. Mas há resistências. Há um não aceitar o estado das coisas como estão. Não é porque eu nunca passei fome, que eu tenho que concordar com tal situação”
Kelly - Pensando na origem do nosso grupo, uma questão que foi muito importante é a de como criar focos de resistência. Como a arte pode ser um elemento de transformação e ocupar tais espaços. É uma questão urgente. Fazemos arte, trabalhamos com arte. Como perceber e fazer práticas políticas a partir deste trabalho? Esta foi uma das nossas primeiras questões. “Mas vai ser uma mostra, vai ser uma coisa careta. E de mostras o festival está cheio – um total de 50 mostras! Então, como fazer para ir além do espaço burguês de contemplação, para ir além da tela, para sair do passivo?

Parece que, no sistema que vivemos hoje, tudo pode ser absorvido, amortizado, tudo parece contribuir ao sistema. Como não cair no amortecimento destas ações?

Kelly – Nesta experiência, a tentativa foi pensar o espaço do Festival como um espaço de articulação e encontro, de agenciamento para além das telas. Como é que a gente poderia fazer uso deste momento de pré e durante o Festival para que houvesse encontro entre as pessoas? Pensar espaços de articulação para além do Festival? Foi essa a proposta de trazer os realizadores, pensar filmes que apontassem caminhos, outras direções de ação, interromper ciclos. Nesse sentido, bolamos um painel que ficava na Cinemateca. Era o desafio de pensar para além das telas do cinema e fazer uso do espaço.

Entrar e transformar ou entrar e se transformar?

Rica: Ganhamos muito pouco para fazer este trabalho. Fora os produtores que ganharam praticamente 500 reais cada um, as pessoas aqui ganharam 100 reais e às vezes trabalhando todo dia. Era difícil explicar para os coletivos que o objetivo não era o dinheiro, mas usar a janela, o público, a divulgação para fazer com que estes momentos fossem articuladores de outros.

Tom: Esta questão, de transformar o lugar que você está ou se transformar é um fio de navalha dos mais filhos da mãe. Por exemplo, a mudança da programação do ato do DOI-CODI do sábado pro domingo. O Paulinho foi para minha casa às 2 da manhã, conversamos e entendemos que precisávamos mudar o ato. Fizemos uma conferência via celular, viva a tecnologia! E esta questão da tecnologia foi importante. Aliás, o texto que está no catálogo surgiu através do google docs.

Rica: É, mas só saiu presencial! O espaço do Submarino foi bem este, resgatar este espaço de encontro. Agora, voltando à questão, quando trabalhamos de graça para um lugar que tem patrocínio de grandes empresas. Você não está dando de graça sua mais-valia? Por um interesse no valor de uso no seu trabalho, você abre mão do valor de troca… Mas isto já não é uma contribuição grande para o lucro deste outro? Sempre fizemos isto. Escrevemos o projeto, vimos o orçamento gigante e cortamos tudo pela metade, pois não iriam aceitar. E acabamos praticamente pagando para trabalhar.

“Poderíamos simplesmente ter feito uma mostra e ganhado o justo por ela. Mas investimos mais. Foi um pouco uma opção: ’vamos pegar esse valor e aplicá-lo para o público’ ”
Paulinho: A questão de espaços de encontro. Como fazemos uso desta abertura do festival para articular estas lutas que estão em andamento e estão em estado de emergência? Mas queria falar também de uma outra experiência que cruzou a mostra [3]. Estou envolvido na criação do Canil Espaço Fluxus de Cultura. Este espaço teve seu início há dois anos e meio, com uma ocupação a marretadas em que alunos de toda a USP se reuniram para tomar e criar, dentro da universidade, este espaço para pensar a cultura. Para ter um espaço de livre expressão cultural e política, autônoma das unidades que já existem — como DCE’s, Centros Acadêmicos — e que pudesse ser um espaço de experimentação. É um espaço vivo que a USP se nega a retratar dentro de seu jornal, sua rádio, televisão. E há projeto da reitoria para uma obra grande a ser construída ali e que irá fazer este espaço desaparecer. E há um silêncio enorme quanto a esta questão. Ninguém discute isto, não conseguimos espaço da universidade, dentro da imprensa… E os espaços de troca e convivência dentro da universidade vão sendo cada vez mais reduzidos. Tem um filme do Canil na Mostra que fizemos. Nós o selecionamos tanto por seu valor estético quanto por esta discussão que suscita, das ocupações dos espaços da universidade, da universidade como um espaço para se colocar criticamente frente ao mundo, para se contrapor à cultura hegemônica que vivemos constantemente. Com o Canil, conseguimos, criar dentro da universidade, um espaço autônomo que contraria as regras do mercado da arte. Mas que, ao mesmo tempo, não consegue se articular dentro das instituições da universidade. A proposta de um espaço para os estudantes e para as pessoas de fora da USP colocarem sua produção, e de este ser um ponto de articulação para abrir as portas, para extravasar este castelo intelectual que é a universidade. É um espaço que propõe algo que não o que está sendo proposto institucionalmente dentro da universidade.

Tom: Pelo menos na USP, e com certeza na maioria das universidades, existe uma segmentação típica de nossa origem de pensamento, em que tudo vem bem separado em caixinhas segmentadas e dividido para não dar problema de classificação. E o Canil é um lugar em que as pessoas que ficaram cinco anos estudando na música e que nunca ouvimos, se encontram com o pessoal das artes plásticas e com o pessoal do audiovisual. O Canil não propõe uma coisa nova. Estamos propondo encontro. É simples. Ao mesmo tempo, forte.

Rica: Assim como foi a reitoria ocupada. Logo que ocupamos uma pessoa da informática instalou linux em todos os computadores e um cara da oficina de software livre apareceu, e o pessoal começou a colocar o conhecimento em prática. E, lógico, vários conflitos de formas de ver o mundo e de compreender aquela ação. Uns que achavam que tínhamos que nos fechar lá dentro e resolver as questões internas, outros queriam fazer propaganda para fora, no que tinha de melhor lá dentro. O Canil foi o que deu continuidade a isto que aconteceu na ocupação da reitoria. Outra questão que se colocou foi a do retorno que daríamos à sociedade, após pegar este recurso da Kinoforum. Várias pessoas, que a gente chamou um pouco mais em cima da hora, colocaram essa questão. “Pô, vocês tão trabalhando para o Festival Internacional de Curtas que tem patrocínio da Petrobrás e não querem pagar a gente. E vocês estão pagando pra trabalhar, vocês estão realimentando a idéia de que as instituições culturais podem usufruir o trabalho artístico por mixaria, porque todo mundo que faz arte no Brasil é burguês, tem outras formas de ganhar dinheiro. A gente como artista ou educador tem que pensar também em nossa classe artística, porque se você reduz o valor de sua mão de obra você está quebrando um pacto com o resto e fazendo mais barato que todo mundo. Vai sempre pegar alguém que está iniciando, com sede de começar”.

Wilk – Também neste aspecto tem esta questão… do quanto de valor simbólico agregamos ao Festival… e vice-versa. Como pudemos usar o espaço do Festival para propor coisas que acreditamos.

Rica –Também houve o lado de uma megalomania nossa. Poderíamos simplesmente ter feito uma mostra e ganhado o justo por ela. Mas investimos mais. Fazer o ato, os encontros, nada disso estava no contrato, fazer os painéis. Foi um pouco uma opção, vamos pegar esse valor e aplicá-lo para o público.

Kelly –A gente falou que queria fazer, ocupar esse espaço e abrir essa brecha. E isto tudo começou a despertar para outros questionamentos. Acho que agora poderíamos falar de como começou.

Rica – Se você for ser pessimista, você vai dizer que foi nepotismo, aquele esquema das relações pessoais. Mas, por outro lado, como uma pessoa toma contato com uma produção? Minha irmã, que havia trabalhado com a Zita, chamou-a para ver o Procura-se no É tudo Verdade. Ela se surpreendeu. Esperava um filme bom, mas foi bem melhor do que ela imaginava. Aí ela me ligou, falou que me viu filmando na Virada Cultural. Quando ela me ligou já tinha vários nomes, de pessoas com atuações políticas e coletivas lá na USP, e fez o convite. Ao receber o convite, mandei o e-mail para várias pessoas, liguei para outras tantas, liguei para o Nicolau, para o pessoal do Felco, porque a gente já tem um trabalho com distribuição e curadoria e sempre foi militante. Seria um jeito de conseguirmos alguns serviços mínimos que poderiam realimentar o processo de distribuição militante e independente. Só que, no meio do caminho, todo mundo que eu tinha chamado do audiovisual tinha outras prioridades e o pessoal das artes plásticas tava mais em peso, mais interessado em fazer cinema. Foram pessoas que mesmo no processo de pós-produção do filme me ajudaram em coisas. Eu achei legal que o trabalho de curadoria, produção, de pensar como colocar os filmes e fazer coisas para além da tela foi todo um trabalho de formação política e estética pro grupo inteiro. Depois da seção que teve na Galeria Olido, fizemos uma assembléia. É uma sessão bastante forte, falantes e que te pegam mesmo. Colocam questões fortes de injustiças revoltantes. Então, ficaram várias pessoas que não eram de movimento nenhum, mas que tinham visto a sessão inteira. A gente percebeu que a pessoal saía dali e já queria ouvir as articulações políticas com outros ouvidos, queria saber desse pessoal dos movimentos. Já não eram mais movimentos que aparecem no Jornal Nacional quebrando tudo, 120 km de congestionamento.

Tom: Nunca havíamos vistos todos os filmes da “Imaginação ao Poder” juntos, reunidos e no esquema mesmo de uma sessão de cinema… A experiência de ser uma sessão de fato. Eu fui ver a sessão na sala de cinema da FAAP e eu descobri que a gente fez uma puta discussão. Em uma faculdade branca a gente trouxe para lá um movimento preto, histórico, e eu fiquei orgulhoso do quanto a gente se surpreendeu. Eu sabia que ia ser assim, mas não sabia da força de questionamento que poderia ter.

Kelly: Escutei alguns comentários curiosos sobre a sessão. “Achei tão gratuito aquilo. Parecia que vocês queriam dar um tapa na nossa cara!”

Rica: E achei importante levar os caras que fizeram os filmes. Acho que a sessão fez outro sentido com o pessoal das Edições Toró ali presente, o cara do Versos Pretos e o Gustavo Acioli, que assume completamente o artista de classe média, de observador que não sabe o que fazer e o que dizer. E foi um debate super sincero. No começo, achei que o cara das Edições Toró estava incomodado de estar ali meio que se sentindo exposto. O Oliver fez uma pergunta meio atravessada… O debate marxista… O debate começou sobre a questão dos pretos no Brasil. As conseqüências da escravidão, que são secundárias em relação às conseqüências da exploração do capitalismo, que afeta todas as pessoas. Mas não sei, ser negro no Brasil ou terceiro mundo ou qualquer lugar do mundo hoje ainda é diferente de ser um branco pobre. Porque tem todas as conseqüências culturais.

“Em vez de largar as canetas e pegar em armas, como fizeram os Panteras Negras, eu sonho que os jovens das periferias soltem as armas para pegar nas canetas. Faço uma oficina de vídeo na periferia e vejo o quanto é outra a relação que eles têm com a palavra”
Eu fiquei muito impressionado de a gente que tava propondo o debate colocar, diminuir a importância do filme por questões … Vocês falam da menina que esfregou detergente no olho… Como se isto não fosse a questão principal. A menina quase morreu intoxicada, foi para o hospital. E são varias histórias recorrentes, de vários negros que desde muito pequenos têm um modelo recorrente de beleza… De não se reconhecer na literatura, e a maneira que a África sempre é colocada nos livros, de entrar pelas portas do fundo. Como se sempre fosse o continente escravizado. Quando vi este filme falei, ’porra, a gente precisa deixar passar esta mensagem para frente, senão seria fechar o ouvido e sentir que nada disso acontece’. Eu não vou falar pelos pobres, os pretos. Eles já estão falando. Então, é simplesmente amplificar esta bola. Achei importante. Ainda mais vindo depois do filme de Agnes Varda sobre os Panteras Negras, que coloca a questão leninista de pegar em armas, que liam o Livro Vermelho de Mao. E a postura do filme “Vaguei nos livros….” inverte esta visão. Ao invés de soltar as canetas e pegar em armas, como fizeram os africanos para a luta de libertação nos últimos 30 anos, eu sonho que os negros no Brasil, os jovens das periferias soltem as armas para pegar nas canetas. Faço uma oficina de vídeo na periferia e vejo o quanto é uma outra relação que eles têm com a palavra.

Wilk: E é preciso se perguntar por quem a história é escrita. O fato deles terem muito pouco acesso à história de si mesmos. O fato de esta história precisar ser escrita. E o preconceito, o lidar com isto, e que tem suas nuances no Brasil. Acho o preconceito mais visível em São Paulo que na Bahia, onde 70% da população é negra

Rica: Mas eu queria voltar ao filme de Acioli. Em Nada a declarar, ele fala como se ser brasileiro já fosse um problema. Ele coloca isto de novo no debate. E eu fiquei pensando o quanto ele se sente periférico em relação ao mundo. Senti que o pessoal das Edições Toró coloca isto como uma batalha. Somos mesmo periféricos, mas estamos lutando para virar a mesa. E do lado dele, eu senti que era um pouco no caminho do “não tem jeito, eu sou brasileiro”. Eu não sou central… Perguntei a ele se ele se identifica com o personagem. Ele disse que sim. Ao mesmo tempo, é interessante como ele explicita as contradições de sua visão de mundo. É um filme que dá um nó na cabeça.

O uso das armadilhas retóricas, os clichês…

Wilk: O filme é interessante neste sentido, a postura da classe média é esta. Não tenho nada a declarar, nada a fazer, mesmo quando ele critica as leis de incentivo.

Tom – Isso de ele reconhecer: eu sou branco, sou rico, sou bem alimentado, é base para você ou aceitar: que bom! Ou dizer: “sou branco e rico e vou fazer alguma coisa”. Aí entra uma chave fundamental, que é o livre-arbítrio. Aí não tem manifesto, não tem ideologia, não tem nada que obrigue.

Como o documentário pode funcionar como uma forma de resistência e qual e a relação entre linguagem e política?

Rica – Acho interessante estarmos aqui falando de Nada a declarar, que é uma ficção em forma de reportagem. E acho que isso explicita uma crise de representação. Que é uma crise do documentarista, de um cinema que é feito para o outro, em que o autor é teoricamente imparcial, e ele utiliza a voz de deus pra falar do problema do outro. Lembra-me uma tirinha que vi no jornal uma vez que dizia assim: Qual a sua profissão? Aí aparecia um cara sofrendo, pedindo um rango. Enquanto o outro cara falava “Oh, que historia terrível a sua”, o outro retrucava “Não, mas me dá um trocado, um rango”. E ele com um cachecol Hugo Boss dizia: “Não, preciso registrar sua nobre historia”. Aí, ele saía de quadro e sua profissão era documentarista. A maior parte dos filmes selecionados é de documentários e muitos deles estão no limiar entre o documentário e a ficção. Talvez sejam os filmes mais interessantes. O curta de ficção acaba sendo pegadinha, é difícil um curta-metragem que desenvolva, sabe?

Paulinho – As outras possibilidades de linguagem para lidar com este tema foram uma questão para o coletivo, na hora de escolher os filmes. É difícil encontrar filmes que têm um valor político e estético no conjunto. E no final das contas a estética do documentário muitas vezes revela sua própria precariedade e isso acaba revelando mais sobre quem faz o documentário.

Wilk – O Chris Marker faz um filme que seria hoje super barato. Trabalhar com fotografia tem toda a questão da precarização.

Rica – E às vezes isso dá mais liberdade. Como o próprio filme do Canil, que mistura cenas de ficção, com documentário, com cenas dos primórdios do cinema, que você já nem sabe se e documentário ou ficção.

Wilk – Não sei nem se isso foi tanto uma questão, acabou sendo natural escolher mais documentários.

Paulinho – Mas teve, sim, a discussão. Lembra, por exemplo, a discussão sobre a Revolução dos pingüins, se entrava ou não. É uma ficção, mas ao mesmo tempo pegou metade do grupo, mas não pegou a outra metade. A discussão sobre o Quinze centavos…

Rica – Vocês viram esse? É um documentário quase surrealista, porque é muito sensorial. Você quase não sabe quais são as reivindicações ali. Começa com um cara andando na cidade. Você não sabe onde e, de repente, vem à tropa de choque, começa um conflito de rua, e depois tem uma fogueira e você foca no fogo, e tem gritos, o som é muito bem trabalhado, parece que você entra na revolução sensorialmente. E no meio de falas que se contradizem e sobrepõem você descobre que é uma manifestação pela questão do transporte.

Rica – Eu acho que as ficções em geral tendem a ser um pouco ingênuas na colocação política. Pois elas tratam com personagens e têm que desenvolver dramas. Por exemplo, a Revolta dos Pingüins que é um filme chileno, tem um lado interessante de ser uma ficção do Chile, que a gente não tem informação, sobre a revolta dos estudantes no ensino médio.

“Isso de ele reconhecer: ’eu sou branco, sou rico, sou bem alimentado’ é base para você ou aceitar: que bom! Ou dizer: ’sou branco e rico e vou fazer alguma coisa’. Aí entra uma chave fundamental, que é o livre-arbítrio. Não tem manifesto, não tem ideologia, não tem nada que obrigue”
Paulinho – É um filme de 2006 sobre manifestações de um milhão de estudantes nas ruas, logo que a Bachelet assumiu, elas tomaram as ruas no Chile inteiro.

Rica – Aí, parte do grupo gostou, outra não. O filme é meio adolescente, mas coloca uma questão sobre ocupar, sobre um movimento que você não sabe mais pra onde vai.

Paulinho – E ao mesmo tempo conflitos subjetivos.

Rica – Mas tem outro momento em que entra uma discussão do amor com uma loirinha, aí ela aborta um bebê do nada, tem uma coisa meio trash e você fica meio com vergonha do filme. Aí ele acabou não entrando.

Paulinho – Em relação a isto acho que o filme do Saito tem algo bastante interessante. O quanto é uma coisa honesta, ao se colocar como um ser atuante na construção do documentário. Ao assumir a relação de diretor do filme enquanto um personagem que também cria realidade no documentário. E o fato de oferecer o filme à família acho que traz elementos de realidade, de entrega que as pessoas não param para se questionar muito.

Tom – Eu acho que na hora que ele faz isto ele coloca o filme em uma posição familiar. Ele se coloca como agente da história da família retirando o filme de um plano mítico.

Wilk – Se ninguém soubesse quem era o Rica ali, ninguém ia saber que ele aparece na frente da câmera. A gente consegue distinguir. O Coutinho, a gente já sabe quem é. Já é prerrogativa de seu documentário você saber… Parece que você é alguém da equipe…

Saito – E isto foi intencional. Que no momento em que eu falasse de meu tio viesse à tona “ah, aquele cara ali é o que esta fazendo o filme”. Mas a coisa da dedicatória. Teve um momento da realização em que senti um certo carma. Se não me referisse à história de minha família, seria como cortá-la e entregar flores para o público sem raízes. Iam morrer no primeiro mês. Seria como prezar só pelo espetáculo, só pelo mito. Acho que ali tem uma força. Acho que então o filme poderia crescer. É uma herança elaborada junto com os atores, nas entrevistas… Não sei quanto por cento foi inventado, mas é verdade do coração. O documentário tem questões transcendentes. Estamos lidando com imagens vivas de pessoas e aquilo vai se multiplicando para sempre. Não sei se você leu a Invenção de Morel, um livro que vai abrindo chaves, cada vez vai descobrindo coisas novas na história. É uma maquina que fixa as pessoas e reproduz em todas as dimensões a imagem… E tem varias implicações e é tudo porque o cara quer se aproximar de uma mulher que depois ele descobre que é uma imagem. Acho que o cinema tem esta coisa, uma ilusão, mas que é viva.

Caçando Ratos
Em outra sessão bastante cheia do Festival na Cinemateca, na quinta-feira à tarde, o público aplaude eufórico o curta-metragem “Caçando Ratos” da equatoriana Vero Chamo-Garcia. O filme [4]integrou a sessão Latinos 4, da Mostra Latino-americanos, do 19º Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo. Sua trama se centra na história de dois irmãos que, ainda crianças, entram em um grupo guerrilheiro mobilizado em torno da idéia de mudar o país e lutar por ideais de justiça e liberdade. Nos primeiros instantes, mostra-se a chegada dos guerrilheiros a uma pequena vila para distribuir alimentos e recrutar novas fileiras. A este recrutamento seguem-se as cenas de treinamento militar, que mantêm o clima festivo e mágico do início, o típico clima que costuma anteceder as tormentas nas narrativas. A garota, uma pré-adolescente, logo se destaca no treinamento por sua firmeza e cuidado com o irmão mais novo, características que têm seu ponto culminante quando, de forma decidida, oferece-se para executar outra criança, uma suposta delatora, no lugar de seu irmão, que se recusava a fazê-lo. Enquanto o grupo prossegue pela selva, a menina mantém-se firme em seus princípios, a ponto de relacionar-se com o líder — quiçá um abuso, quiçá um sacrifício. Já o irmão mostra-se cada vez mais reticente em relação aos métodos dos guerrilheiros.

A diferença entre a experiência dos irmãos encaminha o curta a seu clímax, deixando ao espectador o desfecho e conclusões: o menino, cansado da violência e percebendo o delírio dos líderes, abandona a guerrilha e é acusado de ter delatado o grupo. Novamente, a coragem da garota é testada, mas desta vez diante de um dilema sem solução: ela deve escolher entre executar o próprio irmão traidor ou ver toda a família assassinada pelos guerrilheiros. Após os créditos finais, um intertítulo nos informa: “este filme foi dedicado às 300 mil crianças que estão sendo usadas em combate em todo o mundo”. O filme é recebido com calor pelo público, que vê ali uma denúncia crua sobre o absurdo da guerra. A guerra, aqui, é ambientada na Amazônia, os personagens vestem fardas camufladas com uma insígnia vermelha borrada, provavelmente para não produzir a identificação com qualquer grupo guerrilheiro existente. Supostamente descontextualizado e universal, o filme mobiliza em seu enredo elementos que atestam todo o tempo uma discrepância entre falas de justiça e ações de crueldade e violência quase gratuitas.

O filme não mereceria tanto interesse por si, visto que parece confirmar a eficiência do ensino em uma escola que é bastante reconhecida por preparar os novos diretores de Hollywood – Vero formou-se na University of Southern California. Contudo, tanto a recepção do filme quanto o tema da reprodução de determinadas formas narrativas – e sua correlata repercussão – suscitam algumas questões que requerem atenção. Muito bem executado, o filme contém traços deste cinema que, em busca de um universal abstrato, muitas vezes torna-se perverso. A partir de uma mensagem específica, homogeneíza todas as experiências de guerrilhas, guerras, conflitos, levantes, descontextualizando e estereotipando eventos históricos específicos, produzindo o espetáculo do conflito.

O líder guerrilheiro discursa sobre justiça social e igualdade enquanto abusa de pré-adolescentes e executa crianças sob a acusação de delação: eis que se desqualifica peremptoriamente qualquer discurso que se aventure a recrutar estas palavras. Pretende-se uma denúncia social, mas é demasiado abstrata e desconhece (ou desconsidera) a história. Ao fazê-lo, não termina por se constituir como um manifesto antiguerra, mas, antes, por repetir a lógica intrínseca aos mecanismos que geram a própria guerra. Relega a discussão sobre o belicismo ao estatuto abstrato que está no cerne da própria lógica do Estado-Nação, no que se refere a seu antagonismo constitutivo com o reconhecimento das minorias. Talvez um ensinamento hollywoodiano para o qual Tróia, Espartaco, Titanic ou a Revolução Cubana, têm todos a mesma natureza e servem apenas como pano de fundo para dilemas individuais e heróicos. Fica, portanto, a questão que filmes como Caçando Ratos suscitam, não tanto pelo caráter meritório de sua elaboração, mas por sua recepção, capaz de problematizar e revelar aspectos importantes sobre o sistema de valores hegemônicos.

[1] Sessão “Imaginação ao Poder”, da mostra Carta Branca ao Submarino Vermelho, realizada no 19º Festival Internacional de Curta-Metragens de São Paulo.

[2] Edmundo Desnoes, em entrevista concedida ao Le Monde Diplomatique – Brasil durante o festival de cinema latino-americano de São Paulo

[3] A festa de encerramento da mostra Carta Branca ao Submarino Vermelho aconteceu com uma sessão oficial do Festival de Curtas no Canil Espaço Fluxus de Cultura, dentro da USP

[4] Premiado como melhor filme de estudante, Director’s Guild of America, Los Angeles, 2007, como Achievment in Producing, First Look 2.0, Los Angeles, 2008 e Best lead actress, Malibu International Film Festival, Malibu, 2008

Comentários

A ficção da realidade

Politicamente correto, “Linha de Passe” frustra como cinema e ensaio sociológico

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EDITOR DA ILUSTRADA

Quando a pobre paraplégica preparava-se para ser imersa nas águas, durante a cerimônia de batismo promovida pelos evangélicos de “Linha de Passe”, não consegui deixar de pensar na possibilidade de a coitada engasgar e morrer afogada.
Afinal, num filme em que pouca coisa acontecia -e o que acontecia dava errado-, a morte da irmã talvez fosse uma opção radical, tragicômica, capaz de me retirar do enfado com que acompanhava aquele compenetrado desfile de lugares-comuns sobre a pobreza urbana numa cinzenta São Paulo de documentário.
Mas, claro que não. Daniela Thomas e Walter Salles não demorariam tanto para dar uma guinada dessas, à Monty Python, num filme tão sério e empenhado.
“Linha de Passe” é uma obra que repisa muitos aspectos da dramaturgia de esquerda dos anos 50/60 -mas, em sintonia com os tempos atuais, é melhor na técnica narrativa e, claro, não “aponta para a revolução”.

Atrasado
A semelhança com a linhagem do Centro Popular de Cultura, do Arena, do “Eles Não Usam Black-Tie” foi, aliás, ressaltada por Cacá Diegues, ao escrever na Ilustrada de domingo passado que a história da mãe e seus quatro filhos é “semelhante a tantas outras de nossa tradição cultural politicamente engajada”.
Talvez por ter sido um dos mais afiados formadores dessa tradição, Cacá diz ter experimentado algo de “sublime” em “Linha de Passe”, uma obra que nos colocaria diante da “grandeza do cinema”.
A meu ver, em que pesem as boas cenas de futebol e de rua, a engenhosa costura da narrativa e o ótimo Kaíque dos Santos, não é apenas grandeza cinematográfica que falta ao filme. Como ensaio sociológico, também não vai muito longe.
Posso estar totalmente enganado, mas acho difícil que estejamos diante de uma obra, como declarou o diretor à Folha, capaz de, “20 anos depois”, nos dizer de “onde viemos, quem somos e para onde estamos indo”. “Terra Estrangeira” atingiu essa dimensão, mas “Linha de Passe” parece ter chegado atrasado no “momentum” do Brasil de Lula e do pré-pré-Sal.
Sem dúvida, “Cidade de Deus” é o filme que, nesta década, melhor terá cumprido o papel de fixar um ponto de referência na linha do tempo da memória nacional (e, por favor, basta com essa conversa de “cosmética da fome”).

Ilusão documental
Como qualquer outro, também o filme de Daniela e Waltinho “estetiza” seu objeto. No caso, uma estetização na qual a parafernália cinematográfica é mobilizada para se ocultar, criando uma ilusão documental de neutralidade, uma aparência despojada, que nos mostraria “a vida como ela é”. Mais do que isso, o tratamento ascético envolve a família da periferia num véu de respeito e pudor puritanos, que nos dissuade de formar um juízo crítico sobre seus integrantes.
Diferentemente dos representantes da elite, malvados, drogados ou pusilânimes, os pobres são sempre vítimas, e devemos desculpá-los, mesmo que se comportem de maneira irritante, como a pateta mãe corintiana, já crescida e experiente o bastante para arrumar e manter uma gravidez àquela altura do campeonato (sem trocadilho).
A estratégia estética e mercadológica de “Linha de Passe” se presta justamente a análises do tipo “tem o mérito de confrontar o espectador da elite com uma realidade que ele desconhece ou não quer ver”.
Francamente: moro em São Paulo há 24 anos e não creio que precise ir ao shopping, comprar um saco de pipoca e entrar num cinema para ter uma revelação sobre a pobreza que testemunho diariamente.
Mas não tenho dúvida de que esse é o tipo do filme capaz de despertar a solidariedade de platéias politicamente corretas daqui e, em especial, da Europa. Gente que aceitará voluntariamente o contrato da narrativa que retrataria a “verdadeira” vida nessa nossa metrópole do Terceiro Mundo, já transformada em clichê cult em círculos gringos.
De prático, o filme fez-me (eu, que nunca fui assaltado em São Paulo) prestar atenção na minha mochila. Apesar dos alertas, ainda costumava deixá-la sobre o banco ao lado.

Comentários

Cegueira

Divulgação/Ken Woroner

cequeira - cequeira

CULT ON-LINE

Cegueira

Paula Fazzio

Divulgação/Ken Woroner

“Estou cego”. Assim começa o filme de Fernando Meirelles baseado na obra Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Cegueira é uma investigação sobre o comportamento e o sentimento humano diante de uma epidemia de uma misteriosa cegueira branca.

O primeiro homem que fica cego (Yusuke Iseya) contagia cada pessoa com quem ele se encontra, como sua mulher, seu médico e até um pedestre que oferece ajuda enquanto passava na rua quando ele perdeu a visão. Assim, forma-se uma rede de contaminação e o governo decide isolar essas pessoas em um hospício antigo.

A única que consegue enxergar nesse lugar é a mulher do médico, interpretada pela atriz Juliane Moore. A personagem finge não enxergar para poder ficar perto do marido e acaba tornando-se uma espécie de líder de um núcleo familiar que se forma.

O filme começa com o ponto de vista de um diretor onisciente e transporta-se para o olhar da única que é habilitada para ver. Além de Moore, estão no elenco Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Maury Chakin, Danny Glover e Gael García Bernal. Nenhum desses personagens tem nome. Fernando Meirelles conta à CULT sua experiência como diretor de Cegueira. Confira:

cequeira 1 - cequeira 1

Divulgação/Alexandre Ermel

Divulgação/Alexandre Ermel

CULT - A leitura de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago é impactante. Sua primeira versão de Cegueira para a noite de abertura do festival de Cannes de 2008 sofreu algumas modificações. Mais recentemente, você fez novas alterações para a versão que estréia no Brasil. Por que decidiu amenizar a versão original?
Fernando Meirelles - As mudanças maiores que fiz foram depois de uma sessão de teste do filme com público em Toronto. Haviam duas cenas de estupro no filme, uma muito forte, nesta hora parte da platéia saiu da sala. Foi uma surpresa para mim, pois não achava que fosse assim tão pesada, mas ao ver a reação achei que não precisava chocar até o limite para vender a idéia de um desmoronamento da sociedade. Sofri e me perguntei muitas vezes se deveria ou não cortar mais ou menos aquela cena. De Cannes para cá o que fiz foi remixar o filme, fiz nova marcação de luz e tirei 4 narrações do Danny Glover [velho da venda preta].

CULT - Saramago lançou o livro em 1995 e rejeitou todas as tentativas de compra dos direitos do livro, inclusive a sua. Como foi o processo de convencimento?
FM - Li o livro, me impressionei e pensei em adaptá-lo, mas nem sabia como faria isso. Como o Saramago não me vendeu os direitos quando tentei comprar em 1997 parti para outros projetos. Em 2006 , por coincidência, fui convidado a dirigir o filme por um produtor canadense que convenceu o Saramago anos depois. Foi coincidência ele me convidar. O Saramago queria que o filme fosse falado em inglês mas que não fosse uma produção norte americana. Deu certo.

CULT - Qual foi a parte do enredo mais difícil de adaptar para o filme? A ausência dos nomes nos personagens foi complicado?
FM - Por não ser baseado em nada que não seja pura invenção, (esta é a história de uma epidemia que não existe numa cidade genérica com personagens sem passado e sem nome também), adaptar esta história foi de fato um projeto complicado. Nos outros filmes que fiz, o espectador tinha de cara com o que se relacionar. Briguei com as páginas do roteiro antes das filmagens, durante e até a mixagem final.

CULT - Quais foram as técnicas utilizadas para os atores sentirem, de fato, como é ser cego?
FM - Atores são sempre iguais, só muda a língua. São seres sensíveis, inseguros na maioria dos casos, não importa quão famosos sejam. Me dou muito bem com eles e por sorte sempre consegui interessantes processos de colaboração e troca de experiências. Para todos, fora a Julianne Moore, inventamos uma oficina de preparação onde ficavam por horas e horas vendados andando por ruas e sendo submetidos a algumas “torturas”. Quando aprenderam como se movimentar, o próximo passo foi se acostumarem a fazer o que tinham que fazer com os olhos abertos mas sem usá-los. Isso é difícil mas eu estava em boas mãos pois tinha um elenco e tanto.

CULT - Como foi a experiência de trabalhar em um set em que havia pessoas falando português, inglês, francês, espanhol e japonês? Qual a diferença de dirigir uma co-produção internacional e uma brasileira?
FM - A maneira de se produzir um filme ou de se tocar um set de filmagem também é muito internacionalizada então não há grandes barreiras ao se cruzar fronteiras. Os dois projetos internacionais que fiz tinham um orçamento mais folgado do que teria se filmasse no Brasil em português. Isso facilitou minha vida, se bem que às vezes as limitações nos obrigam a lançar mão de soluções mais criativas. Acaba sendo um estímulo.

Divulgação/Alexandre Ermel

Ensaio sobre a cegueira (”Blindness”)
Direção: Fernando Meirelles

cequeira 2 - cequeira 2

Elenco: Gael García Bernal, Julian Moore, Mark Ruffalo
(Brasil,Canadá,Japão/2008)

Comentários

O cinema político de Pedro Almodóvar

Cinema - Cinema
Aos dezesseis anos, Pedro Almodóvar mudava-se para Madri, sozinho e sem dinheiro, a fim de estudar cinema. Muitos anos depois, ele diria dessa experiência: “Eu me acostumei à realidade (eu a assumi, como se assume a doença de alguém que se ama)”. Essa relação, ou melhor, esse vínculo entre realidade, doença e amor é o que, em sua obra, instaura uma insuspeitada dimensão política. Mas esse mesmo vínculo é o que decisivamente diferencia o cinema político de Almodóvar de um pensamento político tão bem intencionado (talvez) quanto desastroso (certamente): para este, a realidade também é uma doença, uma imperfeição cuja complexidade deve ser reduzida a golpes de idealismo e brutalidade; enquanto, para Almodóvar, a realidade é uma imperfeição incurável que nos obriga primordialmente a amá-la. O amor à realidade, que exige a assunção de sua complexidade irredutível, surge aí como prevenção da brutalidade - e é nesse ponto que seu cinema se torna político. Vistos dessa perspectiva, o desejo e a paixão são manifestações da realidade que, reveladas em sua trama complexa, opõem-se a que seja injusto o juízo sobre a realidade e os sujeitos que dela participam. Mesmo que não seja deliberado - e afinal isso nunca importa -, o que aí ocorre é uma atitude política que visa à justiça.

Trata-se, digamo-lo de saída, de uma política da proximidade. A aproximação é sua estratégia artística de desmonte dos estereótipos (e sabemos o quanto os estereótipos propiciam e justificam bodes expiatórios sociais, tentações segregacionistas, juízos moralistas etc.). Tanto identidades sociais estereotipadas quanto gestos éticos condenáveis a priori são submetidos a um olhar aproximador que lhes desvela dimensões surpreendentes que, por sua vez, tendem a desmontar, suspender ou mesmo reverter o juízo do espectador. Assim, uma travesti, por exemplo, é mostrada em sua vida privada, dissolvendo o estereótipo social por excelência que se tornam as travestis enquanto aos olhos dos outros possuem uma identidade exclusivamente pública e sexual; uma freira está grávida; uma outra travesti é machista e moralizadora; um ex-policial na cadeira de rodas passa de baluarte moral a responsável indireto pela condenação de um jovem inocente, e assim em diante. Nenhum personagem e nenhum ato estão isentos de ambigüidades e complexidades éticas, basta que se aproxime o suficiente deles para percebê-los desse modo.

Essa aproximação não diz respeito apenas ao movimento do artista, mas também dos personagens. Há nestes uma abertura ao outro tantas vezes imediata, a que a seguinte frase, citada num mis-en-abîme em Tudo sobre minha mãe, serve de efígie: “Sempre confiei na bondade dos desconhecidos”. Assim, nesse mesmo filme, Manuela torna-se imediatamente amiga de Rosa, a quem acolhe em sua casa; Huma, a atriz famosa, contrata Manuela como seu braço direito depois de conhecê-la numa única noite; Rosa, a freira, por definição abre-se ao outro em sua estranheza radical. Em Fale com ela, a toureira Lídia pede ao então desconhecido Marco que a leve a Madri. Em todos - e sobretudo nas mulheres - há essa abertura transparente ao outro desconhecido, essa vontade de aproximação. Se em A má educação essa lógica é invertida, isso ocorre sem prejuízo da aproximação como atitude artístico-política, e como que para evidenciar seu caráter de contraponto ratificador.

Essa inversão dá-se do seguinte modo. Em Tudo sobre minha mãe e, radicalmente, como veremos, em Fale com ela, é a revelação da dimensão amorosa de um ato ético em princípio condenável que fará o juízo recuar. Naquele, a travesti Lola, portadora do vírus da Aids, engravida e contamina a jovem freira Rosa (que morre em conseqüência do parto), mas, pelo mesmo lance, devolve o filho perdido a Manuela. Há aí uma cadeia amorosa que percorre Manuela, Lola e Rosa, e a que o acaso - outra imperfeição da realidade - confere uma ambivalência irredutível, de morte e vida. Já em A má educação, o padre Manolo ama o menino Ignácio, mas abusa sexualmente de sua ingenuidade e até o chantageia sexualmente, configurando a perversidade pedófila (que goza, precisamente, com esse abuso de poder). O ator Juan, irmão mais novo de Ignácio, fingirá ser este, e prestar-se-á a uma chantagem voluntária, isto é, deixar-se-á foder pelo cineasta Enrique para ver se consegue um papel no filme deste. Que, anos depois, seria o já adulto (e viciado e deteriorado) Ignácio quem chantagearia o padre Manolo, essa inversão não é apenas uma ironia do acaso, mas o caráter estrutural e infinito da “má educação”. Pois a “má educação” é precisamente a perversidade originária que, colocando-se no lugar do amor - confundindo-se com ele - a tudo envenena, culminando com um fratricídio. É como se o ato perverso inicial do padre Manolo impedisse para sempre que o amor seja a motivação das existências e suas decisões éticas. A má educação é o avesso da abertura imediata ao outro, de sua transparência (ao contrário, aqui quase todos são opacos ou dissimulados), mas um avesso que também se demonstra pelo método artístico da proximidade.

É entretanto em Fale com ela que a política da proximidade atinge seu ponto mais radical. Aqui, a situação de sexo que envolve um sujeito consciente e outro, inconsciente, repete-se. Como vimos, em A má educação a atualização dessa situação pelo padre Manolo é abusiva, apesar do amor; já em Fale com ela, a atualização da situação por Benigno é amorosa, apesar do abuso. (Do mesmo modo, ainda em A má educação - a rigor no filme dentro do filme que é a peça de Ignácio chamada A visita -, Ignácio, travestido de Zahara, transa com Enrique enquanto este dorme, mas de pau duro. Para revelar a dimensão benigna de um gesto que em princípio é uma espécie de necrofilia, Almodóvar se aproxima de Benigno. O que começa a ocorrer aí é uma crítica que atinge inicialmente a ciência, roça de passagem a psicanálise e incide com tudo no direito. Pois, em primeiro lugar, o devotado amor de Benigno por Alicia (que está em coma há 4 anos) abala a perspectiva científica segundo a qual o estado de coma é uma morte cerebral. À indiferença científica de Marco, que lhe diz de nada adiantar falar com Alicia, já que ela não pode ouvir, Benigno responde com uma atordoante e bartlebyana simplicidade: “Como você pode ter certeza?”.

Já a ligeira admoestação à psicanálise está imbricada à crítica contundente ao direito. Por ter abusado sexualmente de Alicia enquanto esta estava em coma, Benigno é diagnosticado pelo aparato jurídico-psicanalítico como “psicopata” e condenado à prisão por seu ato. O que aqui está em jogo é uma tensão entre generalidade e singularidade que, por meio de uma política da aproximação, dirige-se à justiça. Vejamos de que modo.

Em Força de lei, Derrida diferencia o direito da justiça. O direito não é a justiça. O direito manifesta-se por meio de leis que, originariamente, são autojustificadas, por jamais ter havido uma instância prévia que as pudesse legitimar. Assim, o direito, em si, não é justo nem injusto; ele é autofundado, “uma violência sem fundamento”. O fundamento que falta é precisamente a justiça, da qual por isso mesmo “não se pode falar diretamente”. A justiça é inapresentável, não se pode objetivá-la. O direito é da ordem do cálculo e da universalidade (que se expressa sob a forma das leis), mas a justiça exige que o cálculo seja submetido à experiência do incalculável, e a universalidade à da singularidade. Ora, o que é, então, a justiça? Justamente, a justiça não é - ela é um “porvir”, algo a que se dirige um “apelo”. Para talvez fazer justiça (pois, não existindo objetivamente, nunca se sabe ao certo se ela foi feita), um juiz deve decidir “como se a lei não existisse anteriormente”, reinventando-a a cada caso, submetendo o princípio generalista da lei à singularidade do caso concreto, numa decisão que seja ao mesmo tempo “regrada e sem regra”.

No caso de Benigno, o direito parece ser claro: seu ato configura um tipo de crime e deve ser condenado. Mas o juiz, ao apenas garantir o cumprimento da lei, agiu, como diria Derrida, como “uma máquina de calcular”. A justiça (nesse caso o aparelho jurídico que julga os réus) não fez justiça, porque não soube enxergar a dimensão amorosa do ato de Benigno, dimensão que é revelada pela arte, em sua política da proximidade. A arte, enquanto experiência da complexidade humana, emerge então como uma mediação decisiva entre o direito e a justiça. A arte, por meio da proximidade que não reduz a complexidade, revelou o envolvimento amoroso de Benigno com Alicia, amor que é a contrapartida singularizante do crime universalizado. Marco, que se aproximara de Benigno, pôde descobrir essa dimensão amorosa, e por isso não o julgava um estuprador covarde. Mas a justiça, em sua obtusidade generalizante, acabou por condená-lo à prisão (e, indiretamente, à morte). Não estou dizendo que a absolvição seria justa, mas é certo que a condenação não reflete com justeza a complexidade do ato de Benigno - que a saída do coma de Alicia e sua sugerida relação com Marco vêm redimir.

A última frase do filme, a propósito, é: “Nada é simples”.

Por: Revista Cult

Comentários

Maria Flor

Comentários

O cinema no mundo convergente

Anita Simis - Por Jonas Valente - Observatório do Direito à Comunicação

Cinema - Cinema
A professora da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Anita Simis tem longa contribuição nos estudos acadêmicos da área de comunicação. Sua tese sobre Estado e cinema no Brasil fez profunda análise sobre o desenvolvimento da sétima arte no país e as razões que prejudicaram o florescimento de uma atividade cinematográfica brasilera estável e permanente ao longo do século XX. O trabalho se tornou uma referência e foi vencedor do Prêmio Itaú Cultural em 2007. A obra foi publicada em 1997 e ganhou um segundo volume este ano. Para a acadêmica, o cinema continua sendo importante na cadeia de valor do audiovisual, mas divide cada vez mais sua importância com as novas mídias.

Em sua pesquisa sobre a realidade do cinema, como tem visto o papel que este meio vem ocupando no novo cenário de convergência?

Quando penso no atual contexto de convergência, penso que o cinema, mais especificamente os filmes estão sendo exibidos em novos meios. Assim, além das salas de cinema, temos hoje a possibilidade de ver filmes na televisão aberta, na TV por assinatura, na TV junto com aparelhos de videocassestes ou de DVDs, nos computadores que possuem DVD ou que sejam ligados à Internet, e nos celulares. Com isto, há uma ampliação na maneira de ver filmes, mas que não significa necessariamente uma ampliação na diversidade do que é visto, pois a hegemonia na produção de audiovisuais ainda é da grande indústria norte-americana.

Em sua pesquisa sobre a realidade do cinema, como tem visto o papel que este meio vem ocupando no novo cenário de convergência?

Quando penso no atual contexto de convergência, penso que o cinema, mais especificamente os filmes estão sendo exibidos em novos meios. Assim, além das salas de cinema, temos hoje a possibilidade de ver filmes na televisão aberta, na TV por assinatura, na TV junto com aparelhos de videocassestes ou de DVDs, nos computadores que possuem DVD ou que sejam ligados à Internet, e nos celulares. Com isto, há uma ampliação na maneira de ver filmes, mas que não significa necessariamente uma ampliação na diversidade do que é visto, pois a hegemonia na produção de audiovisuais ainda é da grande indústria norte-americana.

Como fica a posição do cinema na cadeia de valor do audiovisual hoje?

As salas de cinema ainda possuem uma grande importância nos lançamentos dos filmes, inclusive porque o sistema continua ainda hoje assentado sobre as cabeças de um lote de filmes. Ou seja, para se adquirir um blockbuster, o filme com grande lançamento, atores famosos, etc. o exibidor é obrigado a assumir ainda um lote de filmes menores. Mas, há também o fato de que esse blockbuster precisa jogar sua rede em um circuito globalizado e rapidamente puxar a rede com seus peixes. Quanto mais salas participarem desta rede, maior a possibilidade de arrecadar mais em pouco tempo. Nesta estrutura, a sala de cinema torna-se uma excelente alavanca, ou janela, para os outros meios da cadeia: DVD, TV por assinatura, TV aberta, etc. Mesmo assim, vemos experiências que tentam furar este modelo ao lançarem um filme primeiro na TV. Mas ainda são experiências.

O cinema tradicional, da sala escura com projeção, sofre hoje alguma ameaça na concorrência com outras formas de exibição de filmes? Como isso ocorre?

De fato, em termos de porcentagem em relação ao total da população, certamente nunca mais voltaremos à proporção da população que assistia cinema na déc