Arquivo de Entrevistas

“Um governo do PSOL buscaria implementar todas as resoluções da Confecom”

Por: Observatório do direito à comunicação

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O Brasil vive, no campo da Comunicação, um atraso histórico – o Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962; nosso arcabouço regulatório para o setor não alcança os desafios dos modelos e práticas de comunicação social que emergem a partir da intensificação do uso da Internet e da convergência dos meios; a sociedade brasileira até hoje espera pela regulamentação do capítulo “Da Comunicação Social” da Constituição Federal e as práticas monopólicas se intensificam, na falta de marcos legais e compromissos políticos que assegurem a Comunicação como um direito e seus meios como bens públicos comuns. No que diz respeito à Internet, o país tem um significativo hiato a enfrentar, especialmente em relação à universalização da banda larga e à adoção de políticas que fomentem a apropriação das tecnologias digitais de informação e comunicação pelo cidadão e pela cidadã para o exercício de direitos e em prol do desenvolvimento humano e social.
Apesar de algumas conquistas recentes – como a realização, em 2009, da 1a. Conferência Nacional de Comunicação -, no campo da Comunicação o Brasil ainda está muito longe da realidade de um Estado capaz de garantir direitos fundamentais e privilegiar o interesse público. Diante deste cenário, consideramos essencial compreender se há compromisso político dos candidatos à Presidência da República com relação ao direito à Comunicação – e se há, em que extensão -, como elemento indispensável para o aprofundamento da democracia no país. Por isso, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, através do Observatório do Direito à Comunicação, e o Instituto Nupef, através da revista poliTICs, realizam esta série de entrevistas com os/as candidatos/as à presidência. O mesmo conjunto de questões foi enviado a todos/as as coordenações de campanha, na mesma data. A ordem da publicação das entrevistas respeita a ordem de chegada das respostas às nossas redações.
Em dezembro de 2009, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação contou com a participação de empresários, sociedade civil e governo e aprovou mais de 600 resoluções. Em julho de 2010, o governo federal criou um GT Interministerial para propor uma revisão do marco regulatório das comunicações. O/A candidato/a pretende dar prosseguimento à revisão do marco regulatório e como seriam incorporadas, neste processo, as resoluções da Confecom?

Plínio de Arruda Sampaio - Primeiramente é importante observar que o grupo de trabalho interministerial foi criado, passados seis meses da realização da 1ª Conferência de Comunicação, num período em que o atual governo já está legalmente impedido de implementar qualquer proposta que daí se consolide. Essa é a melhor tática para descomprometer o Executivo com as resoluções aprovadas pela sociedade civil, porque fica tudo para o próximo governo. Um eventual governo do PSOL buscaria implementar todas as resoluções da Conferência, especialmente aquelas que dizem respeito ao controle social, com a criação do Conselho Nacional de Comunicação com participação majoritária da sociedade civil, e a regulamentação dos artigos 220, 221 e 223 da Constituição Federal para coibir os abusos das empresas de comunicação e impedir a continuidade do monopólio midiático que existe no país.
O/A candidato/a se compromete com a criação de um Conselho Nacional de Comunicação, órgão participativo que garanta o exercício do controle social da comunicação no Brasil deliberando sobre políticas públicas do setor e acompanhando as atividades na área da comunicação, conforme resolução da Conferência Nacional de Comunicação?
PAS -
Sim, como já respondido anteriormente, essa seria uma das prioridades de um governo do PSOL, para, com a participação popular efetiva, o governo ter força para implementar as demais medidas reivindicadas pela população.
Tendo como base os parâmetros da liberdade de expressão, a Organização dos Estados Americanos (OEA) recomenda ao Brasil a revisão da legislação no que se refere à punição penal aos comunicadores comunitários. O candidato pretende seguir esta orientação internacional? Qual sua posição sobre a anistia para os condenados por crime de radiodifusão não autorizada?
PAS -
A criminalização das rádios comunitárias é um instrumento dos grandes monopólios de mídia para manter o poder concentrado. O PSOL defende o fim da criminalização das rádios comunitárias não apenas porque esta é uma recomendação da OEA, mas porque todos devem ter o direito de comunicar. Os condenados por ter uma rádio não autorizada e que transmitem efetivamente conteúdo comunitário, sem atuar como testa de ferro de políticos, serão anistiados porque essa condenação é na verdade uma perseguição política. Os pedidos de autorização ficam anos parados no Ministério enquanto políticos e igrejas ganham concessões uma atrás da outra.

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“No governo do PCB, privatizações do setor de telecomunicações seriam revistas”

Postado: Observatório do direito à Comunicação

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O Brasil vive, no campo da comunicação, um atraso histórico: o Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962; nosso arcabouço regulatório para o setor não alcança os desafios dos modelos e práticas de comunicação social que emergem a partir da intensificação do uso da Internet e da convergência dos meios; a sociedade brasileira até hoje espera pela regulamentação do capítulo “Da Comunicação Social” da Constituição Federal e as práticas monopólicas se intensificam, na falta de marcos legais e compromissos políticos que assegurem a comunicação como um direito e seus meios, como bens públicos comuns. No que diz respeito à Internet, o país tem um significativo hiato a enfrentar, especialmente em relação à universalização da banda larga e à adoção de políticas que fomentem a apropriação das tecnologias digitais de informação e comunicação pelo cidadão e pela cidadã para o exercício de direitos e em prol do desenvolvimento humano e social.
Apesar de algumas conquistas recentes – como a realização, em 2009, da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) –, o Brasil ainda está muito longe da realidade de um Estado capaz de garantir direitos fundamentais e privilegiar o interesse público no campo da comunicação. Diante deste cenário, consideramos essencial compreender se há compromisso político dos candidatos à Presidência da República com relação ao direito à comunicação – e se há, em quê extensão – como elemento indispensável para o aprofundamento da democracia no país. Por isso, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, através do Observatório do Direito à Comunicação, e o Instituto Nupef, através da revista poliTICs, realizam esta série de entrevistas com os/as candidatos/as à presidência.
O mesmo conjunto de questões foi enviado a todos/as as coordenações de campanha, na mesma data. A ordem da publicação das entrevistas respeita a ordem de chegada das respostas às nossas redações.
Veja as respostas enviadas pelo candidato do PCB, Ivan Pinheiro:
Confecom e Marco Regulatório
Em dezembro de 2009, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação contou com a participação de empresários, sociedade civil e governo e aprovou mais de 600 resoluções. Em julho de 2010, o governo federal criou um GT Interministerial para propor uma revisão do marco regulatório das comunicações. O/A candidato/a pretende dar prosseguimento à revisão do marco regulatório e como seriam incorporadas, neste processo, as resoluções da Confecom?
Ivan Pinheiro –
Nosso governo não cederia à gritaria de empresários, como ocorreu. Não faríamos concessões, não colocaríamos a grande maioria das 600 resoluções em "letra morta", mera conversa para boi dormir. A revisão do marco regulatório seria fato, não debate ou discurso pra enganar ou acalmar setores inocentes dos movimentos sociais. faríamos uma nova conferência, sem a participação do setor empresarial, e levaríamos as resoluções à cabo. Simples assim.Isso é poder popular, isso é democracia como a entendemos.
Conselho Nacional de Comunicação e controle social
O/A candidato/a se compromete com a criação de um Conselho Nacional de Comunicação, órgão participativo que garanta o exercício do controle social da comunicação no Brasil deliberando sobre políticas públicas do setor e acompanhando as atividades na área da comunicação, conforme resolução da Conferência Nacional de Comunicação?
I.P. -
Assino um documento com esses princípios na hora que me apresentarem, sem o subterfúgio covarde de criar GTs interministeriais para deixar a discussão morrer com o tempo…

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Candidato à presidência pelo PSTU critica desigualdade na campanha

Para Zé Maria, os gastos financiados pela iniciativa privada e a divisão desigual do tempo na televisão e rádio já define que são os candidatos.

Postado: No Minuto

Por Marília Rocha

Foto: Elpídio Júnior

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Zé Maria, presidente do PSTU.

 

files_46173_20100705115001f919 A capital do Rio Grande do Norte, Natal, recebeu nesta quarta-feira (4) o candidato à Presidência da República pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), Zé Maria. Ele concedeu entrevista ao Nominuto.com em que respondeu sobre eleições, educação, saúde e segurança. Sobre o processo eleitoral, Zé Maria criticou a forma com que os candidatos movimentam a campanha, com mais tempo na televisão e gasto de milhões.
Para ele, nem os eleitores conseguem conhecer todos os candidatos já que o tempo da televisão é pequeno para os partidos menores e o gasto na campanha supera as cifras dos milhões. “Se você somar a incidência do poder privado na campanha com a desigualdade do tempo dos candidatos na televisão, você vai ver que esses dois fatores decidem de antemão qual candidato pode ganhar as eleições e qual não pode. Esse é um fator que a metade da população vai achar que só existem três candidatos (Serra, Dilma e Marina) quando na verdade são nove”, destaca o candidato Zé Maria.
Num eventual segundo turno para as eleições nacionais, Zé Maria não respondeu qual dos candidatos o partido poderia apoiar, mas deixou claro que o candidato tem que concordar com as mudanças propostas pelo PSTU.
Leia a entrevista na íntegra:
Nominuto - A declaração de gastos de milhões na campanha dos candidatos José Serra (PSDB), Marina Silva (PV) e Dilma Rousseff (PT) é desproporcional ao gasto dos pequenos partidos, como o PSTU. Além disso, o tempo de televisão deles é bem maior do que o tempo dos partidos pequenos, como é senhor avalia essa situação?
Zé Maria – É grave, na verdade se pode dizer qualquer coisa do sistema eleitoral brasileiro, menos que é democrático, que é livre. Se você somar a incidência do poder privado na campanha com a desigualdade do tempo dos candidatos na televisão, você vai ver que esses dois fatores decidem de antemão qual candidato pode ganhar as eleições e qual não pode. Esse é um fator que a metade da população vai achar que só existem três candidatos (Serra, Dilma e Marina) quando na verdade são nove. Porque isso. Na verdade, o financiamento da campanha será feito assim: Serra vai gastar R$ 180 milhões, Marina vai gastar R$ 90 milhões e Dilma R$ 157 milhões e os vamos gastar R$ 300 mil das doações feitas pelos militantes. Agora, eles vão ter “rabo preso” com os financiadores e nós, não.
O financiamento privado de campanha tem que ser abolido, porque quando eles vencerem as eleições, vão governar para quem. Para o povo ou para os bancos que os colocaram lá. A corrupção da política brasileira é por isso, a relação promiscua que tem as autoridades do país com a iniciativa privada. Esses milhões que estão sendo investidos nas campanhas dos candidatos serão devolvidos depois e multiplicados, em obras superfaturadas, favorecendo a política econômica para os bancos, como tem ocorrido atualmente, infelizmente. A solução é que ocorra um financiamento público, com poucos recursos (em até 10% do valor do salário) para que as pessoas façam a campanha com poucos recursos, porque o Brasil tem muito no que corrigir.
Nós acreditamos que o tempo na televisão também deve ser dividido de forma mais igualitárias, se nos somos nove candidatos e são trinta minutos em cada bloco, porque não da trinta minutos para cada um. Para que o eleitor saiba o que pensa cada um dos candidatos e possa escolher o que mais lhe agrada, escolhendo o voto. Hoje o povo brasileiro, não tem condições de saber o que pensa cada candidato. A questão da mídia e das pesquisas, que só citam os candidatos de maior expressão, nos noticias e debates, a população passa a conhecer apenas os mais conhecidos gerando uma deformação no resultado do processo.

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Oliver Stone: A América Latina quer falar a uma só voz

O novo documentário de Oliver Stone, “A sul da fronteira”, narra o aparecimento de uma série de governos progressistas na América Latina, a sua busca de transformação social e política no continente e a crescente independência de Washington.

imagemcapa Embora não se possa meter tudo no mesmo saco, como Oliver Stone faz com a promoção dos governos Kirchner a progressistas, quer o filme “A Sul da Fronteira” quer esta entrevista são contributos para romper o cerco da central de desinformação comandada por Washington. Além de Stone, Tariq Ali, co-roteirista do documentário, também é ouvido na entrevista. Confira.
Roberto Navarrete:
Você fez três filmes sobre a América Latina, dois deles sobre Fidel. O que o levou a fazer este novo documentário sobre a América Latina?
Oliver Stone:  Não te esqueças, além disso, de “Salvador” em 1986. Foi sobre El Salvador, na América Central, uma tragédia. De forma que voltei. Gosto da América Latina, vejo a América do Sul como o setor socialmente mais débil nesta situação.
Como cineasta, tendo a fazer filmes sobre as pessoas que não recebem tratamento justo. Creio que o que se está a passar está mal. Conheci Chávez em 2007, depois voltei em 2008 e ele disse-me: “não fique só com a minha versão, vá falar com os meus vizinhos”. Fiz isso com uma pequena equipe, e estivemos com sete presidentes em seis países.
Perguntava-me: porquê tanta confusão? Porque fazemos tanto barulho com o Chávez? Algo cheira mal em tudo isto. Quando os Estados Unidos mostram tanto zelo por destruir alguém, como já sucedeu várias vezes na América do Sul e na América Central, é evidente que há uma motivação. Estamos à procura dessa motivação.
Roberto Navarrete: Os principais meios de comunicação dos EUA foram bastante críticos com o seu filme. Isso o surpreendeu?
Oliver Stone:
Não, estou surpreendido por termos sido capazes de chegar onde chegamos. Conseguimos a distribuição em salas de cinema e depois se verá se na televisão. As pessoas vão ver o filme. Haverá sarilho em perspectiva, porque quando o New York Times diz “não vejam este filme” está fazendo lobby contra ele.
Tariq Ali: Isso pode ter também um efeito contrário. Muita gente vai dizer: “Pela forma como estão a falar, quer dizer que há aqui algo de interessante”. Anima as pessoas a irem ver.
Roberto Navarrete: É mais preocupante quando a opinião de meios considerados liberais, como o “Village Voice”, foi tão negativa.
Oliver Stone: O “Village Voice” esteve durante anos a fazer isso. Para mim, não é uma organização liberal, mas pseudo-liberal. Pode-se discutir bastante sobre o que é ser liberal ou progressista nos Estados Unidos.
Roberto Navarrete: É como o “The Guardian” aqui em relação à Venezuela?
Tariq Ali: O correspondente do “The Guardian” na Venezuela vive num bairro residencial a leste de Caracas e os seus relatórios sobre a vida na Venezuela são totalmente enviesados.
Roberto Navarrete: Você parece fascinado pelo carisma dos caudilhos da América Latina, como Fidel Castro e Hugo Chávez. Mas a América Latina é também o berço de grandes movimentos sociais que durante muito tempo têm lutado pela mudança. Como vê a relação entre os dois, por um lado os dirigentes e por outro lado os movimentos sociais?
Tariq Ali:  Estes líderes não estariam no poder se não fosse pelos movimentos sociais. Existe um vínculo entre os dois. Os movimentos sociais na Bolívia ajudaram a criar o Movimento para o Socialismo, partido de Evo Morales que o catapultou para o poder.
Os grandes movimentos sociais contra o FMI na Venezuela, que levaram ao massacre do “Caracazo” em que três mil pessoas morreram, deram origem a Chávez. Os mesmos movimentos se produziram no Equador e no Paraguai. Por isso, não vejo uma grande divisão. Cada um depende do outro.
Essa brecha existe em grande parte no Ocidente, onde os movimentos sociais se extinguiram por não terem sido capazes de lograr fosse o que fosse. Os movimentos sociais já quase não existem na Europa Ocidental. Em países como a Itália, que teve enormes movimentos sociais, já desapareceu tudo. Na América do Sul, uma das razões porque perduraram é porque conseguiram algo, não uma grande mudança, mas algumas reformas estruturais no sistema.
Oliver Stone: Acrescentaria o seguinte: não só gosto dos caudilhos ou homens fortes, que não são o mesmo que ditadores, já que no caso de Chávez ele foi evidentemente eleito, como admiro muito Néstor Kirchner, um intelectual com vontade de fazer alguma coisa, porque os intelectuais tendem a perder a sua força de vontade.
Kirchner foi suficientemente forte para levar a cabo uma reforma baseada no seu próprio pensamento sobre a reforma econômica. É para mim um brilhante exemplo de herói. Ele mesmo o disse no documentário: “O meu amigo Hugo deve pensar num sucessor”, porque quando tudo assenta num só homem, pode chegar a ter um efeito contra-producente e creio que este é o problema que Hugo vai enfrentar no futuro. Aparece demais nas notícias. É demasiado controverso. Então, centram a discussão em Hugo Chávez, em vez de fazerem uma discussão sobre as posições de direita e de esquerda na América Latina.
Roberto Navarrete: No teu filme, também há uma entrevista com Lula, que não tem a mesma política de esquerda que os outros, mas que em termos de política internacional, integração da América Latina, é muito importante. Pareceria que algumas pessoas de esquerda tendem a perder de vista o panorama geral sobre para onde vão as coisas no continente.
Oliver Stone:
  Sim, é por isso que os incito e digo às pessoas: pensem no contexto geral. Alguns perdem-se nas miudezas e acabam comendo-se uns aos outros.
Roberto Navarrete: Por que você acredita que uma pessoa como Chávez tem tão má imagem nos Estados Unidos, enquanto presidentes como Uribe, supostamente envolvido em problemas de paramilitarismo, relacionado com o tráfico de drogas na Colômbia e em violações dos direitos humanos numa escala sem precedentes na América Latina, é apresentado com uma boa imagem na imprensa?
Tariq Ali: Isso deve-se a que a Colômbia e Uribe são aliados dos Estados Unidos, trabalham com eles, participaram em ações iniciadas pelos Estados Unidos na região e isso sempre foi assim. Sempre foi assim no passado. Por que derrubaram Allende? Por que apoiaram Pinochet? Essa mesma política, hoje de maneira diferente, continua no entanto em curso.
Odeiam Chávez, não apenas porque os ataca frontalmente, mas também além disso por ser o presidente eleito do país com as maiores reservas de petróleo do continente, significando o petróleo muito para eles. Como muitos dos jornalistas dizem, se Chávez estivesse no Paraguai, não o odiariam tanto. Mas a razão porque o odeiam é por estar utilizando o petróleo e contra eles e por estar a dar acesso ao petróleo a outras repúblicas bolivarianas.
Os cubanos conseguiram aguentar-se fazendo um intercâmbio de petróleo por médicos. Odeiam-no porque quebrou o isolamento dos cubanos e permitiu que se ajudem uns aos outros, porque agora a América Latina quer falar a uma só voz. É isso que este filme mostra, isso não tinha sucedido nunca antes. Pela primeira vez, os líderes que não estavam de acordo uns com os outros uniram-se e disseram aos Estados Unidos: basta, já chega e não recuamos.
* Roberto Navarrete é editor de www.alborada.net, sitsite sobre política, meios de comunicação e cultura na América Latina.
Fonte: odiario.info

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O rio Xingu, uma das pérolas do planeta, com Belo Monte, está perdido. Entrevista especial com Oswaldo Sevá

1282163134_7169F "Os indígenas sabem que se a usina hidrelétrica de Belo Monte for construído, o rio Xingu acabará, porque o governo vai fazer as outras quatro obras que está escondendo", observa o engenheiro.
Confira a entrevista.

Uma semana em Altamira-PA nessa época do ano pode render dois pontos de vista. Como é o período de seca, que o povo chama de verão, as famílias sobem o rio Xingu procurando as praias que surgem com o rio mais baixo, acampam, comemoram as férias. Se vê uma cidade mais descansada e vazia, quase sem preocupações. Dois outdoors à beira do Xingu anunciam que ali será construída uma das maiores hidrelétricas do mundo, Belo Monte. Se andar pela cidade, também será possível ver pichações contra a obra e, então, pode-se perceber que todo esse clima tropical vai acabar e que há medo de que isso realmente aconteça. A IHU On-Line entrevistou, via Skype, o professor Oswaldo Sevá que, recentemente, passou alguns dias na cidade paraense. “Pela primeira vez, fui para Altamira por minha conta e sem ter ligação com qualquer evento público que estivesse acontecendo lá nessa época. Fui como um cidadão qualquer durante o período de recesso escolar. Aproveitei para conhecer melhor a região”, explica.
Enquanto Sevá conta o que viu, é possível criar a imagem de um monstro destruindo o pouco que o povo da região tem. “Depois de Belo Monte, a água ficará parada e maior parte das praias ficarão abaixo da linha d’água. Claro que podem ser construídas praias artificiais, mas a navegação será diferente, a água tenderá a ficar muito suja na região de Altamira, porque infelizmente a cidade não tem nenhum tipo de tratamento de esgoto, em alguns locais nem o lixo é coletado”, descreveu.
Oswaldo Sevá é graduado em Engenharia Mecânica de Produção pela Universidade de São Paulo. É mestre em Engenharia de Produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, e doutor pela Université de Paris I. Organizou três livros: Tenotã-Mõ. Alertas sobre as consequências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu (São Paulo: International rivers Network, 2005); Riscos Técnicos coletivos ambientais na região de Campinas, SP (Campinas, SP: NEPAM – Unicamp, 1997); e Risco Ambiental – Roteiro para avaliação das condições de vida e de trabalho em três regiões : ABC/SP, Belo Horizonte e Vale do Aço/MG, Recôncavo Baiano/BA (São Paulo: INSTY – Instituto Nacional de Saúde no Trabalho/CUT, 1992).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O senhor esteve recentemente em Altamira. Que novidades pode nos contar sobre a influência do projeto da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte na região?
Oswaldo Sevá – Pela primeira vez, fui para Altamira por minha conta e sem ter ligação com qualquer evento

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Oswaldo Sevá explica os impactos de Belo Monte

público que estivesse acontecendo lá nessa época. Fui como um cidadão qualquer durante o período de recesso escolar. Aproveitei para conhecer melhor a região. Passei uma semana lá durante um período que é muito importante para o povo do Pará. Eles chamam essa época de verão porque é quando os rios começam a baixar e quase todo mundo sai em férias e vai para o litoral. É bem parecido com os nossos meses de janeiro e fevereiro, as praias ficam cheiíssimas, os hotéis lotados em regiões turísticas.
Mas Altamira não é uma região turística. O período é de férias também. A cidade estava com um movimento bem abaixo do normal, justamente porque tem muita gente viajando. Do ponto de vista do rio, vemos que ele está mais baixo, começam a aparecer praias, ilhas e pedrais. Em muitos locais do Xingu, o leito não é de barro, como estamos acostumados, é totalmente coberto de lajes de pedras. Nos finais de semana, principalmente em outubro, as pessoas saem da cidade de carro ou motocicleta ou voadeira, que é uma lanchinha com motorzinho, e atravessam o rio, sobem por 15, 20, 30 minutos rio acima onde há quiosques e campings. Famílias inteiras vão acampar, levam as crianças, a barraca, a churrasqueira. Parece que não há qualquer problema na região.
Brinquei com alguns amigos, antes de viajar, que estava indo aproveitar o rio Xingu antes que o destruíssem. De fato, se a obra for feita, toda a paisagem de Altamira mudará, assim como a relação das pessoas com o rio. Depois de Belo Monte, a água ficará parada e maior parte das praias ficarão abaixo da linha d’água. Claro que podem ser construídas praias artificiais, mas a navegação será diferente; a água tenderá a ficar muito suja na região de Altamira, porque infelizmente a cidade não tem nenhum tipo de tratamento de esgoto. Em alguns locais não é nem coletado o lixo. Se a represa for feita, a cidade será muito prejudicada, será uma espécie de Veneza equatorial. Uma parte de Altamira ficará de frente para o rio e a outra para vários arroios com água parada, recebendo toda a carga de esgoto, erosão e assoreamento das estradas e dos desmatamentos.
Contei tudo isso para que os leitores percebam que a transformação de um trecho de rio natural em represas altera definitivamente a história da cidade e das pessoas deste local. E isso representa uma perda muito grande de um potencial turístico, paisagístico, dos recursos pesqueiros e da alimentação do povo. Não que nas represas não existam peixes, mas restringe as espécies, apenas uma ou duas espécies se proliferam, e isso tem fortes consequências econômicas que já são sentidas pelo povo.
Uma das atividades mais importantes que os pobres fazem na beira do rio é capturar um peixinho, do tipo cascudo, porém muito colorido, às vezes é prateado, dourado, listrado. É um peixe ornamental e que era exportado por preços caríssimos para outros países da América do Norte, Japão, Europa. A represa extinguirá essa prática porque esse tipo de peixe vive nos pedrais, em profundidades relativamente pequenas. O ambiente na cidade é muito estranho, você pode passar uma semana lá e não notar que existe uma expectativa muito grande a respeito da possibilidade de algum dia acontecer uma obra gigantesca. Há um outdoor lá da época em que o Lula fez uma visita; há também um outro outdoor dos comerciantes da cidade dizendo que atribuíram a ordem do mérito ao Lula. Porém, não há nada que diga exatamente o que é ou faça referência a Belo Monte.
Em compensação, tive a satisfação de ver pichado nos muros da cidade algumas frases contra a obra, como: “Fora Belo Monte”, “Belo Monstro”. E até uma coisa que me deixou muito emocionado na parede do Hospital Regional de Altamira, que é uma das maiores construções da cidade: uma garotada que é contra a obra escreveu “Belo Monte de mentiras”, que é exatamente o título de um artigo que eu publiquei na internet e foi muito divulgado no ano passado. A gente sente que tem uma circulação imobiliária muito grande, muitas pessoas acham que vão enriquecer com o movimento da cidade. Há muitas construções novas, foi aberto mais um hotel na cidade. Há uma expectativa muito grande por parte da classe dominante local que são latifundiários, políticos ligados a todos os partidos nessas alturas, porque todos os partidos de esquerda, com exceção do PSOL, apóiam a obra e estão apostando que vão ficar ricos, que tudo vai melhorar para o lado deles.
Já a resistência está muito dividida. O governo tem feito muita pressão, assédio. Ouvimos histórias de grupos que, historicamente, eram contrários à obra e hoje em dia estão quietos ou passaram ostensivamente para o outro lado. Até os povos indígenas que vivem mais próximos da cidade estão divididos. Se você quiser ficar uma semana em Altamira e não querer tomar conhecimento do projeto Belo Monte você consegue, mas se quiser ir para lá e sondar direito o que está acontecendo, apurar, investigar, conversar com as pessoas certas para ter uma ideia, você traz uma ótima reportagem.

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Sumak Kawsay: uma forma alternativa de resistência e mobilização

 

Sumak Kawsay: uma forma alternativa de resistência e mobilização. Entrevista especial com Pablo Dávalos Para o economista equatoriano e ex-vice-ministro de Economia do Equador, as formas ancestrais de convivência indígenas são formas políticas de resistência ao capitalismo e à modernidade e alternativas para o sistema capitalista. Confira a entrevista.

pabloDavalos Não apenas um modo de vida pueril e harmônica entre o ser humano e a natureza: a ética indígena do Bem Viver, na opinião do economista equatoriano Pablo Dávalos, é alternativa ao modo capitalista de produção, distribuição e consumo. É, acima de tudo, parte do “discurso das resistências e das mobilizações”.

Por isso, o Bem Viver é “uma forma diferente de relação entre a sociedade e a natureza, e a sociedade e suas diferenças”, na qual “a individualidade egoísta deve se submeter a um princípio de responsabilidade social e compromisso ético”, afirma. Nesse contexto, a natureza é reconhecida como parte fundamental da socialidade humana.

Para Dávalos, que foi vice-ministro de Economia do Equador, um dos desafios é trazer o Bem Viver para o debate acadêmico e social, que ainda não incorporou esse conceito ético. Mas houve avanços, como a inclusão da plurinacionalidade do Estado e do Sumak Kawsay no texto constitucional do seu país natal. Nesse sentido, afirma, “o Sumak Kawsay é a proposta para que a sociedade possa recuperar as condições de sua própria produção e reprodução material e espiritual”, ou seja, “uma nova visão da natureza, sem ignorar os avanços tecnológicos nem os avanços em produtividade, mas sim projetando-os no interior de um novo contrato com a natureza como parte de sua própria dinâmica, como fundamento e condição de possibilidade de sua existência no futuro”. Ele concedeu a entrevista à IHU On-Line por email.

Pablo Dávalos é economista equatoriano e professor da Pontificia Universidad Católica del Equador. Foi vice-ministro de Economia do Equador. Hoje é coordenador do grupo de trabalho Movimentos Indígenas na América Latina do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais – CLACSO e professor titular da Cátedra Florestan Fernandes: Povos Indígenas, Globalização e Estado Plurinacional, do CLACSO. É membro da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador – Conaie e edita as publicações do Instituto Científico de Culturas Indígenas – ICCI.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os aspectos centrais da concepção indígena do Sumak Kawsay (quéchua equatoriano) ou Suma Qamaña (aimará boliviano)?

Pablo Dávalos – A noção de Sumak Kawsay (ou Suma Qamaña, em aimará), faz parte do discurso político dos movimentos indígenas do continente e, como tal, faz parte de seu projeto histórico e político. Essa noção foi recriada a partir de uma confirmação das vivências ancestrais dos povos indígenas e de sua forma de construir sua socialidade e sua relação com a natureza. Na recuperação de suas formas ancestrais de convivência, os povos indígenas encontraram, de um lado, as formas políticas de resistência ao capitalismo e à modernidade e, de outro, as alternativas para esse mesmo sistema capitalista.

Os movimentos indígenas têm sido considerados, na academia ocidental e moderna, como parte dos novos movimentos sociais, com uma agenda nova e suscetível de ampliar o horizonte dos direitos humanos para os direitos de terceira geração. No entanto, essa definição de movimentos sociais oculta o sentido histórico de suas demandas e os converte em mais um momento do liberalismo. Com efeito, a partir do discurso liberal, gerou-se a noção do multiculturalismo para processar as demandas indígenas como propostas particulares, que, em geral, legitimam o sistema capitalista e o projeto da modernidade ocidental. Para se diferenciar da etnofagia do multiculturalismo, os movimentos indígenas propuseram uma forma diferente de contratualidade e de socialidade. Essa demanda pela abertura da contratualidade liberal para que possa albergar em seu interior as diferenças radicais que atravessam e constituem as sociedades se expressa em seu projeto de Estado Plurinacional.

No Estado Plurinacional, as demandas dos direitos coletivos mudam de perspectiva, porque o Estado deve se reconstruir de maneira tal que a contratualidade, que o constitui juridicamente, possa agora incorporar as diferenças radicais que o formam. Nesse sentido, no Estado Plurinacional os direitos coletivos perdem o sentido e a consistência que têm no discurso do liberalismo, porque abrem o discurso do direito a horizontes que não tinham sido considerados pela modernidade. Em outras palavras, os direitos coletivos não expressam o avanço do projeto político dos movimentos indígenas, mas sim a necessidade que o liberalismo tem de discipliná-los e integrá-los ao projeto capitalista, liberal e moderno.

O Sumak Kawsay e a plurinacionalidade do Estado

É a partir dessa perspectiva política e histórica que deve ser visualizada a noção do Sumak Kawsay. Essa noção só pode ter sentido no interior dessa demanda por Estado Plurinacional, ou seja, como uma contratualidade que incorpora as alteridades radicais e como parte das propostas de interculturalidade, na perspectiva de abrir a sociedade ao reconhecimento e ao diálogo das diferenças radicais que a atravessam e a formam. A partir de um estado plurinacional e de uma sociedade intercultural, pode-se compreender e se construir uma forma diferente de relação entre a sociedade e a natureza, e a sociedade e suas diferenças. Essa forma de relacionamento, que não tem nada a ver com os comportamentos de indivíduos egoístas que maximizam suas preferências, pode ser atribuída à noção de Sumak Kawsay.

Da mesma forma que o de Estado Plurinacional é a alternativa à contratualidade liberal do Estado moderno, e a interculturalidade é a condição de possibilidade para que a sociedade possa se reconhecer nas diferenças que a constituem, o Sumak Kawsay é a alternativa ao modo capitalista de produção, distribuição e consumo. É também uma alternativa para o mecanismo de regulamentação social, por meio dos mercados autorregulados, e é uma forma de devolver à sociedade o controle sobre a produção.

O Sumak Kawsay propõe, além disso, uma forma de relacionamento diferente entre os seres humanos, na qual a individualidade egoísta deve se submeter a um princípio de responsabilidade social e compromisso ético, e um relacionamento com a natureza no qual esta é reconhecida como uma parte fundamental da socialidade humana. Até agora, é o único discurso e prática coerente que pode deter os desvios predatórios e desumanos da acumulação capitalista, que, no ritmo em que avançam, convertem-se em uma ameaça à vida humana sobre o planeta.

IHU On-Line – O Bem Viver, recentemente, entrou no debate político sobre as Constituições do Equador e da Bolívia. O que significa o resgate dessa ideia no atual momento político e histórico da América Latina?

Pablo Dávalos – A pressão política dos movimentos indígenas, principalmente da região andina, conseguiu posicionar novos discursos que, lamentavelmente, ainda não foram recolhidos pela academia oficial, como no caso da plurinacionalidade do Estado e do Sumak Kawsay. Assim, por exemplo, nas faculdades de economia das universidades do Equador e da Bolívia, e em termos gerais, o pensamento vigente não incorporou as noções do Sumak Kawsay como parte do currículo e da formação acadêmica da economia nacional. Até centros universitários como a FLACSO [Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais] e a Universidade Andina, por exemplo, se converteram mais em espaços que replicam o colonialismo epistemológico do Norte, do que em centros que podem ajudar nos processos políticos de emancipação de seus próprios países.

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Entrevista: Chico Oliveira

Publicado em 09/05/2006 - Teoria e Debate

Chico de Oliveira O sociólogo Francisco de Oliveira, pernambucano do Recife, começou a se destacar ainda antes de 1964 quando, junto com Celso Furtado, trabalhava na Sudene. Depois do golpe, Chico passa um tempo no exterior, trabalhando para a Cepal no México e na Guatemala. Retornando ao Brasil em 1968, estabeleceu-se em São Paulo e a partir de 70 se engaja no Cebrap, organismo que naquela época era um centro aglutinador da intelectualidade de oposição ao regime militar. Lá permaneceu até 95, tendo inclusive exercido o cargo de presidente daquela instituição. Deu aula na PUC de 75 a 88, quando ingressa na USP, onde leciona até agora no departamento de sociologia. É autor de Crítica da Razão Dualista, A Economia da Dependência Imperfeita, A Falsificação da Ira, Elegia para uma Re(li)gião e O Elo Perdido. Destaca-se ainda o importante artigo "O surgimento do antivalor" publicado na revista Novos Estudos, do Cebrap.

por Fernando Haddad*

Sua formulação teórica mais importante é a idéia de que a partir dos anos 30 o capitalismo teria sofrido uma tal avalanche de transformações radicais que fizeram com que você, provocativamente, sugerisse que se tratava de um modo social-democrata de produção. Como seria esse modo de produção partindo da idéia, presente em seus textos, de antivalor?
O uso provocativo de modo de produção não tinha a pretensão de ser um conceito acabado, nem mesmo de ser fiel ao conceito de modo de produção. Era uma tentativa de provocar a discussão. Eu percebia algo de inédito no sistema capitalista, desde os anos, 30, que me levava a fazer a provocação. Toda a literatura marxista preocupou-se muito em estudar as transformações ocorridas do lado do capital. Ficaram muito conhecidas nos anos 60 as tentativas - que na verdade remontam há muito tempo antes - de medir as transformações no capital, de verificar empiricamente a famosa tendência à queda da taxa de lucro, de medir as proporções diferentes de capital constante e variável. Parecia-me que esse caminho era infrutífero porque esquecia uma noção essencial em Marx, a de que o capital é uma relação social. Então, fui ver o outro lado dessa relação social que era a mercadoria como conceito (trabalho). Dirigi meus esforços para o estudo da exploração da força de trabalho e descobri que, através de uma série de processos, havia mudado bastante o estatuto da força de trabalho nos países capitalistas líderes. Mudado-no sentido do que chamei de produção de antimercadorias, aquilo que os economistas chamam de salário indireto, composto geralmente de gastos sociais, que vão desde os elementares, como educação e saúde públicas, até os gastos com lazer, diversão, que com põem a cesta de consumo de qualquer trabalhador.

Como resultado de um conjunto de processos políticos, para os quais concorreu de maneira importante a intervenção da classe trabalhadora e dos partidos social-democratas e comunistas, constituiu-se, desde o fim do século passado, mas sobretudo a partir dos anos 30, um quadro daquilo que os liberais chamam de intervenção do Estado na economia, formando essa cesta de produtos, mercadorias e serviços. A isso, que mudou o estatuto da mercadoria força de trabalho, chamei de antivalor. É algo que, na verdade, funciona dentro do sistema capitalista mas negando-o e já anunciando um dos limites da forma mercadoria. Isso evidentemente é um fenômeno histórico e não tentei transformá-lo numa lei de desenvolvimento. Esse fenômeno dependia exatamente da formação dos partidos operários, dos seus sindicatos, das suas instituições e de uma certa reação da burguesia e do próprio sistema capitalista para evitar o seu colapso, adotando, na sua reprodução, uma forma de socialização do excedente que, por realizar-se mediada pelo fundo público (e não pelo mercado), eu chamei de antivalor.

Você sugere que nesse período houve um deslocamento da luta de classes do setor da produção para o setor público, no sentido de uma disputa em torno do destino do orçamento. Nesse sentido, o conceito de classe também sofre um deslocamento. Como você entende a Luta de classes nesse período e em que medida pode-se ainda falar em classes sociais no sentido marxista?
As classes sociais podem ser entendidas tais como Marx as pensou, sob a condição de que se faça uma pesquisa empírica que atualize seu estudo. Quando Marx trabalhou os conceitos à base evidentemente de sua experiência histórica - o que não quer dizer que o que Marx teoriza seja algo que se possa reduzir à pura experiência empírica, senão não teria ganho o estatuto e a força explicativa que ganhou -, a relação entre as classes tinha muito a aparência de um conflito privado. A partir dos anos 30, o conflito extrapola os marcos daquilo que se poderia dizer que ficava restrito ao espaço da esfera burguesa, segundo uma abordagem habermasiana ou mesmo weberiana. O próprio conflito interburguês assumiu proporções tais que acarretaram o seu deslocamento do terreno do privado para o público. Portanto, não é propriamente uma transformação das classes, mas um fenômeno devido ao próprio conflito entre elas. A crise de 30 foi a evidência mais eloqüente desse deslocamento do terreno do privado para o público. Naquele momento, a esfera do privado revelou-se insuficiente para de alguma maneira processar o conflito na sociedade burguesa.

É por isso que, de certa forma, as classes aparecem como se não tivessem recortes, como - o que a sociologia americana disse de forma fácil e banal - se o operariado americano fosse classe média, medido pelos índices de consumo. Na verdade, é possível continuar a pensar que o conceito de classe é válido, à condição de fazer esse novo percurso que tentei fazer.

Como a tecnologia entra nesse esquema? A ciência como fator de produção tem algum estatuto?
Tem um estatuto, mas não autônomo. Na verdade, beneficiei-me de uma reflexão do Luís Gonzaga Belluzo. Na sua tese, ele fez uma reflexão sobre a autonomização do capital constante. O que quer dizer isso? Segundo uma posição antiga e forte em Marx, a burguesia, tentando superar continuamente os limites da exploração da força de trabalho, usa a ciência e tecnologia para baratear o custo da sua reprodução. Contudo, a partir dos anos 30, tomando-se em conta os países líderes do sistema, onde havia uma relativa homogeneização da previdência social, de seguro social, de outros antivalores em geral, o que se viu foi que esse processo, com o fundo público, havia ganho outra forma, tinha passado a ser relativamente indiferenciado no sentido de que não era mais o custo da força de trabalho que provocava a reação dialética da ciência e tecnologia a serviço do capital. Isso deu lugar àquilo que Belluzo chama de autonomização do capital constante.

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Parteiras tradicionais: um retorno à valorização do parto natural. Entrevista com Paula Viana

IHU - Unisinos *

Adital -

Expectativa, medo, curiosidade, angústia, planejamentos… toda mulher grávida vive um misto de sentimentos na esperança de que seu bebê esteja e seja saudável, que seja uma pessoa boa, um ser humano de bom coração, que venha ao mundo de forma tranquila, sem sofrimento. Enquanto algumas mulheres, pensando na segurança do filho, escolhem o parto no hospital, algumas vezes através de cesárea, hoje muitas mães querem um parto mais humanizado e natural e algumas têm optado pelo acompanhamento das parteiras tradicionais. Aproveitando o Encontro Nacional Parteiras Tradicionais: Inclusão e melhoria da qualidade da assistência ao Parto Domiciliar no SUS, a IHU On-Line entrevistou, por telefone, a enfermeira e parteira Paula Viana. "Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: ‘qual é a diferença do meu atendimento para o seu?’. Desta forma, a parteira respondeu: ‘a diferença é que você tem pressa e eu não’", relatou.

Paula Viana é enfermeira-obstetra em Recife (PE), faz partos domiciliares e coordena o Grupo Curumim, uma organização não governamental feminista que desenvolve projetos de fortalecimento da cidadania das mulheres em todas as fases de suas vidas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que sentido a parteira é mais humana do que o médico em relação ao parto?

Paula Viana - A parteira representa o elo entre a comunidade e o Sistema Único de Saúde (SUS). Elas têm um trabalho de atenção integral à saúde da mulher e da criança, pois acompanham toda a gravidez, conhecem a vida das famílias, chamam-nas pelo nome e representam o mesmo nível social e econômico dos clientes, o que aproxima ainda mais a parteira da mãe. Isso é fundamental para o momento da gravidez, do parto e do pós-parto.
O parto não é só um evento médico, é um evento social e familiar que tem a mulher como protagonista. Então a parteira tem essa capacidade de interagir de forma mais humana, no sentido do pensamento mais holístico. Não que não haja médicos que façam assistência desse tipo. Porém há uma distância maior entre médicos e médicas e as mulheres das comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombo, floresta, onde estão as parteiras tradicionais. Elas têm muito o que ensinar para nós.
Uma vez, no interior do Amazonas, conversei com uma médica e uma parteira. E a médica perguntou: "qual é a diferença do meu atendimento para o seu?". Desta forma, a parteira respondeu: "a diferença é que você tem pressa e eu não". As parteiras não têm pressa mesmo, elas acompanham a mãe e isso torna o parto mais humano.

IHU On-Line - Você pode descrever o panorama geral da situação das parteiras tradicionais no mundo?

Paula Viana - Há um movimento internacional das parteiras, que reúne parteiras de vários países da América do Sul, do Canadá, do México, Europa. Esse movimento busca a valorização dessas trabalhadoras em saúde e também respeito às suas tradições. A tecnologia, quando entrou na sala de parto, veio para ajudar. Nós agradecemos porque existe a possibilidade da cesárea para que possamos salvar vidas. No entanto, essa tecnologia afastou a ideia do parto como um evento antropológico e social. A luta do movimento internacional é para que a parteira seja vista como uma aliada. Ela tem que ensinar ao sistema público de saúde, mas ela também tem que aprender.

IHU On-Line - Hoje, quando e como uma mulher se torna parteira?

Paula Viana - Existem alguns tipos de parteiras: tem a enfermeira-obstetra, que é uma parteira. Eu mesma sou uma enfermeira-obstetra, uma parteira domiciliar. Existe a parteira que faz um curso técnico de três anos que é treinada só para o parto normal e tem formações originais diferentes. Já a parteira tradicional é aquela formada pela experiência. Algumas dizem: "eu aprendi no susto". Aqui no encontro há 26 parteiras tradicionais e 34 enfermeiras e médicos. Essas 26 trazem relatos muito interessantes quanto a sua formação. Uma disse que começou aos 12 anos de idade. Ela foi chamada numa primeira ocasião, depois é chamada de novo e com isso vão pegando experiência. A teoria é importante, a parte tecnológica da obstetrícia é fundamental, mas o que conta mesmo é o conhecimento empírico. Um dos intuitos desse encontro é dizer o quanto é importante que essas parteiras tradicionais repassem seus conhecimentos às mais novas.

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‘Dilma, Serra e Marina pautam-se pelo abandono de um projeto de transformação social’

Escrito por Valéria Nader

18-Ago-2010 – pOSTADO CORREIO DA CIDADANIA

180810_ivanvalente O aproximar das eleições de 2010, bem longe de reforçar a empolgação característica de cenários pré-eleitorais, traz a cada dia a sensação de apatia política. Não somente por parte da população, já há alguns anos descrente das promessas vazias, e dos movimentos sociais, que vivem momento de notória desmobilização. Estamos também diante de uma acintosa homogeneização e desertificação de idéias, onde os candidatos fogem do enfrentamento político de modo assustador.

O quadro moldado a partir dessas características é aqui analisado pelo deputado federal pelo PSOL Ivan Valente, nosso entrevistado especial, a partir do desempenho das candidaturas presidenciais mais cotadas para o pleito de outubro – segundo o deputado, candidaturas que se pautaram pelo abandono de um projeto de transformações sociais mais profundas em nosso país. Marina Silva, que pretensamente se apresenta com ares de mudança, assentada na bandeira ambiental, não teria a menor condição de quebrar a polarização PT-PSDB. De acordo com Valente, além de não se ancorar no movimento social, propõe basicamente a mesma política.

A ausência de polarização entre os três principais candidatos, bem mais preocupados em assegurar o prosseguimento da ‘bonança’ iniciada com FHC e levada adiante por Lula, seguindo um nítido e uniforme script de marketing, é uma comprovação cabal das impressões do deputado Ivan Valente. Surfando no aparente êxito de nossa economia, onde o agronegócio conquista novos mercados, a estabilidade monetária se mantém e o Brasil se reafirma no cenário internacional, os candidatos se negam a fazer ‘Política’, um universo de controvérsias intrínsecas. Preocupam-se unicamente em reafirmar a continuidade do ‘êxito’. Esquecem-se do sofrimento da população carente nas filas dos hospitais públicos e em suas tentativas frustradas de matricularem seus filhos no ensino público de baixíssima qualidade.

Correio da Cidadania: Como você tem enxergado o cenário eleitoral neste momento, a dois meses das eleições, no que diz respeito ao posicionamento dos candidatos à frente nas pesquisas, Serra, Dilma e Marina?

Ivan Valente: As candidaturas do PT e do PSDB representam projetos que não têm diferenças essenciais no tocante à política econômica e à forma como sustentam a governabilidade, com alianças heterodoxas, pautadas pelo abandono de um projeto de transformação social mais profunda no nosso país.

Correio da Cidadania: Através do primeiro debate presidencial transmitido pela Band, não puderam, realmente, ser notadas diferenças substanciais nesses candidatos no que diz respeito a suas visões sobre as diferentes áreas de nossa economia e sociedade. Existiria, de todo modo, a seu ver, algum diferencial mais importante de algum deles relativamente aos demais? Marina, por exemplo, voltada ao Meio Ambiente, e desertora do governo Lula, seria este diferencial?

Ivan Valente: Há diferenças entre PT e PSDB, particularmente na política internacional e em algumas políticas compensatórias. A opção Marina Silva não consegue ser alternativa porque não se propõe, não tem condições, nem movimento social por trás para polarizar esta disputa. Marina não tem condições de quebrar a polarização entre PT e PSDB. Ela diz ser alternativa, mas, na essência, sua política é a mesma. Já o PSOL, apesar de ser um partido em construção, tem uma proposta alternativa de transformação social, baseada num programa capaz de empolgar grandes setores da população, trabalhando com ética na política e acreditando na força dos movimentos sociais e da participação popular. Temos demonstrado isso na prática, com nosso programa, conduta e esforço organizativo.

Correio da Cidadania: A mobilização popular, através dos diferentes movimentos sociais, e também o interesse demonstrado pela população em geral são dois termômetros importantes para se aferir o grau de envolvimento da cidadania em uma eleição. Como percebe estes fatores nessa eleição? Apresentam algum diferencial positivo relativamente às eleições passadas?

Ivan Valente: Nas ruas de São Paulo, a eleição ainda está fria. São pouquíssimos os candidatos que saem a público dispostos a dialogar com a população. Nas periferias, por outro lado, vemos máquinas eleitorais de campanhas milionárias operando a todo vapor. Mas isso não gera envolvimento nem interesse da população pelo processo eleitoral. Como uma parte dos movimentos sociais apóia a continuidade do governo Lula, representada na candidatura de Dilma, que tem crescido nas pesquisas, a mobilização desses movimentos também não é significativa.

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Stedile aposta em retorno da juventude às ruas

 

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(6′50′’ / 1.57 Mb) - A taxa mundial de desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingiu o maior índice desde o ano de 1991. Um relatório apresentado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), nesta quinta-feira (12), revela que no final de 2009 mais de 80 milhões de pessoas nessa faixa etária estavam fora do mercado de trabalho.

Além do desemprego, outro perigo ronda a juventude. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, estima que ocorram 69 homicídios para cada 100 mil jovens na América Latina e no Caribe. Um dos maiores índices do mundo.

Neste mês, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizará uma jornada de lutas da juventude. Um dos principais pontos da pauta é falta de escola e oportunidades de trabalho para os mais de 500 mil jovens que vivem nas áreas de reforma agrária.

Em entrevista à Radioagência NP, o integrante da coordenação nacional do MST, João Pedro Stedile, analisa a situação em que vivem os jovens do campo da cidade. Ele afirma que essa parcela da população pode ter papel decisivo no processo eleitoral, além de possuir as condições necessárias para cobrar mudanças estruturais no modelo econômico.

Radioagência NP: Em 2008 o Encontro Nacional da Juventude do Campo e da Cidade reuniu, no Rio de Janeiro, 1.2 mil jovens de 20 estados. Qual a importância dessa aproximação?

João Pedro Stedile: Sempre nos preocupamos em desenvolver atividades que envolvessem uma articulação entre as várias formas de expressão e organização da juventude da cidade com o campo. E aquele encontro foi um marco porque conseguimos, pela primeira vez, unir as duas características. Sua composição era de jovens trabalhadores que têm atuação na vida social. Foi importante porque criou raízes que se desdobraram em outras iniciativas.

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Sócrates, revolucionário da bola, fala ao Unificados: Sou socialista!

Postado: Químicos Unificados

São Paulo, SP, 16.04.1984 - Campanha pelas Eleições Diretas 1984 (Diretas-Já): da esq. para a dir., o jogador Vladimir, do Corinthians, o ator Kito Junqueira, a atriz Tânia Alves, o jogador Sócrates, do Corinthians, o jornalista Juca Kfouri, diretor da revista Placar, Adilson Monteiro Alves, diretor do Corinthians, e o locutor Osmar Santos se reúnem pelas diretas-já, em São Paulo (SP); ao fundo, placar traz a posição do Legislativo. Partindo da Praça da Sé, a caminhada pela restauração das eleições diretas para a Presidência da República seguiu pelo centro da cidade em direção ao Vale do Anhangabaú, onde houve um comício. (Foto: José Nascimento/Folhapress)

Sócrates (ao centro) em ato pelas Diretas-Já!, em 1984

Sócrates, um dos líderes da democracia corinthiana fala ao Unificados: “Sou e morrerei socialista”

Aos dezessete anos de idade Sócrates vivia um dilema: continuar a jogar futebol nas categorias de base do Botafogo de Ribeirão Preto, então time da primeira divisão do futebol paulista, ou dedicar-se exclusivamente a recém iniciada faculdade de medicina.
Com dificuldade conciliou as duas atividades nos primeiros anos de estudo. Quando se tornou profissional passou a receber convites de diversos clubes grandes, mas afirmou só sair do Botafogo depois de formado. Assim, chegou ao Corinthians e ficou conhecido como Doutor Sócrates.
Um dos líderes da democracia corinthiana e jogador da seleção brasileira nas copas de 82 e 86, Sócrates é considerado um dos grandes jogadores da história do Brasil.
Homem de respostas curtas e claras, consciência política e posições fortes, o Doutor conversou com o Unificados sobre a democracia corinthiana, socialismo, e claro, a seleção do Dunga.

democracia corinthiana

Poster do documentário Democracia Corinthiana

ENTREVISTA
“Devemos lutar por democracia em qualquer estrutura social”
Unificados:  Você sempre fugiu do padrão comum do jogador de futebol, tem consciência política, foi um dos lideres da democracia corinthiana, como isso surgiu?
Sócrates: Sei lá. O diferente não sou eu. O problema é o sistema educacional brasileiro que não dá oportunidade a todos, muito menos aos jogadores de futebol.
Unificados: Você ainda se considera socialista? Como vê o socialismo hoje?
Sócrates: Sou e morrerei assim. O socialismo idealizado não tem hoje nem nunca, só sempre.
Unificados: Acha que um movimento semelhante à democracia corinthiana poderia acontecer em algum clube atualmente?
Sócrates: Eu acho que sim. E também acredito que devemos lutar por democracia em qualquer estrutura social, inclusive no futebol. Particularmente, sempre achei um absurdo viver em um regime de casta, isso vem da origem do meu pai.
Ele nasceu pobre, fodido e não tinha o que comer. Então esse sentimento sempre foi muito claro para mim, por que casta? Por que as pessoas são tratadas de forma diferente? Esse sentimento nasceu comigo e você vai elaborando com o tempo.
Mas isso é uma coisa interiorizada, tentar lutar contra isso depende das oportunidades que você tem na vida. E aconteceu no Corinthians em uma época de crise e só existe revolução em crise. Ou então em guerra.
Unificados: A democracia corinthiana teve algum efeito no comportamento dos jogadores dentro de campo? E como foi a recepção dos jogadores e dirigentes de outros times?
Sócrates: Quem se sente tratado como deve sempre reage positivamente. Foi isso que aconteceu. Todos nós reagimos positivamente, e a reação dos demais pouco importa.
Ali aconteceu uma revolução porque as pessoas queriam fazer revolução, estavam juntas em um momento propício para isso. Se fosse em outro momento talvez não acontecesse nada.
Unificados: Como o movimento acabou? Isso teve a ver com sua ida para a Itália?
Sócrates: Um movimento revolucionário só ocorre na sociedade que o quer. Quando inventamos ou estamos em outra sociedade, esta caminha de acordo com a maioria dos seus integrantes e interesses.
Eu saí, o Casão (Walter Casagrande, hoje comentarista na Globo) saiu, mais gente saiu e contrataram outros 10 caras, com outra cabeça. O momento mudou, acabou porque tinha que acabar.
Eu fui para a Itália por causa das Diretas Já. Fiquei frustrado com o resultado da votação no Congresso. Fui embora.
Unificados: Muito se falou das atitudes do Dunga nessa Copa do Mundo, o que achou do desempenho da seleção?
Sócrates: Compatível com o esperado. Os jogadores estavam quebrados. O Dunga não levou os principais talentos do Brasil, aquela seleção não era a representação do país.
Unificados: E de afirmações do Dunga, que falou que não poderia dizer se a escravidão tinha sido boa ou ruim, e nem a ditadura?
Sócrates: Um pouco de literatura não faz mal a ninguém, muito pelo contrario. Quem não lê e não quer saber como o homem se comportou em outros tempos é um absoluto alienado ou analfabeto.
Unificados: Esse ano temos eleições legislativas, como você vê o cenário político atual no Brasil?
Sócrates: O país está em evolução. Seja lá quem forem os políticos eleitos, que ninguém altere este cenário para pior. Para melhor, por favor!

SAO PAULO, SP, 1983 - Casagrande comemorando gol. (Foto: Luiz A. Novaes/Folhapress)

Dr. Sócrates "Magrão" comemora gol pelo Corinthians

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Licença-maternidade: um direito da mãe e do pai

Nesta entrevista concedida em julho de 2008 à Revista do Instituto Humanitas Unisinos, Eneida Dultra, assessora técnica do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) para as áreas de Trabalho e Previdência, fala das limitações da lei sancionada na segunda-feira (25/01/10) que amplia a licença-maternidade para 6 meses.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A lei que aumenta a licença-maternidade revela uma questão muito importante para as famílias brasileiras. No entanto, traz junto uma série de questões não resolvidas no que diz respeito à relação aos multipapéis que as mulheres têm que desempenhar. Qual é o perfil, em sua opinião, da mulher brasileira hoje?

Eneida Dultra – As obrigações de natureza doméstica, familiar e de cuidados com as pessoas ainda são diretamente associados ao feminino. Isso sobrecarrega as jornadas das mulheres e, somadas às outras expressões de “dúvidas” sobre sua competência para atuar nos espaços públicos, ainda dificultam o acesso às relações formais de trabalho. Ainda somos atingidas por maior índice de desemprego que os homens e com remuneração inferior, mesmo com a realização de igual trabalho. Os altos índices de informalidade e a desproteção social do trabalho revertem-se nas cruéis restrições de acesso à Previdência Social.

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Coletivo Lutarmada lança novo cd

Por Alexandre Braz, 27.07.2010

Postado: Fazendo Media

"Eu amo o Hip Hop, ele mudou a minha vida. Não só a minha, mas a de uma porrada de gente. Pra melhor, e, nos últimos tempos, pra pior", diz Gas-PA. Foto: Arquivo pessoal.

Gas-PA além de rapper é militante político, usa a arte para a conscientização em busca de uma sociedade mais justa. Por meio do Coletivo LUTARMADA desenvolve trabalhos de base com projetos políticos e cursos de formação na periferia do Rio de Janeiro, em paralelo à produção musical. Em entrevista ao Fazendo Media, ele fala sobre o seu mais novo CD, analisa as corporações de mídia e comenta sobre o hip hop brasileiro nos dias de hoje.

Quantos CDs O Levante já lançou?   As letras do disco são todas de sua autoria?

Dois CDs: O Temeremos mais a miséria do que a morte, e agora o Estado de direito. Estado de direira. No primeiro, tirando uma letra que tem coautoria do K-Lot (um MC da velha escola fluminense, que também acaba de lançar um CD), todas as outras são de minha autoria, e o Mimil só interpretava as músicas. Mas no Estado de direito. Estado de direita, não. Esse é até um papo que me emociona, pois me faz lembrar que há 4 anos eu fui lá na favela que ele mora e levei o primeiro livro. Depois ofereci outro. O terceiro eu já nem precisei levar. Mimil, que tinha uns 25 cm menos do que tem hoje, foi lá em casa buscar. Hoje, ele que no começo era apenas um fã, é autor de duas letras desse disco. Fiz uma parte da Meu estilo de vida, já a Combativo e internacionalista, foi o contrário. Ele apareceu com uma letra pronta, sem refrão. Daí eu fiz o refrão, botei mais meia dúzia de versos, e a música ficou daquele jeito. O nome disso é trabalho de base.

Queria que você falasse da escolha do nome do disco.

Estado de direito. Estado de direita, é por que sabemos que o Direito é só uma forma de legitimar a dominação, já que a propriedade privada dos meios de produção é assegurada no Estado burguês. E todos os outros “direitos” são apenas uma conseqüência desse,  por isso até que nós o conquistemos ele será de direita.

E as fotos da capa e contra-capa(uma foto histórica do Luiz Morier) do cd?

A capa é pra mostrar qual o direito que nós temos nesse Estado. Nela mostramos dois momentos de uma mesma instituição: no escravismo e no capitalismo. Antes, sob o nome de Capitão do Mato, ela caçava, prendia e matava pretos e pretas. Hoje, mais de um século de república, com o nome de polícia, ela caça, prende e mata pretos e pretas. E as duas fotos, mostrando pessoas pretas amarradas, umas às outras pelo pescoço, tanto no escravismo, quanto no capitalismo, é para mostrar o “quanto que esse país mudou”, de lá pra cá.

Você acha que a mídia contribui para a criminalização da pobreza no Rio?

Lógico. Fizemos dois eventos em uma casa noturna tradicionalmente roqueira, mas que nos abriu as portas. Demos o serviço para todos os jornais, e alguns divulgaram o nosso evento. Tentamos a mesma coisa quando fizemos o 1º Hip Hop ao Trabalho, que é nosso evento anual, nos 1º de Maio, em alguma das favelas de Costa Barros. Nenhum veículo divulgou.

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‘Um novo aeroporto em São Paulo significaria proximidade maior ainda com o caos’

Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito

29-Jul-2010 – Postado Correio da Cidadania

290710_aeroportos Com a era Lula chegando a seu fim, o Brasil se encontra próximo de voltar a discutir políticas para os mais estratégicos setores econômicos, que tendem a incluir fortes disputas, ao lado de acaloradas discussões de fundo ideológico. Os aeroportos, um dos maiores gargalos nacionais, não ficarão de fora das disputas, já que, desde que o interminável ‘caos aéreo’ entrou em nosso cotidiano, as urgências e interesses sobre eles tornaram-se igualmente enormes. Com a obrigação de se reestruturarem ao menos 12 deles (cidades sedes da Copa-14) mais prontamente, o debate pode tomar rumos desvirtuados, haja vista o já escancarado interesse do setor privado em tomar conta dos principais aeroportos e até da Infraero.

Para tratar de tema que desperta como poucos a sanha dos interesses econômicos, o Correio da Cidadania entrevistou Carlos Gilberto Camacho, diretor de vôo do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Na conversa, ele não poupa os ‘governos de plantão’ pelas políticas aplicadas à aviação nacional, sublinhando a descaracterização da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), mais uma entidade de representação social tragada pelos interesses e conluios privados.

Além de apontar o perigo das reformas bilionárias e apressadas para a Copa, Camacho pede para que se ‘repense o país’, revisando-se toda a organização de nossos modais e o duopólio vigente. Também ressalta ser insustentável a circulação de somente aeronaves de grande porte, destacando a importância de companhias regionais, com aviões de menor porte cobrindo trajetos complementares.

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José Luís Fiori: “Euro tem uma falha de nascimento”

Para o cientista político, moeda única com diferentes políticas monetárias é um dos estopins da crise

 

Renato Godoy de Toledo

da Redação Brasil de Fato

O cientista político José Luís Fiori, da UFRJ, afirma que as medidas que a União Europeia vem adotando contra a crise financeira que assola o continente têm o mesmo efeito de “jogar gasolina na fogueira”.

A crise no continente tem levado países a altos níveis de desemprego, como a Espanha, onde 20% da população economicamente ativa não têm uma ocupação. Em entrevista ao Brasil de Fato, Fiori comenta a situação atual do maior bloco de países do mundo e as origens históricas dos problemas apresentados. Confira entrevista abaixo.

Brasil de Fato - A previsão de que o dólar poderia vir a ser substituído gradativamente pelo euro nas reservas de países como a China, tende a cair por terra com o cenário econômico da UE?

José Luís Fiori - Acho que não há nem nunca houve esta possibilidade de substituição. Durante o período em que a “moeda internacional” teve uma base metálica, a libra e o dólar também tiveram uma restrição financeira intransponível, imposta pela necessidade de equilíbrio do balanço de pagamentos do país emissor da moeda de referência. Mas depois do fim do Sistema de Bretton Woods, em 1973, esta restrição desapareceu, com o novo sistema monetário internacional “dólar-flexível” que não tem nenhum tipo de padrão metálico de referência. Neste sentido, se pode dizer que houve uma nova “revolução financeira”- na década de 1980 -, que provocou uma espécie de retorno às origens da relação entre o poder, a moeda e o crédito.

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