Arquivo de Comportamento

Todas as mulheres do mundo

Como a condição feminina mudou ao longo da história. De primeira dama do paraíso, virgem santíssima e carolas a Madonas, Leilas Diniz e mulheres-maravilha — muitas vezes à beira de um ataque de nervos. Preconceitos, assédios, triplas jornadas de trabalho: a mulher do século 21

Cláudio César Dutra de Souza, Sílvia Ferabolli

Pegamos emprestado o título do filme de Domingos de Oliveira, de 1966, com Paulo José e a paradigmática Leila Diniz no auge de sua beleza e talento, para fazer algumas reflexões pertinentes sobre o panorama histórico da condição feminina.

Há milênios, a mulher é submetida por formas mais ou menos explícitas de violência e contenção. A primeira é descrita no gênesis bíblico, no qual nossa mãe Eva é alçada a uma condição de inferioridade ao homem, primeiro por ser um “subproduto” de uma parte de seu corpo e não o resultado vivo do sopro divino como fora Adão. Em seguida, Eva é feita culpada pela expulsão do Éden, ao tomar parte ativa no processo de desobediência divina, ao dar ouvidos à serpente e, por conseqüência, nos jogando para fora da boa vida paradisíaca.

Segundo o culto mariano católico, mesmo num casamento restrito e monogâmico, a mulher é impura - já que não é possível ser mãe e virgem
Antes de Eva havia o mito de Lilith. No Talmude, ela é descrita como a primeira mulher de Adão que, devido a sua insubmissão a um plano divino que a colocava como naturalmente inferior, foi lançada aos infernos, como Lúcifer, tornando-se, entre outras coisas, o símbolo do desregramento sexual e sedução maligna. Características que alertavam para perigos envolvidos em um papel mais ativo da mulher. Na era cristã, a Virgem Maria apareceu como resgate e modelo para a mulher nos próximos séculos. Infelizmente, o culto mariano impõe à mulher um modelo nocivo ao seu desenvolvimento subjetivo. Mesmo dentro de um casamento restrito e monogâmico, ela jamais seria suficientemente “pura” - ostentando em si a vergonhosa mácula do pecado sexual, visto que a maternidade e a virgindade são obviamente incompatíveis.

Em qualquer revisão histórica que se efetue da condição feminina, chegam-se a conclusões semelhantes que apontam para períodos mais ou menos misóginos [1] no Ocidente. A Igreja Católica de 2008 é contida pelo Ocidente laico que, a partir do Renascimento, vem limitando, a muito custo e com relativo sucesso, o seu poder imperial. Se assim não fosse, as idéias do Vaticano na atualidade não difeririam muito de seus ancestrais medievos. Exemplo disso são as declarações dos últimos dois papas acerca da condição feminina, fatalmente ligadas aos pecados da carne, aborto, sexualidade e comportamentos sociais diversos. “Tirem os vossos rosários de nossos ovários”, bradam as feministas ainda hoje. E com razão.

Em contrapartida, por meio da luta de mulheres e homens, principalmente no século 20, foram formuladas leis de proteção e benefícios fundamentais à correção de injustiças de gênero históricas. Porém, elas, paradoxalmente, não inibem violências das mais diversas contra a descendência de Eva. Ainda hoje, mulheres vivem sob jugo patriarcal e, em certos casos, sofrem violências sob o beneplácito do próprio Estado, que, ou introduz a submissão em seu breviário de leis, ou é frouxo no julgamento e condenação com bases na honra viril maculada. Notadamente presente em países como a China, Tailândia, algumas regiões da África e Oriente Médio e também na América Latina, essa característica possui tentáculos suficientemente grandes para abarcar países do “primeiro mundo”, que não são de modo algum isentos de registros de violência e contenção do gênero feminino.

Nada contra uma mulher adulta usar o corpo como lhe convier - inclusive fazendo sexo remunerado. O que preocupa é a relação submissa que a prostituiçao cria, sob mediação do dinheiro
Poderíamos pensar que há algo de errado com os homens… Será? Descartando, por ora, aqueles que são mais ignorantes ou provenientes de culturas que reduzem a importância do feminino, nos deteremos naqueles que possuem educação cultural e meios favoráveis para um comportamento menos machista e opressor com as mulheres. Porém, não se furtam de ser cúmplices do turismo sexual do terceiro mundo, de pertencerem a redes internacionais de pedofilia e de perpetrarem de forma oculta aquilo que já não podem fazer às claras.

Donos dos meios de produção, pertencentes à elite branca e dominante, tais homens perceberam, há muito, que existem formas sutis de burlar as regras às quais estão submetidos para poderem dar vazão ao primitivismo que resiste ainda dentro de si. A primeira e mais evidente se dá no território da prostituição. Ela prospera a passos largos no mundo inteiro. Clientes cada vez mais fiéis e assíduos utilizam-na como forma de exercer menos a sexualidade do que uma relação de poder onde, sob a mediação do dinheiro, se tem a mulher que se quer e da forma mais conveniente. A manutenção da indústria da prostituição tem como princípio a miséria de mulheres e meninas nas regiões mais vulneráveis do planeta e a demanda sempre crescente por esse serviço.

Não somos contrários à decisão de uma mulher adulta usar o seu corpo da forma como mais lhe convier, e isso pode incluir o ato sexual mediante remuneração. Contudo, preocupa-nos que esse homem descrito anteriormente está sempre ávido por “carne nova” e, ao que parece, cada vez mais jovem. Para isso não hesita em aproveitar-se da indigência financeira e moral que acomete alguns países do terceiro mundo, cujo comércio de escravas sexuais movimenta altas somas financeiras e destrói a vida de adolescentes e crianças, vítimas das mais cruéis situações de maus-tratos e violência.

Nas grandes empresas, esse mesmo homem aprendeu a valer-se da mão-de-obra feminina. Farta e abundante, está sempre disposta a dar o melhor de si no ambiente laboral, visto que o fantasma de suas avós, dependentes e oprimidas, ainda se faz presente em uma mulher que hoje em dia coloca a carreira em pé de igualdade com o desejo de casar e ter filhos. E por que seriam excludentes ambas as coisas? Infelizmente as pioneiras da década de 50 a 70 pagaram um alto preço pela sua independência. Eram vistas como condenadas a ser pouco atraentes e frustradas no campo amoroso, em troca de ascensão profissional. É algo que a mulher contemporânea já não aceita. E, graças a isso, temos as famosas duplas, triplas e quádruplas jornadas da mulher. Acorda cedo, trabalha o dia todo, dá atenção à cria e de noite é esposa atenciosa e uma amante ardente para o seu marido que, por ser homem, não precisa provar muita coisa, já que, historicamente, esse sempre teve valor em si e, de certa forma, ainda mantém essa premissa interiorizada.

Modelo por modelo, preferimos a Leila Diniz: subversiva sem ser patrulhadora, amante sem acrobacias, maternal sem culpas, trabalhadora consciente de seu valor, sedutora sem ser manipuladora
Nas classes populares percebe-se a incidência cada vez maior de um matriarcado estabelecido a partir de condições sociais que destacam uma situação favorável ao trabalho feminino, em contraste ao masculino. Mulheres da periferia obtêm renda como manicures, cozinheiras, costureiras, babás, faxineiras, ou, na pior das hipóteses prostitutas - trabalhos tradicionalmente associados ao feminino. Os homens nessas mesmas condições percebem a sua capacidade tradicional de trabalho diminuída no que se refere às atividades mais tradicionalmente ligadas ao masculino, seja por terem que dividi-las com as mulheres, seja pela perda de postos de trabalho ou exigências cada vez maiores de qualificação para ocupá-las. Assim não são raros os homens ociosos, alcoolistas e, muitas vezes, violentos com suas mulheres – aquelas mesmas que arcam com o orçamento familiar, custos de criação dos filhos e que, não raro, sofrem com a violência e desprezo masculino, que insiste em negar-lhes o valor merecido. De acordo com a pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), feita no Brasil em 1998, a violência doméstica é a causa de uma a cada cinco faltas de mulheres ao trabalho [2].

É uma premissa comum no universo do liberalismo econômico o de capitalizar as revoluções a fim de domesticá-las e inseri-las em um contexto lucrativo e palatável. E a revolução feminina das últimas décadas parece não fugir a essa mesma regra. Tendo adquirido o direito a uma sexualidade livre, a mulher ainda continua a sofrer com estigmas morais e a perder o seu valor com o declínio da beleza e da juventude. Tendo conseguido ascender ao mercado de trabalho, sofre explorações, assédios e humilhações. Isso reflete-se na vida pessoal, tornando-a estressante e sofrida, o que acarreta em moléstias que vão da depressão, ausência de libido até moléstias cardíacas - que incidem de forma cada vez mais preocupante no universo feminino.

Tais exemplos sugerem que talvez a mulher pós-feminista tenha tornado-se um bom negócio comercial, sexual e laboral. O que poderia ter dado errado em décadas de lutas feministas então? Talvez Camille Paglia tenha algumas respostas. Ela denuncia o feminismo xiita e politicamente correto dos anos 70, que tentou anular algumas premissas básicas em relação á estruturação subjetiva daquilo que nomeamos como o “feminino”, criticando violentamente a geração de Betty Friedan e o feminismo militante que anulava as diferenças entre os sexos. Palavras de Camille na Folha de São Paulo do dia 27 de março de 2006: “No começo dos anos 90 eu declarei guerra contra o stalinismo do politicamente correto no establishment feminista. Isso causou controvérsia, especialmente minha defesa da pornografia e das revistas de moda. Mas, graças à Madonna, minha ala do feminismo ganhou a batalha. Ela influenciou uma geração de mulheres que abraçou novamente o sexo e a beleza.”

Afora os deslumbramentos de Miss Paglia, Madonna certamente é um ícone da modernidade, que fornece algumas pistas para o entendimento das benesses e das armadilhas em que as mulheres se vêem envolvidas atualmente, na ânsia de buscarem o absoluto, que é reservado a poucas (e poucos). Modelo por modelo, ao invés da apolínea popstar norte-americana, optamos pela nossa dionisíaca Leila Diniz que, na década de 60, já previa a multiplicidade de formas e contradições do feminino, que cada vez mais se pronunciam nesse milênio, só que de uma forma mais fluídica e prazerosa. Desobrigada da perfeição estética e da produção maquinal de gozos, Leila era subversiva sem ser patrulhadora, amante sem acrobacias, maternal sem culpas, trabalhadora consciente de seu valor, sedutora sem ser manipuladora, enfim, essa foi a imagem quase arquetípica que dela ficou.

Nunca a mulher desfrutou de tanta liberdade como hoje, em certos agrupamentos sociais. E o avanço da condição feminina só acrescenta, ao universo masculino, a companhia de uma mulher mais plena
Estamos convencidos de que o avanço da condição feminina só acrescenta benesses ao universo masculino, que, ao longo das últimas décadas, desfruta da companhia de uma mulher mais plena e companheira. Nunca ela desfrutou de tanta liberdade em certos agrupamentos sociais como nos dias de hoje. Infelizmente, ecos medievais ainda subsistem nos corações e mentes. Até mesmo nos daqueles que, aparentemente, se apresentam como os mais evoluídos, sendo que ainda estamos longe do ideal de igualdade entre os gêneros, visto que basta a experiência de uma guerra para que o nosso verniz civilizatório venha por água abaixo [3].

Mudar a mentalidade masculina torna-se um imperativo para que possamos reduzir comportamentos agressivos e misóginos no mundo atual. Para isso, entendemos ser necessário uma conscientização feminina no sentido de que as mulheres assumam a sua parcela de culpa na transmissão de inúmeros preconceitos. Principalmente, na educação das crianças, da qual ainda são as grandes responsáveis direta, como mãe e indiretamente como educadoras, visto que a quase totalidade desse ramo profissional, mais incisivamente na América Latina, se constitui de mulheres que, não raro, educam meninos e meninas sob as regras mais conservadoras possíveis - fato que, na maioria dos casos, não lhes é consciente.

Temos esperanças de que as reivindicações e lutas em prol de uma sociedade menos sexista e injusta frutifiquem nas próximas décadas. Mas para que isso se cumpra, ainda há muitas lutas a empreender. Recordemos, por exemplo, que somente com o novo Código Civil, que passou a valer a partir de 2003, o homem deixou de ser considerado como a “cabeça do casal”, bem como foram suprimidos outros arcaísmos humilhantes tal como o bizarro conceito de “mulher honesta” [4]. Que o Dia Internacional da Mulher, que comemoramos no mês de março, não sirva apenas para afagos e flores compensatórias, mas que seja também o dia em que Eva, Lilith, a Virgem Maria, Madonna, Leila Diniz, Condoleeza Rice, a mãe, a virgem, a puta, a trabalhadora, enfim, todos os arquétipos e estereótipos possam se unir em um ser integral pleno de contradições, qualidades, defeitos e subjetividades inerentes a qualquer ser humano, independente do gênero a que pertença.

Le Monde diplomatic

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Idosos roubam para voltar à cadeia no Japão

11/12/2008

Philippe Mesmer
Em Tóquio

Era o fim do mês de agosto, no sufocante torpor do verão em Tóquio. Na estação ferroviária do bairro elegante de Shibuya, duas jovens foram atacadas a faca. A autora da agressão: uma mulher de 79 anos, sem residência e com 6.500 ienes (€ 53) como única riqueza. “Eu não tinha para onde ir”, ela declarou a seu advogado. “Queria que a polícia cuidasse de mim.” Abrigada há algumas semanas em um centro social para sem-tetos, ela não tinha família nem amigos.

Por mais trágico que pareça, o caso ilustra a importância do problema da criminalidade de pessoas idosas no Japão. Segundo a edição 2008 do “Livro Branco sobre a Criminalidade”, lançado no início de novembro, o número de infrações ao código penal registrou em 2007 uma queda de 6,5%, para 2,7 milhões. Em redução pelo quinto ano consecutivo, ele volta ao seu nível do final dos anos 1990.

O recuo envolve o conjunto das faixas etárias da população, com exceção dos maiores de 65 anos: 48.605 deles foram detidos, 4% a mais que no ano anterior, um recorde desde que o ministério começou a compilar esses dados, em 1986. O número de idosos reconhecidos culpados de crimes de delitos se multiplicou por cinco em 20 anos. Ao mesmo tempo, essa população “apenas” duplicou, passando de 13,7 milhões para 27,5 milhões.

A progressão rápida e regular dessas estatísticas levou o Ministério da Justiça a lhe dedicar um estudo, confiado ao Instituto de Pesquisa e de Formação. “Os maiores de 65 anos são presos tanto por furtos quanto por agressões ou homicídios”, constatou Toru Suzuki, que dirigiu o estudo. Os pesquisadores interrogaram 368 pessoas condenadas. “A principal causa dessa criminalidade é a falta de recursos”, explica Suzuki. “Eu queria economizar meu dinheiro”, “Eu estava com fome” são explicações comuns dadas por idosos presos por furto.

Cerca de 45% dos que recebem o salário mínimo japonês, ou seja, 498 mil famílias, são constituídas de pessoas idosas. A perspectiva de rendas mais limitadas, o aumento das desigualdades e a explosão do número de aposentados com a chegada da geração baby boom à idade de encerrar a atividade econômica já são vistas como um risco de aumento dos crimes e delitos.

Outro fenômeno em causa é a solidão, às vezes tão intensa que a polícia registrou casos de mulheres idosas que cometem furtos em mercearias na esperança de ser apanhadas. Elas sabem que poderão passar algumas horas falando com alguém. Com freqüência não são processadas. Quando os dois fatores se conjugam, levam a situações extremas. Homens idosos que perderam a esposa e recebem rendas magras, caem no crime para ser presos. Sabem que então receberão três refeições por dia e o pessoal cuidará deles.

Alguns não hesitam em recorrer à reincidência para voltar para trás das grades. Como um homem de 67 anos, sem família nem conhecidos, que furta toda vez que é libertado. “Eu não sei como fazer para obter ajuda do governo. Mas sei roubar. Então eu roubo”. Outro de 76 anos, em liberdade condicional, usou todo o dinheiro que tinha ganhado na prisão para consumir saquê. Sem dinheiro, teve de dormir na rua e começou a roubar para se alimentar. Recapturado, voltou à prisão. “Aqui podemos dormir, comer e trabalhar”, ele declarou aos autores do estudo.

O Ministério da Justiça pôde observar que de 50 casos de homicídios estudados pelos pesquisadores a maioria visava os cônjuges. Atos desesperados cometidos no paroxismo de um esgotamento acumulado durante anos. Uma mulher de 69 anos que nunca havia tido problemas tentou estrangular o marido, vítima de senilidade há vários anos.

Para Tomomi Fujiwara, autor de “Boso Rojin” [Os velhos coléricos], “antigamente os laços de sangue e comunitários serviam para limitar os desvios de comportamento. Cometer um crime significava suicidar-se socialmente. Com a crescente solidão dos idosos esse não é mais o caso”. Por exemplo, “o estigma dos ladrões quase desapareceu”.

Além dos problemas sociais, a multiplicação de casos que envolvem essa população cria dificuldades nas prisões. De menos de 10 mil em 2000, o número de detidos com mais de 65 anos hoje se aproxima de 30 mil. A progressão levou o governo a liberar 8,3 bilhões de ienes (€ 67,8 milhões) para construir três centros que poderão receber mil prisioneiros idosos. De modo mais geral, a publicação dos números do ministério constitui um indício da ausência quase total de organismos para cuidar dos idosos. Algumas associações, como a Sanyukai, essencialmente envolvidas na ajuda aos sem-tetos, às vezes ampliam seu campo de ação às pessoas idosas e solitárias.

Há iniciativas, principalmente em Hokkaido, onde pequenas residências com cozinhas, salas de estar e banheiros comuns se esforçam para receber idosos solitários, ao mesmo tempo que estudantes ou assalariados de baixa renda, a fim de recriar um elo comunitário. Mas isso é limitado e insuficiente. Os serviços a domicílio, quando existem, são muito caros, assim como as casas de retiro, quase inacessíveis para os titulares de recursos modestos.

Por enquanto, nada foi decidido para conter o aumento da criminalidade dos idosos. O Ministério da Justiça reconhece: “Chegamos ao ponto em que se tornou necessária uma revisão do conjunto das medidas anticriminalidade”. Para combater a reincidência, o Ministério da Saúde, do Trabalho e dos Assuntos Sociais pediu que uma verba seja prevista no orçamento de 2009 para a criação de centros de acolhimento de detidos em final de pena e de saúde frágil. Além disso, “toda a sociedade deve se mobilizar e agir nos campos judiciário, da ajuda social e do emprego”, estimou em 9 de novembro em um editorial o jornal conservador “Yomiuri”. “Para impedir que os idosos cometam crimes, é vital não os isolar da sociedade”.

De 22,1% da população em 2008, a proporção de japoneses com mais de 65 anos deverá passar para 40% em 2050.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

do Le Monde

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Contardo Caligaris - DESEMPREGO [1.4.2004 ]

Capa da Folha, em 2.2.2004 : em fevereiro, na região metropolitana de São Paulo, o índice de desemprego subiu mais um pouco.

No domingo, o caderno “Empregos” assinalava que 56 semanas é o tempo médio para que um desempregado encontre trabalho. Haja ânimo.

As porcentagens variam segundo o índice escolhido, mas, de qualquer forma, é provável que todos os paulistanos conheçam um amigo ou um parente que, a cada manhã, olha no espelho e se pergunta por que fazer a barba ou por que escovar o cabelo.

Estou lendo um livro recente, que trata dos efeitos das adversidades externas sobre nossa saúde mental, Adversity, Stress and Psychopathology [Adversidade, Estresse e Psicopatologia], de Bruce Dohrenwend (organizador). A perda do emprego está na lista dos piores fatores adversos, com as catástrofes naturais, a morte de uma pessoa amada, o estupro, a doença grave, a separação ou o divórcio.

Nenhuma novidade nisso: é fácil entender que a perda do emprego seja fonte de angústia, de depressão e mesmo, às vezes, de “comportamentos anti-sociais”: alcoolismo, violência familiar e condutas criminosas. Compreendemos imediatamente, por exemplo, o desespero do provedor (ou da provedora) que não consegue preencher as expectativas de seus dependentes. “Se a família não pode mais contar comigo, perco minha razão de ser.”

Mas há algo mais, que talvez faça do desemprego a adversidade mais danosa para nossa saúde mental. Preste atenção: no balcão de um boteco, como na mesa de um jantar, se seus vizinhos forem desconhecidos, a primeira pergunta não será “quem é você?”, mas “o que você faz na vida?”. Se eles tiverem uma intenção alegre, talvez tentem primeiro descobrir seu estado civil. Fora isso, o interesse pela sua identidade se apresentará como interesse por seu papel produtivo.

Ora, tanto você como seu vizinho (ou vizinha) viverão essa conversa inicial como um momento, de alguma forma, falso. Pois todos sabemos que somos mais do que nosso ofício: temos histórias, amores, esperanças, interesses, paixões e crenças que, de fato, expressariam muito melhor quem somos. Ao trocarmos cartões de visita, mentimos por omissão. Identifico-me como executivo, bancária, escritor, médica, mecânico, mas quem sou eu? A poeta da meia-noite? O sedutor das salas de bate-papo na internet? O piadista do bar da esquina? O pai preocupado com a doença do filho? A mulher que, a caminho do escritório, se agacha e conversa com o sem-teto que vive na calçada? O homem que cantarola Dorival Caymmi tomando banho?

Não é o caso de sermos nostálgicos. Num passado não muito remoto, cada um era definido por sua proveniência, e as perguntas iniciais diziam: quem foram seus pais e antepassados? Onde você nasceu? Quais são as dívidas que você herdou?

Prefiro os dias de hoje, em que são nossas próprias façanhas que nos definem. É uma escolha que deveria nos deixar mais livres, mas acontece que a praticamos de um jeito estranho: junto com os laços que nos prendiam às nossas origens e ao passado, nossa vida concreta também é silenciada na descrição de nossa identidade. E nos transformamos em sujeitos abstratos, resumidos por nossa função na produção e na circulação de mercadorias e serviços.

Conseqüência: o desemprego nos ameaça com uma perda radical de identidade. E não adianta observar que, afinal, nos sobra o resto, ou seja, toda a complexidade de nosso ser. Tipo: “Perdi meu emprego, mas ainda sou pai amoroso, amante, esposo, amigo, leitor de Saramago e corintiano ou palmeirense”. Não adianta porque, em regra, já renunciamos há tempos a sermos representados por nossa vida concreta.

Não é por acaso que as mulheres lidam com o desemprego melhor que os homens, como mostra uma pesquisa recente de Lucia Artazcoz e outros, Unemployment and Mental Health: Understanding the Interactions Between Gender, Family Roles and Social Class [Desemprego e Saúde Mental: Para Compreender as Interações Entre Gênero, Papéis Familiares e Classe Social], American Journal of Public Health, 2004, 94. Duas constatações de Artazcoz: 1) o impacto do desemprego é maior nos homens casados do que nos celibatários (”se não traz o feijão, você ainda é o pai?”) 2) as mulheres casadas com filhos, ao perderem o emprego, sofrem menos que os homens e menos que as celibatárias. Explicação: para as mulheres, o exercício da maternidade ainda constitui uma identidade possível. “O que você faz na vida?”. “Tomo conta de meus filhos.” Para os homens, essa resposta não basta.

Enfim, espera-se que a economia crie empregos. Mas os poetas e os saltimbancos também têm uma tarefa crucial: são eles que podem, aos poucos, convencer a gente de que é nossa vida concreta que nos define, não nossa função produtiva.

P.S.: Um sonho recorrente propõe que reaprendamos a colocar raízes, ou seja, a definir nossa identidade por uma parcela de terra que nos sustentaria, que seria nossa e à qual pertenceríamos. Em 1932, Henry Ford, consternado pela crise que assolava os EUA, aderiu ao movimento da volta à terra. Declamou: “A terra! É lá que estão nossas raízes. Nenhum seguro-desemprego pode se comparar à aliança entre um homem e seu pedaço de terra”. Curioso precursor de João Pedro Stedile, ele imaginava (e nisso tinha razão) que, se cada um mantivesse uma relação íntima com seu lote de terra, o desemprego poderia ser um aperto econômico, mas não uma queda no vazio. Pena, já era tarde demais para isso.

*
Folha de S. Paulo

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Elisabete Brasil: "Há cada vez mais mulheres refugiadas em casas-abrigo"

2008 foi o pior dos últimos cinco anos no que respeita ao número de vítimas mortais da violência doméstica em Potugal. Só até Outubro, 43 mulheres tinham sido assassinadas e mais de meia centena escaparam a tentativas de homicídio de actuais ou ex-companheiros. Elisabete Brasil, presidente da UMAR, uma ONG que se dedica à luta pelos direitos das mulheres, faz o ponto da situação nesta entrevista ao esquerda.net. Veja aqui o resto da entrevista

 

 

As alterações legislativas na protecção das vítimas de violência doméstica vêm ao encontro das preocupações das ONG’s, mas as intenções do legislador esbarram na prática dos tribunais. Elisabete Brasil diz que o sistema judicial está igual ao que era há dez anos, e por isso apenas um homem está a cumprir pena de prisão por violência doméstica, apesar das denúncias e queixas serem hoje muito mais. 

 

 

campanha "Eu não sou cúmplice" destina-se a mobilizar os homens na luta contra a violência sobre as mulheres. Ela começou no Brasil, em resposta ao apelo do secretário-geral da ONU no lançamento duma campanha mundial para sensibilizar os líderes políticos no combate à violência doméstica. A UMAR trouxe a ideia para Portugal e lançou uma petição on-line para que os homens portugueses possam também dizer que não pactuam com situações de violência no seu círculo de amigos e colegas de trabalho.

 

  • Veja mais matérias sobre violência doméstica em Potugal.

Dossier Violência contra as mulheres

Portugal: Violência doméstica mata uma mulher por semana

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Portugal: Violência doméstica mata uma mulher por semana

23-Nov-2008 - Esquerda.net

Foto Paulete MatosA violência doméstica está a aumentar em Portugal e este ano são já 43 mulheres assassinadas por actuais ou antigos companheiros e maridos, mais do dobro que em todo o ano passado. Outras 64 tentativas de homicídio resultaram em marcas para toda a vida no corpo das vítimas. As armas de fogo estão presentes na maior parte dos casos registados pela GNR, seguidos de ferramentas e armas brancas. Mas o envenenamento rivaliza com estas últimas no modo como o agressor tenta acabar com a vítima. Do lado da PSP, os casos identificados até ao fim de Outubro já superam os de todo o ano de 2007. E as vítimas são sobretudo mulheres jovens, entre os 24 e os 35 anos.

Ante a dimensão da tragédia, o poder do Estado para reprimir este tipo de crime ainda esbarra no preconceito e indiferença. A máxima “entre marido e mulher, não metas a colher” não está afastada das práticas da justiça e da polícia. Por exemplo, no distrito do Porto, os 800 casos identificados deram origem a apenas duas detenções. É no norte do país que se registam mais denúncias e mais homicídios, mas isso não explica que em sete distritos do território nacional não tenha existido uma única detenção de agressores este ano.
A maior visibilidade dos centros de apoio às vítimas e das campanhas contra a violência doméstica fizeram muitas mulheres perder o medo e avançar com denúncias e queixas, mas a resposta do lado judicial deixa-as muitas vezes entregues à sua própria sorte.

Com leis que impedem a detenção do agressor sem flagrante delito, o que dificilmente acontece já que a agressão é praticada dentro de casa, mesmo depois de constituído arguido o agressor é mandado para casa. O direito da vítima a ser protegida é assim posto em causa, já que é ela que tem de abandonar a casa para se afastar do agressor. E muitas vezes não existem condições para isso, recomeçando o ciclo de agressões físicas e psicológicas e a pressão para o abandono da queixa judicial. É isso que acontece na esmagadora maioria dos casos levados à justiça portuguesa: as queixas que não são arquivadas ou suspensas a pedido da vítima vão a julgamento, e a produção de prova nestes casos não é fácil, sem testemunhas e com vítimas pouco colaborantes. O que ajuda a explicar o facto de actualmente a pena de prisão por violência doméstica esteja a ser cumprida por apenas um homem.
As medidas anunciadas pelo governo nas últimas semanas vão ao encontro das soluções há muito defendidas quer pelas ONG’s no terreno, quer pela esquerda parlamentar. É o caso das pulseiras electrónicas para os agressores, que verifica se está a ser respeitada a distância em relação à vítima fixada pelo tribunal. Ou do fim do flagrante delito como condição para a prisão preventiva, evitando em muitos casos que o agressor saia da esquadra para voltar ao local do crime. Ambas as medidas foram propostas pelo Bloco de Esquerda e têm sido defendidas como uma necessidade urgente para poupar vidas, já que a experiência prova que é após a queixa que o perigo aumenta para a vítima.

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Dossier Violência contra as mulheres

 

No Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, o esquerda.net associa-se à campanha "Eu não sou cúmplice" e faz o ponto da situação da realidade portuguesa na entrevista a Elisabete Brasil. Vemos o que se passa em Espanha e França, relatamos uma experiência de plataforma unitária na Catalunha e reproduzimos um relatório da Amnistia Internacional sobre a zona mais perigosa do mundo para mulheres e crianças: a província do Kivu Norte, na RD Congo. A deputada Helena Pinto faz o balanço dos avanços legislativos da última década em Portugal e damos a conhecer alguns vídeos de campanhas e também videoclips de músicas que alertam o mundo para este crime que diz respeito a todos e tarda em desaparecer.

 

 Por: Esquerda.Net

 

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Show do eu: a vitrine da própria personalidade. Entrevista especial com Paula Sibilia

“A intimidade tem se convertido numa espécie de cenário no qual devemos montar o espetáculo de nós mesmos”, constata Paula Sibilia, pesquisadora do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Com a revolução tecnológica da informação, o proliferamento da internet, o aumento de blogs e sites de relacionamento, o significado de intimidade mudou radicalmente, criando uma vida espetacularizada. Em entrevista à IHU On-Line, por e-mail, Paula diz que as novas tecnologias correspondem também a um novo modelo de vida social, e que “usamos essas ferramentas para responder às demandas de um universo cada vez mais distante daquela cultura oitocentista que incentiva a escrever diários verdadeiramente ‘íntimos’”.

Nessa nova perspectiva, a vida e as relações ganham um novo sentido e a pessoa só existe se aparece para alguém. “Uma das principais manifestações dessa virada é um crescente desejo de ser visto, uma vontade de se construir como um eu visível, como um personagem que os outros podem ver e, graças a esse olhar reconfortante, confirmam a existência de quem se exibe”, analisa. Assim, o homem moderno tem uma personalidade alterdirigida ou orientada para o olhar dos outros. “Isto não acontece apenas na Internet, é claro, mas nas diversas práticas contemporâneas onde impera esse desejo desesperado de que os demais nos enxerguem e nos observem para que possamos existir”, explica.

Maria Paula Sibilia é graduada em Ciências da Comunicação, pela Universidade de Buenos Aires (UBA), mestre na mesma área, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e doutora em Saúde Coletiva, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professora no Departamento de Estudos Culturais e Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autora de O homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002), Paula acaba de lançar seu novo livro O show do eu (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que transformações na subjetividade humana são apresentadas no seu novo livro O show do eu? Como elas interferem ou modificam a forma de “ser e estar” no mundo?

Paula Sibilia - A inquietação inicial, que motivou a escrita deste livro foi o surgimento dos blogs. Ou seja, esses “diários íntimos” que de repente começaram a ser publicados na internet. A pergunta era a seguinte: até que ponto e em que sentido eles podiam ser considerados íntimos, se eram expostos tão publicamente na web? Durante as primeiras etapas da pesquisa, enquanto tentava formular corretamente e inclusive responder a essa pergunta, começaram a surgir outros fenômenos nos quais se dava o mesmo paradoxo: os reality-shows na televisão, os fotologs e videologs, as redes de relacionamentos como o Orkut, o MySpace e o Facebook, certos usos do YouTube e das webcams etc.

Então, achei que se tratava de sintomas de uma nova época: todas essas novidades eram sinais de que algo tinha mudado radicalmente no que entendemos por intimidade, bem como no que é público e no que é privado hoje em dia. Por tudo isso, creio que essas novas formas de expressão e comunicação que agora proliferam, de fato, nada mais fazem do que amplificar certas tendências que também estão presentes fora da mídia, pois algo muito semelhante ocorre em nossa vida espetacularizada de todos os dias. Por isso, apesar da ênfase nas novas práticas presentes na Web 2.0, eu tendo a afirmar que se trata de um fenômeno bem mais amplo: usamos essas ferramentas para responder às demandas de um novo tipo de sociedade, um universo cada vez mais distante daquela cultura oitocentista que incitava a escrever diários verdadeiramente “íntimos”.

Uma das principais manifestações dessa virada é um crescente desejo de ser visto, uma vontade de se construir como um eu visível, como um personagem que os outros podem ver e, graças a esse olhar reconfortante, confirmam a existência de quem se exibe. Mas por que será que isso tudo acontece logo agora? A minha hipótese é que no mundo contemporâneo estão se transformando os modos em que se constrói esse eu que fala e que se mostra sem pausa, justamente porque necessita se exibir para ser alguém.

A conclusão é, portanto, que está acontecendo um deslocamento histórico do eixo em torno do qual se constrói o que é cada sujeito, e esses novos fenômenos tão presentes na Internet atual seriam um indício dessa mutação. Pensemos que naqueles tempos modernos que já começam a ficar envelhecidos — um período cujo auge ocorreu no século XIX e na primeira metade do XX —, esse eixo se edificava em torno da “interioridade” de cada indivíduo, em volta de algo que se acreditava hospedado “dentro” de cada um e que guarnecia sua essência pessoal. Nos últimos anos, parece que esse eixo tem se deslocado em direção à superfície do corpo e, inclusive, cada vez mais, verte-se avidamente nas telas e em outras vitrines midiáticas.

IHU On-Line – Em que sentido a especularização da intimidade se relaciona com o desejo de “ser alguém”? Como isso está acontecendo, na contemporaneidade?

Paula Sibilia - O que se procura, nessas novas práticas “exibicionistas” e “confessionais” não é mergulhar no mais obscuro de si mesmo para ter acesso às próprias verdades, como acontecia na escrita do diário íntimo tradicional ou no relato vital da psicanálise, por exemplo. Agora se persegue a visibilidade e, em certo sentido, também a celebridade. Ambas como um fim em si mesmo, não como um meio para atingir outra coisa e nem como uma conseqüência de algo maior. Uma via para poder “ser alguém” na sociedade atual.

De modo que não se trata mais daquele gesto introspectivo que consistia em se afundar “dentro” de si mesmo, mas tudo o contrário: aqui são exercidos movimentos para “fora”, que buscam a valiosa possibilidade de ter um público assistente diante do qual se exibir. Embora os espectadores que constituem esse auditório sejam limitados, o importante é conquistar alguma porção de visibilidade, porque após ter se perdido aquela âncora que sustentava o que se era no interior de si mesmo, só quando alguém nos olha e nos vê, podemos ter garantias de que realmente existimos. Eis uma das premissas da nossa “sociedade do espetáculo”, tal como a definira Guy Debord (1) em seu manifesto de 1967.

IHU On-Line – O que essa necessidade de exposição revela sobre os seres humanos e o atual momento que estamos vivendo?

Paula Sibilia - É evidente que a intimidade tem deixado de ser o que era. Naquele outro contexto histórico dos “velhos tempos modernos” — isto é, aquele denso período que abrangeu todo o século XIX e a primeira metade do XX —, cada um devia resguardar sua própria privacidade de qualquer intromissão alheia, não só por meio de paredes opacas e portas fechadas, mas também mediante todos os rigores e pudores da antiga moral burguesa.

Agora, ao contrário, a intimidade tem se convertido numa espécie de cenário no qual devemos montar o espetáculo de nós mesmos: a vitrine da própria personalidade. E esse show do eu tem que ser visível. Porque se esses pequenos espetáculos intimistas se mantivessem dentro dos limites da velha privacidade — aquela que era oculta e secreta por definição — ninguém poderia vê-los e, portanto, correriam o triste risco de não existir. É por isso que hoje se torna tão imperiosa essa necessidade de tornar público algo que supostamente deveria permanecer protegido no silêncio do privado; porque mudaram os modos de construção do eu e os alicerces em cima dos quais se sustenta esse edifício.

IHU On-Line – Por que o ser humano sente que precisa “aparecer” para “ser alguém”?

Paula Sibilia - Porque nesse novo modo de vida que tem se tornado hegemônico neste início do século XXI, só é aquilo que se vê. Portanto, é necessário se construir como uma subjetividade visível para que o olhar alheio possa confirmar que existimos. O importante é que cada indivíduo seja capaz de produzir um personagem visível para se mostrar e se vender, e que os outros se ocupem de confirmá-lo com seu olhar. Por isso, estas novas práticas denotam a configuração de novos tipos de subjetividades, formas eminentemente contemporâneas de se auto-construir, cada vez mais distantes do “homem moderno” que brilhou no século XIX.

Para utilizar o vocabulário do sociólogo norte-americano David Riesman, trata-se de modos de ser que não são mais introdirigidos ou orientados para “dentro” de si mesmo, ali onde residia o “caráter” do homem moderno ou o núcleo do que era cada um. Em vez disso, agora somos personalidades alterdirigidas ou orientadas para o olhar dos outros. E isto não acontece apenas na Internet, é claro, mas nas diversas práticas contemporâneas onde impera esse desejo desesperado de que os demais nos enxerguem e nos observem para que possamos existir.

IHU On-Line – Como a senhora percebe, nesse contexto, a crescente exteriorização do “eu”? O que isso significa e revela sobre o comportamento humano?

Paula Sibilia - Acredito que estes fenômenos de crescente “exteriorização” do eu são compatíveis com o projeto de mundo no qual vivemos. Refiro-me a que são manifestações históricas, e não é mero acaso o fato de que tenham se popularizado logo agora, até se tornar um verdadeiro fenômeno. Porque estas novas práticas respondem a certas demandas dos sujeitos contemporâneos e permitem satisfazer determinadas exigências da nossa sociedade. Assim como o diário íntimo, as cartas, os romances realistas e inclusive a psicanálise eram compatíveis com aquele outro projeto de mundo que se afasta cada vez mais de nós. Os homens e mulheres dos séculos XIX e XX recorriam a essas ferramentas porque delas precisavam para se construir como sujeitos à altura da sua época, assim como agora necessitamos esses outros instrumentos que a Internet nos oferece.

O mundo contemporâneo não solicita introspecção, mas ele pede aos gritos visibilidade, celebridade, habilidades comunicativas e marketing de si mesmo. Por isso, cada um deve aprender a se administrar como uma empresa, posicionando sua marca no mercado das aparências. E essas ferramentas de exposição multimídia e interativas nos ajudam a consegui-lo, além de nos capacitar para termos sucesso nessas arenas.

Podemos dizer que se trata de um projeto histórico comparável ao do capitalismo industrial dos séculos XIX e XX, e que sem dúvida dele provém, embora várias das suas premissas e objetivos foram mudando nas últimas décadas. Essas transformações extremamente complexas, ocorridas tanto nos níveis econômicos e políticos como sociais e culturais, levam a pensar que em boa medida esse projeto mudou, e que o mundo ocidental agora precisa de outro tipo de sujeitos para poder funcionar corretamente. Precisa de gente como nós, que usamos estas ferramentas e somos com elas compatíveis, assim como estamos deixando de ser perfeitamente afinados com todo aquele instrumental típico da modernidade industrial que hoje nos parece tão antiquado.

IHU On-Line – A senhora percebe uma mudança de paradigma no que se refere à subjetividade? Por que em alguns aspectos o ser humano ainda é extremamente reservado e em outros, pelo contrário, bastante liberal?

Paula Sibilia - Sim, o que aconteceu — ou ainda está ocorrendo — pode ser considerado uma mudança de paradigma. Porque na segunda metade do século XX começou a se configurar uma nova torção nesse panorama, que agora se consuma neste curioso fenômeno de exibição da intimidade que tanto nos surpreende. Mas o que está ocorrendo é bastante complexo.

Por um lado, protegem-se cuidadosamente certos dados pessoais, especialmente de índole financeira e comercial, contra as temidas invasões da privacidade. Essa preocupante possibilidade é cada vez mais propiciada pelos modos de vida contemporâneos e pela atual economia empresarial, que se baseia em sistemas eletrônicos de monitoramento e de marketing direcionado.

No entanto, por outro lado, algo bem diferente é a evasão da intimidade, isto é, a própria exposição voluntária na visibilidade das telas globais daqueles aspectos da existência que antes concerniam à intimidade pessoal mais recôndita de qualquer um e que, por tal motivo, deviam ser decorosamente protegidos entre quatro paredes.

IHU On-Line – Pode nos explicar o que são homo psychologicus e homo privatus? De que maneiras ambos se manifestam nos seres humanos, atualmente?

Paula Sibilia - Trata-se de um tipo de subjetividade historicamente localizada, que se tornou hegemônica ao longo de todo o século XIX e boa parte do XX, e que hoje estaria em crise. Para tentar compreender do que se trata, vale lembrar que a separação entre o âmbito público e a esfera privada da existência é uma invenção histórica, una convenção que em outras culturas não existe ou se configura de modos diferentes. Inclusive nas sociedades ocidentais, essa distinção é relativamente recente: a esfera da privacidade só passou a ganhar certa consistência na Europa do século XVIII, como uma repercussão do desenvolvimento do capitalismo industrial e dos modos de vida urbanos engendrados pela modernidade.

Naqueles tempos já remotos, começou a surgir um espaço de refúgio destinado a cada indivíduo e à família nuclear burguesa. Nesses ambientes privados que convidam à introspecção, os sujeitos modernos podiam encontrar aquilo que tanto ansiavam: um território a salvo das exigências e dos perigos que começavam a vigorar no âmbito público das grandes cidades. Trata-se, justamente, do espaço privado: o território por excelência onde transcorre a intimidade — ou, pelo menos, onde ela costumava transcorrer. Ou seja: um abissal universo particular, que para poder ser cultivado e prosperar requeria silêncio, solidão e uma nevoa de segredos.

Assim, a partir do século XIX, para poder desenvolver e burilar o próprio eu, era fundamental dispor de “um quarto próprio”, como apregoara a escritora britânica Virginia Woolf em uma série de conferências pronunciadas a princípios do século XX que se tornaram um verdadeiro emblema das reivindicações feministas. Ou seja, um espaço separado do âmbito público e da intromissão alheia por meio de sólidos muros e portas fechadas. A privacidade e a intimidade eram necessárias para poder ser alguém, para se tornar um sujeito moderno e estar em condições de produzir a própria subjetividade.

Como contrapartida, esse redobrar-se na privacidade do lar, na intimidade e na interioridade psicológica de cada um, motivou também o surgimento de uma atitude de crescente passividade e indiferença com relação aos assuntos públicos e políticos. Certa estigmatização desse espaço “exterior” e um desinteresse por todo esse universo, que era paralelo à gradativa concentração no espaço privado e nos conflitos íntimos de cada um.

Nota:

1.- Guy Debord (1931-1994): filósofo e sociólogo francês, autor de A sociedade do espetáculo - Comentários sobre a sociedade do espetáculo (Rio de Janeiro, Contraponto, 1997) e fundador da Internacional Situacionista (IS). Sobre ele, confira ainda a autobiografia Panégyrique (Paris: Éditions Gérard Lebovici, 1989). (Nota da IHU On-Line).

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Criança, a alma do negócio

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O racismo pode ser um empecilho a Obama?

Duas década atrás, Douglas Wilder viu sua vantagem de 9% nas pesquisas para as eleições ao governo do Estado da Virgínia cair para apenas 0,1% quando os votos foram contados.
Mesmo assim, ele ganhou as eleições, tornando-se o primeiro negro a ser eleito governador de um Estado americano. Mas a vitória apertada fez com que analistas especulassem que ele teria sido uma vítima da hesitação de brancos em votarem em um candidato negro.
Segundo a teoria, alguns eleitores brancos afirmam em pesquisas de opinião que votarão em um candidato negro, mas, na privacidade da urna eleitoral, acabam escolhendo o nome de um branco.
É isto que alguns apoiadores do senador Barack Obama, que concorre à Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, temem que aconteça no próximo dia 4 de novembro.
O fenômeno é conhecido como o "Efeito Bradley". Tom Bradley era o prefeito afro-americano de Los Angeles quando, concorrendo às eleições para o governo da Califórnia em 1982, viu sua vantagem nas pesquisas pouco antes da votação evaporar, dando a vitória a seus concorrente, o republicano branco George Deukmejian.
Em 1989, no mesmo ano em que Wilder se tornou o governador da Virgínia, David Dinkins foi eleito o primeiro prefeito negro de Nova York, mas também viu uma vantagem de 18 pontos nas pesquisas se tornar apenas 2% no dia da eleição.
Será que o mesmo pode acontecer com Obama? Charles Henry, um professor da Califórnia que está entre os primeiros a estudarem o "Efeito Bradley", afirma que Obama precisaria de uma vantagem de dois dígitos nas pesquisas para se sentir confiante sobre sua vitória.
Outros acadêmicos sugerem que uma vantagem entre seis e nove pontos pode ser suficiente. De acordo com a maioria das pesquisas, esta é a vantagem que Obama possui atualmente.
Bradley reverso
Douglas Wilder, hoje prefeito da cidade de Richmond, Virginia, e apoiador de Obama, afirmou à BBC que o racismo não deve ter um impacto tão grande desta vez.
"Terá algum efeito? Sim. Há ainda pessoas que não conseguem dar seu voto a um afro-americano? Sim". Mas ele afirma: "A América cresceu, as pessoas cresceram". Apesar disso, polêmicas sobre o racismo nas eleições estão fazendo uma sombra na campanha de Obama.
"Homenzinho negro"
Rush Limbaugh, apresentador de um popular talk-show conservador já se referiu a Obama como "homenzinho negro", e um senador republicano já descreveu Obama como "uppity", palavra inglesa equivalente a "metido" e "presunçoso" em português e que era usada com conotação racista quando se referia a pessoas negras.
Há também notícias de gritos racistas durante comícios recentes de McCain. Apesar disso, Wilder se mantém otimista sobre as chances de Obama. "Eu penso que teremos algo como um "Efeito Bradley reverso", porque acho que há muitos republicanos que não dizem abertamente que votarão em Obama, mas vão", disse.
Uma pesquisa do psicólogo Anthony Greenwald e da cientista política Bethany Albertson, da Universidade de Washington, sugere que Obama já se beneficiou de um "Efeito Bradley reverso" em 12 Estados durante as primárias do Partido Democrata, enquanto o "Efeito Bradley" propriamente dito só foi notado em três.
Um estudo do pesquisador de Harvard Daniel Hopkins, que analisou 133 eleições para governos de Estados e ao senado entre 1989 e 2006, também não apontou uma grande presença do "Efeito Bradley".
Pesquisas de opinião ainda apontam que os americanos estão menos relutantes em votarem em um negro do que há algumas décadas.
Um pesquisa do instituto Gallup sugere que 9% dos americanos estão mais suscetíveis a votarem em Obama por causa de sua raça, enquanto apenas 6% dizem que ficam menos dispostos a votarem nele pelo mesmo motivo.
Wilder também acredita que Obama está conseguindo fazer uma política que poderia ser chamada de "pós-racial".
Ele afirma que, há um ano, ele deu um conselho ao senador, e ele parece ter o seguido. "Ele nunca menciona a raça por si só. Ele não falou muito sobre a raça, a não ser no discurso sobre a polêmica do pastor Jeremiah Wright, quando fez um trabalho de mestre", diz Wilder. (LAURA SMITH-SPARK, da BBC News)

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A mídia que balança o berço

“Numa época em que se fala muito de ecologia, é preciso que nos conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de desenvolver uma forma de dependência em relação à tela luminosa é uma forma de ecologia do espírito”
Maria Helena Masquetti

(03/10/2008)

Nestes tempos de crianças expostas a tantos tipos de mídia, o velho provérbio “a mão que balança o berço governa o mundo” propicia uma reflexão sobre quem é realmente a maior autoridade na estrutura familiar. Tomando-se por autoridade aquele que provê a manutenção da família, supõe-se que ambos, marido e mulher, dividam entre si esse papel de governar a educação dos filhos. No entanto, cada vez mais, as crianças expressam valores e anseios contrários aos da educação recebida em casa e na escola. O fato é que elas dependem dos exemplos adultos para a construção de sua identidade. E, por acreditarem no que ouvem ou vêem, em sua lógica infantil, passam a ver a mídia [1] como outra autoridade dentro de casa.

Por meio dos sites, jogos eletrônicos, revistas, mensagens comerciais e programas inadequados, a mídia propõe-se a satisfazer, de várias formas, os desejos infantis que, pela manobra persuasiva, converte em necessidades. Expresso em números (Interscience, 2003), o resultado desse bombardeio de mensagens e apelos comerciais é de 80% de influência das crianças nas compras da família. Isso concorre para diminuir a autoridade dos pais perante os filhos. A propósito, há alguns meses, muita gente viu um comercial de automóvel equipado com um aparelho de DVD, insinuando que a atuação dos pais pode ser dispensável na vida dos filhos mediante a aquisição de determinada tecnologia. A mensagem mostrava dois carros na estrada. Num deles, os pais se desesperavam por não saber como conter as rusgas entre os filhos pequenos enquanto, no outro, equipado com o aparelho DVD, o clima era de total tranqüilidade pela atenção das crianças presa à tela.

O que melhor explica o fato dos filhos aderirem tão mais prontamente a tantas mensagens da mídia e desdenhar os ensinamentos dos pais é a permissividade expressa por ela das duas formas mais sedutoras para a criança: a ausência do “não”, palavrinha incômoda porém decisiva para a demarcação dos limites imprescindíveis à socialização; e a reverência irrestrita às vontades das crianças que só faz ampliar nelas a fantasia de poder ter tudo.

Mídia: uma babá aparentemente dedicada, afetuosa e complacente demais com os desejos infantis
Um pequeno recorte na trama do filme de Curtis Hanson: “A Mão que balança o berço” – título, aliás, inspirado no citado provérbio, como explicita a fala de um de seus protagonistas –, ilustra essa atração dos pequenos por adultos complacentes demais com os desejos infantis. A trama gira em torno de uma babá aparentemente dedicada e afetuosa que começa a se apropriar das duas crianças de um jovem casal de forma lenta e sedutora. Valendo-se de sua maior disponibilidade de tempo junto aos pequenos, a babá permite à garotinha mais velha – cerca de cinco anos – assistir a um gênero de filme vetado à ela pelos pais em função de sua pouca idade. Como é de se esperar, a garotinha logo entende a babá como mais amorosa que seus pais.

De modo geral, tal cumplicidade com os caprichos infantis está presente em diversos tipos de mídia dirigidos às crianças. E a tendência é antecipar-se, cada vez mais, essa interferência na educação delas. Por isso, quem tiver hoje nos braços seu recém-nascido já não pode deixar para mais tarde a preocupação com os impactos da comunicação midiática na formação dos pequenos. Ela já está do lado do berço na forma dos programas para bebês. Se nos faltam ainda dados de pesquisa para saber o que acontecerá, daqui a alguns anos, com os bebês “educados” via TV, não faltam experiências e estudos sobre a formação do psiquismo. Um bebê não tem estrutura mental para saber sequer quem é e o que é; não tem idéia de suas dimensões físicas; desconhece o mundo à sua volta e, sobretudo, é fusionado com sua mãe, tendo-a como uma extensão de si mesmo. Como concluiu o psicanalista e pediatra Donald Winnicott, um dos mais brilhantes estudiosos do desenvolvimento infantil, “não existe tal coisa chamada bebê, significando com isso que se decidirmos descrever um bebê, encontrar-nos-emos descrevendo um bebê e alguém. Um bebê não pode existir sozinho, sendo essencialmente parte de uma relação”.

Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo do marketing é implantar o quanto antes na criança a necessidade de consumir
Sendo assim, o que pensar sobre a relação de um bebê com um aparelho de televisão que fala e age, sem estabelecer um contato real com ele? Uma das primeiras formas de contato da criança com o mundo é a identificação projetiva, mecanismo psíquico por meio do qual ela projeta aspectos de si mesma sobre o outro enquanto sente como seus determinados aspectos deste outro em virtude do estado de fusionamento em que se encontra. Sendo assim, é fundamental refletir sobre o quê um bebê irá projetar na caixa de uma TV (sem sua mãe dentro), com uma seqüência de imagens ainda sem sentido ou valor para ele? E, pior ainda, que aspectos ele tomará do aparelho e da produção eletrônica como partes de si mesmo?

Se não podemos prever o futuro, olhemos o que já acontece, no presente, com tantas crianças que nos rodeiam, no cotidiano ou na prática clínica: natural nos primeiros anos de vida, o narcisismo (amor a si mesmo) e a onipotência (certeza de poder ser e ter tudo) andam durando além do previsto quando, até por volta dos seis anos, deveriam ter se convertido na capacidade de se preocupar com o outro. O que estará estimulando, então, nas crianças, o prolongamento dessas características? Quem pensou em interesse comercial, acertou no x da questão que envolve hoje a preocupação com os impactos da publicidade e de determinados tipos de entretenimento na formação das crianças. Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo do marketing é implantar o quanto antes na criança a necessidade de consumir. Como diz Suzan Linn, doutora em Educação e professora de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, em seu livro Crianças do consumo – A Infância Roubada, “quando nos referimos a produtos especificamente projetados para crianças “do berço à universidade” pode ser o máximo que alguém possa almejar, mas muitos fabricantes buscam lealdade à marca que dure do berço ao túmulo”.

Na reportagem “A perigosa relação do bebê com a TV”, do Jornal Observatório da Imprensa – a jornalista Leneide Duarte-Plon destaca um dos trechos do manifesto assinado pelos cientistas franceses Pierre Delion e Bernard Golse publicado por este jornal: “Numa época em que se fala muito de ecologia, é preciso que nos conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de desenvolver uma forma de dependência em relação à tela luminosa é uma forma de ecologia do espírito. Por isso, é urgente que nos mobilizemos para a criação de uma moratória que proíba a existência desses canais, antes que a ciência possa conhecer melhor a relação da criança pequena com a tela”.

Pelo tanto que evoluímos, chega a parecer irreal que tenhamos hoje que nos revolver em argumentos para impedir que se continue penetrando um terreno tão frágil e misterioso como a psique de um bebê. E isso sob a proposta, desculpe, descabida de ampliar-lhe a inteligência e a criatividade como afirmam alguns argumentos de vendas desses programas para os pequenos. Nascidos em berço de ouro ou em cestos pobres de palha, as perspectivas dentro de cada bebê estão intactas nessa fase do broto e não demandam outros cuidados além dos prescritos pela natureza. Os mais caros entre eles são o calor do seio materno, o alimento saudável, as vozes amorosas e a mão protetora que governa seu passo a passo até o contato pleno com a vida real. Se há tanta preocupação com o desenvolvimento dos bebês, que ela seja convertida, então, para a melhora social do “berço” que os abrigará ao nascer. Nada substitui o amor e os efeitos que só ele pode produzir na construção de um novo indivíduo. Recordando uma vez mais a sabedoria e prudência de Winnicott: “Ainda temos muito que aprender sobre os primeiros tempos de uma criança e talvez só as mães possam dizer o que queremos saber”.

Mais:
Maria Helena Masquetti assina, no Caderno Brasil, a coluna Consumo & Direitos. Edição anterior:

Sapatos de pano contra o vazio de afetos
Como na antiga lenda, vieram as pomposas estratégias do marketing, em suas carruagens douradas de sedução, propondo-se a oferecer às crianças um mundo de maravilhas e tratando de atirar ao fogo as criações. Mas atenção: há meios de construir outra infância

Um tapinha não dói em quem se acostumou com a dor
Carinho é gostoso, tapa é ruim. De quantas pesquisas necessitamos para ter certeza disso? Lembrando Belchior em uma outra música, não precisamos que nos digam de que lado nasce o sol porque bate lá nosso coração — e a esperança de um futuro melhor para nossas crianças

Em liquidação, a auto-estima
No Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, vale notar que as crianças tornaram-se o público-alvo preferido da publicidade. Ainda em formação, são bombardeadas com a idéia de que os prazeres se compram — o que prolonga a imaturidade, acentua frustrações e produz, no futuro, adultos infantilizados

[1] A mídia é, muitas vezes, legitimada pela audiência que os pais lhe presta

Por: Le Monde Diplomatique Brasil

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Efeitos do pensamento único

Por Frei Betto

Sentimos, hoje, mal-estar em relação aos cinco pilares da modernidade e da sociedade em que vivemos: o Estado, a família, a escola, a Igreja e o trabalho.

Fernando Sabino costuma afirmar que mineiro já nasce louco, depois piora. No interior de Minas, quando o sujeito enlouquecia, dizia-se que ele “se manifestou”. Uma pessoa que “se manifestava” era aquela que, de alguma forma, não estava adequada a uma destas cinco instituições: família, Igreja, escola, Estado ou trabalho. As pessoas que, por acaso, estivessem sintonizadas com esses cinco pilares da sociedade moderna eram consideradas “normais”.

Ora, os cinco estão em crise, causando-nos um grande desconforto. Todos nós vivemos num estado de muita dúvida sobre o momento atual. O que se passa no Brasil e no mundo… e por quê?

Somos contemporâneos de um fato absolutamente novo na história da humanidade: a era imagética. Somos a primeira geração televisiva da história. Nossos bisavós, tataravós e “metralhavós” não conheceram isso. A minha avó jamais poderia imaginar que, sentada no sofá da casa dela, pudesse assistir a um evento do outro lado do planeta, em tempo real.

Somos também contemporâneos de um outro evento, que não é novidade, mas é raridade: mudança de época. Ou seja, não estamos vivendo apenas numa época de mudanças, vivemos uma mudança de época. A última vez que isso ocorreu no Ocidente foi na passagem do período medieval para o período moderno, nos séculos 15 e 16. Agora, passamos do período moderno para o período denominado pós-moderno.

Em muitos aspectos, essas duas mudanças de época, a do século 16 e a do século 20, se parecem. Hoje, utilizamos o nome de globalização para o neocolonialismo. Prefiro ser mais explícito e chamar de ‘globocolonização’, na medida em que uma determinada cultura e uma determinada concepção de vida são impostas ao mundo, e não várias concepções e culturas.

Na China, entrei numa casa de discos e havia um pôster do Michael Jackson. Não tenho nada contra os chineses gostarem do Michael Jackson, mas gostaria de chegar numa casa de discos em Nova Iorque e encontrar um pôster de um chinês… Em Manaus, moças faziam cooper com meia de lã até o joelho, porque havia uma novela da Globo onde as personagens faziam cooper com meia de lã.

Existe um modelo de sociedade hegemônico, anglo-saxônico, que nos é imposto como ideal. Não temos a possibilidade de visualizar novos modelos históricos, tamanha a hegemonia desse modelo neoliberal. Mas podemos imaginar o que aconteceria se a população da China tivesse, hoje, o padrão de vida americano, com tantos automóveis quanto nos EUA. Significaria, no mínimo, o fim da camada de ozônio. Portanto, o esforço de pensar um novo modelo de convivência social é um desafio e uma necessidade.

A diferença entre a colonização ibérica e a globocolonização atual é pequena. Aliás, a globalização não foi inventada nem pelo capitalismo neoliberal, nem pela colonização ibérica. Foi inventada por são Paulo, no século 1. Ele foi o primeiro a romper uma determinada cultura, geografia e etnia, para propor uma mensagem universal, que adquiriu até esse nome. “Católico” significa, em grego, “universal”. Como vários povos, sem perda da sua identidade e cultura, podem abraçar uma mesma crença? Até então, todas as religiões eram confinadas às suas raças, aos seus povos, às suas etnias.

Tempo e história

Enfrentamos, hoje, um processo de desistorização do tempo. A história que conhecemos é a história contada pelos vencedores, tanto que, a rigor, esses 500 anos de Brasil deveriam ser comemorados em Portugal, não aqui, porque foi uma vitória dos portugueses. Seria estranho, como escreveu Oded Grajew outro dia, que a República Tcheca comemorasse 50 anos da invasão nazista. De qualquer forma, isso não quer dizer que não deveríamos comemorar. A palavra comemorar é exata, não a palavra celebrar. Porque comemorar significa, etimologicamente, “fazer memória”. Só que, aqui, se comemorou pelo viés equivocado. Deveríamos ter obtido know-how do governo francês que, em 1989, ao comemorar os 200 anos da Revolução Francesa, conseguiu envolver toda a nação, dos segmentos mais conservadores aos mais progressistas, abrindo um leque de eventos que resgataram a memória da nação, à luz da Revolução Francesa, mas sobretudo dos desafios que se apresentam hoje no contexto europeu.

Infelizmente, não fomos buscar aquele know-how e deu no que deu. Ou seja, promoveu-se uma festa de aniversário para a qual a maioria da família não foi convidada. Se você exclui o seu filho de um aniversário na sua casa, é normal que ele atire pedra na vidraça, pois é a forma dele chamar a atenção e dizer “estou excluído, mas quero participar” .

Há, hoje, um processo desistorização do tempo. Daí a nossa dificuldade, nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade, de consolidarmos valores como, por exemplo, a ética. Não existe projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Essa seguramente foi uma das maiores aquisições do Ocidente e está sendo, no momento, uma das maiores perdas. Os gregos tinham a idéia do tempo cíclico. As coisas acontecem e se repetem. E tinham uma idéia também do destino. Há algo anterior a mim que traçou os caminhos da minha vida. E esse poder é inelutável.

Os persas foram os primeiros a perceber o tempo como história. E os hebreus foram aqueles que nos passaram, através do Antigo Testamento, essa idéia forte de que tempo é história.

Entre os grandes pilares da cultura contemporânea, três trabalharam o tempo como história e os três foram judeus: Jesus, Marx e Freud. Jesus trabalhou o tempo histórico como construção do reino de Deus, e fez a ligação entre o princípio, o Paraíso e o fim, a escatologia, o Apocalipse, a nova vinda. A visão cristã imprime ao tempo uma historicidade, como herança da visão judaica, na qual isso é muito arraigado.

Marx ensinou que só podemos entender os vários modos de produção resgatando a história desses modos. E Freud, que só podemos entender os desequilíbrios de uma pessoa, resgatando a história dessa pessoa. Indo, inclusive, aos porões do inconsciente.

Quando se tem a percepção do tempo como história, tem-se o varal onde dependurar os valores. Ou seja, a vida ganha um sentido. E esse é o bem maior que todos nós procuramos: um sentido.

Quem teve a oportunidade de assistir à entrevista do geógrafo Milton Santos ao jornalista Bóris Casoy viu o professor fazer uma distinção sábia. Ele afirmou que o nosso projeto de sociedade está, hoje, ancorado em bens finitos, quando o projeto da felicidade humana deveria estar ancorado em bens infinitos. A nossa frustração é que os bens finitos são finitos, e o desejo é infinito. Quando centrado em bens finitos, o desejo não encontra satisfação.

Os bens da dignidade, da ética, da liberdade são infinitos, como a paz e o amor. Como esses bens não têm valor de mercado, não podem ser adquiridos na esquina. Até tentam nos vender simulacros. A publicidade sabe que todos nós buscamos a felicidade. E como não pode nos oferecer a felicidade, tenta nos convencer que felicidade é o resultado da soma de prazeres. Tomo este guaraná, visto esta roupa, tenho conta neste banco, ando neste automóvel, viajo de férias para este paraíso, aí vou ser feliz, pois veja como as pessoas que estão lá são felizes! Todo o projeto é baseado no ter e não no ser.

Quando não temos a percepção do tempo como história, não temos o varal onde dependurar os valores e, portanto, corremos o risco de perda de sentido, entramos num vazio. Vocês devem se lembrar de que, antigamente, as pessoas namoravam, casavam, noivavam, faziam bodas de prata e, algumas, até bodas de ouro. Por quê? Porque havia um sentido, uma dinâmica de valores dentro do compromisso conjugal. Hoje, as pessoas casam, descasam, namoram, rompem, a ponto de um amigo meu - que já está no quarto casamento - outro dia convidar os amigos para as suas bodas de prata. Ninguém entendeu nada. Ele explicou: “Já que nunca farei bodas de prata com a mesma companheira, somei quantos anos de vida conjugal tenho desde o primeiro casamento e, por isso, vou comemorar os 25 anos”. Assim, ele deu a festa…

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Racismo branco renasce com indústria cosmética na África e na Ásia

A herança pós-colonial renasce: os branqueadores de pele e as operações para arredondar traços faciais triunfam na Ásia e na África

Lali Cambra e Ana G. Rojas

A promessa é clarear a pele um ou dois ou três tons. Milhões de mulheres - e cada vez mais homens - de todo o mundo transformaram os cremes que dizem branquear a pele em um filão para a indústria cosmética. Consciente disso, esta os anuncia de forma agressiva e sem rodeios, especialmente na Índia e nos países do Sudeste Asiático, o que lhe concedeu a duvidosa honra de ser acusada de abandeirar uma nova - e multimilionária - vanguarda racista: branco é bonito; negro é vergonhoso.

A atriz Priyanka Chopra participou de propaganda considerada racista na Índia

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Uma herança maldita, mas ainda em vigor nas sociedades pós-coloniais. Isto é, na maior parte do mundo. Como amostra, um símbolo. O anúncio de White Beauty (beleza branca), um creme da Pond’s da filial indiana da Unilever. Priyanka Chopra, uma das atrizes mais bonitas e famosas de Bollywood, sofre porque seu namorado, Saif Ali Khan, o herói indiano do momento, foi embora com a outra bonita da filmagem, Neha Dhupla. A garota abandonada vai recuperar seu amor quando conseguir ter uma pele mais pálida - graças, é claro, a White Beauty. O desenvolvimento desse famoso triângulo amoroso, anunciado em capítulos na televisão indiana, reabriu o debate sobre a grande obsessão pela pele branca nesse país, cuja maioria da população tem pele escura.

“É um escândalo, é um comercial muito racista que aumenta os preconceitos pela cor da pele”, diz Subashini Ali, presidente da Aidwa, ala feminista do Partido Comunista da Índia, promotora da campanha contra o comercial. Para Unilever da Índia, “não há intenção de discriminar de maneira alguma. Como empresa valorizamos e respeitamos a diversidade de necessidades e aspirações de nossos clientes”, diz seu porta-voz, Prasad Pradhan, que lembra que na Índia se usam tradicionalmente remédios caseiros para branquear a pele, e por isso a companhia só está trazendo um produto que o mercado demanda.

Para o professor da Escola de Administração Ross da Universidade de Michigan, estudioso da campanha da Unilever, Aneel Karnani, por sua vez, o anúncio reforça antigos preconceitos, “e não tradições inexistentes”. Karnani mostra-se preocupado também pelo sexismo da publicidade - “a mulher tem de estar bonita para satisfazer o homem” -, e lembra que a Unilever no Ocidente comercializa a marca Dove, responsável por uma campanha para “libertar a nova geração de estereótipos de beleza”.

O anúncio na Índia acionou os alarmes por se tratar de três superestrelas. Mas não é o primeiro nem o único. Os cremes branqueadores enchem as prateleiras das lojas indianas, acessíveis a todos os bolsos, começando desde o equivalente a menos de 1 euro até várias dezenas de euros por um tubo de creme. E a grande maioria tem comerciais deslumbrantes. Uma infinidade de marcas locais, mas também Nivea, L’Oreal, Procter and Gamble, The Body Shop, Avon, Clinique ou Revlon comercializam seus produtos.

É que o mercado indiano gasta em “cuidados da pele” mais de US$ 640 milhões por ano, segundo um estudo de mercado da AC Nielsen, uma cifra que não pára de crescer a passos agigantados.

Os analistas consultados por El País mostram sua preocupação pela facilidade com que esse racismo global - e seus anúncios - é aceito nos países asiáticos e do Pacífico, entre os quais se destacam China, Japão, Filipinas e Coréia. Neste último, a cirurgia estética nas pálpebras para conseguir olhos arredondados é a mais procurada. Nos EUA, essa operação é a terceira cirurgia estética mais procurada, só depois da lipoaspiração e do aumento dos seios.

“Em muitos países asiáticos, ter a pele branca era uma característica feminina, mas hoje, com campanhas agressivas e racistas, também é um sinal de modernidade aceito por toda a sociedade”, explica Amina Mire, professora do Departamento de Antropologia e Sociologia da Universidade de Carleton, Canadá. O mercado de branqueadores está, segundo Mire, perfeitamente assentado no continente asiático, o terceiro em lucros depois dos EUA e da Europa (onde são comercializados para mulheres brancas como produtos antiidade ou antimanchas).

Para Margaret Hunter, especialista em políticas raciais e de gênero da Universidade Mills da Califórnia, esse novo racismo global, originado por ideologias coloniais (as pessoas de raças mistas de compleição mais branca tinham situações privilegiadas em relação às mais escuras, por ter trabalhos protegidos dos raios de sol) e por um racismo interiorizado nas antigas colônias, e incentivado também por visões de uma nova ordem mundial. Este tem como premissa a exportação por parte dos EUA e de sua mídia da beleza branca e, ocasionalmente, a de mulheres negras de pele clara (e quanto mais clara melhor, vista a recente polêmica criada pelo suposto branqueamento, através do software Photoshop, da pele da cantora Beyoncé em um anúncio da L’Oreal).

Em todo o mundo, “na televisão, cinema, Internet ou imprensa se prefere a mulher loura e branca não mais como ideal cultural, mas como imperativo cultural”, diz Hunter. Estudos obtidos por ela indicam que nos EUA latinos e afro-americanos de pele mais clara têm maior acesso ao trabalho, status, dinheiro ou para encontrar parceiro(a). Algo que também ocorre na Índia, onde as mulheres mais morenas têm mais problemas para encontrar marido e seu dote encarece.

Nas sessões de anúncios de casamento, onde os pais buscam parceiros para seus filhos, a palavra “fair” (pele branca) sobressai em todos os anúncios. “Quero ter uma pele mais branca para ser mais aceito. Assim terei uma namorada mais bonita e meus ganhos aumentarão porque serei mais carismático”, diz um jovem visto em um mercado de Nova Déli comprando “Fair and Handsome” (branco e bonito), um dos produtos destinados ao público masculino.

Apesar de o desejo de embranquecer a pele cruzar o espectro social, é entre as classes médias e baixas que a indústria tem mais adeptos. Isso é o que mais critica também o professor Karnani: “Os produtos são vendidos para gente jovem e impressionável e para mulheres pobres, às quais vendem embalagens econômicas. É exploração. Isso não é potencializar a mulher, potencializar a mulher é fazê-la sentir-se bem do modo como nasceu, de forma que não sinta que tem de comprar esse produto. E, além disso, à diferença do comprimento do cabelo, de ser mais ou menos gorda, a cor da pele é impossível de mudar”.

Para outros, a questão não tem nada a ver com supremacia racial: “A obsessão por ser branco na Índia não tem viés racista, é só um conceito de beleza, todo mundo quer o que não pode ter”, diz uma estudiosa de comportamento do consumidor em Nova Déli, que prefere não dar seu nome.

Esse aumento no consumo de cosméticos não se limita aos subcontinente indiano e ao continente asiático. Nos EUA também se pratica, embora em menor medida, devido ao vigor do movimento pelos direitos civis entre a população negra. Segundo Amina Mire, assim como na África “onde o branqueamento foi associado à opressão colonial branca e os que o praticam são acusados de ter complexo de inferioridade, de se odiar. Por isso é praticado às escondidas”. Como branquear a pele é motivo de vergonha, os produtos são vendidos clandestinamente.

“A África é o lixo dos cremes tóxicos, portanto mais baratos”, afirma Mire, que acrescenta que como as pessoas os usam às escondidas só chegam ao médico quando os produtos tóxicos já causaram danos às vezes irreparáveis.

Tanto Mire quanto Hunter lembram que muitos países africanos proibiram o uso de determinados produtos por seu risco à saúde (em 2004 a Tanzânia proibiu 83 marcas diferentes, embora em muitos países continuem sendo encontradas sem dificuldade em mercados ou em vendedores ambulantes) e realizaram campanhas para promover a beleza estética africana, o que, segundo Hunter, é “um trabalho crucial, já que a mensagem de superioridade branca satura o mercado”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
UOL Mídia Global - El Pais

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Cremes não evitam envelhecimento

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Carmen Girona

A pele é a parte mais maltratada do corpo. Maltratada por excesso de cosméticos, por agressões químicas e pelos excessos de radiação solar a que nos expomos, paradoxalmente, perseguindo a beleza e a juventude. O resultado é um envelhecimento precoce que logo se tenta combater com cremes. Às vezes são anunciadas fórmulas milagrosas que prometem manter a pele jovem e firme. São realmente eficazes ou apenas produtos prazerosos?

A utilidade dos cremes cosméticos é um tema muito controvertido no qual confluem importantes interesses econômicos, campanhas publicitárias agressivas e o prazer do consumidor ao adquirir produtos que supostamente rejuvenescem. Mas neste caso ciência e cosmética não andam de mãos dadas, e embora os cremes básicos dêem luminosidade e mantenham a pele saudável em bom estado nem estes nem os que contêm outras substâncias rejuvenescedoras evitam o envelhecimento da pele. A proteção solar é o único fator da cosmética que influi diretamente no processo de envelhecimento.

“A pele tem uma capacidade de equilíbrio espontânea extraordinária. A partir da puberdade, fabrica uma película hidrolipídica que a protege das agressões externas. E se não for eliminado esse manto benfeitor pelo uso de sabonetes, cremes para maquiar, demaquiar, não há necessidade de cremes”, afirma Ramón Grimalt, professor da Universidade de Barcelona e dermatologista do Hospital Clínic de Barcelona. “Há muitos exemplos disso. Todos conhecemos pessoas que por sua natureza têm uma pele fantástica e avós octogenárias com aspecto invejável, que nunca usaram um creme.” Peles muito bem conservadas como a de Dolores Martínez, que vive em Granollers, tem 93 anos e nunca usou cremes cosméticos. “Também vemos isso nos homens, que envelhecem na mesma velocidade que as mulheres e na maioria dos casos nunca utilizaram qualquer cosmético”, acrescenta Grimalt.

Círculo vicioso

Os cremes hidratantes atuam como uma barreira de proteção contra as agressões externas quando se perde a capa natural. Mas se forem utilizados quando não são necessários essa pele normal pode se transformar em gordurosa, que seria preciso tratar com outro cosmético. O desconhecimento dos usuários, de um lado, e os novos hábitos de higiene da sociedade moderna, alguns deles introduzidos pela indústria cosmética com fins meramente comerciais, por outro, conduzem a uma má utilização desses produtos.

“É um jogo em que primeiro se vende o gel que deixa a pele seca e depois o creme para hidratá-la. Essa tática também foi introduzida na higiene infantil. A pele da criança não produz gordura e só deveria ser ensaboada ao redor do ânus e as mãos, quando estão sujas. Os adultos também não deveriam ensaboar as pernas e os braços, porque o suor nessas áreas não é gorduroso e se elimina com água”, afirma Grimalt, que também é presidente honorário da Sociedade Européia de Dermatologia Pediátrica.

A má utilização leva ao desastre, mas também há especialistas que defendem os cosméticos, desde que utilizados adequadamente. Aurora Guerra, chefe da seção de dermatologia do Hospital Universitário 12 de Outubro de Madri e presidente da Seção Centro da Academia Espanhola de Dermatologia e Venereologia (AEDV), concorda que os cosméticos não podem tratar o envelhecimento da pele, mas defende sua utilidade, como declarou no Congresso Nacional da AEDV, realizado em meados de junho em Barcelona.

“Os cosméticos”, afirma, “conseguem mais luminosidade, mais firmeza, diminuem a intensidade das rugas e alguns deles fazem desaparecer defeitos como as manchas produzidas pelo sol ou pela idade. Os cremes não podem tratar o envelhecimento, mas ajudam. É verdade que não se pode ter 20 anos aos 50, mas sim os melhores 50″, afirma Guerra.

Em relação às moléculas rejuvenescedoras que são acrescentadas aos cremes básicos, embora tenham demonstrado certa melhora na pele, comprovada com testes objetivos (por exemplo, medidas do relevo cutâneo com molde de silicone ou medidas do tempo de reposição epidérmica através de corante ou grau de hidratação), não superaram os severos critérios de avaliação da medicina baseada na evidência.

“Até agora não existe nenhum estudo científico independente que tenha constatado a eficácia de qualquer das substâncias modernas rejuvenescedoras. Se aplicar em uma face qualquer das substâncias que pretendem ter alguma função e na outra se colocar exclusivamente uma mistura de azeite com água, que o que é um creme, na realidade, ao fim de seis meses não há nenhum aparelho em nenhuma universidade do mundo que permita diferenciar qual das duas faces foi tratada com substâncias rejuvenescedoras.”

Existem diversos estudos que confirmam isso. Um dos mais recentes foi apresentado no congresso da Academia Americana de Dermatologia realizado em San Francisco em 2007, salienta Grimalt.

Consulta dermatológica

Diante dos dados, dos costumes adquiridos e da ampla gama de cosméticos, o dermatologista é quem pode avaliar melhor se a pele está saudável, se há algum defeito a corrigir e que tipo de produto pode ser benéfico, sempre em função da idade, do estado da pele, dos antecedentes familiares e da dieta praticada. “Às vezes é preferível gastar dinheiro em uma consulta com o dermatologista do que continuar testando produtos que podem ser desnecessários ou mesmo prejudiciais. Não se trata de engordurar a pele, mas de aconselhar e utilizar o que for necessário em cada caso”, adverte Guerra.

A percepção de utilidade ou não dos cremes cosméticos depende em boa parte do que se espera deles. Muitas vezes o que se encontra é satisfação, assim como ao comprar uma roupa de marca ou um carro de primeira linha. Mas não as pessoas não devem se enganar. Se quiserem envelhecer devagar, segundo os especialistas, o melhor cosmético é não maltratar a pele e protegê-la da exposição ao sol. E ter consciência, como salienta Ricardo Ruiz, diretor da Clínica Dermatológica Internacional e chefe da unidade da Clínica Ruber de Madri, de que “um creme jamais proporcionará o mesmo efeito que uma cirurgia ou uma técnica de rejuvenescimento”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Uol Mídia Global

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Crime de Intolerância Religiosa: Foto de mãe-de-santo na Folha Universal gera indenização

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Por unanimidade, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a obrigação de a Igreja Universal do Reino de Deus pagar indenização aos filhos e ao marido da mãe-de-santo Gildásia dos Santos e Santos. Uma foto da líder religiosa foi usada num contexto ofensivo no jornal Folha Universal, veículo de divulgação da igreja. A decisão da Quarta Turma seguiu integralmente o voto do juiz convocado do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região Carlos Fernando Mathias, que reduziu o valor a ser pago.
Em 1999, a Folha Universal publicou uma matéria com o título “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes” e utilizou uma foto da ialorixá como ilustração. Em 2000, Gildásia faleceu, mas seus herdeiros e espólio começaram uma ação de indenização por danos morais. A 17ª Vara Cível da Bahia condenou a Igreja Universal ao pagamento de R$ 1,4 milhão como indenização, com base na ofensa ao artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal (proteção à honra, vida privada e imagem). Além disso, a Folha Universal também foi condenada a publicar, em dois dos seus números, uma retratação à mãe-de-santo.
No recurso da Universal ao STJ, alegou-se que a decisão da Justiça baiana ofenderia os artigos 3º e 6º do Código de Processo Civil (CPC) por não haver interesse de agir dos herdeiros e que apenas a própria mãe-de-santo poderia ter movido a ação. A defesa argumentou que a “suposta” ofensa não teria efeitos neles. A Igreja Universal também não seria parte legítima, já que a Folha Universal é impressa pela Editora Gráfica Universal Ltda., que tem personalidade jurídica diferente daquela da igreja.
Na mesma linha, alegou que o espólio não poderia entrar com a ação. Afirmou, ainda, que a sentença seria ultra petita (sentença além do pedido no processo), já que condenou o periódico a publicar duas retratações, quando a ofensa teria ocorrido apenas uma vez, violando, com isso, os artigos 128 e 460 do CPC. Por fim, afirmou ser exorbitante o valor da indenização e propiciar enriquecimento sem causa. Informou que o jornal não teria fins lucrativos, tornando o valor ainda mais desproporcional.
No seu voto, o juiz convocado Carlos Fernando Mathias considerou que, mesmo que a gráfica e a Igreja Universal tenham pessoas jurídicas diferentes, elas obviamente pertencem ao mesmo grupo, como atestam os estatutos de ambas e são co-responsáveis pelo artigo, logo a Universal poderia ser processada pela família. Quanto à questão do espólio, o juiz Fernando Mathias admitiu que a questão não poderia ser transmitida por “herança”. O espólio, portanto, não seria legítimo para começar uma ação. Entretanto o magistrado considerou que a ofensa à mãe-de-santo seria uma clara causa de dor e embaraço aos herdeiros e que o pedido de indenização seria um direito pessoal de cada um. Ele apontou que a jurisprudência do STJ é clara nesse sentido.
O relator considerou que a decisão de fazer publicar a retratação por duas vezes seria ultra petita (sentença além do pedido no processo), sendo necessária apenas uma publicação. Quanto ao valor, ele entendeu que o fixado pela Justiça baiana seria realmente alto, o equivalente a 400 salários mínimos para cada um dos herdeiros. Assim, pelas peculiaridades do caso, reduziu a indenização para um valor total de R$ 145.250,00 ficando R$ 20.750 para cada herdeiro. (Fonte: Coordenadoria de Editoria e Imprensa do STJ)

Mais de 10 mil pedem fim da intolerância religiosa no Rio

Cerca de 10 mil pessoas participaram neste domingo de uma caminhada na praia de Copacabana, zona sul do Rio, para pedir o fim da discriminação religiosa. Sob chuva, a manifestação reuniu artistas, intelectuais e representantes de várias crenças, com predomínio das religiões afro-brasileiras, que denunciaram o preconceito e a perseguição por parte de outros grupos.
De acordo com um dos organizadores da manifestação, o babalorixá Ivanir dos Santos, são inúmeros os casos de preconceito no Rio, principalmente, contra as religiões de matriz africana como umbanda e candomblé. Segundo ele, os ataques são “sistemáticos”, inclusive pelos veículos de comunicação.
“Há 20 anos sabemos de casos de invasão a casas, ofensas, violência. Algumas pessoas põem a Bíblia na nossa cabeça. Na escola, as crianças são chamadas de macumbeiras, dizem que seguem o diabo. São várias coisas”, disse.
A mãe-de-santo do candomblé Conceição D’Olissá, coordenadora de um terreiro em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, também denunciou a discriminação. Ela disse que é ofendida toda vez que está trajada de branco, conforme sua religião. “Tem sempre alguém para dizer que não somos filhos de Deus”.
Um dos principais líderes do movimento negro no país, Abdias do Nascimento, aos 94 anos também participou da manifestação. Ele disse que a idéia da caminhada, além de defender a liberdade de culto no país tinha objetivo de pôr em discussão a superação do racismo.
Segundo ele, essas pessoas querem manter o status do negro na sociedade. “Um status de inferioridade e até uma espécie de escravidão. Uma escravidão moral, de espírito e, por isso, procuram amordaçar a comunidade negra para que ela não se manifeste em sua magnitude”, disse Nascimento, que foi o primeiro senador negro do país. “É preciso mudar essa mentalidade”. (Agência Brasil)

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Lula defende a união civil entre casais homossexuais

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