Arquivo de História

O clandestino de Belém

Arcebispo e presidente do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Gianfranco Ravasi publicou um artigo no jornal Il Sole-24 Ore, 21-12-2008, em que vê na figura do Jesus menino e da pequena família de Nazaré o retrato dos atuais refugiados, fugitivos e exilados. E faz um contraste claro entre a singeleza da descrição dos evangelhos de Mateus e Lucas sobre a fuga do Egito, em comparação à ostentação fantasiosa de alguns evangelhos apócrifos.

Segundo ele, “o cristianismo quis certamente apresentar a vida do seu fundador na grandeza do seu mistério, mas também oculto sob as vestes do sofrimento e os trapos da miséria”. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No último período da sua vida, Renato Guttuso [1], que também tinha uma casa em Velate, nos arredores de Varese, foi convidado a decorar com afrescos uma das capelas do percurso que subia ao famoso Sacro Monte daquela cidade. Foi-lhe confiada a cena da “Fuga ao Egito”, um topos da iconografia cristológica, e ele decidiu representar Maria, José e o pequeno Jesus como uma família de refugiados palestinos, amedrontados, obrigados a abandonar a sua casa errando no deserto (hoje, se deveria pensar no dramático exílio em pátria que é a situação dos habitantes de Gaza).

O povo hebreu, ao qual Jesus estava ligado segundo a carne e o sangue, se autodefinia na Bíblia como uma comunidade de “forasteiros e peregrinos”. Tanto é verdade que eles codificaram esta extraordinária sobre a qual muitos falsos legisladores cristãos também deveriam refletir: “Haverá uma mesma lei para o natural e o estrangeiro que peregrina entre vós. […] Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, porque fostes já estrangeiros no Egito” (Êxodo 12, 49; Levítico 19, 33-34).

Ora, se lemos os 48 versículos dos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateus, a tradicional retórica natalícia se desfaz para deixar entrever uma trama profunda: Jesus nasce em uma gruta-estrebaria, é deposto não em um berço, mas em uma manjedoura, enfrenta logo o pesadelo de uma repressão sanguinária (o “massacre dos inocentes”) e a pequena família deve investir pelo caminho da clandestinidade, protegendo-se no fronteiriço Egito. Como fica evidente, não é nada artificiosa a aplicação da atribulada história dos imigrantes, dos nômades, dos clandestinos que ocupam os nossos jornais à história do menino Jesus de Belém. Podemos dizer que a sombra da cruz se projeta já nos primeiros dias de vida desse neo-nascido e não admira que a escola pictórica de Novgorod [2], a partir do século XV, não tenha hesitado em unir esses dois extremos ensangüentados, representado o pequeno Jesus envolto em faixas funerárias e deposto em um berço em forma de sarcófago!

Séculos depois, um poeta cristão chinês, forçado também ele à clandestinidade enquanto perseguido, Ai Qing (1910-1996), celebrava com estes versos o Natal de 1936: “Da manjedoura, surgem lamentos que arrancam o coração. / Com inumeráveis dedos / a multidão indica a jovem-mãe / desprezada como imundície, / ninguém se dispõe a levar-lhe um vaso para o sangue”. O pensamento se dirige a certas mães estrangeiras (mas não só…), que dão a luz sozinhas, escondidamente, espalhando o seu sangue por terra e arrancando escassamente o cordão umbilical. Deixemos por agora esses paralelos, que deveriam fazer refletir crentes e agnósticos, e voltemos ao texto de Mateus, que citamos na sua essencialidade, distante mil milhas – como veremos – da ênfase miraculosa dos Evangelhos apócrifos.

“Um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho” (2,13-15). Essas concisas palavras evangélicas estão mais preocupadas em oferecer uma interpretação teológica dessa fuga do que de documentar e motivar os mais reais componentes históricos (essa é uma característica geral dos Evangelhos e em particular dos chamados “Evangelhos da infância de Jesus”, presentes nos capítulo 1-2 de Mateus e de Lucas). De fato, com a citação final retirada do profeta Oséias (11, 1), “Do Egito chamei meu filho” – quer-se aludir ao evento capital da história do Israel bíblico que foi o êxodo da opressão faraônica: Cristo percorre emblematicamente suas etapas, encarnando sofrimento e salvação, opressão e libertação, emigração e repatriação. Assim, mais adiante ressoará no Egito o apelo voltado ao pai legal de Jesus, José: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino” (2, 20).

Sob o pano de fundo torcido, há, também, a figura do famoso rei Herodes, cuja biografia – que pode ser reconstruída por meio do historiador José Flávio – foi bem marcada por grandes sucessos políticos, mas também por um implacável punho de ferro aplacar todo mínimo aceno de oposição. Macrobio, historiador romano do século V, atribuirá a Augusto um ditado que se refere a Herodes: perto dele, tinham mais sorte os porcos (não comestíveis para os judeus) do que os filhos (em grego, as duas palavras tem um som semelhante), porque Herodes havia liquidados filhos, mulheres e parentes suspeitos de tramar às suas costas. O Egito, que faz fronteira com a Palestina, constituía uma terra de exílio ideal: já no século X a.C., o então rebelde (e futuro rei de Israel) Jeroboão protegeu-se lá para fugir das forças de Salomão.

Dito isso, devemos baixar as cortinas sobre o caso desse pequeno fugitivo e da sua família. Mas desde as origens a tentação de se refugiar nos céus dourados do mito, desligando-se do realismo histórico da Encarnação cristã, estava pronta para atacar. E eis o florescimento de uma fantasmagoria de prodígios que circundam com uma auréola gloriosa o que, na realidade, era o amargo e fatigante sobreviver de três clandestinos.Páginas e páginas de tantos Evangelhos apócrifos, fruto de uma constante necessidade de decolar do presente áspero rumo às ilusões de salvações fáceis, teceram narrações mirabolantes que se infiltraram até entre as Suras do Corão. Com esses relatos, podemos até desenhar uma espécie de mapa dessa migração clandestina: os pais de Jesus, descartando o chamado “caminho do mar” que costeava o Mediterrâneo e ultrapassava Gaza – caminho mais curto, mas perigoso por causa dos postos de bloqueio das tropas herodianas antes e egípcias depois – se dirigem rumo ao oriente, atravessando o Jordão e procedendo da atual Jordânia, ao longo de um complexo itinerário. Ainda mais minuciosa é a seqüência das etapas em território egípcio: o atual Cairo (que, entre outras coisas, é sede ainda hoje de esplêndidas igrejas dos cristãos coptas, indígenas do Egito, como diz o seu próprio nome, deformação do grego Aigyptos), Ermopólis, Assiut e assim por diante.

Nós nos contentamos agora em oferecer apenas dois exemplos dessa narrativa apócrifa, em que a ênfase do milagre apaga todo realismo da história. Eis alguns fragmentos do longo relato dos capítulos 18-20 do chamado Evangelho do Pseudo-Mateus (conhecido já no século IV-V):

“Chegaram diante de uma gruta para repousar, mas, de repente, saíram muitos dragões. Jesus, então, saiu do colo de sua mãe e ficou de pé sobre seus pés diante dos dragões: eles se colocaram a adorar Jesus e depois foram embora diante deles… Assim também os leões e os leopardos o adoravam e acompanhavam-nos no deserto: em todo o lugar que José e Maria andavam, eles os precediam, mostrando a estrada e curvando a cabeça; serviam fazendo a festa com o rabo e o adoravam com grande reverência… No terceiro dia da viagem, Maria, cansada pelo grande calor do sol e do deserto, vendo uma palmeira disse a José: Repousarei à sombra dessa árvore. Maria olhou a folhagem da palmeira e viu-a cheia de frutos e disse a José: Gostaria de pegar os frutos dessa palmeira. E José: Admiro-me de que tu digas isso vendo a altura dessa palmeira. Eu penso sobretudo na falta de água… Então, o menino Jesus, que sereno repousava no colo de sua mãe, disse à palmeira: Árvore, dobra os teus ramos e restaura com os teus frutos a minha mãe. A essas palavras, a palmeira dobrou rapidamente a folhagem até os pés da beata Maria e permaneceu inclinada esperando a ordem de se levantar por parte de Jesus. Ele lhe disse: Abre com as tuas raízes a veia d’água que está escondida na terra. E logo começou a brotar, das razíes, uma fonte d’água limpíssima, fresca e clara”.

O outro exemplo nós o resumimos do capítulo 23 do chamado Evangelho Árabe da Infância, que, em al-Moharraq, próximo da atual Assiut (350 Km ao sul do Cairo), reserva a mais surpreendente aventura egípcia do Jesus menino. Durante a noite, à procura de um refúgio, José e Maria são atacados nessa região infestada de delinqüentes: quem os ataca são dois bandidos, Tito e Dumaco. Tito se comove rapidamente frente a essa pobre família, tocado pela ternura da mãe e do esplendor da criança. Para poder salvá-los da avidez do roubo do sócio, está pronto a oferecer a Dumaco 40 dracmas das suas “economias”, para que deixe a pequena família incólume. Como é fácil imaginar, os dois serão os companheiros de Jesus na crucificação, condenados à morte com ele em Jerusalém, depois de vários episódios, e Tito nada mais é do que o bom ladrão a quem Cristo abre as portas do Paraíso.

Estamos, portanto, bem longes da sobriedade do sucinto relato do Evangelho canônico de Mateus e da realidade dos prófugos de então e de agora. O cristianismo quis certamente apresentar a vida do seu fundador na grandeza do seu mistério, mas também oculto sob as vestes do sofrimento e os trapos da miséria, desde a origem até o trágico desfecho na colina do Gólgota na crucificação. O Cristo real é irmão dos últimos da terra, e é por isso que Bertolt Brecht (sim, justamente o dramaturgo alemão ateu) tinha razão quando, nas suas Poesias (1918-1933), escrevia os versos do seu “Natal dos pobres”: “Hoje estamos sentados, na vigília / de Natal, nós, gente mísera, / em uma gélida salinha, / o vento corre lá fora, / o vento entra. / Vem, bom Senhor Jesus, a nós, / volta o olhar: / porque Tu és verdadeiramente necessário”.

Notas:

1. Renato Guttuso (26 de dezembro de 1911 – 18 de janeiro de 1987) foi um dos maiores pintores italianos do século XX. Suas pinturas mais famosas incluem “Flight from Etna” (1938-39), “Crucifixion” (1941) e “La Vucciria” (1974). Guttuso também criou para o teatro, incluindo cenários e figurinos para a peça “Histoire du Soldat” (Rome, 1940) e ilustrou diversos livros, muitos no mundo de língua inglesa. [voltar]

2. Nizhniy Novgorod (em russo, Нижний Новгород) é a capital de uma província da Rússia com o mesmo nome, fundada em 1221. A Escola de Novgorod refere-se à arte dos ícones e dos afrescos, cuja primeira referência foi a arte bizantina. A Escola alcança sua plenitude no final do século XIV e durante o século XV, quando a influência bizantina desaparece e acentua-se o toque nacionalista. Os pintores evitam o simbolismo abstrato e complicado, desenvolvendo temas simples de clara leitura. A paleta contém cores vivas, puras, intensas e vibrantes entre as quais se destaca os tons de vermelho

IHU Online

Comentários

Violentada e respeitada

Frei Betto *

Adital -

Completei 60 anos a 10 de dezembro. Sou um dos mais destacados consensos entre os associados à ONU. Fui aprovada por 192 países. No entanto, raros os que me respeitam.

Infelizmente não recebi, até hoje, aprovação do Estado do Vaticano. Logo ele, que se propõe a defender os valores encarnados por Jesus, que coincidem com os meus.

Nasci no pós-guerra. O mundo ansiava por justiça e paz. Ao longo desses 60 anos, sofri todo tipo de violações: a Coréia dividiu-se em duas; o Vietnã teve sua população civil bombardeada pela França e pelos EUA; empresas usamericanas de produtos químicos - as mesmas que monopolizam as sementes transgênicas - chegaram ao perverso requinte de criar o agente laranja e o napalm, destinados a intoxicar letalmente seres vivos.

Fui violentada na África do Sul, vítima do apartheid, e no Oriente Médio, onde ainda sofro em decorrência de preconceitos étnicos e religiosos. Na continente africano, todos os meus preceitos são ignorados, por culpa do neocolonialismo e da indiferença das nações ricas. Estas só se lembram das africanas quando se trata de vender suas armas.

Em Guantánamo, o governo dos EUA promove descarado acinte contra todos os meus princípios. No Iraque e no Afeganistão, os excessos praticados são ainda mais graves.

Padeci também na União Soviética e na China. Sob a bandeira da nova sociedade, reprimiram manifestações de pensamento e religião; decretaram a censura; perseguiram opositores políticos; implantaram, em nome do socialismo, um capitalismo de Estado.

Na América Latina tenho uma trágica trajetória. Ditaduras militares seviciaram-me de todas as maneiras: prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos, banimentos, assassinatos, seqüestros de crianças…

Sofri massacres em El Salvador, Guatemala, Colômbia e Peru. Grupos paramilitares se vangloriam de violar-me. E em alguns países, como é o caso do Brasil, meus transgressores continuam impunes. Felizmente a OEA me leva a sério e trata de apurar denúncias que recebe.

Hoje, sou duramente vilipendiada pelo narcotráfico e o terrorismo. As drogas corroem profundamente a dignidade humana; o terrorismo, tanto de Estado quanto de grupos fundamentalistas, inocula no ser humano o medo e a ira como condição existencial.

No Brasil, estou longe de merecer o devido respeito. Muitos nem querem ouvir falar de mim. Julgam que sou mulher de bandido. Sou ignorada pelos policiais que torturam; e também pelos que praticam exploração sexual de crianças, discriminação de negros e indígenas, preconceito à homossexualidade e agressão às mulheres.

Sofro, de modo especial, em decorrência da estrutura injusta que perdura no país, sobretudo a desigualdade social acentuada pela falta de reforma agrária. O latifúndio figura entre os meus principais inimigos, ao lado da devastação ambiental.

Contudo, há avanços. Comissões de Justiça e Paz se multiplicam pelo país. Inúmeras ONGs se dedicam à minha causa. O governo Lula deu status de ministério à Secretaria Especial dos Direitos Humanos, à frente da qual se encontra um homem íntegro e corajoso: Paulo de Tarso Vannuchi.

Nas escolas, sou cada vez mais estudada. Há um setor da Justiça atento às ameaças e violações que sofro. As leis Afonso Arinos e Maria da Penha inibem e/ou punem uma parcela de meus agressores. A aprovação dos estatutos da Criança e do Adolescente, e do Idoso são avanços que me favorecem.

Se muitos ainda não me respeitam mundo afora, ao menos já não ousam falar mal de mim abertamente. Empresas e governos se sentem obrigados a levar em conta também meus direitos ecológicos, sociais e raciais.

Sou um projeto de futuro. Só na medida em que eu for assumida e respeitada, a humanidade haverá de desfrutar a felicidade como experiência pessoal e fenômeno coletivo.

Meu nome é Declaração Universal dos Direitos Humanos.

[Autor, em parceria com Moacyr Scliar e Veríssimo, entre outros, de "O desafio ético" (Garamond), entre outros livros].

* Escritor e assessor de movimentos sociais

Comentários

Recordatório: aniversário do assassinato da lutadora social alemã Rosa Luxemburgo

David Arrabalí

Seg, 14 de janeiro de 2008 20:39

rosa luxemburgo ampliada

Rosa Luxemburgo

Na noite de 15 de janeiro de 1919, em Berlim, foi detida Rosa Luxemburgo: uma mulher indefesa de cabelos grisalhos, enrugada e exausta. Uma mulher velha, que aparentava muito mais que os 48 anos que tinha.

Um dos soldados que a rodeavam, obrigou-a a seguir aos empurrões, e a multidão burlona e cheia de ódio que se amontoava no vestíbulo do Hotel Eden a saudou com insultos. Ela ergueu sua face diante da multidão e olhou os soldados e os hóspedes do hotel que se mofavam dela com seus olhos negros e orgulhosos. E aqueles homens em seus uniformes desiguais, soldados da nova unidade das tropas de assalto, se sentiram ofendidos pela olhada desdenhosa e quase compassiva de Rosa Luxemburgo, “a rosa vermelha”, “a judia”.

Insultaram-na: “Rosinha, aí vem a velha puta”. Eles odiavam tudo o que esta mulher representou na Alemanha durante duas décadas: a firme crença na idéia do socialismo, o feminismo, o antimilitarismo e a oposição à guerra, que eles haviam perdido em novembro de 1918. Dias antes os soldados haviam esmagado o levante dos trabalhadores em Berlín. Agora eles eram os amos. E Rosa os havia desafiado em seu último artigo:

«A ordem reina em Berlín! Ah! Estúpidos e insensatos verdugos! Não vos dais conta de que vossa ordem está levantada sobre a arena. A revolução se erguerá amanhã com sua vitória e o terror assomará nos vossos rostos ao ouvir anunciar com todas suas trompetas: Eu fui, eu sou, eu serei!».

Empurraram-na e golpearam. Rosa se levantou. Nesse então, quase haviam alcançado a porta traseira do hotel. Fora, esperava um carro cheio de soldados, os quais, segundo haviam-lhe comunicado, conduziriam-na à prissão. Mas um dos soldados foi para cima dela levantando sua arma e golpeou-lhe a cabeça com a culatra. Ela caiu no chão. O soldado lhe desferiu um segundo golpe na têmpora.

O homem chamava-se Runge. O rosto de Rosa Luxemburgo jorrava sangue. Runge obedecia órdens quando golpeou Rosa Luxemburgo. Pouco antes ele havia derrubado Karl Liebknecht com a culatra do seu fuzil. Também a ele haviam-no arrastado pelo vestíbulo do Hotel Eden.

Os soldados levantaram o corpo de Rosa. O sangue brotava da sua boca e do seu nariz. Levaram-na ao veículo. Sentaram Rosa entre dois soldados no assento de trás. Fazia pouco que o carro havia arrancado quando lhe dispararam um tiro a queima roupa. Se pode escutar no hotel.

Na noite de 15 de janeiro de 1919 os homens do corpo de assalto assassinaram Rosa Luxemburgo. Lançaram seu cadáver de uma ponte para o canal. No día seguinte toda Berlim sabía já que a mulher que nos últimos vinte anos desafiara todos os poderosos e que cativara os assistentes de inumeráveis assembléias, estava morta. Enquanto se buscava o seu cadáver, um Bertold Brecht de 21 anos escrevia:

A Rosa vermelha agora também desapareceu.

Onde se encontra é desconhecido.

Porque ela aos pobres a verdade há dito

Os ricos do mundo a extinguiram.

Poucos meses depois, em 31 de maio de 1919, encontrou-se o corpo de uma mulher junto a uma eclusa do canal. Podia-se reconhecer as luvas de Rosa Luxemburgo, parte de seu vestuário, um brinco de ouro. Mas a cara era irreconhecível, já que o corpo fazia tempo que estava podre. Foi identificada e se a enterrou em 13 de junho.

No ano de 1962, 43 anos depois de sua morte, o Governo Federal alemão declarou que seu assassinato fora uma “execução de acordo com a lei marcial”. Faz só nove anos que uma investigação oficial concluiu que as tropas de assalto, que haviam recebido órdens e dinheiro dos governantes social-democratas, foram os autores materiais de sua morte e da de Karl Liebknecht.

Aniversário do assassinato da lutadora social alemã Rosa Luxemburgo

Milhares de pessoas participaram da marcha em homenagem a Rosa Luxemburgo, a «Rosa Vermelha», em Berlim

O mes de janeiro sói ser uma das datas mais esperançosas para todos aqueles alemães que ainda crêem numa alternativa de esquerda ao atual sistema neoliberal. Até o próximo 15 de janeiro se celebrará a já tradicional conferência internacional «Rosa Luxemburg» que finalizará com a manifestação que nesse día recorrerá, em honra de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, as ruas de Berlim a caminho do «cemitério dos socialistas».

Esta manifestação à qual no ano passado assistiram cem mil pessoas, junto com a Conferência organizada pelo diário esquerdista Junge Welt, celebra-se a cada ano, por motivo do assassinato, em 15 de janeiro de 1919, da lutadora social alemã, de origem polaca, Rosa Luxemburgo, figura central do socialismo internacional revolucionário e fundadora do Partido Comunista Alemão (KPD), partido político ilegalizado pelo governo alemão e proibido na atualidade nesse país.

Rosa Luxemburgo foi assassinada pelas tropas de assalto a serviço da socialdemocracia. Junto com ela morreu seu camarada Karl Liebknecht. Nasceu em 5 de marzo de 1871. Muita gente segue a tradição da Alemanha oriental de assistir à manifestação para recordá-la, seu respeito demonstram-no depositando cravos vermelhos no monumento dedicado a «Rosa Vermelha» e aos socialistas e comunistas que trabalharam por un mundo melhor.

A atualidade do pensamento de Rosa Luxemburgo

“Qué extraordinário é o tempo que vivemos”, escrevia Rosa Luxemburgo em 1906. “Extraordinário tempo que propõe problemas enormes e espolia o pensamento, que suscita a crítica, a ironia e a profundidade, que estimula as paixões e, antes de tudo, um tempo frutífero, prenhado”.

Rosa Luxemburgo viveu e morreu num tempo de transição, como o nosso, no qual um mundo velho se afundava e outro surgia dos escombros da guerra. Seus companheiro tentaram construir o socialismo, seus assassinos e inimigos ajudaram Adolf Hitler a subir ao poder.

Hoje, quando o capitalismo demonstra uma vez mais que a guerra não é um acidente, senão que uma parte irrenunciável de sua estratégia. Quando os partidos e organizações “tradicionais” se vêem na obrigação de questionar suas formas de atuar ante o abandono das massas. Quando a esquerda transformadora advoga exclusivamente pelo parlamentarismo como via para a mudança social. Quando nos encontramos ante una enorme crise do modelo de democracia representativa e os argumentos políticos se reduzem ao “voto útil”.

Hoje, dizemos, Rosa Luxemburgo se converte em referência indispensável nos grandes debates da esquerda. Não é senão sua voz a que se escuta sob o lema, aparentemente novedoso: “Outro mundo é possível”. Ela o formulou com um pouco mais de urgência: “Socialismo ou barbárie”.

Seu pensamento, seu compromisso e sua desbordante humanidade nos servem de referência em nosso luta para que este novo século não seja também o da barbárie.

David Arrabalí é membro do Conselho de Redação da revista Mundo Obrero e mestre em Materialismo Histórico e Teoría Crítica pela Universidade Complutense de Madrid (UCM).

Por: Fundação Lauro Campos

Comentários

Do genocídio facista israelense à heróica saga Palestina

MIGUEL URBANO RODRIGUES

O genocídio que atinge o povo da Palestina será recordado pelo tempo adiante como uma mancha repugnante na historia da humanidade.

Menos transparente é outra realidade. A criação do Estado de Israel, responsável pela tragédia que nos reúne nesta Conferencia, assenta sobre mitos que deturpam a historia.
A acumulação e difusão desses mitos está na origem de situações, actos políticos e crimes que tornaram possível a repetição no inicio do século XXI de uma monstruosidade civilizacional. Apoiado pelos EUA o Estado construído por vitimas do holocausto nazi concebe e executa um moderno holocausto.

Uma pirâmide de falsidades e mentiras sinaliza a estrada do tempo que conduziu a chacinas como as de Sabra, Shatila e Jenin.

Na base delas está o mito básico, o mais trabalhado de todos, aquele que desencadeou o movimento do regresso dos judeus à «Terra Santa dos antepassados».

A esmagadora maioria dos israelenses que vivem no Estado de Israel e se assumem como judeus não descendem do povo que invocam. A saga da diáspora judaica, alavanca das teses de Theodor Herzl que promoveram a «volta à pátria perdida», foi edificada sobre uma inverdade histórica.

Jerusalém era uma cidade pequena quando, por duas vezes, a sua população, maioritariamente de judeus, foi expulsa pelos Romanos. Não eram mais do que alguns milhares os que dela saíram após a revolta esmagada por Tito, no ano 70. Adriano, no século II, arrasou totalmente Jerusalém como castigo de nova insurreição. Os judeus deportados após a mortandade foram também poucos.

Não ha milagres na multiplicação dos seres humanos. Olhamos hoje para os askenazis, vindos da Alemanha, da Polónia, da Europa Ocidental e para os sefarditas, chegados de países muçulmanos, e tudo nos seus traços fisionómicos difere, a denunciar origens étnicas diferentíssimas. Nuns e noutros, a percentagem de sangue judaico, após cruzamentos processados ao longo dos séculos, é mínima. Os primeiros tratam aliás os segundos com sobranceria, considerando-os cidadãos inferiores. E os judeus negros da Etiópia e de outros países africanos?

É a religião e não o sangue que estabelece a ponte do judaísmo entre essas comunidades e a suposta pátria de origem.

Mas, porventura, será hoje a religião o denominador comum aglutinador da nação que se diz descendente de Abraham? A resposta é negativa. Muitos judeus israelenses não praticam actualmente a religião hebraica e as suas convicções religiosas são, pelo menos, débeis.

A tradição, o culto dos antepassados, o acervo de uma cultura defendida com tenacidade e condensada na Bíblia (o Antigo testamento) aí estão as raízes do sionismo e a explicação da especificidade contraditória de um estado confessional cujos filhos duvidam (uma percentagem considerável) da existência de Deus.

É inquestionável que os antepassados dos palestinos árabes chegaram à Palestina há uns 5000 anos, subindo da Península Arábica, muito antes das primeiras comunidades hebraicas. Eram aparentados, como povos semitas vindos de um tronco comum. Uns e outros assumiam-se como descendentes de Sem e falavam idiomas muito parecidos que ainda hoje apresentam grandes afinidades.

Os primeiros fundiram-se rapidamente com algumas das tribos que povoavam a região; os segundos muito menos.

O processo de miscigenação dos antigos palestinos foi tão complexo que a própria palavra Palestina deriva dos Filisteus, descendentes dos chamados Povos do Mar, invasores arianos e não semitas.

Não cabe aqui acompanhar a história dos primitivos hebreus e as suas aventuras desde o Nilo ao Eufrates, com passagem pelo vale do Jordão. Encontramos uma síntese muito interessante no livro de Ernesto Gomez Abascal ,que foi embaixador de Cuba na Síria e na Jordânia (1).

O que me parece útil recordar é que a agressividade genocida do estado de Israel tem um precedente na agressividade expansionista dos judeus vindos do Egipto. Actuavam então por mandato divino, como «povo especial». Segundo o Antigo Testamento, Jeová informou Moisés de que seria dos hebreus todo o território desde o deserto até ao mar e ao Eufrates, isto é, a Palestina, o Líbano, a Síria e parte do Iraque, isto é, o hoje chamado Crescente Fértil.

Como tentaram apossar-se de tão vasta e povoada Região?

O livro de Josué iluminou-lhes o caminho: «Quando tiverdes atravessado o Jordão entrando pela terra de Canaã, afastareis do vosso caminho todos os moradores do país e destruireis todos os seus ídolos de pedra, e todas as suas imagens fundidas e destruireis todos os lugares elevados: e expulsareis os moradores da terra e residireis nela porque eu vo-la dei para que seja a vossa propriedade (cap. 33, vers 50 a 53 ). Porque tu és povo santo para Jeová, o teu deus. Jeová, o teu deus te escolheu como povo especial, mais do que todos os povos que estão sobre a terra (cap. 7, vers 6). E destruíram a fio de espada tudo o que havia na cidade; homens e mulheres, moços e velhos, até os bois, as ovelhas e os burros.» (cap. 8, vers 24 e 26 (…) Subiu logo Josué e todo Israel com ele de Eglon a Hebron e combateram esta (…)matou tudo o que tinha vida, como Jeová, deus de Israel, lhe tinha ordenado.(cap. 10, vers 34 e 40).

Não faltam a Ariel Sharon, como se verifica, fontes bíblicas de inspiração. Jeová nada tinha de humanista, era um deus violento, racista, que fazia da guerra e das chacinas alavanca da historia.

A agressividade actual dos dirigentes israelenses não é, portanto, um fenômeno circunstancial. Tem raízes antiquíssimas.

O movimento sionista nasceu agressivo numa época em que contou com a simpatia da intelligentsia européia, justamente indignada com o anti-semitismo que se manifestava nos repugnantes pogroms da Polônia e da Rússia.

Nos finais do século XIX, na Palestina, então submetida ao domínio turco, 91% da população eram árabes palestinianos. Os judeus, de imigração recente, não ultrapassavam 50 mil. Quase 99 % das terras pertenciam aos camponeses árabes. Mas os pioneiros do sionismo já projectavam o futuro Israel. Theodor Herzl no seu livro «O Estado Judaico», de 1896, escreveu: «em Basileia fundei o estado judaico (se hoje dissesse isso em voz alta todos me responderiam com uma gargalhada). Talvez dentro de cinco anos, mas certamente dentro de cinquenta toda a gente o saberá.»
Em 1914, Chaim Weizman, que seria o primeiro presidente de Israel, escreveu nas suas Memórias: «Na actualidade somos um átomo mas é razoável afirmar que se a Palestina cair na esfera da influencia britânica, e se a Grâ Bretanha incentivar o estabelecimento de um estado judaico, então como dependência britânica, podemos esperar ter ali dentro de 25 a 30 anos, um milhão de judeus, pelo menos, e eles se encarregarão de constituir uma guarda eficaz para o Canal de Suez».

Weizman tinha os dons dos antigos profetas. O que não previu foi que ao decadente império britânico sucederia o vigoroso império norte-americano e que o Estado de Israel, imaginado por ele, se transformaria no seu cão de guarda para todo o Médio Oriente.

Israel, gerado por decisão do imperialismo britânico ao criar o chamado Lar Nacional Judaico, nasceu, não se pode negar a evidencia, de um facto colonial.

Entretanto, transcorrido mais de meio século sobre a partilha da Palestina aprovada pelas Nações Unidas, Israel é uma realidade. Os próprios revolucionários palestinos reconhecem essa evidencia. Os mais de cinco milhões de israelenses que vivem hoje no Estado judaico ali implantado não são colectivamente responsáveis pelas políticas que tornaram possível a sua formação. Israel não pode ser apagado do mapa, por mais monstruosos que sejam os crimes dos seus actuais dirigentes.

Mas a solidariedade com a Palestina árabe exige a desmontagem do edifício de mentiras históricas montado pelo imperialismo e pelo sionismo na tentativa de justificar o injustificável.

Genocídios como os de Sabia e Shatila e o recentíssimo de Jenin não foram tragédias ocasionais.

Nos últimos anos do mandato britânico as organizações terroristas israelenses Haganah, Irgun e Stern cometeram incontáveis crimes numa escalada de violência dirigida contra os árabes palestinos, então amplamente majoritárias. Segundo o censo de 46, os árabes palestinos residentes eram 1 237 000 e os judeus apenas 608 mil. E somente 8% das terras pertenciam aos segundos. O Plano de Partilha aprovado pela ONU atribuiu entretanto ao futuro estado judaico 56% da superfície da Palestina.

E que aconteceu? Os israelenses ocuparam 75% do território, inviabilizando a criação do Estado Palestino. Quando a ONU tentou fiscalizar o cessar fogo, o bando terrorista Stern assassinou em Jerusalém o conde Bernardotte, secretario geral da organização. Em tempo brevíssimo 400 mil palestinos foram expulsos das suas terras. Quase 500 aldeias foram arrasadas numa orgia de barbárie. Em poucas horas a Irgun massacrou 254 palestinos na aldeia de Deir Yassin. Aterrorizar as populações, esvaziar a Palestina de árabes era o objectivo dessas acções de terror. Mais tarde, Menahem Beguin, que foi primeiro ministro, comentou assim a chacina por ele comandada: «O massacre não somente se justificou como o Estado de Israel não existiria sem essa vitoria».(2)

Sob essa apologia do genocídio transparece a política que Yossef Weitz, dirigente do Fundo Nacional Judaico, ordenou numa sentença monstruosa: «Entre nós deve ficar claro que não existe espaço para dois povos neste país (…) não ha outro caminho que não seja a transferência dos árabes para os países vizinhos, a mudança de todos eles; nenhum deles, nenhuma tribo deve permanecer aqui(3)

Três guerras com estados vizinhos irromperam desde a criação de Israel.

Uma Resolução das Nações Unidas, entre todas famosa, a 242, de 22 de Novembro de 1967, intimou Israel a devolver os territórios ocupados pela força das armas. Outra, fundamental também, determinou o regresso dos refugiados aos lugares de onde haviam sido expulsos pelo exercito de Israel.

A posição israelense sobre essas questões cruciais encontramo-la condensada num cínico comentário de Golda Meier: «Como vamos devolver os territórios ocupados? Não existe ninguém a quem devolver algo. Essa coisa a que chamam palestinos não existe».(4)

A historia recente é melhor conhecida.

Se ha uma palavra que defina bem os acontecimentos que nas ultimas décadas tiveram por cenário a Palestina é a palavra tragédia.

O Estado comandado por Ariel Sharon não renuncia ao cumprimento das profecias da Torah que apontam o caminho da violência para a realização do sonho de Eretz Israel, ou seja, a Grande Israel.

Em Tel Aviv as tácticas e o discurso político mudaram ao sabor do ocupante da Casa Branca, sempre o grande aliado. Mas o objectivo de aniquilar a nação palestiniana manteve-se.

A Primeira Intifada demonstrou claramente que o povo árabe da Palestina não renuncia ao direito inalienável de construir o seu próprio futuro como nação independente, plenamente soberana, no que resta –Cisjordania e Gaza– dos territórios povoados pelos seus antepassados muitos séculos antes da chegada ali das primeiras tribos de judeus.

Seria uma solução aceitável simultaneamente por palestinianos e israelenses. Mas para isso seria, obviamente, necessário cumprir os Acordos. Ora essa nunca foi a intenção dos dirigentes israelenses.

O aparecimento exibicionista, em acto de provocação, de Ariel Sharon na Esplanada das Mesquitas, na velha Jerusalém, assinalou o inicio da Segunda Intifada e da actual escalada genocida contra o povo árabe da Palestina.

Nem a imaginação de um Sófocles ou de um Shakespeare concebeu tragédia comparável à que se abateu sobre as cidades e aldeias dos territórios governados pela Autoridade Nacional Palestiniana. Os bombardeamentos diários de áreas urbanas e rurais, a destruição das estruturas básicas da sociedade, como escolas, hospitais, edifícios administrativos, estabelecimentos comerciais, serviços de luz, água e comunicações, o assassínio de mulheres e crianças, o cerco à sede de Yasser Arafat em Ramallah, e chacinas colectivas como a de Jenin – serão pelo tempo afora recordados como exemplos da barbárie de um estado confessional responsável por uma das paginas mais repugnantes da história da humanidade.

James Petras encontra para Jenin, como analogia, o gueto de Varsóvia destruído pelas SS de Hitler. A José Saramago, a aldeia palestiniana eliminada traz à memória Auschwitz, paradigma da loucura assassina nazi.
A mim faz-me recordar ambos. O buldozer Sharon, como já lhe chamam, é, pelos, métodos e pela ideologia, um discípulo eficiente de Hitler. Creio enunciar uma evidência ao afirmar que em cada um de nós, aqui reunidos no México, por iniciativa do Partido do Trabalho e da OSPAAAL, a angustia e a indignação provocadas pelo genocídio que atinge a nação palestiniana são acentuados pela consciência de que esse crime de lesa humanidade não seria possível sem a cumplicidade e o apoio ostensivo dos EUA

Por si só, Ariel Sharon não teria condições mínimas para empreender o seu plano de destruição da Palestina. Os seus crimes contam com o respaldo de Washington, mais exactamente do sistema de poder que governa os EUA, um sistema igualmente monstruoso cuja estratégia de dominação mundial deixa já transparecer o perigo de uma ditadura militar planetária, ou seja, uma ameaça global á humanidade.

Os povos condenam com firmeza crescente o genocídio palestiniano. Mas a matança prossegue.

É financiada. Ultrapassa 3 mil milhões de dólares anuais a ajuda norte-americana ao estado assassino de Ariel Sharon. A passividade dos governos da União Européia perante o genocídio é outra indignidade. Afirmam lamentá-la, mas a sua atitude é de submissão à estratégia dos EUA, que transformaram o Conselho de Segurança da ONU em dócil instrumento da sua política imperial.

A intima aliança entre a extrema direita israelense e o governo dos EUA contribui para evidenciar o significado internacionalista e humanista da luta heróica do povo árabe da Palestina. Essa pequena e valente nação, ao resistir com firmeza homérica à tentativa de holocausto contra ela comandada pelos filhos e netos das vitimas do holocausto judeu da Segunda Guerra mundial — essa Palestina de raízes milenárias assume na realidade a defesa de valores eternos da humanidade.

A Palestina resiste. O seu povo sobrevive e multiplica-se sob o vendaval de metralha do fascismo israelense. Segundo um estudo da Universidade judaica de Haifa, no ano 2020 a população total de Israel ,da Cisjordania e Gaza terá ultrapassado os 12 milhões. Desse total 58% serão árabes palestinos. De maioria que são hoje os israelenses terão nessa época passado a minoria.

Represento nesta Conferencia o Partido Comunista Português . É com orgulho que aqui lembro ter sido permanente, fraternal e incondicional ao longo do tempo a solidariedade dos comunistas portugueses com o povo épico da Palestina. Ao reafirmá-la calorosamente desta tribuna, expresso a nossa confiança inabalável na vitoria final desse pequeno-grande povo que se bate hoje pela humanidade inteira.
Vocês vencerão, companheiros da Palestina.
________________
(1) Ernesto Gomez Abascal, Palestina – Crucificada la Justicia, Editora Politica, Havana, Abril de 2002
(2) OB.ctda, pg 203
(3) Idem, pg 32
(4) Idem, pg 54

(*) Intervenção na II Conferencia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano, realizada no México em 15/Maio/2002.

Este texto encontra-se em http://resistir.info

Comentários

As reminiscências de um fotógrafo*

Por Aziz Ab´Sáber

No ensejo de (re)visitar meus numerosos álbuns de fotos, pude compreender o porquê do meu gosto tardio pela arte de retratar cenas, cenários e paisagens. Dos tempos de menino restou uma memória televisiva. Certamente, as recordações de tempos vividos têm um grande valor íntimo. Lembranças de família: saudades sofridas. Até os seis anos, vivi em minha querida São Luiz do Paraitinga (SP) (de 1924 a 1930). Depois, foram dez anos em Caçapava (SP) (de 1930 a 1939). E por mais de meio século em São Paulo, salvo dois anos em que morei e trabalhei em Porto Alegre (RS) (em 1959 e 1960).

Na memória televisiva de menino, nos tempos da inocência plena, sobrou uma seqüência espaçada de acontecimentos. Rústicas brincadeiras na beira da calçada. Na rua de chão de terra. Em seguida, as experiências dos jogos de peteca. E, ao fim das tardes, quando as mulheres sentavam-se na beira da calçada em intermináveis conversas, nós, silenciosos, acompanhávamos um pouco as fofocas do dia. Nossa tarefa era ouvir e tomar conhecimentos singelos sobre fatos corriqueiros da cidade. Conversas que representavam uma comunidade em trânsito.

Forço minhas memórias para saber como passei a gostar de fotografias. As primeiras fotos que vi na minha vida foram retratos de família, o meu primo Luís e eu, ainda bebês, em uma fotografia bizarra do ano de 1924. Algumas raras fotos de meus pais, feitas para figurar em quadros de parede. Mais tarde, em Caçapava, uma foto feita por um cuidadoso retratista profissional em que eu e meus queridos irmãos – Iucef e Lila – fomos cuidadosamente retratados, em 1931. Imagens perdidas ao longo de mudanças atabalhoadas. Mais tarde um pouco, uma foto do conjunto de meus colegas de classe, tomada no espaço do recreio do Grupo Escolar Rui Barbosa. Nenhuma foto, infelizmente, do tempo em que estudei em Taubaté (SP), somente memórias de fatos e conhecimentos dos dois anos e meio em que viajava de ônibus para assistir às aulas do curso secundário no Ginásio Estadual da cidade. E para findar essas lembranças, para muitos pouco importantes, as fotos tomadas sobre cada um dos formandos do Ginásio Estadual de Caçapava destinadas ao tradicional Álbum de Formatura, em 1939, às vésperas de minha vinda a São Paulo para fazer o vestibular de História e Geografia na memorável Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, em fevereiro de 1940.

Quando procurei saber se havia tido sucesso nos exames vestibulares, nos quadros de notas afixado nas paredes do corredor do 3º andar da Escola Normal Caetano de Campos (Praça da República), fiquei eufórico pela nota tirada. Mas li uma carta de recomendação escrita de que a primeira aula seria uma excursão de campo a ser dirigida pelo mestre Pierre Monbeig. No pequeno adendo, nos pediam para vir com roupas adequadas para viagens. A excursão marcou para sempre meu gosto pela Geografia com base na leitura da paisagem. E como eu, infelizmente, não tinha uma máquina para fotografar os cenários das paisagens em trânsito, nos diversos pontos de observação, tive que aprender a fazer pequenos desenhos em meu caderno de notas sobre formas de relevo e o difícil mosaico do espaço agrário. Nessa excursão, percebi, pela primeira vez, a importância de ter uma boa câmera fotográfica.

Agora, há mais de 60 anos dessa memorável excursão de campo, ao folhear meus numerosos álbuns de fotos, vêm à memória as dificuldades que tive para obter uma câmera fotográfica, tão importante para a profissão a que me dediquei. Desde a primeira maquininha inútil ganha (nem cheguei a tirar fotos) de presente durante a adolescência, até hoje, época das máquinas digitais, aconteceu muita coisa comigo, uma história pessoal que não pode ser registrada no momento. O mais relevante a registrar diz respeito às importantes conseqüências das novas tecnologias que possibilitaram o surgimento das câmeras digitais. Para um geólogo, botânico ou jornalista, a nova geração de máquinas tem uma importância até então impensada. Agora, além do caderno de anotações, existe a necessidade de usar-se sistematicamente as máquinas digitais para o registro de excursões, viagens ocasionais, transectos paisagísticos visando ecossistemas naturais, agroecossistemas e centrografia urbana e suburbana com ênfase nos processos do metabolismo urbano, visualização de cidades das mais diferentes ordens de grandeza: metrópoles, capitais regionais, médias e pequenas cidades, aldeias e vilarejos. Importantes acréscimos aos registros fragmentados dos cadernos de notas pertencentes a diferentes profissionais. Além do que, registros de fatos do mundo real em diferentes tempos para se observar mudanças e estudos básicos para planificação.

É nesse sentido que estamos colocando algumas fotografias de tempos diferentes em uma exposição montada e organizada pelo Instituto da Cultura Árabe.

*Trecho editado de texto escrito especialmente para o catálogo da Exposição “Imagens e Paisagens do Mundo Árabe”

Aziz Ab´Sáber, Presidente de Honra do Instituto da Cultura Árabe; Professor Emérito da FFLCH-USP; Professor Honorário do Instituto de Estudos Brasileiros, IEB-USP.

Comentários

Vacina e rebelião

Revolta da vacina: um protesto contra a indiferença

Tiago Eloy Zaidan

O Brasil do alvorecer do século XX estava infestado de moléstias e epidemias. A miséria e a total falta de higiene apresentavam-se como uma bomba preste a explodir nos cortiços improvisados onde residentes da classe baixa empilhavam-se. Ninguém escapava às mortíferas “senhoras”: peste bubônica, varíola e a febre amarela. Nem mesmo o filho do então presidente Rodrigues Alves. Então o pai resolveu contra-atacar. Dentre as medidas, realce para a vacinação obrigatória contra a varíola. A população, por sua vez, reagiu com veemência nas ruas do Rio de Janeiro. A primeira vista tudo parecia surreal. Por que o povo protestaria contra algo que visa à erradicação de uma perigosa enfermidade?
Em 1902 a capital federal, Rio de Janeiro, representava um país atrasado e um estado com vista turva quando o assunto era política social. À imensa população desamparada, somavam-se numerosas levas de imigrantes, incentivados a vir ao Brasil para servirem de mão de obra – em condições sofríveis – nas plantações paulistas de café. Nas ruas acanhadas do Rio de Janeiro as epidemias fluíam assustando os navios, que preferiam seguir direto para Buenos Aires. Tal situação incomodava os cafeicultores e mesmo os líderes políticos da época, sedentos por atraírem mais imigrantes e, consequentemente, mais mão de obra prosaica. As elites – demasiadamente consideradas pelo poder público nas primeiras décadas do século XX – por sua vez, não escondiam o constrangimento de viverem num ambiente tão diferente das avenidas européias, especialmente as francesas.
É nessa capital – de beleza natural lendária – que o paulista Rodrigues Alves, assume a Presidência da República. Como era de se supor, Alves era um rico cafeicultor. Já havia “passeado” pelo Ministério da Fazenda nos governos de Floriano Peixoto e Prudente de Moraes e também foi gestor de São Paulo, onde ensaiou sua obsessão por reurbanização, abrindo avenidas e construindo redes de esgotos. Agora era a sua vez de ser alçado ao palácio pelos conchavos entre mineiros e paulistas. Junto à Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro, Alves deu início à revolução urbana da cidade maravilhosa, mas não sem antes estreitar a dependência do Brasil com a Inglaterra, após contrair um empréstimo de oito milhões de libras.

Oswaldo Cruz

A pressa foi uma das marcas da reconstrução da cidade. A outra foi à insensibilidade com os moradores humildes da região. Completamente indiferente às classes baixas, o projeto tinha como principal meta a construção da “afrancesada” Avenida Central (posteriormente rebatizada de Avenida Rio Branco), iniciada em 29 de fevereiro de 1904. Sem nenhuma reparação, uma considerável leva de residentes miseráveis foi varrida do centro do “novo” Rio de Janeiro, que começava a surgir numa área limitada. Os novos imóveis, que margeariam a moderna avenida, deveriam antes passar pelo crivo de uma bancada de “ilustres” da sociedade de então. Dentro de meses a classe alta da capital poderia passear orgulhosa no belo bulevar tropical. Além da Avenida Central, fora reformada a rua do Ouvidor e construída a avenida Beira-Mar.
Dentro da meta de “civilizar” o centro administrativo do país, proposto por Rodrigues Alves, faltava o combate às enfermidades imundas e impertinentes que fustigavam a urbe. Aqui que entrou em cena o então desconhecido Oswaldo Cruz, com sua obstinação permeada por lances autoritários, visando alcançar os seus objetivos. Nascido em 1872, na pequena São Luís do Paraitinga (SP), formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1896. No Instituto Pasteur em Paris, tornou-se discípulo do sanitarista Émile Roux, que o indicou para o governo brasileiro. Em 1902, de volta ao Rio, assumiu a direção do Instituto Soroterápico Federal, que mais tarde receberia o seu nome. No ano de 1903 é nomeado Diretor de Saúde Pública com “liberdade de ação”. Pela frente, a peste e a febre amarela, com seus ratos e mosquitos, respectivamente. Foram criados batalhões mata-mosquitos com a intenção de pulverizarem locais de risco. Foi o suficiente para a imagem de Cruz tornar-se freqüente nas ilustrações de caricaturistas da época.
Contudo, foi no combate a varíola que os achincalhamentos evoluíram. Com a medida rígida de se vacinar maciçamente a população, por meio da obrigatoriedade – aprovada pelo congresso no fim de outubro de 1904 – foram estipuladas multas e restrições aos infratores, causando maiores reações. O Atestado de Vacinação passou a ser exigido trivialmente, desde a obtenção de um emprego público ao casamento. A falta de habilidade do governo no tratamento da rejeição popular à medida defendida por Oswaldo Cruz agravou a situação. Para se ter idéia da repressão oficial basta citar o episódio do dia 10 e novembro, quando um orador foi preso no palanque por pregar contra a vacina. Após uma série incontável de medidas arbitrárias da república “Café com Leite” (modo como foi apelidada a era das administrações oligárquicas de 1894 a 1930), tornou-se mais fácil enxergar o estado com desconfiança. Entre os dias 11 e 14 de novembro a massa enfurecida saiu às ruas do artificializado centro do Rio de Janeiro deixando um rastro de “postes envergados (…), vidros fragmentados (…), paralelepípedos revolvidos (…), destroços de bondes quebrados e incendiados (…)” e “vestígios de barricadas feitas pela multidão agitada”, proclamou em tom assustado o Jornal do Commercio de 15 de novembro de 1904.
O mesmo jornal relatou casos de mortes durante a revolta. “(…) Um robusto homem de cor, que vestia calça e camisas pretas, achava-se do alto, numa pequena janela, atirando. Ali o alcançou uma bala de carabina que lhe varou o crânio, prostrando-o instantaneamente morto”. É também relatada a história de um menino de 12 anos que, “(…) chegou à janela na ocasião do conflito e logo foi morto por um tiro que lhe varou a carótida”. A vacinação foi suspensa.

Diante das manifestações descontroladas, Tânia Maria Fernandes em seu livro Vacina Antivariólica: ciência, técnica e o poder dos homens – 1808 – 1920, faz saber, “Oswaldo Cruz tinha como característica não se pronunciar publicamente e assim se manteve mesmo diante de todas as críticas sobre sua conduta frente à higiene. Sua resposta ao episódio da revolta da vacina foi colocar o cargo à disposição do Ministro do Interior J. J. Seabra (…)”.
No dia 15 de novembro, quando se deveria comemorar o aniversário da proclamação da República brasileira, cadetes positivistas da Escola Militar de Praia Vermelha aderiram oportunamente ao movimento popular. Desejavam reassumir o controle da nação, perdido para os cafeicultores desde 1894. Todavia, essa rebelião, especificamente, foi debelada e Lauro Sodré – Tenente coronel que seria agraciado com o cargo presidencial – terminou ferido e preso; sorte menos infeliz que as dos 200 cadetes mortos no levante.
O que ocorreu a seguir foi a decretação de estado de sítio de um mês, adicionado às invasões bestiais de tropas governamentais a favelas e cortiços miseráveis, onde foram presos, praticamente à revelia, diversos indivíduos. Muitos desses foram exilados no longínquo Acre, então recém-anexado ao Brasil. A vacinação foi restaurada e, dentro de meses, a varíola foi erradicada da capital federal. Oswaldo Cruz consagrou-se. Convidado a atuar em outras localidades, entrou para a história da ciência em solo tupiniquim. Rodrigues Alves concluiu o mandato, assumiu novamente o posto de governador de São Paulo em 1912 e tornou a eleger-se presidente da república. Alves, entretanto, não chegou a tomar posse. Ironicamente acabou vítima de uma nova e assombrosa epidemia, a gripe espanhola. Morreu em 16 de janeiro de 1919, no Rio de Janeiro “devidamente” urbanizado, porém, indevidamente humanizado.

História Net

Comentários

BELLA CIAO

Áudio:

mp3

Ésta mañana me he levantado
oh bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
Esta mañana me he levantado
y he descubierto al opresor.

Oh guerrillero, me voy contigo
oh…
Oh guerrillero me voy contigo,
porque me siento aquí morir.

Y si yo caigo en la guerrilla
oh…
Y si yo caigo en la guerrilla
coge en tu mano mi fusil.

Cava una fosa en la montaña
oh….
Cava una fosa en la montaña
a la sombra de una flor.

Así la gente cuando la vea
oh…
Así la gente cuando la vea
Gritará REVOLUCIÓN

Ésta es la historia de un guerrillero
oh…
Ésta es la historia de un guerrillero
muerto por la libertad.

Comentários (1)

No Pasarán

Los moros que trajo Franco
en Madrid quieren entrar
en Madrid quieren entrar
Mientras que haya un miliciano
los moros no pasarán
los moros no pasarán

Si me quieres escribir
ya sabes mi paradero
ya sabes mi paradero
Tercera brigada mixta
primera linea de fuego
primera linea de fuego

Aunque me tiren el puente
y también la pasarela
y también la pasarela
me verás pasar el Ebro
en un barquito de vela
en un barquito de vela

Diez mil veces que lo tiren
diez mil veces que lo haremos
diez mil veces que lo haremos
Tenemos cabeza dura
los del cuerpo de ingenieros
los del cuerpo de ingenieros

En el Ebro se han hundido
las banderas italianas
las banderas italianas
Y en los puentes sólo quedan
las que son republicanas
las que son republicanas

(Hino espanhol - Guerra Civil Espanhola de 1936)

Comentários

A Revolta da Vacina

Patrícia Melo e Souza
Jornalista
Assessora da Secretaria Especial de
Comunicação Social/Prefeitura do Rio de Janeiro

Apesar das divergências estatísticas, sabe-se que a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, foi o maior motim da história do Rio de Janeiro. Alguns historiadores consideram-na, pela violência de que se revestiu, da mesma importância, no espaço urbano, que a guerra de Canudos e a revolta do Contestado, no espaço rural. A resistência da população contra a obrigatoriedade da vacina, que tinha a intenção de prevenir o contágio da varíola, foi o fósforo que acendeu o fogo. Mas muitos ingredientes já fervilham no caldeirão em que havia se transformado a cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Uma cidade com cerca de 700 mil habitantes e graves problemas urbanos: rede insuficiente de água e esgoto, toneladas de lixo nas ruas, cortiços superpovoados. Um ambiente propício à proliferação de várias doenças, como tuberculose, hanseníase, tifo, sarampo, escarlatina, difteria, coqueluche, febre amarela e peste bubônica. O Rio era conhecido pelos imigrantes que aqui aportavam como “túmulo dos estrangeiros”.

Os anos tumultuados do início da República, marcados pela decretação de estado de sítio, por prisões, assassinatos e exílios, inclusive de jornalistas, como Gentil de Castro, assassinado, e José do Patrocínio, forçado a sair do Rio, reduzira um pouco a virulência da imprensa do período imperial. Mas não eliminara a beligerância. Os problemas sociais se acumulavam, com a grande massa de mão-de-obra miserável, sem direitos trabalhistas ou perspectivas de um futuro melhor. Do outro lado, empresários e fazendeiros pressionavam o governo, ávidos pela modernização dos portos e desenvolvimento da cidade, mudanças que atrairiam capital externo e permitiriam o perfeito escoamento da mercadoria para o estrangeiro. No campo das religiões, o sincretismo com as crenças afrodescendentes já tinha expandido sua influência, saindo da ala dos empregados e chegando ao imaginário coletivo dos freqüentadores da sala de estar, misturado a folclores e lendas. No campo da filosofia, o Positivismo e as idéias de Augusto Comte ganharam seguidores entre médicos e militares.

Em meio a esses pontos de tensões, Oswaldo Cruz, cientista jovem e idealista, ganhou do presidente Rodrigues Alves a missão de livrar o Rio de Janeiro das doenças infecto-contagiosas que dizimavam à população. Depois de campanha vitoriosa no combate à febre amarela, era chegada a hora do combate à varíola, que podia ser evitada preventivamente com o uso da vacina.

Mas a idéia encontraria forte resistência por parte da população. Depois de muito debate entre os deputados e outras autoridades, em 9 de novembro de 1904, o jornal A Notícia publica, com exclusividade e sem autorização formal, o projeto de regulamentação da Lei da Vacina Obrigatória, elaborado e redigido por Oswaldo Cruz. A lei, não regulamentada, fora aprovada em 31 de outubro. O povo, enfurecido, saiu às ruas e, durante uma semana, enfrentou a polícia, o Exército, a Marinha e o Corpo de Bombeiros.

As agitações começaram no dia 10 de novembro, com grandes ajuntamentos no centro da cidade. A polícia reagiu a tiros e com a ação da cavalaria. Barricadas e combates transformaram os bairros da Gamboa e da Saúde em praça de guerra. Os cadetes da Praia Vermelha se sublevaram, os sindicatos marcharam ao lado do povo. Saldo: segundo uns, 30 mortos, mais de cem feridos, quase mil presos – a metade deles deportada para o Acre, e sete estrangeiros banidos do país; segundo outros, centenas e talvez milhares de mortos.

A revolta eclodiu durante a gestão do prefeito Pereira Passos. Era uma fase fundamental de transformação da sociedade brasileira, que ainda mantinha profundas características do período colonial, na sua passagem para uma sociedade burguesa moderna. Tal transformação não se fez sem elevado custo social. A principal exportação do Brasil era o café, principalmente o dos fazendeiros paulistas. Eles constituíam a base de sustentação do presidente Rodrigues Alves, que adotou a política antiindustrialista do antecessor, o presidente Campos Sales (1898-1902), garantindo assim o funcionamento e até o reforço do modelo agrário-exportador.

Tanto a revolta da população contra uma lei que se destinava a protegê-la quanto os meios violentos que as autoridades empregaram para impor a medida hoje parecem surpreendentes. Em nenhum momento antes da determinação, o governo levou à população informações que pudessem esclarecer a importância da ação profilática. Diante da falta de adesão e informações, criou-se um ambiente fértil para todo tipo de especulação.

A polêmica apaixonou a imprensa da época e provocou debates inflamados. Afinal, a varíola, a febre amarela e a peste bubônica dizimavam a população carioca. Mas a campanha do médico sanitarista Oswaldo Cruz, visando a erradicar o primeiro desses males, foi veemente repugnada.

O pânico e a indignação do povo confundiu-se com a revolta contra a demolição das habitações populares causada pelas obras de reurbanização da cidade, a exploração nas fábricas e a prepotência das autoridades. E mesmo intelectuais, como Rui Barbosa, engajaram-se contra a obrigatoriedade da vacinação. O tema ganhou proporção inesperada, surpreendendo à administração pública.

Para o escritor Sérgio Lamarão, da Universidade Federal Fluminense, “conduzida de forma arbitrária, sem os necessários esclarecimentos à população, a campanha da vacina obrigatória canalizou um crescente descontentamento popular. Deve ser entendida como uma conseqüência do processo de modernização excludente concentrado, no tempo e no espaço desencadeado pela reforma do prefeito Pereira Passos, como foi considerado pelas autoridades, como uma reação explosiva da massa ignorante ao progresso e às inovações”.

O episódio não pode, entretanto, ser reduzido a uma reação ao progresso, como pretenderam alguns intelectuais e uma parte da imprensa da época. A Revolta da Vacina também tem sido interpretada como fruto de manipulações políticas de segmentos da elite brasileira descontentes com o governo liderado por Rodrigues Alves. Entre eles, militares ligados a Floriano Peixoto, intelectuais positivistas, republicanos radicais, monarquistas e a população atingida pela reorganização do espaço urbano empreendida pelo prefeito Pereira Passos.

Com o propósito de modernizar a capital, o então presidente da República Rodrigues Alves dera plenos poderes ao prefeito Pereira Passos e ao médico sanitarista e diretor da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, para porem em prática um grande projeto urbano, que podia resumir-se na palavra modernização – mas um tipo de modernização que se processou “de cima para baixo”, sem a anuência de muitas camadas da população carioca.

O projeto expandiu-se ao longo de três eixos: melhoramento do porto do Rio de Janeiro, remodelação urbana e saneamento. O presidente Rodrigues Alves tinha uma visão global da reorganização ou modernização da cidade, e de seu alcance nacional e internacional.

“O meu programa de governo vai ser muito simples. Vou limitar-me quase que exclusivamente a duas coisas: o saneamento e o melhoramento do porto do Rio de Janeiro”, dizia. O prefeito Pereira Passos, ele mesmo filho de um cafeicultor do Vale do Paraíba, havia assistido, em Paris, a uma das fases mais difíceis da reforma da capital francesa levada a cabo por Georges-Eugène, cortiços e prédios velhos foram demolidos (ao todo, 614 habitações) e, em seu lugar, surgiram grandes avenidas, modernos edifícios, praças e jardins. O lado negativo foi que milhares de moradores desalojados à força, sem opção, tiveram de se mudar para a periferia da cidade e para os morros. Foi a intensificação do processo de crescimento das favelas na cidade.

Oswaldo Cruz, por sua vez, criou as Brigadas Mata-Mosquitos, grupos de funcionários do Serviço Sanitário que, acompanhados de policiais, invadiam as casas – e tinham até mesmo autoridade para mandar derrubá-las nos casos em que as considerassem uma ameaça à saúde pública – para desinfecção e extermínio dos mosquitos transmissores da febre amarela. Para acabar com os ratos, transmissores da peste bubônica, mandou espalhar raticida pela cidade e tornou obrigatório o recolhimento do lixo pela população. E, finalmente, para erradicar a varíola, lançou a vacinação obrigatória.

Os moradores da cidade, principalmente aqueles dos bairros mais pobres, estavam revoltados com a perda de suas casas, a truculência dos mata-mosquitos e assustados com as notícias divulgadas pelos jornais de oposição sobre os supostos perigos da vacinação. Os alvos eram o prefeito, o “bota-abaixo” e Oswaldo Cruz, o “general mata-mosquitos”. O projeto de regulamento da vacina obrigatória, por sua vez, foi apelidado “código de torturas”. Debates agitados no Congresso eram acompanhados pela agitação nas ruas, promovida pelo Apostolado Positivista, por oficiais descontentes do exército, monarquistas e líderes operários, todos eles mais tarde aglutinados na Liga contra a Vacina Obrigatória.

A vacina contra a varíola havia sido descoberta 200 anos antes, pelo médico inglês Edward Jenner. E, apesar de ter eficácia comprovada há pelo menos cem anos, grande parte da população desconhecia e temia os efeitos que ela poderia causar. Existiam ainda argumentos mais curiosos, como o de que a vacinação era um atentado ao pudor das mulheres, que teriam de desnudar os braços (ou, conforme boatos mais radicais, de despir-se) para os vacinadores. Para os seguidores do candomblé, a varíola era um castigo dos deuses e não deveria ser evitada. Outros acreditavam que, ao tomar a vacina, o ser humano adquiriria as feições da vaca, animal do qual foi produzida inicialmente a substância.

A Revolta da Vacina não durou muito. A reação popular levou o governo a suspender a obrigatoriedade da vacina e a declarar estado de sítio em 16 de novembro de 1904. No entanto, sua repercussão foi imensa e seus efeitos, tanto no campo da Saúde Pública como nas áreas política, econômica e social, se fizeram sentir por longo tempo.

Biblioteca Nacional Digital

Comentários

Um dever de honra

A presidente do Instituto Rosa Luxemburg, Isabel Loureiro, apresenta-nos uma tradução inédita de um pequeno artigo onde Rosa se posiciona veementemente contra a pena de morte….

Rosa Luxemburg
——————————————————————————–

Não queríamos “anistia” nem perdão para as vítimas políticas do velho poder reacionário. Exigíamos nosso direito à liberdade, à luta e à revolução para aquela centena de militantes corajosos e leais que definhavam nas penitenciárias e nas prisões por terem lutado, sob a ditadura militar do bando criminoso imperialista, pela liberdade do povo, a paz e o socialismo. Agora estão todos em liberdade. Estamos novamente enfileirados, prontos para o combate. Não foram os Scheidemann e seus cúmplices burgueses, com o príncipe Max (1) à frente, que nos libertaram. Foi a revolução proletária que fez explodir as portas de nossas casamatas.

Contudo, outra categoria de habitantes infelizes desses edifícios lúgubres foi completamente esquecida. Ninguém pensou até agora nos milhares de figuras pálidas e macilentas que definham anos a fio atrás dos muros de prisões e penitenciárias expiando crimes comuns.

E no entanto são vítimas infelizes da infame ordem social contra a qual a revolução se dirigiu; são vítimas da guerra imperialista, que levou a miséria e a desgraça aos extremos da mais insuportável tortura; que, ao custo de uma carnificina brutal, desencadeou em naturezas fracas, dotadas de taras hereditárias, os instintos mais vis.

A justiça de classe burguesa funcionou mais uma vez como uma rede que deixa tranquilamente escapar de suas malhas os tubarões rapaces enquanto as pequenas sardinhas nelas se debatem desamparadas. Os especuladores, que ganharam milhões com a guerra, ficaram na sua maioria impunes ou receberam penas pecuniárias ridículas; os pequenos ladrões e as pequenas ladras são punidos com penas de prisão draconianas.

Passando fome e frio nas celas quase sem aquecimento, psiquicamente abatidos pelo horror dos quatro anos de guerra, esses enjeitados sociais esperavam misericórdia e alívio.

Mas esperam em vão. O último dos Hohenzollern, soberano bondoso preocupado em fazer os povos degolarem-se uns aos outros e em distribuir coroas, esqueceu-se dos infelizes. Desde a conquista de Liège não houve durante quatro anos qualquer anistia digna de menção, nem sequer no feriado oficial dos escravos alemães, o “aniversário do Kaiser”.

Agora a revolução proletária precisa iluminar com um pequeno raio misericordioso a existência sombria nas prisões e nas penitenciárias, diminuir as sentenças draconianas, abolir o bárbaro sistema disciplinar – correntes, açoites! –, melhorar no que for possível o tratamento e os suprimentos médicos, a alimentação e as condições de trabalho. É uma questão de honra!

O sistema penal existente, profundamente impregnado de um brutal espírito de classe e da barbárie do capitalismo, precisa ser extirpado de vez. É preciso começar imediatamente uma reforma de base do sistema penal. É evidente que uma reforma totalmente nova, no espírito do socialismo, só pode ser estabelecida sobre o fundamento de uma nova ordem econômica e social, pois tanto crimes quanto castigos estão em última instância enraizados nas condições econômicas da sociedade. No entanto, uma medida radical pode ser adotada sem mais: a pena de morte, a maior vergonha do ultra-reacionário código penal alemão, precisa desaparecer imediatamente! Por que hesita o governo dos trabalhadores e soldados? Será que o nobre Beccaria, que há duzentos anos denunciou em todas as línguas civilizadas a infâmia da pena de morte, não existiu para vocês, Ledebour, Barth, Däumig? Vocês não têm tempo, têm pela frente mil preocupações, mil dificuldades, mil tarefas. É verdade. Mas peguem o relógio e olhem quanto tempo leva para abrir a boca e dizer: está abolida a pena de morte! Ou será que entre vocês deveria haver a esse respeito um longo debate com votação? Será que nesse caso vocês também se deixariam enredar num emaranhado de formalidades, considerações de competência, questões de rubricas, carimbos e futricas semelhantes?

Ah, como é alemã esta revolução alemã! Como é prosaica, pedante, sem entusiasmo, sem brilho, sem grandeza. A pena de morte esquecida é somente um pequeno detalhe isolado. Mas é precisamente nesses pequenos detalhes que se trai de costume o espírito intrínseco do todo!

Peguemos qualquer livro de história da grande Revolução Francesa, por exemplo, o árido Mignet. É possível ler esse livro sem o coração palpitante e a fronte em brasa? Quem abriu qualquer página ao acaso pode largá-lo antes de ter ouvido, empolgado, sem fôlego, o último acorde desse grandioso acontecimento? É como uma sinfonia de Beethoven, intensamente poderosa, uma tempestade trovejando no órgão dos tempos, grande e soberba, tanto nos erros quanto nos acertos, tanto na vitória quanto na derrota, tanto em seu primeiro grito ingênuo de júbilo quanto em seu último suspiro. E o que acontece agora na Alemanha? A cada passo, pequeno ou grande, sente-se que são sempre os velhos e bem comportados companheiros da defunta social-democracia alemã, para quem os carnês de filiação eram tudo, os homens e o espírito, nada. Não devemos nos esquecer contudo que não se faz história sem grandeza de espírito, sem pathos moral, sem gestos nobres.

Liebknecht e eu, ao deixarmos os hospitaleiros espaços onde vivemos ultimamente – ele, seus irmãos de penitenciária, de cabeça tosada, eu, minhas pobres queridas ladras e mulheres da rua com quem vivi três anos e meio debaixo do mesmo teto – nós lhes prometemos solenemente, enquanto nos acompanhavam com o olhar triste: não os esqueceremos!

Exigimos do Comitê Executivo dos conselhos de operários e soldados um abrandamento imediato do destino dos prisioneiros em todos os cárceres da Alemanha!

Exigimos a supressão da pena de morte do código penal alemão!

Durante os quatro anos de genocídio imperialista o sangue correu em torrentes, em riachos. Agora é preciso guardar respeitosamente cada gota dessa seiva preciosa em recipientes de cristal. A mais violenta atividade revolucionária e a mais generosa humanidade – este é o único e verdadeiro alento do socialismo. Um mundo precisa ser revirado, mas cada lágrima que cai, embora possa ser enxugada, é uma acusação; e aquele que, para realizar algo importante, apressadamente e com brutal descuido esmaga um pobre verme, comete um crime.

Die Rote Fahne (Berlim), nº3, 18 de novembro de 1918.

Tradução: Isabel Loureiro

NOTAS

(1) Em 3 de outubro de 1918 o príncipe Max de Bade foi nomeado chanceler, tendo formado um governo parlamentar com o objetivo de paralisar o movimento revolucionário na Alemanha, salvar as classes dominantes e negociar com a Entente. Faziam parte do governo, entre outros, o líder da bancada do partido do Centro, Adolf Gröber, Friedrich von Payer como representante do Partido do Progresso, Philipp Scheidemann e Gustav Bauer como representantes da social-democracia.

Publicado no site do Instituto Rosa Luxemburg

Comentários

Há 40 anos, (não) acontecia o Congresso da UNE

Participantes do encontro clandestino de 1968 são homenageados no mesmo prédio em que ficaram detidos após polícia desarticular reunião

16/10/2008

Eduardo Sales de Lima
da Reportagem

Leia mais:

Um triste congresso, por Luiz Eduardo Merlino

Congresso Ibiuna - Congresso Ibiuna
Todos os envolvidos na realização do emblemático Congresso da UNE de outubro de 1968 foram homenageados, no dia 10, no Memorial da Resistência, prédio onde funcionava o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo. Entre eles, uma personagem desconhecida que não fazia parte dos 720 delegados que partiram naquele ano de quase todos os Estados do Brasil com destino a Ibiúna, no sul do Estado de São Paulo, para a realização do 30º congresso da entidade.

Na época, Neusa Ferreira de Sousa tinha 21 anos, e a União Nacional dos Estudantes (UNE) era considerada uma organização clandestina pela ditadura, desde 1964. Neusa, que era mãe de duas crianças de colo, somava-se aos 6 mil habitantes de Ibiúna, e era casada com Domingos Simões, com 52 anos na época, o ex-dono do sítio Murundu, local onde o congresso deveria ter acontecido.

“Eu pensei bem e disse para mim mesma que se era para trabalhar pela democracia e pela liberdade do nosso país, eu iria à luta. Meu marido também não mediu esforços”, conta ao Brasil de Fato a ex-dona do sítio, hoje com 61 anos, que acabou perdendo o imóvel por ter ficado anos foragida – já que por causa do auxílio aos estudantes, ela e o marido posteriormente foram perseguidos e presos.

“No período da realização do Congresso, eu permanecia na cidade de São Paulo para comprar os alimentos que iriam abastecer os jovens, enquanto o meu marido transportava esses mantimentos.”

Na chuvosa manhã de 12 de outubro de 1968, Domingos estava indo para o sítio com a perua lotada de pães e leite para os estudantes. “Ele voltou correndo para São Paulo e me falou assim: ‘Neusa, nós temos que sumir. O sítio já foi descoberto. Pega as crianças. Não há tempo para nada, vamos embora.” Duzentos e quinze policiais da Força Pública juntamente com agentes do DOPS haviam cercado o sítio.

Dois dos 720

Milton Dota, então estudante da faculdade de Direito da USP, relata o que, segundo ele, foi o principal motivo da descoberta do Congresso. “Pegaram o jipe e foram até a cidade comprar comida. Pararam em uma padaria e compraram todo o pão que tinha. Em seguida, foram em outra padaria e compraram todo o pão e chocolate. Só que um delegado de polícia da cidade, que ia corriqueiramente à padaria comprar seu pãozinho, ouviu do padeiro a presença de um moço cabeludo e barbudo que comprara todo o pão. Aí, ele foi à outra padaria e ouviu o mesmo. Desconfiado, o delegado ligou para o DOI-CODI.”

Dota havia sido escolhido pela Diretório XI de Agosto, junto com mais dois alunos da faculdade de Direito, para ser delegado em Ibiúna. De forma clandestina, acompanhado do militante paulista, hoje ministro da Comunicação Social, Franklin Martins no mesmo carro, notou, assim que chegou ao sítio, que a estrutura organizada para o congresso não comportava tanta gente. Ele conta que, pelo fato de o sítio ser afastado da cidade, a alimentação era muito racionada.

Mesmo com o Congresso tendo sido interrompido poucos minutos antes de a polícia chegar, o estudante Jean Marc Van der Weid, membro da Ação Popular (AP), já havia sido eleito para a presidência da UNE. Ele havia sido condenado pela auditoria do Exército na cidade do Rio de Janeiro duas semanas antes da realização do Congresso. “Vim para São Paulo, um lugar em que eu era menos conhecido pela polícia e fiquei clandestino junto com o Luís Travassos, então presidente da União Estadual dos Estudantes”, lembra o ex-estudante de engenharia química da UFRJ. Jean chegou à Ibiúna numa segunda-feira. Seu número de entrada era o 99. Jean e Dota eram filiados à Ação Popular (AP). (Leia mais na edição 294 do Brasil de Fato)

Comentários

O muro da hora

Quem militava em 1989 passou parte de sua vida tentando compreender e explicar por quais motivos aconteceu o desmanche do chamado campo socialista.Os que militam hoje estão diante da necessidade de compreender, explicar e principalmente intervir na crise que tem por epicentro dos Estados Unidos.
Além do interessante debate acerca das causas “micro” da crise e sobre a dinâmica da economia estado-unidense, é preciso levar em conta o enquadramento “macro”.

Em primeiro lugar, a crise atual tem origem nos anos 1970: foi para reagir à crise de então, que o grande capital e os governos dos Estados Unidos e Inglaterra desencadearam um movimento ideológico, político, militar e econômico que produziu o que chamamos de hegemonia neoliberal.

Quase quarenta anos depois assistimos a crise e ao esgotamento daquela “solução” neoliberal.Mas não voltamos ao ponto de partida. O mundo atual é muito mais capitalista do que o mundo dos anos 1970, uma vez que foram em grande medida removidas as limitações impostas pela existência do “campo socialista” e pela força da esquerda no interior dos países desenvolvidos.

Também por isto, a crise atual será muito mais complexa e muito mais profunda. Até porque não se trata de uma crise meramente “financeira”, entre outros motivos porque o crescimento da especulação financeira é em si mesmo uma conseqüência da própria dinâmica contraditória da acumulação capitalista.

Em segundo lugar, o esgotamento do neoliberalismo coincide com o declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos, sem que haja no horizonte um substituto e sem que as instituições políticas formadas no pós-Segunda Guerra sejam capazes de “administrar” a situação.

Declínio relativo: os EUA continuam sendo a potência hegemônica no terreno ideológico, político, militar e econômico inclusive. Mas esta hegemonia enfrenta crescentes problemas e contestações, parte deles (ironicamente) decorrente da grande vitória que os EUA obtiveram contra os socialistas, social-democratas e nacional-desenvolvimentistas, ao longo dos anos 80.

Evidentemente, não está nos planos dos EUA perder influência. O pano de fundo das eleições presidenciais de novembro deste ano não é como “organizar a retirada”, pelo contrário. Não se deve descartar que desta crise surja uma hegemonia renovada, tanto do capitalismo, quanto até mesmo dos Estados Unidos.

Por tudo isto, muito ao contrário do fim da história, o que vivemos e seguiremos vivendo pelo próximo período é uma brutal instabilidade.Inclusive porque o intenso “desenvolvimento” econômico da era neoliberal e suas conseqüências (ambientais, sociais, militares, políticas) enfraqueceu e transbordou todas as instituições políticas.

Qual a duração, qual a profundidade e quais as repercussões da crise? Não está claro, ainda. Mas é notável que, no lugar do catastrofismo de esquerda, estejamos assistindo ao catastrofismo de direita: de respeitáveis acadêmicos até especuladores profissionais, cresceu o número e a estridência dos que vaticinam o caos sistêmico, apontando

na situação a mistura de traços do pré-Primeira Guerra com a crise dos anos 1930 nos EUA, cujos efeitos –sempre é bom lembrar— não foram totalmente superados pelo New Deal, mas sim pela Segunda Guerra.

Mesmo que descontemos a ignorância, o oportunismo e o pânico presentes em algumas destas análises, especialmente as tupiniquins, que no fundo querem é estimular o caos para com base nele fazer oposição a Lula, é preciso lembrar que onde há muita fumaça, algum fogo há. Até porque eles sabem, as vezes melhor do que nós, o tamanho da lambança feita

nos mercados financeiros que, até ontem, eram prova máxima do “engenho criativo” e do “espírito animal” do capitalismo.

Por isso, um olho no gato e outro no peixe. Estamos em melhores condições de enfrentar esta crise, em alguma medida porque o atual governo (especialmente no segundo mandato) adotou políticas distintas do receituário clássico neoliberal. Mas o tamanho da crise não permite discursos ingênuos sobre o “tamanho das reservas”, nem crenças tolas nos supostos bons procedimentos das grandes empresas nacionais.

Do que precisamos é dobrar a aposta no mercado interno e na integração continental; estabelecer controles sobre a entrada e saída de capitais; alterar a política de juros; fortalecer pesadamente o Estado e a soberania nacional sobre os recursos estratégicos, por exemplo ampliando o controle da União sobre as ações da Petrobrás. Estas e outras medidas em defesa das maiorias, o que inclui manter e ampliar as políticas sociais e as políticas orientadas ao desenvolvimento econômico.

O sonho nada secreto da direita é realizar, em 2009-2010, aquilo que eles desde 1989 diziam que aconteceria durante o governo Lula: o caos, a crise, o desgoverno. É preciso lembrar que a crise atual foi provocada pelas políticas que eles sempre defenderam; e que o Brasil está mais protegido, porque recusou estas políticas. Ou ninguém lembra da Alca?

Não basta, entretanto, provar que estávamos certos nas batalhas ideológicas de ontem e seguimos certos nas de hoje. É preciso, também,travar a batalha do futuro, acerca do redesenho da ordem internacional. E fazê-lo de uma perspectiva socialista, pois afinal de contas o que está aí é uma crise do sistema capitalista. E só nos faltava, na hora da crise, ajudar o bicho a se levantar de novo.

Valter Pomar é secretário de Relações Internacionais do PT

Comentários

A origem do hino A Internacional

Por Vito Giannotti, abril de 2001
Fonte: “Florilége de la Chanson Revolutionaire” (1995)

O poema que deu origem ao hino A Internacional foi escrito, em junho de 1871, por um lutador sobrevivente da Comuna de Paris, Eugéne Pottier. Em 1887, ele publicou uma coletânea de seus poemas, entre os quais estava A Internacional. Pottier conta que compôs esta poesia em junho de 1871, pouco depois da derrota da Comuna, mas só a publicou pela primeira vez naquela coletânea.

A música, logo em seguida, será composta por um belga de nome Pierre Degeytter, para um coral operário da cidade de Lille, norte da França. Assim A Internacional começou a ser cantada por grupos de operários socialistas e anarquistas a partir do começo da década de 90.

Primeiras execuções

Em 1896, no XIV Congresso do Partido Operário Francês A Internacional foi tocada e cantada pelos delegados;
Em 8 de dezembro de 1899 foi cantada por todas as várias tendências presentes no fechamento do Congresso Operário Unitário em Paris;
Em setembro de 1900, durante o 5º Congresso da Internacional Socialista, A Internacional foi cantada por todos os delegados presentes;
Finalmente, em 1910, no Congresso da II Internacional, em Copenhaguen, foi tocada e cantada por uma orquestra e um coral de 500 pessoas. Foi assim que A Internacional foi consagrada como O HINO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES.

A Internacional no Brasil

Já em 1º de Maio de 1906, A Internacional era cantada numa manifestação em São Paulo. O mesmo se repetiu no 1º de maio de 1907, quando começou uma greve, que durou quase um mês, pelas 8 horas e por aumento de salário.

Durante toda a segunda década do século XX a nascente classe operária brasileira cantou, nas suas greves e manifestações, A Internacional. Na mais célebre destas greves, a Greve Geral de São Paulo, em julho de 1917, o hino era cantado entre vivas a Lênin e à Revolução Russa.

Durante a década de 20, em todos os 1º de Maio, anarquistas e comunistas, uns com bandeiras negras, outros vermelhas, cantavam o mesmo hino. Assim continuou até que a ditadura de Getúlio Vargas impôs o silencio da repressão, em 1937.

Após a II Guerra Mundial, os comunistas voltaram com suas bandeiras vermelhas e seu hino. Foi assim até que, novamente, o golpe militar de 64 impossibilitou a presença de nossas bandeiras e o canto do nosso hino. Mas a noite da Ditadura estava chegando ao fim.

No começo dos anos 80, junto com a explosão das greves e o reaparecimento em público das organizações e partidos de esquerda, A Internacional e as bandeiras vermelhas voltarão às mãos de milhares e milhares de trabalhadores.

No Congresso de fundação da CUT, em 1983, a bandeira escolhida será vermelha e A Internacional será cantada em várias ocasiões. Esse hábito se repetirá nos vários congressos da Central, até o 7º, realizado em agosto de 2000, já às vésperas do século XXI.

Comentários

O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas

Por Vito Giannotti
NPC- Núcleo Piratininga de Comunicação

Quando começou a ser comemorado o Dia Internacional da Mulher? Quando começou a luta das mulheres por sua libertação? Qual é a influência do movimento socialista na luta das mulheres? E o 8 de Março, como nasceu? A data teve origem a partir do quê? Onde? Estas e outras questões mereceram uma atenção especial em 2003, quando nos jornais e na Internet apareceram repetidamente versões diferentes. Todas, no entanto, esqueceram a palavra-chave, que está na luta da mulher por sua libertação: mulher “socialista”.
Em 2003, nas vésperas do 8 de Março, o jornal cearense O Povo publicou um longo artigo de uma professora da Universidade Federal do Ceará (UFCE) que deixou muita gente assustada. O mesmo aconteceu com vários artigos que circularam pela Internet.

Para encarecer a dose, logo após a comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 2003, o novo jornal que acabara de sair, Brasil de Fato, no seu número 1, também trazia um artigo da mesma professora da UFCE, Dolores Farias, que reafirmava o que ela havia escrito no jornal O Povo, dias antes.

Houve pessoas que ficaram furiosas com a contestação da origem da data do Dia Internacional da Mulher. Procurando entender o porquê desta confusão.

Na verdade, a questão da origem do 8 de Março já é discutida há uns 40 anos. Em 1996, o Jornal do Brasil trazia um artigo da professora da UFRJ, Naumi Vasconcelos, no qual ela dizia que a tal greve de Nova Iorque, em 1857, quando teriam morrido 129 operárias queimadas vivas, nunca existiu. E ela afirma que a origem desta data é bem outra.

No mesmo ano, em março, Conselho de Classe jornal do SEPE, Sindicato dos Profissionais de Educação da rede pública do Estado do Rio de Janeiro, trazia um artigo da mesma professora Naumi, com o título sugestivo de: Quem tem medo do 8 de Março? Este mesmo texto da Naumi já tinha sido publicado no mensário Em Tempo, pouco antes.

Uma pesquisa de 12 anos

Neste artigo, a autora citava, como fonte fundamental para a discussão, um livro de uma pesquisadora canadense intitulado: O Dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas.

Este livro, da autora canadense Renée Côté, saiu em 1984, mas estranhamente ficou esquecido por várias razões. O livro da Renée é totalmente antiacadêmico, anticonvencional. Mas, mais do que a forma, o que fez o livro cair em esquecimento é o que ela afirma, que incomoda muita gente. Ela prova por a+b, ao longo de 240 páginas, que as certezas criadas nos anos de 1960, 70 e 80 pelos movimentos feministas, a respeito do surgimento do 8 de Março, são pura ficção.

Ela derruba um mito caro às mulheres feministas, que tanto penaram para afirmar esta data. Além disso, o livro acabou caindo no esquecimento porque é mais fácil aceitar versões já consolidadas de histórias, caras às nossas vidas, do que questionar mitos estabelecidos. Assim como, para muitos, é mais fácil aceitar a historinha de Adão e Eva, criados do barro, uns seis mil anos atrás, do que questionar as origens do homem, bem mais complexas, centenas de milhares de anos atrás.

Há um outro fator determinante que fez o livro da autora canadense cair no limbo: ela deixa transparecer, o tempo todo, sua visão favorável à autonomia dos movimentos sociais frente aos partidos e mostra uma prevenção à própria idéia de partido político.

O livro se insere no grande leito de luta autonomista, típica dos movimentos de esquerda dos anos 70. Isto cria uma animosidade com muitos setores da esquerda mais influente, que poderiam divulgar sua obra. Mas, deixando de lado simpatias, ou alergias, vamos entrar no cipoal deste mito.

A explicação da origem do mito da greve de Nova Iorque de 1857, nos EUA, e do esquecimento de outra greve real, concreta e julgada inoportuna pelo Partido e pelo Sindicato, de 1917 na Rússia, vamos ver só no final do artigo. A questão-chave é ver por quê, no mundo bipolar da Guerra Fria dos anos 60 do século passado, os dois blocos em disputa aceitaram a versão de uma greve de mulheres, em 1857, nos EUA, e esqueceram uma outra greve de mulheres, em 1917, na Rússia. Os motivos são mais políticos que psicológicos.

Há vários estudos, cada um acompanhado de uma vasta bibliografia, que vão no mesmo sentido das pesquisas da Renée Côté. Entre eles destacamos os artigos “8 de Março: Conquistas e Controvérsias” de Eva A. Blay, de 1999. Outro estudo é de Liliane Kandel, de 1982, “O Mito das Origens: sobre o Dia Internacional da Mulher”. Outro texto muito rico é da Sempreviva Organização Feminista (SOF), de 2000, “8 de Março, Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida”. Vamos apresentar a síntese destas recuperações históricas.

O clima mundial quando nasceu o mito de 1857

Na década de 60 o mundo vivia uma grande convulsão político-ideológica. Somente no começo dos anos 70, o jogo se define e o bloco ocidental americano, isto é, capitalista, leva a melhor sobre o bloco soviético, socialista. A chegada do homem à lua, por parte dos americanos, em 69, definiu o destino da humanidade por várias décadas e, quem sabe, séculos. A URSS, a partir dessa data, entra em rápida decadência e o bloco americano caminha rumo ao império neoliberal mundial.

Esta década foi um vendaval nos costumes e ideologias do mundo. Mexeu com todo o equilíbrio político-cultural do planeta. Os anos 60 começam com a vitória do povo da Argélia contra o colonizador francês que foi o estopim das guerras de libertação no Congo, Senegal, Nigéria, Ghana e em toda a África.

A China vivia sua Revolução Cultural, com o famoso Livro Vermelho de Mao Tse Tung, que influenciava milhões de jovens no mundo inteiro. O Vietnã, após ter derrotado a França em 54, enfrentava e preparava a derrota do maior exército do mundo. Os países ex-coloniais tinham criado o movimento dos Não-alinhados. O mundo árabe, sob a liderança de Nasser, começava a se mexer.

Enquanto isso, a Revolução Cubana, com os barbudos Fidel e Che, era um modelo para os revolucionários da América Latina e do mundo.

No bloco soviético, aumentava a contestação interna com a Primavera de Praga, em 68, na República Tcheca. Enquanto isso, a Igreja Católica vivia as dores do parto do nascimento da Teologia da Libertação, pós-Concílio Vaticano II, que negava o apoio a exploradores, opressores, colonizadores e senhores da guerra, com suas cruzadas, e começava a falar em libertação dos oprimidos.

No mundo ocidental, os costumes tradicionais eram contestados pela entrada em cena do mundo jovem: Beatles, Woodstock, Black Power, movimento hippie e Panteras Negras. Na América Latina, faziam-se guerrilhas contra ditadores representantes do capital local e capachos do imperialismo americano.

As mulheres americanas e européias haviam descoberto a pílula e as dos países do Terceiro Mundo, a metralhadora, nas guerrilhas lado a lado com os homens.

No Ocidente, os estudantes passaram dos livros de Marcuse a Alexandra Kollontai e Wilhem Reich com sua Revolução Sexual e A Função do Orgasmo. As mulheres americanas se manifestavam contra a Guerra do Vietnã e falavam em Women”s Lib, libertação das mulheres.

Os estudantes erguiam barricadas em Paris, tomavam as ruas em Praga, Berkley e Rio de Janeiro e falavam de revolução e de amor: revolução social e sexual. E as feministas nas suas manifestações falavam de “mística feminina” e queimavam sutiãs nas praças públicas.

Nesse caldeirão cultural mundial, em Chicago, em 1968 e em Berkley, em 69, se retoma, através de boletins e jornais feministas, a idéia do Dia Internacional da Mulher. Só que se esquece de que no começo do século, quando nasceu o Dia da Mulher, se acrescentava a qualificação de socialista. Este dia tinha caído no esquecimento, enterrado por sucessivas avalanches históricas.

As duas guerras mundiais, a burocratização stalinista da União Soviética e o avanço do capitalismo ocidental na sua versão clássica americana, ou na sua versão socialdemocrata européia, cada vez menos socialista, não tinham interesse em comemorar o 8 de Março.

Nos países comunistas, após a 2ª Guerra Mundial, voltaram as comemorações do 8 de Março. Mas estas eram mais para louvar a política dos seus respectivos governos do que para encaminhar a luta pela total libertação da mulher.

É nesse clima político-ideológico que será retomada a idéia de se comemorar uma data internacional para a luta de libertação das mulheres.

A origem do mito da greve de 1857

O que estamos acostumados a ler nos boletins de convocação do Dia da Mulher é a história de uma greve, que aconteceu em Nova Iorque, em 1857, na qual 129 operárias morreram depois de os patrões terem incendiado a fábrica ocupada.

A primeira menção a essa greve, sem nenhum dos detalhes que serão acrescentados posteriormente, aparece no jornal do Partido Comunista Francês, na véspera do 8 de Março de 1955. Mas onde se dá a fixação da data do 8 de março, devido a esta greve, é numa publicação, que apareceu em Berlim, na então República Democrática Alemã, da Federação Internacional Democrática das Mulheres. O boletim é de 1966.

O artigo fala rapidamente, em três linhas, do incêndio que teria ocorrido em 8 de março de 1857 e depois diz que em 1910, durante a 2ª Conferência da Mulher Socialista, a dirigente do Partido Socialdemocrata Alemão, Clara Zetkin, em lembrança à data da greve das tecelãs americanas, 53 anos antes, teria proposto o 8 de Março como data do Dia Internacional da Mulher.

A confusão feita pelo jornal L ´Humanité não fala das 129 mulheres queimadas. Aonde se começa a falar desta mulheres queimadas é na publicação da Federação das Mulheres Alemã, alguns anos depois. Esta historinha fictícia teve origem, provavelmente, em duas outras greves ocorridas na mesma cidade de Nova Iorque, mas em outra época. A primeira foi uma longa greve real, de costureiras, que durou de 22 de novembro de 1909 a 15 de fevereiro de 1910.

A segunda foi uma outra greve, uma das tantas lutas da classe operária, no começo do século XX, nos EUA. Esta aconteceu na mesma cidade em 1911. Nessa greve, em 29 de março, foi registrada a morte, durante um incêndio, causado pela falta de segurança nas péssimas instalações de uma fábrica têxtil, de 146 pessoas, na maioria mulheres imigrantes judias e italianas.

Esse incêndio foi, evidentemente, descrito pelos jornais socialistas, numerosos nos EUA naqueles anos, como um crime cometido pelos patrões, pelo capitalismo.

Essa fábrica pegando fogo, com dezenas de operárias se jogando do oitavo andar, em chamas, nos dá a pista do nascimento do mito daquela greve de 1857, na qual teriam morrido 129 operárias num incêndio provocado propositadamente pelos patrões.

E como se chegou a criar toda a história de 1857? Por que aquele ano? Por que nos EUA? A explicação, provavelmente, é a combinação de casualidades, sem plano diabólico pré-estabelecido. Assim como nascem todos os mitos.

A canadense Renée Côté pesquisou, durante dez anos, em todos os arquivos da Europa, EUA e Canadá e não encontrou nenhuma traça da greve de 1857. Nem nos jornais da grande imprensa da época, nem em qualquer outra fonte de memórias das lutas operárias.

Ela afirma e reafirma que essa greve nunca existiu. É um mito criado por causa da confusão com as greves de 1910; de 1911, nos EUA; e 1917, na Rússia.

Essa confusão se deu por motivos históricos políticos, ideológicos e psicológicos que ficarão claros no fim do artigo.

Pouco a pouco, o mito dessa greve das 129 operárias queimadas vivas se firmou e apagou da memória histórica das mulheres e dos homens outras datas reais de greves e congressos socialistas que determinaram o Dia das Mulheres, sua data de comemoração e seu caráter político.

Já em 1970, o mito das mulheres queimadas vivas estava firmado. Rapidamente foi feita a síntese de uma greve que nunca existiu, a de 1857, com as outras duas, de costureiras, que ocorreram em 1910 e 1911, em Nova Iorque.

Nesse ano de 1970, com centenas de milhares de mulheres americanas participando de enormes manifestações contra a guerra do Vietnã e com um forte movimento feminista, em Baltimore, EUA, é publicado o boletim Mulheres-Jornal da Libertação. Neste já se reafirmava e se consolidava a versão do mito de 1857.

Mas, na França, essa confusão não foi aceita tranqüilamente por todas e todos. O jornal nº 0, de 8 de março de 1977, História d´Elas, publicado em Paris, alerta para esta mistura de datas e diz que, em longas pesquisas, nada se encontrou sobre a famosa greve de Nova Iorque, em 1857. Mas o alerta não teve eco.

Dolores Farias, no seu artigo no Brasil de Fato, nº 2, nos lembra que, em 1975, a ONU declarou a década de 75 a 85 como a década da mulher e reconheceu o 8 de março como o seu dia. Logo após, em 1977, a Unesco reconhece oficialmente este dia como o Dia da Mulher, em homenagem às 129 operárias queimadas vivas.

No ano de 1978, o prefeito de Nova Iorque, na resolução nº 14, de 24/1, reafirma o 8 de março como Dia Internacional da Mulher, a ser comemorado oficialmente na cidade de Nova Iorque.

Na resolução, cita expressamente a greve das operárias de 1857, por aumento de salário e por 12 horas de trabalho diário, e mistura esta greve fictícia com uma greve real que começou em 20 de novembro de 1909. O mito estava fixado, firmado e consolidado. Agora era só repeti-lo.

Por que a cor lilás?

A partir de 1980, o mundo todo contará esta história acreditando ser verdadeira. Aparecerá até um pano de cor lilás, que as mulheres estariam tecendo antes da greve. Daquela greve que não existiu. A mitologia nasce assim. Cada contador acrescenta um pouquinho. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz nosso ditado.

Por que não vermelho? Porque vermelhas eram as bandeiras das mulheres da Internacional. Vermelhas eram as bandeiras de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai, delegadas dos seus partidos, à 1ª Conferência das Mulheres Socialistas, em 1907; e da 2ª, na Dinamarca, em 1910. Nesta última foi decidido que as delegadas, nos seus países, deveriam comemorar o Dia da Mulher Socialista.

A cor lilás na luta das mulheres tem uma origem engraçada. A feminista Sylvia Pankrust nos conta que esta foi adotada pelas sufragistas inglesas, em 1908, junto com outras duas cores, como símbolo de sua luta. Estas lutadoras pelo direito de voto escolheram o lilás, o verde e o branco. O lilás se inspirava na cor da nobreza inglesa, o branco simbolizava a pureza da luta feminina e o verde a esperança da vitória.

Historicamente, vamos reencontrar a cor lilás na retomada do feminismo, nos anos 60. O vermelho estava muito ligado aos Partidos Comunistas do Bloco Soviético que, na verdade, já tinham muito pouco de socialismo, ou de comunismo. Além disso, historicamente, vários destes partidos pouco apoio havi