Arquivo de Cultura

Cooperifa: leia o livro, veja o filme e ouça o disco

CULTURA PERIFÉRICA

Série de obras artísticas celebra os saraus que ajudaram a construir o conceito de cultura periférica — e o mundo de iniciativas que está surgindo a partir deles. Trabalhos ressaltam opinião da jornalista Eliane Brum: "A Cooperifa é um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada"

Eleilson Leite

Le Monde Diplomatic (11/09/2008)

O Sarau da Cooperifa, que acontece todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão, Chácara Santana, periferia da Zona Sul de São Paulo, não pára de surpreender. Não bastasse a ousadia de sua existência e longevidade (comemora sete anos neste inverno), esses poetas acabam de ter sua história registrada em livro e filme documentário. Sergio Vaz, criador e criatura deste Sarau, lançou, no dia 20 de agosto, o livro Cooperifa – Antropofagia Periférica, dentro da Coleção Tramas Urbanas, da Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro.

Já o filme, Povo Lindo, Povo Inteligente – O Sarau da Cooperifa, lançado no dia 1º de setembro, no Cinesesc, foi dirigido por Sergio Gagliardi e Maurício Falcão, numa produção da DGT Filmes. As duas obras somam-se ao CD Sarau da Cooperifa, lançado em 2006 pelo Itaú Cultural, que reproduziu em estúdio a magia da poesia declamada por 26 poetas cooperiféricos. Este CD, por sua vez, foi precedido pela coletânea Rastilho de Pólvora, lançada no finalzinho de 2005, com o apoio da mesma instituição. Esgotada há muito tempo, essa coletânea já está com os originais prontos para lançamento de um segundo volume.

Sergio Vaz escreveu um livro de memória, uma autobiografia poética. Ele parte de sua infância, a vida na periferia, a escola, futebol, os primeiros bailes, o trampo no bar de seu pai, o mesmo bar do Zé Batidão. Então, a adolescência inocente encontra-se com a adulto insurgente. Veja. Depois de serem despejados do Garajão, bar no Taboão da Serra onde o Sarau firmou-se nos dois primeiros anos, Vaz não teve dúvida: Zé Batidão. O atual proprietário do bar comprou o estabelecimento do pai do Sergio Vaz ainda na década de 1990, e lá o poeta fez alguns eventos no início de sua carreira literária, anterior à Cooperifa — inclusive o lançamento de seu terceiro livro, Pensamentos Vadios. O Zé acolheu os poetas e até viabilizou um transporte para a galera vir do Taboão. Não saíram mais de lá. Essa e outras histórias, contadas no livro, ganham imagem no filme.

Generoso, Sergio Vaz dá nome a todos e todas que fazem a história da Cooperifa. Não passavam de quinze, na primeira noite, ainda em Taboão da Serra. Já eram multidão quando o sarau aportou na periferia sul de São Paulo

Centrado na figura de Sergio Vaz, o livro não deixa de registrar a participação dos que estavam junto dele. Generoso que é, o poeta dá nome a todos e todas que fizeram e fazem a história da Cooperifa. Na primeira noite do recital de poesia, ele dá a escalação do time. Não passava de 15 pessoas. Quando o sarau aportou no Zé Batidão, a lista de nomes era infindável, e ocupa quase uma página do livro. Estão quase todos lá, segundo Vaz, que já não confia tanto na lembrança. O livro é saboroso. É daquelas obras que a gente lamenta quando chegam ao fim, como a de um amigo que nos fazia uma boa companhia e de repente se foi. Vaz escreve poesia em prosa. Para quem tem o prazer de conhecê-lo, é como se estivéssemos ouvindo tudo pessoalmente. Ele só não registra bem as datas deixando a mim, historiador de formação, um tanto aflito.

O documentário aborda o Sarau a partir do depoimento de alguns de seus freqüentadores. As câmeras partem do cotidiano de cada um, seja em suas casas, seja no trabalho; persegue o poeta até a Cooperifa e registra o êxtase que é, para um autor, declamar um poema diante de uma platéia sedenta, atenta e rigorosa. Cada poesia provoca uma avalanche de aplausos. Captadas com enorme sensibilidade, as imagens do filme Povo Lindo, Povo Inteligente revelam a fúria, a doçura, a alegria, o escárnio, a paixão e todos os sentimentos que afloram em quem declama e em quem ouve a poesia. É muito bonito.

Um desavisado ficaria surpreso ao ver qualquer dos protagonistas do filme declamandos poema num Sarau. Estão lá a Rose (musa da Cooperifa), falando de sua relação com a poesia da mesa do escritório onde trabalha como secretária. Ela, que no começo não se arriscava nos versos, foi se soltando e se envolveu tanto com a literatura que voltou a estudar. Rose relata com especial encanto o dia em que anunciou que ficaria afastada dos encontros poéticos, por causa das aulas. O Sarau da Cooperifa transforma vidas.

Assim como o filme, o livro do Vaz traz diversos poemas transcritos — dele e de muitos poetas. São obras impregnadas pelo objeto de observação: a poesia e a memória. A lembrança é um fio que não tem fim, um novelo perpétuo

Jairo Barbosa, taxista de profissão, hoje educador na Fundação Casa, também dá seu depoimento, no sentido da mudança de perspectiva que teve ao começar a freqüentar o Sarau. Já o "seu" Lourival, aposentado que fez 70 anos em 2008, conta o quanto se delicia com o ato de declamar sua poesia. Casulo é outra figura. O cara é funileiro, tem um fusca customizado, para usar um termo na moda, chega no sarau com uma leveza de espírito cativante e manda uma poema de crítica social contundente sem perder a ternura. É bola num canto e goleiro no outro; o povo vai ao delírio.

Assim como o filme, o livro do Vaz traz diversos poemas transcritos — dele e de muitos poetas. São obras documentais, porém impregnadas pelo objeto de observação: a poesia e a memória. A lembrança é um fio que não tem fim, um novelo perpétuo, uma história puxa a outra. Quando nos damos conta, estamos tão envolvidos que nos sentimos parte do lemos ou vemos. Sergio Vaz, Maurício Falcão e Sergio Gagliardi conseguiram o que queriam. Juntaram memória e literatura numa sinergia perfeita e envolvente.

É certo que nada supera a realidade. Portanto, leiam o livro, vejam o filme, ouçam o CD, mas não deixem de ir à Cooperifa. Lá a gente entende o que a jornalista Eliane Brum diz em mágicas palavras, no seu depoimento no livro do Sergio Vaz: “Não é sempre que a gente testemunha a história em curso, percebe o instante exato em que o mundo balança. A Cooperifa é isso, um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada”. Não é sempre que um movimento cultural consegue a façanha de produzir tanto. E a Cooperifa é uma árvore frondosa de abundantes frutos. Muitos outros movimentos começaram a partir dela ou dela se serviram para se afirmarem.

A idéia contemporânea de cultura de periferia deve muito à Cooperifa. Felizmente isso está registrado, graças à generosidade de pessoas e instituições que se juntam ao movimento para fortalecer sua autonomia e não para se apropriar ou tutelar. Assim acontece com a DGT, Editora Aeroplano, Itaú Cultural, Sesc, Global Editora, Ação Educativa, Casa das Rosas, ASSAOC, prefeituras de Taboão da Serra e Suzano — entre outras instituições públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos. A Cooperifa, graças principalmente à liderança e capacidade de negociação de Sergio Vaz, consegue agregar apoiadores que se tornam parceiros, que depois se tornam amigos e que, enfim, se tornam parte do movimento.

A Cooperifa concede, desde 2005, um simpático prêmio no final do ano a todos os que contribuíram para uma periferia melhor. Quando a Ação Educativa recebeu pela primeira vez a homenagem, dissemos lá que os prêmios servem para distinguir as pessoas — ou seja, colocá-las em outro plano, acima dos demais. O Prêmio Cooperifa, não. Ele serve para colocar a gente no mesmo nível dos demais, fazendo parte de um grupo onde ninguém é mais que ninguém, uma família. E a família Cooperifa não para de crescer. O livro e filme que acabam de sair vão servir para agregar mais e mais gente e fortalecer ainda mais esse movimento. Preparem-se. Vem muito mais por aí. Sergio Vaz e sua trupe são muito abusados.

Saiba mais:

Aeroplano Editora

DGTfilmes

Mais

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

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Mundo-cão capitalista

Escrito por Julio César de Castro

12-Dez-2008

Argh, pelegos e testas-de-ferro!

No limiar da própria perplexidade

Ruimente, atulhado de mim mesmo

Não menos que ontem nem mais que sempre

Pra não dizer grande filho de ejaculação precoce!

Eu me endeuso sociopata, cáften, extorsionário

E explosivo, explosivo… pela hora de homem-bomba!

Ao eco frenético de inatingível egocêntrico

Sarcasticamente mal-limpo, à sanha da hipocrisia

De excitar narinas de carnífices amaldiçoados!

Com o pus venéreo do orgulho, a excentricidade de avaro.

Hipertétrico! bufando poluição, fumegando o Planeta

Despido de ética, biossegurança, patriotismo…

Por laudas de frieldade, vômitos de massacre

Deletando filósofos, conclamando sensacionalistas!

O duplicador de escravidão, extermínios, suicídios…

Neste séquio de sangues e lágrimas do proletariado

E com horripilante influência no Judiciário.

Que desnutrição, que miserabilidade, que tudo!

Quero mais que ‘sifu’ os incautos do Leão!

Se me vêem ladrazana, chulo, desmancha-prazeres

Caotizando o sistema, à mão tinhosa na mais-valia

À toda a soberba da espoliação selvagem e impolítica.

Se só amo bens: ações, latifúndio, mega-imóveis…

Mulher? Por status, pela procriação de herdeiros!

Oh! meus negócios: agiotagem, alienação, corrompimento

E imprensa mesmamente de troca-textos lacaios.

Volta e meia à focinheira birrento, insone crônico

Este ser compulsivo por capital, capital transnacional

Capital especulativo, acumulativo… insocial!

Julio César de Castro presta assessoria técnica em construção civil.

Por: Correio da Cidadania

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Filme retrata Chávez e líderes da esquerda na América do Sul

Do cineasta Oliver Stone, a obra será focada na Revolução Bolivariana e na ascensão de políticos sul-americanos de esquerdas nos últimos anos

12/12/2008

Vermelho

O cineasta Oliver Stone — que acaba de estrear W, seu “bioépico” sobre o presidente George W. Bush — vai produzir agora um documentário sobre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Segundo anunciou o próprio diretor norte-americano, o filme tem exatamente como tema “Hugo Chávez e a revolução sul-americana”.

Em dezembro de 2007, para iniciar as filmagens desse documentário, Stone viajou à Venezuela. Ele passou alguns dias por Caracas, onde conheceu Chávez pessoalmente. Na época, o venezuelano se ocupava da mediação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para obter a libertação de Ingrid Betancourt e outros reféns.

A revista Variety informa que o documentário de Stone não enfocará a operação de resgate em si — mas “a oposição enfrentada por Chávez em seu país e no exterior, principalmente pelo governo Bush”. Segundo a publicação, a Casa Branca “foi muito clara em seu desgosto pelo socialismo populista”, encarnado pelo presidente venezuelano.

“A notícia do documentário mais recente de Stone foi divulgada quando o diretor viajava ao Oriente Médio para apresentar W, na noite da abertura do Festival de Cinema de Dubai”, destacou a Variety. Stone lembrou que sua nova obra se focará no líder da Revolução Bolivariana — mas também na ascensão de outros políticos sul-americanos de esquerda nos últimos anos.

“É sobre Chávez e a renovação na América do Sul”, afirmou Stone, que já trabalhou durante seis meses no projeto. A produção, segundo o cineasta, deve ficar pronta no fim de 2009.

Ele confirmou que está trabalhando em um segundo documentário, mas não deu detalhes a respeito. Contudo, desmentiu que essa segunda produção gire em torno do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Alguns boatos recentes contavam que Ahmadinejad tinha permitido que Stone entrasse no país e documentasse sua situação.

Entre os filmes produzidos por Stone está Comandante, de 2004, que partiu de uma entrevista de 30 horas concedida ao diretor pelo então presidente de Cuba, Fidel Castro. Já Persona non grata — que começou como um projeto sobre o chefe palestino Yasser Arafat — tornou-se uma produção mais ampla sobre o conflito árabe-israelense.

O cineasta também já assinou filmes sobre John F.Kennedy e Richard Nixon, além dos premiados Platoon e Nascido em 4 de Julho — ambos sobre a Guerra do Vietnã e seus impactos. Em W., seu filme mais recente, Stone faz a cinebiografia de Bush protagonizada por Josh Brolin (de Onde os Fracos Não Têm Vez).

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Feijão de Corda foi um sucesso

No quarto ano consecutivo da realização do já tradicional feijão de corda do IZB, cerca de 150 pessoas compareceram e fizeram da atividade um sucesso, tanto de público como de arrecadação de recursos para a entidade. O evento aconteceu no último sábado, 6 de dezembro na sede dos Químicos Unificados - regional Osasco. Um destaque foi a presença dos brotenses, inclusive do prefeito recém eleito de Brotas de Macaúbas (BA), Litercílio Júnior e do vice prefeito Ailton Ribeiro.Brotas de Macaúbas é a cidade natal de José Campos Barreto, o Zequinha. A presença dos brotenses e do prefeito recém eleito daquela cidade foi uma enorme satisfação para o Instituto.
Litercílio Junior ganhou por uma diferença de 90 votos do grupo político que comandou a cidade nos últimos 40 anos. Sua vitória teve um grande significado popular. Os companheiros brotenses contam que durante a campanha não podiam colocar faixas, cartazes ou qualquer material eleitoral nas casas que pudessem identificar os eleitores, já que a direita na cidade vinha comprar e intimidar aqueles que apoiavam a candidatura de Junior. No dia da eleição, a direita fez uma festa antecipada com foguetório e churrasco, mas que logo acabou com o anuncio oficial do Tribunal Eleitoral da vitória de Junior, daí quem caiu na festa foram os moradores de Brotas.
A região foi palco da caça pelos militares a Lamarca e Zequinha no início da década de 70. Hoje são muitos os brotenses que moram em São Paulo, estes acompanharam com atenção toda a agenda do prefeito e fizeram questão de comparecer ao feijão de corda promovido pelo Instituto. Para o IZB estreitar laços com o município de Brotas de Macaúbas é um passo muito importante, fortalece as ações da entidade e seu enraizamento.
Outros destaques do feijão de corda foi o comparecimento dos sócios da entidade, de companheiros e companheiras da juventude e de ativistas de vários movimentos sociais. Mais uma vez foi um ponto de encontro para colocar a conversa em dia e ser um espaço de confraternização dos lutadores.
Queremos agradecer a todos os que colaboraram com a atividade, todos aqueles que compraram os convites, mesmo os que não puderam ir, mas ajudaram na arrecadação. Queremos agradecer também a todos que colaboram na organização do evento.
É isso aí, no ano que vem tem mais.

Coordenação do IZB

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Cantos da Casa

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Rabih Abou-Khalil n’Os Cantos da Casa 52

Rabih Abou KhalilRabih Abou-Khalil: Em português (2008).

Joana Pessoa: Fluir (2008).

Luiz Goes: Coimbra de ontem e de hoje (1967).

UPA: Unidos para ajudar (2008).

Clique para ouvir em wma e mp3

Por: Esquerda.net

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Palestras falam de paisagens do mundo árabe e de suas contribuições

da Folha Online

Divulgação

Caixa Cultural, na capital paulista, realiza duas palestras sobre mundo árabe até dia 11/12

Caixa Cultural, na capital paulista, realiza duas palestras sobre mundo árabe até dia 11/12

O projeto "Imagens e Paisagens do Mundo Árabe e o Brasil de Aziz Ab’Saber", que apresenta exposições com fotos do geógrafo e professor emérito da USP (Universidade de São Paulo), Aziz Ab’Saber, também realiza palestras para os interessados no assunto.

Nesta quinta-feira (4), a Caixa Cultural (região central da capital paulista) recebe a arquiteta e artista plástica Lygia Rocco, que expõe seus conhecimentos a partir do tema Conhecendo o Mundo Árabe e suas Paisagens. Já na outra quinta-feira (11), a professora Soraya Smaili irá falar sobre a contribuição dos árabes para a ciência, também no espaço expositivo do local.

As palestras acontecem das 19h às 21h, com entrada gratuita. As inscrições devem ser feitas pelo telefone 0/xx/11/3321-4400. Os participantes também podem aproveitar para conhecer o acervo de fotos de Aziz Ab’Saber trazido da França, que fica exposto até 18 de janeiro.

Caixa Cultural - pça da Sé, 111, região central, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3321-4400. 30 vagas. Palestra com Lygia Rocco: 4/12. Palestra Soraya Smaili: 11/12. 19h às 21h. Livre. Grátis (interessados devem se inscrever pelo telefone).

As informações estão atualizadas até a data acima. Sugerimos contatar o local para confirmar as informações

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Canções e Músicas da Bolívia Revolucionária

Músicas bolivianas presente nas mobilizações sociais daquele país:

 

 

01 Somos más (Grupo Tupay) escuchar bajar
02 Seremos muchos más (Grupo Arawi) escuchar bajar
03 Bolivia digna y soberana (Marcha) escuchar bajar
04 Ahora es cuando (Grupo Aru) escuchar bajar
05 Bolivia Cambia (Pujllay) escuchar bajar
06 Bolivia Cambia (Morenada) escuchar bajar
07 Cholita Marina (Huayño) escuchar bajar
08 La Coca por siempre Vivirá (Grupo Aru) escuchar bajar
09 Bolivia Cambia (Donato Espinoza) escuchar bajar
10 Que Viva Bolivia (Grupo Semilla) escuchar bajar

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III Mostra de Cinema Brasileiro em Osasco

CULTURA - Rubens Ewald Filho abre Mostra em Osasco

Consagrado crítico estará dia 14 no Teatro Municipal para a abertura da III Mostra de Cinema de Osasco que reúne as melhores produções nacionais

Da redação
(katiamariano@webdiario.com.br)

Entre os dias 14 e 19 de outubro acontece, no Teatro Municipal, a III Mostra de Cinema Brasileiro de Osasco. A cerimônia de abertura vai ser comandada pelo crítico Rubens Ewald Filho.

A animação “Pajerama”, o curta “Sete Vidas” e o longa “Chega de Saudade” serão os primeiros, da série de 19 produções, a serem exibidos.

“Chega da Saudade”, dirigido por Laís Bodansky, se passa em um salão de baile em São Paulo e conta as várias histórias vividas pelos freqüentadores do local. No elenco estão Tônia Carrero, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Paulo Vilhena, Maria Flor, Elza Soares e Leonardo Villar.

Dentre os destaques da Mostra constam ainda a animação “Garoto Cósmico”, com as vozes de Raul Cortez, Belchior e Vanessa da Mata, e o filme “Pequenas Histórias”, com Marieta Severo, Paulo José, Gero Camilo e Patrícia Pilar.

O evento é uma realização da Associação do Audiovisual e da AllTech Engenharia de Projeção e tem apoio da Europa Filmes, California Filmes e Secretaria Municipal da Cultura. As duas edições anteriores foram realizadas em 2002 e 2003.

O projeto acontece no Teatro Municipal de Osasco, na avenida dos Autonomistas, 1533, onde serão exibidos todos os filmes. Mais informações pelo telefone 3685-9596. A entrada é franca. Veja programação abaixo.

PROGRAMAÇÃO

TERÇA-FEIRA,14

20h

PAJERAMA (9 min) - direção de Leonardo Cadaval - animação.

SETE VIDAS (19 min) - direção de Zé Mucinho e Marcelo Spomberg, com Marcelo Mansfield, Ariel Moshe, Luisa Mell, Etty Fraser e Selton Mello.

CHEGA DE SAUDADE (92 min, 2008) censura 14 anos.

QUARTA-FEIRA, 15

20h

ESPALHADAS PELO AR (15 min) - direção de Vera Egito - com Ana Carolina Lima e Renata Torralba Horta.

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? (135 min, 2007), direção de Guilherme de Almeida Prado. Ao entrevistar uma cantora, um jornalista descobre que ela é filha de uma famosa estrela do passado, que desapareceu misteriosamente. Com Maitê Proença, Carolina Dieckman, Eriberto Leão e Christiane Torloni. Censura 16 anos.

QUINTA-FEIRA,16

20h

ENGANO (11 min) - direção de Cavi Borges - com Miila Derzet e Felipe Mônaco.

BODAS DE PAPEL (104 min, 2008) - direção de André Sturm. Uma história de amor surgida por acaso e interrompida bruscamente. Nina decide voltar à sua cidade natal (que escapou de ser transformada numa usina hidrelétrica e desaparecer sob as águas), para reformar e administrar o hotel do avô. Lá, conhece um arquiteto, por quem se apaixona. Com Helena Ranaldi, Darío Grandinetti, Cleide Yaconis e Walmor Chagas. Censura livre.

SEXTA-FEIRA, 17

20h

BLACKOUT (10 min) - direção de Daniel Rezende - com Augusto Madeira e Wagner Moura.

O MAGNATA (97min, 2007) - direção de Johnny Araújo. Com roteiro de Chorão (da banda Charlie Brown Jr.), conta a história de um jovem astro do rock iludido com a fama, que se apaixona no mesmo dia em que comete seu maior erro. Com Paulo Vilhena, Chico Diaz, Maria Luísa Mendonça e Chorão. Censura 16 anos.

23h

DOSSIÊ RE BORDOSA (16 min) - direção de César Cabrail - animação.

A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (90 min, 2008) - direção de José Mojica Marins. Após 40 anos preso, coveiro conhecido como Zé do Caixão é posto em liberdade. De volta às ruas, ele está decidido a cumprir sua missão: encontrar uma mulher superior que possa gerar seu filho perfeito. Com José Mojica Marins, Débora Muniz, Milhem Cortaz, Jece Valadão, Luís Melo e José Celso Martinez Corrêa.

SÁBADO, 18

10h

O GAROTO CÓSMICO (75 min, 2007) - direção de Alê Abreu Animação. Em um mundo futurista, três garotos se perdem no espaço, encontrando um pequeno circo que os faz viverem novas experiências. Com vozes de Raul Cortez, Belchior e Vanessa da Mata. Censura livre.

14h

PEQUENAS HISTÓRIAS (80 min, 2008) - direção de Helvécio Ratton.
Uma senhora conta histórias do interior do país, ao mesmo tempo em que costura retalhos de pano. Com Marieta Severo, Paulo José, Gero Camilo e Patrícia Pillar. Censura livre.

21h

TRÓPICO DAS CABRAS (23 min) - direção de Fernando Coimbra - com Larissa Salgado e Vicor Hugo Carrizo.

ESTÔMAGO (112 min, 2007) - direção de Marcos Jorge. Migrante recém-chegado em São Paulo descobre, enquanto trabalha em um boteco, que sabe cozinhar muito bem. Passa a trabalhar em um restaurante italiano e conhece uma prostituta, apaixonada por comida. Com João Miguel, Fabíula Nascimento e Paulo Miklos. Censura 16 anos.

DOMINGO, 19

11h

PEQUENAS HISTÓRIAS (80 min, 2008) - direção de Helvécio Ratton.
Uma senhora conta histórias do interior do país, ao mesmo tempo em que costura retalhos de pano. Com Marieta Severo, Paulo José, Gero Camilo e Patrícia Pillar. Censura livre.

15h

O GAROTO CÓSMICO (75 min, 2007) - direção de Alê Abreu. Animação. Em um mundo futurista, três garotos se perdem no espaço, encontrando um pequeno circo que os faz viverem novas experiências. Com vozes de Raul Cortez, Belchior e Vanessa da Mata. Censura livre

19h

PIXINGUINHA E A VELHA GUARDA SAMBA (10 min) - direção de Thomaz Farkas e Ricardo Dias - documentário. Uma senhora conta a história do país, ao mesmo tempo em que costura retalhos de pano.

O MUNDO EM DUAS VOLTA (92 min, 2007), - direção de David Schürmann. Documentário que acompanha a família Schürmann em viagem que refaz a expedição de Fernão de Magalhães (que, em 1519, completou a primeira volta ao mundo da historia da humanidade), com imagens de 30 países, quatro continentes e três oceanos. Censura livre.

Fonte: webdiário

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À sombra do medo em flor

Escrito por Fausto Wolff
Seg, 08 de Setembro de 2008 02:00
Portal Popular

Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um tirano

Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de “desculpe, não era bem isso que eu queria dizer”.

Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.

Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito, era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.

Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que os rateios estavam contra mim.

Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora.

Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice. Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando, estuprando.

Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem “responsabilidade criminal aos 16 anos”. Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa lei só valerá para crianças pobres.

Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse aleijado interiormente pelos anos que me restam?

Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.

Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso atenuaria um pouco a minha dor.

Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder imediatamente acima dele.

O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.

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Irmã Dorothy e a “mãe dos problemas do Brasil”

Documentário aborda o tema da disputa a ferro e fogo pela fronteira agrícola na Amazônia e dos mártires desse conflito, como a irmã Dorothy Stang

Débora Lerrer

Fonte Cultura - brasil de Fato

Em tempos em que as manchetes dos jornais são tomadas com a informação mal apurada de que o INCRA (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) é o responsável pela maior parte dos desmatamentos do país, foi um alívio a estréia do documentário “Mataram irmã Dorothy” com debate mediado pelo ator Wagner Moura na terça, dia 30, no Festival de Cinema do Rio.

Alívio porque, enfim, um filme com informações sobre um tema que está selando o destino da Amazônia, fronteira agrícola disputada a ferro e fogo, obviamente sem o grande charme narrativo dos grandes Westerns, que, afinal de contas, foi o jeito que os norte-americanos inventaram de celebrar a sangrenta conquista do Oeste deles. Infelizmente, no nosso caso, os esfarrapados sem-terra não são vistos como heróis nem são tão charmosos quanto os cowboys deles. Infelizmente, nossos heróis e heroínas, como irmã Dorothy, quando ficam conhecidos, já é porque se tornaram mártires.

Além disso, seria pedir muito que o filme explicasse que os responsáveis diretos sobre essa realidade são oriundos do incensado “agronegócio” da soja e da carne, que junto com os minérios explorados pela privatizada Vale do Rio Doce são os atuais filões da carreira exportadora que o Brasil repete em maior ou menor grau desde 1500 na esteira das altas cotações do mercado mundial. Afinal, desde então, somos exportadores de matéria-prima e exploradores predatórios especializados em deixar à margem de seus surtos desenvolvimentistas uma imensa população de pobres agricultores humildes, freqüentemente obrigados a colocar a trouxa nas costas quando aparecem homens armados com falsos registros de cartório reivindicando a terra que em viviam desde sempre.

O interessante do filme é que sua história praticamente foi se desenrolando diante da própria equipe de filmagens, liderada pelo diretor norte-americano Daniel Junge, que não tinha idéia de qual ia ser o desfecho dessa trama. O diretor, que começou a filmar exatos 10 dias depois do assassinato, ao acompanhar o irmão de Dorothy em sua viagem para o Brasil, tinha intenção de não fazer um filme sobre uma santa e um bando de homens diabólicos, mas a força dos fatos que ele apura, incluindo-se memoráveis depoimentos dos advogados de defesa dos acusados, acaba depondo contra sua intenção. Isto porque a escandalosa impunidade e devastação retratada pelo filme, promovida por setores vinculados ao latifúndio, à monocultura e à escravidão continua a se reproduzir porque o Sul do país vive de costas e muito distante da Amazônia, como ilustrou comovente depoimento de uma participante do debate. É a desinformação e a falta de presença do Estado na região que permite que bandos de grileiros continuem a queimar a floresta para criar gado, repetindo um.processo de ocupação de terras já denunciado no século XIX por figuras derrotadas da história como José Bonifácio e Joaquim Nabuco.

O interessante do filme é que ele, inclusive, demonstra que tipo de gente hoje em dia anda esgrimindo o argumento da “soberania nacional ameaçada” quando se trata de Terras Indígenas, como a da Raposa Serra do Sol, e do engessamento do desenvolvimento, quando seus interesses são ameaçados pelas reivindicações de posse de quilombolas e caboclos ribeirinhos.

Mas foi no debate, mediado pelo ator Wagner Moura, que classificou a questão da terra como “a mãe dos problemas do Brasil”, onde surgiu à tona depoimentos reveladores dos mundos paralelos que hoje acossam os brasileiros. Uma estudante contou ter feito um estágio de seis meses na Amazônia, onde descobriu surpresa que se sentia mais estrangeira lá do que no exterior. Emocionada, contou a história de Bruna, colega que fez parte do mesmo programa, e que, já formada, decidiu viver na Amazônia para contribuir com os movimentos sociais, mas faleceu recentemente, aos 20 poucos anos, em um suspeito acidente de carro.

No entanto, foi talvez a questão de uma moça da Vila Penha, subúrbio do Rio, que trouxe mais para perto de todos os presentes a compreensão do que se passa na Amazônia e da própria vida de Dorothy. A moça perguntou aos participantes da mesa como continuar lutando quando se enfrenta uma realidade tão violenta como a de seu bairro, onde até a procissão da padroeira tem que ser em determinado horário por conta das ordens dos traficantes.Companheiro das lutas da irmã, o procurador da República Felício Pontes confessou que logo que soube do assassinato da freira - ocorrido no dia em que comemorava-se a criação de uma enorme reserva extrativista (Resex) na Terra do Meio, também no Pará - ele se sentiu tão impotente que achou que não adiantava mais fazer nada. Logo que chegou a Anapu, para o enterro, foi cercado e abraçado pelos agricultores do projeto de desenvolvimento sustentável (PDS), cujas terras custaram a vida de Dorothy. Nesse momento o procurador percebeu que ali estava a energia para ir adiante. Todos ali estavam dispostos a continuar lutando até o fim. Afinal, agora iam ter que matar todos para lhes tomar aquela terra. Um sentimento que só sente quem tem a experiência de participar de um desses combates, geralmente deflagrados sem grandes repercussões, mas que vão delineando o destino da humanidade e deste planeta. Em suma, um sentimento compartilhado por pessoas que tiram grande parte de sua satisfação emocional do fato de se sentirem atores de lutas, às vezes derrotadas, às vezes vitoriosas, mas que implicam a escolha de caminhos voltados para a emancipação humana e não para o lucro individual. Daí talvez venham os laços duráveis de amizade e solidariedade e que, em si, sempre valem a pena cultivar contras as almas que insistem em ficar pequenas.

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Uma inscrição situa antes de Jesus a tradição da ressurreição do Messias

Juan Miguel Muñoz

Toda descoberta arqueológica vinculada ao período de Cristo provoca debates incendiados que muitas vezes se eternizam. A última revelação não decepcionará os polemistas, pois afeta as raízes do cristianismo, ao sugerir que a ressurreição do Messias no terceiro dia após sua morte é uma tradição anterior à figura histórica de Jesus.

Acaba de acontecer no Museu de Israel. Um pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém, Israel Knohl, apresentou na terça-feira um estudo sobre uma lousa de 90 cm de pedra calcária, datada do século 1º antes de Cristo e descoberta há 15 anos, que contém 87 linhas escritas com tinta. Nelas, segundo o arqueólogo, se descreve o anjo Gabriel ressuscitando um líder messiânico três dias depois de sua morte. Se realmente for isso o que está escrito na pedra, o conceito da ressurreição próprio do cristianismo teria sua origem na tradição judaica anterior.

A peça foi vendida há uma década por um negociante jordaniano a um colecionador suíço-israelense, que a mostrou a vários especialistas. Acredita-se que foi encontrada na margem jordaniana do mar Morto, no lado oposto a onde se situam as cavernas de Qumran, cenário de outra descoberta, os pergaminhos do mar Morto, sobre os quais se discute sem descanso desde 1948. A deterioração da lousa também propiciou várias interpretações porque muitos vocábulos estão quase ilegíveis. É um exemplo pouco freqüente daquele período. As palavras eram habitualmente esculpidas na pedra. Não se escrevia com tinta sobre ela.

A controvérsia parece própria de um país cheio de escavações arqueológicas, em busca das mais profundas raízes judias e no qual se fala o indizível da religião. Discussões acadêmicas à parte, assuntos deste porte - incluindo conceitos como a ressurreição, capital para o cristianismo - tocam as fibras mais delicadas nas sedes das igrejas cristãs, cujas relações com o judaísmo nunca foram simples.

“Minha teoria”, explicou Knohl, “não representa nenhuma ameaça para os princípios fundamentais do cristianismo e não é meu objetivo polemizar com nenhuma religião.” Os professores presentes no Museu de Israel explicaram que o conceito de ressurreição não é estranho ao judaísmo. O surpreendente, na opinião deles, é a referência aos três dias. “Em três dias viverás. Eu, Gabriel, te ordeno”, pode-se ler, segundo Knohl.

“Essa teoria oferece novas idéias sobre o personagem histórico de Jesus, não como redentor da humanidade, como concebe o cristianismo, mas como um Messias cujo objetivo era redimir o povo a que pertencia, o judeu”, declarou Knohl, que afirma ter traduzido uma das palavras que outros pesquisadores tinham sido incapazes de decifrar. Vários especialistas acrescentam que a figura de Jesus seria melhor compreendida depois de estudar a agitada história política dos judeus naquela época.

Muitos especialistas advertem que o debate acaba de começar e que a interpretação de Knohl é um tanto aventurosa. Um ano atrás foram publicados extensos relatórios que situam a origem da pedra antes do nascimento de Cristo. Agora se anuncia uma avalanche de ensaios. Parece que a polêmica não vai amainar.

“El País”

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Subordinação formal e subordinação real: ou como as idéias “entram no lugar”

20080601coutinho - 20080601coutinho
Um dos primeiros tópicos para uma justa conceituação da “questão cultural” no Brasil é a relação entre a cultura brasileira e a cultura universal. Em sua dimensão ontológico-social, é esse um problema que não pode ser resolvido no plano de uma análise imanente das “fontes” e “influências”. Há uma prévia questão histórico-genética a exigir resposta: de que modo se articulou a evolução das formações econômico-sociais brasileiras, de cuja reprodução e transformação a nossa cultura é momento determinado e determinante, com o desenvolvimento do capitalismo em nível mundial?

Colocando na pergunta a questão do capitalismo, já indicamos boa parte da resposta. Enquanto formação social específica e relativamente autônoma, o Brasil emerge na época do predomínio do capital mercantil, na época da criação de um mercado mundial. Nossa pré-história como nação ─ os pressupostos de que somos resultado ─ não residem de modo algum na vida das tribos indígenas que habitavam o território brasileiro antes da chegada de Cabral: situam-se no contraditório processo da acumulação primitiva do capital, que tinha o seu centro dinâmico na Europa Ocidental. Os efeitos culturais desse processo foram assim descritos por Marx e Engels:

“Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isso se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações culturais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das inúmeras literaturas nacionais e locais, nasce uma literatura universal.” [1]

O objetivo central do colonialismo, na época da hegemonia do capital mercantil, consistia em extorquir valores-de-uso produzidos pelas economias não-capitalistas dos povos colonizados, com a finalidade de transformá-los em valores-de-troca no mercado internacional. A subordinação dessas economias agora “periféricas” ao capital mercantil metropolitano se dava no terreno da circulação: era , para usarmos com liberdade um célebre conceito de Marx, uma subordinação formal [2], que mantinha essencialmente intocado o modo de produção do povo colonizado. O fato de que a extorsão crescente de valores-de-uso levasse, com o passar dos tempos, a uma alteração das bases econômicas e sociais do modo de produção interno num sentido mercantil e mesmo capitalista (ou seja, que gradualmente se passasse da subordinação formal à subordinação real), é um resultado não intencional do processo de colonização, não sendo característico de seus inícios. (Voltaremos depois a essa questão.)

O esquema acima indicado vale também para o caso brasileiro; mas apresenta aqui uma especificidade da maior importância, que não pode ser negligenciada na avaliação de nossa dependência colonial e que tem amplas conseqüências no plano da cultura. Não havia em nosso território uma formação econômico-social que, mesmo primitiva, fosse capaz de fornecer excedentes de vulto ao processo de circulação do capital mercantil colonialista. O problema, assim, era o de criar um aparelho produtivo que se articulasse diretamente com o mercado mundial. Mas o fato de que o modo de produção vigente na era colonial tivesse sido posto e reposto pelo movimento internacional do capital não significa, como pensam muitos de nossos historiadores, que se tratasse der um modo de produção capitalista, ainda que “imperfeito” e “incompleto” [3]. Tais historiadores não levaram na devida conta o fato de que a característica essencial do modo de produção capitalista ─ característica que está na base da lei do valor-trabalho e, por conseguinte, de todas as demais leis que operam nesse modo de produção ─ é a existência do trabalho livre, do trabalho assalariado, que praticamente inexiste no Brasil durante toda a era colonial. Mas tampouco me parece correto que, numa justa reação à teoria do “capitalismo colonial”, outros historiadores insistam excessivamente na tese da autonomia do nosso modo de produção, chegando mesmo a afirmar que o processo de circulação no período colonial era posto pelo modo de produção interno, em vez de ser ─ como penso ─ o ponto através do qual esse modo de produção tornava-se formalmente subordinado ao capital (mercantil) internacional.

Sem entrar aqui nos detalhes da ampla polêmica acerca da natureza desse modo de produção pré-capitalista da era-colonial, assumo como hipótese a de que se tratava de um modo de produção escravista. (Por outro lado, o adjetivo colonial não me parece caracterizar o modo de produção, no sentido de atribuir-lhe novas leis, mas sim precisamente o seu vínculo de subordinação formal ao capital internacional; uma subordinação que certamente sobredetermina essas leis, que são porém as leis gerais de todo modo de produção escravista com dominância mercantil.) É o elemento escravista que fornece a marca determinante da formação econômico-social. Ele interfere, por um lado, na produtividade econômica do sistema, que se mantém estacionária (ao contrário do que ocorria no feudalismo [4]), com todas as conseqüências que disso resultam para a criação ulterior de um mercado interno e, conseqüentemente, para a forma “prussiana” que prevaleceria quando da transição para o capitalismo [5]. E, por outro, cabe ressaltar a marca escravista sobre a estrutura de classes: a degradação do trabalho manual, que é muito mais intensa no escravismo que no feudalismo, opera no sentido de criar faixas “médias” marginalizadas pelo sistema (tanto nas cidades como no campo), que só podem se reproduzir através do “favor” dos poderosos. Mais adiante, veremos a fundamental importância do “favor” na formação da intelectualidade brasileira.

O fato de que os pressupostos da formação econômico-social brasileira estivessem situados no exterior teve uma importante conseqüência para a questão cultural. Isso significa que, no caso brasileiro, a penetração da cultura européia (que se estava transformando em cultura universal) não encontrou obstáculos prévios. Em outras palavras: não existia uma significativa cultura autóctone anterior à colonização, que pudesse aparecer como o “nacional” em oposição ao “universal”, ou o “autêntico” em contraste com o “alienígena”. Basta pensar no mundo árabe, na China e na Índia, ou mesmo no Peru e no México, para compreender imediatamente a diferença com o caso brasileiro. No Brasil, mesmo na época da subordinação formal, ou seja, mesmo quando o modo de produção interno ainda não era capitalista, as classes fundamentais de nossa formação econômico-social encontravam suas expressões ideológicas e culturais na Europa [6]. Com sua habitual lucidez, Antonio Cândido registra o fato (o qual, em sua facticidade, independe de juízos de valor):

“Imitar, para nós, foi integrar, foi nos incorporarmos à cultura ocidental, da qual a nossa era um débil ramo em crescimento. Foi igualmente manifestar a tendência constante de nossa cultura, que sempre tomou os valores europeus como meta e modelo” [7].

A cultura universal, assim, não era algo externo, imposto pela força, à nossa formação social, mas sim algo potencialmente interno, que se ia tornando efetivamente interno à medida que (ou nos casos em que) era recolhido e assimilado por uma classe ou um bloco de classes ligados ao modo de produção brasileiro. Nascido no momento em que se forma o mercado mundial, e como conseqüência de sua expansão, o Brasil ─ desde sua origem ─ já é herdeiro potencial daquele patrimônio cultural universal de que falam Marx e Engels. A história da cultura brasileira, portanto, pode ser esquematicamente definida como sendo a história dessa assimilação ─ mecânica ou crítica, passiva ou transformadora ─ da cultura universal (que é certamente uma cultura altamente diferenciada) pelas várias classes e camadas sociais brasileiras. Em suma: quando o pensamento brasileiro “importa” uma ideologia universal, isso é prova de que determinada classe ou camada social de nosso País encontrou (ou julgou encontrar) nessa ideologia a expressão de seus próprios interesses brasileiros de classe. Quando surgiu no Brasil a classe operária, por exemplo, não foi nos mitos bororos ou nas religiões africanas que ela foi buscar sua expressão teórica adequada.

Antes de prosseguir, cabe dissipar um possível mal-entendido. Embora condicionado pela relação de dependência (ou de subordinação econômica), esse vínculo com a cultura universal não impõe necessariamente um caráter dependente ou “alienado” à totalidade de nossa cultura [8]. Por um lado, no interior de nossa formação social, há a presença de classes antagônicas, com perspectivas diferentes diante do problema da dependência política e econômica, da subordinação (formal ou real) ao capital mundial; por outro, no seio da cultura universal, surgem correntes ideológicas diversas, que refletem no plano ideal ─ para nos expressarmos de modo simplificado ─ o antagonismo entre progresso e reação. Ora, é natural que se formem “afinidades eletivas” entre as classes anticoloniais e antiimperialistas e as correntes progressistas; ou entre os beneficiários da dependência e as correntes reacionárias. O processo não é certamente mecânico, comportando a possibilidade de “erros” ou “desvios”: mas me parece justo dizer que, quando “transplantada” para o Brasil por uma classe progressista e anticolonial, uma corrente cultural avançada contribui para formar em nosso País uma consciência social efetivamente nacional-popular, contrária ao espírito da dependência, àquilo que Nelson Werneck Sodré chamou de “ideologia do colonialismo” (ou seja, a adoção por brasileiros de correntes culturais ─ como o racismo ─ que justificam a nossa situação de dependência) [9].

Como toda reprodução social, também a da dependência é uma reprodução ampliada, que implica a longo prazo transformações de qualidade. Ocorre, assim, uma progressiva conversão da dependência através da subordinação formal em dependência através da subordinação real; isso se dá quando o próprio modo de produção interno, sob a ação combinada de fatores endógenos e exógenos, vai se tornando efetivamente capitalista e se subordinando não mais ou apenas ao capital comercial, mas também e sobretudo ao capital industrial e financeiro internacionais. Essa conversão cria novas condições para a nossa história cultural. Quanto mais passa a predominar a subordinação real, tanto mais vai desaparecendo aquele fenômeno que Roberto Schwarz, em sua lúcida análise da cultura brasileira do século XIX, chamou de “idéias fora do lugar”.

Segundo Schwarz, o mais claro exemplo dessa “desadequação” entre idéia européia e realidade brasileira é a importação do liberalismo no século XIX. O vínculo do modo de produção interno (ainda não capitalista) com o capital mundial, sobretudo na época imediatamente anterior e posterior à Independência, levou o bloco das classes dominantes no Brasil de então ─ formado pela junção da oligarquia latifundiária e escravocrata com os representantes internos do capital comercial ─ a adotar uma ideologia liberal burguesa. Schwarz observa :

“Era inevitável […] a presença entre nós do raciocínio econômico burguês ─ a prioridade do lucro, com seus corolários sociais ─ uma vez que dominava no comércio internacional, para onde a nossa economia era voltada” [10].

Mas, como aquela ideologia liberal não se adequava inteiramente ao modo de produção interno (que não era capitalista), revela-se objetivamente como uma “idéia fora de lugar”:

“Esse conjunto ideológico [liberal] iria chocar-se contra a escravidão e seus defensores, e o que é mais, viver com eles” [11].

Há assim ─ se bem interpreto Schwarz ─ uma curiosa e paradoxal dialética de adequação e desadequação. É certo que o liberalismo dá expressão a interesses efetivos das camadas dominantes: livre-cambismo no comércio internacional, cálculo racional na comercialização dos produtos de exportação, garantia de igualdade jurídico-formal entre os membros das oligarquias rural e comercial, etc. E, em outro nível, expressa também os interesses dos homens livres mas não proprietários, que viam assegurados pela ideologia liberal seus direitos formais à igualdade com os senhores e sua diferença em face dos escravos. Mas, diante do fenômeno da escravidão, da desigualdade estabelecida como fato natural, do trabalho fundado sobre a coação extra-econômica e não sobre a livre contratação no mercado, o liberalismo brasileiro de então revela sua face “inadequada” e “fora de lugar”. Além disso, tampouco se pode falar em regulamentação liberal no relacionamento entre os “grandes” e os homens livres sem propriedade. O “favor”, que marca tal relacionamento, consagra vínculos de dependência pessoal, de tipo pré-capitalista; é, por conseguinte, um modo de relacionamento autoritário (mesmo quando paternalista) e antiliberal.

É essa dialética de adequação e desadequação que se altera com a passagem à subordinação real. Com o início da industrialização, ou, mais precisamente, com a transição do modo de produção interno à fase propriamente capitalista (o que já se verifica também em certos setores da agricultura na época da abolição da escravatura, ainda que isso se dê de modo “prussiano”, ou seja, com a conservação de traços pré-capitalistas), as idéias importadas vão cada vez mais “entrando em seu lugar”, tornando-se mais aderentes às realidades e aos interesses de classe que tentam expressar. E isso porque a estrutura de classes da sociedade brasileira vai se tornando essencialmente análoga à estrutura de classes da sociedade capitalista em geral. Com isso, as contradições ideológicas que marcam a vida cultural brasileira do século XX aproximam-se cada vez mais ─ ainda que sem jamais se igualarem inteiramente ─ das contradições ideológicas próprias da cultura universal do período.

Já não se pode dizer, por exemplo, que o maximalismo libertário de Lima Barreto esteja simplesmente “fora de lugar”; na verdade, a ideologia de Lima expressa ─ e precisamente em sua contraditoriedade interna, em seus limites, em seus eventuais “desvios” com relação às matrizes européias ─ a concreta problemática das camadas urbanas inferiores que vão sendo geradas direta ou indiretamente pelo crescimento da indústria; essa ideologia aparece como o máximo de “consciência possível” (Goldmann) dessas camadas nas duas primeiras décadas deste século. Uma observação análoga valeria para o Movimento Modernista de 1922; sem discutir aqui o conteúdo ideológico do Movimento, parece-me que a tentativa de renovação das técnicas artísticas a partir da importação do vanguardismo europeu pode ser interpretada como a expressão do necessário esforço de adequação das “forças produtivas” da arte ao novo universo cotidiano que o capitalismo, em sua forma moderno-industrial, ia introduzindo na vida brasileira, sobretudo em São Paulo. Os exemplos poderiam ser multiplicados, até mostrar como a irrupção do neopositivismo ou da contracultura na vida cultural brasileira mais recente correspondem ─ sem “estar fora do lugar” ─ à passagem do capitalismo brasileiro para a etapa do capitalismo monopolista de Estado.

Notas:

[1] Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, ed. Brasileira, in Obras Escolhidas, Rio de Janeiro, 1956, vol.1, p. 29.

[2] Para os conceitos de subordinação (ou subsunção) formal e real, cf. Marx, O Capital, ed. Brasileira, Rio de Janeiro, 1968, Livro I, vol. 2, pp. 585 e ss.; e Id., O Capital. Livro I. Capítulo VI (inédito), ed. Brasileira, São Paulo, 1978, pp. 51-70. A passagem da subordinação formal para a real, garantindo a socialização das forças produtivas, cria os pressupostos materiais para que a produção se liberte de sua forma social capitalista; do mesmo modo, poderíamos dizer que a passagem correspondnete, numa economia “periférica”, faz com que surjam as bases materiais internas ─ nacionais ─ para a superação da dependência ao capital internacional.

[3] Um dos principais defensores da tese do “capitalismo colonial brasileiro” é Caio Prado Junior. Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, fala em “capitalismo incompleto” (cf. Autoritarismo e Democratização, Rio de Janeiro, 1975, pp. 104-106). A conseqüência mais problemática da definição do modo de produção colonial como capitalista é que assim se termina por reduzir o problema geral da transição para o capitalismo no Brasil ao problema mais específico da industrialização; com isso, perde-se a possibilidade de operar de modo fecundo com a categoria da “via prussiana”, que denota precisamente um processo no qual a transição para o capitalismo se dá com a conservação de elementos pré-capitalistas, tanto na infra-estrutura quanto na sociedade civil e no Estado.

[4] Sobre o estímulo ao aumento da produtividade no feudalismo, em contraste com o bloqueio tecnológico do escravismo, cf. ─ entre outros ─ Perry Anderson, Dall’Antichità al Feudalesimo, trad. italiana, Milão, 1978, pp. 116 e ss.

[5] Todavia, do ponto de vista dessa transição, a questão não se altera essencialmente se se confirmar a presença do feudalismo no Brasil. O decisivo é constatar que essa transição ─ “prussiana” ─ se deu com a conservação de formas de trabalho fundadas na coação extra-econômica, formas que, como se sabe, são características tanto do escravismo quanto do feudalismo. Referindo-se ao sul dos Estados Unidos, Lênin observou: “As sobrevivências econômicas do escravismo não se distinguem absolutamente em nada das do feudalismo […]. Encontramos aí a passagem da estrutura escravista ─ ou feudal, o que dá no mesmo ─ da agricultura para a estrutura mercantil e capitalista” (V. I. Lênin, “Nouvelles Données sur les Lois du Dévelopement du Capitalisme dans l’Agriculture”, in Oeuvres, trad. francesa, Paris-Moscou, 1973, vol. 22, pp. 21 e 106).

[6] É evidente que a cultura indígena e, em particular, a cultura negra desempenharam um papel decisivo na formação de nossa fisionomia cultural especificamente brasileira. Mas tal papel ocorreu sempre no quadro de um amálgama com as matrizes européias (basta pensar, por exemplo, no processo ocorrido na música popular). Quando resistiram contra esse amálgama, independentemente do valor moral dessa resistência, as culturas índias e negra transformaram-se ou em folclore ou na expressão de grupos marginais.

[7] Antonio Cândido, Introducción a la Literatura de Brasil, Caracas, 1968, p. 27.

[8] Essa idéia de uma “alienação” estrutural da cultura brasileira, por causa da situação colonial ou semicolonial, foi posição dominante entre os intelectuais ligados ao ISEB. Cf. Caio Navarro de Toledo, ISEB: Fábrica de Ideologias, São Paulo, 1977, pp. 81-90.

[9] Nelson Werneck Sodré, A Ideologia do Colonialismo, Rio de Janeiro, 1965.

[10] Roberto Schwarz, Ao vencedor as Batatas, São Paulo, 1977, vol.1, p. 14. Pelos motivos que indicarei em seguida, não concordo com a generalização que Schwarz faz para o século XX (cf., por exemplo, ibid., pp. 19 e 24) de sua tese das “idéias fora de lugar”.

[11] Ibid., p. 14.

[COUTINHO, Carlos Nelson. A democracia como valor universal: notas sobre a questão democrática no Brasil. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1980, pp. 64-70]

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Por: http://www.socialismo.org.br

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Arte para Revolução

entrevistalatuff - entrevistalatuff

Sala lotada, treze pessoas com a atenção totalmente voltada para o desenhista Carlos Latuff, três horas de conversa. Perto do aniversário de 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente e de 15 anos da “Chacina da Candelária”, um dos desenhos de Latuff foi utilizado em outdoors na cidade do Rio de Janeiro. A iniciativa visava chamar a população para uma manifestação contra a violência policial. O governador considerou o desenho ofensivo e em quatro dias o outdoor foi recolhido. Para Latuff foi uma pequena vitória. É o que ele nos conta nessa entrevista histórica, a segunda que concede ao Fazendo Media impresso – republicada excepcionalmente aqui no fazendomedia.com.

Por Diego Novaes, Eduardo Sá, Fernanda Chaves, Gilka Resende, Leandro Uchoas, Lorena Bispo, Luana Bispo, Luis de Gonzaga, Marcelo Salles, Maubia Chaves, Raquel Junia, Sergio Santos e Tatiane Mendes.

Tem uma frase de maio de 68 que diz assim: “nunca mais volta a dormir aquele que uma vez abriu os olhos”. Quando é que você abriu os olhos?
Que frase bonita! Eu não sei, eu lembro que o processo se desencadeou com os Zapatistas mesmo [movimento Zapatista, do México]. Eu sempre tive um incômodo com a realidade que me cercava, mas eu nunca objetivei, eu tinha aquelas revoltas juvenis, aquela coisa de adolescente revoltado, aí depois que cresce baixa o fogo e vira yuppie, civiliza. Mas o golpe fatal foi na Palestina. Aliás, eu vou contar um negócio aqui que eu achei do caralho. Eu estava no computador e aí pipocou uma pessoa no meu MSN. Era a Laila de Rafa, em Gaza [Palestina] e abriu uma câmera. Ela passou toda a conversa com um sorriso de lado a lado. A mulher vive em Gaza, com bloqueio de comida, de medicamento, de combustível, de passagem física, de tudo, e a mulher sorriu à vontade porque estava me vendo. Eu pensei assim: ‘caralho, é como se você visse uma pessoa em Sarajevo com bomba caindo e a pessoa sorrindo porque está te vendo. Por quê, eu sou um homem bonito?’

Não, com certeza não.
(risos) É porque fazia diferença para ela e para as pessoas que ela conhece. Esse trabalho de cartunista fez tanta diferença para uma pessoa que mora em Gaza a ponto de ela esquecer onde ela está vivendo para ficar sorrindo só falando comigo. O que mais comove o palestino é uma pessoa que não é mulçumana, não é árabe, que mora longe, brasileiro, se colocar a favor do povo palestino.

Como foi que o seu desenho foi parar no outdoor aqui na cidade do Rio…
A princípio, eu e o Marcelo [Salles] conversamos muito sobre a produção de imagens que possam ser apropriadas pelo movimento social. Porque a intenção foi essa, a gente primeiro criou aquela imagem, discutiu e eu publiquei na internet e fiquei aguardando. A minha parte como produtor dessa imagem eu fiz, assumi o risco de fazer e assinar. Sempre quando produzo alguma coisa tenho esse pensamento de que esse desenho possa não ser circunscrito à internet ou a um jornal. Ele precisa ser copyleft [livre reprodução] e atingir um sem número de pessoas. Aí veio o representante do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente e falou que estava pensando em fazer um outdoor e usar um desenho meu. Eu falei: ‘Cara, eu já tenho um desenho pronto. Se não for pra pegar pesado nessa questão eu não vou fazer. Se for pra desenhar pombinha da paz, criancinhas alegres eu não vou fazer’.

Por que não?
Porque é babaquice, é o Viva Rio [ONG Viva Rio] fincar cruzinhas na praia, balãozinho vermelho… Isso aí não quer dizer porra nenhuma! Porque com isso você pede paz, mas não diz quem causa a guerra. É um troço vazio. E ele me perguntou o que é pegar pesado. Eu respondi: ‘é mostrar uma criança baleada, vítima dessa política, é mostrar sangue, violência, mas dentro de um contexto diferente desse que você vê no Rambo, no Tropa de Elite, entendeu? Um contexto nosso, a realidade como é de fato.’ Aí ele falou para eu mandar o desenho. Eu mandei e não me responderam nada, pensei que o desenho tinha sido vetado.

É bom dizer o que tem no desenho…
É um policial diante de uma mãe negra abraçada a uma criança morta, também negra e baleada no peito. O garoto tem o uniforme de colégio e um caderno caído no chão. O policial está ao lado com um fuzil que acabou de atirar, ainda com a fumacinha no cano, no fundo tem uma favela e do outro lado tem um caveirão distribuindo tiro pra todo lado.

O desenho censurado pelo governo Sérgio Cabral

Charge de Latuff - Charge de Latuff

Então eles preferiram esse desenho à pombinha da paz…
É, me deixou satisfeito o Conselho ter a coragem de bancar o desenho. Aí gerou toda aquela polêmica, o artigo de O Globo cita como uma imagem polêmica. Mas por quê? A realidade não é polêmica, a imagem é que é polêmica. Quando você mostra, choca; estranho, né? É a lógica da sociedade hipócrita e doente; tem certas coisas que a gente sabe que existem, mas não pode externar, não pode colocar numa imagem e mostrar.

Acho que é por causa da linguagem que alcança mais gente e é isso que incomoda…
Mas aquela imagem na verdade não é uma criação literária.

Por isso é que incomoda e teve toda essa reação deles.
Pois é. Por que polêmico se é um troço que todo mundo sabe que rola? Lembra aquela propaganda do Sprite “imagem não é nada, sede é tudo”? É exatamente o contrário, a imagem é tudo, a sede não é nada. A verdade não é nada, a imagem é que machuca e era isso mesmo que eu queria.

Você acha que foi alvo de censura?
Isso pra mim não é novidade nenhuma, a história mais recente foi aquela da camisa do Cauê no Pan [personagem criado para ser mascote dos Jogos Panamericanos no Rio. Latuff desenhou uma versão do Cauê com um fuzil na mão, representando a violência policial, e recebeu a visita da polícia em sua casa para explicar o desenho]. Você tem o fascismo clássico, o racismo clássico. Nós aqui na mesa temos duas meninas negras que podem até falar muito bem disso. Se eu, por exemplo, morar no Tennessee, o cara vai chegar na lata e falar ‘nigger, fuck you, nigger!’, mostrando a camisa com o emblema da Ku Klux Klan. Nos Estados Unidos o negócio é descarado, na lata. Na África do Sul já era política de estado, tinha aquela coisa de colored people. No Brasil é um racismo cordial. Dizem: ‘Eu não sou racista, eu tenho um amigo que é preto. Eu não sou homofóbico, eu tenho um amigo que é viado’.

Ou então você é moreninho…
Moreninho. Essas historinhas que na verdade mascaram o racismo objetivo, mas ninguém chega e fala “eu sou racista”. O fascismo é assim também no Brasil, é cordial. Claro, se for na favela é diferente, é pé na porta e o caralho. Agora esse caso do outdoor, como foi feito por um Conselho do Estado e o cara que estava à frente é um desembargador [Siro Darlan] as coisas se resolvem na base do telefonema. Se fosse um regime fascista clássico, tacava fogo no outdoor, invadia a empresa e dava porrada em todo mundo. Aqui eles não vão entrar e quebrar tudo, eles dão um telefonema para o dono - como em Israel, quando colocaram no Centro de Mídia Independente uma ilustração minha, que era o Ariel Sharon fazendo a saudação nazista. A polícia não chutou a porta da empresa de internet, deu porrada em todo mundo e tirou o site do ar. O cara ligou para o dono e falou assim: ‘Se você não tirar o site do ar a gente te mata’. Aí as coisas se resolvem, sabe…

Qual o papel da polícia na manutenção da ordem capitalista, tanto na política de segurança do governo Sergio Cabral, no Rio, quanto em outros governos baseados no extermínio?
Eu tenho certeza que o Sérgio Cabral é um cara que tem formação, não é um cara idiota. Ele sabe direitinho sobre socialismo, sabe que esse problema, se é para ser resolvido de fato, vai ter que ser no âmago da questão, que é estrutural. Porque essa coisa de troca de tiro e partir para cima é enxugar gelo, ele sabe disso, mas ele sabe que não tem outra alternativa. Ele não quer e não vai solucionar o problema do capitalismo, ele não foi eleito para isso, então essas operações na verdade são pirotécnicas.

Eles não vão lá num banco da Suíça pegar o cara que está ganhando em cima do tráfico…
E também não vão a Brasília. Não vão pegar um juiz que está envolvido, não vão pegar graúdo, não vão pegar ninguém, porque aí vão atirar no próprio pé. Entra na questão sistêmica, ele não pode combater o sistema do qual ele saiu. É o Matrix, a gente vive as sensações, a de segurança é uma delas. O Josias Quintal, que foi o secretário de segurança aqui no Rio de Janeiro no governo Garotinho, deu uma declaração que eu nunca mais vou esquecer. Eles conseguiram um acordo com as Forças Armadas para colocar a Marinha nas ruas por certo período. Ele falou assim: ‘Eu estou muito satisfeito com esse convênio firmado com as Forças Armadas de colocar os soldados na rua porque isso dá à população a sensação de segurança’. É isso, não importa se existe a segurança, importa a sensação de segurança. Ele não vai dar segurança, porque para isso ele precisa atacar as questões sistêmicas e não tem condições de fazer isso.

E como a gente combate esse sistema?
Eu acho que o combate só quem pode dar é a esquerda, qualquer um que apresente uma solução fora da esquerda é maquiar o cadáver, é jogar perfume num monte de estrume. É melhorar o capitalismo, é novamente o discurso pós-moderno de que acabou a história, o muro caiu e não tem mais luta de classe, não tem mais esquerda e direita, é só o mercado que rege nossas vidas.

Você acredita na mudança do mundo?
Não, mas eu me comovo de ver como um povo pode ser resistente como o palestino. Como pode, meu Deus! E os filhos da menina [Laila, de Rafa] sorridentes, crianças lindas, meu Deus! Aí você abre o jornal e vê: ‘o palestino é o homem-bomba, o palestino é o terrorista’. Você vê a supra-realidade. ‘O palestino é isso, o palestino é aquilo, o favelado é o bandido’ E você abre a webcam e vê: puxa, ela põe um quadro na parede, ela tem uma vida, ela é de carne e osso, ela é gente, ela é humana. Como artista, eu acho que o que eu posso fazer são essas coisas, entendeu? Como o outdoor. Ficou quatro dias, mas já foi uma vitória.

Por que você não fala com a grande imprensa?
Porque se ela não for omitir, ela vai distorcer; então se for para me sacanear, os caras vão fazer isso sozinhos e não vão precisar da minha ajuda. Você acha que O Globo faria isso que você está vendo aqui? Só se eu fosse o superstar da política e olhe lá. Aquela menina do Globo escreveu no artigo que eu não dou entrevista para a imprensa. É uma mentira, meu problema não é com a imprensa, é com essa imprensa. A imprensa corporativa, de rabo preso.

Como você define ser de direita?
É simples: é quando você privilegia o capital acima do social. Melhor definição: quando você dá mais importância ao capital em detrimento do social. Isso é direita, isso é o capitalismo, isso é o neoliberalismo, isso é o pós-modernismo. Quando você privilegia o social em detrimento do capital, é o internacionalismo, é o socialismo, é o comunismo, é o anarquismo, é a esquerda.

Engraçado, ninguém se diz de direita. Não tem um que diga…
Não tem. Eu ainda sou mais o Le Pen [Jean-Marie, político francês da extrema direita]. Ele diz literalmente que é fascista. Ótimo, parabéns. Fica mais fácil a gente te combater. Agora, o cara do PFL vem dizer que é democrata?! Pena que essa discussão só fica entre a gente.

Que nada. Milhares de pessoas vão ler essa entrevista…
Que elas vão ler essa entrevista, não tenho dúvida. Se elas vão tomar alguma atitude a partir dela, é que eu não sei. Também não importa. Mas a gente tem que fazer. O que vai acontecer em seguida não importa. Tá bom pra vocês?

Por: http://www.fazendomedia.com

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Cabra marcado para morrer

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Cabra Marcado para morrer - Cabra Marcado para morrer

Filme genial de Eduardo Coutinho. Em 1964 o filme sobre João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé, assassinado em 1962, começa a ser rodado com os próprios participantes do movimento e a viúva, Elizabeth Teixeira, como atores. O Golpe Militar de 1964 interrompe abruptamente as filmagens. Soldados invadem o Engenho Galiléia onde o filme era rodado, procurando os líderes da liga e os realizadores do filme. A equipe conseguiu se esconder e fugir no dia seguinte. O material de filmagem foi apreendido, mas parte dos negativos já havia sido mandada para o laboratório, salvando imagens do filme.

Elizabeth, que tomou o lugar do marido na luta das ligas camponesas a frente do sindicato dos Trabalhadores Rurais, teve sua família destruída, foi presa e entra para a clandestinidade.

Após a abertura política, em 1981, Coutinho retoma o trabalho de “Cabra marcado para morrer”, agora como um documentário da própria história do filme, partindo atrpas dos camponeses que haviam participado.

De modo genial, o filme lançado em 1984, traça um panorama de um capítulo importante das lutas populares no Brasil.

Em sala:
Este filme pode ser usado em cursos de formação política em movimentos de luta pela terra, sindicatos de trabalhadores rurais, ou em aulas de ensino fundamental e médio, nas matérias de História do Brasil (Regime Militar, Ligas Camponesas) e Geografia (Questão Agrária).

* * *

Veja o emocionante depoimento de Elizabeth Teixeira durante o 5º Congresso do MST em Brasília, em 2007

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Faça você mesmo!

Eleilson Leite mostra como, por meio da cultura, jovens das periferias brasileiras impõem a produção independente: a arte criada fora da indústria cultural subverte a mercantilização e controle do conhecimento.

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Os jovens continuam fazendo arte no Brasil como em outras épocas. A novidade são os meios, cujo acesso tornou-se mais viável. Por outro lado, a recente ampliação das políticas públicas voltadas para tal segmento da população, também tem impacto importante, tanto para o acesso aos meios como para difusão da produção artística. É nova, também, a afirmação de uma cultura produzida por artistas que vivem nos arrabaldes das metrópoles. E finalmente, o compartilhamento completa o quadro da cultura juvenil contemporânea. A idéia do compartilhar se estabelece, em função da expansão do mundo virtual e da flexibilização dos suportes decorrentes da inovação tecnológica, traz consigo um questionamento: cultura e conhecimento não devem ser mercadorias de acesso restrito. Esses quatro elementos estão produzindo uma conexão muito promissora entre coletivos culturais de classe média, adeptos de concepções anti-capitalistas no mundo da cultura, e grupos de artistas de periferia. Um diálogo que nos remete aos ideais do movimento punk e do hip hop: tenha consciência, ocupe as ruas, faça você mesmo. Junte tudo isso, e temos o caldo de cultura no qual as diferentes juventudes produzem arte, compartilham, articulam circuitos, disputam concepções: em outras palavras, renovam a cena cultural.

Há trinta anos, o movimento punk explodiu na Europa sob o lema: do it yourself. Os músicos aprendiam alguns acordes e se juntavam para tocar em bares, universidades, escolas, ruas - em qualquer lugar. A agenda cultural era divulgada nos fanzines, que se reproduziam aos milhares. Cenário, luz, alta tecnologia, cachê? Nada disso. O que importava era a atitude. E o discurso contra o sistema não tinha meias palavras: “Eu sou um anarquista. Eu sou um anti-cristo…”, gritava em alto e péssimo som o vocalista do Sex Pistols, Jhonny Rottem, deixando os conservadores completamente atordoados. Sobrou também para a Rainha e para a Major EMI, alvos da verve punk-rock implacável dos Pistols.

Paralelamente, o hip hop emergia dos guetos de Nova York em meados dos anos 70, e causou um rebuliço no cenário cultural. Espalhou-se por todo o Planeta. Surgiu como um movimento de rua. Entretanto, diferente do punk, a cultura hip hop adaptou-se bem ao showbizz, em função da popularização do rap. O hip hop autêntico, que une seus quatro elementos: RAP, DJ, MC, o Grafite [1] e um quinto: o conhecimento a partir do qual se formam as posses - já não tem a mesma força no hemisfério Norte. Mas nas periferias dos centros urbanos da América Latina e da África a essência da cultura hip hop ainda mantém seu vigor, mobilizando milhões de jovens.

Os meios justificam os fins: já não é preciso recorrer a corporações para difundir idéias e arte

O ideário estético e político do punk e do hip hop ainda influencia corações e mentes de grupos juvenis urbanos, que se cruzam em diferentes circuitos culturais das metrópoles brasileiras. Consciência, engajamento, rima, ritmo, força da palavra escrita e falada, atitude, intervenção e a convicção de que “posso fazer e constranger o sistema” é o que marca a arte produzida nas periferias e por coletivos juvenis universitários de classe média que se articulam sob o lema da desmercantilização da cultura [2]. Esses últimos, mais próximos do punk e de toda sua derivação [3]; os primeiros umbilicalmente ligados ao hip hop.

O diálogo entre esses dois universos vem sendo cada vez mais freqüente, em virtude da ampliação do acesso aos meios. A redução dos custos de produção de CD, DVD e as infinitas possibilidades de difusão da criação artística pela internet estão abrindo oportunidades de exposição antes inimagináveis, mesmo para os jovens de classe média. Até uma década atrás, fazer um filme, gravar um CD, publicar um livro, era algo que passava, necessariamente, por corporações — fossem elas pequenas, médias ou grandes. Hoje em dia, os jovens produzem seus trabalhos em estúdios caseiros ou com equipamentos de uma ONG parceira, licenciam e difundem no Creative Commons, My Space, Overmundo ou em outros espaços virtuais de compartilhamento. Em menos de 24 horas, alguém já teve acesso, baixou, reproduziu, criando, assim, uma cadeia de difusão planetária, onde todo tipo de oportunidade aparece, inclusive, para apresentações remuneradas. Nessa nova cultura, os meios justificam os fins.

Assim é o caso do B Negão, rapper carioca que foi integrante do extinto Planet Hemp. Em 2003, ele começou a disponibilizar suas músicas na Internet. O retorno foi imediato. Internautas de todas as partes do mundo baixaram suas músicas e passaram a divulgá-las em rádios alternativas, festas e outros espaços. Algum tempo depois, chegaram os primeiros convites para apresentações na Europa. Começou com um show de curta temporada numa casa de espetáculos com capacidade para 300 pessoas, em Portugal, em em 2005. Na mesma turnê, lotou uma Casa na Espanha com capacidade para 2 mil pessoas. No ano seguinte, participou de um Grande festival na Dinamarca para 50 mil pessoas.

Na periferia do Distrito Federal, outro rapper, chamado GOG, um dos nomes mais importantes do hip hop brasileiro , criou um selo próprio - Só Balanço - e disse não às grandes gravadoras. Além de disponibilizar algumas de suas canções pela internet, declarou toda a sua obra como domínio público. Em um de seus discos, GOG gravou uma canção chamada A Ponte, uma referência crítica muito criativa à construção da Ponte Juscelino Kubitschek de Brasília. Nesse rap, ele sampleou uma canção homônima do compositor Lenine. A música chegou aos ouvidos do cantor pernambucano. Numa atitude de desapego aos rigores da proteção autoral, Lenine não só aprovou a colagem, como convidou GOG para uma participação muito especial em seu DVD. Essa participação deu uma calibrada na carreira do rapper brasiliense. Resultará na ampliação de suas produções no Só Balanço, que hoje tem como nome de ponta entre seus artistas o MC - ou cantador, como ele prefere - Rapadura, jovem revelação que é um dos mais talentosos do Brasil na atualidade, assegura GOG.

A produção das periferias chega aos livros e abre debate: destruir ou abrir espaço no mercado editorial?

Em 2005 ,motivado pela idéia do faça você mesmo, o poeta periférico paulistano Allan da Rosa resolveu publicar seu próprio livro. Mas ele não procurou uma dessa editoras que fazem livro sob encomenda como a Scortecci ou Livro do Autor, para citar duas empresas de São Paulo especializadas no ramo. Da Rosa, como é conhecido, queria um livro cujo padrão gráfico fosse ele próprio, expressão do conteúdo de seus poemas. Fez um belo livro de poesias, escrito à mão, em papel reciclado e com a lombada perfurada por qual passam fios vermelhos de novelo de lã. Assim surgiu Vão, sua obra seminal. Com o apoio da ONG Ação Educativa e de uma gráfica, imprimiu 500 exemplares do livro. Esgotou a tiragem em quatro meses. Produziu mais uma edição, que acabou em menos de um ano. Allan vendeu, de mão em mão, na porta de teatro e cinemas, em palestras, eventos e oficinas.

O êxito do livro Vão despertou a veia de editor do poeta Allan da Rosa. Com a mesma estratégia, ele publicou o livro De passagem, mas não a passeio, da Dinha – pseudônimo de Maria Nilda, jovem poeta de 27 anos moradora da periferia da Zonal Sul de São Paulo. Dinha esgotou seu livro, publicado em 2006, em menos de um ano. Começou aí a Selos Toró que, com dois títulos, já se estabelecia como o primeiro empreendimento de literatura de periferia que se tem notícia. Hoje, o catálogo tem dez títulos. A maioria dos autores tem menos de 30 anos e todos são moradores da periferia paulistana. Os livros custam R$ 10,00 na quebrada e R$ 20,00 na porta dos cinemas na avenida Paulista. Não há intermediário: o autor fica com todo o recurso captado na venda. A cópia é livre, mas todos querem ter os livros de feições artesanais.

O caso da Edições Toró, em particular, e de modo geral o movimento da literatura periférica, denota uma tensão importante nessa aproximação da cultura de periferia com os coletivos de jovens de classe média que defendem a desmercantilização da cultura. Allan da Rosa e Dinha, além de Sacolinha, Sergio Vaz e Alessandro Buzo assinaram contrato com a Global Editora em 2007. Esses autores estão inaugurando uma coleção denominada Literatura Periférica. Essa oportunidade lhes confere uma condição de reconhecimento que responde a uma busca de anos. Sentiram-se muito satisfeitos ao receberem 50% de adiantamento do direito autoral de uma edição no ato da assinatura do contrato. Em contrapartida, a editora fica com a posse dessas obras por cinco anos (para edição em livro) e é filiada à ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos, que proíbe a reprodução de qualquer parte do livro sem prévia autorização, sujeitando os infratores aos rigores da Lei de Direito Autoral. Isso causa preocupação aos militantes contrários à propriedade intelectual.

Questionado sobre a contradição, um dos autores disse: “são regras estabelecidas; agora que estamos chegando, querem acabar com o mercado?”, indignou-se. Os ativistas da livre circulação do conhecimento, afirmam por outro lado que é justo remunerar o escritor por sua criatividade. Entretanto, argumentam que não é correto que só alguém com dinheiro na mão possa ter acesso à obra do Sergio Vaz, por exemplo. Nesse caso, o poeta da Cooperifa [4], vem disponibilizando suas poesias no seu blog, como, aliás, já fazia antes de ser publicado. Resolvida a questão? Talvez. O fato é que uma corporação ganha dinheiro com um produto cultural e isso inquieta os coletivos mais radicais da desmercantilização da cultura. O debate está apenas começando e tem sido muito positivo [5].

No cinema, uma alternativa: remunerar a produção e permitir a cópia livre

Tudo fica mais complicado quando se trata de um filme. E é exatamente em tal linguagem artística que os jovens de vinte e poucos anos vem se dedicando com mais ímpeto. Mas nesse campo, assim como na música, há muito espaço para difusão na internet. E nem precisa ser alternativo para circular na grande rede. Exemplo maior do que o filme Tropa de Elite não poderia haver. Antes mesmo de entrar em cartaz, a obra circulou na Internet e pôde ser baixada aos milhares, em qualquer parte do mundo.

Se o autor ganha pouco na venda do livro, menos ainda recebe o cantor e compositor na venda do CD, pior é a situação do cineasta na comercialização de seu filme. Aí a equação pode ser resolvida na remuneração da produção, independente da venda. Nesse caso, é importante a ação do Estado no estímulo à criação cinematográfica. Não por acaso, o setor do audiovisual é o que tem um arcabouço legal mais sofisticado. É, também, o produto com os custos de produção mais elevados.

Mas não se faz filmes apenas pensando no grande circuito. Diego e Daniel, que poderia ser nome de mais uma dupla sertaneja, são, na verdade, dois jovens cineastas que aprenderam roteiro, filmagem e edição num curso de formação da ONG Ação Educativa, em São Paulo. A partir daí começaram a fazer seus filmes e constituíram o grupo NCA – Núcleo de Comunicação Alternativa. A obra de estréia surgiu em 2006: Imagens de uma Vida Simples, documentário sobre o artista plástico, poeta e dramaturgo Solano Trindade. Com esse filme, participam de mostras, fazem exibições em Escolas seguidas de palestras e percorrem toda a periferia paulistana, exibindo em qualquer lugar que lhes dê a oportunidade de divulgar seu trabalho. E para viver? São cinegrafistas. Atuam em projetos de ONGs, além de realizar seus próprios projetos buscando financiamento em editais focados em pequenas produções. Até onde isso vai? Não sabem. Esperam que pelo menos seja assim enquanto forem jovens.

O tema das políticas públicas para a juventude é uma pauta desta década. Até o final dos anos 90, pouquíssimas iniciativas se efetivaram nesse campo. Uma dessas raras ações foi a criação do Centro de Referência da Juventude da Prefeitura de Santo André, no ABC Paulista, no final daquela década. E a criação de espaços públicos para os jovens tem sido uma constante entre as políticas para o segmento juvenil [6]. Mas uma ação que se tornou uma referência de política pública, consagrada em lei e que tem um impacto extremamente positivo, não está dentro de nenhum equipamento de amplas instalações erguido numa região pobre qualquer de uma grande metrópole.

Trata-se do VAI – Valorização de Iniciativas Culturais, programa de fomento à cultura da cidade de São Paulo dirigido a indivíduos e grupos preferencialmente jovens de regiões pouco atendidas pelo poder público. Criado durante a Gestão da prefeita Marta Suplicy, o VAI vem abrindo editais a cada ano, e na sua terceira edição, em 2007 , contemplou 100 propostas entre 765 concorrentes, destinando uma verba de R$ 17 mil para cada um desenvolver seu projeto. Talvez, seja a verba orçamentária mais bem gasta da prefeitura paulistana: R$ 1,7 milhão financiando pequenas revoluções no cotidiano de grupos juvenis.

O selo Toró, liderado pela Allan da Rosa foi um dos grupos agraciados no último edital. Conseguiu, com a verba, publicar cinco livros com tiragem de 600 exemplares cada. Por meio do VAI, Akins Kinté, de 22 anos e Elizandra Souza, de 24 anos, freqüentadores de saraus na Periferia de São Paulo, concretizaram o sonho de ter seus poemas impressos num livro. Uma obra em dupla face, metade para cada um. Dois jovens negros, suburbanos. Ela da Zona Sul; ele, da Leste. Ambos venderam seus exemplares em menos de seis meses e, com o dinheiro arrecadado, bancaram uma nova tiragem. Elizandra, que ingressou no curso de jornalismo da Universidade Mackenzie, beneficiada pelo Pró-Uni, hoje trabalha como estagiária na sua área, dá palestras e participa de debates. Akins segue a mesma trilha, ainda almejando o sonho da faculdade. Mas expandiu suas aptidões artísticas e produziu, junto com dois jovens cineastas diletantes, um documentário sobre literatura e negritude, chamado Vaguei nos livros e me sujei com a m… toda.

Na mesma direção do programa paulistano, porém com um investimento maior, há no plano federal, a ação dos Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura. São mais de 600 grupos apoiados em todo o Brasil, recebendo cerca de R$ 150 mil cada para desenvolver seus projetos. Essas políticas têm o mérito de perceber o movimento da cultura feito por grupos. São vontades criativas que se concretizam na dinâmica da ação coletiva, movimentando a comunidade, interferindo na realidade. No VAI, 90% são jovens. Nos Pontos de Cultura, há uma estimativa de pelo menos 60% dos grupos contemplados estarem na faixa dos 18 a 29 anos. Em ambos os casos, a maioria está nas periferias, vilas e assentamentos no interior do País, nos morros e palafitas.

O que está em jogo hoje na cultura produzida pelos jovens, embora não só pelas garotas e rapazes de vinte e poucos anos, é a emergência da criação. E o acesso às novas mídias tem reforçado essa questão. Sob a bandeira da inclusão digital e democratização do acesso aos meios de comunicação, está a idéia de que é possível fazer, escrever, compor, interferir, difundir. Daí a pertinência do debate sobre propriedade intelectual e livre circulação do conhecimento e da cultura. E, se são novidades as tecnologias, não é nova a idéia de apropriação dos meios, da afirmação da condição juvenil pela cultura. A questão que o movimento punk e o hip hop trouxeram nos anos 1970, parece estar emergindo de uma forma decisiva. Uma revolução está em curso.

Não é por um acaso que assistimos a banda Radiohead, uma das mais populares do mundo, descendente do punk-rock, romper com sua gravadora e comercializar seu último disco exclusivamente na Internet, dando ao consumidor a condição de definir o preço, incluindo a possibilidade de baixar gratuitamente as músicas. Não menos coerente é observar que muitos grupos de rap prensam seus próprios CDs e distribuem diretamente aos camelôs, como faz Dudu de Morro Agudo, do coletivo Enraizado do Rio de Janeiro. “Quero que o maior número de pessoas ouçam minha música, eu tenho uma mensagem para passar”, afirmou Dudu, no debate sobre o tema no Debate Cultura e Conhecimento Livres [7]. Nessa mesma linha e com com muito mais ênfase, grupos de rap de Belém do Pará e demais capitais do Norte do Brasil articulam-se no Movimento Hip Hop da Floresta. A capital paraense é pródiga nesse tipo de circulação da cultura. Nas famosas festas de aparelhagem, o público compra o CD com as músicas tocadas durante a balada, na saída do local do evento.

A produção cultural juvenil articula-se em grupos, invariavelmente pequenos . É preciso observar essas micro-agremiações para se ter uma idéia da diversidade e complexidade das formas de expressão da cultura feita por jovens [8]. Mas os grupos se conectam em circuitos, às vezes, formando um contorno geográfico restrito a uma localidade, às vezes, sem apego a fronteiras. Ao se conectarem, formam grandes movimentos, abalam as estruturas e põem de ponta-cabeça os parâmetros estabelecidos, os cânones. Elizandra, Akins, Sacolinha, Allan da Rosa, Daniel, Diego, o pessoal do Epidemia, e outros que figuraram neste texto, estiveram conectados (presencial ou virtualmente) na Semana de Arte Moderna da Periferia que rolou em novembro na Zona Sul de São Paulo. “A arte que liberta, não pode vir da mão que escraviza”, diz um dos versos do Manifesto da Antropofagia Periférica, que serviu de liturgia ao evento. Esses e muitos outros jovens empoderaram-se e fazem, eles mesmos, a arte que os liberta.

Por: Enlace

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O império do cinema

Densora - Densora

Cena do filme “Desonra” (2005), do diretor japonês Masahiro Kobayashi
Divulgação

A história dos filmes japoneses, de 1899 até hoje, é tema de um livro fundamental da pesquisadora italiana Maria Roberta Novielli

O cinema do Japão está na pauta do ano por conta das celebrações que lembram os cem anos da chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil. Uma mostra abrangente foi realizada em fevereiro, em São Paulo, com 20 filmes dirigidos por mestres japoneses, como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Nagisa Oshima. Em outras cidades do Brasil, também se realizam mostras do filme nipônico.
A oportuni