Arquivo de Comportamento

Pastor culpa pacto com o diabo por terremoto; Casa Branca critica

da Folha Online

O pastor americano Pat Robertson, dono do canal "Christian Broadcasting Network", disse ontem que a tragédia provocada pelo terremoto de terça-feira no Haiti foi decorrente do "pacto com o diabo" que setores da população fizeram para que o país se tornasse independente da França.

A declaração –mais um no rol de Robertson, famoso por fazer discursos polêmicos em seu canal de TV– causou uma série de críticas, incluindo da própria Casa Branca.

pastor americano

O pastor americano Pat Robertson,

para quem tremor é castigo por pacto com diabo

Em seu programa de ontem, segundo alguns meios de comunicação americanos, ele insinuou que os problemas que atingem o Haiti –tanto a pobreza como o próprio terremoto de terça– são frutos de uma "maldição" que paira sobre o país caribenho.

Essa "maldição" seria o resultado de um "pacto com o diabo" feito por haitianos que desejavam que o país se tornasse independente da França –o que ocorreu em 1804.

"Os haitianos estavam sob o jugo da França […]. Eles se uniram e fizeram um pacto com o diabo. Disseram: ‘Serviremos a ti caso nos liberte da França’", declarou o pastor.

A reação foi quase imediata. David Walters, editor de uma coluna religiosa do "Washington Post", classificou como "vergonhoso" alguém sugerir que Deus ou as pessoas pobres do Haiti têm alguma relação com as causas da tragédia.

Hoje, foi a vez do porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, criticar o controverso pastor.

"Nunca deixo de me espantar que, em tempos de grande sofrimento humano, alguém diga algo que possa ser tão absolutamente estúpido", disse Gibbs.

Já Valerie Jarrett, uma das principais conselheiras do presidente Barack Obama, disse em entrevista ao canal ABC que a opinião de Robertson não reflete o que pensa o povo americano e o presidente.

Com agências internacionais.

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A família brasileira se reinventa

 

Matrimônios formais vencem informalidade; pessoas casam-se mais velhas, numa tendência ao conservadorismo.

José de Souza Martins

Postado: Controvérsia

Depois de anos de indicações de que o casamento civil e formal estava em declínio, a informação divulgada pelo IBGE de que cresceu substancialmente o índice da nupcialidade legal e de que as pessoas estão casando mais tarde é algo que fala mais sobre o que esconde do que sobre o que revela, e justamente por isso, revela muito. Não deixa de ser uma indicação de mudanças, provavelmente significativas, numa das instituições fundamentais da sociedade brasileira: o casamento e a família. O índice de casamentos cresceu de 5,6, em 2002, para 6,7, em 2008, e é o mais alto desde 1998, numa curva progressiva que indica uma tendência. Esse dado não está separado de outros relativos à concepção de família e a atitudes em relação a ela, como o de que o número de divórcios tem crescido mais do que o de separações. Numa sociedade em que a constituição e a dissolução da família são reguladas, ainda que em relativamente pequena proporção, pela informalidade, os crescentes índices de legalismo matrimonial sugerem que as bases legais da família vão vencendo os arranjos do costume para um número grande de pessoas.
O alcance dessa mudança é maior do que parece. Casamento no Brasil é historicamente uma instituição das elites , que, por meio dele e até dos contratos pré-nupciais, até tempos não muito recuados, tratavam de regular a permanência dos cabedais de família no interior da própria família e evitar sua dispersão por herdeiros adventícios. Modo de manter distantes os pretendentes sem eira nem beira em relação a quem tinha eira, beira e tribeira. Uma alusão simbólica ao beiral das casas antigas, em que o nenhum acabamento das casas de pau a pique indicava gente ínfima, enquanto o rebuscado beiral de três camadas dos casarões indicava gente de qualidade e bem nascida.
O que pode parecer o aleatório do matrimônio para os mais simples determinou inovações e arranjos que bem documentam o jeitinho brasileiro também nessa questão, supostamente muito zelada. Há 30 anos, quando fazia pesquisa na região de Imperatriz, no Maranhão, li num jornal local, na página de proclamas do Registro Civil, vários anúncios de contratos matrimoniais. Região, na época, de abertura de fazendas e de intensa imigração de peões oriundos de outras áreas do Nordeste, muitos deixavam para trás a família, para ganhar a vida e supostamente voltar mais tarde. Engraçavam-se com as filhas dos nativos locais que, prevenidas pelos severos pais, deixavam claro que, casamento, só de papel passado. Com ajuda de rábulas de província, os donzelos faziam em cartório contrato de prestação de serviços matrimoniais com as moças, selado, carimbado e assinado, a súmula devidamente publicada na mesma página dos proclamas de cartório. Papel por papel, tinham elas o seu.
Isso não era novidade. Sobretudo nas regiões remotas, foram comuns, até não muito tempo atrás, os casamentos só na Igreja, o noivo de caso pensado para que ficasse aberta a alternativa de eventual dissolução matrimonial e a possibilidade de um segundo consórcio, agora no civil. Esse costume só encontrou uma barreira no casamento religioso com efeito civil.
Nem tudo, porém, era sem-vergonhice, como supõem os linguarudos. Muitas dessas atitudes são legítimas ações de invenção cultural para enfrentar as não pequenas adversidades da vida. O sociólogo José César Gnaccarini fez, há alguns anos, na região de Piracicaba, interessantíssima pesquisa sobre o casamento por rapto. Com o empobrecimento da população rural e o aparecimento do chamado boia-fria, tornou-se economicamente impossível a festa caipira de casamento, com muita comida, leitoa assada, bebida, violeiros. Casamento sem festa seria o mesmo que expor publicamente a humilhação e a vergonha da pobreza. Difundiu-se, então, o rapto simulado da moça solteira, tudo combinado de antemão entre as famílias, especialmente entre o noivo e o pai da noiva, não fosse este, sem saber da coisa, disparar um tiro de sal nos quartos do raptor. Altas horas da noite, era a moça tirada de casa e levada para a casa de parentes do noivo para que sua honra ficasse devidamente resguardada. Espalhada a voz de que o rapto ocorrera, não restava aos apaixonados senão a alternativa de "casar na polícia", com a dupla vantagem de ser casamento gratuito e sem convidados. Nesses casos, para contornar a vergonha, as famílias envolvidas estavam dispensadas das devidas festanças e despesas.
A classe média e os abonados também deram o seu jeitinho quando do colapso de seus casamentos. Desquitados e sem possibilidade de novo casamento civil, antes da instituição do divórcio, foi comum recorrerem ao casamento no Uruguai, até mediante procuração, país em que o desquite brasileiro era aceito como divórcio. Isso atenuava enormemente a estigmatização cruel dos unidos por consenso, popularmente definidos como "amigados", o que na cultura popular atingia especialmente a mulher e queria dizer, no fundo, pessoa destruidora de famílias.
O incremento das uniões legais e das separações legais envolve, certamente, um número não sabido de regularizações de situações de fato. Mas nem por isso anula a tendência legalista na questão da família. Feita essa ressalva, a mesma pesquisa do IBGE mostrou que nos últimos dez anos houve um salto na idade dos casamentos, passando a concentrar-se na faixa de 25 a 29 anos de idade. Há aí implicações na estrutura e na função da família, devido à redução do tempo da probabilidade das concepções. Declina a família extensa para confirmar a família conjugal, fundamentalmente, de duas gerações. A tendência é a de que os filhos sejam tardios, socializados por pais mais velhos e mais maduros, com menor número de irmãos e menor espaço de criatividade na limitação da convivência com outras crianças independentes. São tendências que indicam no Brasil o surgimento das bases sociais de um novo conservadorismo familiar, uma família mais ajustada à ordem e menos propensa à diversificação de suas orientações.

Fonte: Jornal Estado de S. Paulo - http://www.estadao.com.br

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Casamento homossexual: Direita não conseguirá impor referendo

Bloco de Esquerda, PS, PCP e PEV chumbarão tentativa da direita conservadora. Bloco defende adopção, ao contrário de PS e PCP.

marcha_lgbt_2009 A "Plataforma Cidadania e Casamento Homossexual" entregou, nesta Terça feira, 90.785 assinaturas pedindo um referendo com a pergunta: "Concorda que o casamento possa ser celebrado entre duas pessoas do mesmo sexo?".

A plataforma, onde preponderam figuras que se destacaram na oposição à despenalização do aborto, pretende impor em relação ao casamento homossexual uma táctica semelhante à que foi usada pela direita para atrasar durante oito anos a despenalização do aborto.

Porém, tudo indica que desta vez a táctica da direita não conseguirá atrasar a aprovação do casamento homossexual, já que Bloco de Esquerda, PS, PCP e PEV irão aprová-lo já nesta Sexta feira na Assembleia da República. O pedido de referendo nem poderá ser debatido simultaneamente, porque entrará atrasado em relação ao debate parlamentar. Além disso, quando for debatido será chumbado por aqueles partidos.

A Plataforma diz a favor do seu pedido que falta debate, o que é rejeitado por Bloco de Esquerda, PS, PCP e PEV. Todos estes partidos argumentam que o tema já foi discutido na sociedade portuguesa, já foi debatido no parlamento e esteve presente nas últimas eleições legislativas.

Na Assembleia da República, na próxima Sexta feira, estarão em debate a proposta do governo, que aprova o casamento mas inviabiliza a adopção de crianças por casais homossexuais, ao contrário dos projectos do Bloco de Esquerda e do PEV.

O Bloco de Esquerda não aceita a proibição da adopção de crianças como a proposta do governo pretende, considera-a inconstitucional e alerta que criará um " imbróglio jurídico que vai atrasar a legalização do casamento" (Leia o artigo Igualdade por Inteiro http://www.esquerda.net/content/view/14814/130/ de Francisco Louçã).

Na Assembleia da República estará também em debate a proposta do PSD, que rejeita o casamento homossexual e apresenta a proposta de união civil registada. Pronunciando-se sobre esta proposta do PSD, a deputada Helena Pinto do Bloco de Esquerda considerou-a uma "resposta tardia em relação a um problema que já está na agenda de debate há muito tempo. Na última hora decidiram criar um casamento de primeira e um casamento de segunda".

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Cidade do México aprova casamento gay

Postado: Esquerda Net

davidrazu É a primeira metrópole da América Latina a aprovar uma lei que garante a igualdade no casamento para as pessoas do mesmo sexo, incluindo a adopção.

"Durante séculos, leis injustas proibiram casais formados por brancos e negros ou índios e europeus, mas hoje todas estas barreiras desapareceram", lembrou o deputado Víctor Romo, do Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda), após a Assembleia Legislativa da Cidade do México aprovar  o casamento entre pessoas do mesmo sexo por 39 votos a favor, 20 contra e cinco abstenções.
O autor do projecto e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia exprimiu também a sua satisfação com o resultado da votação. "Estamos a deixar de segregar ou estigmatizar um sector social, dando-lhe acesso a uma instituição que é o matrimónio. É avançar na direcção dos direitos plenos", declarou David Razú.
No mesmo debate parlamentar, a maioria chumbou uma proposta que visava impedir a adopção de crianças por parte de casais homossexuais. A lei precisa agora de ser aprovada pelo governador do Distrito Federal para entrar em vigor, três anos depois da Assembleia ter aprovado a união civil entre homossexuais.
Tal como em 2006, os adversários do casamento gay foram o Partido Acção Nacional (PAN) do presidente Felipe Calderon e a Igreja Católica, que tentarão agora contestar a decisão política nos tribunais. Caso não consigam travar a nova lei, será possível aos mexicanos casarem já em Fevereiro com os companheiros do mesmo sexo.

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Maria Fuzil e a dinâmica do tráfico

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 Afinal, por que tanto menino entra para o tráfico? E como alguns conseguem sair? Essas são algumas da questões enfrentadas no estudo “Meninos do Rio: jovens, violência armada e polícia nas favelas cariocas” (PDF em: http://www.estadao.com.br/especiais/2009/12/meninos_do_rio.pdf), do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (ver em: http://www.ucamcesec.com.br). Para respondê-las, a pesquisadora Silvia Ramos e equipe colheram 104 depoimentos de estudantes, traficantes, ex-traficantes, milicianos, mães, líderes comunitários, assistentes sociais. O resultado joga luz sobre um fenômeno bastante complexo – o ingresso na vida do crime -, que à luz das análises socioeconômicas costuma ser simplificado e resumido à questão financeira.
A questão financeira existe, evidente. Mas o estudo indica que isso nem sempre é determinante. Para começar, diversas pesquisas – esta, inclusive – apontam certa “crise do tráfico”. A ponto de algumas “bocas” fecharem, por falta de clientela. Razões para tanto podem ser procuradas na expansão do consumo do ecstasy, traficado no asfalto, e na própria violência de criminosos e policiais, que teriam afastado o consumidor. Leia alguns trechos de depoimentos a propósito da baixa nos negócios da droga:


“Tem favela tão pobre que nem a milícia quer!”
“Tá tão ruim que os fogueteiros vivem pedindo comida. Vão lá em casa, mexem nas panelas: ‘pô, tia, não tem um rango, não? Tô cheio de fome’”.
“Eu trabalhando no sinal ganho mais dinheiro do que vagabundo que trabalha no morro”.
Se a questão financeira não explica sozinha o ingresso no crime, então o quê? “É claro que em muitos casos adolescentes vão para o tráfico (ou as milícias) em busca de dinheiro, alternativa profissional, para fugir de famílias violentas, para escapar de pais ou mães alcoolizados e degradados, ou por outros motivos socioeconômicos ‘clássicos’”, escreve a autora. “Mas é importante perceber que em muitos casos as trajetórias de vida não correspondem a essas razões mais óbvias ou frequentes.” Vamos a mais alguns depoimentos:
De um ex-traficante: “Ah, sei lá porque entrei. Poder, eu acho. Ninguém ia tirar contigo (…) nem era admiração pelos caras, era pelas armas”.
De um traficante: “Eu acredito que eu entrei por safadeza. Nem sei explicar… minha mãe, pô, criou sete filhos sozinha mas nunca deixou faltar nada em casa… Amizade, todas eram envolvidas também”.
De uma mãe, cujo filho foi morto em operação policial: “É a idade, é empolgação, é adrenalina, é um querer de um poder”.
De uma assistente social: “Eu sei de meninos que praticamente quase nem ganham, entendeu? Mas está ali, o negócio deles é estar ali na esquina, estar ali com o fuzil”.
De outra assistente social: “É como o cara que entra no mar prá pegar aquela onda que vem grandona, ele quer estar lá naquela onda. Uma porção de gente está aqui fora dizendo ‘Deus me livre, entrar naquele mar’. Mas ele tem aquela coragem, aquele desejo e vai. Eu acho que é a mesma coisa ir pro tráfico”.
Uma grande surpresa da pesquisa foram os muitos depoimentos que relacionam “virar bandido” e “usar armas” com “conseguir meninas” e “ser olhado, reconhecido, desejado”. É o fuzil usado para atrair beldades do morro e do asfalto – as chamadas Maria Fuzil. O fenômeno é tal que a pesquisa colheu o relato de gente que pede emprestado o fuzil de um amigo traficante só para dar uma circulada pelo baile funk. Tudo para impressionar. E Maria Fuzil ganha o que com isso? Mais alguns depoimentos:
“Dinheiro. Também ela tem um contato, ninguém rouba ela na rua. Elas tá na rua foi roubada, vem aqui dentro. O cara ainda toma uns tapa”.
“As donas do pedaço cruzam o salão de ponta a ponta, ninguém pode esbarrar nelas”.
“Muitas vezes os traficantes aparecem com umas menininhas da comunidade que todo mundo achava muito sem graça, magrinha, sem corpo, mas depois que começam a desfilar com os traficantes, as meninas parece que ganham corpo e o pessoal começa a pensar: ‘pô, olha o que eu perdi”.
O relatório (que pode ser baixado aqui, em PDF, 365 kb) segue analisando possíveis efeitos e causas da dinâmica do tráfico, passando pela questão do território, da violência policial, das milícias, da chegada do crack, e encerra com uma série de conclusões e recomendações, entre as quais:
“Uma parte de defensores históricos do Estatuto da Criança e do Adolescente tende a pensar nos adolescentes exclusivamente como ‘vítimas’ e ‘portadores de direitos’, e os agentes de segurança e justiça criminal tendem a pensar nos adolescentes apenas como ‘problemas’, numa construção que os criminaliza, especialmente se forem pobres e viverem nas favelas. É necessário encontrar um ponto de articulação de olhares, metas, programas e compromissos que seja capaz de dialogar com os diversos campos, o que tem sido raro no Brasil.”
“Temos que nos preparar para produzir opções e alternativas para jovens com baixa escolaridade e que tiveram experiências em grupos criminais, mas que desejam sair do ambiente do crime e ingressar no mundo do emprego. Não são apenas “os traficantes” de um lado e os “jovens inocentes” de outro. Há complexas relações entre uns e outros e muitas vezes bastante instáveis e mutantes. Temos de nos preparar para interferir nesses contextos, conhecendo melhor essas dinâmicas e ouvindo os jovens, estejam eles em que ponto estiverem da cadeia que engendra mortes diariamente.”
“Território é a chave, às vezes paradoxal, que tem que ser afirmada, valorizada (ter orgulho de ser de tal favela; querer representar a comunidade tal, sentir alegria por pertencer e ’ser’ de tal lugar) e ao mesmo tempo superada, olhada pela distância que apenas a saída e a circulação por outros territórios conseguem produzir.”
“É necessário mudar esse quadro e chamar as polícias para o diálogo, estabelecer metas conjuntas e estimular iniciativas do tipo ‘Juventude e Polícia’ (como a desenvolvida pelo Grupo Cultural AfroReggae com a Polícia Militar de Minas Gerais e mais recentemente no Rio, através do projeto ‘Papo de Responsa’).”
(*Por Daniel Jelin - Agência Estado)

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“Ser uma imigrante brasileira tem uma conotação sexual forte”

 

Em sua dissertação de mestrado, a artista plástica Letícia Barreto discute os esteriótipos associados às mulheres brasileiras que vivem no exterior

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Manuella de Almeida Lopes

de Lisboa (Portugal) – Postado Brasil de Fato

O Brasil colabora para a construção do imaginário coletivo da mulher brasileira fácil. Muitas pessoas pensam que a liberdade permitida no sambódromo se estende à vida cotidiana As brasileiras imigrantes se proíbem de usar roupas que elas usariam normalmente no Brasil para não serem vistas com nariz torto. Conclusões de uma brasileira imigrante em Lisboa há dois anos que fez da experiência sua dissertação de mestrado em Artes Visuais e Intermédia na Universidade de Évora.

Quando procurou um antigo artesão da zona de Baixa para fabricar carimbos com palavras como “brazuca”, “prostituta” e “ilegal”, a artista plástica Letícia Barreto sabia o quanto seu trabalho causaria surpresa nas pessoas. Assim, preferiu levar um primeiro esboço do projeto com uma palavra mais “neutra”, para mostrar ao senhor qual seria a aplicação prática daquele pedido tão estranho.

A artista reproduziu a foto 5X7 do seu passaporte brasileiro em desenhos feitos com os provocativos carimbos. À primeira vista, os desenhos são iguais uns aos outros, mas, quando aproximamos o olhar, percebemos que cada um é feito de uma palavra carimbada diferente. Há um carimbo para cada estereótipo vivenciado pelas brasileiras no estrangeiro. Apesar de não chamar tanta atenção quanto uma minissaia na Uniban, seu trabalho tem feito muitos portugueses e brasileiros pensarem no assunto.

Brasil de Fato – Início exatamente com a mesma pergunta que você fez às suas entrevistadas para a sua tese de mestrado: o que significa ser brasileira em Portugal?

Letícia Barreto – Primeiramente, acredito que só estando longe do nosso país é que percebemos o que significa o peso da nossa nacionalidade e como os estereótipos ligados à essa nacionalidade determinam a forma como somos tratados. Imigrar implica lidar com conflitos inevitáveis entre culturas diferentes, o que inclui também enfrentar os estereótipos e preconceitos nas percepções mútuas. Ser uma mulher imigrante brasileira tem uma conotação sexual forte. Uma jornalista que eu entrevistei quase foi estuprada por um taxista português. Por ele ter percebido que ela era brasileira, pensou que podia tudo. O modo como somos vistas pelos estrangeiros fizeram-me refletir sobre como o Brasil colabora para essa imagem da mulher brasileira. E colabora muito.

Quando o príncipe Charles visitou o Rio de Janeiro, por exemplo, levaram-no para uma visita “oficial” à uma escola de samba com mulatas semi-nuas sambando à sua volta.

Claro, claro, esse é o nosso cartão postal. Li recentemente um artigo do historiador da Unesp Jean Marcel Carvalho França explicando que a imagem da brasileira sensual foi construída desde a colonização, graças aos relatos dos viajantes que visitaram a Colônia. Navegadores europeus propagavam pela Europa, em suas narrativas de viagem, a imagem da mulher sensual e fácil. Um aspecto interessante sobre esses relatos é constatar que os alvos de censura desses mesmos viajantes, embora fossem consideradas “mulheres brasileiras”, eram na verdade europeias que lá viviam, pois as “brasileiras nativas” não eram as protagonistas dessas “histórias calientes dos trópicos”. Muitos dos relatos dos viajantes apenas reproduziam o que tinham lido anteriormente em outras narrativas. Muitos mal conheciam os lugares que visitavam, nos quais tinham pouquíssimo contato com os habitantes locais. Verdadeiras ou não, o fato é que essas opiniões, divulgadas à exaustão durante séculos, ajudaram a consolidar o senso comum entre os europeus, criando um estereótipo forte que até hoje influencia a forma como as brasileiras são vistas e tratadas no exterior e influenciando até a forma como os próprios homens brasileiros passaram a tratar suas conterrâneas. Nos tempos atuais, alguns exemplos na música, literatura, telenovelas e outras manifestações da cultura brasileira ajudam a reforçar esse estereótipo.

Como é possível as telenovelas contribuírem para reforçar este estereótipo se elas apresentam ao público mulheres com variados comportamentos, pertencentes à diferentes classes econômicas, sociais e culturais?

A novela “Gabriela”, por exemplo, apresentou uma mulher com costumes extremamente livres para uma sociedade que era muito fechada. Fortaleceu este imaginário porque mostrava um modo de ser muito diferente do que era comum aqui [em Portugal]. “Gabriela” fez com que as próprias portuguesas começassem a rever os conceitos em relação ao seu próprio comportamento. E isso me foi dito por portuguesas que conheci aqui em Lisboa.

Até mesmo para a sociedade brasileira, a personagem Gabriela, de Jorge Amado, era avançada para a época em que foi exibida na TV.

Aí é que fica claro como funciona o próprio estereótipo: ele se baseia na generalização. Ninguém se dá ao trabalho de verificar se todos as pessoas também são assim. E o mais maluco de um estereótipo é que nem precisamos ter contato com uma pessoa daquela nacionalidade ou grupo social para criar um conceito a respeito dela, é suficiente ter escutado a respeito para validar o estereótipo.

Então há a imagem que se têm das brasileiras e há as brasileiras enquanto mulheres de carne, osso e sentimento. Quem são de fato as brasileiras que estão em Portugal?

Tem de tudo! Não se pode generalizar! Não existe um perfil. Esse é o ponto e isso é o que pretendo mostrar no meu trabalho: existem pessoas com histórias de vida diversas, com backgrounds diversos, vindas de classes sociais diferentes, com experiências de vida diferentes. Bem distante desse imaginário coletivo, dessa imagem que a mídia criou. Os meios portugueses associam o imigrante brasileiro ao bandido, ao desordeiro.

À prostituição…

Sim, também à prostituição. A comunidade brasileira passou a ser vista de forma mais preconceituosa depois de um assalto a um banco em Lisboa, feito por um brasileiro [que foi morto pela polícia com um tiro na cabeça]. Uma das minhas entrevistadas contou-me que, logo após esse episódio, seu filho foi hostilizado na escola por ser brasileiro.

Mas o seu trabalho de mestrado foi acolhido pelos meios. Você foi entrevistada pelas emissoras de TV portuguesa SIC, RTP e TVI. Não acha que há uma tentativa dos meios de contrabalançar as matérias de pendor negativo com outras mais positivas, sobre integração, multiculturalismo e igualdade de oportunidades?

Sim, há atualmente muitas iniciativas para se debater a aceitação do outro porque é fato que as diferenças existem na nossa sociedade e temos que aprender a conviver com ela. Se não observarmos o outro sem julgamentos, não conseguiremos viver. Todo tipo de guerra e conflito é gerado pela intolerância a tudo o que não conseguimos ou não queremos compreender. O colocar-se no lugar do outro é o grande desafio e requisito necessário a uma comunicação verdadeira. Acredito que a universalidade da arte colabora na dissolução de barreiras e nos ajuda a perceber que, no fundo, somos o reflexo do “Outro”.

Apesar do crescente interesse pelo debate, a maioria das entrevistadas não autoriza que se disponibilize a entrevista no seu site, em podcast.

Medo da exposição, do que as pessoas possam pensar delas. Mas, no geral, as entrevistadas veem de uma forma positiva o projeto, porque muitas pessoas nunca pararam para pensar nas situações que enfrentam, nem refletiram sobre o seu estado de imigrante. E o meu trabalho tem feito os próprios imigrantes a pensarem um pouco a respeito do assunto.

Acha que, para ser respeitada, a brasileira tem que ser mais comportada no estrangeiro do que seria normalmente no Brasil e emprestar mais a cara para este debate?

Acho que a brasileira não precisa deixar de ser quem é para ser respeitada, tem que se fazer respeitar por aquilo que é. Uma coisa engraçada que várias entrevistadas disseram é que se proíbem de usar roupas que elas usariam normalmente no Brasil para não serem vistas aqui com nariz torto. Deixam de usar um decote ou uma saia mais curta, por exemplo.

Enquanto as europeias fazem topless tranquilamente, no Brasil, fazer topless nas praias pode ser considerado um ato obsceno, passível de detenção de três meses a um ano. Inclusive, a estudante Geisy Arruda foi xingada na Uniban por estar usando minissaia na aula. Não acha um contra-senso as brasileiras sofrerem com o preconceito no estrangeiro e com o machismo no Brasil?

Os europeus não acreditam quando eles ficam sabendo que no Brasil não podemos fazer topless. Eles me perguntam: “E o carnaval?”. Eu respondo que o carnaval tem apenas quatro dias de folia e que aquela exposição toda do corpo acontece apenas nos desfiles e são protagonizadas por poucas mulheres.

E só mostra os seios quem desfila no sambódromo.

Conheci europeus que acham que as brasileiras andam de topless nas ruas do Brasil.

Não seria na verdade um preconceito social terceiro-mundista?

Não acho que esteja associado ao terceiro mundo porque não se tem essa mesma imagem das mexicanas, das venezuelanas… Acho que está associada à imagem que exibimos do carnaval, que é muito forte. Há muitas pessoas que pensam que a liberdade permitida no sambódromo se estende à vida cotidiana e, por isso, há esse imaginário coletivo de que no Brasil tudo é liberado o ano inteiro.

Antes de morar em Portugal você morou dois anos na Itália. Por que este trabalho surgiu apenas em Portugal?

Eu cheguei a fazer alguns trabalhos sobre isso na Itália, mas nada consistente. Mas isso de perceber a imagem que se tem das brasileiras surgiu lá, porque na Itália ninguém acreditava que eu era brasileira, por ser branca. Achavam que eu era grega ou do sul da Itália, então, eu tinha que mostrar o meu passaporte a todo momento. A sementinha deste trabalho nasceu dessa necessidade de refletir sobre o que significa ser brasileira e desse imaginário coletivo acerca da nossa nacionalidade.

De que forma os carimbos de seu trabalho artístico traduzem esse estado de ser mulher brasileira no estrangeiro?

A burocracia foi o ponto de partida deste trabalho. Para conseguir o visto, tive que reunir montes de documentos e até enfrentar fila no SUS para fazer teste de hepatite e HIV. Além disso, o fato de eu vir toda legalizada pelo Consulado não facilitou a minha vida aqui: já passei cinco horas na fila da Segurança Social sem conseguir ter minha situação resolvida. Para abrir uma conta no banco, me pediram os documentos mais estapafúrdios. Então, comecei a cansar dessa situação e eu precisava fazer alguma coisa para descarregar toda essa ansiedade, toda essa raiva. Daí, peguei a fotografia do meu passaporte e recriei esse retrato com os carimbos remetendo ao questionamento da burocracia para a legalização e também para a percepção do “outro”, do “estrangeiro” em geral. Mais tarde, percebi que poderia levar essa ideia inicial muito mais longe e passei a focar mais especificamente nas percepções estereotipadas sobre as imigrantes brasileiras. A palavra “estereótipo” originalmente pertence ao vocabulário da editoração gráfica. Trata-se de uma chapa de chumbo fundido que traz em relevo a reprodução de uma página de composição e permite a tiragem de vários exemplares. A prancha estereotipada representa a fôrma que imprime fielmente o padrão da matriz. Por extensão, o estereótipo é uma opinião pronta, uma ideia ou expressão muito utilizada, banalizada, um lugar-comum ou clichê, uma espécie de carimbo que usamos para identificar uma pessoa ou um grupo social. Por isso, o carimbo acabou sendo uma metáfora perfeita para falar do estereótipo.

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Criminalização da pobreza

Escrito por Léo Lince

11-Dez-2009

A polícia do Rio de Janeiro, em comparação com as suas congêneres do Brasil e do mundo, é a que mais mata e a que mais morre. Ela é ao mesmo tempo algoz e vítima de um processo vicioso que só faz agravar a espiral da violência, resultado inevitável de uma política de segurança da qual o governo se vangloria, apesar da sua comprovada ineficácia.

Toda vez que se publicam relatórios e dados sobre a questão da violência e os direitos humanos, o cidadão fluminense se vê diante do doloroso dever de constatar a permanência de tão trágica realidade. Exemplo? Basta ver o informe da Human Rights Watch (HRW), publicado com destaque nos jornais desta quarta-feira. Os números são estarrecedores e não foram desmentidos pelas autoridades.

Em 2008, os policiais do Rio cometeram 1.137 homicídios durante o expediente ou fora dele. O tamanho do absurdo se mede pela comparação com outros estados e até países. No estado de São Paulo, foram 397 as mortes cometidas por policiais no mesmo período. Na África do Sul e nos Estados Unidos, considerado o país inteiro em ambos os casos, os números foram 468 e 371, respectivamente. A relação entre o número de mortos e número de prisões efetuadas é outro dado altamente revelador. No Rio, para cada suspeito morto por policiais, estes conseguiram efetuar 23 prisões; em São Paulo, 1/348; e nos EUA 1/37.751. Outra dimensão do mesmo descalabro são os dados que medem a relação entre mortes cometidas por policiais para cada óbito de policial. Nos EUA 9,05; em São Paulo, 18,05; e no Rio são 43,73 mortos para cada óbito policial.

Toda comparação, claro, padece de problemas e carece de ser relativizada. Mas, no caso, trata-se de uma questão específica, analisada com base em dados oficiais, em regiões assemelhadas. Em todas elas, a violência se concentra nas megalópoles atravessadas pelos problemas típicos do capitalismo pós-moderno. Sendo assim, descartado o castigo de Deus como hipótese, deve haver uma explicação para os números que conferem ao Rio de Janeiro uma distinção tão macabra. Para os estudiosos mais acurados do assunto, a política de segurança adotada pelo governo Cabral é a causa maior do descalabro.

Ancorada na lógica do confronto bruto, tal política opera na base da aceitação tácita do uso ilegal da força letal. Há muito que se denuncia, sem que se consiga estancar a sangria literal que daí decorre, os chamados "autos de resistência". São utilizados como forma de justificar os homicídios cometidos e funcionam, na prática, como uma licença para matar. Ao comparar a recente derrubada de um helicóptero policial com a queda das Torres Gêmeas, o secretário de Segurança forneceu justificativa para a espiral de violência. No espírito da vendeta, bandido e polícia se igualam no exercício descontrolado da força e na produção da insegurança coletiva.

A brutalidade policial cumpre também uma função política. A reprodução das relações sociais marcadas pela desigualdade e pela injustiça não se faz sem certo grau de violência segregacionista contra os mais pobres. Como escreveu, em artigo recente, Chico Alencar, deputado federal do PSOL/RJ: "uma política de segurança que mira invariavelmente os de baixo, jogando sobre eles toda culpa sobre os malfeitos de uma sociedade desigual, tem nome e sobrenome: criminalização da pobreza".

Léo Lince é sociólogo.

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Jovens bem resolvidos têm personalidade forte e são responsáveis

Segmento representa mais da metade dos jovens brasileiros

do IG
Mais da metade dos jovens brasileiros ouvidos pela pesquisa “Juventude 30 Quilates – A idade que vale ouro”, realizada neste ano, dizem que são positivos, responsáveis, bem informados, bem conectados com a cultura jovem, batalham por seus desejos e ideais, já têm uma carreira profissional bem encaminhada, assim como uma vida amorosa e uma boa renda. Eles são os “bem sucedidos”.
Juliana Motter, uma jovem de 32 anos, que é formada em jornalismo e gastronomia e sempre sonhou em ser doceira, é um bom exemplo desse perfil. Tanto sonhou que conseguiu. Hoje Juliana é dona de uma loja de doces em Pinheiros, zona sul de São Paulo.
Ela sempre sonhou em ser doceira, igual à avó. Com 15 anos, começou a trabalhar como jornalista e, por isto, fez faculdade de comunicação. Mas, com 6 anos, já tinha feito o seu primeiro brigadeiro em casa. Depois, não parou mais de inventar receitas. Mesmo jornalista, não se afastou dos doces. Além de cozinhar o tempo todo, escrevia sobre gastronomia. Então decidiu fazer faculdade para se especializar no assunto. “Aprendi técnicas de patisserie e passei a aplicar nas minhas receitas de brigadeiro. Enchi um caderno de receitas com versões diversas do doce e na festa de uma amiga decidi levar os novos sabores. Foi um sucesso, as pessoas nunca tinham visto brigadeiros de outros sabores, como pistache e avelã, e me perguntaram se eu fazia para vender. Dizia que não, que fazia porque gostava, que era jornalista”.
Mas foi aí que Juliana viu seu futuro. De tanto que insistiram na pergunta, ela resolveu mudar a resposta. Arriscou e vendeu, é claro. A primeira venda foi rápida e grande: no dia seguinte, uma moça ligou e pediu mil brigadeiros. Assim surgiu a sua loja, chamada de Maria Brigadeiro, que levou este nome devido ao apelido da dona quando criança e que é o primeiro ateliê de brigadeiro gourmet do Brasil. Juliana mantém a loja atualmente e mora sozinha. Diz que adora chegar no seu canto e relaxar depois de um dia de trabalho tomando um bom vinho. Tudo isto porque acreditou no seu sonho, se planejou e investiu quando achou que era a hora certa.
Na pesquisa encomendada pela VH1, 89% dos jovens entrevistados colocaram o sucesso profissional no topo da lista das coisas que são importantes para uma boa vida. Além disto, 83% afirmaram que querem ter dinheiro o bastante para sustentar uma família e 74% quer ganhar muito dinheiro. Vinicius Mocsanyi, de 26 anos, é um destes que quer ganhar dinheiro e manter sua família. Ele está se formando em Educação Física e sempre pensou em constituir uma boa família e trabalhar com esportes. Hoje, Vinicius vive ao lado de sua mulher, Júlia, e de seus dois filhos, Vitor e Bruno, de 1 e 3 anos, respectivamente.
O primeiro filho veio no final de 2005, horas depois de Júlia entregar o seu trabalho de conclusão de curso na faculdade. Apesar de ter somente 26 anos, Vinicius já leva uma vida de responsabilidades, reuniões e trabalho. “Tenho horários bem flexíveis devido à minha área de atuação, procuro levar ou buscar meu filho para a escola e sempre almoçar em casa. Muitas vezes saio de casa antes das 6h e, quando retorno, às 10h ou 11h, brinco com eles até a hora do almoço”.

 

IZB: Só deixo uma pergunta! Aonde que foi feito essa pesquisa, porque não mostra a realidade dos jovens no Brasil.

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FHC deve reconhecer filho que teve há 18 anos

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teria decidido reconhecer oficialmente seu filho, Tomas Dutra Schmidt, fruto de um relacionamento que teve com a jornalista Mirian Dutra, da TV Globo, no início da década de 1990. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, FHC está em Madri, onde vive Mirian, para formalizar o assunto.

Tomas nasceu em 1991, período em que o ex-presidente era senador. O caso foi mantido sob sigilo por Fernando Henrique e Mirian. Na época, ele era casado com Ruth Cardoso, com quem teve três filhos, Luciana, Paulo Henrique e Beatriz. Ruth morreu em junho de 2008, vítima de um enfarte, aos 77 anos.

Em 1992, um ano após o nascimento de Tomas, Mirian foi transferida pela TV Globo para a Europa. Ela trabalhou como correspondente em Lisboa, Londres e Madri. Apesar da distância, acabou ganhando repercussão com a ascensão política de Fernando Henrique.

O ex-presidente passou de senador a ministro da Fazenda em 1993, ano em que a classe política e jornalistas começaram a saber da existência de Tomas. Em 1994, quando ele se candidatou à Presidência, a imprensa procurou Mirian na Espanha para que contasse a história de seu filho, mas ela se negou a falar do assunto. FHC, por sua vez, nunca falou publicamente sobre Tomas.

No período em que esteve na Presidência, ele teve contatos esporádicos com o garoto. Após o fim de seu mandato, FHC teria ido à Espanha com frequência para visitar Tomas e até participado de sua formatura, em Londres. Hoje, ele está com 18 anos e estuda nos Estados Unidos. (Agência Estado)

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Casamento gay legalizado em Buenos Aires

É uma decisão inédita na América Latina. A juíza Gabriela Seijas do Tribunal de Instrução número 15 ordenou aos funcionários do registo civil da capital argentina que celebrassem o casamento de Alejandro Freyre, 39 anos, e de José Maria Di Bello, 41 anos, que viram ser recusada uma data de casamento devido ao seu sexo. Apresentaram queixa em Abril e ganharam. A discriminação foi considerada inconstitucional.

«Estamos muito contentes, emocionados, mas sentimos também o peso de uma grande responsabilidade porque não somos só nós os interessados, é um encorajamento à igualdade jurídica na Argentina e no resto da América Latina», disse Di Bello.

A cidade de Buenos Aires é pioneira na América Latina. Já tinha sido a primeira região, no final de 2002, a autorizar uniões civis entre homossexuais que permitem entre outras coisas receber uma reforma em caso de viuvez. Seguiram-na a cidade de Villa Carlos Paz (norte) e a província Rio Negro (sul).

No resto da América Latina, a cidade do México, o Estado mexicano de Coahuila e o Estado brasileiro do Rio Grande do Sul permitem estas uniões.

O Uruguai foi o primeiro país da região a legalizar as uniões civis homossexuais, no final de 2007. O Tribunal Constitucional colombiano reconheceu em Janeiro de 2009 uma série de direitos aos casais do mesmo sexo, nomeadamente os direitos de protecção social.

Nenhum país da América Latina autoriza o ‘casamento’ entre duas pessoas do mesmo sexo.

A juíza argentina considerou que «a lei deve tratar toda a gente com o mesmo respeito segundo as suas singularidades» e declarou inconstitucionais dois artigos do código civil, um dos quais (172) menciona o consentimento necessário entre «um homem» e «uma mulher».

«Mudar as palavras «homem» e «mulher» pela palavra «contratante» é tudo o que há a fazer», disse Di Bello.

Num país onde a hierarquia da igreja católica é muito influente, o bispo católico Baldemoro Martini disse que «as uniões do mesmo sexo não contribuem para o bem comum, põem-no seriamente em perigo».

Esta decisão em primeira instância é passível de recurso mas o presidente da Câmara de Buenos Aires, Mauricio Macri (direita), declarou à imprensa que o seu governo não vai recorrer.

«O mundo vai nessa direcção», segundo ele.

Várias associações homossexuais na América Latina reagiram: «Estou muito contente e associo-me ao sentimento dos gays argentinos, que foram reprimidos durante muitos anos», disse Marcelo Cerqueira, o presidente do grupo Gay da Baía, um dos mais activos do Brasil.

«Nós no Brasil não temos nenhuma expectativa, nem a curto, nem a longo prazo», de ver um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo autorizado no gigante da América Latina, acrescentou.

«O veredicto do tribunal de Buenos Aires é incrivelmente corajoso, nós não o esperávamos», reconheceu Di Bello, que caiu nos braços do seu companheiro ao saberem do veredicto.

Ele pensa que a decisão da justiça deverá relançar um projecto de lei do casamento gay, actualmente em discussão na Câmara dos Deputados na Argentina.

A juíza Seijas destacou que, «nos últimos anos, mais de uma dezena de países modificou a sua legislação para permitir aos casais do mesmo sexo» o casamento, citando a Bélgica, a Espanha, a África do Sul e a Noruega.

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Câmara fará Audiência Pública sobre caso Uniban

A Comissão de Educação e Cultura da Câmara aprovou, nesta quarta-feira 11, requerimento para realização de audiência pública para debater, a partir da ocorrência envolvendo a Uniban – Universidade Bandeirante e uma aluna do curso de turismo, a responsabilidade das instituições de ensino superior em relação aos direitos humanos. Para o deputado Ivan Valente, autor da proposta com a deputada Angela Portela, transformar a vítima em ré é uma atitude inadmissível da direção da Uniban.

“Qual o papel das instituições na formação desses jovens?”, questionou. Na opinião do deputado, a manifestação por parte dos outros acadêmicos para com a estudante Geisy Arruda foi um assédio em massa e uma incitação à violência. Geisy chegou a ser expulsa, conforme divulgado pela própria Uniban, que voltou atrás diante da repercussão negativa.

A audiência pública será conjunta com a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, com participação secretária de Ensino Superior do Ministério da Educação, Maria Paula Dallari Bucci; da ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéa Freire; da reitoria da Uniban; da antropóloga e professora da Universidade de Brasília, Débora Diniz; e da diretora de Mulheres da União Nacional dos Estudantes, Roberta Costa.

O deputado Ivan Valente explicou que não propôs convite à estudante Geisy Arruda para não constrange-la ainda mais.

Leia abaixo a íntegra do requerimento:

COMISSÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA

Requerimento nº /2009.

(dos deputados Ivan Valente e Angela Portela)

Requerem a realização de Audiência Pública, na Comissão de Educação e Cultura, para debater a ocorrência envolvendo a Uniban e uma aluna da Faculdade de Turismo.

Senhora Presidente:

Requeremos a vossa excelência, nos termos do artigo 255 do Regimento Interno, ouvido o plenário desta Comissão de Educação e Cultura, a realização de Audiência Pública, em data a ser agendada, com o intuito de debater os fatos ocorridos na Universidade Bandeirantes em São Bernardo, relacionados à manifestação envolvendo a estudante Geisy Arruda e o papel da Universidade na condução do processo educacional.

Propomos para tanto que sejam convidadas as seguintes autoridades:

. Sra. Maria Paula Dallari Bucci, Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação;

. Sra. Nilcéia Freire, Secretária Especial de Políticas para Mulheres;

. Sr. Heitor Pinto Filho, Reitor da Universidade Bandeirantes;

. Sra. Débora Diniz, Antropóloga, professora da UnB;

Justificação

Há algumas semanas, uma nova manifestação de violência e agressões chocou o país. Desta vez, a vítima foi uma estudante de Turismo do campus de São Bernardo da Universidade Bandeirantes que sofreu toda sorte de humilhação por usar um vestido curto para ir à aula. As cenas, distribuídas pela internet e veiculadas sem cessar na televisão, nos impõem uma séria reflexão acerca do machismo e de posições de extremo conservadorismo que ainda vigoram em nossa sociedade.
As cenas de fúria e delírio coletivo constatadas nos corredores da Uniban beiram o fascismo que não pode ser tolerado sob nenhuma hipótese. Xingada, acuada e ameaçada por jovens – homens e mulheres – a estudante Geisy Arruda só conseguiu deixar o campus escoltada pela Polícia Militar. Entre sua chegada na universidade e o momento da fuga, foi obrigada a ouvir inclusive aclamações por estupro. Para uma parte considerável daqueles que criaram o tumulto, a responsável pelas agressões era a própria estudante, que teria provocado com seus trajes a ira incontrolável de um bando de jovens ferozes.
Vale lembrar que esta justificativa é sempre corriqueira nos casos de violência contra a mulher, do estupro às agressões físicas. Basta ler a fala dos agressores nas investigações levadas a cabo pelas delegacias da mulher Brasil afora. O caso da estudante, assim como inúmeros casos ocorridos no País, configura gravíssima manifestação de machismo, preconceito e intolerância.
Não há justificativa possível para este tipo de violência contra a mulher. As conseqüências para a vida desta jovem são inúmeras, sobretudo após a superexposição que ela vem sofrendo depois que o caso chegou à grande imprensa. Não obstante a violência já perpetrada contra a jovem, agora a sociedade está à frente de mais uma: a expulsão da jovem estudante.

O fato expõe a face perversa de um sistema de ensino que nos últimos anos vêm insistindo num modelo tecnocrata, extremamente competitivo e individualista. Nossas escolas sofrem com uma padronização irracional, que desconsidera diferenças, impondo um modelo centrado apenas em conteúdos que podem ser medidos nas diversas provinhas e provões e que reduz a educação a processos mecânicos de transmissão de informação. Modelo que tem subtraído do trabalho escolar a sua dimensão mais importante: a formação de cidadãos e cidadãs críticos e conscientes que busquem a construção de uma sociedade justa, livre de preconceitos e intolerâncias.

Entre as atribuições da Comissão de Educação e Cultura está a de avaliar os assuntos atinentes à educação em geral, à política em vigor e o papel das instituições de ensino na formação dos alunos de uma maneira geral, sendo portanto, em nossa opinião, muito oportuno a realização desta audiência nesta Comissão, analisando este grave caso de grande repercussão, inclusive internacional. Desta forma, contamos com os nobres pares para a aprovação da presente proposta.

Sala das Comissões, 09 de Novembro de 2009.

Deputado Ivan Valente – Lider do PSOL

Deputada Angela Portela – PT/RR

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Uniban/Taleban

Por: Dojival Vieira - 8/11/2009

 

Mulheres e Negros sofrem historicamente as conseqüências de práticas machistas e racistas, elementos estruturantes da desigualdade social que torna o Brasil campeão nesse quesito, e que nos envergonham a todos.

Dojival Vieira
Jornalista, advogado e poeta. Editor de Afropress

dojival

 

É porque mulheres e negros são vistos como menos por conta dessas duas patologias – o machismo e o racismo – que nos pagam menos (em média, a metade ou até menos, pelas mesmas funções), nos negam acesso aos espaços de poder, nos tratam com estereótipos, quando não nos humilham em nosso cotidiano.
A decisão da Uniban (Universidade Bandeirantes) de expulsar a aluna Geisy Arruda – vítima há duas semanas de um verdadeiro linchamento moral apenas porque trajava um vestido vermelho, um palmo acima do joelho - é um retorno às trevas e ao obscurantismo medieval.
A expulsão de Geisy “em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”, anunciada numa Nota Pública em que a “Universidade” garante que “A Educação se faz com atitude e não com complacência”, é um hino ao autoritarismo; uma declaração despudorada de como a instituição assume o papel de polícia dos costumes e se coloca vergonhosamente ao lado de “machos em fúria que tomaram a estudante por objeto do seu desejo reprimido e recalcado”, avalizando a selvageria.
Ao dar razão aos agressores, a Uniban se torna cúmplice – não apenas por omissão, mas pela ação – e desce ladeira abaixo no seu conceito de instituição de ensino; rompe com padrões civilizatórios mínimos.
Entretanto, a atitude conservadora e machista de uma instituição que, embora privada, funciona por concessão pública, deve ser não apenas denunciada, mas servir como sinal de alerta: sim, é possível, em pleno século XXI, em S. Bernardo (berço do novo sindicalismo, do PT e da CUT, e palco das grandes lutas pela democracia nos 70 e 80 e, não por acaso, cidade domicílio do Presidente da República); sim, é possível é possível no Brasil, retrocessos que nos levam diretamente de volta às trevas da inquisição medieval, numa espécie de túnel do tempo.
A Uniban deve assumir, doravante, o nome fantasia de Universidade Taleban. Tornou-se, no plano dos costumes, irmã siamesa da cultura homônima do regime que governou o Afeganistão até ser derrubado, em 2.002, e que, além de polícia de costumes – forçando as mulheres ao uso da burka que lhes cobria completamente o corpo e o rosto, sob pena de chibatadas e castigos cruéis - tornou-se símbolo de até onde pode chegar a intolerância e a estupidez humanas; paradigma do atraso mental e espiritual da espécie.
O que a decisão da “Universidade” projeta para o futuro, com esse gesto, contudo é, mais preocupante. Com a expulsão, a Uniban/Taleban avaliza e autoriza o linchamento moral e outorga aos machos de plantão o direito de decidir como uma mulher deve se vestir, quando está ou não vestida adequadamente para os seus padrões.
Tudo a ver, como se vê, com os modelos patriarcais, da mulher transformada em objeto de cama e mesa para servir e saciar a vontade e os desejos de machos em fúria - e que, pelo menos em público - “devem estar vestidas adequadamente”.
É vergonhoso. É obsceno para todos nós, homens e mulheres – negros e não negros - que, ao contrário do verso da música de Caetano, em A Dama do Lotação, sabemos, sim, “onde colocar o desejo”.
Respeitem os princípios éticos, a dignidade humana de uma mulher, que está acima de qualquer dignidade acadêmica, e muito mais dessa tosca academia dos costumes que pretendem tomar por Universidade.
Quanto à moralidade a que se referem para praticar essa violência, façam dela bom proveito. Só deve ser útil mesmo a quem se pauta por práticas retrógradas e medievais e, acima de tudo, hipócritas.

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O urro ancestral da faculdade injuriada

Universitários que encurralaram a colega de vestido curto não eram delirantes: eram agressores mesmo
Assédio em massa
Vídeos veiculados pelo YouTube mostram a estudante de Turismo Geisy Arruda, da Uniban, em São Bernardo do Campo, sendo xingada e acuada por outros alunos por causa do comprimento do vestido. Ela teve de ser escoltada para fora do prédio por policiais.

Por Debora Diniz  - Antropóloga, professora da UnB e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero – Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo.

O caso não caberia nem em um folhetim vulgar, não fosse o YouTube denunciando a verdade. A “puta da faculdade” é uma história bizarra: uma mulher de 20 anos é vítima de humilhações. A razão foi um vestido rosa e curto que a fazia se sentir bonita. Sem ninguém saber muito bem como o delírio coletivo teve início, dezenas de pessoas passaram em coro a gritar “puta” e ameaçá-la de estupro. A saída foi esconder-se em uma sala, sob os urros de uma multidão enfurecida pela falta de decoro do vestido rosa. Além da escolta policial, um jaleco branco a protegeu da fúria agressiva dos colegas que não suportavam vê-la em traje tão provocante.

Colegas de faculdade, professores e policiais foram ouvidos sobre o caso. O fascínio compartilhado era o vestido rosa. Curto, insinuante, transparente foram alguns dos adjetivos utilizados pelos mais novos censores do vestuário da sociedade brasileira. “A roupa não era adequada para um ambiente escolar”, foi a principal expressão da indignação moral causada pelo vestido rosa. Rapidamente um código de etiqueta sobre roupas e relações sociais dominou a análise sociológica sobre o incidente. Não se descreveu a histeria como um ato de violência, mas como uma reação causada pela surpresa do vestido naquele ambiente.
O que torna a história única é o absurdo dos fatos. Um vestido rosa curto desencadeia o delírio coletivo. E o delírio ocorreu nada menos do que em uma faculdade, o templo da razão e da sabedoria. Os delirantes não eram loucos internados em um manicômio à espera da medicação ou marujos recém-atracados em um cais após meses em alto-mar. Eram colegas de faculdade inconformados com um corpo insinuante coberto por um vestido rosa. Mas chamá-los de delirantes é encobrir a verdade. Não há loucura nesse caso, mas práticas violentas e intencionais. Esses jovens homens e mulheres são agressores. Eles não agrediram o vestido rosa, mas a mulher que o usava para ir à faculdade.

Não há justificativa moral possível para esse incidente. Ele é um caso claro de violência contra a mulher. Ao contrário do que os censores do vestuário possam alegar, não há nada de errado em usar um vestido rosa curto para ir às aulas de uma faculdade noturna. As mulheres são livres para escolher suas roupas, exibirem sua sensualidade e beleza. A adequação entre roupas e espaços é uma regra subjetiva de julgamento estético que denuncia classes e pertencimentos sociais. Não é um preceito ético sobre comportamentos ou práticas. Mas inverter a lógica da violência é a estratégia mais comum aos enredos da violência de gênero.

A multidão enfurecida não se descreve como algoz. Foi a jovem mulher insinuante quem teria provocado a reação da multidão. Nesse raciocínio enviesado, a multidão teria sido vítima da impertinência do vestido rosa. As imagens são grotescas: de um lado, uma mulher acuada foge da multidão que a persegue, e de outro, do lado de quem filma, dezenas de celulares registram a cena com a excitação de quem assiste a um espetáculo. Ninguém reage ao absurdo da perseguição ao vestido rosa. O fascínio pelo espetáculo aliena a todos que se escondem por trás das câmaras. Quem sabe a lente do celular os fez crer que não eram sujeitos ativos da violência, mas meros espectadores.

Pode causar ainda mais espanto o fato de que a multidão não tinha sexo. Homens e mulheres perseguiam o vestido rosa com fúria semelhante. Há mesmo quem conte que a confusão foi provocada por uma estudante. Mas isso não significa que a violência seja moralmente neutra quanto à desigualdade de gênero. É uma lógica machista a que alimenta sentimentos de indignação e ultraje por um vestido curto em uma mulher. A sociologia do vestuário é um recurso retórico para encobrir a real causa da violência – a opressão do corpo feminino. Não é o vestido rosa que incomoda a multidão, mas o vestido rosa em um corpo de mulher que não se submete ao puritanismo.

Não há nada que justifique o uso da violência para disciplinar as mulheres. Nem mesmo a situação hipotética de uma mulher sem roupas justificaria o caso. Mas parece que uma mulher em um vestido insinuante provoca mais fúria e indignação que a nudez. O vestido rosa seria o sinal da imoralidade feminina, ao passo que a nudez denunciaria a loucura. A verdade é que não há nem imoralidade, nem loucura. Há simplesmente uma sociedade desigual e que acredita disciplinar os corpos femininos pela violência. Nem que seja pela humilhação e pela vergonha de um vestido rosa.

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo – 02/11/09

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Polícia do PA quase causa um novo massacre de Eldorado dos Carajás

Truculência e despreparo de coronel da PM e de Delegado Geral da Polícia Civil do Pará quase causa novo massacre em Eldorado dos Carajás

Por pouco não termina em tragédia uma ação das Polícias Militar e Civil do Estado do Pará, na curva do “S”, mesmo local onde ocorreu o massacre de Eldorado em 17 de abril de 1996. O fato lamentável ocorreu na tarde da última sexta-feira, no momento em que mais de mil trabalhadores ligados ao MST faziam uma manifestação pacífica no local.

No início da manhã os trabalhadores interditaram a Rodovia PA 150 como forma de pressão para exigir a abertura de negociação por parte do governo do Estado. Por volta das 11 horas da manhã, sem que a polícia estivesse no local, os trabalhadores decidiram por si mesmos desinterditar a estrada. A situação permaneceu totalmente tranqüila, com o tráfego de veículos restabelecido até por volta das 14 horas, quando chegaram ao local o Delegado Geral de Polícia Civil, Raimundo Benassuly, e o coronel Leitão da Polícia Militar acompanhados de aproximadamente 70 policiais do batalhão de choque.

Demonstrando total despreparo e usando de truculência desmedida, sem dar chance para qualquer tipo de diálogo, o coronel e o delegado partiram para cima dos trabalhadores que se aglomeraram nas imediações da pista, gritando de forma descontrolada que estavam ali para prender quem estivesse à frente. O Delegado Geral, Raimundo Benassuly, sacou uma pistola e ameaçou atirar nos trabalhadores que se aproximavam. Vendo a ação do delegado, outros policiais fizeram o mesmo, e, em seguida prenderam três trabalhadores sem qualquer motivo. O delegado Benassuly é o mesmo que no início do governo de Ana Júlia, quando uma adolescente foi colocada na cela com mais de 15 presos por mais de 20 dias, tentou justificar a ação criminosa afirmando que a adolescente deveria ter algum problema mental. Foi afastado em razão desta declaração, mas, foi reconduzido ao cargo por ordem da Governadora.

O advogado da CPT de Marabá, José Batista Gonçalves Afonso e os Defensores Públicos Rossivagner e Arclébio, que se encontravam no local desde o período da manhã, ainda tentaram acalmar a fúria do Delegado e do Coronel, no entanto, foram empurrados e ameaçados de prisão. As centenas de trabalhadores que, em sua maioria, portavam pedaços de paus e facões, só recuaram mediante aos insistentes pedidos do Advogado da CPT. Enquanto os trabalhadores eram acalmados pelo advogado da CPT e pelos Defensores Públicos, o Coronel e o Delegado continuavam provocando o conflito afirmando que não temiam o confronto e nem se importavam com o fato político que pudesse gerar ali. Que vieram para desobstruir a estrada de qualquer jeito, sendo que, a estrada já estava liberada muito antes de eles chegarem. Ameaçaram ainda quebrar as barracas armadas pelas famílias para se abrigarem do sol. Só não o fizeram porque os trabalhadores decidiram desmontá-los antes. Apavoradas, mulheres e crianças correram para dentro do mato, várias pessoas passaram mal, inclusive, algumas que foram feridas no massacre em 1996.

O advogado da CPT foi categórico em afirmar que, caso ele e os defensores públicos não estivessem no local, uma tragédia poderia ter acontecido, pois os dois policiais chegaram com intenção de provocar o confronto com os sem terra e estavam totalmente descontrolados, sem quaisquer condições de dialogar sequer com o advogado e os defensores. Todos os policiais do batalhão de choque estavam com as tarjas de identificações cobertas. A CPT vai acionar judicialmente o Delegado e o Coronel pelo crime de abuso de autoridade.

A ação desmedida do Coronel, do Delegado e também da Governadora contra o MST se deu devido à destruição, no meio da semana, de casas da fazenda Maria Bonita de propriedade do banqueiro Daniel Dantas. O governo do Estado e os fazendeiros acusam o MST por este fato e há, inclusive, um pedido de prisão preventiva contra Charles Trocate, líder do MST, que nem se encontrava no Estado do Pará quando o fato aconteceu.

O grupo de Dantas já comprou mais de 50 fazendas na região, a maioria das propriedades adquiridas na região de Marabá, incide sobre área dos castanhais, cuja legislação estadual (Lei nº 913/54; Decreto Lei nº 57/69; Decreto Lei nº 7.454/71) impõe aos detentores desses imóveis, dentre outras obrigações, a de manter preservadas as áreas de castanhais, priorizando seu extrativismo, bem como ter autorização do Estado para vender o imóvel a terceiros. O Estado do Pará não foi consultado sobre as vendas para o grupo de Daniel Dantas e, em todos os imóveis, os castanhais foram destruídos e substituídos por capim. Além dessas infrações, em quase todas as fazendas há incorporação ilegal de terra pública aos imóveis. Este fato já foi comprovado na Fazenda Cedro, localizada em Marabá.

A partir de denúncia feita pela CPT de Marabá à Ouvidoria Agrária Nacional, foi requerida uma fiscalização do IBAMA nos imóveis do grupo ocupados pelos trabalhadores sem terra. Em 15.04.09, na fazenda Espírito Santo, fiscais do órgão ambiental registraram que não há cobertura vegetal nos 10.599 hectares que compõe a fazenda. O grupo de Daniel Dantas foi multado em 50 milhões de reais e foi dado um prazo de 120 dias para a retirada do gado. Na Fazenda Maria Bonita, os fiscais identificaram que não existia Licença Ambiental Rural para exercer atividade de agropecuária. O grupo Dantas foi multado em 7 milhões de reais e embargada qualquer atividade na propriedade. Por ter sido detectado a ausência total de cobertura vegetal em 6.316 hectares, o grupo foi multado em R$ 31 milhões de reais. Foi dado também um prazo de 120 dias para a retirada do gado da propriedade. Mesmo com esse rol de crimes em suas propriedades, a governadora e o poder judiciário insistem em manter as terras nas mãos do banqueiro, preso pela Polícia Federal, por duas vezes, por desviar recursos públicos.

De janeiro a outubro do ano corrente, segurança e pistoleiros das fazendas do banqueiro já assassinaram um trabalhador sem terra e balearam gravemente outros 17 sem terra no interior das propriedades. Todos os crimes continuam impunes. Nos dois anos e 10 meses de governo de Ana Júlia, apenas no sul e sudeste do Estado, foram 66 fazendas ocupadas por 10.599 famílias; 101 trabalhadores e lideranças foram ameaçados de morte; 23 trabalhadores foram feridos a bala por pistoleiros e seguranças de fazendas; 17 trabalhadores foram assassinados na luta pela terra e 128 foram presos. Os conflitos agrários no Estado do Pará são problemas sociais da maior gravidade que a governadora, a exemplo de seus antecessores, insiste em resolver com casos de polícia. Enquanto isso, pistoleiros e mandantes dos crimes gozam de total impunidade.

Marabá – PA, 09 de novembro de 2009. (Comissão Pastoral da Terra - CPT do sul e sudeste do Pará)

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Reitor da Uniban revoga expulsão de aluna

gleysi392 O reitor da Universidade Bandeirante (Uniban), Heitor Pinto Filho, decidiu no início desta noite anular a expulsão da aluna Geisy Arruda, de 20 anos. A expulsão foi decidida pelo Conselho Universitário (CONSU) da instituição na última sexta-feira e divulgada ontem. A aluna foi hostilizada, em 22 de outubro, por alunos após usar minivestido nas dependências da instituição. O assessor jurídico da reitoria da instituição, Décio Lencioni Machado, informou que a decisão foi tomada pelo "reitor, como pessoa física".

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Amanhã, a Uniban concederá uma entrevista coletiva onde o vice-reitor Ellis Brown explicará as motivações da universidade em voltar atrás na decisão de demitir a aluna.

A estudante de turismo sofreu assédio e ameaças de agressão no dia 22 de outubro, quando cerca de 600 estudantes a cercaram, com gritos e ameaças. Ela teve de ser escoltada para fora do câmpus de São Bernardo pela Polícia.

Na sexta-feira, depois de concluir uma sindicância interna, a Uniban decidiu expulsar Geisy "por entender que ela foi responsável, que provocou a situação com sua atitude". No domingo, um comunicado da instituição foi publicado em jornais da capital informando sobre a expulsão.

O texto afirmava que Geisy frequentava "as dependências da universidade em trajes inadequados e que indicam uma postura incompatível com o ambiente da universidade". A instituição alega que ela foi avisada "constantemente sobre a inconveniência de seus trajes".

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