22 de outubro de 2009
Artigo: Guilherme Pimentel
“A Luta levou a Esquerda para o Funk;
O Funk trouxe funkeiros para a Luta.”
O debate colocado pelo o movimento Funk é Cultura, organizado em torno da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk – APAFunk, nos coloca, enquanto Esquerda, na posição de aprendizes e, mais do que isso, nos passa tarefas de casa. Trata-se de um movimento genuinamente brasileiro, mais especificamente de identidade carioca, popular, jovem e cultural. Estamos diante de uma iniciativa transversal a todas as outras lutas. Estamos diante daquilo que pode mexer com o presente e construir outro futuro, instrumentalizando o povo de auto-estima, força e protagonismo.
Na história brasileira foi recorrente a criminalização de toda forma de manifestação cultural popular que reivindicasse as raízes afro-brasileiras. As desculpas são as mais diversas e sempre apontam para a criminalização indireta, ou serja, a cultura popular de massas é associada ao crime no discurso oficial e se criminaliza a cultura para “combater a criminalidade”. Foi assim com o samba, com a capoeira, com os batuques africanos em geral. Hoje, com o funk, não poderia ser diferente.
A origem do funk, assim como a de outras manifestações culturais negras, veio de um processo chamado “diáspora africana”, pelo qual, devido à escravidão, os negros se espalharam pelo mundo ocidental, levando consigo suas batucadas. Viva, a cultura negra se desenvolveu nos respectivos países, dando origem ao blues, capoeira, samba, hip hop, entre outras manifestações. Em Miami, surge o ritmo chamado “Miami Bass”, com um forte grave. Essa música foi trazida ao Brasil e passou a ser tocada nos “Bailes Black” do Rio de Janeiro.
Com a chegada do Miami Bass no Rio, montagens começaram a ser feitas por DJ’s cariocas e tocadas em festas freqüentadas pelos jovens de favelas e periferias. Em pouco tempo, letras em português começaram a ser compostas, ainda sob a melodia e batida dos irmãos negros do norte da América. No decorrer da história, melodia, dança e batida foram se abrasileirando, baseados nas marchinhas, sambas, forrós, frevos e batuques brasileiros. As letras cariocas exaltavam o lado bom das favelas, pediam paz e falavam de amor.
Nesse contexto surgiram os festivais, que começaram a lançar novos MC’s e construir verdadeiros hinos do funk. Centenas de funks surgiram falando de amor ou da realidade da favela, pedindo a união dos favelados, criticando a violência policial e a desigualdade social.
Ainda na década de 90, manifestação de uma cidade violenta, alguns bailes funk começaram a ser divididos em “Lado A” e “Lado B”, com um corredor no meio, onde a briga era feia. Muita violência ocorreu nesta época, como manifestação num fenômeno de massas de um problema social pertencente à realidade brasileira. Numa mobilização própria, os funkeiros começaram a exaltar a paz e pedir que as brigas nos bailes parassem. Com pouco tempo, os “bailes de corredor” acabaram. No entanto, a mídia e os governos chegaram atrasados e começaram a fazer estardalhaço sobre um problema que já havia sido resolvido.
No Governo Marcelo Alencar, os alvarás de todos os clubes onde ocorriam os bailes na cidade foram cassados. O funk foi guetizado dentro das favelas. No final dos anos 90, o funk praticamente para de tocar nas “grandes rádios”. Quando volta, em torno de 99/2000, o que se ouve é bem diferente do que era tocado no passado.
Letras conscientes, apesar de continuarem sendo feitas com qualidade inquestionável, são ignoradas pelo mercado fonográfico e dão espaço a letras erotizadas ou “proibidões” lights (funks baseados em proibidões, mas em versões tocáveis nas rádios, diferentes das tocadas nas favelas em geral). Os MC’s que acabaram com as brigas e que relatavam a realidade dos morros cariocas são limados do mercado. Em seu lugar, entram os MC’s “descartáveis”, aqueles que fazem sucesso por cerca de 6 meses e são esquecidos com obras artísticas que nada mais são do que manifestação das contradições sociais vividas hoje (lembre-se que o mercado pornográfico é o que mais cresce no mundo; ora, como exigir do funk que não manifeste aquilo que está em toda parte – bancas de jornais, samba, forró, axé music, televisão etc).
De lá para cá, muito preconceito se concretizou, graças a um forte trabalho da mídia, uma censura de mercado e um discurso oficial que aprofunda a associação entre o crime e o gênero musical. Coincidência ou não, os dois empresários do funk que passaram a dominar o mercado do gênero são exatamente os que fazem campanha dos governantes que comandam a política de segurança criminalizante (fizeram a campanha de Sérgio Cabral, por exemplo) e ainda tocam o funk “putaria” ou o “proibidão light”. Seus bailes, ao contrário dos demais bailes na cidade, continuam ocorrendo sem problemas com a polícia e seus negócios vão de vento em popa. MC’s responsáveis pela história do funk como Galo, Dolores, Júnior e Leonardo, Teko, Pìngo, entre tantos outros, são limados das rádios com frases do tipo “não está na hora de falar mal das elites”. E nesse processo, descobrem que os são superexplorados, com contratos de cessão de fonograma abusivos e vitalícios, não existentes em nenhum outro ramo da música, em que cedem quase a totalidade de seus direitos para os magnatas do funk.
Em 2008, a história de alguns desses MC’s se encontra com a história de parte da Esquerda carioca. Num churrasco na casa de uma antropóloga militante que estudava o funk, Adriana Facina, movimentos sociais e funkeiros viveram a primeira Roda de Funk. Foi nessa primeira iniciativa que MC’s, DJ’s, equipes de som e funkeiros de todo o tipo definitivamente decidiram concretizar um velho sonho de se organizar em torno da APAFunk e batalhar por direitos. Na mesma época, mais uma iniciativa governamental tratava de criminalizar os bailes: era aprovada pelos deputados estaduais, contra apenas um voto, a lei 5265/08, de autoria do então deputado Álvaro Lins, do mesmo partido do Governo, que dava às autoridades policiais o poder de tutela sobre os bailes e exigia uma série de requisitos para, na prática, “colocar no cabide” todos os eventos com funk. Com essa lei, apenas os bailes já ilegais continuavam existindo, já que os organizados dentro da legalidade foram enquadrados em exigências impossíveis de serem cumpridas e, portanto, proibidos pelos comandantes de Batalhão. O funk, mais uma vez, é jogado a um cenário favorável ao discurso de que estaria associado ao tráfico de drogas. MC’s, equipes de som e DJ’s são submetidos a esta dura realidade. Muitos são completamente impedidos de trabalhar.
Estava colocado o primeiro desafio: derrubar a lei de Álvaro Lins e aprovar uma lei que reconhecesse o funk como manifestação cultural de caráter popular, concedendo-lhe todas as prerrogativas constitucionais inerentes aos que compõem o patrimônio cultural brasileiro. As respectivas iniciativas legislativas foram feitas via mandatos Marcelo Freixo (deputado estadual) e Chico Alencar (deputado federal.
A articulação com movimentos sociais e mandatos parlamentares de esquerda exaltou aquilo que já havia no funk de mais potencial: com organização política e espírito de luta, a Roda de Funk foi para ruas, favelas, universidades e escolas para ocupar os espaços sob o lema “informação, mobilização e luta”. A arma é um funk comunicativo, uma linguagem universal para a juventude carioca, também com conteúdo político – para falar de problemas sociais e de relações amorosas também, por que não? O funk seria cantado nas ruas por aqueles que lhe deram origem. Não era um show, mas sim uma manifestação político cultural ao estilo Kizomba (festa da resistência dos negros quilombolas), onde o Pancadão e o bate-papo com o povo seriam a arma mais poderosa dessa batalha. Nesse formato, além de não poder ser proibida (não era baile, era manifestação política, protegida constitucionalmente), o espírito militante ficava claro. O objetivo era ganhar força, dizer para a população o que estava acontecendo e agregar funkeiros em torno de uma luta por direitos (direito à livre manifestação cultural, à produção cultural, ao acesso aos bens culturais, ao trabalho, ao lazer, à livre associação e reunião em locais públicos e privados, à igualdade, à dignidade etc).
Em menos de um ano, a Roda de Funk abalou a cidade, se iniciando dentro de encontros de movimentos sociais (como o Encontro Nacional da Juventude do Campo e da Cidade, ocorrido na Uff). O Bonde do Funk passaria onde tivesse um lutador capaz de manter a luta viva depois de sua passagem. Assim, começou a ocorrer nas carceragens da Polícia Civil, onde existem milhares de MC’s invisíveis. Em Acari, a Roda mobilizou famílias e o Festival organizado repercutiu na comunidade. Na ocupação da Reitoria da Uerj, o funk quebrou preconceitos, se afirmou enquanto cultura e linguagem legítima e também ocupou seu espaço. Na Central do Brasil, em frente à Secretaria de Segurança Pública, mobilizou mais de mil pessoas de todo o Rio com 6 horas de pura conscientização e mais de 4.000 panfletos distribuídos em menos de uma hora (nenhum no chão nem nas lixeiras). Ouvíamos declarações emocionadas, do tipo “Caraca, são eles! Por que eles não tocam mais nas rádios????”. Conhecemos mendigos com composições na cabeça contra o choque de ordem (não cantaram por medo da guarda municipal que lá estava). Vimos o espírito de protagonismo estar presente em todos. No morro do Dendê, famílias participaram da Roda. Na Cidade de Deus, comunidade “pacificada” pela PM, a Roda foi proibida pelo comandante do Batalhão local. Com muita conversa, ela foi “autorizada” e se abriu com centenas de crianças, ouvindo pela primeira vez em oito meses de ocupação policial o funk voltar. E não era a mesmice do funk imposto pelo mercado. Era também o funk que falava da realidade dali, abordando, de maneira respeitosa, temas palpitantes da juventude, como amor, sexualidade (por que não?), violência policial, orgulho e auto-estima de ser da favela, desigualdade social, luta contra a injustiça, moradia, liberdade, paz, entre outros.
Enquanto isso, os Projetos de Lei estadual (o que revogava a lei 5265 e o que reconhecia o funk como manifestação cultural) estavam tramitando a passos de tartaruga.
Quando partimos para o Santa Marta, “comunidade modelo” ocorreu o primeiro marco de disputa real. A Roda fora proibida pelo então comandante do batalhão de Botafogo e, segundo suas palavras, “não tinha papo”. Outros eventos culturais na área já tinham sido proibidos. Foi então que militantes do Movimento Direito Para Quem, em conjunto com advogados militantes dos Direitos Humanos, como Nilo Batista e João Tancredo, todos já inseridos nessa luta, organizaram um Mandado de Segurança. Afinal, não se pode proibir manifestações políticas na cidade! Paralelamente, comunicadores populares fizeram um excelente trabalho de mídia, conseguindo publicidade para a denúncia de que na comunidade modelo da PM e do governo a censura estava colocada, proibindo não só a Roda, mas também eventos culturais da área, como o PagoRap (evento organizado pelo Rapper Fiell, com música e conscientização). Além disso, era a oportunidade de mostrar, através da Roda de Funk, o que estava acontecendo em toda a cidade com os funkeiros. O nome da Roda era perfeito: “Paz sem voz é medo!”.
Coincidentemente, o comandante geral da PM foi alterado naquela semana e o novo designado para a função, Cel Mário Sérgio, alterou todos os comandos da PM no Estado. Fomos ao encontro do novo comandante do batalhão de Botafogo, que, já diante de uma estrondosa repercussão midiática do ato autoritário de seu antecessor, pediu mais uma semana para garantir a segurança da Roda. Aceitamos e a Roda ocorreu vitoriosa, depois de um mês de batalha e denúncias. Junto com a Roda, voltaram os eventos culturais na comunidade. O PagoRap foi a semente plantada naquela comunidade.
A repercussão da (quase) censura no Santa Marta foi enorme. O Funk estava na pauta do dia. A sociedade se manifestava. A favela era protagonista nesse embate. Na “favela-modelo” as contradições sociais estavam colocadas, a propaganda governamental estava sob risco e o funk era a voz que liderava a luta pela democracia e pela liberdade. A vanguarda era a própria voz da massa e a juventude pobre estava plenamente identificada. O governo ficou preocupado. Foi aí que Picciani - presidente da mesma Assembléia Legislativa (Alerj) que há um ano criminalizara o funk - publicou um texto em apoio ao funk no jornal O Dia e chamou APAFunk e Marcelo Freixo para conversar. Era a sua palavra de que os projetos de lei dos funkeiros seriam votados em breve.
Imediatamente foi organizada uma Roda de Funk na Praça XV, ao lado da Alerj. Mais uma Roda vitoriosa, mobilizando para uma Audiência Pública sobre o funk na semana seguinte, no plenário principal da Alerj. Comandada pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos e autor dos projetos de lei dos funkeiros, Marcelo Freixo, a Audiência Pública foi um marco histórico. Foi a primeira vez em que o funk foi tratado por autoridades da cultura e educação, sem nenhum representante estatal da polícia. A Audiência contou com a participação de mais de 600 funkeiros num horário ingrato. Na fala do presidente da APAFunk, MC Leonardo, a Alerj foi demarcada com “Tá Tudo Errado”, um funk de denúncia contra a política de extermínio dos governos, o primeiro funk a ser cantado naquela casa. O líder do governo, Paulo Melo, pediu desculpas em nome do governo e assumiu: “precisamos aprovar as leis dos funkeiros; precisamos corrigir nosso erro”.
Uma semana depois, mais de mil funkeiros movimentos sociais e baterias de escolas de samba de toda a cidade enchiam uma Roda de Funk na frente das escadarias da Alerj, em concentração para a votação dos dois projetos. Até os magnatas e as celebridades do funk aderiram ao movimento político. Ambos os projetos foram aprovados por unanimidade, pelos mesmos deputados que há pouco mais de um ano aprovavam uma lei criminalizando o funk. Dali saiu a primeira “funkeata” pelo Centro, chegando ao Circo Voador, onde a entrada foi de graça e o funk foi comandado pela APAFunk.
A vitória da aprovação das leis foi mais do que uma possibilidade de alteração dos números de bailes reprimidos. Foi o resultado positivo e rápido de uma forma diferente de fazer política. Ao contrário dos grandes magnatas do funk, a APAFunk tomou as ruas, não beijou a mão de ninguém, se aliou aos movimentos sociais, conscientizou o povo, se articulou no campo da Esquerda, não sectarizou nem negou apoios, quaisquer que fossem, não se deixou cooptar e utilizou a identidade funkeira para mobilizar as massas. Com Pragmatismo e Politização na medida certa de uma práxis suprapartidária de massas, comprometida sobretudo com a luta popular, mesmo desacreditada e mal dizida por muitos, a APAFunk conquistou respeito dos funkeiros e referência numa prática política de luta nas ruas.
Humildade e Atividade
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Despues de vivir um siglo…
Outro dia ouvi uma história que não achei bibliografia que a confirmasse, nem elementos que apontassem a sua inteira veracidade. Mas não importa, o problema é da realidade, não da história que ouvi. Por isso, vou tomá-la como referência. Segundo ouvi, há referências de Lênin a um trem de arte e cultura, que circulava a Rússia antes da Revolução Russa. Trataria-se de um trem que parava nas cidades e vilas camponesas, desenvolvendo, junto à comunidade atividades culturais com circo, música, danças, contação de histórias etc. Ao final do dia, imagens (não sei se fotos) das atividades desenvolvidas eram exibidas para a própria comunidade, no que as próprias pessoas se viam naquilo que participaram. Viam-se desenvolvendo suas próprias sensibilidades e identidade. Viam-se e lembravam-se do que sentiram, sentindo outra coisa enquanto se viam protagonistas daquelas imagens. Os sentimentos se misturavam. Ali nascia o conceito de AgitProp (Agitação e Propaganda), a sensibilidade do ser parte de um todo, a síntese dos sentidos do eu individual e do eu coletivo, a idéia do protagonismo e da força, da potencia da comunicação e da linguagem, a identidade coletiva promovida por sensibilidades e vivências possíveis a todos e também visíveis a todos. A possibilidade de fazer se vendo, de participar consciente do que aquilo que se faz pode significar para um processo maior do que o próprio umbigo.
O que vemos hoje no movimento Funk é Cultura é um Bonde de AgitProp carioca circulando pelo Rio. A identidade já existe. A crítica social e os valores de sociabilidade, sejam sobre política ou sobre sexo, é desenvolvida em linguagem acessível a todos. Obviamente as contradições sociais se manifestam no funk, mas se manifestam de uma maneira que inclui a todos como protagonistas dessa narrativa social (não mero observadores). Analfabetos, que não podem ler este texto, ouvem os funks (mais do que isso, fazem funks, como temos exemplo na APAFunk).
Na Rússia, só o trem não seria capaz de nada, mas sem Agitação e Propaganda, talvez a coisa tivesse sido diferente. Foi necessário um forte trabalho de enraizamento militante, baseado no território, para consolidar o resultado da passagem do trem.
Hoje, no Rio, o Bonde passa jogando sementes onde já existem guerreiros. Cabe aos guerreiros semear esse trabalho, para que dali nasçam frutos no futuro. Um movimento cultural de massas, com a cara da juventude, está em curso em nossa cidade. Não podemos nos dar o luxo de não cumprimos a tarefa que nos cabe neste momento histórico!
A nós, nos cabe aprender com o Funk! Fortalecer esse movimento, apesar dos limites impostos pelo Mercado! Dar espaço para esse bonde passar, semeando crítica social, organização política e exemplo de luta! Utilizar essa linguagem nos espaços, reconhecendo o povo como fonte de saber e os espaços do funk como espaços de sociabilização, conscientização, formação e crítica coletiva!
Precisamos disputar a juventude e qual funk ela ouve e produz! Para isso, temos que dar espaços a outras linguagens. Todos os MC’s que compõem “putaria” e “apologia”, compõem também rap’s conscientes, que não tocam nas rádios. Essas são a contradições de nossa sociedade, não é justo exigir que o funk – manifestação cultural de massas em um mundo capitalista - não as manifeste! Dar espaço para uma visibilidade diferente daquela subserviente ao que o Mercado proporciona é nosso dever se queremos tirar a juventude de uma mesmice, por vezes opressora. Hoje, a APAFunk luta para se fortalecer e aprovar a lei federal de reconhecimento do funk como cultura. O objetivo é defender os direitos dos funkeiros perante o monopólio, equilibrando o mercado, e criarmos uma musculatura capaz de organizar mais de uma Roda ao mesmo tempo na cidade, com oxigenação da produção de linguagem sobre temas da realidade popular, elevando a auto-estima da juventude, especialmente pobre. Precisamos fundir linguagem e política (são a mesma coisa!!!). Precisamos de rádios comunitárias, capilaridade de comunicação e divulgação, espaços de reflexão social e política, atividades sociais e militantes com funk, campo de trabalho para funkeiros e direitos garantidos aos trabalhadores (artistas ou não) dessa cultura.
Ao longo dessa luta, a APAFunk foi chamada pelo Governador, pelo Comandante Geral da PM, pelo Ministério da Cultura, pela Secretaria Municipal de Cultura e pelas Secretarias Estaduais de Cultura e Educação. Nessas conversas, muito campo se abriu. O Governador se comprometeu a sancionar e cumprir as leis aprovadas. O comandante da PM se comprometeu a garantir espaços para o funk e acabar com o tratamento discriminatório ao funk. Os demais órgãos públicos se comprometeram a tratar o funk como cultura, abrir espaços na cidade e abrir as escolas estaduais para Rodas de Funk e Festivais da APAFunk.
No entanto, nada disso será proveitoso se não houver gente para enraizar esse trabalho nos territórios por onde esse Bonde passar. Por isso precisamos de você! Estudantes, professores, sem terra, sem teto, favelados, moradores de periferia, sindicalistas, comunicadores… enfim, lutadores cariocas, uni-vos aos funkeiros! Precisamos nos unir, sem sectarismos. Precisamos viver as experiências juntos. Precisamos duvidar de verdades preconstituídas e construir verdades a partir de uma práxis atual. A única verdade que temos é que não nos renderemos!
Na Zona Oeste
O povo tem a força, só precisa descobrir
Se eles lá não fazem nada, faremos todos aqui!
(Rap da Felicidade – MCs Kátia e Rasta)
Unidos seremos sempre mais!
(Rap da Consciência – MC Mano Teko)
Tâmo junto numa só!
(MC Wandinho)
Tá tudo errado, é até difícil explicar,
Mas do jeito que a coisa tá indo já passou da hora do bicho pegar!
(MC Leonardo)
Deixa o meu funk entrar,
Funk-se quem quiser
Ao som do funk eu vou
Seja o que Deus quiser!
(Funk-se quem quiser – MC Galo e Dolores)
Na Zona Oeste temos duas prioridades: primeiro, fortalecer os espaços de luta, quais sejam (a princípio): o calçadão de Campo Grande e as escolas onde atuamos. Segundo, fortalecer os locais de funk, onde já existe trabalho de gente da APAFunk, quais sejam (a princípio): baile de vinil de Santa Cruz (DJ Marcelo Negão) e encontros de DJ’s de vinil. Isso poderá preparar uma conjuntura favorável a um segundo passo, quando teremos que aumentar nossa capacidade de capilarizar ainda mais nossa intervenção, entrando nas comunidades dessa área da cidade. Para esse processo se iniciar, precisamos quebrar nossos preconceitos e os de nossos companheiros. Essas são nossas primeiras tarefas!
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