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Marcha Mundial das Mulheres destaca os 100 anos do 8 de Março

Rogéria Araújo *

Adital -

Na próxima segunda-feira, países de todo o mundo celebrarão o centenário do 8 de Março - Dia Internacional das Mulheres. A data, que faz referência à luta de operárias mortas durante incêndio numa fábrica nos Estados Unidos, perpassa os dias atuais com reivindicações antigas e outras atuais. Procurando espaços para exercer políticas, cidadanias e direitos, organizações e entidades conseguem se fazer presente, mas a luta é árdua.

A ADITAL conversou com Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres, sobre os diversos aspectos que envolvem estes 100 anos do 8 de Março. Para este ano, a MMM convoca para a 3ª Ação Internacional, com debates e eventos em diversos países, tendo como eixo fundamental aprofundar as discussões em torno do direito das mulheres nas mais variadas esferas.

A atividade, na cidade brasileira de São Paulo, acontece na segunda (8), quando 3 mil mulheres de todas as regiões do país, farão uma caminhada percorrendo dez municípios do estado.

Mais informações sobre a programação em: www.sof.org.br/acao2010

Adital - Você acredita que há mais sensibilização para as questões de gênero?

Nalu Faria - Creio que essa sensibilização vem crescendo por vários motivos. Na América Latina e Caribe tivemos uma fortalecimento da visão crítica ao neoliberalismo e mesmo de uma visão anti-capitalista e isso melhora as condições para a luta feminista. Avaliamos que toda vez que há reforço do capitalismo reforça o machismo.

A existencia da MMM fortaleceu um campo popular do movimento de mulheres e uma de nossas estratégias de organização é construir alianças com os movimentos sociais e isso amplia nosso espaço de intervenção e construção de uma agenda política. Ao mesmo tempo outros setores do movimento de mulheres também estão mais ativos nessa década.

Adital -De muitas demandas ainda pendentes na América Latina, a criminalização do aborto segue como pauta de discussão. Houve algum avanço?

Nalu Faria - No tema do aborto tivemos mais dificuldades para contrapor a onda conservadora, pois as contradições que temos com os setores progressitas, de esquerda são enomes. Além de continuar muito difícil para grande parte das mulheres se posiconarem. E esse foi um dos temas que teve mais retrocesso a partir da segunda metade dos anos 90.

Mas acho que nos últimos anos cresceu a ofensiva por parte do movimento de mulheres inclusive com a constituição de articulações mais amplas. No Brasil criamos uma Frente Nacional pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Mas é importante lembrar que foi em um momento de forte criminalização das mulheres, com o indiciamento de mulheres a partir de fichas de atendimento em uma clínica.

Um momento que ficou evidente que estávamos recuperando espaço foi no Fórum Social Mundial, em Belém [janeiro de 2009, no estado brasileiro do Pará]. Conseguimos ter boas atividades, mobilização, visibilidade e percebemos a sensibilização de outros setores. Eu ouvi, por exemplo, vários homens nos debates gerais falando sobre o tema do aborto.

Adital - Na medida em quem fica evidente que o modelo neoliberal não é o ideal, você acredita que as mulheres têm conseguindo pôr em prática suas propostas políticas e econômicas? De que forma?

Nalu Faria - Acho que temos alguns avanços na economia solidária, na construção de uma visão contra-hegemônica a partir das contribuições da economia feminista. E, principalmente, temos uma grande contribuição das camponesas, quilombolas e indigenas (da América Latina em geral), no tema da soberania alimentar e da economia camponesa e das práticas economicas tradicionais que resistem ao mercado capitalista.

É interessante lembrar que até poucos anos essas experiências eram desvalorizadas e classificadas como atrasadas e remanescentes, que seriam absorvidas pelo mercado. Hoje há todo um debate que na verdade é de construção de novos paradigmas. E em todos esses processos há uma forte presença e contribuição das mulheres.

Adital - Outro ponto importante acentuado com a crise financeira, mas que já vem se formando há algum tempo, é a feminização do processo migratório, sobretudo com mulheres latinas. Qual sua opinião sobre as incidências  política nessa área?

Nalu Faria - A migração na América Latina e Caribe e em muitos países se tornou uma importante fonte de entrada de divisas. E os dados mostram que as mulheres embora ganhem menos enviam valores maiores e mais constantes.

Me parece que essa realidade só vai modificar se houver mudanças significativas nas políticas econômicas e na questão do trabalho. Mas também tem que se intensificar o combate ao tráfico e a indústria da migração. Tem estudos que mostram que a maioria dos pobres que migram fizeram através de agências e dessa modalidade do endividamento.

Adital - Há muita expectativa para esta 3ª Ação Internacional, proposta pela Marcha Mundial das Mulheres. Como tem sido a receptividade do ato?

Nalu Faria - Tem sido muito boa. No Brasil teremos presença de vários setores que não participam do dia a dia da Marcha Mundial das Mulheres, mas que perceberam a importância dessa grande mobilização e estarão marchando.Também outras organizações como os sindicatos estão nos apoiando, inclusive materialmente.

Adital - Nesse próximo 8 de março, que celebra os 100 anos da declaração do Dia Internacional da Mulher, quais os valores que precisam ser melhor assimilados pelas populações?

Nalu Faria - Ainda temos que conquistar uma visão do conjunto do direito à autonomia e auto-determinação das mulheres, ou seja que sejamos vistas como sujeitos e não como inferiores ou em função da familia, maternidade e filhos. E isso tem que se expressar em mudanças concretas como, por exemplo, a superação da divisão sexual do trabalho que passa por mudanças no trabalho remunerado e na casa. Nós continuamos como quase as únicas a trabalhar na casa.

Passa pela superação das desigualdades salarias, profissionais e na produção rural. Passa pela construção de novas relações e novas organizações familares e um novo modelo de sexualidade. Além disso, passa por superar as enormes deigualdades nos espaços de poder e decisão.

Se conseguirmos tudo isso, creio que poderemos ver desaparecer o machismo, a violência contra as mulheres e poderemos estar mais perto da iguldade. Mas nós sabemos que isso só será possível no bojo de um processo geral de tranformação e de construção de novas relações sociais. Por isso que na Marcha falamos em mudar a vida das mulheres, para mudar o mundo para mudar a vida das mulheres.

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Auditoria da dívida está prevista na Constituição

CPI é primeiro passo para a auditoria, aponta Maria Lucia Fattorelli

Renato Godoy de Toledo
da Redação – Brasil de fato

cpi da dívida A coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli, aponta que o principal motivo para se levar a fundo a CPI da Dívida Pública é o fato do passivo gerar o maior gasto no orçamento brasileiro. Para ela, a Comissão é uma conquista, mas o desafio agora é conquistar uma auditoria oficial da dívida brasileira, conforme previsto na Constituição de 1988. Leia abaixo entrevista com Fattorelli.

Brasil de Fato –
Qual é a importância de se instaurar uma CPI da dívida Pública?

Maria Lucia Fattorelli –
A dívida pública federal superou a casa dos R$ 2 trilhões em dezembro e consumiu 36% dos recursos federais durante 2009, conforme dados do Banco Central e do Tesouro Nacional. Esse crescimento espantoso tanto do estoque da dívida como do volume de pagamentos é fruto da política econômica aplicada no país que, além de praticar as taxas de juros mais elevadas do mundo, ainda privilegia os gastos financeiros em detrimento dos gastos sociais.
Diante desse quadro, a CPI foi criada com o objetivo de investigar a dívida pública, o pagamento de juros e seus impactos sociais, pois enquanto o pagamento de juros e amortizações da dívida consumiram 36% dos recursos federais em 2009, a Saúde recebeu pouco mais de 4% e a Educação pouco mais de 2%, sendo que todas as demais áreas sociais ficaram também prejudicadas.
Portanto, a investigação do endividamento é fundamental, pois esse é o gasto público mais relevante do país e influencia a vida de toda a população, que paga a dívida tanto por meio da elevada carga tributária como pela insuficiência de serviços públicos de qualidade.
Adicionalmente, a CPI da Dívida Pública constitui um primeiro passo para o cumprimento da determinação contida na Constituição Federal de 1988 (art. 26 do Ato das Disposições Transitórias), que determina a realização de uma auditoria da dívida externa brasileira, até hoje não realizada.

Como está o andamento da CPI em termos políticos e em termos de investigação?

A CPI constitui um marco histórico, pois propiciou o acesso a diversos documentos públicos que nunca haviam sido divulgados à sociedade, além de expor o debate sobre a grave situação do endividamento público brasileiro, abrindo espaço em diversos meios de comunicação que se encontravam bloqueados ao tema.
As audiências públicas realizadas pela CPI contaram com a participação de importantes convidados, que demonstraram que a dívida pública é o problema central do país.
A CPI possibilitou também corrigir o equívoco amplamente divulgado no sentido de que a dívida brasileira teria “acabado”, demonstrando que o pagamento antecipado da parcela que devia ao FMI em 2005 significava uma parte pequena do volume da dívida pública brasileira e que, apesar daquele pagamento, o Brasil continuou aplicando o receituário econômico do FMI.

Por outro lado, a CPI da Dívida enfrentou limitações. A primeira é relacionada ao curto período de funcionamento da Comissão, insuficiente para investigar tema tão vasto e importante. O acesso a muitos documentos também ficou prejudicado, pois o período de investigação determinado pelos parlamentares foi desde 1970 para a dívida externa e desde 1987 para a dívida interna. Dessa forma, os órgãos responsáveis pelo controle do endividamento – Banco Central e Tesouro Nacional – enfrentaram dificuldades de localizar parte dos documentos e registros requisitados pela CPI e apresentaram solicitações para a prorrogação de prazo para o atendimento.
Em termos políticos, é preciso ressaltar que diversas entidades da sociedade civil têm sido assíduas em todas as audiências públicas da CPI, dando uma clara demonstração do interesse dessas entidades pelo tema. A Auditoria Cidadã da Dívida tem divulgado boletins semanais sobre as audiências públicas realizadas pela CPI, disponíveis no site da Auditoria Cidadã.

Quais são os indícios de que a dívida que o país paga é ilegítima?

Várias questões de ilegitimidade marcam o processo de endividamento brasileiro, tanto interno quanto externo. Nas sessões públicas da CPI já foram levantadas, por exemplo, a repercussão da elevação unilateral das taxas de juros internacionais a partir de 1979, pelos Estados Unidos, de 6 para 20,5%, o que provocou tremenda crise financeira e a multiplicação da dívida por ela mesma. Com base nos dados recebidos pela CPI, caso os juros tivessem sido mantidos no patamar de 6%, os pagamentos efetuados para quitar os extorsivos juros teriam sido suficientes para eliminar a dívida então existente, e nos tornaríamos credores.
Também foi debatido na CPI o impacto da utilização da dívida pública na sustentação do Plano Real, bem como a participação de representantes do mercado financeiro nas reuniões com o Banco Central, que influenciam a decisão sobre a taxa de juros.
Esses são apenas exemplos do que foi publicamente debatido, e muitas investigações estão em fase de finalização e conclusão e em breve serão divulgadas.

Na sua opinião, o desfecho da CPI pode levar a alguma ação estatal, como uma auditoria, por exemplo?

Sem dúvida, as investigações realizadas pela CPI comprovarão a necessidade de realização da auditoria da dívida, podendo também instigar ações por parte de diversos órgãos, como o Ministério Público, para o aprofundamento das investigações, bem como o questionamento da legalidade de vários aspectos da dívida pública, tais como a prática de juros flutuantes, exigência de juros sobre juros, dentre outras questões.
A participação das entidades e movimentos sociais nos debates da CPI e no conhecimento do resultado das investigações tem papel fundamental para que o desfecho da CPI possa ser utilizado em favor da implantação de um modelo econômico mais justo, melhorando as condições sociais tão precárias de um país que tem historicamente destinado a maior parte de suas riquezas para o capital.
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Maria Lucia Fattorelli é coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida e foi requisitada para assessorar a CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados.

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Retomar Telebrás seria chance de impor mínima disciplina ao mercado

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Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito

Postado: Correio da Cidadania

Desde o início do ano, vêm surgindo informações dando conta de que o governo federal teria intenções de reativar a Telebrás, de modo a tê-la como seu carro-chefe no anunciado Plano Nacional de Banda Larga, que visa atingir cerca de 70% das residências brasileiras. O anúncio do PBNL já fez ventilar hipóteses de que o processo também incluiria uma espécie de retomada estatal no setor, totalmente privatizado na era FHC. Para tratar do assunto, o Correio da Cidadania conversou com o jornalista Samuel Possebon, que já concedeu diversas consultorias na área das telecomunicações.

 

Desde o início do ano, vêm surgindo informações dando conta de que o governo federal teria intenções de reativar a Telebrás, de modo a tê-la como seu carro-chefe no anunciado Plano Nacional de Banda Larga, que visa atingir cerca de 70% das residências brasileiras. O anúncio do PBNL já fez ventilar hipóteses de que o processo também incluiria uma espécie de retomada estatal no setor, totalmente privatizado na era FHC.

Para tratar do assunto, o Correio da Cidadania conversou com o jornalista Samuel Possebon, que já concedeu diversas consultorias na área das telecomunicações. Para ele, o governo acerta ao tentar voltar a ter alguma rédea no setor, o que, ainda que não signifique uma real reestatização – o novo alvo de estridente combate por parte de nossa mídia, diante de um suposto viés neo-estatizante do governo Lula -, poderia disciplinar o mercado. Como se sabe, o Brasil ocupa as primeiríssimas posições em tarifas telefônicas, fixa e móvel, de modo nada condizente com a média de renda de seu cidadão.

No entanto, o também professor do Departamento de Comunicação da UNB descarta a possibilidade de retomada estatal no setor, pois vê os atores privados e a cultura de concorrência aberta em posições já afirmadas. Possebon reconhece as melhorias tecnológicas oferecidas pelo mercado, mas ressalta ser importante uma maior acessibilidade da população e uma redução nos custos ao consumidor.

Correio da Cidadania: Como vem encarando as discussões acerca das Telecomunicações no Brasil nos últimos meses, especialmente em função da polêmica sobre a expansão da banda larga, que o governo parece querer encampar como um projeto estatal através da Telebrás e aquisição das linhas da Eletronet (antiga empresa estatal, atualmente em estado falimentar, detentora de uma rede de cabos de fibra ótica)?

Samuel Possebon: O governo tenta através do Plano Nacional de Banda Larga e a retomada da Telebrás equilibrar um pouco o setor, oferecendo novas opções para o acesso à banda larga. Porém, ainda não são muito claras as diretrizes desse plano e qual seria o grau de protagonismo do governo. Portanto, fica um pouco difícil saber qual será o sucesso da empreitada e se atingirá seus objetivos declarados.

De toda forma, creio ser uma idéia correta, pois coloca em cena um novo ator no setor, na figura do próprio Estado, e que vai no sentido de abrir o leque de concorrência, fazer preços baixarem e o acesso da população à banda larga aumentar. Mesmo assim, é cedo para vislumbrar qual alcance e efetividade terá o plano.

CC: A propósito, o que é hoje a Telebrás, uma vez que, ao contrário do ocorrido no setor elétrico (cuja privatização veio de forma mais segmentada), sabemos que as Telecomunicações foram privatizadas em bloco no governo FHC, e a estatal foi praticamente extinta?

SP: O que aconteceu é que, no processo de privatização do setor, em 97 e 98, vários funcionários que seriam incorporados à Anatel não podiam ser demitidos ou aposentados de uma vez, sendo incorporados também pelas empresas que entraram no setor. Isso fez com que a empresa praticamente fechasse, com seus quadros passando para a agência reguladora ou outras empresas que passaram a atuar nas telecomunicações. Como no setor elétrico o processo foi mais diluído, não houve a mesma necessidade.

CC: As ações da Telebrás tiveram valorização expressiva nos últimos anos, e também nos últimos dias, em função das notícias sobre os projetos do governo. O que pensa dessa valorização?

SP: Isso foi um movimento natural de mercado, que sempre ocorre no campo da especulação. Aconteceu a mesma coisa, por exemplo, quando começaram os boatos de venda da Sadia. A empresa estava falida, mas, com as notícias que circulavam, seus papéis na bolsa se valorizavam e as ações subiam do mesmo jeito.

O mesmo ocorreu na compra do Unibanco pelo Itaú. É um movimento natural que sempre acontece no mercado especulativo, e agora não foi diferente.

CC: Acredita estar em curso um projeto ou uma ‘séria’ tentativa de retomar de alguma forma o controle do setor de telecomunicações, dando mais corpo e nova vida à Telebrás? Enxerga relação com a própria questão da soberania nacional?

SP: Não. Acredito que o governo queira apenas dar um pouco mais de regulação ao setor, de maneira a também expandi-lo e criar um maior alcance nacional.

Mas não se trata de uma retomada estatal no setor. Ele pretende somente colocar uma nova opção no mercado, de modo que se abra um pouco mais o leque de concorrência e as demais empresas sejam obrigadas a baixar seus preços e também melhorar a qualidade dos serviços, ainda muito deficientes, apesar de todos os avanços tecnológicos.

Não vejo intenções governamentais no sentido de alguma reestatização, não é essa a idéia do plano. O que buscam é melhorar a competitividade e controlar mais o mercado.

CC: Como você enxerga hoje esse setor no Brasil? Caminhamos, conforme se aventa, melhor do que teria sido sem a privatização?

SP: É difícil falar em hipóteses, sobre o que seria sem a privatização. São inegáveis os avanços que as empresas privadas ofereceram, no que se refere à tecnologia e qualidade de alguns serviços, que não existiam antes, apesar do preço e da impossibilidade de acesso de grandes parcelas dos brasileiros.

Por outro lado, é certo que hoje as condições econômicas do país também são bem diferentes, o que permitiria que o serviço por parte do governo também se encontrasse em outro nível.

CC: O que pensa do fato de sermos o país com uma das mais altas tarifas de celular e telefonia fixa do mundo, ao lado de possuir um serviço de internet também caríssimo e ainda muito restrito?

SP: Esse é um ponto a se discutir bastante. É verdade que precisa ser dado um desconto por conta da altíssima carga tributária deste país, principalmente em serviços, de modo que o consumidor acaba sendo bastante afetado, pois as empresas acabam incluindo essa carga no preço final.

Mas também é preciso uma melhoria em tal ponto, pois, apesar de todos os avanços tecnológicos oferecidos, as tarifas são realmente muito elevadas, além de sabermos que há um altíssimo número de reclamações das pessoas com relação às empresas que prestam tais serviços. É também por isso que o governo entrou na questão, para rearranjar os níveis de preços e aumentar a acessibilidade a tais serviços, ainda muito distantes de grande parte da população.

CC: Você apoiaria algum tipo de reestatização no setor?

SP: No momento é difícil falar em reestatização, pois todo um modelo já está afirmado na sociedade e é complicado tocar nos atuais parâmetros de mercado.

Acho importante e não vejo nada de errado em uma maior atuação estatal no setor, até para regular e controlar melhor os preços de telefonia fixa e móvel, além de internet.

Não vejo nada de errado em contar com a participação simultânea do Estado e dos atores privados, desde que nas mesmas condições e regras de mercado, sem que um seja claramente favorecido em relação ao outro no que se refere às condições de oferecer os serviços de telecomunicações. Se for assim, pode ser positivo para o país e os consumidores um modelo que inclua os dois lados.

CC: Como encara a fusão Oi/BrTelecom? Há estudiosos que nela enxergam pontos positivos, na medida em que seria uma forma de o setor retomar corpo em sua atuação, único modo de chegar aos grotões. Mas não se caminha ao mesmo tempo em direção contrária à concorrência tão reverenciada na justificativa do desmembramento e privatização no setor?

SP: Foi uma fusão bem complicada. Sabemos que o governo alegava se tratar de uma questão importante para que o país tivesse um ator competitivo globalmente, podendo disputar espaços de mercado fora do país também.

No entanto, esses resultados estão bem abaixo do esperado, inclusive internamente, e até hoje ainda não se viu uma grande evolução dentro daquilo que foi prometido para justificar a fusão das empresas.

Além do mais, o processo não foi conduzido da melhor maneira, mas agora Inês é morta e é preciso dar continuidade ao crescimento do país no setor e também a essa questão da oferta de serviços de telecomunicações às localidades tidas como menos interessantes pelo mercado.

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

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“Preservar é muito mais que tombar”

Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP diz que as ações de preservação deveriam retratar o modo de vida de uma sociedade, e não expulsar os moradores para recriar um cenário artificial

Márcia Pinheiro

Maria Lucia Bressan Pinheiro é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Centro de Preservação Cultural Dona Yayá (CPC-USP). Rema contra a corrente segundo a qual apenas monumentos belos deveriam ser preservados. Em entrevista a História Viva, ela diz que esse ramo da arquitetura é pouco prestigiado no Brasil porque prevalecem os interesses econômicos dos especuladores imobiliários.
História Viva – A preservação do patrimônio histórico, no senso comum, tornou-se sinônimo de tombamento no Brasil. Trata-se de uma visão equivocada?
Maria Lucia Bressan Pinheiro – A preservação é muito mais abrangente que o tombamento. A preservação diz respeito a um conjunto de medidas, desde intervenções físicas no bem cultural até políticas públicas. São iniciativas destinadas à preservação do patrimônio para as gerações futuras. O tombamento é uma dessas medidas. Geralmente, é o passo inicial no Brasil, porque não temos uma cultura preservacionista arraigada na sociedade. Somos muito carentes, com problemas básicos não resolvidos, como pobreza e falta de escolaridade, e isso limita a possibilidade de fruição do patrimônio. As pessoas nem param para pensar que existe um passado, com coisas esteticamente bonitas, que contam as nossas origens, a nossa história. A maioria está tão preocupada como básico que nem tem olhos para o prazer. Não há como negar que existe uma hierarquia de necessidades. De outro lado, no mundo inteiro, todos os valores da nossa cultura atual são de descarte, de inventar novidades, buscar o novo pelo novo, até para movimentar a economia. Além disso, como fomos uma colônia, sempre imitamos um paradigma português e europeu. Estamos habituados a esperar modelos de outras sociedades.
HV– Há cidades que tombam pouco e preservam muito? Paris é um exemplo?
Maria Lucia – Certamente há cidades no exterior que preservam mais, em razão do contexto. Os nossos municípios sofreram um processo de crescimento rápido e súbito com a industrialização, a partir dos anos 1930. Instalou-se uma população urbana desenraizada do local. Em Paris e Roma, que preservam mais, as cidades cresceram ao longo de muitos séculos. Passaram por essa fase de explosão, mas quando já eram grandes e tinham uma população arraigada, muito identificada com os centros históricos. Tinham outra relação de pertencimento ao espaço.
HV– A quem interessa a política de só preservar se tombar?
Maria Lucia – Há uma apatia em relação à preservação. Fica tudo a cargo do Estado. No Parlamento, não há representantes desse interesse. Isso acontece porque os atingidos são os especuladores imobiliários. Não são todos, mas há empresas e pessoas que não podem imaginar ter uma atividade lucrativa em uma casa tombada. Um empreendimento, como um restaurante, ficaria muito mais charmoso. Chamo de especuladores aqueles que só veem uma forma de ganhar dinheiro: por meio da destruição.
HV– Por que no Brasil só se pensa em preservar imóveis coloniais?
Maria Lucia – É um viés dos modernistas, de que o século XIX não interessa. O próprio Lucio Costa diz isso. O mélange de estilos daquela época foi visto como algo que não tinha valor algum. Não era nem puro como o colonial, nem puro como o moderno. Esse era o viés de quem trabalhava no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) nos anos 1930-40. Não é democrático privilegiar determinado tipo de bem cultural. Há exemplos de imóveis não coloniais que deveriam ser preservados. O único critério que julgo interessante é de um bem cultural que revele o modo de vida das pessoas. Gosto de ver os vários momentos de uma cidade representados. Há a arquitetura de casas dos Jardins e do Pacaembu (bairros de São Paulo), dos anos 1930, com cara meio normanda, meio espanhola. São impuras, mas muito características de uma época. As fazendas de cacau no Nordeste são outro exemplo. Há ainda a arquitetura alemã e italiana no Sul do país.
HV– Como evitar que um centro histórico dito preservado fique com um aspecto de cenário, como o Pelourinho?
Maria Lucia – Temos uma visão equivocada de que restaurar é fazer o local retornar ao seu estado original, que muitas vezes nem sabemos qual era. Ou completar o que falta. É o caso do Pelourinho. As casas estavam arruinadas e as fachadas foram completadas, emulando a arquitetura original. Isso é um grande equívoco. Houve ainda a expulsão dos moradores. A única atividade de preservação que se fez ali foi uma intervenção física nos edifícios, o que favoreceu a instalação de redes de grifes, como joalherias. A região não tem uma vitalidade própria. Perdeu-se a originalidade do valor do patrimônio. Como se evita isso? É preciso manter a população e criar atividades para ela. Deveria haver políticas públicas para fixar os residentes e também promover um restauro especializado, não apenas recriar o que supostamente existia ali.
HV– Por que se pensa tanto em preservar unidades e não conjuntos? Por exemplo, tomba-se uma fábrica, mas não a vila operária.
Maria Lucia – Há um quê de ignorância, mas essa não é a única razão. É mais caro preservar um conjunto que uma só unidade. Prevalece a ideia de que se preserva o que é excepcional, um monumento. O que é representativo de um trabalho, de um cotidiano, isso sim deveria ser tombado. Somente dessa maneira saberemos como vivia determinada sociedade. É um conceito errado, meio de belas-artes, de que só vale a pena o que é lindo e feito de materiais nobres.
HV– A política de preservação do patrimônio histórico brasileiro já foi pior?
Maria Lucia – Já foi bem pior, no sentido de ser mais restrita. Há, atualmente, mais recursos canalizados para a área da preservação. Mas também um despreparo geral de arquitetos que não têm conhecimento especializado para a restauração de edifícios. Existe até um PAC do patrimônio. Acelerar a preservação não dá certo, porque é um processo cultural e porque a intervenção física precisa ser feita com muito cuidado e pesquisa. O PAC do patrimônio vai dar em Pelourinho. Desse ponto de vista, há mais recursos, mas com gente despreparada. O resultado pode ser mais destruição do que preservação.
HV– A senhora daria exemplos bem-sucedidos de preservação patrimonial no país?
Maria Lucia – Em São Paulo, a Pinacoteca. Era um edifício tombado, sofreu uma intervenção pesada em termos de projeto, mas que foi positiva. Ficou no limite correto entre respeitar o que havia e introduzir novos elementos. E trouxe um ganho de uso, com mais pessoas frequentando o espaço. Em Salvador, no Museu Rodin, ficou muito claro o que era antigo e moderno, pois estão justapostos. É muito mais sábio explicitar os contrastes.

Márcia Pinheiro é jornalista

História Viva

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A solução necessária

Mino Carta

plínio de arruda sampaio Pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, 79 anos, é intelectual católico próximo de uma corrente que na França produziu figuras como François Mauriac. Iniciou-se na política ao lado do governador paulista Carvalho Pinto, foi deputado federal pelo PDC e despertou as iras dos latifundiários ao criar durante o governo de João Goulart a Comissão Especial da Reforma Agrária. Com o golpe de 1964 foi um dos primeiros cem brasileiros que sofreram a cassação dos direitos políticos. Por seis anos viveu exilado no Chile. De volta, lecionou na FGV e militou no MDB. Em 1980, passou-se para o PT e foi autor do estatuto do partido. Voltou à Câmara Federal em 1986. Desde 2005 liderança do PSOL, aqui expõe suas decepções, esperanças e aspirações.

CartaCapital: É o senhor o candidato do PSOL à Presidência?
Plínio de Arruda Sampaio:
Há uma certa disputa de correntes internas que se resolve em março. Eu acho que nós precisamos ter uma candidatura alternativa com capacidade de propor o outro lado, caso contrário será um lado só. A verdade é que entre o Serra e a Dilma há diferenças de nuances aqui, nuances ali, mas não tem uma diferença substancial. Ninguém propõe a solução necessária. Aliás, eu noto o seguinte, o domínio da burguesia é uma hegemonia completa, então o que eles não querem é que se levantem as soluções reais. Discutem-se os problemas através de um artifício: o País amadureceu, as ideologias estão superadas e vamos para as soluções técnicas. Por exemplo: como explorar o pré-sal? Com a Petrobras ou por meio de uma empresa nova? Este não é o problema e esta solução é acidental.
CC: Como o senhor interpreta então a clara resistência da mídia em geral, que é excelente porta-voz da burguesia nativa, ao nome de Dilma Rousseff e, sobretudo, de Lula?
PAS:
A mesma coisa deu-se com Getúlio. Ele na verdade defendeu os fazendeiros de café como ninguém. Eu que descendo de fazendeiros de café sei muito bem o que acontecia lá em casa, no entanto o Getúlio com aqueles senhores não tinha vez. Porque Lula tem um vício de origem. Embora, a meu ver, ele tenha passado para o outro lado, totalmente, ele sempre é um cara do lado de lá.
CC: Ódio de classe no caso do Lula. Mas Dilma não é uma ex-metalúrgica.
PAS:
A Dilma pode ser a Dilma, pode ser o Zequinha da esquina, pode ser um poste, a Dilma é o Lula.
CC: E Serra não é Fernando Henrique?
PAS:
O Serra é melhor que o Fernando Henrique. Mas é o Fernando Henrique. Ele é mais nacionalista que o Fernando Henrique. Eu conheço bem o Serra, nós estudamos juntos em Cornell, fomos companheiros, trabalhamos juntos. Eu o conheço desde menino. Serra é mais decidido que Fernando, que só pensa nele mesmo. Há horas em que Serra não pensa só nele.
CC: A popularidade de Lula não decorre da identificação do povo com um igual que chegou à Presidência?
PAS:
Esse é um componente, mas tem outros. O brasileiro diz para si mesmo: não tem jeito, é esse aí mesmo, esse é nosso. Mais um componente é a cultura do favor. Esta é uma sociedade que teve 300 anos de escravidão, quando havia duas figuras econômicas, um senhor de terras e um escravo. No meio ficava o bastardo, um mulato liberto, um branco pobre. Não tinham lugar na economia. Do que eles viviam? Do favor do senhor de terras. Isso está até hoje, a cultura do favor. Lula, ele dá 100 mil reais, ou 200 mil reais, não sei quanto, para 50 milhões de pessoas. O quadro brasileiro é o seguinte: há quem está melhor do que estava, 20 milhões de pessoas que estão consumindo. A minha empregada está comprando um carro zero. Objetivamente, a inflação está segura, ainda é alta para alguns padrões, mas para nós aqui é uma maravilha. Todo mundo gosta de ver o Lula ao lado do Obama. Então na superfície da sociedade a melhora aconteceu. Embaixo é que é o problema, as grandes tendências que estão se acumulando são terríveis. A educação está um horror. A mesma empregada que compra um carro tem dois filhos, os dois meninos estão formados no grupo escolar, não sabem ler nem escrever. E o País se endivida de uma maneira brutal. Amanhã dá um repeteco lá fora e isso aqui vai ser um desastre. Isto é o que tem de ser levantado na campanha, o povo precisa tomar consciência da situação e conhecer as soluções corretas.
CC: Quais são as soluções corretas?
PAS:
As soluções concretas dos problemas concretos e em um discurso que aponte para a dinâmica dessa solução concreta. Vou dar um exemplo: reforma agrária, o que pode ser feito agora? O que pode ser feito agora é crédito. Em todo caso, o encaminhamento de uma solução que aponte para um desequilíbrio, uma desestabilização, uma dinâmica de transformação. O MST e a CNBB estão propondo o seguinte: as propriedades com mais de 1.000 hectares serão desapropriáveis, não quer dizer desapropriadas, o que permitirá muito maior flexibilidade. Qual é a solução para o programa educacional? Pagar melhor o professor, mais verba etc.
CC: Mas onde achar a verba?
PAS:
Tudo bem, que tem, tem, se não pagar a dívida brutal, essa dívida interna imensa, tem dinheiro adoiado. Mas não é isso, isso segura. O que não segura? Uma ideia. Se nós queremos democratizar este país, a educação tem de ser pública. Trata-se de transformar a educação em uma atividade fora do comércio.
CC: Eliminar a ideia da escola privada?
PAS:
Não existe escola comércio. Escola ideológica, escola católica, tudo bem. Faz uma comunidade, vai no fundo de imposto para a educação e diz olha, a minha escola é tal. Só que a verba que ele vai tirar ali é idêntica à verba que uma outra escola marxista, uma outra escola do vudu, da umbanda tirará no Piauí porque aí o menino do Piauí tem o mesmo microscópio.
CC: Isso tudo não é um tanto utópico?
PAS:
É utópico, mas na minha campanha eu me empenharia em apontar o outro lado. Não em campanha programática, ideo-lógica, propagandista, não falaria em socialismo, em produção de mercadoria, mas colocaria soluções mais fortes.
CC: Como se enfrenta o desequilíbrio social provocado por uma distribuição de renda muito ruim?
PAS:
Eu acho que a primeira medida é justamente a reforma agrária, precisamos colocar 6 milhões de famílias no campo, na terra. Precisamos de uma reforma agrária de verdade. Aliás, eu fiz um projeto para o Lula, um projeto modesto. Para ter uma ideia, no tempo do Sarney o Zé Gomes fez um primeiro plano para assentar 1,4 milhão de famílias em quatro anos, eu fiz para 1 milhão porque a correlação de forças não permite. O plano não passou, cortaram pela metade. E não cumpriram nem a metade. Por que a reforma agrária é a primeira medida? Porque a desigualdade começa no campo. No segundo andar fica a educação, depois vem o resto. Se você resolver educação e terra, que foi o que fez a China…
CC: Mas nós não temos uma elite muito resistente?
PAS:
A última vez que eu vi o empresariado foi na festa de CartaCapital. Aquele dia eu achei uma graça o discurso do Lula. Ele dizia “Eu dei tudo para vocês e vocês são contra mim?” Florestan Fernandes diz o seguinte: “Essa é uma burguesia lúcida, consciente, que montou um projeto de contrarrevolução permanente para evitar qualquer réstia de poder do povo”. Essa é uma verdade, ela é capaz. Por outro lado é muito limitada porque aceita viver de comissões. Ela é uma burguesiasinha de acomodação. Então é curioso porque por um lado ela é feroz e competentíssima, por outro lado ela é uma burguesia de negócios. Ela está aqui, o País oferece um monte de negócios e ela é uma espécie de corretor do capital estrangeiro, ela presta o serviço e aí recebe um caraminguá que eu acho o fim do mundo.
CC: O PSOL nasceu como uma dissidência do PT. O que determinou a ruptura?
PAS:
O PT era um projeto socialista, era um projeto de transgressão da ordem estabelecida e foi paulatinamente se tornando um partido da ordem. Quem estava lá dentro e não era da ordem era da desordem, falou “não, aqui tem um limite”. Eu segurei o que pude porque acho que o primeiro partido que o povo criou foi o PT, um partido que merecia o maior respeito. Em 300 anos de história, o PT foi o primeiro partido que não se fez no tapete. Segurei o que pude, mas chegou num ponto em que permanecer era impossível. Quando Lula começou a entregar a nossa moeda, o Banco Central rendeu-se à doutrina neoliberal, a reforma agrária não foi executada. Falei: bom, não tem mais o que fazer aqui dentro, vou tentar fazer em outro lugar. Essa é a origem do PSOL, o PSOL é uma tentativa de afastar-se da estratégia atual do PT. Nos seus primeiros 10 anos de vida, a estratégia do PT estava muito correta, respondia a uma realidade anterior à queda da União Soviética. Agora o caminho tem de ser outro, de certo modo mais radical, porque você tem menos intermediação. Naquele tempo havia uma intermediação social-democrata, hoje o conflito foi reduzido, mas ao mesmo tempo a situação não propicia uma correlação de forças favorável a mudanças profundas.
CC: O senhor acha que o governo de Lula foi melhor que o de FHC, ou pior?
PAS:
Ah, de longe, muito melhor. É que o talento de Lula é maior que o de Fernando, Lula é um homem talentosíssimo. Ele é de certo modo, pegue a palavra com cuidado, ele é de certo modo um impostor, mas um impostor que acredita na própria impostura. É um demagogo, quando Lula chora, chora mesmo. Não é Jânio Quadros, que chorava lágrimas de crocodilo. Ele não, aquela explosão de choro quando o Brasil foi escolhido para a Copa… Imagine se o Fernando Henrique seria capaz de chorar. Aquilo tem um efeito popular enorme, porque é autêntico, porque é verdadeiro. E o Lula é um homem mais humano, sofreu mais, conhece mais.
CC: O que visa o PSOL ao concorrer na eleição para a Presidência?
PAS:
A ideia básica é a seguinte: a nossa é uma candidatura realista, vai discutir os problemas reais e as soluções reais, mas vai mostrar que essas soluções ainda são um começo.
CC: A sua aposta numa votação num primeiro turno?
PAS:
O quadro não está montado, mas é coisa pequena, na melhor das hipóteses uns 3% a 5%, não vai muito além disso.

Carta Capital

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“Se o Brasil tivesse alguma vez se integrado na América Latina, teria sido um horror para os donos do mundo”

DCFN0021.JPG                   Eric Nepomuceno é jornalista e escritor, passou por alguns veículos tradicionais e alternativos da imprensa brasileira, há alguns anos colabora para jornais estrangeiros como o Página 12 da Argentina e o espanhol El País. Deu uma enorme contribuição cultural ao Brasil no campo literário, apresentando, através das suas traduções, escritores latinoamericanos do gabarito de Gabriel Garcia Márquez, Eduardo Galeano, Julio Cortázar e Juan Rulfo, dentre outros. Em um papo informal na Cobal do Rio de Janeiro, Eric falou sobre sua trajetória, a imprensa brasileira e o seu livro reportagem que relata o massacre dos camponeses do MST em Eldorado dos Carajás em 1996. A cultura latinoamericana e a conjuntura política na região, também foram analizados na conversa.

Em função da sua experiência, gostaria que você fizesse uma análise da imprensa brasileira hoje.

Eu trabalhei na imprensa cotidiana no Brasil entre 1966, tinha 17 anos quando comecei, até março de 86. Eu não estudei jornalismo, sou extremamente crítico dos cursos de jornalismo. Não conheço nenhum bom jornalista por causa do curso, eu conheço vários bons jornalistas de gerações mais jovens que a minha apesar do curso. A minha carreira na imprensa brasileira se deu em três veículos, meu começo foi de garoto, de muito freelancer no finzinho da Última Hora; numa publicação que havia em São Paulo, que chamava Jornal Artes, um jornal mensal de artes. Em 1969 eu entrei no Jornal da Tarde, naquele momento eu acho que o Brasil tinha duas grandes escolas de jornalismo: o Jornal do Brasil (RJ) e o Jornal da Tarde (SP). Costumo dizer que eu tive o melhor curso possível, o reitor da minha universidade era o Rui Mesquita, que apesar de todas as distâncias ideológicas eu reconheço nele um mestre absoluto da profissão. E o diretor de redação, que eu chamo o meu diretor de faculdade, era o Murilo Felisberto, que foi um camarada cuja importância na imprensa moderna brasileira não é reconhecida.

Em 1973 fui para a Argentina como correspondente do Jornal da Tarde, e lá eu passei para a revista Veja. Faço questão de dizer, aquela revista Veja que não tem absolutamente nada a ver com o que é feito hoje. Não tenho nenhum orgulho especial de ter sido daquela Veja, que eu já achava uma revista criticável. Mas eu tenho pavor de que me confundam com esse produto que não é jornalístico, com essa excrescência que é a revista Veja a partir do Mario Sergio Conti em diante. Eles são excelentes coveiros, sabem enterrar qualquer coisa, como enterraram a revista. Da Argentina eu fui para a Espanha, de lá fui para o México.

Você foi exilado ou saiu por livre e espontânea vontade?

Fui para a Argentina porque eu quis, lá comecei a publicar no jornal La Opinión, que era o jornal mais importante da época, um jornal de esquerda. E integrei o grupo da revista Crisis, que foi na época a principal publicação cultural da América Latina. Era uma publicação de esquerda, dirigida pelo Eduardo Galeano, e graças ao que eu escrevia sobre a ditadura brasileira fui proibido de voltar. Então eu saí porque quis e quando quis voltar não pude, depois quando me deixaram voltar eu também não quis mais.

Voltei para o Brasil a convite da Rede Globo, trabalhei lá até exatamente a decretação do plano cruzado: aí foi demais, eu só tenho um fígado e ele não agüentou e saí. Foi muito bom porque foi um reencontro com o país real, não o país do qual eu me lembrava. Em segundo lugar porque eu aprendi a fazer documentário e reportagem para a televisão, vivi disso depois como freelancer. Em terceiro lugar foi muito bom porque eu entendi onde estava o verdadeiro núcleo de poder no meu país, que já não era em Brasília, era na Rua Lopes Quintas, era na Rede Globo. Como representante de um sistema que permaneceu ativo durante muitos anos, e está até hoje.

Foi muito bom também para eu perceber que o Brasil tinha se redemocratizado, mas é o único país que eu conheço que volta à democracia sem que isso chegue aos meios de comunicação: você não tem vozes alternativas no Brasil, você tem ecos da mesma voz, que é a voz do sistema.

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Na Argentina se você ler o jornal La Nacion e o Página 12,  você sabe o que está lendo. Na Espanha se você ler El Mundo, ou o ABC, o El País, que hoje é o melhor jornal da europa, um jornal que eu vi nascer e sou colaborador até hoje, você sabe o que está lendo. No Brasil você não sabe, eu acho que o Brasil tem dois grandes jornais impressos: o Valor Econômico e o Estado de São Paulo, um jornal muito bem feito jornalisticamente e íntegro com a sua ideologia e posição política; o resto são pastiches da pior qualidade. Você teve jornais alternativos em algum momento, tem a batalha do Mino Carta com a revista CartaCapital, mas não chega a ser alternativas ao sistema. Tirando esses dois, considero produtos que em seus melhores momentos são medíocres, em geral são péssimos, e que não têm uma espinha dorsal básica que seria a da moral e da ética.

A que você atribui essa homogeneização da mídia nacional?

A imprensa brasileira hoje é dividida basicamente entre o jornalismo arquitetônico, as colunas, e o jornalismo agrícola, que são as notas plantadas. Eu tenho engulhos quando ouço falar em jornalismo investigativo, isso para mim é como falar em catolicismo cristão porque o jornalismo ou é investigativo ou não é.

O repórter tem de ser curioso por essência…

Ou não é jornalismo. Eu atribuo isso ao predomínio empresarial, ao poder de um sistema político econômico que continua dominando o Brasil. E que tem legítimos representantes nos meios de comunicação, a começar pelas organizações Globo, passando pela editora Abril e deixando muito pouco espaço.

Eu atribuo a uma troca que houve nas empresas, em que os donos ou diretores deixaram de ser jornalistas e passaram a ser empresários: a melhor catástrofe disso é o que aconteceu com o Jornal do Brasil. Eu acho que com a volta da democracia no Brasil, sobretudo a partir de 82 e conforme se aproximava as eleições de 89, o sistema brasileiro se trancou em copas para se defender.

Quer dizer, perdia-se o poder de uma ditadura encabeçada por militares mas com profundo controle dos civis, passava-se a uma democracia que esse sistema tinha medo. Não vamos esquecer que dos exilados que voltaram, o único que tinha verdadeira projeção nacional foi o único impedido de voltar pelo Rio ou São Paulo: o Brizola, que teve de voltar de carro pelo interior do Rio Grande do Sul.

A eleição do Brizola como governador do Rio em 82 desperta o pânico em todos os meios de comunicação. Por quê? Porque desperta o pânico do stabilishment que controla o país até hoje, que elegeu o Collor, o FHC, e que ou o Lula se adaptava a certas premissas desse sistema ou ele não teria durado seis meses do poder. A imprensa é um reflexo disso, o número de notícias manipuladas que você lê todos os dias, nós da elite que lemos a imprensa em papel.

Essa é a minha visão bastante amarga da imprensa brasileira, acho que houve um acomodamento. Perdeu-se a vergonha de ser de direita sem se assumir como tal, você quando vai à Europa alguém que é de direita é de direita. Até na América Latina, no máximo o cara diz que é de centro direita. No Brasil ninguém é direita, todo mundo é liberal, é democrático.

Mudando de assunto, como foi sua experiência de voltar à reportagem com a publicação do livro O Massacre, sobre a chacina ao MST no Eldorado dos Carajás. De onde surgiu essa idéia?

Eu estava em Brasília, tinha vindo de uma mesa redonda com o Sebastião Salgado, fomos jantar. De noitinha, quando a gente ia embora do restaurante, ele me falou: ‘você está sabendo? Massacraram sem terras em Eldorado de Carajás’. Ele alugou um avião, foi para lá e fez as fotos dos velórios de alguns dos mortos. Quando voltou, me contou o que tinha visto.

Eu me lembro da reação do governo FHC, que me chamou muita atenção: em sete meses resolveu a questão da desapropriação das fazendas, que era uma luta do MST de muito tempo. Fiquei pensando: foi preciso matar 19 para isso, é assim que esse Brasil funciona, movido a sangue. E eu ouvia as histórias, falava-se de crianças desaparecidas, virou uma coisa meio fantasmagórica e caiu no esquecimento. Aí eu pensei o seguinte: esses caras não vão ser condenados nunca.

Em 2003 eu estava no barbeiro, tocou o celular, era um amigo meu chamado Nilo Batista, que é um dos grandes advogados criminalistas. ‘Você não quer fazer um livro sobre a história do julgamento?’ ‘Nilo, eu não quero mais fazer não ficção, eu quero escrever os meus contos.’

No dia seguinte eu fui lá, ele me contou a visão dele de advogado criminalista sobre o que era essa impunidade. Nilo, no primeiro julgamento, foi assistente de acusação, saiu de lá protegido pela polícia.

Ele chegou a ter voz e incomodou, foi isso?

Chegou a ter voz, na primeira sessão, depois ele foi tirado do hotel às 4h da manhã com proteção da polícia.  Eu li todo o processo, mais de 20.000 páginas, o inquérito policial militar, o processo civil. Eu não me lembro quantas horas de entrevistas, eu fui ao lugar, visitei tudo, conversei com sobreviventes, com nego que tem bala na cabeça, bala na garganta, bala na perna, etc. O que me veio, aí sim, o que eu estava dizendo, o retrato da impunidade. Conversei com os advogados de defesa, com o promotor, e está claro que aquilo tudo foi feito para que ninguém fosse condenado, a não ser os mortos que já estavam mortos e o abandono em que os sobreviventes foram deixados.

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Comecei a perceber que o Pará é uma lâmina de laboratório do Brasil, por quê? É uma polícia militar mal paga, mal preparada, e absolutamente corrupta e que nas horas vagas faz segurança para os coronéis. Qual a diferença disso para o Rio de Janeiro? Por exemplo, eu moro num bairro de classe média alta e na porta da minha casa tem um segurança toda a noite. Ele é um “zé ninguém”, mas o chefe dele é um coronel do corpo de bombeiros. Quer dizer, nas horas vagas tem uma empresa de segurança. O Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Rio de Janeiro, quer dizer, a segurança que a segurança que o estado não me dá, um funcionário do estado me vende. Você multiplica isso por cem e tem todo o interior do país.

Eu descobri, por exemplo, uma coisa que a imprensa da época não sei por que não publicou: dois ônibus foram fretados por uma empresa do estado, para levar as tropas de PM que massacraram os sem terra. Qual era a empresa do estado? A Companhia Vale do Rio Doce. Quem pagou essas empresas de ônibus? A polícia militar. Como ela pagou? Em dinheiro. Por lei, nenhum órgão do estado pode pagar em dinheiro, portanto a Vale do Rio Doce deu um pacote de grana no quartel que passou. Ou seja, por que isso nunca foi investigado? Porque aí seria denunciar o mecanismo…

Um advogado, que na época era um dos diretores da Vale do Rio Doce, me disse textualmente o seguinte: no Pará não acontece nada sem que a gente saiba.

Isso em função da pobreza aberta à corrupção e cooptação?

Não, em função do poder da Companhia Vale do Rio Doce que domina as tribos políticas, os coronéis, os caciques, domina tudo. É a dona do estado e a dona dos donos do estado, os latifundiários e coronéis.

Fale mais sobre a produção do livro…

Eu conversei com muita gente, advogados, padres, sobreviventes, etc. Do lado do governo, eu me lembro de um advogado chamado Ronaldo Barata, que na época era presidente do instituto de terra do estado do Pará. O cara de uma grandeza, que me deu um quadro horroroso. Ele que era a autoridade me deu uma radiografia de como funcionava o poder verdadeiro, que não é o poder do governo, é o poder dos proprietários. Eu tentei falar com o governador Amir Gabriel, através de amigos, eu não fiz nada formal, não queria deixar registros. Todos me vieram com a mesma história: nem pensar! Com o secretário de segurança pública, nem pensar. Com o comandante da polícia militar, nem pensar.

Um dos advogados dos PM’s me deu uma entrevista bastante interessante, de um típico advogado de defesa, correto, nada convincente, é lógico. O outro foi muito interessante, Américo Leal, que eu liguei o gravador, fiz uma pergunta e ele falou durante uma hora acabando com os sem terra. E ele foi ficando nervoso, no fim ele berrava: tem mais é de matar mesmo! É uma visão muito clara da mentalidade de uma certa elite.

Os dados que você levanta da Comissão Pastoral da Terra, da Seção de Direitos Humanos da OEA, já bastam, não precisa nem fazer o livro. Quer dizer, o número de mortos, o número de conflitos. Você vai aos cartórios de registro de imóveis e se você somar os imóveis todos registrados não cabem dentro da área do município.

Foi um trabalho de apuração muito cuidadoso, para armar o livro eu busquei três pontos de vista: de quem participou levando tiro, de quem atirou, que aí ninguém quis falar comigo, eu me baseei nos inquéritos e no processo, e um ponto de vista externo, o meu ponto de vista.

Eu me isolei em julgamento, por isso o livro tem um prefácio onde eu assumo a minha posição. É engraçado que veteranos jornalistas me criticaram muito, dizendo que o livro toma partido. Eu acho que eles têm razão, o livro toma partido e isso está declarado no prefácio. Eu não sei se teria sido mais efetivo uma narração fria, mas eu procurei ser o mais frio possível.

Mas ser frio não quer dizer não tomar partido.

Você toma partido. Basta ler o laudo cadavérico dos mortos, dos 19 mortos só três ou quatro morreram de tiro, o resto morreu massacrado: nego levou tiro, foiçada, teve um que teve um pedaço de pau enfiado na testa. A maior parte dos ferimentos, tanto dos mortos como dos sobreviventes, foram nas pernas e nas costas, ou seja, você atira para impedir o cara de correr e depois dispara nas costas. Só descrevendo o laudo pericial você está sendo frio e ao mesmo tempo parcial.

Eu cobri guerras muito sangrentas e violentas, só em El Salvador, na América Central, eu tinha visto barbaridade igual. Na Guatemala, em Honduras, no deserto do Saara, na repressão à guerrilha urbana na argentina e uruguaia, não tinha visto nada igual. É como se não bastasse você matar o cara: você mata e destroça o cadáver. E todo mundo impune, ninguém fala mais disso. Isso foi absorvido não pela história, mas por essa estranha normalidade brasileira.

Trazendo para hoje esse cenário que você analisou, houve alguma mudança na questão agrária?

Uma coisa mudou, aquilo nos serviu de alerta, tanto que se você observar a repercussão foi brutal. O dia 17 de abril, no mundo inteiro, é o dia da luta pela terra. De uma certa forma, a repercussão impediu que os massacres continuassem naquela proporção. Agora, não mudou muito a situação fundiária não, o Lula não avançou como diz que avançou. Melhorou a situação global do Brasil, agora eu não sei se é uma melhora consistente, sólida e sustentável. A expansão do agronegócio, o envenenamento de água, de terra, de tudo, o transgênico, o agrotóxico, isso eu acho tenebroso. Não é por aí que você vai a lugar nenhum.

Qual a sua opinião sobre a CPI contra o MST?

Creio ser evidente que é uma ação da bancada ruralista, a defensora fundamentalista do agronegócio. Não vai levar a nada, não vai chegar a lugar algum, mas vai dar força para quem demoniza o MST em defesa do latifúndio e vê a reforma agrária como um risco para seus interesses particulares.

A gente podia caminhar agora pela América Latina, em termos culturais, dada a sua familiaridade com a literatura e a sua convivência com personalidades da região.

Eu acho que o Brasil, por tradição, é a teoria do tostines né? É isolado porque ignora, ou é ignorado por que se isolou? Se você for olhar de fora, você tem duas Américas,  a espanoamérica e a lusoamérica, quer dizer, o Brasil é quase que um continente lusitano. A semelhança entre um gaúcho e um maranhense é a mesma de um uruguaio com um guatemalteco. Você tem uma raiz cultural histórica comum, um idioma comum, uma identidade cultural comum, mas com características individuais próprias.

Eu fico pensando se o Brasil tivesse alguma vez se integrado na América Latina, teria sido um horror para os donos do mundo. Estou te falando de 200 anos atrás, imagina. Então sempre interessou, e o Brasil foi acostumado a viver primeiro de cara para a Europa e depois da guerra virada para Miami. Sempre olhando no espelho e buscando uma outra cara, não a própria cara.

Você diz a cúpula do Brasil?

Quem conduz o país. Houve momentos em que a gente quase aproximou. Antes do golpe de 64, sim, nos anos 50, na minha infância, eu ouvia no rádio bolero, tango, chá chá chá, eu ia no cinema e via Cantinflas. Quer dizer, mesmo sem saber se aquilo era do México, da Argentina, aquilo era a globalização e não pasteurização. Agora, evidentemente, houve um fator que despertou para o mundo o interesse na América Latina, e para os latinoamericanos também, que foi a revolução cubana. Aí não interessa se você está de acordo ou contra, mas foi uma coisa romântica, fantástica, Davi contra Golias.

Pouco tempo depois começaram os golpes, o primeiro foi o Brasil. Aí cortaram-se essas pontes por causa de Cuba, mas o reflexo cubano se deu em outros países, então vamos cortar tudo. Eu acho que conforme voltava a democracia para o Brasil, com a lei de anistia e essas coisas, através da música houve uma reaproximação com a américa espânica.

Essa onda mudou de patamar, hoje a integração é comercial, empresarial. Quer dizer, você tem negócios com o governo do Hugo Chávez, a Venezuela é um grande importador brasileiro, a gente importa alguma coisa deles. Você tem essa imprensa peculiar brasileira que qualquer coisa que o Chávez faça é errado, ninguém vai lá ver, ninguém tem idéia. Não estou defendendo o Hugo Chávez não, eu acho que ele tem de ser atacado e criticado por uma série de fatores, só que nenhum desses fatores aparece na imprensa brasileira.

Não tem nenhum esclarecimento do processo…

Lê o El Nacional, o El Universal de Caracas, os caras são de uma virulência contra o governo, como é que é isso? É aquilo que eu te disse, do jovem jornalista com uma visão velha, ele não quer saber como é que é, ele compra o clichê. Aí você não tem por que promover uma integração cultural, uma integração de identidade. Você só vai conhecer um outro povo e ser conhecido, através da sua forma de expressão, da sua identidade, que é a arte, é a cultura. Você vai conhecer o povo através da música, pelo cinema, e aí falta muitíssimo.

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Voltando para cultura, mas tem escritores brasileiros traduzidos consideravelmente pra fora…

Aos trancos e barrancos, e mal. Eu tenho muito mais acesso aqui à literatura feita na América espânica do que eu tenho em Buenos Aires ou no México da literatura brasileira. Claro que vem muita banalidade, muita porcaria, mas vem muita coisa boa. A gente não chega por causa desse isolamento que a gente se pôs, essa coisa meio superior do Brasil em relação aos vizinhos. Eu não sou cucaracho, então eu sou o quê? Suíço?

Em relação ao eurocentrismo na literatura, se deu aqui em função da colonização?

Não, em função de políticas de estado. Uma coisa que a gente esquece, é que países como Alemanha, França, Espanha, Itália, têm programas de apoio à tradução. Então você chega para um editora brasileira e fala: eu sou alemão, tenho essa lista de escritores, qual que você quer comprar, eu pago a tradução. Isso se chama política de estado de difusão da literatura, e o Brasil não tem.

Você tem de fazer um cálculo, quanto vai custar os direitos da obra, a tradução, quanto vai vender. Mas se eu chego lá e digo assim: está aqui o chequinho do consulado alemão e eu vou traduzir tal livro, pra ela já resolveu metade do caminho. Segundo, você tem toda uma tradição cultural voltada para o eurocentrismo, como você diz, ou para o que é muito pior, o miamicentrismo.

Você traduziu clássicos, não no sentido tradicional, mas autores que têm consciência crítica e uma abordagem humanista atemporal.

Ninguém conhecia o Galeano no Brasil, eu traduzi ele há 34 anos, foi a primeira vez que ele foi publicado. E por aí vai, tem muitos. Às vezes demora anos uma proposta de tradução, em geral não, é muito rápido, e eu fico muito feliz e muito tranqüilo. E te digo sem nenhuma prepotência, que eu contribuí muito sim para divulgar esses autores no Brasil. Hoje eu escrevo meus livros, faço minhas traduções e faço muitos trabalhos anônimos para pagar as contas.

Gostaria que você fizesse uma análise conjuntural da América Latina hoje, que está num processo…

Processo de fim de transição. Acho que é um processo de transição que começa pra valer com a crise argentina de 2000/01, o país faliu; com o fim do PRI no México em 2000; com a decadência do FHC no Brasil, naquela mesma época em 99, que é como se fechasse um ciclo do neoliberalismo, do autoritarismo e que aí vem num crescendo. Começa com a eleição do Kirschiner na Argentina, que coincide com a do Lula no Brasil, e que atinge o seu auge com a eleição do Rafael Côrrea no Equador e do Evo Morales na Bolívia. Você sai da água para o vinho, agora vamos fazer a mistura e o equilíbrio.

Eu acho que houve conquistas sociais fabulosas em muitos países, não só no Brasil não. Houve um cenário na economia internacional que pela primeira vez a América Latina soube se beneficiar, alguns países souberam: Uruguai, Peru, o Brasil, a Argentina.

Até a Bolívia que é paupérrima…

A própria Bolívia. Souberam aproveitar, eu acho que mudaram as utopias, mudaram os paradigmas, mas a gente avançou muito. A minha geração foi derrotada, em alguns países foi aniquilada, mas o sonho não. O sonho mudou, e se realiza sob muitos pontos de vista, não do jeito que a gente sonhava, mas do jeito que deu.

Você acha, então, benéfico esse quadro de lideranças?

Eu acho benéfico, e quero saber se vai durar. Há um risco enorme no Chile de um corrupto, ladrão, do resultado da corrupção do Pinochet, que é esse Piñera, ganhar (Piñera foi eleito depois da entrevista). Eu não estou falando por falar, há documentos. Não é um candidato a centro direita, não, um candidato do capital gerado na corrupção do Pinochet.

Isso seria um retrocesso tremendo, como foi um retrocesso a volta do Daniel Ortega à Nicarágua, não aquele Daniel que eu conheci há 31 anos, mas um Daniel completamente corrompido, arrogante, autoritário, ditadorzinho da pior laia. O México sempre na corda bamba, agora há um avanço no Uruguai com a permanência da Frente Ampla. Eu olho o cenário, se eu não te diria com otimismo, com muita atenção e muito interesse, acho legal. É tanta coisa para fazer, entendeu, mas eu acho que o cenário é muito melhor do que era há 20 anos atrás.

Tem alguma analogia com a época da sua geração, no aspecto cíclico?

Não, eu espero que não. Aliás, eu tenho a convicção que não. Pode haver um aspecto cíclico pontual num ou outro país, mas no continente como um todo, como era no meu tempo, um retrocesso geral não.

Honduras hoje não é um sintoma?

Honduras nunca foi um país bem estudado no Brasil, Honduras não existe. Sempre teve no poder o latifúndio, ou o latifúndio extremado teleguiado pelos Estados Unidos. A constituição hondurenha foi escrita em inglês por um escritório de advocacia em Washington. O Zelaya é um despropósito, mas era um despropósito legítimo. Honduras é simbólico, não representa grande coisa, pior é a situação na Nicarágua, sem dúvida. Eu não acredito em retrocesso global não, não tenho esse medo.

Postado: Fazendo media

Por Eduardo Sá, 12.02.2010

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José Saramago: “Sou um comunista hormonal”

Mais conhecido pela premiada e mundialmente conhecida produção literária, o escritor português revela suas outras facetas, construídas ao longo dos 86 anos de vida.

Alfonso Daniels

 

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Saramago: "Capitalismo era, capitalismo será"

Num bairro pitoresco de Lisboa, outrora de classe trabalhadora, uma casa branca simples de dois andares destaca-se entre as demais, marcada pela figura em cerâmica azul de uma bela jovem na fachada. Seu nome é Blimunda, personagem do romance Memorial do Convento, que deu fama mundial ao prêmio Nobel José Saramago, em 1987.
Dentro, o escritor de 86 anos, considerado o melhor autor vivo ao lado de Philip Roth por críticos literários como Harold Bloom, desce as escadas lentamente para uma rara entrevista de quatro horas ao Opera Mundi, em seu lar.
Poucos duvidam da genialidade literária, mas Saramago também é famoso pelas ferrenhas posições esquerdistas – recentemente, entrou em choque com o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, a quem chamou de "vômito", e por comparar os territórios palestinos com Auschwitz.
"Com a atual crise econômica, estão tentando salvar os bens, mas nada substancial vai mudar. Capitalismo era, capitalismo será", diz ele, prevendo que a extrema direita continuará a crescer na Europa. Sua única esperança parece ser o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. O escritor rejeita o venezuelano Hugo Chávez, que sofre com a "tentação perigosa do autoritarismo", segundo ele.
Critica também outros líderes da esquerda latino-americana, mas se diz fiel aos princípios comunistas, ainda que não veja neles nenhuma aplicação prática nos dias de hoje. “Sou um comunista hormonal, em meu corpo há hormônios que me fazem crescer a barba e outros que me fizeram ser comunista. Não quero me transformar em outra pessoa”.
Para facilitar a vida do repórter, que não fala português, Saramago concede a entrevista em espanhol, com voz muito fraca – consequência de uma doença respiratória potencialmente fatal contraída há dois anos. Mas as mãos estão em plena atividade e ele escreve com profusão.
Na próxima quinta-feira (25), apresentará seu novo livro, O Caderno, uma compilação das populares postagens em seu blog, nas quais ataca o papa e George W. Bush. E o escritor concluiu recentemente outro romance, que será publicado no outono. Terá cerca de 200 páginas e guarda uma surpresa, segundo ele.
Será o mais recente de inúmeros livros, sendo vários best-sellers e um transformado em filme: Ensaio sobre a Cegueira, do cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Um feito extraordinário, nas próprias palavras do escritor, para alguém nascido em 1922 numa aldeia pobre distante de Lisboa, no interior português. Um lugar onde, no mês passado, ergueram uma estátua sua na praça central, sentado num banco e, é claro, lendo um livro.

Infância bucólica
Saramago sorri ao lembrar da vida na pacata aldeia onde nasceu, Azinhaga, cerca de 100 quilômetros a nordeste de Lisboa. Ele passou grande parte da infância com os avós maternos, camponeses analfabetos que criavam porcos e moravam numa cabana com chão de terra e teto com goteiras. Seus pais mudaram para Lisboa em busca de uma vida melhor quando ele tinha dois anos, e o pai conseguiu emprego como guarda de trânsito. Mas isso não representou para Saramago uma ruptura com as raízes rurais.
"O mais importante foi não ter cortado os laços com o povoado. Todas as férias, eu passava lá. Chegava e a primeira coisa que fazia era tirar os sapatos e ficar com meus companheiros de aventura no rio, nos campos, nos olivais. E quando tinha de voltar para Lisboa, a última coisa que eu fazia era calçá-los, mas como o pé havia crescido nesse meio-tempo, entravam com alguma dificuldade", relembra, sorrindo.
O escritor gostava de sentar-se sob uma figueira para ouvir lendas e histórias de fantasmas contadas pelo avô Jerônimo. Para alguns, isso explica seu gosto pelo fantástico nos romances, escritos com a conhecida ausência de pontuação, mas ele descarta a ideia. "Não, nada, nada. Ele, como todos os avôs do mundo, contava histórias. Se, por contar histórias, os avôs fossem escritores, todos seriam escritores. Quanto a mim, não sei por que gostava de ler. Por sorte, havia a biblioteca municipal".
Como os pais não podiam pagar a escola, aos 13 ele estudou para se tornar mecânico. Trabalhou nas três décadas seguintes como serralheiro, numa metalúrgica e numa agência de previdência, publicando seu primeiro romance em 1947, sem sucesso. A partir de então, praticamente parou de escrever – ou assim pensou até o ano passado, quando descobriu caixas cheias de manuscritos daquele período que esquecera completamente.
Mas escrever não era o foco de Saramago na época. No fim dos anos 60, ele ingressou no Partido Comunista, tornando-se vice-diretor do recém-nacionalizado Diário de Notícias após a queda da ditadura fascista em Portugal, em 1974. Grande parte da desconfiança dos intelectuais portugueses em relação a Saramago vem desse período, pois ele supostamente expurgou do jornal todos que se opunham ao Partido Comunista, acusações que o escritor nega com veemência. Após ser demitido, finalmente dedicou-se à literatura para sobreviver. Logrou mais que isso.

Muito mais que uma esposa
Hoje, Saramago passa apenas alguns meses do ano em Lisboa. Sua residência permanente são as Ilhas Canárias, na Espanha, onde vive em exílio simbólico desde 1992, quando o governo português impediu que seu romance supostamente herético O Evangelho Segundo Jesus Cristo fosse indicado a um prêmio literário europeu.
Os relógios da casa nas Canárias estão ajustados para as quatro da tarde, hora em que conheceu a esposa Pilar del Rio, uma jornalista espanhola 30 anos mais nova com quem se casou em 1998. É a pessoa que o ajudou a descer as escadas, e que hoje ele considera seu verdadeiro lar (abaixo, foto dos dois em agosto de 2008, em Madri; crédito: EFE).

 

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Fonte: Opera Mundi - http://www.operamundi.com.br/

Comentários

Nem coroa, nem espinho

Aldo Gama

da Redação Brasil de Fato

image_miniTema do desfile da escola de samba Unidos de Vila Isabel no carnaval carioca de 2010, Noel Rosa chega ao centenário de seu nascimento com o reconhecimento do público, que independe do aval acadêmico ou da crítica

noel_rosa Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.

Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.

Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, Três apito” etc. E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.

A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.

 Brasil de Fato – Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?

noel_rosa_1 Luiz Carlos Leitão – Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”. A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam… Será que alguma coisa mudou neste século 21? O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.

Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?

Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel. Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente. Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.

Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?

A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.

 

noel_rosa_3 Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?

O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.

Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?

Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova). Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula. Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.

De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?

Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.

 noel_rosa_2 Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?

Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.

A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?

Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país. Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada. Por isso, para melhor responder a questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.

Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?

A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

 noel_rosa_7 Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?

A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada. Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas). Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal. É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical. A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média. Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.

 

 Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?

noel_rosa_4 Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante. Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime. Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade. Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.

No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?

São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo. Sem bravatas e sem alarde, ele semeava entre nós, com grãos de prosaica poesia, a cristalina convicção de que por trás das estrepitosas “revoluções” da década se impunha a sábia máxima do italiano Tomasi di Lampedusa, autor de “O Leopardo”, segundo o qual “é preciso mudar para não mudar”.

 

noel_rosa_8 Aracy de Almeida e Marília Batista costumam ser citadas como grandes intérpretes de Noel. O senhor concorda? Que outros cantores ou obras merecem ser citadas?

Sem dúvida, entre os intérpretes contemporâneos do artista, Aracy e Marília foram fundamentais, sobretudo pela amizade desinteressada que devotaram a Noel. Francisco Alves, por exemplo, também gravou muitas canções do Poeta, mas o caráter mercantil das relações que ele estabelecia com os artistas populares é uma nódoa indelével em sua biografia. Aracy, aliás, foi quem mais se empenhou em difundir o trabalho do amigo após sua morte, quando este ficou relegado a um triste período de ostracismo. Contudo, há muitos outros intérpretes que souberam cantar com graça e maestria as criações de Noel, especialmente nas últimas décadas do século 20. É o caso do sambista João Nogueira, que possui uma gravação genial de “Não tem tradução”, ou da grande cantora Maria Bethânia, cujo registro de “Três Apitos” é comovente. A própria mangueirense Beth Carvalho gravou uma ótima versão de “Onde está a honestidade”, que me soa bastante bem-humorada com sua voz.

Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?

Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas. Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”. Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência). Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.

noel_rosa_5 Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?

Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe. Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”). Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.

A morte prematura moldou a imagem de artista boêmio e romântico ou sua vida pessoal não se misturou a seu trabalho?

É impossível dissociar a vida e a obra de Noel, embora, por variados motivos, muitos insistam em destacar apenas o “boêmio” e o “romântico”, esquecendo deliberadamente a veia crítica implacável do compositor. Assim como ocorre na apreciação de um texto literário, as interpretações de um signo dependem não só do significante, mas, sobretudo, de quem dele se apropria, tanto quanto da época e do contexto em que isso ocorre. É por isso que me preocupei em consignar como subtítulo de “Poeta da Vila, Cronista do Brasil”, pois Noel não cantou apenas as dores de amor e a boemia, mas também soube retratar como poucos as contradições de nossa desvalida pátria-mãe. Vale a pena ilustrar o comentário com uma observação que faço na abertura do livro. No largo do Maracanã, próximo à UERJ, divisa do bairro de Noel (uma área na qual, por influência direta da Universidade, os bares – e não as livrarias – encontram seu porto seguro e prosperam à mancheia), há uma simpática estátua do artista, em que este aparece sentado junto a uma mesa de bar, servido por um elegante garçom, numa ilustração do clássico “Conversa de Botequim”. Uma obra bem despojada, como tem sido praxe nas homenagens a artistas como Drummond, Dorival Caymmi, Cartola e outros mais. O curioso nesse caso é que, conforme me observou um confrade vila-isabelense, em vez da “boa média”, do “pão bem quente com manteiga à beça” e do “copo d’água”, aparecem sobre a mesa, além de isqueiro e cigarros, um copo e uma garrafa de cerveja, que, não por acaso, anunciam nossa entrada no festivo bairro da Zona Norte do Rio. Como se vê, o escultor, valendo-se da suposta “liberdade” de que goza, não hesitou em alterar a cena a fim de realçar, sem demérito dos demais dotes do artista, essa faceta deveras “etílica” do personagem mais ilustre da Vila (e que os donos dos inúmeros bares locais, por razões afetivas e/ou comerciais, tratam de cultivar com razoável zelo).

É correta a afirmação de que Noel foi o primeiro “pop star” brasileiro?

Eu não subscreveria tal conceito. A expressão “pop star” ganha maior relevância somente na “sociedade espetacular” da segunda metade do século 20, não sendo, a meu ver, adequada para aqueles artistas que protagonizaram os anos dourados da “era do rádio”, em que a indústria cultural ainda aperfeiçoava os mecanismos com os quais iria tornar-se uma das maiores corporações da era pós-moderna do capital. Além do mais, apesar do reconhecimento em vida, Noel logo cairia em relativo ostracismo após sua morte, sepultado no jazigo de esquecimento do Estado Novo. Houve, por sinal, outros nomes que gozaram de mais prestígio nessa época, entre eles Francisco Alves, Orlando Silva e as famosas “rainhas do rádio” – Marlene e Emilinha – , que arrastavam multidões aos estúdios da Rádio Nacional. De minha parte, prefiro dizer que Noel, assim como Ismael, Pixinguinha e outro mais, foi, essencialmente, “um bamba na periferia da modernidade”.

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Éric Toussaint: Para além do Fórum Social Mundial, a Quinta Internacional

Leia aqui entrevista do militante da IV Internacional Éric Toussaint sobre o Fórum Social Mundial realizada pelo jornal Brasil de Fato

Por Igor Ojeda
Brasil de Fato

image_preview O cientista político Éric Toussaint, um dos integrantes do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM), é um dos defensores da proposta de que o espaço se torne uma plataforma de maior incidência política nas lutas sociais pelo mundo. No entanto, ele não se preocupa muito com a resistência de certos setores integrantes do FSM, que querem manter o evento no seu formato original. Para ele, a solução é simples. “Se o Fórum não permite isso, deve-se construir outro instrumento, não eliminando o Fórum”.

Em  conversa com o Brasil de Fato, Toussaint, presidente do Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM) da Bélgica, defende um diálogo entre movimentos e partidos sobre o chamado do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, para a criação de uma Quinta Internacional. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a crise econômica mundial, iniciativas de integração do continente latino-americano e a ascensão dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) no cenário internacional, potências que, na sua avaliação, não são uma alternativa progressista à antiga ordem. “O que buscam é negociar com os velhos imperialismos seu lugar na divisão internacional dos poderes, do trabalho, da economia mundial e do acesso aos recursos naturais”.

Brasil de Fato – Como o senhor avalia as duas visões distintas expostas no debate de abertura do Fórum Social Mundial. Ou seja: a de que um lado propôs o “uso” do Fórum como uma plataforma política com mais poder de ação e de incidência política, e o outro que defendeu que o evento se mantenha com seu formato original, como espaço de troca de ideias?
Éric Toussaint –  Precisamos de um instrumento internacional para determinar prioridades em termos de demandas, objetivos. Um calendário comum de ação, um elemento de estratégia comum. Se o Fórum não permite isso, deve-se construir outro instrumento, não eliminando o Fórum. Penso que ele tem sua razão de existir, tem suas vantagens, mas se um setor não quer uma evolução rumo a transformá-lo em um instrumento de mobilização, é melhor constituir outro instrumento entre as organizações e indivíduos que estão convencidos que precisamos disso. Isso não impediria continuar parte ativa do Fórum. Digo isso para evitar uma cisão, um debate sem fim que paralisa mais que ajuda. Está claro que há um setor que prefere manter o caráter de Fórum de discussão, de debate, e não de instrumento de ação.

Brasil de Fato - E é um setor bastante forte, não?
Toussaint - Sim. De algum modo, é uma parte do núcleo histórico que convocou a criação do Fórum.  Mas nem todos do núcleo histórico, porque o MST também fez parte dele. Nós também: o CADTM é parte do Conselho Internacional do Fórum desde sua criação, em junho de 2001. Mas é evidente que as organizações como o Ibase, e personalidades como Chico Whitaker e Oded Grajew se opõem à evolução rumo a um instrumento de luta. A coisa que me preocupa é chegar em Porto Alegre e ver que o seminário “10 anos depois” é patrocinado por Petrobras, Caixa, Banco do Brasil, Itaipu Binacional, e com forte presença de governos. Isso obviamente me preocupa. Eu preferiria muito mais um Fórum com muito menos apoio financeiro e mais militante. Podemos nos apoiar nas forças voluntárias militantes, alojamento em casa de militantes, ou no campo, com sua infra-estrutura, escolas…

Brasil de Fato - E que novo instrumento seria esse a que o senhor se refere?
Toussaint - Há uma proposta que, na verdade, teve relativamente pouca repercussão. É o chamado que o Hugo Chávez fez no fim de novembro para a criação de uma Quinta Internacional, reunindo movimentos sociais e partidos de esquerda. Penso que a proposta é, em princípio, muito interessante. Poderá ser uma perspectiva se houver uma reflexão, um diálogo entre partidos e movimentos sociais: uma Quinta Internacional como instrumento de convergências para a ação e para a elaboração de um modelo alternativo. Mas, do meu ponto de vista, não seria uma organização como as internacionais anteriores, que eram – ou ainda são, pois a Quarta Internacional continua existindo – organizações de partidos com um nível de centralização bastante elevado. Acho que a Quinta Internacional não deveria ter um grande nível de centralização e não deveria implicar na auto-dissolução das redes internacionais. Estas poderiam aderir a uma Quinta Internacional mantendo suas características, mas tal adesão seria uma mostra de todas as redes ou grandes movimentos nacionais de que têm vontade de irem mais além de frentes pontuais como a Cúpula do Clima de Copenhague, soberania alimentar, dívida…
Temos bandeiras comuns entre muitas redes, e isso é positivo. Mas, se fosse possível conseguir se chegar a um nível de frente permanente… Com essa expressão, talvez eu esteja dando um elemento de definição. Para mim, a Quinta Internacional seria, na situação atual, uma frente permanente de partidos, movimentos sociais e redes internacionais. O termo “frente” implica, claramente, que cada um manteria sua identidade, mas daria prioridade ao que une para alcançar determinados objetivos em comum e fazer avançar a luta.
Os últimos meses foram uma nova demonstração da necessidade de aumentar a capacidade de mobilização, porque a mobilização contra o golpe de Honduras foi totalmente insuficiente. É preocupante, porque, como os EUA apoiaram o golpe, legitimando as eleições, forças golpistas de todo o mundo estão considerando que essa é novamente uma opção razoável. No Paraguai, por exemplo, a discussão dos golpistas é “para quando? Como?”. Mas estão convencidos de que é preciso executar um golpe a partir do Congresso Nacional contra Fernando Lugo. Então, isso mostra que a mobilização em relação à Honduras foi insuficiente, mas também em relação a Copenhague e, agora, ao Haiti. A resposta à intervenção dos EUA no Haiti é totalmente insuficiente.

Brasil de Fato - Então o senhor acredita que é possível, em uma Quinta Internacional, conciliar em torno de ações políticas comuns as distintas correntes de esquerda que formariam essa nova organização?
Toussaint - Sim, penso que é necessário começar com um diálogo consultivo para tentar chegar a esse resultado. Não podemos nos precipitar. A Quinta Internacional, para ser algo realmente efetivo , tem que ouvir e reunir uma quantidade muito significativa de organizações. Fazer uma Quinta Internacional com uma pequena parte do movimento não valeria a pena. Seria matar o projeto ou limitá-lo. Abrir a perspectiva de debate sobre isso me parece muito necessário.

(Leia mais na edição 361 na edição impressa do Brasil de Fato, que já está nas bancas)

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Violência e criminalidade preocupam eleitores, revela pesquisa

ilustra A violência e a criminalidade desbancaram o desemprego como principal problema do País. Isso é o que mostra a pesquisa CNT/Sensus, divulgada nesta segunda-feira.
No levantamento feito em janeiro junto a 2 mil entrevistados, a violência foi citada como o problema que mais incomoda, por 22,9% das pessoas.
Na primeira edição da pesquisa, feita em março de 1998, o principal mal do País era o desemprego, citado, na época, por 57% dos entrevistados. Já em janeiro passado, apenas 19% mencionaram o desemprego.
Por outro lado, aumentou a percepção de que a corrupção cresce no País. Se em setembro de 1998, 56% dos entrevistados avaliavam que a corrupção crescia, em janeiro passado, 69,4% manifestaram essa opinião.
Escolha do candidato
A pesquisa também captou uma mudança de postura dos eleitores na definição do voto. Segundo o levantamento, 55,5% disseram que o que mais levarão em conta na hora de escolher o próximo presidente é a opinião própria. Em julho de 1998, a opinião de amigos e familiares preponderava, mencionada por 30% dos entrevistados. Para a próxima eleição, apenas 14,2% dos entrevistados disseram que o que vão levar em conta é a opinião de terceiros.
A imprensa também teve reduzido o seu papel na formação do voto. Em julho de 1998, 24% diziam que levavam em conta o que viam na televisão para votar. Esse porcentual caiu para 13,8% em janeiro passado. Já no que se refere aos jornais, o porcentual dos que dizem que o que mais levam em conta é o que está publicado, caiu de 10%, em julho de 1998, para 3,9% no mês passado. Já a propaganda eleitoral gratuita, que influenciava 14% dos entrevistados, em 98, caiu para 6,3%. (Agência Estado)

NOTA DO IZB: A mais notável queda de credibilidade junto aos eleitores vem sendo apontada contra a TV e os jornais, sendo que estes últimos viram sua credibilidade ser reduzida a pó. Muitos atribuem a queda dos jornais ao crescimento da Internet, mas os jornais de TV e impressos vem perdendo credibilidade também pela manipulação grosseira das notícias, em favor de grupos econômicos e setores da elite política brasileira. Bem diziam os manifestantes das ‘Diretas Já’ em 1984: "O povo não é bobo, fora rede Globo!".

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“Devemos buscar uma revolução midiática”

 

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Por Tatiana Merlino, Cristiano Navarro*, Igor Ojeda* e Nilton Viana* (*)

O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa e, consequentemente, aos donos do mundo, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Como los médios ocultan el mundo”, lançado no ano passado.

“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação. Criar seus próprios meios, em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.

Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?

Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo.

Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa. Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa.

Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas.  Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam.

Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante , mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra. E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro. Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense. Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro.

No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário. Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.

Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?

O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão.

Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem. Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China. Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.

Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?

Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana.

A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem. Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual. Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.

Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira. Como é esta articulação?

Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia. Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas.

Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público. A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!

Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?

Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação.

Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados.

Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela. O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!

Como é possível se contrapor a este poder?

Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz.

Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.

Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?

A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível. Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.

Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?

É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.

* Do jornal Brasil de Fato.

(*) Entrevista publicada originalmente no sítio da revista Caros Amigos.

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“Continente precisa de novo ciclo de lutas”

 

Para o jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi, a América Latina deve se preparar para conter as investidas do Império para desestabilizar experiências à esquerda

Dafne Melo

da Redação Brasil de Fato

Em 2009, o continente latino-americano viu um golpe de Estado em Honduras e assistiu um de seus países, a Colômbia, entregar sete bases militares aos Estados Unidos. Mas também viu uma vitória eleitoral acachapante de Evo Morales na Bolívia e um certo fortalecimento da articulação de espaços continentais de integração, como a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) e a União das Nações Sul-americanas (Unasul).

Para o ano que vem, um dos temas mais sensíveis da conjuntura latino-americana será certamente as relações entre Colômbia e Venezuela que, não por acaso, estão sob o comando dos presidentes mais radicalizados: Hugo Chávez, idealizador do projeto da Alba, de um lado, e Álvaro Uribe, maior aliado do Imperialismo estadunidense na região, do outro.

Para o jornalista e escritor uruguaio Raúl Zibechi, editor do jornal Brecha, dificilmente se verá uma guerra no sentido clássico – exército contra exército –, mas sim uma tentativa, por parte dos Estados Unidos, de desestabilizar, aos poucos, o governo Chávez, e, de quebra, o projeto bolivariano. “Ou seja, uma guerra de baixa intensidade para sangrar a Venezuela aos poucos, ameaçar sua estabilidade politica e econômica para criar as bases de una fratura social ainda maior”, analisa Zibechi. Segundo ele, toda essa estratégia conta com a cumplicidade colombiana, que tenta amenizar a presença estadunidense usando como justificativa as “tradicionais” desculpas: combate ao narcotráfico e à guerrilha.

A julgar pelo papel dos Estados Unidos em Honduras, o projeto bolivariano parece ser mesmo o alvo. Ainda que tenha feito todo um jogo de cena, não resta dúvidas de que o golpe de 28 de junho contou com apoio do Departamento de Estado. “Os Estados Unidos não podem se suicidar. Sua hegemonia mundial e regional está em declive, há uma evidente deterioração dessa hegemonia. Para evitar isso, para tornar lenta a inevitável queda, acredito que eles têm que ganhar força no seu quintal, impedir que existam países que possam vir a escapar de seu controle”, avalia. Leia, a seguir, a entrevista com o militante uruguaio.

Brasil de Fato – Nos últimos meses, houve um golpe de Estado em Honduras, relatos de tentativas de golpes na Nicarágua, Guatemala e Paraguai, além da oficialização do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos. Há uma contra ofensiva da direita na América Latina?

Raúl Zibechi – Há um claro avanço da direita em toda a região. A direita se sente animada ao ver que Barack Obama não mudou o fundamental na atitude dos EUA em relação à América Latina. Por outro lado, há um esgotamento dos governos progressistas na região. Na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, ninguém espera mudanças de fundo pela via eleitoral neste momento. Minha impressão é que nesses países a direita avança, porque tem crescido no aspecto econômico e social: avanço do agronegócio, nos meios de comunicação monopolistas, do modelo extrativista. Ou seja, a direita avança onde os governos têm dado facilidades às transnacionais e às classes dominantes. Nem todos os problemas vêm do imperialismo, mas também da vontade dos ditos governos progressistas de desmobilizar as sociedades.

Você acredita que há diferenças entre as políticas para a América Latina entre os governos Obama e Bush?

Poucas. Há um discurso mais aberto, há um maior jogo com as palavras, como fez Obama em Oslo ao receber o Nobel da Paz, onde falou de sua simpatia pelos oprimidos. Mas, na realidade, seu governo apoiou os golpistas em Honduras e a instalação das sete bases na Colômbia. Isso marca uma direção de maior presença militar, de resolver pela via autoritária os conflitos sociais e políticos.

Como explicar o papel dos EUA em Honduras? O reconhecimento das eleições por parte deles é a consolidação do golpe?

Os Estados Unidos não podem se suicidar. Sua hegemonia mundial e regional está em declive, há uma evidente deterioração dessa hegemonia. Para evitar isso, para tornar lenta a inevitável queda, acredito que eles têm que ganhar força no seu quintal, impedir que existam países que possam vir a escapar de seu controle. A América Latina é chave nesse sentido, já que fornece de 25 a 30% do petróleo que os EUA importam. Existem matérias-primas chaves: ouro, prata, lítio… mas, para além disso, há uma rica biodiversidade para construir novas mercadorias na área de biotecnologia e nanotecnologia. Isso impõe controle, domínio territorial direto. Vamos a um período muito duro, de confrontação militar e de ameaças contra as quais somente a Venezuela está se preparando e, em alguma medida, o Brasil.

Com o reconhecimento das eleições hondurenhas pelos EUA, que saídas ficam para o povo hondurenho? Que consequências traz para o continente a consolidação de um golpe de direita?

Só um levantamento popular, como um grande Caracazo [levante popular na capital venezuelana em 1989, contra medidas neoliberais do governo de Carlos Andrés Perez) ou como em El Alto, na Bolívia [cidade que fez levantes contra privatização do gás e da água em 2003 e 2005, respectivamente] pode alterar o cenário. Mas, a curto prazo, não vejo força social em Honduras, país que vem de um longo processo de militarização.

O conflito entre Colômbia e Venezuela é o lado mais sensível da conjuntura hoje? Acredita que há riscos de um conflito aberto entre estas nações?

Acredito que sim, mas não uma guerra entre dois exércitos, mas algo pior: uma situação de desgaste como a que sofreu a Nicarágua depois da Revolução Sandinista. Ou seja, uma guerra de baixa intensidade para sangrar a Venezuela aos poucos, ameaçar sua estabilidade politica e econômica para criar as bases de una fratura social ainda maior. Isso levaria, segundo creem os estrategistas do Pentágono, à derrota de Hugo Chávez ou a um regime mais autoritário que estaria muito isolado em um contexto internacional cada vez mais à direita.

É do interesse dos Estados Unidos aumentar as tensões entre os dois países?

Sem dúvida. Acredito que os Estados Unidos apostam na polarização, no desgaste duro de Hugo Chávez. A via da tensão é a melhor para seus interesses.

Entre os fins de 2009 e 2010, diversos países – Chile, Uruguai, Bolívia, Brasil, Colômbia – escolheram ou escolherão seus presidentes. Como o campo institucional pode alterar a conjuntura?

Acredito que o ponto crítico é o Brasil. Como disse o sociólogo Chico de Oliveira, não há nada em jogo nessas eleições porque as diferenças entre PT e PSDB são cada vez menores. Mas acredito que se o PT perder será um sinal de direitização de toda a região, um claro sinal do avanço da direita. Acredito que é um cenário similar ao do Chile: é difícil de engolir alguém como Eduardo Frei Ruiz-Tagle [da Concertação, aliança entre o Partido Socialista e o Partido Democrata-Cristão] só porque o candidato da direita é pior. Quando governou o país [entre 1994 e 2000], Frei privatizou, houve corrupção, reprimiu os mapuche. O que pode ser pior que isso? Mas os “progressistas” no poder sempre usam esse argumento de que pior que eles é a direita. Acredito que é necessário começar a dizer que “o mal menor” não é bom argumento.

Diante das dificuldades, como fortalecer os caminhos alternativos para o continente? Qual seria esse caminho?

Acho que estamos diante de uma encruzilhada histórica da qual só poderemos sair com um novo ciclo de lutas. É mais ou menos a posição do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): não é bom brigar para saber se vamos votar em Lula ou José Mujica [eleito recentemente presidente do Uruguai] ou se não votamos neles. Isso é secundário. O decisivo é sermos capazes de organizar, mobilizar e criar uma nova correlação de forças que saia das ruas, o que só acontece hoje na Bolívia. A principal dificuldade para isso é a falta de clareza política e ideológica, a confusão que tem introduzido o Bolsa Família e todos esses programas que alguns consideram como conquistas mas que na realidade são formas de controlar os pobres, enquanto se militarizam as favelas e se continua a beneficiar o agronegócio.

Nesse sentido, qual sua avaliação sobre algumas iniciativas de integração como a Alba, Unasul, Conselho de Defesa da América do Sul etc?

Simpatizo mais com a Alba do que com Unasul. Acredito que a integração tem que ser feita rompendo-se com o livre mercado. E acredito que América do Sul deve defender-se do Império. Como se vê, há uma contradição: os governos progressistas mostram essa faceta mais na política internacional do que internamente, mas isso também é importante, porque a conjuntura internacional condiciona muitas outras coisas.

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Entrevista com Evo Morales: Uma Bolívia em combate permanente contra o capitalismo

 

Pedro de la Hoz *

Adital - Tradução: ADITAL

O homem que está diante de mim nesta manhã de janeiro conta que, em 1971, quando tinha 14 anos, no ‘ayllu’ (área demarcada camponesa indígena), onde cresceu, houve uma seca persistente.

Evo Morales "Minha família tinha somente um saco de milho. Não nos faltava a carne de llama e de ovelha, mas era o único que tínhamos. Meu pai decidiu tirar-me da escola e fui com ele e mais umas cinquenta llamas buscar mais milho no outro extremo do país. Viajamos sempre a pé durante uma semana desde nossa terra, Orinoca, até oruro e, de lá, caminhamos uma semana mais até a região do vale. Um dia, chegamos à estrada que liga Oruro a Cochabamba e quando atravessávamos passou um ônibus; os passageiros jogavam cascas de laranja pelas janelas. Nós as recolhemos e as comemos. Em nossa região chegava uma laranja por ano e os três irmãos disputávamos cada pedacinho. Desde então, meu grande desejo foi poder um dia viajar naqueles ônibus, jogando cascas de laranja pela janela".

O testemunho revela tanto a origem como a sensibilidade de quem, de maneira oficial, no dia 22 de janeiro tomará de novo posse como primeiro mandatário de seu país: a Bolívia.

Em 2005, ganhou com 53,7% as eleições gerais e converteu-se no primeiro indígena a encabeçar um governo nessa nação sulamericana. Quatro anos depois e após ter lutado ingentes batalhas pela dignificação dos seus e vencer ataques ingerencistas, divisionistas, desestabilizadores e até um plano terrorista urdido pela oligarquia e pelo imperialismo estadunidense, obteve nas urnas no passado 6 de dezembro o respaldo de 64,22% dos eleitores que o validam para o mandato presidencial de 2010 a 2015.

Evo nos recebe no Palácio Quemado, sede do Executivo, no centro de La Paz, em frente à Praça Murillo. Como é habitual, veste uma ‘chompa’ e irradia simplicidade no tratamento. Tem diante de si uma agenda carregada de compromissos e deve despachar assuntos urgentes; porém, sempre organiza tudo de maneira a satisfazer as exigências de um breve questionário.

- Como o senhor interpreta a amplíssima votação recebida por vocês e pelos candidatos do Movimento ao Socialismo (MAS), Instrumento Político pela Soberania dos Povos, nas eleições do 6 de dezembro?

Evo: Ganhamos com 64,22% dos votos; porém, se fosse permitido que as crianças votassem, estou certo de que uns 75 ou 80% da população teria nos respaldado. Somente estavam contra pequenos grupos de oligarcas; de latifundiários, que ainda existem; de caciques, que não querem ao povo e nem à sua pátria. E somente querem a pátria por interesse próprio. Aproximam-se do povo somente para explorá-lo.
Esse processo aconteceu com muita força, apesar das dificuldades que tivemos para socializar as ideias por falta de acesso aos meios de comunicação. Porém, mais cedo do que tarde, o povo boliviano aprendeu a expressar-se e a manifestar sua verdade democraticamente de maneira legítima e com muito sentimento humano, com muita consciência social. A isso deve-se o triunfo.
Desde 2005 até essas eleições essa demonstração da vontade popular tem crescido. É como uma locomotiva. E essa é a qualidade dos princípios desse movimento político de libertação, de reivindicação; porém, também, de questionamento a um modelo que tanto prejudica a humanidade. Nossa orientação ideológica defende a vida; defende a Mãe Terra. Portanto, é um movimento político do povo pensado, primeiramente, para resistir; depois, para derrotar o capitalismo.
Isso foi dito claramente na campanha. Somos sinceros. Não vamos fazer concessões de princípios somente para captar votos. Não temos que comprar votos, como fazem outros partidos. Essa mensagem contra o capitalismo a proclamamos e o voto de mais de 64% foi por um projeto anticapitalista.

- O respaldo é somente quantitativo ou tem um componente qualitativo?

Evo: Os que votaram a nosso favor o fizeram com a consciência de que promovemos dignidade, uma ética no governo, um compromisso de luta contra a pobreza e a exclusão. Votaram sabendo que nos pronunciamos contra a ingerência do imperialismo. E, claro que votaram pela unidade da Bolívia; esse país que certos elementos separatistas tentaram prejudicar, ao ponto de urdir um plano terrorista para atentar contra a vida.
Os que votaram a nosso favor o fizeram também pela honestidade e pela transparência.

- O que o senhor sente quando submete suas ideias e projetos ao voto popular?

Evo: Creio na democracia participativa. Os que cremos nesse conceito de democracia, que nada tem a ver com as práticas dos neoliberais e nem com a demagogia, não temos medo de expor nossas ideias. Mas existem outros que, sim, têm medo das mudanças que estamos gerando a partir do governo, mudanças respaldadas pela maioria dos bolivianos/as.

- Durante a campanha, pulsaram novos sentimentos entre as pessoas?

Evo: Percorri todo o país várias vezes durante o primeiro mandato. Portanto, não foi algo novo fazê-lo durante a última campanha. Foi muito estimulante para mim verificar como nossa mensagem se estendeu até lugares tradicionalmente manipulados pela oligarquia; como os jovens, as mulheres, os profissionais de classe média nos aceitaram como a única alternativa válida para desenvolver o país e construir uma sociedade inclusiva, com verdadeiras oportunidades para todos. Porque em nosso programa foram levadas em consideração todas as propostas possíveis.

- Em que medida a nova etapa de governo aprofundará a transformação do país?

Evo: Primeiro, quero recordar o que me aconteceu há alguns anos. Em uma oportunidade, apesar de que estava de passagem, não me deixaram entrar em um hotel em Sapahaqui, a 57 km de La Paz. Quando me explicaram as razões, soube que naquele momento ali estava acontecendo uma reunião na qual o então candidato presidencial Gonzalo Sánchez de Lozada escutava a um grupo de assessores estadunidenses para elaborar seu programa de governo. Como vês, antes, os governos neoliberais escutavam recomendações de assessores estrangeiros para elaborar seus programas; enquanto que hoje recolhemos as reivindicações e sugestões do povo em todas as regiões para construir uma proposta que fortaleça um processo de mudança que beneficie a todos os bolivianos e não a setores privilegiados. Contamos com uma nova Constituição Política, aprovada por referendo popular, em janeiro de 2009. A Assembleia Legislativa Plurinacional tem diante de si, como tarefas intransferíveis, a aprovação de leis que, inspiradas nessa Carta Magna, aplainem o caminho de nosso processo.

- O senhor acredita totalmente na fortaleza do Instrumento político?

Evo: Em sua origem, o MAS partiu de um dos setores mais abandonados, mais desprezados, mais vilipendiados: o setor camponês indígena. Na realidade, o que fundamos em 1995 foi o Instrumento Político pela Soberania dos Povos. Porém, como o movimento tinha que ser legalizado, usamos as siglas de um partido pequeno que já estava formalizado no registro eleitoral. Esse novo movimento propõe um novo país, com novos procedimentos políticos e ideológicos; um novo programa de governo e também com novos atores: os movimentos sociais.
Buscamos um novo modelo0 de país, com dignidade, com igualdade, com humanismo, com unidade, com solidariedade, com reciprocidade e, sobretudo, com complementaridade. E isso tem sido compreendido e apoiado cada vez mais pela sociedade boliviana.

- O senhor foi surpreendido pelo domínio dos dois terços dos lugares na nova Assembleia Legislativa Plurinacional?

Evo: Eu sabia que conquistaríamos os dois terços da Assembleia. Se essa mesa onde estamos agora tivesse boca falaria dos cálculos que fizemos aqui mesmo. Com os deputados, não teríamos problemas para garantir a ampla maioria. Porém, ao dar seguimento à possibilidade de ter esses dois terços no Senado, percebemos semanas antes que poderíamos obter entre 24 (no pior dos casos) e 28 lugares (no melhor dos casos). O que aconteceu, por fim, foi a média dessas estimativas: conquistamos 26.

- Como o senhor vislumbra a Bolívia da próxima década?

Evo: A Bolívia não seria vista no futuro como o último ou penúltimo país da América do Sul. Uma Bolívia onde os direitos humanos sejam respeitados pelo Estado Plurinacional. Que garanta ao cidadão habitação, educação, saúde, água, energia, direitos humanos. E alto tão sagrado como a alimentação. Lutamos pela soberania alimentar.
Uma Bolívia em combate permanente contra o capitalismo. Será uma luta longa a médio ou largo prazo. Porém, sinto que estamos muito bem posicionados junto a outros países onde se gestam processos de emancipação.
P resultado das eleições nos obriga a redobrar responsabilidades, para atender demandas. Porém, também para corresponder a esse sentimento libertador de nosso povo.

* Granma

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Conciliar Plano de Direitos Humanos com o interesse das Forças Armadas é “inaceitável”

Gabriel Brito é jornalista.

Escrito por Gabriel Brito, da Redação

Correio da Cidadania

200110_nelson_jobim Em extensa entrevista ao Correio, o jornalista e ex-militante da Ala Vermelha Alípio Freire aponta o ministro da defesa como nefasto defensor do interesse em tapar a história. A respeito do PNDH 3, diz ser importante instrumento de aprofundamento da democracia, não apenas no que se refere a jogar luzes sobre o passado, mas também no que concerne às atuais lutas por um Brasil igualitário. E sobre a tentativa de se obstruir o debate completo, assinala que todas as entidades envolvidas estão apoiando, primeiro, a existência do plano, para depois tratarem de discuti-lo com a sociedade. Como exemplo, a própria igreja, contrária ao aborto, mas a favor da instauração completa do PNDH 3.

Lançado nos estertores de 2009, o 3º. Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) ganhou corpo no debate público apenas no início deste ano. Atacado pela mídia grande por todos os lados, o ponto nevrálgico do plano indiscutivelmente foi a idéia de se criar uma ‘Comissão da Verdade’ a fim de investigar e elucidar os crimes cometidos por agentes da ditadura que transcorreu de 1964 a 1985.

Em extensa entrevista ao Correio da Cidadania, o jornalista e ex-militante da Ala Vermelha Alípio Freire aponta Nelson Jobim, ministro da Defesa, como nefasto defensor dos interesses em tapar a história por parte das Forças Armadas. Além de lembrar de suas articulações para ocupar o atual cargo, lembra que o Jobim, antes de tudo, é um fraudador da Constituição, que, nas discussões do plano, atropelou os três poderes da república, o que culminou na retirada do termo ‘repressão política’ do texto do plano.

A respeito do PNDH 3, diz ser um importante instrumento de aprofundamento da democracia nacional, não apenas no que se refere a jogar luzes sobre o passado, mas também no que concerne às atuais lutas por um Brasil igualitário. E sobre a tentativa de se obstruir o debate completo, assinala que todas as entidades envolvidas estão apoiando, primeiro, a existência do plano, para depois tratarem de discuti-lo com a sociedade. Como exemplo, Alípio fala da própria igreja católica, contrária ao aborto, mas a favor da instauração completa do PNDH 3.

A entrevista completa pode ser conferida a seguir.

Correio da Cidadania: O que o senhor pensa do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, anunciado pelo governo no final de 2009?

Alípio Freire: Em primeiro lugar, acho muito bom, com muitas coisas que há tempos são reivindicadas por parcelas de nossa sociedade. Este plano é mais completo que os dois anteriores, pois busca contemplar também direitos e necessidades econômicas e sociais. Portanto, vejo um grande avanço.

Pela forma como é conduzido o processo, com os representantes de diversos setores da sociedade civil, dos direitos humanos, mulheres, negros, homossexuais, movimentos organizados dos trabalhadores, será fantástico se conseguirmos aprová-lo.

Mas tem um capítulo, que gerou a crise criada pelo senhor Jobim, que é a questão do julgamento e responsabilização de torturadores da ditadura. Esse é o grande mote da atitude do Jobim no final do ano passado.

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Haiti, que ajuda?

OMAR RIBEIRO THOMAZ
OTÁVIO CALEGARI JORGE
ESPECIAL PARA A FOLHA, EM PORTO PRÍNCIPE

O TERREMOTO no Haiti, que afetou de forma particularmente arrasadora sua capital, foi há cerca de uma semana. O pouco de um Estado já frágil foi destruído, a missão das Nações Unidas foi incapaz de ir além de resgatar seus próprios mortos e feridos, a ajuda internacional tarda, e o que vemos são haitianos ajudando haitianos.
Entre quarta-feira e sábado, caminhar pelas ruas do centro de Porto Príncipe e de Pétionville era observar o civismo dos haitianos que, muitas vezes, e como nós, sem entender claramente o que havia acontecido, procuravam cuidar dos feridos, resgatar aqueles que ainda estavam vivos sob os escombros, e dispor de seus mortos. O que vimos foi, de um lado, solidariedade, de outro a ausência quase que total e absoluta das forças da ONU e da ajuda internacional.
Por quê? Afinal, a Minustah não estava no Haiti há cerca de seis anos e não dizia estar agindo no sentido de estabilizar o país e reconstruir o Estado haitiano? Quando nos perguntávamos do porquê da demora de disponibilizar comida e remédios já no aeroporto de Porto Príncipe para as centenas de milhares de pessoas que se aglomeravam nos campos de refugiados improvisados por todos os lados, a resposta era que não existiam canais locais capazes de serem mobilizados para a tarefa.
Homens e mulheres que tinham vindo para ajudar, e as coisas que traziam, se aglomeravam num aeroporto controlado por forças militares americanas, como se de uma operação de guerra se tratasse.
Após seis anos no Haiti, aqueles que diziam que estavam ali para reconstruir o país, não tinham entendido nada, ou muito pouca coisa. Quando fomos às praças e campos de futebol transformados em campos de refugiados, eram as "dame sara", mulheres que controlam as redes comerciais existentes no país, que garantiam o acesso dos haitianos a produtos; eram aquelas que cozinham na rua, "chein jambe", que ofereciam galinha, espaguete, arroz, feijão e verduras aos haitianos e haitianas aglomerados; eram caminhões pertencentes a empresários locais que distribuíam água potável. Haitianos ajudando haitianos.
Por que não aproveitar esta energia e estas redes existentes para fazer chegar a ajuda? Por desconhecimento, talvez, ou talvez por duvidar de sua eficácia, ou da possibilidade de uma vítima ser mais do que uma vítima passiva à espera de ajuda.
O desconhecimento, no entanto, é duvidável. Em nossa visita ao batalhão brasileiro da Minustah, horas antes do terremoto, pudemos ver na apresentação do coronel João Bernardes um extremo conhecimento do funcionamento da sociedade haitiana. Infelizmente, a falta de ajuda parece estar mais ligada às disputas internacionais pelo controle do futuro do povo haitiano do que à emergência da situação.
Sim, os haitianos são vítimas, mas estão longe da passividade: pra cima e pra baixo, entre as "dame sara" e o "chein jambe", vimos jovens escoteiros removendo entulho, jovens pedido ajuda com alto-falantes, médicos haitianos dando atendimento aos feridos nas ruas, freira haitianas prestando os primeiros socorros quando possível. Paralelamente, o aparato da Minustah, cerca de 5.500 militares de diferentes nacionalidades, ou estava parado, ou mobilizado na atenção dos próprios quadros da ONU.
Os haitianos ajudam haitianos, a ONU ajuda a ONU.

Culpas internacionais
Duas reações foram recorrentes nos dias que se seguiram aos terremotos. Uma, talvez a mais primária, era a de responsabilizar a natureza. A outra, a de responsabilizar os próprios haitianos pelo caos que sucedeu ao cataclismo. Afinal, foram incapazes de construir um Estado e, por isso, são incapazes de reagir.
Ambas as reações são perversas. Não estamos só diante de um cataclismo natural, mas também de uma catástrofe social. E o desmantelamento do Estado haitiano não é responsabilidade exclusiva dos haitianos, muito pelo contrário. País com pouca margem de manobra no contexto caribenho ao longo das décadas de Guerra Fria, viu as grandes potências apoiarem uma ditadura regressiva e particularmente violenta; concomitantemente, e especialmente a partir do fim dos anos 1970 e ao longo dos anos 1980, o Haiti, como tantos outros países, foi vítima de profissionais engravatados que aplicavam a mesma receita em qualquer lugar: desregulamentação, estado mínimo, livre comércio.
Foram as pressões do FMI e do Banco Mundial que obrigaram o Haiti a desproteger a produção de arroz no início dos anos 1980. O Haiti era, até então, autossuficiente em arroz.
Em pouco tempo não só se viu obrigado a importar este produto, como massas de camponeses foram expulsas do campo para a capital do país, aglomerando-se em habitações precárias, as mesmas que foram abaixo com o terremoto. Tal como ocorreu com o arroz, o cimento também foi afetado. Antes era produzido no país, e desde finais de 1980 foi importado dos EUA, o que obrigou os haitianos a fazerem uso de tijolos pobremente produzidos com areia. Tais tijolos são frágeis e acabam afetando a própria condição das construções. E podemos seguir adiante para demonstrar que o desmantelamento do Estado haitiano foi obra da "comunidade internacional".
Somente uma crítica sistemática ao próprio caráter da ajuda internacional nas últimas décadas poderá ajudar o Haiti a sair de um atoleiro que não foi construído apenas por ele. O que pudemos observar, além da passividade da própria comunidade internacional, capaz de mobilizar mundos e fundos, mas incapaz de conversar com as "dame sara" para imaginar uma saída criativa para a distribuição da ajuda, foi um movimento mais do que preocupante.
Milhares de soldados americanos ocupam, mais uma vez, o país, como se houvesse uma situação de guerra civil, e o Brasil, já imerso há seis anos em toda essa lama, entra no circo das potências que querem "ajudar" o Haiti.
Sem termos presente o fato de que o Haiti é um país soberano, e que os haitianos não são vítimas passivas de catástrofes naturais, dificilmente sairemos do circulo de pobreza e miséria criada pela própria "comunidade internacional", no qual o Brasil ocupa um trágico lugar central.

OMAR RIBEIRO THOMAZ, 44, é professor de antropologia da Unicamp; OTÁVIO CALEGARI JORGE , 21, é estudante de ciências sociais na mesma universidade.

"Não basta dar apenas ajuda aos haitianos"
DE WASHINGTON
A opinião polêmica é do escritor americano Tracy Kidder, 64, ganhador prêmio Pulitzer por "The Soul of a New Machine" (A Alma de Uma Nova Máquina, 1981). (SÉRGIO DÁVILA)

FOLHA - O terremoto não é culpa de ninguém, mas qual a contribuição histórica dos EUA para que o desastre encontrasse o país no estado calamitoso que encontrou?
TRACY KIDDER - O Haiti tem sido uma colônia virtual dos EUA, e se você olha o resultado disso, nós não fizemos um bom trabalho, fizemos? A política dos EUA em relação ao Haiti tem sido em geral ruim.
É verdade que vinha melhorando e houve momentos em que não foi tão má, por exemplo na gestão de Bill Clinton (1993-2001).
FOLHA - Como avalia as ações do governo Obama em relação ao desastre até agora?
KIDDER - É muito difícil dizer no calor do momento, com tudo ainda tão caótico e tenso, mas eu sei que um esforço grande de resgate e recuperação foi iniciado, não só pelos EUA, mas por Japão, China, Venezuela, entre outros.
Agora, para que a ajuda seja efetiva, ela tem de envolver os locais, o governo local. Esse modelo tem sido ignorado pelos ocidentais. Parece complicado, mas pode ser feito. As pessoas não têm de esperar por ordens de Washington. Esse modelo pode reverter séculos de degradação do povo haitiano, que começou como colônia escrava e, após se libertar, foi punido e se tornou pária.
FOLHA - O sr. tem criticado as mais de 10 mil organizações humanitárias que atuam no Haiti. Por quê?
KIDDER - Obviamente, é um número enorme de organizações e há várias coisas erradas com elas. Algumas são boas, não quero condenar todas. Mas não estão tentando usar os locais, trabalhar com o governo local -pelo contrário. A desculpa mais comum é que o governo é muito fraco ou corrupto. Mas é uma razão a mais para trabalhar com ele, de maneira a fortalecê-lo.
Nesse número enorme de organizações, algumas são muito pequenas, outras são fachadas para lavagem de dinheiro e algumas servem apenas a si mesmas. Mais do que isso, no entanto, é que coletivamente elas tomam boa parte do papel do governo. Mas o que oferecem no lugar é o pior tipo de governo que se pode imaginar, com operações completamente descoordenadas.
Não é que eu ache que o Haiti não mereça e não precise de uma grande dose de ajuda internacional. Mas tem de ser da maneira certa, e as evidências apontam claramente que isso não acontece. Uma grande quantidade de dinheiro foi desperdiçada lá e não melhorou a vida da vasta maioria.
FOLHA - O sr. vê o fantasma do Katrina influenciando a reação do governo Obama?
KIDDER - Não sei, mas espero que sim, que o governo tenha aprendido algo com o Katrina. Aquela foi a mais ineficiente e ridícula resposta imaginável.

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