Arquivo de Direitos Humanos

DESAPARECIDOS NA DITADURA: Justiça ordena exame em ossadas de Perus

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A Justiça determinou que a União Federal e o Estado de São Paulo realizem exames de identificação nas ossadas encontradas na vala comum do cemitério de Perus, local usado para ocultação de corpos de desaparecidos políticos vítimas da repressão durante a ditadura militar (1964-1985).
A decisão judicial também obriga a União a garantir recursos pessoais e materiais para a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e estabelecer um orçamento anual de R$ 3 milhões para o órgão.
As ordens judiciais são resultado de uma ação civil pública proposta no fim do ano passado pela Procuradoria da República em São Paulo. A instituição acusa a União e o Estado de São Paulo de serem os responsáveis por uma demora excessiva na identificação das ossadas, que atualmente estão armazenadas no cemitério do Araçá, na zona oeste da capital.
Na ação, a Procuradoria também alega que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos tem atuação esvaziada em virtude do apoio insuficiente do governo federal.
O despacho com as determinações foi assinado anteontem pelo juiz da 6ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, João Batista Gonçalves. O magistrado ainda não julgou a ação, mas atendeu ao pedido da Procuradoria de concessão de uma medida tecnicamente chamada de tutela antecipada.
Para o juiz, "é necessário que os corpos sejam individualizados, recebam ofícios religiosos e, com a dignidade que merece todo ser humano, sejam encaminhados à sepultura definitiva. Enfim, é preciso virar essa constrangedora página da vida política brasileira".
A partir da intimação sobre a decisão, o Estado de São Paulo terá 60 dias para constituir uma equipe de profissionais do Instituto Médico Legal para atuar, com exclusividade, no exame das ossadas que estão no cemitério do Araçá. A União está obrigada a contratar, em até 90 dias, um laboratório especializado na realização de exames de DNA em ossos.
Segundo a Justiça Federal, ambos os entes estatais têm prazo de 180 dias para concluir os exames dos restos mortais alojados no cemitério do Araçá, separando "aqueles que flagrantemente forem incompatíveis com os desaparecidos políticos, devolvendo-as ao cemitério de Perus", e selecionando "aquelas que deverão ser submetidas a exame de DNA".
Em relação à comissão especial, o magistrado determinou que em 60 dias a União forneça ao órgão um secretário executivo exclusivo, equipes de pesquisas com legistas, médicos e dentistas, profissionais nas área de antropologia, geologia e arqueologia especializados no exame de ossadas, além do orçamento de R$ 3 milhões.
A AGU (Advocacia-Geral da União), responsável pela defesa judicial da União, informou que ainda não foi oficialmente informada sobre a concessão da tutela antecipada no processo. A Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo também afirmou à reportagem que não recebeu intimação da Justiça sobre as determinações. (FLÁVIO FERREIRA, da Folha de S.Paulo)

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Policiais acusados de matar 111 presos no Carandiru vão a júri popular

 

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Dezessete anos após invasão à Casa de Detenção, 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça rejeita os recursos dos 116 PMs envolvidos

Depois de 17 anos, os 116 policiais militares acusados de envolvimento na morte de 111 presos da Casa de Detenção, no episódio conhecido internacionalmente como o "massacre do Carandiru", deverão ir a júri popular. A decisão unânime - três votos a zero - foi tomada ontem de manhã pela 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

A defesa dos acusados tem 15 dias para recorrer em instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou Supremo Tribunal Federal (STF). Na votação de ontem, os desembargadores negaram recurso dos réus e mantiveram a pronúncia decretada em primeira instância.

Dos 116 PMs, 84 são acusados de homicídios qualificados. Os outros 32 são suspeitos de causar lesões corporais nos detentos do Pavilhão 9 da antiga Casa de Detenção. Os crimes atribuídos a esses últimos policiais prescreveram - ou seja, eles não podem ser mais ser punidos pela Justiça.

O promotor de Justiça Márcio José Lauria Filho, do 2º Tribunal do Júri da capital, disse que os autos têm cerca de 76 volumes, fora os apensos (materiais anexados), e pelo menos 15 mil páginas. Lauria Filho espera que os réus sejam levados a júri o mais rápido possível. "Minha expectativa é a de que haja logo o julgamento, com desmembramento do processo para facilitar os trabalhos. Quanto mais tempo demora, mais prejudicada fica a acusação."

Nenhum dos acusados do massacre foi preso. O coronel Ubiratan Guimarães, responsável pela invasão à Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, foi condenado em primeira instância a 632 anos de reclusão. Mas, por ser réu primário, o oficial obteve o benefício de recorrer da sentença em liberdade.

Também por ser deputado estadual, o processo contra Ubiratan foi julgado pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça. Os desembargadores decidiram anular o julgamento e absolveram o coronel. Ele foi assassinado com um tiro, em seu apartamento nos Jardins, zona sul da capital, em 10 de setembro de 2006. O coronel foi eleito duas vezes deputado estadual, com a legenda de final 111 - o número de mortos no massacre.

Decidiram mandar os réus a júri os desembargadores Salles Abreu, relator do recurso; William Campos, revisor; e Luís Soares de Mello. A sustentação da acusação foi feita pela procuradora de Justiça Sandra Jardim e da defesa, pela advogada Ieda Ribeiro de Souza.

Lauria Filho acrescentou ainda que os réus foram pronunciados em 4 de outubro de 2000. Só para processar os recursos de defesa de todos os réus foram necessários seis anos. Os recursos chegaram ao Tribunal de Justiça em 20 de fevereiro de 2006. (Josmar Jozino - Agência Estado)

NOTA DO IZB: No Brasil a justiça tarda e falha. A não ser contra os pobres, negros ou favelados…

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Ivan Valente discursa sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos

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O líder do PSOL, deputado Ivan Valente, em discurso no plenário da Câmara, 3 de fevereiro, falou sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos 3, proposta que tem provocado grande debate desde que foi apresentada pelo governo, em dezembro de 2009. Para o deputado, o que ocorre é uma ofensiva conservadora ao Programa e um recuo do Executivo.

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Programa de Direitos Humanos

 

Escrito por João Baptista Herkenhoff

30-Jan-2010 – Correio da Cidadania

Grande responsabilidade recai sobre os meios de comunicação neste momento, para que o povo tenha condições de formar juízo a respeito do Programa Nacional de Direitos Humanos.

Já no seu tempo Rui Barbosa alertava sobre o compromisso ético dos meios de comunicação na sua célebre conferência A imprensa e o dever da verdade. Rui referia-se apenas aos jornais e revistas porque então não havia televisão.

Hoje, com o aparecimento da televisão, os cuidados reclamados por Rui Barbosa são ainda mais exigentes.

Nos jornais há duas espécies de textos: aqueles que contêm informação e aqueles que expressam opinião.

Os textos informativos, segundo manda a Ética do Jornalismo, devem ser rigorosamente verdadeiros e imparciais.

Os textos opinativos não são imparciais, fazem opção de valores, mas não estão dispensados de coerência e seriedade.

Na informação não se admite a mentira, o falseamento de dados, a subtração de fatos.

Na opinião exige-se a fidedignidade dos textos à linha editorial esposada pelo veículo de comunicação.

Vamos figurar um exemplo hipotético, para melhor esclarecer o que estamos pretendendo dizer.

Um determinado jornal assume, na sua linha editorial, o compromisso com a defesa do meio ambiente. Nos artigos de fundo, principal espaço de afirmação do pensamento do jornal, a defesa do meio ambiente é um combate cotidiano.

Uma determinada indústria pretende instalar-se no território (estado ou município) onde o jornal circula. O jornal deverá noticiar, com absoluta isenção, os reais impactos da indústria no meio ambiente. Não lhe é lícito, pelo fato de defender o meio ambiente, atribuir à indústria agressão ao meio ambiente maior do que aquela que realmente ocorrerá. Dizendo de outra forma: o dever da informação verdadeira não pode ser sacrificado em homenagem aos ideais que o jornal defenda, por mais nobres que sejam esses ideais.

Nos veículos escritos (jornais e revistas), o leitor pode, com relativa facilidade, separar a informação e a opinião.

Em muitos jornais, uma página é reservada para a opinião. Nessa página há sempre um artigo que não contém assinatura: é a opinião do jornal, é o chamado editorial.

Os demais artigos publicados na página são artigos assinados pelos colaboradores.

Os articulistas da página de opinião não pensam todos da mesma maneira. Às vezes pensam de maneira oposta. Isto é bom, é democrático. O leitor, com reflexão, ponderação, diálogo com outras pessoas, deverá formar sua própria opinião sobre os vários assuntos.

Na televisão, especialmente nos telejornais, a informação e a opinião não estão tão nitidamente separadas como nos jornais impressos.

Além disso, a televisão é muito rápida na apresentação das matérias. Diante do jornal, o leitor pode parar para pensar. De certa forma, à face do jornal o comando pertence à inteligência do leitor. Diante da televisão, não há tempo para pensar. A televisão traga o telespectador.

A respeito do Programa Nacional dos Direitos Humanos, a cobertura de um dos canais nacionais de televisão, um canal de significativa audiência, deixou, a meu ver, muito a desejar.

O âncora do telejornal assumiu o domínio da telinha e só viu defeito no Programa de Direitos Humanos, no que foi acompanhado pelo único cidadão entrevistado.

Quanto ao âncora, ficou bem claro que ele emitia seu juízo pessoal sobre o tema. Mas que apenas uma voz tenha sido ouvida, uma voz contra o programa governamental, não me parece correto. É sempre desejável que haja opiniões que se contradigam para que o telespectador assuma seu direito de pensar.

Se o Programa Nacional de Direitos Humanos descontentou setores da sociedade civil, também é certo que outros setores da sociedade civil aprovaram o programa.

O programa foi aprovado em vinte e sete conferências estaduais de direitos humanos, culminando o debate pela sua aprovação na Décima Primeira Conferência Nacional de Direitos Humanos.

Uma das mais respeitadas instituições brasileiras, o IBASE, deu seu aval ao programa.

Afirmam os opositores do programa que este põe em risco a liberdade de imprensa. Não me parece verdade. O programa simplesmente reclama que seja cumprido o artigo 221 da Constituição Federal que determina tenham a televisão e o rádio finalidade educativa e cultural e que respeitem os valores éticos e sociais da pessoa e da família. Televisão não é como jornal e revista. Jornais e revistas a criança pede dinheiro ao pai para comprar. Televisão invade nossas casas, inclusive quando o pai e a mãe estão no trabalho e a criança está sozinha. A televisão tem o dever de respeitar nossas famílias.

João Baptista Herkenhoff é livre-docente da Universidade Federal do Espírito Santo, professor pesquisador da faculdade Estácio de Sá de Vila Velha e escritor. E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

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Conciliar Plano de Direitos Humanos com o interesse das Forças Armadas é “inaceitável”

Escrito por Gabriel Brito, da Redação

20-Jan-2010 – Correio da Cidadania

Lançado nos estertores de 2009, o 3º. Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) ganhou corpo no debate público apenas no início deste ano. Atacado pela mídia grande por todos os lados, o ponto nevrálgico do plano indiscutivelmente foi a idéia de se criar uma ‘Comissão da Verdade’ a fim de investigar e elucidar os crimes cometidos por agentes da ditadura que transcorreu de 1964 a 1985.

Em extensa entrevista ao Correio da Cidadania, o jornalista e ex-militante da Ala Vermelha Alípio Freire aponta Nelson Jobim, ministro da Defesa, como nefasto defensor dos interesses em tapar a história por parte das Forças Armadas. Além de lembrar de suas articulações para ocupar o atual cargo, lembra que o Jobim, antes de tudo, é um fraudador da Constituição, que, nas discussões do plano, atropelou os três poderes da república, o que culminou na retirada do termo ‘repressão política’ do texto do plano.

A respeito do PNDH 3, diz ser um importante instrumento de aprofundamento da democracia nacional, não apenas no que se refere a jogar luzes sobre o passado, mas também no que concerne às atuais lutas por um Brasil igualitário. E sobre a tentativa de se obstruir o debate completo, assinala que todas as entidades envolvidas estão apoiando, primeiro, a existência do plano, para depois tratarem de discuti-lo com a sociedade. Como exemplo, Alípio fala da própria igreja católica, contrária ao aborto, mas a favor da instauração completa do PNDH 3.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: O que o senhor pensa do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, anunciado pelo governo no final de 2009?

Alípio Freire: Em primeiro lugar, acho muito bom, com muitas coisas que há tempos são reivindicadas por parcelas de nossa sociedade. Este plano é mais completo que os dois anteriores, pois busca contemplar também direitos e necessidades econômicas e sociais. Portanto, vejo um grande avanço.

Pela forma como é conduzido o processo, com os representantes de diversos setores da sociedade civil, dos direitos humanos, mulheres, negros, homossexuais, movimentos organizados dos trabalhadores, será fantástico se conseguirmos aprová-lo.

Mas tem um capítulo, que gerou a crise criada pelo senhor Jobim, que é a questão do julgamento e responsabilização de torturadores da ditadura. Esse é o grande mote da atitude do Jobim no final do ano passado.

CC: No caso específico da instauração de uma Comissão da Verdade para tentar apurar crimes da ditadura, qual a sua opinião?

AF: Essa que é a bola da vez. É fundamental que tenhamos tal comissão, que originalmente é da Verdade e da Justiça. Mas em negociações do Jobim com o presidente já havia sido retirada a palavra justiça. A palavra é o de menos, pois obviamente, se procuram a verdade, a conseqüência tem de ser justiça. No entanto, para eles o importante era retirar essa palavra.

Em relação ao plano, o centro da questão para eles é a luta armada. E com relação à luta armada, eu diria o seguinte (aliás, eu e outros fomos processados pela luta armada): nos ordenamentos jurídicos da colônia e do império, existia uma cláusula dizendo que todo patrão que assassinasse seus escravos o fazia em legítima defesa. O grande Luiz Gama inverteu a equação: todo escravo que matasse seu patrão o fazia em legítima defesa. Em relação à ditadura e à reação armada, estou com Luiz Gama também, enquanto que eles continuam com os ordenamentos do tempo da colônia e do império. Querem reeditar algo que vem do escravismo.

Mas digo que todos que reagiram, não importa por quais meios, contra um regime que atropelou nossa Constituição, tinha a violência como parte do programa (pois sem ela não chegariam ao poder) e que, ao chegar ao poder, montou um projeto de subordinação ao grande capital internacional, ou seja, de venda do Brasil, baseado na concentração de renda e esbulho da classe trabalhadora, o fizeram de forma legítima.

Sendo assim, como no império eu estaria ao lado dos escravos, com Luiz Gama, continuo pensando agora a mesma coisa. Eles não tiveram o menor prurido em usar as violências mais abjetas. E esta violência foi igual para quem fez e para quem não fez a luta armada. O deputado Rubens Paiva, por exemplo, é desaparecido até hoje. O que eles fizeram, já no período de abertura, contra o comitê central do PCB, que se opunha à saída armada pela esquerda, foi terrível. Sabe-se hoje que o David Capistrano foi esquartejado. Sabem-se também de duas execuções com a coroa de cristo, aquele torniquete que pressiona a cabeça até estourar. Eu conheço dois casos assim, da Aurora Maria do Nascimento Furtado, a Lola, no Rio de Janeiro, e do Aldo de Sá Brito, em Belo Horizonte.

Embora eu prefira os métodos menos violentos, contra o tirano toda rebeldia é legítima. Quem instalou a violência no país foram eles. Mas não só os militares, isso que é importante ver. A articulação do golpe, observávamos, era feita fundamentalmente pelos grandes empresários, a grande indústria, os bancos. Gente como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros, todos civis aliados ao governo dos EUA, através de seu embaixador Lyncoln Gordon e outros contatos, os setores da chamada direita ideológica e todos aqueles que foram formados na ideologia da Doutrina de Segurança Nacional na Escola Superior de Guerra, tanto civis quanto militares; também parte hegemônica da alta cúpula da igreja católica, ou seja, o Vaticano, e não os cristãos brasileiros, muito pelo contrário, pois muitos foram assassinados, sendo, portanto, um problema da instituição e não da religião.Num primeiro momento, tivemos a oposição de dois leigos que eram pessoas fantásticas da igreja: Madre Cristina em São Paulo e o professor Helio Pellegrino no Rio de Janeiro; e, claro, a alta cúpula das Forças Armadas em sua maioria.

Não é verdade que o corte seja entre militares de um lado e civis de outro. Assim como tivemos civis no golpe, muitos militares eram contra o golpe, como os legalistas, os constitucionalistas (e esse é o papel do exército, defender nossa Constituição e fronteiras), os nacionalistas e os de esquerda. Tanto que é imenso o número de militares que foram expurgados das Forças Armadas. O Capitão Carlos Lamarca é um caso conhecido, mas não o único.

Portanto, acho que a discussão tem de deixar muito claro que o golpe de 64 é uma revanche. A maioria das classes dominantes, a elite econômica, estava contra um projeto que visava desenvolvimento nacional com distribuição de renda, e as reformas de base mostram isso, além de outros padrões de maior independência nas relações internacionais com outros países.

CC: Como encara, portanto, a crise que se instalou no governo, entre militares e ministros ligados à área de direitos humanos? A conciliação com o interesse das Forças Armadas, retirando-se a expressão ‘repressão política’, foi aceitável?

AF: Em primeiro lugar, eu não aceito nenhuma solução em que se tente nivelar torturadores com rebeldes que resistiram à ditadura, não importando os meios dessa resistência. E eles sempre ensaiaram, e felizmente a esquerda brasileira não assume isso, incluir todos da luta armada. E já disse o que penso disso.

Dessa forma, a solução para os que violaram os direitos humanos, apesar de ainda não ter lido todo o decreto, para mim é inaceitável, um retrocesso. O mais grave é o que fez o Jobim: de uma vez só ele atropelou o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Como? Em primeiro lugar, a proposta elaborada pelo ministro Paulo Vannucchi foi assinada e apoiada por vários outros ministros, quase todos, e foi remetida ao presidente, que a transformou em projeto para ser avaliado, discutido e votado no Congresso Nacional, ou seja, primeiro o Executivo, depois o Legislativo. E há a questão da Lei da Anistia, que está para ser julgada no STF. Portanto, os três poderes da República. Ele e os representantes das três armas, pelo que se diz, teriam feito cartas de demissão, conspirando na ausência do presidente (pois estava viajando, por isso se tratava de uma conspiração) para derrubar algo que não passava de projeto. Eles não aceitam nem discutir o projeto.

No entanto, não há nada a esperar do doutor Nelson Jobim. Seu primeiro grande sucesso foi ter fraudado o texto da Constituição. Ele até escreveu sobre o assunto. Trata-se de um fraudador da Constituição. Em segundo, é uma pessoa que não teve o menor pudor, com seus pares, em gerar uma crise aérea artificial que terminou num desastre aéreo, matando 200 pessoas para chegar ao seu objetivo, o posto de ministro. E para quê? Para privatizar os aeroportos brasileiros. Ele se imiscui nessa questão do pré-sal sobretudo para conseguir um novo conceito de defesa e uma nova Lei de Segurança Nacional, semelhante àquela que os movimentos populares, as forças de esquerda e a classe trabalhadora brasileira conseguiram derrubar no começo dos anos 80. É possível verificar isso na internet inclusive.

Outra vez viria a velha doutrina de segurança nacional, onde as Forças Armadas, ao invés de terem como missão a garantia de nossas fronteiras e Constituição, fariam o papel de polícia interna, vigiando os supostos inimigos internos. E quem são os inimigos internos? Todos que não concordam com a ordem do capital, ou que concordam, mas desejam avanços na área de direitos humanos. Acho que uma pessoa dessas, que frauda a Constituição e arma uma situação que termina no extremo de um desastre de avião, para ele e seu grupo se locupletarem, deixa de ser um problema político. Passa a ser problema daquelas antigas, e extremamente conservadoras, delegacias de jogos e costumes. Nenhum cidadão brasileiro sério pode ficar calado e aceitar isso.

CC: Acha válida, nesse sentido, a revisão da Lei de Anistia, segundo o princípio de que a anistia não poderia ser extensiva aos militares, visto que seus crimes não teriam sido políticos?

AF: Ninguém está propondo a revisão da Lei de Anistia. Isso é uma coisa que a imprensa e a direita geram. O documento não propõe nada de revisão dessa lei, inclusive porque existem argumentações brilhantes sobre isso, como a do Dr. Fabio Konder Comparato, que sustentam que a citada lei não anistia torturadores e responsáveis por torturas. Isso também é uma maneira de enganar a opinião pública; ninguém quer essa revisão.

Processos como o da família Teles estão sendo encaminhados nessa linha inclusive.

Aliás, seria uma loucura o Congresso, com a composição atual, com a corrupção à solta, querer votar uma revisão da Lei de Anistia. A legislação que existe é essa, e vamos aprofundá-la e colocá-la em prática. Só isso.

CC: O senhor acredita que o plano se trata também de um desencargo de consciência do PT, que ao longo de seus sete anos no poder não atendeu às demandas populares que o elegeram?

AF: São três coisas diferentes: o PT, o governo Lula e o lulismo. São três esferas diferentes pra entendermos o que acontece. O governo Lula se destaca por uma composição quase esquizofrênica. De um lado, há ministros como Tarso Genro, Paulo Vannuchhi, Temporão… De outro, o Stephanes. Vimos que ele também veio pra cima defender as terras, dizendo ser um preconceito contra a agroindústria… Mandam há 500 anos no Brasil, estamos do jeito que estamos e o sujeito fala em preconceito!

Dessa forma, acho que as diversas áreas, com o Lula sempre no meio negociando e mantendo o controle, desenvolvem aquelas questões que lhes parecem mais adequadas. O Vannucchi e o Tarso sempre trabalharam no aprofundamento das questões de direitos humanos, desde o primeiro momento de suas gestões. Aí não se trata do lulismo, da presidência da República strictu sensu, ou do PT. É uma iniciativa fundamentalmente do Paulo e de outros petistas, ou não, que o apóiam.

Aliás, tiveram a virtude, juntamente com outros ministérios, de transformar essa discussão da repressão nos anos de ditadura, e a questão dos mortos e desaparecidos em particular, num assunto da sociedade. Saiu do gueto o assunto.

Primeiro a idéia do ministro Tarso Genro de criar uma Comissão de Anistia, similar às Caravanas da Anistia, saindo de Brasília, sendo que lá só repercutiam canalhices do gênero de ditabranda ou bolsa ditadura que alguns diziam. Isso repercutia e era o que a sociedade ficava sabendo através do sul maravilha.

Se numa cidade como São Paulo esse assunto se dilui com outros, numa cidade menor uma Caravana da Anistia é ‘o’ assunto, todos passam a discutir. Quando o Paulo sai para colocar as placas nos lugares onde tombaram os resistentes, nas escolas, sindicatos que tiveram seus membros assassinados, também se está jogando conhecimento para a população sobre este episódio da história do Brasil, com o governo assumindo o tema como política de governo e de Estado. Nesse sentido, além de outros, as gestões de Genro e Vannucchi são excelentes, colocando nas ruas um programa que a direita sempre tentou colocar no gueto e que a esquerda não tinha conseguido transformar em discussão pública.

CC: O plano não corre, no entanto, o risco de virar uma peça eleitoreira do governo, por seu caráter de aprofundamento da democracia?

AF: Eu acho que não. Quem está tirando proveito eleitoreiro disso é a direita. E o alvo é a virtual candidata Dilma. O tipo de material contra ela que tem circulado mostra isso. Não há nada contra mim, que fui da Ala Vermelha, ou contra o Manuel Cyrillo, que foi da ALN, por exemplo. É contra a Dilma.

Num certo sentido é divertido, pois, quanto mais eles batem, e sem argumentos, mais se discute. Quem tenta tirar proveito disso é a ultra-direita ou alguns setores do PSDB. Não falo das bases do partido, do cidadão comum que vota neles.

Não vamos tratar a questão como partidária ou eleitoral, e sim como de aprofundamento da democracia no Brasil. E aí estamos com qualquer um que defenda os princípios e medidas do plano.

CC: O que pensa das correntes que se desagradaram com pontos específicos, como a igreja católica na questão do aborto? Pode-se dizer que tais interesses segmentados prejudicam a discussão, faltando uma visão mais ampla do que está em jogo?

AF: Teve até um debate sobre isso no Sindicato dos Jornalistas. Eu, particularmente, sou a favor da questão do aborto, da união dos homossexuais, mas está lá no plano e a solução é o debate dentro do Congresso, que é o instrumento oficial para tal. Para a sociedade, estamos defendendo o plano em bloco. Em específico, apenas a questão da Comissão da Verdade, por ser o alvo central dos ataques, considerando todas as discussões absolutamente legítimas enquanto parte da construção democrática. É natural que no nosso campo existam discordâncias. Eu discordo de setores da igreja que são nossos companheiros. Mas temos de saber levar e discutir essas coisas no momento e do jeito corretos.

Inclusive, acho muito ruim que, ao invés de ir em cima da questão da verdade, o presidente diz ser contra o aborto. Ninguém estava contestando o aborto. Que jogue a divisão para dentro do nosso exército. Eles que se dividam lá, com o Jobim. Essas são justas contradições no meio do bloco que tenta aprofundar a democracia no Brasil, que tenta transformar este num país igualitário. Não adianta liberdade sem igualdade; assim, é apenas liberdade de exploração, o mais forte sobre o mais fraco.

Portanto, todo esse bloco que defende o plano, mesmo os católicos, está defendendo o plano em conjunto. As nossas divergências, que não se colocam agora, podem ser debatidas depois que existir o plano.

Eu não vejo problema em ver representantes da igreja dizendo que não podem assinar a idéia por conta de um ou outro ponto. Não tem problema, ninguém é inimigo de ninguém, pois o sujeito está cumprindo o mandato deste setor. Pessoalmente, gostaríamos que fosse diferente, mas entendemos o que ele representa. Aliás, se os políticos cumprissem os mandatos que lhes são atribuídos, o país estaria diferente. Posso discordar do conceito deles, mas não da postura, por saber do universo que representam. E estão sendo extremamente maleáveis em retirar do centro do debate essa questão do aborto que até o presidente lançou – e não deveria fazê-lo. Essa é uma visão divisionista, não agrega, pelo contrário, apenas enfraquece.

CC: Quanto à cobertura da mídia, realmente, pelos meios de comunicação mais massivos, parece só haver pontos negativos e passíveis de críticas no plano…

AF: (risos) A grande mídia comercial está fazendo o papel que sempre fez. Essa articulação é a mesma composição de 64: a direita dos militares, os mais atrasados deles, aquele religioso que todo mundo sabe ser uma pessoa de visão extremamente residual da igreja católica e que foram buscar para falar, e a grande mídia comercial, que fala em nome de grandes setores do comércio, indústria, agora todos fundidos numa coisa só.

Ou seja, ela continua apostando no que há de mais atrasado. A questão não é de ser contra ou a favor do aborto, por exemplo. A grande mídia é a favor do lucro antes de tudo. Prova disso é que, se pegarmos o seu Brilhante Ustra, os depoimentos dele, vemos que faz pura chantagem em cima de suas chefias. Ele entrega todo mundo, querendo dizer: ‘ou vocês seguram a minha, ou entrego todo mundo, não vou dançar sozinho’.

Portanto, eles têm rabo preso historicamente, têm seu projeto e seus lucros a defender. E a grande mídia comercial brasileira é a instituição mais desmoralizada do país, não é o Congresso. Pegue uma revista como a Veja: embora tenha influência em vários setores, várias falcatruas políticas também têm influência. Em termos de desmoralização, que hoje é muito extensiva, a mídia é a instituição mais desmoralizada.

Não houve nem clareza, por exemplo, sobre a entrega das cartas de demissão ao Lula no dia 21/12… Há também o caso da gravação do suposto grampo sobre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres… Enfim, aquilo ali foi plantado ou vazado pelo senhor Jobim intencionalmente. O que é intolerável é uma reunião entre o ministro da Defesa e o presidente do STF em dezembro. Não acho que queriam derrubar o presidente, mas queriam dar um golpe no ministro dos Direitos Humanos.

CC: O senhor acabou de falar que o golpe de 64 foi uma revanche. O que pensa dos setores que tacham todo esse debate acerca das punições aos criminosos da ditadura como revanchista?

AF: Para finalizar, vamos deixar claro, não se trata de revanche. Isso seria se quiséssemos aplicar a eles o que aplicaram naqueles anos, levando-os para cárceres clandestinos, deixando-os incomunicáveis, pelo tempo que definíssemos, fazendo-os desaparecer para a família e a sociedade, em seguida fazendo denúncias naquela ópera bufa que era o julgamento nos tribunais de guerra. Não queremos isso, queremos um processo legal, onde eles tenham o mais pleno direito de defesa, com um processo completamente às claras e público.

Aquilo foi o terror de Estado no Brasil. Os maiores terroristas foram eles. Até porque nenhum processo da ditadura terminou em condenação por terrorismo. Essa palavra serve a políticas como a aplicada pelo senhor Bush, às quais Obama tentará dar mais charme para continuar. Ninguém foi condenado por terrorismo.

E se nós não julgarmos os terroristas, isto é, os agentes do Estado e civis organizados pela ultra-direita, que tinham uma relação promíscua com agentes do Estado, com comunicação com ministros, como a Falange Pátria Nova e o CCC, continuaremos tendo torturas em nosso país, como nas periferias de grandes cidades, no campo e suas chacinas rurais…

Se lembrarmos que, em maio de 2006, cerca de 490 pessoas foram assassinadas em seis dias por agentes do Estado, sem mais nem menos, por vingança à ofensiva do PCC, é algo terrível. É quase a mesma quantidade de assassinados durante toda a ditadura!

Por isso, vários movimentos e organizações de bairros estão lutando pelo 3º. Plano Nacional de Direitos Humanos, e têm procurado participar de todas as nossas batalhas.

Portanto, esse objetivo não é só nosso, dos que querem esclarecer o passado. Até porque memória sem presente e nem futuro é nostalgia ou narcisismo. O que procuramos é exatamente saber no presente como se constrói um país e se transforma isso aqui num lugar decente. Como ampliar direitos e criar isonomia. Por isso é importante se reportar ao passado, como uma arma de luta.

Gabriel Brito é jornalista.

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Brasil precisa combater mais o trabalho escravo

Brasil é referência no combate ao trabalho escravo, mas precisa acelerar suas ações para erradicar o problema. A aprovação de uma emenda constitucional para garantir o confisco de propriedades que exploram mão de obra análoga à escravidão é uma das metas para 2010 das instituições envolvidas no tema.

A reportagem é de Daniel Cassol e publicada pelo Jornal do Comércio, 28-01-2010.

“Não há democracia com a permanência do trabalho escravo”, defendeu ontem o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Ele participou de um seminário sobre o tema no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), existem no mundo cerca de 12 milhões de pessoas submetidas a trabalhos degradantes, sendo que 1,2 milhão na América Latina. Em 2009, o número de trabalhadores resgatados foi de 3.571 em todo Brasil. Apesar de estar mais associado ao meio rural, como lavouras de cana e carvoarias, o trabalho escravo está presente também nos centros urbanos. “O trabalho forçado é um fenômeno generalizado e que vem crescendo no mundo globalizado”, diz a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo.

Para o juiz do trabalho Marcus Barberino, as ações da Justiça devem enfrentar também a prevenção e a conscientização de empresas e consumidores, evitando atacar o problema de forma pontual. “O trabalho escravo não é apenas algo ligado ao trabalho rudimentar nos rincões do País. É uma exploração sistemática que ocorre em toda a cadeia produtiva”, avalia.

Atualmente, é considerado trabalho escravo aquele que envolve cerceamento da liberdade dos trabalhadores, condições degradantes, jornada exaustiva e ameaças de violência por parte dos contratantes. Segundo Vannuchi, nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso cerca de seis mil trabalhadores foram libertados, enquanto no período de Luiz Inácio Lula da Silva já foram 30 mil. “O que está aumentando é o enfrentamento ao problema”, destaca.

Uma das metas de Vannuchi e das instituições que atuam no combate ao trabalho escravo é garantir a aprovação, ainda no primeiro semestre deste ano, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438, que determina a expropriação de propriedades rurais nas quais forem flagrados trabalhadores em condições degradantes. O projeto está parado na Câmara dos Deputados desde agosto de 2004, quando foi aprovado pelo Senado. De acordo com o senador José Nery (P-Sol-PA), além da PEC existem nove projetos que tratam de trabalho escravo tramitando no Senado e outros 12 na Câmara, todos parados. “É impressionante o grau de tolerância com que este crime é tratado”, critica.

A data de hoje marca o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, em alusão ao episódio que ficou conhecido como chacina de Unaí, ocorrida em 2004, quando quatro funcionários do Ministério do Trabalho foram assassinados enquanto realizavam uma fiscalização na região de Unaí, em Minas Gerais. As investigações apontaram como mandantes os fazendeiros Norberto e Antério Mânica, mas até hoje ninguém foi condenado.

Trabalho escravo está presente em toda cadeia produtiva brasileira

Apesar de o Brasil ser considerado, no âmbito internacional, a vanguarda do combate ao trabalho escravo, a prática está inserida em toda a cadeia produtiva do país. Elemento inerente à reprodução do sistema capitalista, o trabalho escravo é uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo. Atividade no Fórum Social Mundial discutiu o que falta fazer para erradicar a prática em nosso território.

A reportagem é de Bia Barbosa

e publicada por Carta Maior, 29-01-2010.

“Tudo começa com um moço chamado gato, que é um homem que vai a uma cidade com pessoas vulneráveis e chega lá com boas promessas. A pessoa se anima. Eles dizem que o patrão paga a passagem. Quando chega lá, a escravidão já começou. Quando começa o pagamento, vem o desconto da passagem, das ferramentas, do que você precisa comer. Já está tudo no caderno, anotado, e você tem que pagar. Os vigias passam armados na frente do da gente e deixam claro que o ambiente não é tranqüilo.”

O relato acima é de Francisco José dos Santos Oliveira, da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Prevenção do Trabalho Escravo em Monsenhor Gil, no Piauí. Escravo liberto, Francisco hoje vive no assentamento Nova Conquista, junto com outras 40 famílias de agricultores. Teve sorte de sobreviver a uma das maiores violações de direitos humanos do mundo contemporâneo, e esteve nesta quarta-feira no Fórum Social Mundial para contar sua experiência, numa atividade que buscou fazer do balanço do caminho que o país ainda precisa percorrer para erradicar o trabalho escravo de sua cadeia produtiva.

Segundo levantamento da ONG Repórter Brasil, que integra a Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, a produção de gado bovino é a campeã em número de propriedades que utilizam mão de obra escrava no Brasil. Metade das fazendas onde a prática foi registrada por operações do Ministério do Trabalho e Emprego era de gado. Já em relação ao número de trabalhadores libertos nessas operações, a produção da cana ocupa o triste primeiro lugar. Muitas vezes, mais de mil trabalhadores são libertos de uma só vez nas ações dos grupos móveis de repressão.

Hoje, cada uma dessas hipóteses corresponde ao trabalho análogo ao escravo no Brasil: o trabalho forçado, onde a pessoa é obrigada a trabalhar pela força das armas; a servidão por dívida; a jornada exaustiva, quando de alguém, para além da jornada legal, é exigida uma produtividade que o corpo não agüenta; e o trabalho degradante, quando são suprimidas as condições básicas de saúde e segurança. Todas elas são encontradas nas cadeias produtivas brasileiras, e seus produtos chegam a toda a rede de varejo nacional.

“O trabalho escravo tem crescido no contexto da globalização. Hoje há mais de 12 milhões de pessoas em situação de trabalho forçado no mundo. Na América Latina, são 1,3 milhão. O lucro obtido por esta forma de trabalho ao ano passa de 30 bilhões de dólares, e o custo para os trabalhadores que estão submetidos a esta situação é de mais de 21 bilhões de dólares. Ou seja, apesar de muito poucos Estados nacionais reconhecerem oficialmente a existência do tema, este é um fenômeno mundial, presente na cadeia produtiva de grandes e modernas empresas multinacionais”, afirma Laís Abramo, diretora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.

“A sociedade brasileira está acordando para o fato de que o trabalho escravo contemporâneo não é restrito à atividade rudimentar nos rincões do país. Trata-se de uma atividade sistemática, que perpassa toda a cadeia produtiva e está na mesa de todos os brasileiros. É algo central da organização do próprio mercado de trabalho”, explica Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15ª região e coordenador das oficinas jurídicas da Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. “Ao contrário do que pensam, o trabalho escravo não é exceção. É termômetro do mercado de trabalho brasileiro, que continua a explorar o trabalhador de uma forma bastante excessiva”, acrescenta.

Referência internacional

De acordo com a OIT, o Brasil é uma referência internacional positiva em relação à luta contra este crime, estando na ponta dos esforços mundiais de erradicação. Há 15 anos o Estado desenvolve políticas de combate à prática. De acordo com os números da Secretaria Especial de Direitos Humanos, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foram seis mil trabalhadores resgatados. No governo Lula, foram 30 mil, como resultado do aumento do enfrentamento.

No entanto, muito ainda precisa ser feito para eliminar em definitivo tal violação de direitos. Um dos maiores desafios no campo legislativo é a aprovação da Emenda Constitucional 438/01, que prevê a expropriação de terras, sem direito a indenizações, onde for encontrada mão de obra escrava. Em 2001, a PEC foi aprovada em pelo Senado, mas até hoje espera a aprovação em segundo turno na Câmara dos Deputados, onde se encontram diversos parlamentares que já figuraram na chamada lista suja do trabalho escravo.

“Há anos lutamos pela aprovação prioritária da PEC. Mas apesar dos compromissos manifestados, não conseguimos avançar”, relata o senador José Nery, do PSOL/PA, presidente da subcomissão de combate ao trabalho escravo da Comissão de Direitos Humanos do Senado. “O trabalho escravo nada mais é do que um elemento inerente à reprodução do sistema capitalista vigente em nosso país e as forças degradantes de trabalho são algo que se reproduz historicamente desde a colonização. Aprovar a PEC e garantir o confisco de terras sem indenização aos escravagistas contemporâneos corresponde para nós a uma segunda lei áurea”, acredita.

No dia 13 de maio deste ano, um abaixo assinado que já conta com mais de 200 mil assinaturas será entregue ao presidente da Câmara dos Deputados reivindicando a votação da PEC em segundo turno na Casa. O objetivo é aprovar a emenda constitucional ainda no primeiro semestre de 2010. Em fevereiro, será lançada uma Frente Parlamentar de combate ao trabalho escravo no Congresso Nacional.

No campo jurídico, além de ações de formação e treinamento de juízes, o Ministério Público do Trabalho tem ampliado sua atuação no combate ao crime. Em vez de trabalhar a partir do recebimento de denúncias, como era feito anteriormente, os procuradores agora desenvolvem um trabalho menos reativo, de busca de dados e maior abrangência das ações movidas na Justiça.

“É preciso ir além de uma atuação pontual, em que algumas empresas são acionadas e outras não, já que a violação permeia todo um setor produtivo”, explica Sebastião Caixeta, procurador do trabalho à frente da Coordenação Nacional do Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho. “Também estamos movendo ações de dano moral coletivo, na construção de uma teoria que vem se firmando, com acolhimento da Justiça do Trabalho, que é a imposição de um pagamento pelo dano genérico já causado por essa violação, com os valores sendo revertidos para a classe trabalhadora. Hoje o trabalho escravo não ataca apenas a liberdade individual, mas também a dignidade da pessoa humana. Por isso, merece a repressão criminal, administrativa, trabalhista e civil do sistema de Justiça”, afirma.

Neste 28 de janeiro, Dia Nacional de combate ao trabalho escravo, a esperança dos ativistas e militantes que participam da décima edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre é acabar com a sensação de impunidade que ainda paira sobre aqueles que praticam o crime, e construir mecanismos que, de fato, erradiquem o trabalho escravo no país.

“E isso só vai acontecer quando o Brasil realizar a reforma agrária. É algo que passa por uma mudança no modelo de desenvolvimento no país, um modelo não exploratório, que não utilize pessoas como bucha de canhão para obter lucro”, concluiu Leonardo Sakamoto, coordenador da Repórter Brasil.

Comentários

Manifesto em defesa do PNDH-3

14 de janeiro de 2010

NOTA PÚBLICA

III Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) é avanço na luta por direitos humanos

EM DEFESA DA DEMOCRACIA, DOS DIREITOS HUMANOS E DA VERDADE

As entidades e militantes dos Direitos Humanos e da Democracia de São Paulo-SP juntam-se ao Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), rede que reúne cerca de 400 organizações de direitos humanos de todo o Brasil, para manifestar publicamente seu REPÚDIO às muitas inverdades e posições contrárias ao III Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), e seu APOIO INTEGRAL a este Programa, lançado pelo Governo Federal no dia 21 de dezembro de 2009.

Como o MNDH, entendemos que o PNDH 3, aprovado durante a 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos (2008), é um importante passo no sentido de o Estado brasileiro assumir a bandeira dos Direitos Humanos em sua universalidade, interdependência e indivisibilidade como política pública; expressa avanços na efetivação dos compromissos constitucionais e internacionais com direitos humanos; e resultou de amplo debate na sociedade e no Governo.

Por isto, nenhuma instância do Governo Federal pode alegar ter conhecido esse Programa somente depois do ato do seu lançamento público no dia 21 de dezembro e, menos ainda, afirmar que o assinou sem haver lido, sob pena de mentir no primeiro caso e, no segundo, de acrescentar à mentira um atestado de irresponsabilidade.

As reações contra o PNDH 3 estão cheias de conhecidas motivações conservadoras, além de outras que, pela sua própria natureza, são inconfessáveis em público pelos seus defensores. Estas resistências, claramente explicitadas ou não ao PNDH 3, provam que vários setores da sociedade brasileira ainda se recusam a tomar os direitos humanos como compromissos efetivos tanto do Estado, quanto da sociedade e de cada pessoa. É falso o antagonismo que se tenta propor ao dizer que o Programa atenta contra direitos fundamentais, visto que o que propõe tem guarida constitucional, além de assentar seus alicerces no que é básico para uma democracia, e que quer a vida como um valor social e político para todas as pessoas, até porque, a dignidade da pessoa humana é um dos princípios fundamentais de nossa Constituição e a promoção de uma sociedade livre, justa e solidária é o objetivo de nossa Carta Política.

Há setores que estranham que o Programa seja tão abrangente, trate de temas tão diversos. Ignoram que, desde há muito, pelo menos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, direitos humanos são muito mais do que direitos civis e políticos. Vários Tratados, Pactos e Convenções internacionais articulam o que é hoje conhecido como o Direito Internacional dos Direitos Humanos, que protege direitos de várias dimensões: civis, políticos, econômicos, sociais, culturais, ambientais, de solidariedade, dos povos, entre outras. Desconhecem também que o Brasil, por ter ratificado a maior parte destes instrumentos, é obrigado a cumpri-los, inclusive por força constitucional, e que está sob avaliação dos organismos internacionais da ONU e da OEA que, por reiteradas vezes, através de seus órgãos especializados, emitem recomendações para o Estado brasileiro - entre as quais, as mais recentes são de maio de 2009 e foram emitidas pelo Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU. Aliás, não é novidade esta ampliação, visto que o II Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 2, de 2002) já previa inclusive vários dos temas que agora são reeditados, e a primeira versão do PNDH (1996) fora criticada e revisada exatamente por não contemplar a amplitude e complexidade que o tema dos direitos humanos exige. Por isso, além de conhecimento, um pouco de memória histórica é necessária a quem pretende informar de forma consistente a sociedade.

Em várias das manifestações e inclusive das abordagens publicadas, há claro desconhecimento (além dos que apenas fingem desconhecer) do que significa falar de direitos humanos. Talvez seja por isso que, entre as recomendações dos organismos internacionais está a necessidade de o Brasil investir em programas de educação em direitos humanos, para que o conhecimento sobre eles seja ampliado pelos vários agentes sociais. Um dos temas que é abordado no PNDH 3, e que poderia merecer mais atenção dos críticos e demais cidadãos.

O PNDH 3 resulta de amplo debate na sociedade brasileira e no Governo. Fatos atestam isso! Durante o ano de 2008, foram realizadas 27 conferências estaduais que constituíram amplo processo coletivo e democrático, coroado pela realização da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, em dezembro daquele ano. Durante 2009, um grupo de trabalho coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) procurou traduzir as propostas aprovadas pela Conferência no texto do PNDH 3. O MNDH e suas entidades filiadas, além de outras centenas de organizações, participaram ativamente de todo o processo. Há outros seis meses, desde julho do ano passado, o texto preliminar está disponível na internet para consulta e opinião. Internamente no Governo, o fato de ter sido assinado pela maioria dos Ministérios – inclusive o Ministério da Agricultura – é expressão inequívoca da amplitude do debate e da participação coletiva que presidiu sua construção. É claro que, salvas as consultas, o texto publicado expressa a posição que foi pactuada pelo Governo. Nem tudo o que está no PNDH 3 é o que as exigências mais avançadas da agenda popular de luta por direitos humanos esperam. Contém, sim, propostas polêmicas e, em alguns casos, não bem formuladas. Todavia, considerando que é um documento programático, ou seja, que expressa a vontade de realizar ações em várias dimensões, tem força de orientação da atuação nos limites constitucionais e da lei, mesmo quando propõe a necessidade de revisão ou de alterações de algumas legislações. A título de esclarecimento, é prerrogativa da sociedade e do poder público propor ações e modificações, tanto de ordem programática quanto legal. Por isso, não deveria ser estranho que contenha propostas de modificação de algumas legislações. Assim que, alegar desconhecimento do texto ou mesmo que não foi discutido, é uma postura que ignora ou finge ignorar o processo realizado. É diferente dizer que se tem divergências em relação a um ou outro ponto do texto, de se dizer que o texto não foi discutido, ou que não esteve disponível para conhecimento público.

Juntamente o ao MNDH, ainda que explicitando alguns outros detalhes que envolvem a integralidade do PNDH 3, nós, organizações, movimentos e militantes de São Paulo, entendemos que as reações veiculadas pela grande mídia comercial, com origem, em sua maioria, nos mesmos setores conservadores de sempre, devem ser tomadas como expressão de que o Programa tocou em temas fundamentais e substantivos, que fazem com que caia a máscara anti-democrática destes setores. Estas posições põem em evidência para toda a sociedade as posturas refratárias aos direitos humanos, ainda lamentavelmente tão disseminadas, e que se manifestam no patrimonialismo – que quer o Estado exclusivamente a serviço de interesses dos setores privados; no apego à propriedade privada – sem que seja cumprida a exigência constitucional de que ela cumpra sua função social; no revanchismo de setores civis e militares – que insistem em ocultar a verdade sobre o período da ditadura militar e em inviabilizar a memória como bem público e direito individual e coletivo; na permanência da tortura – mesmo que condenada pela lei; na impunidade – que livra “colarinhos brancos” e condena “ladrões de margarina”; no patriarcalismo – que violenta crianças e adolescentes, e serve de alicerce para o machismo – que mantém a violência contra a mulher e sua submissão a uma ordem que lhes subtrai o direito de decisão sobre seu próprio corpo (como o direito ao aborto), lhes impõe salários sempre menores que os dos homens, ou a situações de violência em sua própria casa; no racismo – que discrimina negros, indígenas, ciganos e outros grupos sociais; nas discriminações contra outras orientações sexuais que não sejam apenas a heterossexualidade (considerada o único padrão de “normalidade” em termos sexuais) – estigmatizando a homossexualidade (masculina ou feminina), a bissexualidade, os travestis ou transexuais, e todas as demais manifestações de homoafetividade – o que impede o reconhecimento dos casamentos, ligações e constituição de famílias fora das “normas” (atualizadas ou não) do velho patriarcado supostamente sempre heterossexual, monogâmico e monândrico; na falta de abertura para a liberdade e diversidade religiosa – que impede o cumprimento do preceito constitucional da laicidade do Estado; no elitismo – que se traduz na persistência da desigualdade em nosso País como uma das piores do mundo e, enfim, na criminalização da juventude e da pobreza, e na desmoralização e criminalização de movimentos sociais e de defensores de direitos humanos.

Como o MNDH, repudiamos também a tentativa de partidarização e eleitoralização do PNDH 3.

O Programa pretende ser uma política pública (e pelo público foi gerado) de Estado, e não de candidato; não pertence a um partido, mas à sociedade brasileira e, portanto, não cabe torná-lo instrumento de posicionamentos maniqueistas. Não faz qualquer sentido pretender que o PNDH 3 tenha pretensões eleitorais ou mesmo que pretenda orientar o próximo Governo. Quem dera que direitos humanos tivessem chegado a tamanha importância política e fossem capazes de, efetivamente, ser o centro dos compromissos de qualquer candidato e de qualquer Governo. Mas compromisso para valer, e não apenas um amontoado de frases demagogicamente esgrimidas nos palanques eleitorais.

Assim, nós – de São Paulo, do mesmo modo que o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), reiteramos a manifestação, publicada em nota no último 31/12/2009, na qual se afirma que cobramos “uma posição do Governo brasileiro, que seja coerente com os compromissos constitucionais e com os compromissos internacionais de promoção e proteção dos direitos humanos. O momento é decisivo para que o País avance em direção de uma institucionalidade democrática mais profunda, que reconheça e torne os direitos humanos, de fato, conteúdo substantivo da vida cotidiana de cada um/a dos/as brasileiros e brasileiras”. Manifestamos nosso APOIO INTEGRAL ao PNDH 3, pois entendemos que o debate democrático é sempre o melhor remédio para que a sociedade possa produzir posicionamentos que sejam sempre mais coerentes e consistentes com os direitos humanos. Ao mesmo tempo, REJEITAMOS posições e atitudes oportunistas que, desde seu descompromisso histórico com os direitos humanos, tentam inviabilizar avanços concretos na agenda, que. quer a realização dos direitos humanos na vida de todas e de cada uma das brasileiras e dos brasileiros.

Juntamente com o MNDH, também manifestamos nosso apoio integral ao ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e entendemos que sua permanência à frente da SEDH neste momento só contribui para reforçar o entendimento de que o PNDH 3 veio para valer. Entendemos ainda que, se alguém tem que sair do Governo, são aqueles ministros – entre os quais o da Defesa, senhor Jobim, e o da Agricultura, senhor Stephanes Agricultura) – ou quaisquer outros prepostos que, de forma oportunista e anti-democrática, vêm contribuindo para gerar as reações negativas e conservadoras ao que está proposto no PNDH 3.

Em suma, como organizações da sociedade civil, o MNDH e nós, que vivemos e militamos em São Paulo, estamos atentos e envidaremos todos os esforços para que as conquistas democráticas avancem sem qualquer passo atrás.

São Paulo, 14 de janeiro de 2010.

Movimentos, Organizações e Militantes pelos Direitos Humanos de São Paulo

LISTA DE ENTIDADES QUE SUBSCREVEM ESTA NOTA PÚBLICA

AÇÃO SOLIDÁRIA MADRE CRISTINA
AETD - ASSOCIAÇÃO EDUCATIVA TECER DIREITOS
ABGLBT - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS
AJD - ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA
ANAPI – ASSOCIAÇÃO DOS ANISTIADOS POLÍTICOS APOSENTADOS PENSIONISTAS E IDOSOS NO ESTADO DE SÃO PAULO
ASSOCIAÇÃO DE FAVELAS DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
ASSOCIAÇÃO DE MULHERES DA ZONA LESTE
ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA LUZ E VERDADE
ASSOCIAÇÃO UMBANDISTA E ESPIRITUALISTA DO ESTADO DE SP
ATELIÊ DE MULHER
CASA DA VIDA, DO AMOR E DA JUSTIÇA
CENTRO ACADÊMICO “22 DE AGOSTO’ – DIREITO PUC-SP
CENARAB – CENTRO NACIONAL DE AFRICANIDADE E RESISTÊNCIA AFRO BRASILEIRA
CCML - CENTRO CULTURAL MANOEL LISBOA
CIM – CENTRO DE INFORMAÇÃO DA MULHER
CINEMULHER
COLETIVO DE FEMINISTAS LÉSBICAS
COMISSÃO DE FAMILIARES DE MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS.
CONGRESSO NACIONAL AFRO BRASILEIRO
CSD-DH - CENTRO SANTO DIAS
CUT – CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES
FRENTE NACIONAL PELO FIM DA CRIMINALIZAÇÃO DA MULHER E PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO
FÓRUM DOS EX-PRESOS E PERSEGUIDOS POLÍTICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO
FLO - FRIENDS OF LIFE ORGANIZATION
GTNM-SP GRUPO TORTURA NUNCA MAIS – SÃO PAULO
ICIB - INSTITUTO CULTURAL ISRAELITA BRASILEIRO - SÃO PAULO/SP
ILÊ ASÉ ORISÁ OSUN DEWI
ILÊ ASE OJU OMI IYA OGUNTE – SP
ILÊ IYALASE IYALODE OSUN APARA OROMILADE – PRAIA GRANDE
INSTITUTO LUIZ GAMA
INSTITUTO OROMILADE - INSTITUTO DE PESQUISAS COMUNITÁRIAS, AÇÕES SOLIDÁRIAS E ESTUDOS DE PROBLEMAS ÉTICOS E SOCIAIS
INTERCAMBIO INFORMAÇÕES ESTUDOS E PESQUISA
INTERVOZES - COLETIVO BRASIL DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
LBL - LIGA BRASILEIRA DE LÉSBICAS
LS-21 LIGA SOCIALISTA 21
MÃES DE MAIO
MAL-AMADAS CIA DE TEATRO FEMINISTA
MMM - MARCHA MUNDIAL DE MULHERES
MNP.RUA – MOVIMENTO NACIONAL DA POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA
MST - MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA
MOVIMENTO BRASIL AFIRMATIVO
NEV/USP-CEPID - NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
NÚCLEO DE MEMÓRIA POLÍTICA
NÚCLEO CABOCLO FLECHA DOURADA
NÚCLEO PENA BRANCA E PAI XANGÔ
NÚCLEO UMBANDISTA CASA DA FÉ
NÚCLEO DE UMBANDA SAGRADA DIVINA LUZ DO ORIENTE
NÚCLEO DE ORAÇÃO UNIÃO E FÉ
NÚCLEO CAMINHOS DA VIDA
NÚCLEO DE UMBANDA MAMÃE OXUM
NÚCLEO SAGRADA FLECHA DOURADA
NÚCLEO YEMANJÁ E SÃO BENEDITO
NÚCLEO OFICINA DA VIDA
NÚCLEO CASA DE OXUM
NÚCLEO GENTIL DA GUINÉ
NÚCLEO OTOCUNARÉ
OBSERVATÓRIO CLÍNICA
OBSERVATÓRIO-SP – OBSERVATÓRIO DAS VIOLÊNCIA POLICIAIS-SP
OUSAS – ORGANIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
PRIMADO DO BRASIL - ORGANIZAÇÃO FEDERATIVA DE UMBANDA E CANDOMBLÉ DO BRASIL
PROJETO MEMÓRIA DA OPOSIÇÃO SINDICAL METALÚRGICA
PROMOTORES LEGAIS E POPULARES
REDE FEMINISTA DE SAÚDE, DIREITOS SEXUAIS E DIREITOS REPRODUTIVOS
SECRETARIA MUNICIPAL DE MULHERES DO PARTIDO DOS TRABALHADORES
SINDICATO DOS JORNALISTAS PROFISSIONAIS DO ESTADO DE SÃO PAULO
SINDICATO DOS QUÍMICOS DO ESTADO DE SÃO PAULO
SOF - SEMPREVIVA ORGANIZAÇÃO FEMINISTA
TEMPLO DE UMBANDA ANJO DIVINO SALVADOR
TEMPLO DE UMBANDA PAI JOAQUIM
TEMPLO FORÇA DIVINA
TENDA DE CARIDADE PAI OXALÁ
TENDA DE UMBANDA CAMINHOS DE OXALÁ
TENDA DE UMBANDA CABOCLO PEDRA VERDE
TUPÃ OCA DO CABOCLO ARRANCA TOCO
UBES - UNIÃO BRASILEIRA DE ESTUDANTES SECUNDARISTAS
UMSP – UNIÃO DE MULHERES DE SÃO PAULO
UNE – UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES
UJR - UNIÃO DA JUVENTUDE REBELIÃO
UPES – UNIÃO PAULISTA DOS ESTUDANTES SECUNDARISTAS

Faça a sua adesão em http://www.petitiononline.com/pndh31/petition.html

Leia a íntegra do PNDH-3 no arquivo anexo.

Anexo
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O tratamento dado pela mídia ao Programa Nacional de Direitos Humanos

Atividade proposta pelo Intervozes acontece no dia 28/1, e pretende fomentar a discussão sobre as possibilidades de ação frente à reação dos setores conservadores

No mês de janeiro, provocada pelas declarações de alguns ministros do governo Lula, a imprensa brasileira iniciou uma série de ataques à terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3). O alvo  eram as diretrizes e metas relacionadas à saúde da mulher, à reforma agrária, ao direito às informações ocultas da ditadura militar e ao direito à comunicação. Apesar do PNDH3 reproduzir o que consta nos programas anteriores (assinados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso), responder à Constituição Federal e aos pactos internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário, o tratamento dado ao tema pelos jornais, rádios e programas de TV brasileiros buscou vender a ideia de que a democracia está em risco no país.

Nova onda de ataques orquestrados foi dirigida à Conferência Nacional de Cultura (CNC), cuja etapa nacional acontecerá em março deste ano. Tal qual reagiram à Conferência Nacional de Comunicação, os veículos de imprensa questionaram o texto base da CNC que cita a necessidade de se debater e transformar alguns aspectos da comunicação brasileira como a concentração de mídia, a regionalização da produção e o fortalecimento do sistema público de comunicação. Assuntos presentes na Constituição de forma bastante clara são entendidos pelos grandes grupos comerciais de mídia como “ameaça à liberdade de expressão”.

Entidades de defesa dos direitos humanos, movimentos sociais e setores do governo têm buscado debater como se portar frente a essa ofensiva que reúne setores conservadores da igreja, parte das forças armadas e grandes meios de comunicação. Com esta atividade, o Intervozes pretende fomentar a discussão sobre as possibilidades de ação frente a essa reação conservadora, especialmente em relação às formas de desobstruir o debate e garantir a liberdade de expressão, o direito à informação e o direito à comunicação para todos e todas.

Debate: “A grande mídia afinada: os ataques ao PNDH-3 e às Conferências Nacionais de Cultura e de Comunicação”
Convidados/as: entidades de defesa de direitos humanos, movimento de comunicação, representantes do governo federal
Data: 28/01, quinta-feira
Horário: 11h às 13h
Local: Associação Riograndense de Imprensa
Avenida Borges de Medeiros, 915b, 7º andar, Porto Alegre
Ramênia Vieira
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
http://www.intervozes.org.br/
http://www.direitoacomunicacao.org.br/

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O macaco não soube esconder o rabo

 

Fábio Konder Comparato

Há algo surpreendente (para dizer o mínimo), com todo esse estardalhaço a respeito do III Programa Nacional de Direitos Humanos, que o governo Lula acaba de apresentar. Quase todos os pontos acerbamente criticados por militares, latifundiários e donos de empresas de comunicação, já constavam dos dois programas anteriores, elaborados e aprovados pelos sucessivos governos de Fernando Henrique Cardoso.

E mais: nos dois programas precedentes, vários desses pontos polêmicos continham propostas mais fortes e abrangentes do que as constantes do atual programa. Ora, os programas de Direitos Humanos aprovados pelo então presidente Fernando Henrique, em 1996 e 2002, passaram praticamente despercebidos na imprensa, no rádio e na televisão.

Como explicar, então, toda a bulha suscitada pelo programa do governo Lula, com conflitos públicos entre ministros e acusações de desestabilização da ordem constitucional vigente, para desembocar no vergonhoso acordo negociado entre o presidente e a oposição?

Não é preciso ter o olfato aguçado, para sentir em tudo isso o fedor eleitoral. Afinal, já entramos, neste ano da graça de 2010, no único período ativo da classe política.

Mas façamos as comparações acima enunciadas.

Conflitos no campo e reforma agrária

O programa Lula não contém nenhuma proposta de mudança legislativa e, menos ainda, constitucional, a esse respeito. Limita-se a falar em fortalecimento da reforma agrária, e em atualização dos índices de utilização da terra e de eficiência na exploração. Tais índices foram fixados em 1975, e até hoje, apesar dos sucessivos protestos dos movimentos de reforma agrária, continuam os mesmos. São eles que comprovam o fato de uma propriedade rural ser improdutiva, requisito constitucional para a sua expropriação. Ora, os grandes empresários rurais – perdão! os "agricultores", como diz o ministro Stephanes – não cessam de alardear o fato de que a agricultura capitalista aumentou brutalmente a produtividade das terras.

O primeiro programa do governo Fernando Henrique, em 1996, continha a proposta de um projeto de lei, que tornasse obrigatória a presença no local do juiz ou do representante do Ministério Público, quando do cumprimento de mandados judiciais de manutenção ou reintegração de posse de terras, que implicassem a expulsão coletiva dos seus ocupantes. Ninguém ignora que, no cumprimento desses mandados judiciais, a ação da Polícia Militar costuma provocar mortes e lesões corporais graves.

No mesmo programa de 1996, lê-se a seguinte proposta:

"Apoiar proposições legislativas que objetivem dinamizar os processos de expropriação para fins de reforma agrária, assegurando-se, para prevenir violências, mais cautela na concessão de liminares".

Em 2002, sempre no governo Fernando Henrique, o II Programa de Direitos Humanos sugere apoiar "a aprovação de projeto de lei que propõe que a concessão de medida liminar de reintegração de posse seja condicionada à comprovação da função social da propriedade, tornando obrigatória a intervenção do Ministério Público em todas as fases processuais de litígios envolvendo a posse da terra urbana e rural".

Pergunta-se: onde estava então a União Democrática Ruralista (não se perca pelo nome), que não foi às ruas denunciar a subversão comunista contida nessas proposições?

Meios de comunicação de massa

Nessa matéria, a "audaciosa" proposta do programa Lula, que suscitou a indignação dos donos de jornais, rádios e televisões, foi a regulamentação do art. 221 da Constituição, o qual até hoje, transcorridos 21 anos de sua promulgação, permanece letra morta.

E o que propuseram os programas de Fernando Henrique sobre o assunto? A mesma coisa, mas com um importante acréscimo:

"Garantir a imparcialidade, o contraditório e direito de resposta na veiculação de informações, de modo a assegurar a todos os cidadãos o direito de informar e ser informado".

Hoje, em razão de lamentável decisão do Supremo Tribunal Federal, não existe mais lei de imprensa no Brasil. Que eu saiba, somos o único país do mundo com esse vácuo legislativo.

Ora, sem regulamentação por lei do direito de resposta nos meios de comunicação de massa, o cidadão fica inteiramente submetido ao arbítrio deles.

Revogação da lei de anistia?

O ministro da Defesa, acolitado pelos chefes das três armas militares, rasgou as vestes e pôs cinza na cabeça, ao ler a seguinte proposta do atual programa de Direitos Humanos:

"Criar Grupo de Trabalho para acompanhar, discutir e articular, com o Congresso Nacional, iniciativas de legislação propondo: revogação de leis remanescentes do período 1964-1985, que sejam contrárias à garantia dos Direitos Humanos ou tenham dado sustentação a graves violações."

"Aí está", esbravejou o ministro, "querem revogar a lei de anistia!"

Pelo visto, os assessores do ministro imaginam que quem é suposto conhecedor de estratégia militar é também entendido em estratégia política. Erro funesto. Ao imaginar que a citada proposta do III Programa de Direitos Humanos tem em mira a lei de anistia de 1979, a corporação militar tirou a máscara. Ela reconheceu que esse diploma legal viola os direitos humanos, e que essa violação só pode consistir no fato de a indigitada lei haver anistiado os agentes públicos, militares e policiais, que mataram, estupraram e torturaram opositores ao nefasto regime político de 1964 a 1985.

Tranquilizem-se, porém, o ministro e os chefes militares. O que o Conselho Federal da OAB propôs no Supremo Tribunal, por meio da arguição de descumprimento de preceito fundamental nº 153, não foi a revogação da lei de anistia. Aliás, em um Estado de Direito o Poder Judiciário não tem poderes para revogar leis. Objeto daquela ação é a declaração judicial de que a Lei nº 6.683, de 1979, não anistiou os autores de crimes de sangue e de violência contra opositores políticos, durante o regime militar.

É só isso. Mas isso, uma vez admitido, será a condenação definitiva da "ditabranda", tão louvada por um jornal de São Paulo.

A Comissão de Verdade

É realmente inacreditável que essa proposta do III Programa de Direitos Humanos tenha provocado tanto escarcéu, pois nesse ponto pode-se dizer que a montanha pariu um camundongo.

A criação de uma comissão de alto nível, com a participação da sociedade civil, destinada a apurar as atrocidades cometidas durante duas décadas neste país, sob a responsabilidade final dos dirigentes militares, foi discutida durante anos em congressos, seminários e mesas redondas, em todo o território nacional. A Secretaria Nacional de Direitos Humanos, afinal, fixou-se na sugestão de criar tal comissão por decreto presidencial. Mas o presidente da República, como era esperado, voltou atrás na última hora e preferiu enviar o assunto às calendas gregas; isto é, ao Congresso Nacional.

Não se esqueça que estamos em ano eleitoral, e que um eventual projeto de lei, nesse sentido, jamais será votado até o encerramento da vigente legislatura, em dezembro de 2010.

Como se vê, não é preciso ter muita habilidade para capturar o ratinho, que saiu cambaleante do ventre da montanha.

Finalmente, voltando de férias, o presidente da República decidiu negociar um acordo com os críticos do III Programa de Direitos Humanos. O Programa já não é por ele aprovado, mas simplesmente "tornado público". Além disso, o presidente recomendou que os pontos polêmicos, notadamente a Comissão de Verdade, sejam abrandados.

Como se vê, de ambos os lados o macaco não soube esconder o rabo. As classes dominantes demonstraram que sua maior arma política é a dominação empresarial dos meios de comunicação de massa. Uma democracia autêntica só pode existir quando as diferentes camadas do povo têm liberdade de se comunicar entre si. Entre nós, porém, os canais públicos de comunicação foram apropriados pela classe empresarial, em seu próprio benefício, deixando o povo completamente à margem.

O presidente da República, por sua vez, seguindo seus hábitos consolidados, resolveu abafar as disputas e negociar um acordo. Esqueceu-se, porém, que nenhum acordo político decente pode ser feito à custa da dignidade da pessoa humana.

Fonte: Observatório da Imprensa - http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/index.asp

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Conciliar Plano de Direitos Humanos com o interesse das Forças Armadas é “inaceitável”

Gabriel Brito é jornalista.

Escrito por Gabriel Brito, da Redação

Correio da Cidadania

200110_nelson_jobim Em extensa entrevista ao Correio, o jornalista e ex-militante da Ala Vermelha Alípio Freire aponta o ministro da defesa como nefasto defensor do interesse em tapar a história. A respeito do PNDH 3, diz ser importante instrumento de aprofundamento da democracia, não apenas no que se refere a jogar luzes sobre o passado, mas também no que concerne às atuais lutas por um Brasil igualitário. E sobre a tentativa de se obstruir o debate completo, assinala que todas as entidades envolvidas estão apoiando, primeiro, a existência do plano, para depois tratarem de discuti-lo com a sociedade. Como exemplo, a própria igreja, contrária ao aborto, mas a favor da instauração completa do PNDH 3.

Lançado nos estertores de 2009, o 3º. Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) ganhou corpo no debate público apenas no início deste ano. Atacado pela mídia grande por todos os lados, o ponto nevrálgico do plano indiscutivelmente foi a idéia de se criar uma ‘Comissão da Verdade’ a fim de investigar e elucidar os crimes cometidos por agentes da ditadura que transcorreu de 1964 a 1985.

Em extensa entrevista ao Correio da Cidadania, o jornalista e ex-militante da Ala Vermelha Alípio Freire aponta Nelson Jobim, ministro da Defesa, como nefasto defensor dos interesses em tapar a história por parte das Forças Armadas. Além de lembrar de suas articulações para ocupar o atual cargo, lembra que o Jobim, antes de tudo, é um fraudador da Constituição, que, nas discussões do plano, atropelou os três poderes da república, o que culminou na retirada do termo ‘repressão política’ do texto do plano.

A respeito do PNDH 3, diz ser um importante instrumento de aprofundamento da democracia nacional, não apenas no que se refere a jogar luzes sobre o passado, mas também no que concerne às atuais lutas por um Brasil igualitário. E sobre a tentativa de se obstruir o debate completo, assinala que todas as entidades envolvidas estão apoiando, primeiro, a existência do plano, para depois tratarem de discuti-lo com a sociedade. Como exemplo, Alípio fala da própria igreja católica, contrária ao aborto, mas a favor da instauração completa do PNDH 3.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: O que o senhor pensa do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, anunciado pelo governo no final de 2009?

Alípio Freire: Em primeiro lugar, acho muito bom, com muitas coisas que há tempos são reivindicadas por parcelas de nossa sociedade. Este plano é mais completo que os dois anteriores, pois busca contemplar também direitos e necessidades econômicas e sociais. Portanto, vejo um grande avanço.

Pela forma como é conduzido o processo, com os representantes de diversos setores da sociedade civil, dos direitos humanos, mulheres, negros, homossexuais, movimentos organizados dos trabalhadores, será fantástico se conseguirmos aprová-lo.

Mas tem um capítulo, que gerou a crise criada pelo senhor Jobim, que é a questão do julgamento e responsabilização de torturadores da ditadura. Esse é o grande mote da atitude do Jobim no final do ano passado.

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"Diário Oficial" publica decreto que altera plano de direitos humanos

 

O "Diário Oficial" da União publicou em sua edição desta quinta-feira (14/01) o decreto que altera o texto sobre a proposta de criação da Comissão da Verdade no Plano de Direitos Humanos. A mudança mais significativa do novo texto é a retirada da expressão "repressão política".

Leia a íntegra do Decreto em:
http://media.folha.uol.com.br/brasil/2010/01/14/decreto-comissao_da_verdade.pdf
O novo texto também acrescenta que a comissão deve examinar as violações de direitos humanos "a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional".
O período a ser investigado fixado pelo texto vai além do regime militar (1964-1985). Pela nova proposta, a comissão deve examinar o período estabelecido na anistia dada pelo artigo 8 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que vai de 18 de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988, quando a Constituição foi promulgada.
O texto publicado no "Diário Oficial" traz apenas as assinaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos ministros Nelson Jobim (Defesa) e Dilma Rousseff (Casa Civil) e do secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Teles Ferreira Barreto. A mudança foi decidida em reunião ontem na qual também estava presente o ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos).
O decreto cria um grupo de trabalho ministerial que irá elaborar, até abril de 2010, o anteprojeto de lei da comissão da verdade. O presidente Lula decidiu alterar o texto depois que foi pressionado por Nelson Jobim e pelos comandantes militares.
Para os militares, o decreto original criava uma comissão unilateral, para investigar só um dos lados, deixando de fora a apuração de crimes da esquerda armada.
A comissão terá como atividade "o esclarecimento circunstanciado de torturas, mortes e desaparecimentos". Ela também deverá "identificar, e tornar públicas as estruturas utilizadas para a prática de violações de direitos humanos, suas ramificações nos diversos aparelhos de Estado, e em outras instâncias da sociedade".
O grupo de trabalho será formado por representantes da Casa Civil, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e sociedade civil. (Folha Online)

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NOTA PÚBLICA: PNDH 3 É AVANÇO NA LUTA POR DIREITOS HUMANOS

 

O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), rede que reúne cerca de 400 organizações de direitos humanos de todo o Brasil manifesta publicamente seu REPÚDIO às muitas inverdades e posições contrárias ao Programa Nacional de Direitos Humano (PNDH 3) e seu APOIO ao PNDH 3 lançado pelo governo federal no dia 21 de dezembro de 2009.


O MNDH entende que o Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH 3) dá um passo à frente no sentido de o Estado brasileiro assumir direitos humanos em sua universalidade, interdependência e indivisibilidade como política pública; expressa avanços na efetivação dos compromissos constitucionais e internacionais com direitos humanos e resultou de amplo debate na sociedade e no governo. As reações ao PNDH estão cheias de motivações conservadoras e mostram que vários setores da sociedade brasileira ainda se recusam a tomar os direitos humanos como compromissos efetivos tanto do Estado, quanto da sociedade e de cada pessoa. É falso o antagonismo que se tenta propor ao dizer que o Programa atenta contra direitos fundamentais, visto que o que propõe tem guarida constitucional, além de se constituir no que é básico para uma democracia moderna e que quer a vida como um valor social e político para todas as pessoas, até porque, a dignidade da pessoa humana é um dos princípios fundamentais de nossa Constituição e a promoção de uma sociedade livre, justa e solidária são objetivos de nossa Carta Política.
Há setores que estranham que o Programa seja tão abrangente, trate de temas tão diversos. Ignoram que desde há muito, ao menos desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, direitos humanos é muito mais do que direitos civis e políticos.

Vários Tratados, Pactos e Convenções internacionais articulam o que é hoje conhecido como o direito internacional dos direitos humanos, que protege direitos de várias dimensões: civis, políticos, econômicos, sociais, culturais, ambientais, de solidariedade, dos povos, entre outras. Desconhecem também que o Brasil, por ter ratificado a maior parte destes instrumentos, é obrigado a cumpri-los, inclusive por força constitucional, e que está sob avaliação dos organismos internacionais da ONU e da OEA que, por reiteradas vezes, através de seus órgãos especializados, emitem recomendações para o Estado brasileiro, entre as quais, as mais recentes são de maio de 2009 e foram emitidas pelo Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU. Aliás, não é novidade esta ampliação, visto que o Programa Nacional de Direitos Humanos 2 (PNDH II, 2002) já previa inclusive vários dos temas que agora são reeditados e a primeira versão do PNDH (1996) foi criticada e revisada exatamente por não contemplar a amplitude e complexidade que o tema dos direitos humanos exige. Por isso, além de conhecimento, um pouco de memória histórica é necessária a quem pretende informar de forma consistente à sociedade.

Em várias das manifestações e inclusive das abordagens publicadas há claro desconhecimento do que significa falar de direitos humanos. Talvez por isso é que entre as recomendações dos organismos internacionais está a necessidade de o Brasil investir em programas de educação em direitos humanos para que o conhecimento sobre eles seja ampliado pelos vários agentes sociais. Um dos temas que é abordado no PNDH 3 e que poderia merecer mais especial atenção.
O PNDH 3 resulta de amplo debate na sociedade brasileira e no governo. Fatos atestam isso! Durante o ano de 2008 foram realizadas 27 conferências estaduais que foram coroadas pela realização da 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, em dezembro. Durante o ano de 2009, um grupo de trabalho coordenado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos procurou traduzir as propostas aprovadas pela Conferência no texto do PNDH 3. O MNDH e suas entidades filiadas, além de outras centenas de organizações, participaram ativamente deste processo. Outros seis meses, desde julho, o texto preliminar está disponível na internet para consulta e opinião. Internamente no governo, o fato de ter sido assinado pela maioria dos Ministérios – inclusive o Ministério da Agricultura – é expressão inequívoca do debate e da construção. É claro que, salvas as consultas, o texto publicado expressa a posição que foi pactuada pelo governo. Nem tudo o que está no PNDH 3 é o que as exigências mais avançadas da agenda popular de luta por direitos humanos esperam. Contém, sim, propostas polêmicas e, em alguns casos, não bem formuladas. Todavia, considerando que é um documento programático, ou seja, que expressa a vontade de realizar ações em várias dimensões, tem força de orientação da atuação, nos limites constitucionais e da lei, mesmo quando propõe a necessidade de revisão ou de alterações de algumas legislações. Aliás, é prerrogativa da sociedade e do poder público propor ações e modificações tanto de ordem programática quanto legal. Por isso, não deveria ser estranho que contenha propostas de modificação de algumas legislações. Assim que, alegar desconhecimento do texto ou mesmo que não foi discutido é uma postura que ignora o processo realizado. É diferente dizer que se têm divergências em relação a um ou outro ponto do texto do que dizer que o texto não foi discutido ou que não esteve disponível para conhecimento público.
O MNDH entende que as reações publicadas pela imprensa, vindas, em sua maioria de setores conservadores da sociedade, devem ser tomadas como expressão de que o PNDH 3 tocou em temas fundamentais e substantivos que fazem com que caia a máscara anti-democrática destes setores. Estas posições põem em evidência para toda a sociedade as posturas refratárias aos direitos humanos, ainda lamentavelmente tão disseminadas e que se manifestam no racismo que discrimina negros, ciganos, indígenas e outros grupos sociais, no machismo que mantém a violência contra a mulher, no patriarcalismo que violenta crianças e adolescentes, no patrimonialismo que quer o Estado a serviço de interesses e setores privados, no revanchismo de setores militares que insistem em ocultar a verdade sobre o período da ditadura militar e em inviabilizar a memória como bem público e direito individual e coletivo, na permanência da tortura mesmo que condenada pela lei, na impunidade que livra “colarinhos brancos” e condena “ladrões de margarina”, no apego à propriedade privada sem que seja cumprida a exigência constitucional de cumpra a função social, na falta de abertura para a liberdade e a diversidade religiosa que impede o cumprimento do preceito constitucional da laicidade do Estado, no elitismo que se traduz na persistência da desigualdade como uma das piores do mundo, enfim, na criminalização da juventude e da pobreza e na desmoralização e criminalização de movimentos sociais e de defensores de direitos humanos.
O MNDH também repudia a tentativa de politização eleitoral do PNDH 3. O Programa pretende ser uma política pública de Estado e não de candidato; não pertence a um partido, mas à sociedade brasileira e, portanto, não cabe torná-lo instrumento de posicionamentos maniqueístas. Não faz qualquer sentido pretender que o PNDH tenha pretensões eleitorais ou mesmo que pretenda orientar o próximo governo. Quem dera que direitos humanos tivessem chegado a tamanha importância política e fossem capazes de efetivamente ser o  centro dos compromisso de qualquer candidato e de qualquer governo.
Assim, o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), reitera sua manifestação, publicada em nota no último 31/12/2009, na qual disse que “cobra uma posição do governo brasileiro que seja coerente com os compromissos constitucionais e com os compromissos internacionais com a promoção e proteção dos direitos humanos. O momento é decisivo para que o país avance para uma institucionalidade democrática que efetivamente reconheça e torne os direitos humanos conteúdo substantivo da vida cotidiana de cada um/a dos/as brasileiros e brasileiras”. Manifesta seu APOIO ao PNDH 3. Entende que o debate democrático é sempre o melhor remédio para que a sociedade possa produzir posicionamentos que sejam sempre mais coerentes e consistentes com os direitos humanos. REJEITA posições e atitudes oportunistas que, desde seu descompromisso histórico com os direitos humanos, tentam inviabilizar avanços concretos na agenda que quer a realização dos direitos humanos na vida de todas e de cada uma das brasileiras e dos brasileiros.
O MNDH também manifesta seu apoio ao ministro Paulo Vannuchi e entende que sua permanência à frente da SEDH neste momento só contribui para reforçar que o PNDH 3 veio para valer. Entende também que se alguém tem que sair do governo são aqueles ministros – entre eles Jobim e Stephanes – ou quaisquer outros prepostos que, de forma oportunista e anti-democrática vêm contribuindo para gerar as reações negativas e conservadoras ao que está proposto no PNDH 3, inclusive contribuindo para enfraquecer a posição do governo e do presidente Lula que, corajosamente e sabedor do conteúdo, assinou o PNDH 3 e o lançou com tão amplo apoio e adesão de vários ministérios do governo federal, manifestação inequívoca de que o PNDH 3  tem apoio da maioria do governo e que não serão uns poucos ministros que o derrubarão.
Em suma, como organização da sociedade civil, o MNDH está atento e envidará todos os esforços para que as conquistas democráticas avancem sem qualquer passo atrás.
Brasília, 11 de janeiro de 2010. Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH)
(Enviado por Marcelo Zelic)

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Crise Militar é artificial, segundo ex-preso político

Clique aqui para ouvir (1′54′’ / 447 Kb) - A revogação da Lei da Anistia, supostamente aprovada pelo Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), fez com que a grande mídia brasileira anunciasse uma crise entre os militares do país. A terceira edição do PNDH, entretanto, não trata da revogação da lei. A falta de leitura do plano provocou um alvoroço. O próprio ministro da Defesa, Nelson Jobim, chegou a enviar uma carta ao presidente Lula pedindo sua demissão. A situação foi contornada pelo presidente que garantiu não revogar a lei.
A Lei da Anistia foi aprovada em 1979 e beneficiou tanto os presos políticos da ditadura militar, quanto os militares que reprimiram violentamente seus opositores.
Para apurar os fatos ocorridos na época, a terceira edição do PNDH prevê a constituição de uma Comissão Nacional de Verdade e Justiça, que ainda deve ser aprovada pelo Congresso Nacional, conforme explica Maurice Politi, diretor do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo.
“O que se colocou foi que iria ser constituída uma comissão formada por representantes do ministério da Justiça e da Defesa, que iriam elaborar um Projeto de Lei (PL) a ser enviado ao Parlamento. Esse PL visaria a constituição de uma comissão para apurar a repressão do Estado brasileiro durante os anos de 1964 a 1985. Tudo isso que ouve foi um grande “auê” da imprensa e dos meios militares que se anteciparam aos fatos sem terem lido o plano.”
Para Politi, a grande imprensa cumpriu um papel de desinformação nesse caso. Ele também destaca que quem prendeu, torturou e matou os que combateram a ditadura deve pagar pelos crimes que cometeu.
De São Paulo, da Radioagência NP, Aline Scarso.
08/01/09

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As ideias demoníacas dos direitos humanos

Por Marcelo Salles, 08.01.2010

Fazendo Media

Poucas vezes uma iniciativa foi tão atacada pela direita e suas corporações de mídia quanto o Programa Nacional de Direitos Humanos. Mas não sem razão. Uma proposta como, por exemplo, a cobrança de impostos sobre grandes fortunas é realmente de arrepiar os cabelos de quem sempre os deitou sobre a riqueza nacional – ainda que esta medida esteja prevista na Constituição Federal e seja adotada pelos países que mais progrediram no mundo.

Propor um maior controle sobre a esculhambação e as mutretas que envolvem as concessões de rádio e tv só pode ser um escândalo para aqueles que fazem fortuna ao se arvorarem proprietários do espectro eletromagnético que pertence a todo o povo brasileiro.

Fiscalizar os latifúndios num país em que 1% de senhores feudais controla quase metade das terras só pode ser comparado à criação de um “demônio”, no dizer da senadora Kátia Abreu, do DEM, partido que tem suas raízes na golpista UDN.

Deve mesmo ser demoníaca a ideia de garantir direitos aos gays, lésbicas, travestis e toda essa gente que ofende pelo único pecado de ser diferente. Assim como só pode ser obra do capeta a proposta de ampliar a participação direta do povo via plebiscitos, referendos, leis e vetos populares. Por que as massas deveriam decidir diretamente os seus destinos, se sempre, desde o genocídio inaugural, são vistas como mão-de-obra barata e mal qualificada?

Poucas vezes na história desse país uma iniciativa de um governo foi tão bombardeada pela mídia, tanto em intensidade quanto na sua duração. Há pelo menos 15 dias rádios, jornais e tvs de todo o país partem para o ataque escancarado daqueles que defendem uma proposta democrática para o Brasil.

Para isso, omitem informações, descontextualizam fatos e até mesmo mentem. Um bom exemplo é a surrada versão de que o que se pretende com a Comissão da Verdade é rever a Lei de Anistia. Mentira. O que existe é uma solicitação da OAB ao Supremo Tribunal Federal sobre dispositivos de interpretação contraditória. A Constituição Federal, por exemplo, considera que a prática da tortura não pode ser objeto de graça ou anistia. Tratados internacionais estabelecem que crimes de lesa-humanidade, como a tortura, são imprescritíveis. Comissões de Verdade funcionaram ou funcionam muito bem em outros países, e isto é sistematicamente escondido por meios de comunicação.

Mas não é só isso. O fato de a Secretaria de Direitos Humanos só aparecer nas corporações de mídia nesse contexto é, por si só, bastante revelador dos propósitos das corporações de mídia. É como se não houvesse políticas públicas de defesa dos direitos das crianças e adolescentes, de pessoas com deficiência, idosos, LGBT, além dos programas de proteção a pessoas ameaçadas, combate ao trabalho escravo e até uma Ouvidoria-geral da cidadania.  Iniciativas que poderiam ser potencializadas pela visibilidade que lhe negam.

E assim funciona a velha lógica do sistema: os ataques da direita identificam os demônios para que sejam esconjurados por sua mídia. Mas até que isso tem sua serventia. Revela a urgência da democratização dos meios de comunicação de massa e deixa os inimigos da democracia completamente expostos – todos com cara de santo, naturalmente

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Entidades protocolam na Presidência carta de apoio ao Plano de Direitos Humanos

 

Entidades de direitos humanos protocolaram na tarde de quinta-feira (14/01) no escritório da Presidência da República, em São Paulo, uma carta de apoio ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado pelo governo em dezembro de 2009.
Cartazes com fotos de mortos e desaparecidos durante o regime militar (1964-1985) foram levantados pelos manifestantes em frente à representação da Presidência. Faixas pela liberdade de expressão e contra a violência às mulheres também foram estampadas. Os militantes pediram a saída do ministro Nelson Jobim (Defesa).
"Entendemos que esse programa, aprovado durante a 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, constitui importante passo para o Estado assumir plenamente a bandeira dos direitos humanos como política pública", diz trecho do documento assinado por grupos como Anistia Nunca Mais, Associação Juízes para a Democracia e Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
A carta destaca que o programa "coloca o dedo na ferida" de questões como a propriedade privada. As entidades ainda manifestaram apoio ao ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos).
"Essa reação contrária só demonstra a intransigência de certos grupos em debater o tema. É esse o problema, alguns grupos não querem nem ao menos abrir a possibilidade de que esses assuntos sejam abertamente discutidos pela sociedade brasileira", afirmou o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, José Augusto Camargo. (Agência Brasil)

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