Arquivo de História

Obra-prima de cientista político investiga origens do nacionalismo como "anomalia"

Filho de britânicos, nascido na China e criado nos Estados Unidos, o cientista político Benedict Anderson é professor da Universidade Cornell e pesquisador do processo social que cria o sentimento nacionalista.
Em sua obra-prima, "Comunidades Imaginadas" (Companhia das Letras, 2008), Anderson levanta algumas ideias para interpretar essa "anomalia" social.
O acadêmico desfaz grande parte das imagens e preconceitos que temos a respeito do nacionalismo. Sem confundir com o racismo ou o fascismo, ou de ser uma síndrome quase patológica, analisa e apresenta a história contraditória de sua formação.
"O meu ponto de partida é que tanto a nacionalidade –ou, como talvez se prefira dizer, devido aos múltiplos significados desse termo, a condição nacional [nation-ness]–quanto o nacionalismo são produtos culturais específicos", afirma.
O livro é original por conseguir usar recursos de várias ciências humanas, como a filosofia de Walter Benjamin (1892-1940), a antropologia de Victor Turner (1920-1983) e a crítica literária de Erich Auerbach (1892-1957). Leia um trecho no qual o autor introduz seus conceitos.
"CONCEITOS E DEFINIÇÕES"
"Antes de encaminhar as questões levantadas anteriormente, seria aconselhável avaliar rapidamente o conceito de "nação" e oferecer uma definição operacional. É freqüente a perplexidade, para não dizer irritação, dos teóricos do nacionalismo diante destes três paradoxos: (1) A modernidade objetiva das nações aos olhos do historiador versus sua antigüidade subjetiva aos olhos dos nacionalistas. (2) A universalidade formal da nacionalidade como conceito sociocultural - no mundo moderno, todos podem, devem e hão de "ter" uma nacionalidade, assim como "têm" este ou aquele sexo - versus a particularidade irremediável das suas manifestações concretas,de modo que a nacionalidade "grega" é, por definição, sui generis. (3) O poder "político" dos nacionalismos versus a sua pobreza e até sua incoerência filosófica. Em outras palavras, o nacionalismo, ao contrário da maioria dos outros "ismos", nunca gerou grandes pensadores próprios: nenhum Hobbes, Tocqueville, Marx ou Weber.Esse "vazio" cria certa condescendência entre os intelectuais cosmopolitas e poliglotas. Alguém pode logo concluir, como Gertrude Stein diante de Oakland, que não há "nenhum ali ali" [no there there]. É exemplar que até um estudioso tão simpático ao nacionalismo quanto Tom Nairn possa, mesmo assim, escrever que: "O ‘nacionalismo’ é a patologia da história do desenvolvimento moderno, tão inevitável quanto a ‘neurose’no indivíduo,e que guarda muito da mesma ambigüidade de essência,da tendência interna de cair na loucura, enraizada nos dilemas do desamparo imposto à maior parte do mundo (o equivalente do infantilismo para as sociedades), sendo em larga medida incurável".
A dificuldade, em parte, consiste na tendência inconsciente que as pessoas têm de hipostasiar a existência do nacionalismo-com-N-maiúsculo (como se alguém pudesse ter uma Idade-com-I-maiúsculo) e, então, de classificá-"lo" como uma ideologia. (Nota-se que se todos têm uma certa idade, a Idade é apenas uma expressão analítica.) Penso que valeria a pena tratar tal conceito do mesmo modo que se trata o "parentesco" e a "religião", em vez de colocá-lo ao lado do "liberalismo" ou do "fascismo". Assim, dentro de um espírito antropológico, proponho a seguinte definição de nação: uma comunidade política imaginada - e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana.
Ela é imaginada porque mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão, ou sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles. Era a essa imagem que Renan se referia quando escreveu, com seu jeito levemente irônico: "Or l’essence d’une nation est que tous les individus aient beaucoup de choses en commun, et aussi que tous aient oublié bien des choses" [Ora, a essência de uma nação consiste em que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum, e também que todos tenham esquecido muitas coisas]. Gellner diz algo parecido quando decreta, com certa ferocidade, que "O nacionalismo não é o despertar das nações para a autoconsciência: ele inventa nações onde elas não existem". Mas o inconveniente dessa formulação é que Gellner está tão aflito para mostrar que o nacionalismo se mascara sob falsas aparências, que ele identifica "invenção" com "contrafação" e "falsidade", e não com "imaginação" e "criação". Assim, ele sugere, implicitamente, que existem comunidades "verdadeiras" que, num cotejo com as nações, se mostrariam melhores. Na verdade, qualquer comunidade maior que a aldeia primordial do contato face a face (e talvez mesmo ela) é imaginada. As comunidades se distinguem não por sua falsidade/autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas. Os aldeões javaneses sempre souberam que estão ligados a pessoas que nunca viram, mas esses laços eram, antigamente, imaginados de maneira particularista - como redes de parentesco e clientela com passíveis de extensão indeterminada.Até tempos bem recentes, o idioma javanês não tinha nenhuma palavra que designasse a abstração "sociedade". Hoje em dia, podemos pensar na aristocracia francesa do ‘ancien régime’ (antigo regime = Monarquia Absolutista) como uma classe, mas certamente ela só foi imaginada desta maneira em época bastante adiantada. Diante da pergunta: "Quem é o conde de X?", a resposta normal não seria "um membro da aristocracia", e sim "o senhor de X", "o tio da baronesa de Y" ou "um cliente do duque de Z".
Imagina-se a nação limitada porque mesmo a maior delas, que agregue, digamos, um bilhão de habitantes, possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações.Nenhuma delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. Nem os nacionalistas mais messiânicos sonham com o dia em que todos os membros da espécie humana se unirão à sua nação, como por exemplo na época em que os cristãos podiam sonhar com um planeta totalmente cristão.
Imagina-se a nação soberana porque o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico de ordem divina. Amadurecendo numa fase da história humana em que mesmo os adeptos mais fervorosos de qualquer religião universal se defrontavam inevitavelmente com o pluralismo vivo dessas religiões e com o alomorfismo entre as pretensões ontológicas e a extensão territorial de cada credo, as nações sonham em ser livres - e, quando sob dominação divina, então diretamente sob Sua égide. A garantia e o emblema dessa liberdade é o Estado Soberano.
E, por último, ela é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo, foi essa fraternidade que tornou possível, nestes dois últimos séculos, tantos milhões de pessoas tenham-se não tanto a matar, mas sobretudo a morrer por essas criações imaginárias limitadas.
Essas mortes nos colocam bruscamente diante do problema central posto pelo nacionalismo:o que faz com que as parcas criações imaginativas da história recente (pouco mais de dois séculos) gerem sacrifícios tão descomunais? Creio que encontraremos os primeiros contornos de uma resposta nas raízes culturais do nacionalismo". (Resenha de Livraria da Folha - 27/05/2010 - Folha Online)
NOTA DO CONTRAPONTO!: Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, quando muitos dizem que o Brasil passa a ser uma ‘Pátria de Chuteiras’, é preciso refletirmos sobre o real papel do ‘Nacionalismo’ como forma de exclusão (dos ‘outros’, os estrangeiros) e manipulação dos povos, no sentido beligerante, a serviço de interesses da indústria armamentista, do capitalismo e do dissenso. Como dizia o velho Marx, "a classe trabalhadora é internacional".

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Livro do Exército ensina a louvar ditadura Colégio militar usa material de história com perfil diferente do indicado pelo MEC

ANGELA PINHO
DE BRASÍLIA – Folha de São paulo

golpe de 64 A história oficial contada aos alunos dos 12 colégios militares do país omite a tortura praticada na ditadura e ensina que o golpe ocorrido em 1964 foi uma revolução democrática; a censura à imprensa, necessária para o progresso; e as cassações políticas, uma resposta à intransigência da oposição.
É isso que está no livro didático "História do Brasil -Império e República", utilizado pelos estudantes do 7º ano (antiga 6ª série) das escolas mantidas com recursos públicos pelo Exército.
Nelas, estudam 14 mil alunos, entre filhos de militares transferidos ou de civis aprovados em concorridos vestibulinhos. De cada aluno é cobrada uma taxa mensal de R$ 143 a R$ 160, da qual estão isentos os que não podem pagar. Mas 80% das despesas são custeadas pelo Exército.
As escolas militares poderiam utilizar livros gratuitos cedidos pelo Ministério da Educação a todas as escolas públicas. Mas, para a disciplina de história, optaram pela obra editada pela Bibliex (Biblioteca do Exército), que deve ser adquirida pelos próprios alunos. Na internet, o preço é R$ 50, mais um caderno de exercícios a R$ 20. O Exército afirma que o material "atende adequadamente às necessidades do ensino de História no Sistema Colégio Militar".
O livro de história mais adquirido pelo MEC para o ensino fundamental, da editora Moderna, apresenta a tomada do poder pelos militares como um golpe, uma reação da direita às reformas propostas por João Goulart (1961-64). A partir disso, diz a obra, seguiu-se um período de arbítrio, com tortura e desaparecimentos, em que a esquerda recorreu à luta armada para se manifestar contra o regime.
Já a obra da Bibliex narra uma história diferente: Goulart cooperava com os interesses do Partido Comunista, que já havia se infiltrado na Igreja Católica e nas universidades. Do outro lado, as Forças Armadas, por seu "espírito democrático", eram a maior resistência às "investidas subversivas".
No caderno de exercícios, uma questão resume a ideia. Qual foi o objetivo da tomada do poder pelos militares? Resposta: "combater a inflação, a corrupção e a comunização do país".
TORTURA
A obra não faz menção à tortura e ao desaparecimento de opositores ao regime militar. Cita apenas as ações da esquerda: "A atuação de grupos subversivos, além de perturbar a ordem pública, vitimou numerosas pessoas, que perderam a vida em assaltos a bancos, ataques a quartéis e postos policiais e em sequestros".
A censura é justificada: "Nos governos militares, em particular na gestão do presidente Médici [Emílio Garrastazu, 1969-1974], houve a censura dos meios de comunicação e o combate e eliminação das guerrilhas, urbana e rural, porque a preservação da ordem pública era condição necessária ao progresso do país."
As cassações políticas são atribuídas à oposição do MDB (Movimento Democrático Brasileiro). "Embora o governo pregasse o retorno à normalidade democrática, a intransigência do partido oposicionista motivou a necessidade de algumas cassações políticas", diz trecho sobre o governo Ernesto Geisel (1974-79).
Para o historiador Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o livro usado nos colégios militares é problemático tanto do ponto de vista das informações que contém como pela forma como conta a história.
"O principal motivo do golpe foi o incômodo causado pela possibilidade de que setores populares tivessem uma série de conquistas."
Mas, para Fico, mais grave ainda é a forma como o livro narra o período, com uma "história factual" carente de análise, focada apenas na ação dos governos. "Trata-se de uma modalidade desprezada inclusive pelos bons historiadores conservadores", avalia.

 

OUTRO LADO

Não há juízo de valor, afirma comandante

DE BRASÍLIA – Folha de São paulo
O coronel Silva Alvim, comandante do colégio militar de Brasília, o maior do Exército, afirma que as escolas militares abordam "apenas o fato histórico", sem juízos de valor sobre o regime militar.
Questionado sobre a omissão dos torturados e desaparecidos no livro do 7º ano, diz que se trata de um tema proibido. "Dentro desse culto aos valores e tradições do Exército, esse tipo de assunto [tortura e desaparecidos] nós buscamos não tratar. Até porque, no âmbito do Exército brasileiro, essas questões não são permitidas", diz.
Curiosamente, no ensino médio, a apostila adotada pelo colégio militar de Brasília, feita pelo sistema Poliedro, fala em "ditadura" e "tortura". Mas "não enfaticamente", responde o coronel ao ser indagado sobre a diferença de abordagem.
Questionado sobre o livro, o Centro de Comunicação Social do Exército afirmou apenas que a linha didático-pedagógica da obra, adotada desde 1998, "atende adequadamente às necessidades do ensino de História no Sistema Colégio Militar".
O Ministério da Defesa disse, via assessoria de imprensa, que o teor do livro "será levado ao conhecimento das autoridades competentes".

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Os primeiros passos da democracia

Há 25 anos o Brasil iniciava a transição para sair do regime militar. O que aquele país tem a ver com o de hoje? Leia sobre músicos de funk que formam associação e lutam por reconhecimento. E como a mídia comercial reduziu o Santo Daime ao uso de chá e confundiu a opinião pública.

Cristina Uchôa e Glauco Faria

Ao menos duas datas podem ser consideradas como o início da Nova República. A posse de José Sarney em 15 de março de 1985 ou a morte do presidente eleito Tancredo Neves em 21 de abril, que faz com que seu vice se torne definitivamente o mandatário da nação. Mas o que era realmente novo nessa República, além da origem não militar de seu presidente, é o grande ponto de discussão. Diferentemente de outros países da América Latina, a fase democrática brasileira surgiu de um longo processo de negociação e transição, e não de ruptura, como houve na Argentina, por exemplo. Claro que cada país tem suas peculiaridades e, obviamente, esse período trouxe ganhos e conquistas que permanecem no país até hoje. Mas o que, de fato, representou o início da Nova República para o Brasil?

Primeiro, é preciso contextualizar aquela época, já que quase metade da população brasileira não era nascida em 1985, quando José Sarney tomou posse como presidente, enquanto Tancredo Neves era hospitalizado às vésperas daquele 15 de março. Mesmo com a derrota da emenda das Diretas em 1984, era patente o declínio gradual do poder do regime militar, como aponta o sociólogo Gláucio Ary Soares, que à época já estudava o assunto, publicando seus trabalhos pelo Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade da Califórnia. “É preciso diferenciar bem uma distensão política de uma abertura política. O que o governo Geisel começou a promover no Brasil, conscientemente, foi uma distensão”, aponta. Maria Celina D’Araújo, professora da PUC-RJ e estudiosa do tema, lembra que o processo de transição começou, na verdade, em 1974, estendendo-se por 11 anos com uma série de costuras políticas. “É claro que foi uma conquista, mas todas as conquistas se dão em processos de negociação”, afirma Maria Celina, referindo-se aos diversos acordos em que militares e políticos chegaram ao consenso de que, para se viabilizar a abertura, alguns pontos de interesse militar deviam permanecer intocados, como a Lei de Anistia que também beneficia os torturadores, promulgada muito antes da transição política.

Para Soares, embora o processo de distensão não tenha sido controlado de forma absoluta pelos militares, seus interesses principais acabaram preservados. “É claro que quando se dá espaço para instituições democráticas, como a imprensa, por exemplo, o processo de democratização se acelera, porque essas instituições fazem mais e mais pressão. Mas o diferencial do Brasil foi que os militares, apesar de perderem o controle, nunca perderam um nível mínimo de poder – coisa não natural em governos civis – que lhes garantiu a condição de não serem alvo de julgamento civil”, avalia Soares.

Acordos pré-eleitorais De dentro do Congresso Nacional, Fernando Lyra, que foi deputado de 1966 a 1985, relata que não havia nenhuma vergonha ou receio em se trabalhar por uma distensão, e não por uma abertura política. Em diversas passagens de sua autobiografia, Daquilo que eu sei, Lyra, que foi coordenador da campanha eleitoral de Tancredo Neves e o primeiro ministro da Justiça da Nova República, conta que havia a noção de que o fim do regime militar deveria vir por negociação. Embora houvesse discussões sobre a implantação, logo, de eleições diretas, propostas formalmente pela Emenda Dante de Oliveira, o próprio Lyra diz ter trabalhado em duas frentes, sem apostar todas as fichas na realização do sufrágio popular. Na hipótese da realização de eleições indiretas, o candidato viabilizado dentro do Congresso, desde 1983, por uma série de acordos tratados por Lyra e seus correligionários, era Tancredo Neves.

A emenda das Diretas não vingou, muito por manobras dos militares, mas também por interesses comungados por políticos “civis”: era aposta certa que o nome a sair vitorioso de uma eleição direta era Ulysses Guimarães. Mas no Colégio Eleitoral o nome do líder peemedebista enfrentava resistências da chamada Frente Liberal, formada por dissidentes do PDS (ex-Arena), e seu nome também não era bem visto pelos militares por conta da sua marcante atuação na oposição durante o regime autoritário. Mesmo no PMDB havia sérias resistências. “É bom lembrar que o MDB, que depois se tornou PMDB, tinha sido criado por imposição legal da ditadura militar, que estabeleceu o bipartidarismo. Mas era um ‘balaio de gatos’, tinha políticos radicais, moderados, dissidentes da Arena, tinha uma parcela conservadora muito forte”, aponta Vitor Amorim de Ângelo, doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos.

A solução foi lançar um nome com perfil mais conciliador, o moderado governador mineiro Tancredo Neves. Vindo da escola getulista, tendo sido inclusive ministro de Vargas, ele já tinha em sua carreira política um histórico de lidar com momentos difíceis da vida nacional, agindo de forma a contornar crises. Quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República em agosto de 1961, foi um dos negociadores que tratou com o vice-presidente João Goulart para que fosse aceita provisoriamente a solução do parlamentarismo, tendo ocupado a vaga de primeiro-ministro por pouco menos de dez meses. Ali, a preocupação, como confessou Tancredo mais tarde, não era efetivamente o que ele pudesse fazer como líder do Parlamento, mas sim evitar o que estava para ser feito: um golpe militar.

Quando o golpe se materializa em 1964, Tancredo é o único parlamentar do PSD mineiro que não vota no marechal Castelo Branco, primeiro presidente eleito indiretamente pela ditadura. Mesmo assim, durante o período ditatorial, não deixou de ter suas pontes com os militares. “Ele era uma pessoa conservadora, um político moderado que mantinha um diálogo com os militares. Não organicamente como José Sarney, claro, mas Tancredo sempre quis fazer uma transição negociada para a democracia”, explica de Ângelo.

A polêmica da posse Depois da eleição em que derrotou o candidato do PDS no Colégio Eleitoral, Paulo Maluf, Tancredo montou um ministério que atendia às necessidades da aliança encabeçada por ele, contando com dissidentes do PDS em cargos importantes, como Aureliano Chaves, ex-vice de João Figueiredo, na pasta de Minas e Energia, e Marco Maciel no Ministério da Educação. Para a Fazenda, entretanto, trouxe um homem de confiança, o hoje senador pelo PP-RJ Francisco Dornelles, seu sobrinho.

Porém, o mineiro carregava consigo uma diverticulite que progredia silenciosamente. Um dia antes de sua posse, em 14 de março de 1985, a doença não pôde mais ser escondida. “Ele havia tido uma crise nos Estados Unidos, em uma das suas viagens ao exterior, logo depois de eleito. A verdade é que sofria, resistia, não queria operar, principalmente às vésperas da posse, preocupado com a consecução da transição democrática”, conta Lyra em seu livro. Na noite anterior a 15 de março, dia marcado para a posse, Tancredo foi internado com uma crise aguda e não teria condições de sair do hospital para a cerimônia de transição do cargo, pois seria operado naquela mesma noite.

A primeira pergunta que surgiu quando os políticos envolvidos na campanha se reuniram, antes mesmo de considerar se Tancredo estaria em condições de saúde no dia seguinte para assinar a posse no próprio Hospital de Base, foi: “Quem tomará posse?”. José Sarney, em entrevista realizada no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2005, conta que encontrou Ulysses Guimarães, presidente da Câmara dos Deputados, no Hospital de Base de Brasília, onde Tancredo havia sido internado. No encontro, trataram da questão. “Minha primeira reação foi uma reação pessoal e de natureza sentimental. Eu disse para ele: ‘eu não quero assumir, senão com o Tancredo’. E estava na certeza de que o Tancredo, dali a alguns dias, estaria bem. Aí Ulysses me diz: ‘Olha, Sarney, nós não temos que examinar nenhum problema pessoal neste momento. Nós temos a responsabilidade de atravessar esse momento político, porque o Brasil se preparou um longo tempo para isso, nós construímos e agora, neste momento, nós temos é que ter decisões. Vamos saber o que nós vamos fazer e de que maneira devemos fazer. Você deve assumir a Presidência da República.”

Nesse momento, a participação do general e futuro ministro do Exército de Tancredo Neves, Leônidas Pires Gonçalves, teria sido decisiva em prol da posse de Sarney. “ [Leô­nidas] disse: ‘Vamos ao Leitão de Abreu [na época, ministro-chefe da Casa Civil de Figueiredo] comunicar que o Sarney toma posse às dez horas da manhã na Presidência da República, ele que é o vice-presidente’. Ele, então, não admitia mais esse fato de que nós devíamos discutir. A partir desse momento, eles foram para a Granja onde ele estava, não era a do Torto, era a do Ipê. Então lá tiveram uma conversa com o Leitão, e o Leitão teve a oportunidade de dizer a eles que achava, como o presidente Figueiredo também achava, que quem deveria assumir era o Ulysses. E eles pediram: ‘Tragam a Constituição’. E no meio da leitura da Constituição, ficou ali claramente decidido que eu assumiria”, conta Sarney.

A teoria jurídica colocada em questão era se o cargo seria repassado para o vice eleito na chapa, Sarney, ou para o presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses. O advogado Saulo Ramos diz, em sua autobiografia romanceada Código da Vida, que foi ele quem deu a argumentação jurídica para a defesa da tese constitucional: quem deveria assumir a presidência era o presidente eleito ou o vice. Mas sua visão sobre a postura de Ulysses Guimarães no episódio é distinta da de Sarney. Segundo Ramos, Ulysses teria ficado alvoroçado com a possibilidade de se tornar presidente por um imprevisto e que resistira a todos os argumentos que defendiam a posse de Sarney, com o apoio enérgico de Mário Covas e o coro de parlamentares como o deputado Freitas Nobre e o senador Saldanha Derzi. Mas, enfim, rendeu-se, com seus apoiadores, ao argumento constitucional.

Ramos afirma que os militares exerceram forte pressão na escolha do vice-presidente, embora seu nome não fosse bem visto pelo gabinete de Figueiredo, que o considerava, assim como os outros dissidentes do PDS, “traidor”. Ainda assim era um nome mais confiável nas Forças Armadas que o presidente da Câmara. “De longe os militares preferiam Sarney, que fez parte do regime, a Ulysses, que era mais combativo. Não é à toa que eu digo: o Brasil não passou de um governo militar para um regime democrático; passou de um regime militar para um ‘governo Sarney’”, pontua.

Governo Sarney – da euforia à frustração

Sarney manteve a composição ministerial de Tancredo Neves, também pela expectativa de que o presidente realmente se recuperasse e assumisse seu planejado governo. Apesar dos rumores de que Tancredo já estaria definitivamente sem condições de assumir o cargo quando foi internado, ou mesmo de que sofrera um atentado (as teorias conspiratórias eram muitas à época, com diferentes algozes), havia contraponto nas notícias oficiais de progresso médico, dadas pelo porta-voz Antonio Britto e acompanhadas de perto pelo religioso Frei Betto, que, segundo Lyra, era quem dava as informações para os mais próximos.

O próprio Lyra afirma ter visitado Tancredo Neves na UTI em uma ocasião em que ele estava sentado e lúcido, interessado nas notícias políticas. Porém, depois de submetido a sete cirurgias em pouco mais de um mês, Tancredo não resistiu e faleceu. Sarney, como presidente de fato, passou então a decidir com mais clareza, tendo definido que o próprio mandato se estenderia após o término dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Depois de um ano como presidente, realizou sua reforma ministerial, substituindo alguns nomes-chave de Tancredo por outros.

Mas antes mesmo da reforma, um dos principais nomes do ministério tancredista já havia saído. Francisco Dornelles, ministro da Fazenda, entrou em rota de colisão com as aspirações dos desenvolvimentistas do PMDB. Foram quatro meses de turbulências, a orientação de Tancredo era de uma linha econômica ortodoxa, seguindo a cartilha do FMI, já que a premissa era que o governo deveria fazer um acordo com o Fundo para retomar os empréstimos que estavam suspensos. A preocupação era conter os gastos públicos e evitar uma disparada da inflação. Assim, o ministro já havia promovido um corte de 10% no orçamento da União, congelado por um ano a contratação de pessoal para o setor público e mantido suspensos por dois meses os empréstimos dos bancos governamentais.

No entanto, havia uma ligeira queda nos índices inflacionários, tanto que em abril de 1985, a inflação tinha batido em 7,2%, que era a menor taxa desde 1983. Para o padrão da época, não parecia algo que justificasse as medidas – impopulares – tomadas e também as planejadas por Dornelles, ainda mais levando-se em conta que a meta de crescimento anual estabelecida pelo governo era de 5%.

O ministro do Planejamento João Sayad, um dos principais opositores de Dornelles no governo, definia assim a situação econômica, de acordo com entrevista publicada no livro Histórias do Poder – 100 anos de política no Brasil: “A inflação estava subindo, o Delfim – o governo anterior – deixou a economia como uma criança que quebra o vaso na sala, disfarça e vai embora: o primeiro que tocar quebra”. A tentativa de solução tomava corpo a partir da posse do então presidente do BNDES e empresário paulista Dílson Funaro como ministro da Fazenda. Sua indicação representava não só uma vitória dos desenvolvimentistas, como o retorno de São Paulo no comando institucional da economia.

Dentro desse contexto nascia o Plano Cruzado, em fevereiro de 1986. Congelamento de preços, salários e da taxa de câmbio, desindexação da economia. Planos similares haviam sido implantados em Israel e na Argentina, com sucesso àquela altura, porém, em condições diferentes. “Nós sabíamos fazer a desindexação, mas não podíamos nem segurar os salários, seria injusto porque estávamos no fim de um período de arrocho de salário, vínhamos do fim do governo militar; era a hora que os trabalhadores queriam salário maior. E o câmbio – nós não tínhamos dólar nem para as reservas mínimas – também não podíamos segurar. Se não se podia segurar nem o câmbio, nem o salário, nós seguramos todos os preços; foi o congelamento que, visto sob a perspectiva histórica, hoje a gente sabe que é impossível”, conta Sayad na entrevista.

Após o sucesso dos partidos governistas nas eleições estaduais, o governo promove o Plano Cruzado II no dia 21 de novembro, liberando os preços e consolidando o fracasso da tentativa de estabilidade econômica. Sarney conviveria até o fim de seu governo com a inflação em alta, planos sucessivos que naufragaram e uma luta ferrenha para assegurar os cinco anos de mandato na Assembleia Constituinte. Concessões de rádio e TV, favores para conquistar aliados e a saída nada honrosa do então presidente, que saiu com um índice de popularidade baixíssimo em meio a uma crise hiperinflacionária: entre fevereiro de 1989 e março de 1990, a inflação chega ao incrível índice de 2.751%. Terminava assim o primeiro ciclo da Nova República, com parte da população atribuindo à democracia as mazelas gestadas durante o regime militar.

O legado político e a força dos militares Mas se o fim do governo Sarney foi melancólico, importantes conquistas daquela época existem até hoje. A passagem da Nova República marcou a transição para um ambiente de pluralismo que viabilizou a consolidação dos partidos que hoje compõem o cenário político brasileiro.

“O PT se consolida nas manifestações no início da Nova República. Ele surge ainda durante a ditadura militar, depois se envolve intimamente com os projetos das Diretas – apesar de não participar do Colégio Eleitoral –, e ainda participa da elaboração da Constituição de 88, embora não a tenha assinado. Esses três momentos são fundamentais para entender o partido”, aponta Vitor Amorim de Angelo. Para ele, o PT de hoje é um desdobramento desses episódios. “Nos anos 90 há um desenrolar desse movimento anterior, há uma mudança do próprio partido e uma inflexão na conjuntura internacional”, analisa.

Já o PSDB tem seu DNA marcado de forma mais forte pelo início da Nova República, já que sua origem está ligada a um racha ocorrido no PMDB durante a Assembleia Constituinte. “Os dois partidos (PT e PSDB) são aqueles que, ao lado do PMDB, sobreviveram a esse período como partidos grandes. O PMDB não é nem sombra – em termos de atuação política, do pensamento ideológico – do que foi um dia. O PT e o PSDB são legendas grandes, importantes, que participaram da construção desse que é o nosso período democrático mais longo, dentro da democracia chegaram ao poder e imprimiram muitas das políticas públicas discutidas nos anos 80”, explica.

Ao deslocar a visão para fora de Brasília e dos burburinhos da política institucional, a sociedade brasileira viveu uma efervescência política condizente com um período de transição. A campanha pelas eleições diretas, embora frustrada, havia deixado claro que milhões estavam envolvidos em debates de interesse social. E as movimentações, a despeito da repressão, cresciam desde a década de 70. “O movimento da carestia, o movimento da saúde começando muito forte em São Paulo, as pastorais da Igreja Católica etc., eram combativos, mas estavam do lado de fora do Estado. Nos anos 80 e com a Nova República, começam a se organizar e a lutar democraticamente por uma fatia de poder”, analisa José Veríssimo Romão Netto, do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP.

Essa presença dos movimentos se fez sentir com mais força na Assembleia Nacional Constituinte, formada por parlamentares eleitos na mesma época da eleição para governos estaduais, no final de 1986. “O movimento popular na área de saúde é emblemático. É por ele e pelo movimento sanitarista que se inscreve na Constituição o capítulo referente ao SUS”, lembra José Veríssimo. Com vitórias e derrotas, a sociedade organizada foi ouvida e, ainda, conseguiu fazer com que a própria Constituição ampliasse as possibilidades de participação, um passo importante para a consolidação de uma democracia participativa.

“Na década de 90, o Estado, subsidiado pela Constituição de 88, abre uma série de canais de comunicação direta com a sociedade civil: Conselho Popular de Saúde, auditorias, conferências públicas, Orçamento Participativo, plebiscito, lei de iniciativa popular… O poder popular não estava mais restrito aos momentos de eleição, não é apenas de quatro em quatro anos que existe o julgamento das pessoas de seus representantes”, avalia o pesquisador.

No entanto, nem todo legado é positivo. Muitos grupos e correntes de defensores de direitos humanos, boa parte deles familiares de vítimas dos abusos do regime militar, defendiam a abertura dos arquivos e a revisão da “anistia geral e irrestrita”. Nos limites da negociação referida por Maria Celina D’Araújo, os interessados faziam suas tentativas de rever os limites da Lei de Anistia. “A anistia e o veto a qualquer tipo de revisão dos excessos do regime eram pontos muito claros para Figueiredo, e foram aceitos pelos parlamentares e todos os civis envolvidos no longo processo de negociação, inclusive por integrantes do PC do B, que viam na aceitação dessa condição a única maneira de se viabilizar a abertura”, conta.

Além disso, os militares eram uma força presente na discussão, se não atuando diretamente, praticando seus lobbies para garantir a blindagem construída desde 1974. “Na própria Constituinte houve sempre uma tutela militar. Os militares tinham seus meios de colocar o que era viável ou não. Eles não tinham voto, mas tinham um grande poder de veto. O Leônidas [Pires Gonçalves] fazia constar sua postura; não sei se ele se encontrava com Ulysses e Sarney, mas certamente tinha um grau de influência muito grande”, explica Gláucio Soares. Na visão de Maria Celina, “havia um clima, sempre uma dúvida para os constituintes, no sentido de ‘será que os militares vão aprovar’? Muito disso era uma paranoia, mas era uma preocupação presente”.

Desse modo, mesmo que ganhando espaço gradulamente após 1985, a sociedade civil, no entanto, não conquistou plenamente o poder de forma a desequilibrar a força do poderio militar que, à sua maneira, não se ausentou dos espaços de decisão. “Na república brasileira, nunca houve grau de autonomia dos militares inferior ao visto em outros países da América Latina depois do fim dos regimes autoritários”, avalia Soares. Para ele, foi engenhoso da parte dos militares que comandaram a distensão criar formas de democratização gradual e, portanto, lenta, porque medidas drásticas como o julgamento de abusos cometidos durante períodos de exceção são mais eficazes se adotadas com rapidez. “Se hoje o Brasil fizer um julgamento radical como se fez na Argentina, vai condenar cadáveres ou pessoas muito idosas”, aponta.

A principal bandeira de familiares de vítimas da violência da ditadura e militantes por direitos humanos é de se abrir os arquivos, outro ponto blindado pelos militares no longo processo de abertura. “A influência dos militares decresce, mas está longe de ser zero. As Forças Armadas continuam tendo um grande poder de veto. É um veto discreto. Eles conseguem manter a versão de que não existem documentos a ser divulgados, que tudo foi destruído, mas volta e meia aparece algum documento. É claro que esses documentos estão lá”, aposta Soares.

Maria Celina é firme ao não responsabilizar apenas as intenções controladoras dos militares. “Colocar o Leônidas como Ministro do Exército e vetar a iniciativa de criação de um Ministério da Defesa para controlar as Forças Armadas, naquele momento, foram medidas interessantes para evitar mudanças de rumo, mas se isso aconteceu, é porque foi resultado de concordância dos setores civis envolvidos na negociação. E isso se dá até hoje”, diz, referindo-se às sucessivas polêmicas envolvendo a revisão da anistia e a abertura de arquivos, como a polêmica gerada em torno do lançamento do novo Programa Nacional de Direitos Humanos. Para ela, essas polêmicas são abafadas no sentido de não reavivar a memória do período da ditadura, mais por falta de peso político para a pauta do que receio dos militares. “Na prática, não há medida de força que os militares possam tomar hoje contra episódios que confrontem sua postura silenciosa”, afirma.

Isso, para ela, consolida a grande conquista iniciada na Nova República: a consolidação de uma política em que não se cogita o uso de armas e de força, mas de ideias e palavras, num processo conduzido essencialmente por civis.

Fonte: Revista Fórum – http://www.revistaforum.com.br/

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Iara Iavelberg – Anos de Chumbo

 Iara 5Iara Iavelberg

Iara aparece nos sonhos

Do Capitão e daquele

Que foi soldado, a ferro e a fogo

Barreto presente!

Iara sorri, com ar sedutor

A guerra traz esta

Urgência das coisas

De amar desesperada

E intensamente…

Iara sorri no sonho do Capitão

Que delira sob a sombra

Da derradeira baraúna

Cedo demais pra morrer

Tarde demais pra desistir

Mas Iara sorri, amiga

Dos amigos, na vida e na morte

Pra que morrer assim, meu Deus?

Mas Ele não responde…

Iara, sereia mítica

Mergulha nos devaneios

De um Carlos, um José

Mas ela se foi, antes mesmo

Do último beijo,

Do último afago,

Do último conselho:

(- Toma cuidado!)

Quase sussurrado…

Iara diz que

‘O homem novo nasce

Ao transformar-se’

E despreza os torturadores

Os que usam as mulheres

Como objetos

Esses estão ‘aquém da inteligência’

O capitão delira

O soldado, penitentemente, vigia…

Recostar a cabeça sobre a pedra

Restaurar o fôlego,

Quem sabe, pra seguir na Luta

Mas o corpo quase só ossos

Pesa como chumbo

O calor do sertão destrói

As últimas forças,

E a vida só não se esvai

Pelo sonho de ver Iara

O Capitão delira

Sob o último arbusto

E Iara sorri, diz que tudo

Já não é mais dor e sofrimento

Os carrascos trazem o vento, a tempestade

De longe Barreto presente o fim. E Grita:

Abaixo a Ditadura!

E Iara sorri, abre os braços. E diz:

Vem!

(Márcio Amêndola de Oliveira – 22/05/2010)

Membro da coordenação do instituto Zequinha Barreto

 

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Todas e Todos ao 1º de maio na Praça da Sé

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O 1º de Maio de 1886 em Chicago

A Intersindical, as Pastorais Sociais, a Conlutas e mais um conjunto de entidades, entre elas o Instituto Zequinha Barreto, além dos partidos de esquerda – Psol – PCB e PSTU – organizam o ato de 1º de maio na Praça da Sé. O ato está previsto para começar às 10 horas, após a missa do trabalhador na Catedral de São Paulo.
O 1º de maio na Praça da Sé tem se notabilizado como um ato independente, classista, organizado com recursos próprios, sem o patrocínio do governo e de empresas. Tem sido o contraponto aos megashows, sorteios de casas e de carros feito por outras centrais sindicais que distorcem o caráter do 1º de maio, que maculam seu sentido histórico de um dia de luta e resistência da classe trabalhadora em todo o mundo.
O 1º de maio da Praça da Sé celebra a rica história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras, leva as reivindicações imediatas e históricas da nossa classe e não abre mão de manter uma organização independente sem dinheiro dos patrões e do governo para tutelar nossas ações.
É fundamental também fortalecer essa convocatória, convidar os amigos e ativistas de seu local de trabalho, estudo e moradia.
Todas e todos ao 1º de maio na Praça da Sé.
Veja abaixo o material oficial de convocação do Ato:

Leia abaixo a íntegra do texto do panfleto impresso e as entidades que assinam a convocatória do 1º de maio de luta na Praça da Sé.

1º de Maio não é dia de festas, showmícios ou sorteios, 1º de Maio é dia de luta e luto ! Luto porque em 1886 milhares de trabalhadores saíram às ruas de Chicago nos EUA por melhores condições de trabalho, dentre elas a redução da jornada para 8 horas. Foi uma grande greve geral violentamente reprimida com várias prisões, dentre estas a de cinco sindicalistas que foram condenados à morte, estes ficaram conhecidos como os mártires de Chicago; sendo assim, o 1º de Maio é o dia dedicado a todos aqueles que tombaram lutando e também é a data onde os trabalhadores do mundo todo (menos nos EUA) saem às ruas por direitos e conquistas.

Ao invés de organizar as lutas dos trabalhadores, algumas centrais sindicais no Brasil, como a Força Sindical e a CUT, realizam neste 1º de Maio showmícios financiados pelas mesmas empresas e governos que atacam nossos direitos. Para nós o 1º de Maio é dia de lutar contra o capitalismo, denunciando as grandes empresas, os Estados e seus governos; e reafirmar a luta cotidiana para transformar a sociedade e continuar buscando a construção de uma sociedade justa e igualitária, a sociedade socialista.

A situação da maioria do povo brasileiro continua muito difícil, milhões de trabalhadores estão desempregados ou vivendo de bicos. Mesmo os empregados na maioria das vezes não recebem o suficiente para viver dignamente. Muitos vivem em moradias precárias e os serviços públicos estão completamente abandonados, a educação, a saúde, o transporte, a infra-estrutura. A violência e a falta de perspectiva da juventude preocupam e os recursos naturais estão sendo destruídos pela ganância do capital.

No Brasil, apesar dos discursos bonitos os governantes não investem nas políticas públicas, prejudicando os mais pobres. Ao invés de atender as reivindicações populares, o Estado criminaliza a pobreza e os movimentos sociais que lutam por vida digna.

Em São Paulo, Serra e Kassab não tem a menor preocupação social. Exemplo disso na cidade foi o que aconteceu com as áreas atingidas pelas enchentes (como o Jd. Pantanal na zona leste) e a política de expulsão da população em situação de rua das áreas centrais. No estado gastam-se milhões para iludir o povo dizendo que tudo está melhor, mas quem depende da saúde e do transporte público sabe o caos em que eles se encontram, além disso, na educação os professores tiveram que recorrer à greve para defender uma escola pública de qualidade.

Lula continua adotando a política do “para o capital tudo, para o social migalhas”. Os bancos nunca lucraram tanto enquanto isso suas reformas atacam direitos trabalhistas e previdenciários. Apesar de ter sido eleito com a esperança de mudar a realidade social e econômica da classe trabalhadora, ele se limita a utilizar as “bolsa isso, bolsa aquilo”, explorando a miséria popular.

Não podemos esquecer a dimensão internacionalista do 1º de Maio, somos solidários com o povo irmão do Haiti que sofreu com o terremoto, mas que continua sofrendo cotidianamente com a ocupação militar estrangeira (inclusive brasileira). Sem contar a ação imperialista dos EUA que se faz presente pelo mundo inteiro, de modo muito evidente no Haiti e no Oriente Médio, em particular na Palestina, no Iraque e no Afeganistão.

Por tudo isso é que o 1º de Maio de Luta é na Sé !

Fórum das Pastorais Sociais e CEBS da Arquidiocese de São Paulo – INTERSINDICAL – CONLUTAS – MTST – ANEL – CONTRAPONTO – MUST – SEFRAS – Padres Oblatos de Maria Imaculada – Casa da Solidariedade – Fórum dos Trabalhadores Desempregados – Tribunal Popular – Fórum Popular de Saúde – Espaço Cultural Carlos Marighela – Instituto Zequinha Barreto – Circulo Palmarino – PCB – PSTU – PSOL

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1932: revolução ou golpe?

As declarações do Lula no Sindicato dos Metalurgicos de São Bernardo, afirmando que o movimento de 1932 em São Paulo foi um golpe e não uma revolução, acompanhado da constatação de que nenhum espaço público de importância leva o nome de Getúlio, o estadista mais importante do Brasil no século XX, têm uma dupla importância.
Em primeiro lugar, representa uma autocrítica de uma geração de sindicalistas muito hostil ao Getúlio nas suas origens e por um bom tempo. Nascida para a política durante a ditadura militar, aquela geração de sindicalistas desenvolveu forte ojeriza contra o Estado, no que assimilavam desde o regime militar até o sindicalismo nascido com Getúlio, incluindo a oposição ao imposto sindical e ao atrelamento dos sindicatos ao Estado através dele.
Lula reconheceu, a partir da análise comparativa da história brasileira, da sua própria experiência de governo e da atitude da oposição – incluindo a imprensa de direita – as similitudes com a luta do Getúlio. A trajetória da esquerda brasileira entre Getúlio e Lula – que eu analiso no primeiro capítulo do livro “O Brasil, entre o pasado e o futuro”, que organizei com o Marco Aurélio Garcia, publicado pela Boitempo e pela Perseu Abramo – é o fio condutor para entender o Brasil de hoje e a história do movimento popular brasileiro. A inauguração de uma auditório com o nome de Getúlio Vargas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, representa esse importante resgate e a reivindicação da luta nacionalista histórica no Brasil com as lutas contemporâneas contra o neoliberalismo.
No entanto, uma outra conotação é tão importante quanto essa. O movimento de 1932 representou uma tentativa da elite paulista de recuperar o poder, arrebatado pelo Revolução de 1930, que representaria a mais importante e mais popular transformação política que o Brasil teria ao longo de todo o século passado. O movimento tinha um sentido claramente elitista e separatista, com o lema “Non ducor, duco” – “Não sou conduzido, conduzo”, - com a idéia de que São Paulo seria a “locomotiva da nação” e o resto, vagões lentos e pesados, que São Paulo carregava. Tinha um sentido separatista e antinacional, opondo-se aos projetos que Getúlio começava a implementar.
Desde Washington Luis – carioca adotado pela elite paulista, notabilizado por sua frase “A questão social é questão de polícia” – que São Paulo não conseguiu eleger um presidente – até que outro carioca adotado pela elite paulista, FHC, se elegeu. Mesmo sendo o estado mais rico, não conseguia se erigir em líder do país. Os tucanos resgataram esse papel, essa continuidade com 1932, representando a elite branca dos jardins da capital paulista, que busca falar em nome do estado que abriga a maior população nordestina do Brasil.
O governo de FHC traduziu isso da forma mais clara: governo dos banqueiros, que desprezou o desenvolvimento e o resto do país, para priorizar a estabilidade monetária e remunerar aos bancos com taxas de juros que chegaram a 48% - em janeiro de 1999, numa das três crises e cartas de intencao do FMI a que FHC levou o país.
O mesmo sentimento de arrogância, de suposta elite nacional, foi herdado pelos tucanos. As declarações que escaparam a Serra de que a culpa pela deterioração da educação em São Paulo – uma evidência que fala muito mal de quem governou o estado mais rico do Brasil há década e meia – era dos nordestinos, pelo afluxo deles ao estado, expressa esse sentimento de elite “ bem cheirosa” , como se disse agora, com grande eloqüência.
É como se essa elite branca de São Paulo odiasse o Brasil e preferisse ter nascido em um país da Europa ocidental ou nos EUA, sem se dar conta que a São Paulo real representa uma amostra de todo o Brasil, bastando recordar que é a cidade que abriga a maior quantidade de nordestinos. Mas essa elite não se sente ligada ao Brasil, tem uma atitude discriminatória, olha com um olhar superior para os outros estados e regiões.
Os tucanos, com FHC, Serra, representam esse espírito da elite paulista. Luiza Erundina foi um caso de exceção: uma mulher nordestina e de esquerda governando a cidade. Essa elite considera Marta Suplicy como tendo traído suas origens de classe, ao desenvolver uma política social dirigida prioritariamente aos mais pobres.
Ter apontado o papel de Getúlio na história do Brasil, para redefinir o caráter de 1932, como fez Lula, demonstra como os nordestinos imigrantes não têm porque ficar subordinados à visão e aos interesses da elite paulista. Há uma outra São Paulo, que constrói cotidianamente a riqueza do Estado, que não se identifica com a elite dos jardins paulistanos e da imprensa conservadora paulista.

Postado por Emir Sader

Carta Maior

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Dia do Índio: resistência frente às fases da colonização

 

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Roberta Traspadini

Radio Agência NP

“A vida do índio cativo não podia ser mais dura como cargueiro ou remador, que eram seus trabalhos principais. Pertencente a quem o apresasse, ele era um bem semovente, desgastado com a maior indiferença, como se isso fosse o seu destino, mesmo porque havia um estoque aparentemente inesgotável de índios para repor os que se gastavam”. (Darci Ribeiro, O povo Brasileiro)

Dia 19 de abril, dia do índio, relata na história do Brasil, a luta de um grupo em sobreviver em meio às brutais avalanches de seus opositores guerreando pela tomada de seus territórios, recursos, corpos e mentes, enquanto reais possuidores da memória viva do país.

Podemos considerar ao menos três fases de ressignificação, na luta, dos marcos da disputa do capital contra o trabalho no país.

Primeira fase: A bárbara colonização européia do território latino-americano. Este momento Paulo Freire retratou como o poder do opressor e as armas que o mesmo tem para oprimir seu principal oponente no território conquistado, na tentativa de diminuí-lo ou aniquilá-lo.

A marca deste período foi a da produção do ideal-real do colonizador, frente ao ideal-real processo de vida dos grupos residentes no continente até então.

Isto resultou intencionalmente tano na domesticação dos índios que conseguiam ser acorrentados à dinâmica de ser evangelizadora dos europeus, quanto na caça-morte dos índios que temporariamente conseguiam fugir.

A luta do índio na colonização do século XVI marca a sanguinária corrida dos países hegemônicos daquele então, de disputar o poder além mar, em pleno início do modo de produção capitalista europeu.

Segundo fase: A bárbara democratização da Pátria Amada instituída pela sua independência (1822) e posteriormente pela proclamação da República (1989). Este momento tão substantivo da construção da soberania nacional delegou, no discurso, aos índios a possibilidade de lutar, retomar, defender suas terras, culturas, seus domínios.

Entretanto, no marco geral de constituição da Nação, o grupo já era minoritário, e como tal com um poder restrito, segundo os detentores do poder do capital, à ação para dentro dele, mas jamais para fora na contestação de outra ordem que supunha outro progresso de natureza progressista, includente, solidária, presente.

Terceira fase: A bárbara democratização pós-ditadura. Esta fase garantida, por princípio, na luta pela dignidade da pessoa humana no que se consolidou como direitos humanos, permitiu aos índios tanto lutar por direitos, como garantir outros tantos anteriores à leitura institucional do poder.

O índio ganha, na revisão da constituição de 1988, seu verdadeiro papel de sujeito de direitos no País. Guardião dos históricos processos de resistência do Brasil, teria na constituição, garantias de posse-uso, cultura, autonomia, entre outros, dada sua inquestionável trajetória histórica de se manter vivo e protetor dos processos nacionais, ao longo do caminhar histórico de lutas do povo brasileiro.

São três fases em que se diagnosticam as formas-conteúdos da barbárie dos proprietários privados do capital, contra estas minorias. 

Os índios, minorias em números e maiorias, junto com negros e camponeses, em conhecimentos populares tradicionais sobre territórios, espaços, vidas em sustentabilidade, são produtores de uma visibilidade que o capital tenta, com os recursos que estipula em cada época, destruir.

Raposa Serra do Sol, Monte Belo, Aracruz, Transposição do São Francisco, entre outros projetos de desenvolvimento de olho na ordem e no progresso das transnacionais, são na realidade, territórios e espaços de resistência dos sujeitos políticos que tentam lutar por seus direitos, em plena era da parceria público-privada (PPP), isto é, do Estado mínimo para os interesses dos grupos sociais-populares e máximo para os interesses privados do capital (in)ternacional.

São mais de 500 anos de história de resistência, aprendizagem na luta e reivindicação de direitos, em uma sociedade que foi sendo (des)educada para lutar. Luta por direitos em uma sociedade que foi sendo educada, via domesticação, para aceitar o que pode ser, dado o que projetaram para ela, e não para fazer acontecer o sonho coletivo de produzir um outro sentido de Brasil, de Nação. 

São mais de 500 anos de luta de uma minoria índia que, como grupo social, nos constitui como povo brasileiro, cujo sentido popular é o de resgatar o que continua produzido historicamente dentro de seus territórios e para além dele, em meio à brutal invisibilidade de seus processos na esfera social.

São mais de 500 anos de herança histórico-social do ser índio que, ainda quando esteja territorialmente próximo de nossas moradias, enquanto ser coletivo, pertencente ao mesmo projeto de Nação, está adormecido como processo que nos constitui há séculos.

Vivemos em territórios com várias evidências desta morte anunciada pelo capital de uma cultura e sua resistência evidenciada em seus processos de luta cotidiana.

Alguns elementos chaves que recuperam nossas raízes materializadas neste jeito de ser índio brasileiro são:

os nomes tupis-guaranís e das demais raízes índias com os quais nos deparamos diariamente;

as culturas e expressões de vida que foram apropriadas no todo social mas que são particulares destes grupos;

as heranças na pele da descendência destes povos;

o jeito de ser próprio deste grupo em meio à sociedade de consumo padronizada pelo capital no seu modo de operar de forma cada vez mais globalizada no local.

O dia do índio deve servir para os índios de marco de luta ao longo de seu caminhar histórico. Para nós, este dia deve demarcar o terreno que, enquanto esquerda, temos que recuperar de nossas lutar particulares na produção de um projeto popular que consiga considerar o todo sem matar sua raiz, a parte substantiva dos vários jeitos de ser que nos constituem. Parte expressiva que nos reconhece nos múltiplos processos de produção de vida que nos caracterizam.

A guerra histórica se refere ao modelo de desenvolvimento pautado para o Brasil cuja ordem do progresso é a do capital subordinando, explorando, contrariando a riqueza e o sentido do trabalho, tanto do índio, quanto do negro, da mulher, da criança e dos trabalhadores em geral.

Que o dia do índio, como o do negro, o abril vermelho e as demais lutas nos permitam, como classe trabalhadora, ressignificar a urgência de uma unidade popular da esquerda que lute contra o direito individual da propriedade constituído para aniquilar o direito constitucional. E que este direito social, na transição rumo a outro mundo necessário e possível, sirva para além de proteger, recuperar nosso real sentido de ser, pertencer, enquanto povo brasileiro.

20/02/10

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» O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO 8 DE OUTUBRO (MR-8)

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O Movimento Revolucionário 8 de Outubro - MR-8, foi uma organização brasileira de extrema-esquerda que lutou com idéias e armas contra o regime militar de 1964. Seu nome lembra a data em que foi capturado pela CIA, na Bolívia, o revolucionário-guerrilheiro Che Guevara (1967).

Conhecido inicialmente como "DI da Guanabara", ou, Dissidência da Guanabara do PCB, quando atuava desde 1966 no meio universitário, começou a utilizar o nome a partir da execução do seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, operação realizada em conjunto com outro grupo esquerdista, a ALN.

Luís Antônio Santa Bárbara

Entre outros, participou do seqüestro do embaixador norte-americano o futuro militante do Partido Verde, Fernando Gabeira, que posteriormente seria preso e exilado. O episódio é narrado no livro de autoria de Gabeira, O que é isso, companheiro?, cuja versão cinematográfica chegou a concorrer ao prêmio Oscar.

O projeto político do MR-8 tinha semelhança com as idéias da ALN e do PCBR, mas ao contrário da ALN, defendia a necessidade da construção de um novo partido marxista e, na crítica ao programa do PCB, indicava que o chamado "caráter da revolução" no Brasil deveria ser visto como "socialista", e não "democrático-burguês" ou de "libertação nacional".

Marilene Vilas-Boas Pinto

O objetivo era acabar com o silêncio dos meios de comunicação e libertar companheiros militantes que estavam presos e sendo torturados.

Suas operações armadas, prosseguiram no Rio e em 1971, passou a contar com a militância de Carlos Lamarca, já que o grupo em que militava a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), tinha sido desmantelada pela repressão. Pouco tempo depois, este líder revolucionário-guerilheiro seria morto na Bahia ao tentar se refugiar dos militares com uma companheira do partido, Yara.

A maioria dos militantes se retirou para o Chile em 1972, sendo o grupo reestruturado posteriormente com outras orientações. Além de Gabeira e de Lamarca, militaram no MR-8 membros como Reinaldo Silveira Pimenta, Félix Escobar Sobrinho, Marilene Villas-Boas Pinto,Miguel Ferreira da Costa,Marcia Ferreira da Costa,Marco Antônio Marrocos de Araujo e Stuart Edgart Angel Jones.

 

Diretório Central dos Estudantes Mário Prata
Rua Monsenhor Miranda, 86, Bloco A - Centro
Cep: 28610-230 - Nova Friburgo/RJ
dcemp@ffsd.br :: 1982 - 2007

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/MR-8
Grupo Tortura Nunca Mais – RJ

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» MÁRIO DE SOUZA PRATA (1945 - 1971)

» Histórico de Mário Prata
Professora Marília Chermont1

DCE MP

mario_prata Mário Prata, filho de pais de classe média alta, o Mariozinho, era um menino meigo, moreno de olhos escuros e sorriso branco. Um tanto diferente dos outros meninos da época, não gostava de farras, falava pouco e pensava muito. Ainda assim, marcava presença, pois tinha o dom de cativar pela sinceridade e inteligência.

À época em que conheci, militava no “Parlamento Estudantil de Nova Friburgo”, juntamente com dois dos meus irmãos. Tinha idéias avançadas sobre organização política, direitos humanos e liberdade e as discutia com firmeza sem, no entanto, perder a calma, a delicadeza do falar, pois estava convicto de que as verdades devem ser ditas sem agressões. Corajoso, lutador, jamais fugia à responsabilidade de suas ações.

Deixando Friburgo, partiu para o Rio onde se juntou a grupos de estudantes que, como Mariozinho, acreditavam em utopias como projeto realizável (sentido 2 do dicionário), e pensavam, como na música de Vandré, que “as flores poderiam vencer os canhões”. Depois de sua partida, só mais uma vez vi Mariozinho. Estava magro, pálido, assustado não. Falava pouco mais que o de costume, mas o semblante permanecia calmo.

O país vivia dias difíceis então. Greves, discursos inflamados em todas as praças. Articulações para depor o presidente Jango estavam sendo arquitetadas. Falava-se em “caos administrativo”, “quebra da disciplina e da hierarquia”, “subversão da lei e da ordem”. Em 13 de março de 1964, Jango entoou seu canto do cisne, realizando uma das mais famosas manifestações públicas da história do Brasil: “O Comício das Reformas”. Daí para a frente foi a instauração da loucura. Os estudantes, junto com outras classes (sindicatos), uniram-se para, num movimento popular, barrar o caminho de qualquer ação golpista. Tudo em vão. Estoura a revolução e começa a “caça às bruxas”. Os ressentimentos contra o governo Goulart explodiam agora em uma espiral de violência e ódio e “um dos mais belos símbolos do vento generoso das reformas que agitava o país – a sede da UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES – era apedrejado e incendiado”.

Um dia soubemos que Mariozinho fora assassinado. Morrera numa dessas escaramuças de rua entre soldados e estudantes. O motivo, não se sabe até hoje exatamente qual foi. Seu corpo foi encontrado crivado de balas. Na certa Mariozinho não estava armado ou talvez estivesse… com flores, - tentando dizer sua verdade com a calma a e franqueza que lhe eram peculiares.

Isto faz muito tempo, Mariozinho só não foi esquecido por uns poucos. Hoje, numa tentativa de resgatar a memória daqueles que, ao longo da história, tombaram em nome da liberdade e dos ideais democráticos do nosso país, inaugurou-se o Panteão da Liberdade. Lá estarão os nomes do que morreram para que pudéssemos estar falando de pessoas como Mariozinho. Mas os nomes de muitos outros que desconhecemos lá não estarão. Um deles é o de MÁRIO PRATA, menino, meigo, moreno…

1 - Professora da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Retirado de: ABREU, Cintia Maria Carvalho, SANCHO, Benilson & DOMINGOS, Paulo. A Históia do Diretóio Acadêmico Mário Prata da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia. Relatório de Pesquisa apresentado à Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia, requisitado pela discplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa II, através da professora Cláudia Echenbach Dall"Aglio, no V Período do curso de História, em 1991.

Relatório de Pesquisa gentilmente cedido ao DCEMP pela professora Cláudia Echenbach Dall"Aglio no ano de 2007.


» MÁRIO DE SOUZA PRATA
Fonte: Grupo Tortura Nunca Mais -RJ

Militante do MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO 8 DE OUTUBRO (MR-8). Estudante de Engenharia na UFRJ, natural do Rio de Janeiro

Morto aos 26 anos de idade, no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1971, baleado à Rua Niquelândia, n° 23, bairro de Campo Grande (RJ), onde ficou ferida Marilene Vilas Boas Pinto.

O corpo de Mário entrou no IML/RJ em 03 de abril de 1971, pela Guia n° 70, da 35ª D.P., “como desconhecido, morto em tiroteio com as forças de segurança, às 20:45 horas do dia 02 de abril de 1971.”

Sua identificação foi feita em 06 de abril pelo Instituto Pereira Faustino da Secretaria de Segurança Pública e, assim mesmo, em sua certidão de óbito consta como desconhecido. Foi firmado pelo Dr. José Guilherme Figueiredo, tendo como declarante José Severino Teixeira.

Foi enterrado como indigente, em 23 de abril de 1971, no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, na cova n° 20.608, quadra 16. Entretanto, desde sua entrada no IML/RJ, já se sabia de quem se tratava, pois ao lado do n° de sua Guia como desconhecido está a marca “sub”. Não se tem a data de quando seus restos mortais foram para o ossário geral, mas presume-se que estejam na vala clandestina, junto com cerca de 2.000 outras ossadas de indigentes.


Em 26 de agosto de 2004, a Comissão Especial da Lei 9140/95 reconheceu a responsabilidade da União no assassinato de MÁRIO DE SOUZA PRATA.

Processos nºs. 081/02 e 048/96

RELATÓRIO
Requerimento:

O requerimento é apresentado pelo irmão, Cleverson de Souza Prata.

Apresentado quando da Lei 9.140/95, o processo foi indeferido por 4 votos contra 3. Ao voto de indeferimento apresentado pelo Dr. Paulo Gonet, houve pedido de vistas do hoje Ministro Nilmário Miranda, que relatou detalhadamente as divergências nas circunstâncias da morte e as diversas diligências, inclusive diretamente no IML do Rio de Janeiro, para tentar obter o laudo necroscópico e o levantamento feito pela perícia no suposto local da morte, documentos até hoje não localizados.

Militância Política e fatos:
Mário de Souza Prata foi militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro - MR-8.

Filho de Mário Rodrigues e Maria de Lourdes Prata, nasceu em 26 de setembro de 1945, em Cantagalo, Rio de Janeiro.

Estudante de engenharia na UFRJ, Mário iniciou sua militância política no movimento estudantil, ingressando na clandestinidade e na luta armada. Teve sua prisão preventiva decretada pela Justiça Militar já em 1969. Era intensamente procurado por suas atividades como guerrilheiro, acusado de matar um PM que o conduzia, preso, em 1970, logrando fugir.

O nome de Mário Prata consta no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, informando sua morte em 02 de abril de 1971, baleado à Rua Niquelândia, 23, bairro de Campo Grande, ocasião em que ficou ferida Marilene Vilas Boas Pinto, assassinada sob torturas. Até aquele momento, imaginava a Comissão de Familiares que Mário Prata havia sido morto no local. No entanto, como em inúmeros outros casos examinados, o exame dos poucos documentos obtidos demostrou contradições que nos indicam ter sido a morte em tiroteio mais uma farsa dos órgãos de repressão.

A versão oficial contida na informação n.º 624/71-G do Ministério do Exército, 2ª seção, datada de 23/04/71, e constante às fls. 17, diz:

"(…) No dia 2 de abril p.p, uma equipe da Bda. Aet. estava em Campo Grande/GB, empenhada no processamento de um informe que dava como suspeito um casal residente à Rua Niquelândia nº 23.

Verificando tratar-se realmente de um ‘aparelho’ a equipe preparou-se para prender seus ocupantes. (…) Cerca de 23.00 hs o casal chegou, não num volkswagen mas num taxi, o que surpreendeu a equipe, levando-a a mudar o dispositivo para abordagem da viatura. Seus ocupantes, percebendo a manobra, atiraram contra a equipe. (…) No tiroteio foi morto o terrorista foragido Mario de Souza Prata (Dissidência do PCB na GB) e ferida gravemente, vindo a falecer posteriormente Marilene Pinto Carneiro Mendonça (Marilene Villas Boas Pinto quando solteira) (…)."

No relatório das circunstâncias da morte encaminhado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos ficam evidentes as contradições que cercaram o exame do caso.

Mário e Marilene, intensamente procurados pelos órgãos de segurança em função de seu combate à ditadura, teriam sido vítimas de emboscada montada no endereço referido, fato somente divulgado para a imprensa em junho - dois meses depois do ocorrido.

O quê realmente aconteceu até hoje não se sabe. A nota oficial informa a morte de um major e de Mário e os ferimentos em Marilene, falecida posteriormente. A certidão de óbito, lavrada como "um homem", informa que a morte se deu no dia 02 de abril, às 20.45, mas Mário foi encaminhado ao IML somente às 07.40 do dia seguinte, conforme documento obtido por Nilmário Miranda. Ou ainda às 11 horas, conforme informa o CIE. Identificado pelo Instituto Pereira Faustino ainda no dia 03 de abril, foi enterrado 20 dias depois sem identificação (fls. 27). O DOPS e a nota oficial atestam que a morte se deu no dia 03 de abril.

Onde teria ficado durante esse período?

A perícia foi feita no dia 03 de abril, mas o enterro somente é realizado no dia 23 de abril e, apesar de reconhecido no próprio dia 03, como atesta ofício da SSP/RJ à Auditoria Militar (fls. 90), o enterro é feito como de um desconhecido.

Walter Dantas, Delegado do DOPS, buscando instrumentar o inquérito 21/71, oficia à 13ª Circunscrição de Registro Civil, em 08 de julho do mesmo ano:

"(…) A fim de atender requisição do MM Juiz Auditor da 2ª Auditoria da Aeronáutica, solicito de V.Sas. seja fornecido a esta delegacia uma certidão de óbito n.º 16.613, cujo corpo foi recolhido ao IML com guia 70/71, da 35ª Delegacia Policial e enterrado como indigente no cemitério de Ricardo de Albuquerque. (…) Entretanto, pelo Instituto Pereira Faustino foi identificado o corpo, conforme as cópias anexas (xerox) como sendo de Mário de Souza Prata (…)."

Confrontando a versão oficial, o delegado Osmar Peçanha Nunes, da 35ª DP, ao remeter a papeleta de reconhecimento do cadáver removido daquela DP para o IML com a guia nº 70/71, informa ao Juiz Auditor da Marinha:

"(…) Esclareço a V.Exa. que o cadáver removido para o IML com a guia 70/71 desta DP foi de um homem de cor branca, não identificado, profissão, idade, nacionalidade, estado civil e residência também desconhecidas, sendo encontrado na rua Niquelândia, com as seguintes circunstâncias: ’segundo o que foi dado apurar a vítima foi ferida a bala por pessoa não identificada e ao ser socorrida faleceu sem declarar sua identidade.’ Dados colhidos pelo Det. J. Viana, que se encontrava aqui de serviço, de 2 para 03.04.71, nas funções de comissário de dia. O cadáver conforme documento anexo tinha as impressões datiloscópicas similares às de Mario de Souza Prata (…)." (fls. 95)

Ou seja, informa o delegado que o corpo foi simplesmente encontrado, ferido por desconhecido, enquanto a nota oficial divulgada 61 dias depois atesta que os órgãos de segurança estavam no local à espera do casal. É da Delegacia de Polícia que sai o corpo. Seria possível não terem informado ao delegado de plantão como o corpo ali chegou? Quem teria levado? Desconhecidos simplesmente largaram o corpo?

Teria sido ali na DP que Mário foi morto?

A certidão de óbito repete a causa-mortis que consta no livro de registros do IML: feridas penetrantes do tórax e abdome e transfixantes do abdome com lesão do pulmão esquerdo, fígado e baço - hemorragia interna, anemia aguda, atestado assinado por José Guilherme Figueiredo. A foto do corpo, encontrada no arquivo do DOPS/RJ mostra somente o rosto, sendo por demais evidentes os hematomas e marcas não identificadas, além de edema na parte frontal do crânio.

O corpo, reconhecido pelo Instituto Pereira Faustino da SSP e apesar de terem os órgãos de repressão o endereço dos familiares (fls. 29 e 31), é enterrado sem identificação (fls. 26 a 28) no cemitério de Ricardo de Albuquerque, sendo que seus restos mortais provavelmente estão dentre os cerca de 2000 localizados em vala clandestina.

As contradições na data: dia 02 ou dia 03; as contradições no horário da morte: 20.45 hs como diz o óbito ou 23.00 como diz o Exército; as marcas evidentes de hematomas no rosto; o enterro sem identificação; a divulgação tardia são, para nós, elementos suficientes para desqualificar a versão oficial.

Assim não entendeu a Comissão no julgamento proferido em 1997, talvez sob influência da "certeza" manifestada pelo General Osvaldo Pereira Gomes de que a morte ocorrera no local e de acordo à versão oficial. Reforçando nossa certeza de que os arquivos da repressão eram consultados pelo então representante das Forças Armadas nesta Comissão antes dos julgamentos, dizia o General Osvaldo que certamente Mário Prata fora morto em confronto, pois tinha matado "um dos nossos".

Temos pelo menos uma certeza, a de que a morte de Mário Prata não está esclarecida, sendo certamente mais um dos "teatros" macabros montados pelos órgãos de segurança da ditadura militar nos quais encenavam "tiroteios", "atropelamentos" e "suicídios" para encobrir assassinatos sob torturas e execuções sumárias, como foi possível comprovar em 130 casos aprovados e citados no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos.

Como em grande parte dos casos aprovados, a morte de Mário Prata apresenta vários elementos que recorrentemente foram apontados:

1. contradição nas datas, horários e locais das supostas ocorrências;
2. assinatura de legistas pouco confiáveis;
3. desaparecimento de documentos comprobatórios da morte e das ocorrências;
4. lesões, equimoses e ferimentos visíveis e não descritos nos laudos;
5. enterro sob nome falso ou como desconhecido.

A dificuldade de obter a documentação necessária para provar definitiva e irrefutavelmente as circunstâncias da morte de Mário Prata pelos órgãos de repressão revela a persistência, passados mais de 30 anos, dos interesses em manter na sombra as cruéis formas de ação da ditadura militar.

Mantemos nosso voto de inclusão do nome de Mário Prata dentre os preceitos da Lei 9.140/95 e, tendo em vista o indeferimento e a ampliação dos critérios na Lei 10.875/04, não há mais questionamentos possíveis.

Voto pela inclusão do nome de Mario de Souza Prata dentre as vítimas fatais da ditadura militar, por entender que esta é uma reparação moral indispensável para resgatar tanto a sua memória, quanto a dignidade nacional. Reconhecer a responsabilidade do Estado no seu assassinato é um ato do presente voltado para o futuro, representando o mais vivo repúdio à violência, ilegalidades e torturas praticadas pelo Estado durante a vigência da ditadura militar. Nesta semana em que se comemoram os 25 anos da anistia parcial e restrita da ditadura militar, a nossa homenagem a Mário de Souza Prata, guerrilheiro assassinado na luta pela liberdade.

Suzana Keniger Lisbôa
Relatora
Comissão Especial - Lei 10.875/04 - Em 26 de agosto de 2004.

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A AFETIVIDADE COMO PARTE DA CULTURA DA REVOLUÇÃO

Na história da teoria da revolução, a afetividade aparece como um sentimento concreto importantíssimo para garantir a unidade política, das organizações e das lutas. Ela se apresenta como elo de ligação entre as pessoas e fortalece a prática de valores como o companheirismo, a lealdade e a paixão pela causa revolucionária. Isto porque, a condição para sermos revolucionários, homens e mulheres, não podemos ser individualistas, dependemos uns dos outros para que os atos portadores da revolução sejam possíveis.
            Há os que insistem em dizer que, quem luta pelas transformações sociais é “insensível”, “anti-sentimental”, age com excessiva rigidez e desmerece as características afetivas, familiares, comunitárias e internamente na organização de classe. Ledo engano, ou o revolucionário se guia por grandes sentimentos de amor[1] como disse Che Guevara, ou nunca haverá revolução. 
Ninguém melhor do que Che encarnou este valor e o desenvolveu de seu jeito; seja no trabalho voluntário; na guerrilha, com armas na mão; na carta de despedida aos filhos; no treinamento militar; no combate aos inimigos da revolução etc.
A afetividade está na essência do ser humano, o seu oposto é o desprezo e a rejeição. Ela se manifesta de mil maneiras; no olhar, no calar, no ouvir, no pensar, no tocar e no fazer. A natureza humana cria formas diferentes de expressão, onde cada ser se amplia e se torna parte da consciência coletiva.
Uma revolução acontece quando os diferentes tipos de forças se sintonizam e se movem de acordo com os princípios estabelecidos. Mas acima de tudo, porque quem a edifica não trai, não se corrompe e cuida de seus semelhantes que andam nas mesmas fileiras. Então a afetividade se agrega a ética revolucionária que se sustenta enquanto a política for revolucionária. Quando a política perde a direção, a ética perde o juízo e a afetividade se desmancha em confrontos.
Uma revolução é a combinação de ações e relações, idéias e sentimentos. Não pode haver uma revolução sem o uso da força. A mudança é um movimento de forças. Mas o sujeito da revolução não é composto somente de força física, carrega também em si imaginações, sonhos, desejos e paixões.
Houveram, em épocas passadas e ainda há, os que defendem a “revolução passiva” através da adoção de táticas não agressivas, como o processo eleitoral e a conciliação, não o confronto direto. Os que assim se posicionam são revisionistas e cumprem o mesmo papel dos que se apegam a tese pós-moderna da individualidade para explicar as relações na sociedade. O que move a sociedade capitalista são as leis violentadoras do capital e não a suposta liberdade individual. 
            Lenin, ao formular a teoria da revolução russa disse que: “Uma revolução popular é um processo incrivelmente complicado e doloroso, de morte da velha ordem social e nascimento da nova ordem social, do estilo de vida de dezenas de milhões de homens.”[2]  Ela não pode ser pacífica por que obriga a romper com a cultura estabelecida pela  falsificação e tem de reinventar as relações e a moral.
            O rompimento com a velha cultura de dominação exige um novo sentir e um novo pensar. Sartre nos disse que: “… O primeiro passo de uma filosofia deve ser de expulsar as coisas da consciência e restabelecer a verdadeira relação dela com o mundo …”[3] Logo, antes de pôr é preciso se preocupar em tirar o que está encalacrado na consciência em forma de alienação que barbariza cada vez mais os seres sociais.
A expulsão das velhas idéias deformadas permite abrir espaço para a formação de uma nova consciência. Este novo existir passa justamente por onde estão calcados os interesses da classe dominante. É o confronto entre o popular e o dominante. Ao mexer com esses interesses há reações, tanto das pessoas, que serão forçadas a “mudarem seu estilo de vida” e não aceitarem cordialmente, quanto pelo próprio capital que resistirá em mudar de natureza e induzirá os seus representantes a reagirem violentamente. Então as forças revolucionárias têm de agir energicamente, como o cirurgião que age sobre o paciente para ajudá-lo a eliminar a causa da dor. Após eliminá-la, vem o alívio.
            É por assim dizer, um lado da revolução, ao qual dedicou-se muito espaço nas discussões ao longo dos séculos. Mas há o outro lado, que, embora nem sempre tratado teoricamente, esteve sempre presente na forma da afetividade; sem ela não é possível construir a unidade política entre as pessoas e com as forças revolucionárias. Temos exemplos de todos os tipos na história, desde os enfrentamentos mais duros, como também a paixão, o respeito e o companheirismo que alinhou os passos de nossos antepassados em direção ao socialismo. O contrário da afetividade sempre foi o sectarismo que dividiu e impediu o fortalecimento dos valores e da ética revolucionária.
            Leandro Konder expressa bem o que representou a prática partidária e a luta interna entre grupos, tendências e facções no seio das próprias forças revolucionárias quando analisou a trajetória da Segunda Internacional criada em 1889 na Europa. Disse, “O clima de otimismo durou até 1914, quando começou a I Guerra Mundial. Os socialistas se dividiram, as razões nacionais se mostraram mais fortes que as razões de classe: os dirigentes da socialdemocracia  alemã apoiaram a burguesia da Alemanha e os dirigentes da socialdemocracia francesa apoiaram a burguesia da França. Marx havia terminado seu famoso Manifesto do Partido Comunista, de 1848, com a recomendação: “Proletários de todos os países, uni-vos!. Mas, em 1914, os proletários alemães e franceses passaram a se matar uns aos outros, de armas na mão”.[4] Ou seja, as discordâncias no campo das idéias levou os trabalhadores para o campo de batalhas, obscurecendo a identidade de classe.
            Não era para ser esse o destino da união revolucionária dos trabalhadores do mundo todo. Aqui em nosso país ainda é muito recente a imagem das disputas nas eleições sindicais e nos diretórios nacionais e estaduais de alguns partidos políticos. O sectarismo tornou-se um desvio que levou ao nada, a não ser a morte da paixão pela revolução, pois é ele uma doença incurável. Como disse Paulo Freire, “… O sectário seja de direita ou de esquerda, se põe diante  da história como seu único fazedor. Como seu proprietário. .. O povo não conta nem pesa para o sectário…”[5] Muitas vezes não contam nem os companheiros e as companheiras.
Quando estudamos a trajetória de Marx e Engels, sentimos uma sadia inveja da relação entre os dois grandes elaboradores das mais profundas críticas ao capitalismo e juntos formularam a teoria mais avançada do socialismo. Encontramos neles exemplos de uma profunda amizade, admiração, solidariedade, cuidado e atenção, principalmente por parte de Engels que, prontamente atendia a todas as vezes que Marx era banido de um país devido as suas convicções revolucionárias. Após a morte de Marx, Engels confidenciou a um amigo: “Aquilo que todos nós somos, somo-lo por ele; e aquilo que o movimento de hoje é, é-o pela atividade teórica e prática dele; sem ele ainda continuávamos a estar na porcaria da confusão”[6]. Vemos que a lealdade política e a afetividade estão nas raízes do nascimento do marxismo. Ignorar isso é o mesmo que tentar fazer uma criança a dar os primeiros passos com uma perna só.
            A solidariedade era uma necessidade de sobrevivência de todos os exilados que antecedeu a criação da Primeira Associação Internacional em 1864. “Nasceu a idéia de criar esta Associação em um certo banquete celebrado em Londres em 5 de agosto de 1862 por operários de diversas nações que atenderam a Exposição Universal; um banquete de confraternização e para demonstrar a gratuidade aos operários londrinenses pela sua nobre hospitalidade.”[7]
            A hospitalidade sem dúvida nenhuma é a expressão da afetividade humana que recolhe o desgarrado de sua terra para atendê-lo em sua sobrevivência. A divergência de idéias seria o primeiro obstáculo para que eles, na época, não se reunissem para confraternizar e retribuir com cordialidade e gentileza aquele apreço. Sem isso, possivelmente, a idéia da Internacional tivesse demorado mais a surgir ou nem sequer tivesse surgido.   
A unidade política depende da unidade das idéias, e, de ambas depende a unidade nas ações. Na maioria das vezes que as idéias entraram em confronto, levaram ao rompimento as amizades e as relações fraternas chegando ao confronto fatal como foi o caso da Morte de Leon Trotski assassinado a mando de Stalin em 1940 no México. Ambos tinham sido heróicos lutadores da revolução Russa, e, lá mesmo, se estabeleceu o germe das divergências entre “comunistas” e “trotskistas” no mundo todo que, após quase um século passado, ainda permanecem os respingos nas consciências e nas propostas organizativas, quando as razões dos encontros e desencontros são completamente diferentes. A quebra da confiança é também a perda da identidade do projeto.
            Vamos encontrar também em Gramsci esta preocupação com a afetividade e o respeito mesmo com aqueles que tem idéias diferentes, deve-se, no seu entender, verificá-las de modo leal e amistoso, pois “a amizade não pode ser separada da verdade e de todas as asperezas que a verdade implica.”[8]
            Da revolução vietnamita podemos extrair muitos exemplos. Ho Chi-minh que foi uma das grandes lideranças, em um de seus discursos destacou a importância da questão do afeto: “Diante das massas, não é simplesmente escrevendo a palavra “comunista” na testa que nos faremos amar.
            As massas só dão afeto àqueles que são dignos dele por sua conduta e por suas virtudes. É preciso que nós mesmos demos o exemplo, se queremos conduzir o povo. Muitos de nossos camaradas têm se mostrado dignos, mas ainda há alguns, cujos costumes são criticáveis. O Partido tem o dever de ajudá-los a corrigirem-se.”[9]
            A crítica e a autocrítica então é o remédio para que se elimine os germens do divisionismo nas fileiras das organizações. Dividir as forças é enfraquecer a potencialidade da luta para alcançar os objetivos.
            Na revolução de Moçambique na década de 1970, destacou-se Samora Machel que em uma conferência para mulheres se expressou assim: “… Para nós o amor só pode existir entre pessoas livres e iguais, que possuem um ideal de engajamento comum, ao serviço das massas e da Revolução. É sobre esta base que se edifica a identidade moral e afetiva que constitui o amor. Precisamos, pois, descobrir esta nova dimensão, até hoje desconhecida no nosso país.”[10]
            A sociedade socialista não só se opõe à sociedade capitalista nos aspectos econômicos estruturais, como também no desmonte de todas as relações estabelecidas pela cultura burguesa.
            Quando Alexandra Kollontai, analisou a família e o Estado socialista, elevou a compreensão da afetividade acima das relações sexuais entre homens e mulheres, mas que se universalizaria no sentido de que as responsabilidades seriam também sociais.
            “… Estas novas relações assegurarão à humanidade todos os prazeres do amor livre, enobrecido pela verdadeira igualdade social dos sexos, prazeres que eram ignorados na sociedade mercantil do regime capitalista.”[11]
            Nesta perspectiva, a afetividade ganha novas dimensões, no sentido de demonstrar que uma revolução não tem por objetivo apenas a justiça social pela distribuição dos bens econômicos, mas principalmente as mudanças de posturas para que o prazer seja democratizado. O prazer é então o princípio e o fim da vida feliz. Mas não é qualquer prazer disse Epicuro, como pensam os intemperantes, mas o prazer de nos acharmos livres do sofrimento do corpo e das perturbações da consciência.[12]  Lutar é um prazer não um martírio pois se sabe que é a única forma de ver nascer a sociedade socialista.
            Quando Olga em sua carta de despedida à Anita e a Luis Carlos Prestes, afirmou: “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”[13]  estava reafirmando o seu compromisso político e afetivo com a humanidade. 
            É evidente que há momentos que os rompimentos são inevitáveis, mas aí não é por falta de afetividade, é que as idéias se tornaram inconciliáveis para permanecerem juntas na mesma prática. A “ternura” de que falou Che, não significa poupar do castigo o inimigo.
            Por vezes há, não a disputa de idéias, mas desvio de caráter de pessoas que preferem formar grupos por afinidade de certos hábitos e passam a edificar certos sustentáculos que impossibilite qualquer tentativa de desarticular seus privilégios. Agem como grupos fechados, facções, utilizando-se da força da organização para se abastecerem. Isto nada tem de rebeldia política, os vícios tomaram o lugar da prática política, ou como se poderia dizer, é a política por outros meios, que não discute, ameaça; não planeja, inventa; não dialoga, impõe.
            Nos escritos de Che Guevara é uma constante a preocupação com o ser humano e com as relações entre os militantes. Numa passagem ele fez referência a Fidel para fortalecer a própria idéia de que o marxista não é uma máquina que funciona com controle remoto, então destacou que Fidel assim se expressou em uma intervenção: “ Quem disse que o marxismo é uma renúncia aos sentimentos humanos, ao companheirismo, ao amor ao companheiro, ao respeito ao companheiro, a consideração ao companheiro? Quem disse que o marxismo é não ter alma, não ter sentimentos? Pois se foi precisamente o amor ao homem que engendrou o marxismo; foi o amor ao homem, à humanidade, ao desejo de combater a miséria, a injustiça, ao martírio e a toda exploração sofrida pelo proletariado que fez, da mente de Karl Marx, surgir o marxismo…[14] Somente a grandeza de Che seria capaz de captar em Fidel esta profunda referência à essência humana. E  concluiu o raciocino com o pensamento de Martí dizendo: “Todo homem verdadeiro deve receber no rosto o golpe dado no rosto de qualquer homem”.
            Para concluir podemos resgatar uma passagem de Nelson Mandela o incansável lutador contra o apartheid na África do Sul, quando passou quase 3 décadas na cadeia por defender seus ideais. Teve ele a oportunidade de receber na prisão, sua filha mais nova Zeni, que se casara com o príncipe Thumbumuzi da Suazilândia e então, mesmo menor de idade pôde visitá-lo na prisão acompanhada do marido e da filha ainda sem nome:
            “O momento em que eles entraram na sala foi realmente maravilhoso. Eu me pus de pé e, quando me viu, Zeni praticamente atirou a filhinha para o marido e atravessou a sala correndo para me abraçar. Eu não abraçava a minha filha desde que ela era pouco mais velha que a própria filha. Abraçar de repente a minha filha já crescida foi uma sensação estonteante, como se o tempo se houvesse acelerado numa história de ficção científica. Depois abracei o meu novo filho e ele me deu aquela netinha minúscula para segurar; não a soltei o tempo todo que durou a visita. Segurar um bebê recém nascido tão suave e vulnerável com as minhas mãos ásperas, mãos que por tanto tempo seguraram só picaretas e pás, foi uma alegria imensa. Acho que nunca houve homem mais satisfeito por segurar um bebê do que eu naquele dia”.
            “A visita tinha uma finalidade mais oficial: eu deveria escolher um nome para a criança. É costume o avô escolher um nome e escolhi Zaziwe, que significa Esperança. Esse nome guarda um significado especial para mim, pois em todos os anos que passei na prisão a esperança jamais me havia abandonado, e dali em diante é que nunca mais me abandonaria. Eu estava convicto de que aquela criança seria parte da nova geração de sul-africanos para os quais o apartheid seria uma lembrança distante: era esse o meu sonho.”[15]
              Vemos então que a afetividade se constitui parte da cultura da revolução. Sem ela a vida de militantes pereceria por falta de sensibilidade. O poder que nasce com a revolução não é ingrato e insensível tem apenas a rudeza necessária para que saibamos que ele precisa ser aperfeiçoado todos os dias.
            Chegamos à mesma conclusão de Che Guevara: “Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais perfeitos; somos mais perfeitos porque somos mais livres”.[16] Livres, da propriedade privada, do capital, do Estado capitalista, da cultura e da moral burguesa, e, dos valores desta sociedade. Então, para edificarmos os homens e as mulheres do século XXI, verdadeiramente humanos e emancipados, é um pulo.                                     

Out de 2006.   Ademar Bogo.

[1] SADER, Emir. O socialismo humanista. Petrópolis. Vozes. 1991. pg 36.
[2] GOMES, Oziel. Lenin e a revolução russa. São Paulo; Expressão Popular; 1999; p 59.
[3] MOUTINHO, Luis Damon S. Sartre existencialismo e liberdade. São Paulo Editora Moderna. 1995. pg 96.
[4] KONDER, Leandro. História das idéias socialistas no Brasil. São Paulo Expressão Popular. 2003. p 20 e 21
[5] FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro. Paz e Terra; 14a ed. 1983; p 51e52. 
[6] OLIVEIRA JOSÉ (trad)  Friedrich Engels. Edições Avante. Lisboa. 1986,p 410
[7] MORATO, Juan Jose. El partido socialsita obrero. Madrid. Editorial Auso. 1976; p 13
[8] GRAMSCI, Antonio. Escritos políticos . ( Trad) Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2005; p 250
[9] ALVAREZ , Marta Elena. (Org) Ho Chi-minh. São Paulo; Editora Ática; 1984. p 148.
[10] MACHEL, Samora. A libertação da Mulher é uma necessidade da revolução, garantia da sua continuidade, condição do seu triunfo. In A Libertação da Mulher. São Paulo. Global Editora; 2a ed. 1980. pg 29.
[11] KOLLNTAI, Alexandra. A família e o Estado socialista. Idem.
[12] MEWALDT, Johannes. Pensamentos de Epicuro. São Paulo. Martin Claret; 2006.
[13] MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo. Editora Alfa-Omega. 1986 pg 294
[14] FILHO, Aton Fon (T) Obras de Che Guevara: textos revolucionários. São Paulo; Global Editora; 1986; p 60
[15] MANDELA, Nelson. Longo caminho para a liberdade: autobiografia. São Paulo; Siciliano; 1995, p 404.
[16] FILHO, Aton Fon.. Che Guevara: textos Revolucionários. São Paulo. Global editora. 1986. p 107.

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Lamarca e Zequinha Barreto

Lamarca é um filme brasileiro de 1994, dirigido por Sérgio Rezende e baseado em livro de José Emiliano e Miranda Oldack, de título Lamarca, o capitão da guerrilha, uma biografia do militar e guerrilheiro Carlos Lamarca.
A trilha sonora é de David Tygel.

 

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A história começa em dezembro de 1970, quando o ex-capitão do exército brasileiro e grande atirador Carlos Lamarca e seu grupo rebelde auto-denominado "revolucionários" negociam com o Regime Militar, que chamam de "Ditadura", a soltura de presos políticos em troca da vida do sequestrado embaixador da Suíça, mantido por eles em cativeiro. Trinta presos são soltos e a "repressão" aumenta a perseguição aos guerrilheiros, comandadas por um general do Exército e o delegado civil Flores (referência ao delegado da vida real Fleury), que se apresenta como o matador de Marighella e outros "subversivos" e não hesita em torturar seus prisioneiros para obter informações. Os dirigentes do grupo de Lamarca querem que ele saia do Brasil, mas ele não aceita. Lamarca vai então para a Bahia, acompanhado da amante e também militante Clara, para se encontrar com os aliados da guerrilha Zequinha e seus irmãos. Eles o escondem em um sítio no interior do estado. Enquanto espera para se encontrar com os demais guerrilheiros para organizarem um levante rural, Lamarca lembra de momentos do seu passado, da experiência marcante de quando serviu como soldado da ONU no Canal de Suez que o fez se revoltar contra os "capitalistas", da sua mulher e filhos que enviara para Cuba e do campo de treinamento de guerrilheiros que criara no Vale do Paraíba em São Paulo.

 

Elenco
Paulo Betti …. Carlos Lamarca
Carla Camurati …. Clara
Deborah Evelyn …. Marina
Roberto Bomtempo …. Fio
José de Abreu …. major
Nelson Dantas …. pai de Lamarca
Eliezer De Almeida …. Zequinha
Jurandir de Oliveira …. professor Santa Cruz
Ernani Moraes …. delegado Flores
Carlos Zara …. militar
Alvarito Mendes Filho
Camilo Beviláqua
Anna Cotrim …. guerrilheira
Enrique Díaz
Marcelo Escorel
Luiz Maçãs
Selton Mello
Patrícia Perrone
Orlando Vieira
Nelson Xavier

 

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Curiosidades
Sem citar os nomes verdadeiros, o roteiro alude as personalidades da época da repressão militar pela sonoridade dos nomes; assim, o delegado Sérgio Paranhos Fleury se transformou em "Flores", e Iara Iavelberg, em "Clara".

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Cenas do filme Lamarca de 1994.

Zequinha Barreto – Amigos na Vida, Amigos na Morte!

Carlos Lamarca (Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1937 — Pintada, 17 de setembro de 1971) foi um militar brasilleiro, que desertou do exército durante a ditadura militar e se tornou um guerrilheiro comunista, usando o que muitos consideram táticas de terrorismo.
Como guerrilheiro, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária, foi, juntamente com Carlos Marighella, um dos principais opositores armados à ditadura militar de direita no país, visando à implantação de um regime totalitário de orientação comunista no Brasil[1] Devido a isto, foi condenado por "traição e deserção" pelo Exército Brasileiro [2]. É o unico homem na História do Brasil a receber status de traidor da nação.

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Trinta e seis anos após a morte de Lamarca, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça sob supervisão do Ministro da Justiça Tarso Genro dedicou sua sessão inaugural a promovê-lo a coronel do Exército e a reconhecer a condição de perseguidos políticos de sua viúva e filhos. A decisão foi criticada na imprensa, sendo apelidada de "bolsa terrorismo". [3]
Índice

Biografia
Filho de pais pobres, Lamarca nasceu em 27 de outubro de 1937 e viveu, até os 17 anos, no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, com seus irmãos e uma irmã de criação, Maria Pavan, que viria a ser sua esposa, após ter sido engravidada por Lamarca, quando este cursava a Academia Militar.

Carreira no Exército Brasileiro
Ingressou, em 1955, na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Dois anos mais tarde foi transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. Concluído o curso, foi declarado aspirante-a-oficial, classificado em 46º lugar numa turma de 57 cadetes (1960), e passou a servir no 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, na cidade de Osasco, em São Paulo.
Integrou o Batalhão Suez, nas Forças de Paz da ONU na região de Gaza, Palestina, de onde retornou dezoito meses mais tarde. Estava servindo à 6ª Companhia de Polícia do Exército, em Porto Alegre, quando ocorreu o golpe militar de 1964.
De volta a Quitaúna em 1965, foi promovido ao posto de capitão em 1967. Iniciou contatos com facções de esquerda que defendiam a luta armada para derrubar a ditadura de direita e implantar um regime totalitário de esquerda. Em 1969, abandonou o exército para unir-se à organização clandestinaVanguarda Popular Revolucionária (VPR), levando parte do armamento da guarnição para a guerrilha. Esse furto de armamento foi organizado e executado por ele e pelo sargento Darcy Rodrigues, também integrante do quadro de Quitaúna, e que supostamente teria aliciado Lamarca a ingressar na VPR. Participaram também da ação o cabo Mariani e soldado Roberto Zanirato, morto sob tortura na OBAN (DOI-CODI/SP).
Em 2007, trinta e seis anos após a sua morte, foi promovido a Coronel do Exército pela Comissão de Anistia[4].

Guerrilha
Lamarca tornou-se um dos mais ativos militantes da oposição armada ao regime militar brasileiro. Participou de diversas ações, como assaltos a bancos, num dos quais matou com dois tiros o guarda civil Orlando Pinto Saraiva. Em seguida, instalou um comitê de resistência no Vale do Ribeira, no sul de São Paulo, desarticulado em 1970 por forças do Exército, após a prisão de vários militantes da VPR em abril de 1970, e, principalmente após a prisão de Maria do Carmo Brito, uma das dirigentes nacionais da VPR, no dia 18 de abril de 1970, o exército chegou até a área ativa de treinamento da VPR.
Nessa época, no dia 10 de maio de 1970, participou, com outros quatro guerrilheiros, do assassinato do tenente da Polícia MilitarAlberto Mendes Júnior Alberto  Mendes Jr que havia organizado uma emboscada para prender o grupo, mas acabou sendo capturado.
No mesmo ano Lamarca comandou o seqüestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, com o fim de trocá-lo por presos políticos no Rio de Janeiro. A ação do sequestro resultou na morte do agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo, que fazia segurança do embaixador suíço.
Desligou-se da VPR e ingressou no MR-8. Embora se afirme que por essa razão fugiu para a Bahia, Lamarca estava seguindo planos da organização, que acreditava ter chegado a hora de iniciar a revolução no campo. Em 17 de setembro de 1971 foi localizado na região do Agreste baiano, no povoado de Pintada, atual município de Ipupiara (então desmembrado do município de Brotas de Macaúbas). Já estava cercado quando foi executado por tropas do Exército, junto com o metalúrgico José Campos Barreto, integrante da VPR.
Embora a esposa de Lamarca se encontrasse exilada em Cuba desde 1968, com os dois filhos do casal - onde recebeu a notícia da sua morte -, durante a vida na clandestinidade, Lamarca conheceu Iara Iavelberg, que se tornou sua companheira. Ela havia sido morta dias antes da morte de Lamarca, em circunstâncias não esclarecidas, em um apartamento em Salvador, na Bahia.
Depois de vários anos a família de Carlos Lamarca teve aprovação no pedido de Anistia. Por decisão da Comissão de Anistia, a viúva Maria Pavan Lamarca e seus dois filhos tiveram aprovados uma indenização de 300 mil reais (isentos de imposto de renda) como compensação do período que passaram exilados em Cuba.

A opinião dos companheiros
Lamarca sempre foi uma figura controversa, até mesmo na óptica de seus companheiros de guerrilha, desfazendo em parte o mito de unanimidade junto à guerrilha brasileira na década de 70.
Ariston Oliveira Lucena - que com ele participou do assassinato do tenente da Polícía Militar de São Paulo Mendes em Registro - disse em entrevista publicada no Jornal do Brasil de 22 de setembro de 1988 sobre Lamarca: "… era teoricamente despreparado e politicamente sem experiência … tinha frieza e intuição … era autoritário e não gostava de ser contrariado …"
Outro de seus camaradas, José Araújo da Nóbrega, ex-sargento do Exército e militante da VPR, em maio de 1970, preso e torturado na OBAN/SP, declarou de próprio punho: "O Cap. Lamarca não possui um QI satisfatório, à altura de ser um líder revolucionário. É um elemento de caráter volúvel, não tem posição definida, suas decisões são tomadas seguindo suas tendências emocionais. Suas qualidades militares são limitadas, tem limites de aproveitamento prático do conhecimento técnico que possui. É pouco engenhoso. O valor político que possui para ser um líder de esquerda lhe foi dado pela imprensa (interessada ou não). As suas façanhas são limitadas e são raras, todavia é elemento audacioso."
Opiniões divergentes de outros companheiros que com ele participaram do treinamento no Vale da Ribeira. Darcy Rodrigues e José Lavecchia, presos pelo Exército em abril de 1970, não deixaram de contar aos demais presos da cela 2, no DEOPS/SP, sua grande capacidade de liderança, competência militar e, principalmente, extremado companheirismo. Provou rompendo o cerco do Exército, dominando um pelotão da PM sem disparar um tiro e sequestrando um caminhão militar com toda a guarnição e com ele levando aos demais companheiros a salvo até São Paulo.

Obras sobre Lamarca
Ao fim do regime ditatorial, os jornalistas Oldack Miranda e Emiliano José editaram e publicaram o livro "Lamarca, Capitão da Guerrilha".

 

lamarca

A obra deu origem ao filme Lamarca, lançado em 1994, dirigido por Sérgio Rezende e protagonizado por Paulo Betti. No filme Zuzu Angel, do mesmo diretor, novamente o ator interpreta Carlos Lamarca em uma cena.

Homenagem
A Prefeitura do município de Ipupiara - Bahia, construiu na comunidade de Pintada, local onde Lamarca foi morto, uma praça em sua homenagem, a qual contem uma estátua de Carlos Lamarca, anfiteatro, playground, fonte luminosa e cantina. A praça Capitão Carlos Lamarca foi inaugurada no dia 13 de janeiro de 2007. O município também homenageou Lamarca criando uma lei através da qual acrescenta no calendário dos feriados municipais o dia 17 de setembro.


Visita a Pintada Fotos Márcio 19set09 (12)

Foto: Instituto Zequinha Barreto –Márcio Amêndola 19 de Setembro 2009

Visita a Pintada Fotos Márcio 19set09 (5)

Foto: Instituto Zequinha Barreto –Márcio Amêndola 19 de Setembro 2009

Ligações externas
"A luta pelo esclarecimento dos crimes da ditadura militar": texto com referência à morte de Iara Iavelberg
"Lamarca morto na Bahia": Banco de Dados Folha (publicado na Folha de S. Paulo, domingo, 19 de setembro de 1971.)
Entrevista de Carlos Lamarca a jornais europeus, em junho de 1970, sobre a guerrilha no Brasil
"Lamarca: A Trajetória de um Deserto": Página da Organização Não Governamental Grupo Terrorismo Nunca Mais - TERNUMA.
Lamarca, o Capitão da Guerrilha: página no site de Emiliano José, sobre o livro de sua autoria e com diversos links sobre o tema
Lamarca (1994): resenha do filme dirigido por Sérgio Rezende.
Lamarca: ficção e realidade: ensaio baseado no filme "Lamarca".
Cronologia da vida de Lamarca e personagens correlatos
Documentos inéditos e secretos revelam a Guerrilha do Ribeira, no site resgatehistórico.com
Iara Iavelberg, no site do Grupo "Tortura Nunca Mais" - RJ
"Autores de Lamarca admitem rever morte de Iara Iavelberg": texto no site de Emiliano José
Usina de Letras - artigo Lembrar é preciso, de Félix Maier (10 de maio de 2001)

Referências
GASPARI, Elio - A Ditadura Escancarada, p. 193 e 194.
Quitaúna: 70 anos de história acontecem sob nossos narizes
http://veja.abril.com.br/200607/p_068.shtml
Folha de S. Paulo. 14 de junho de 2007. Comissão de Anistia declara Lamarca coronel do Exército

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Aeronáutica tem cartas de Lamarca

LamarcaNos documentos, ex-capitão do Exército mostra preocupação com a ‘parada’ dos grupos de combate à ditadura. Acervo do Cisa, com 50 mil papéis de 1964 a 1985, foi entregue ao Arquivo Nacional no início de fevereiro
Os arquivos do Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica (CISA) contêm três cartas inéditas escritas em 26 de novembro de 1970 por Carlos Lamarca e apreendidas num aparelho da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no Rio de Janeiro. Nas cartas, destinadas a companheiros de guerrilha, Lamarca mostra preocupação com o que chama de "parada" de outros grupos de combate à ditadura militar.
Ex-capitão do Exército, Lamarca tinha trocado a vida do quartel para integrar grupos de combate ao governo militar que comandava o Brasil. Acabou sendo morto pelas tropas do Exército em 17 de setembro de 1971, na cidade de Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia.
As cartas estão entre os documentos entregues pela Aeronáutica ao Arquivo Nacional, conforme o Estado noticiou. A força aérea havia informado antes que esses papéis haviam sido destruídos.
Na época em que escreveu os textos, Lamarca tinha se tornado o principal líder dos grupos armados, principalmente depois da morte de Carlos Marighella. Ele reclamava, porém, da resistência de outras siglas, que desejavam mais tempo para organização política e montagem de sua infraestrutura.
Nas cartas, Lamarca faz críticas pesadas a esse tipo de comportamento da esquerda e informa, por código, que nos próximos dias seria feito um novo sequestro de diplomata.
De fato, isso aconteceu 15 dias depois, com a ação tendo como alvo o embaixador da Suíça Enrico Buscher. Depois de muita discussão, o governo aceitou libertar 70 prisioneiros em troca do embaixador, mas vetou vários nomes pedidos pelos guerrilheiros.
"CLÁUDIO"
Segundo o informe número 079, transmitido pelo CISA em 15 de janeiro de 1971, as cartas comprovam que "persistem as divergências entre as esquerdas, continuando a VPR a ser acusada de militarista, ou seja, continua a ser acusada de relegar para um segundo, terceiro ou quarto plano o trabalho de massas e a organização do Partido do Proletariado que, segundo os marxistas-leninistas é indispensável para fazer a revolução", narra o documento guardado pela Aeronáutica.
Os textos de Lamarca foram redigidos à maquina e ele se identifica como "Cláudio", um dos codinomes que usava. É um momento especialmente difícil para a guerrilha, uma vez que o governo intensificara as prisões e vinha conseguindo obter informações sobre a identidade de seus integrantes, com tortura e infiltração.
O próprio Lamarca enfrentava problemas com o cerco pesado da ditadura. A despeito disso, Lamarca cobrava mais ações, lamentando que seus colegas preferissem ter tempo para fortalecer uma recém-formada frente reunindo várias siglas de combate ao governo.
"Penso que a solução para o impasse da esquerda seria o estabelecimento de uma Frente que se fortalecesse na prática. Não vejo como se fortalecer parada", escreve Lamarca num dos textos. "Estamos vivendo um momento histórico fundamental para o processo. A classe dominante está em ofensiva política - temos de desmascarar essa ofensiva. Não podemos dar o tempo à burguesia, tempo que ela precisa para, através da propaganda, neutralizar o proletariado", acrescenta.
E nos textos expõe todo o racha que os grupos de esquerda vinham enfrentando, reflexo, especialmente, da prisão e desaparecimento de alguns de seus principais militantes.
"CONVERSA ANTIGA"
"A colocação que a VPR faz do sequestro um fim e não um meio não aceitamos. Mas não vamos acusar nenhuma Org (organização) de fazer da ação de numerário um fim e não um meio. Não vamos acusar porque seria jogada. Colocamos a questão em votação aqui, apenas um militante discordou. Estamos pois de cabeça erguida - vamos executá-la porque politicamente é correta", diz, em referência aos preparativo s para o sequestro do embaixador.
"Esta questão de parar para montar infra existe desde março - é conversa antiga - e não vamos entrar nessa. A infraestrutura nunca será permanente, terá sempre de ter flexibilidade. No mais, não se executa ação todos os dias, sempre será hora de montagem de infra estrutura - e sempre é hora de ação'’, afirma. E dispara, preocupado com os efeitos negativos da propaganda do governo: "como a massa vai ver essa questão só de assalto? O governo vai acabar conseguindo nos projetar como bandidos".
AÇÕES ARMADAS
Em seguida, Lamarca anuncia que pretende continuar com as ações armadas, apesar da resistência de alguns grupos. "É hora de avançar e vamos avançar. O povo deu a demonstração de que está descontente, pelo grande número de votos em branco, nulos e abstenções. Essa de dizer que a massa não entende nada não cola mais. A prova que entende está aí. Agora está na hora de explorarmos isto - ficar parado numa hora dessa é imaturidade. Quando teremos uma oportunidade como essa?", escreveu ele. (Felipe Recondo e Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, Agência Estado)

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Panfleto de Lamarca cita inflação para desestabilizar governo militar

Além das cartas, o acervo de documentos secretos da Aeronáutica contém três propostas de panfletos redigidos por Carlos Lamarca em 26 de novembro de 1970 e encontrados pelo governo num apartamento usado pela VPR. Neles, Lamarca sugere que seja capitalizado o alto número de votos nulos, brancos e abstenções das últimas eleições como tentativa de desestabilizar o governo.
O primeiro dos panfletos tem o título de "O povo venceu uma batalha - E vai vencer todas". Lamarca começa citando indicadores econômicos que o governo estaria usando para comprovar o desenvolvimento do País. Em seguida, enumera índices de inflação para contestar o argumento governista.
"O próprio governo declarou ainda que, de janeiro a outubro, a carne aumentou 55% de preço, o feijão 26%, o pão 23%, o café 40%, ovos 20%. Não falou no aumento do preço da energia elétrica, condução, roupas, calçados, remédios e tudo o mais. Então, perguntamos: onde está o desenvolvimento?", escreve.
E aumenta o tom das críticas: "Esse governo é um vaselina. Fala macio, mas violenta o povo. Fala em nacionalismo, mas entrega-se ao americano".
Lamarca, então, aproveita para associar o resultado das eleições de 1970, usando os índices de votos nulos, brancos e de abstenções, a uma espécie de protesto da população contra o governo. "O povo deu uma demonstração nas eleições que discorda de tudo isto que aí está. Os que anularam o voto, votaram em branco e os que nem foram votar são a maioria do povo. É (sic) 60% da população. Esses nós chamamos de povo consciente. Há os que não concordam com o governo, mas ainda estão iludidos e votaram no MDB. O povo consciente sabe que a única maneira de mudar tudo isto é pela luta armada." (Felipe Recondo e Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, Agência Estado)

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Debate: Dia Internacional da Mulher

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Local:Câmara Municipal de Barueri

Alameda Wagih Salles Nemer, 200 – Centro Comercial – Barueri (ao lado do SENAI)

Dia: 12/03/2010 – Das 19:00 às 22:00hs

CONVIDADOS

Marta Suplicy (Ex. Ministra de Turismo) Maura Soares (Vereadora PT Jandira) Célia (Vereadora PT Pirapora), Maria Itamar (PT de Barueri) Dra. Maria Clara (OAB Barueri), Nilza Pereira de Almeida (Sindicato dos Químicos Unificados – Regional Osasco), Eliana (Sindicato dos Metalúrgicos) Adriana Biazoli e demais autoridades.

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Dia Internacional da Mulher: Qual a origem deste dia?

Por Lujan Miranda – Da Coordenação Nacional da Intersindical e da Direção Nacional do PSol

Sempre se ouve falar de que o 08 de Março surgiu como Dia Internacional da Mulher em homenagem às 129 operárias que teriam sido queimadas vivas pelos patrões, dentro de uma fábrica, durante uma greve em Nova Iorque, em 1857.

Mas, há mais de 40 anos há controvérsias acerca da origem do Dia Internacional da Mulher.

Em 1984 a pesquisadora canadense, Renée Côté, publicou um livro intitulado: O Dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas.

Na França, o jornal nº 0, de 8 de março de 1977, História d´Elas, publicado em Paris, alerta para a mistura de datas e diz que, em longas pesquisas, nada se encontrou sobre a famosa greve de Nova Iorque, em 1857.

No Brasil, em 2003, a professora da Universidade Federal do Ceará, Dolores Farias, baseada na pesquisa de Renée Côté publicou um artigo nos jornais “O Povo” e “Brasil de Fato” que causou muita surpresa e indignação.

Além dos estudos de Renée Côté, existem outras publicações que vão na mesma linha, tais como: “8 de Março: Conquistas e Controvérsias” de Eva A. Blay, de 1999; “O Mito das Origens: sobre o Dia Internacional da Mulher”, de Liliane Kandel, de 1982; “8 de Março, Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida”, da Sempreviva Organização Feminista (SOF), de 2000.

Durante 10 anos, a canadense Renée Côté pesquisou em todos os arquivos da Europa, EUA e Canadá e não encontrou nenhuma referência à greve de 1857 nos jornais da grande imprensa nem em qualquer outra fonte de memórias das lutas operárias daquela época. Segundo a autora “essa greve nunca existiu. É um mito criado por causa da confusão com as greves de 1910; de 1911, nos EUA; e 1917, na Rússia”.

Coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), Vito Gianotti nos brindou com um trabalho muito interessante acerca do tema, intitulado “O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas”. Ele afirma que “essa confusão se deu por motivos históricos, políticos, ideológicos e psicológicos” e que o que houve foi uma mistura desta greve fictícia de 1857 com uma greve real que começou em 20 de novembro de 1909. Segundo ele, Renée Cote em seu livro, “prova por a+b, ao longo de 240 páginas, que as certezas criadas nos anos de 1960, 70 e 80 pelos movimentos feministas, a respeito do surgimento do 8 de Março, são pura ficção. Ela derruba um mito caro às mulheres feministas, que tanto penaram para afirmar esta data”.

Para ele “o livro acabou caindo no esquecimento porque é mais fácil aceitar versões já consolidadas de histórias, caras às nossas vidas, do que questionar mitos estabelecidos”. E vai além, afirma que outro fator determinante para que o livro da autora canadense caísse no limbo foi o fato dela deixar “transparecer, o tempo todo, sua visão favorável à autonomia dos movimentos sociais frente aos partidos e mostra uma prevenção à própria idéia de partido político”. Gianotti afirma que “o livro se insere no grande leito de luta autonomista, típica dos movimentos de esquerda dos anos 70. Isto cria uma animosidade com muitos setores da esquerda mais influente, que poderiam divulgar sua obra”. E diz que a questão-chave é “ ver por quê, no mundo bipolar da Guerra Fria dos anos 60 do século passado, os dois blocos em disputa aceitaram a versão de uma greve de mulheres, em 1857, nos EUA, e esqueceram uma outra greve de mulheres, em 1917, na Rússia”. E conclui: “Os motivos são mais políticos que psicológicos”.

Ele descreve muito bem o clima vivido nos anos 60, 70 e 80. Fala do surgimento do Dia Internacional das Mulheres Socialistas e diz acerca do 08 de março: “a partir de 1980, o mundo todo contará esta história acreditando ser verdadeira. Aparecerá até um pano de cor lilás, que as mulheres estariam tecendo antes da greve. Daquela greve que não existiu. A mitologia nasce assim. Cada contador acrescenta um pouquinho. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz nosso ditado”. E questiona, “Por que não vermelho? Porque vermelhas eram as bandeiras das mulheres da Internacional. Vermelhas eram as bandeiras de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai, delegadas dos seus partidos, à 1ª Conferência das Mulheres Socialistas, em 1907; e da 2ª, na Dinamarca, em 1910. Nesta última foi decidido que as delegadas, nos seus países, deveriam comemorar o Dia da Mulher Socialista”.

Para corroborar suas afirmações, Gianotti fala acerca da comemoração do Dia da Mulher no Mundo…

Europa - A Primeira comemoração do Dia Socialista das Mulheres na Europa, aconteceu em 19 de março de 1911, proposto por Alexandra Kollontai, “para lembrar um levante de mulheres proletárias, na Prússia, em 19 de março de 1848. Nesse dia, escreveu Kollontai, as mulheres conseguiram do rei da Prússia a promessa, depois não cumprida, de obter direito de voto”.

EUA – a tradição era realizar o Dia da Mulher no último domingo de fevereiro, como ocorreu em 1911, 1912 e 1913. Em 1914, seguindo a indicação de Kollontai, foi comemorado em 19 de março.

Suécia e Itália – a primeira comemoração foi em 1º de março de 1911.

França e Alemanha – a primeira comemoração do Dia da Mulher foi no dia 09 de março de 1914.

“Em 1914, pela primeira vez, na Alemanha, Clara Zetkin e as mulheres socialistas marcam data do Dia da Mulher para 8 de março. Não se explicou o porquê dessa data, pois não precisava. Era um detalhe sem interesse. A data era totalmente indiferente. Tinha que ser qualquer dia. Importante era a realização do dia”.

Rússia – devido à opressão do czar, o primeiro Dia da Mulher só foi comemorado em 3 de março de 1913. Em 1914 não houve comemoração, pois todas as organizadoras do Dia da Mulher foram presas.

Em 1917, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo, que no calendário ocidental correspondia ao dia 8 de Março. Nesse dia explodiu a greve espontânea das tecelãs e costureiras de Petrogrado que, contrariando a decisão do Partido, saíram às ruas em manifestação por pão e paz. “Foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro”. Leon Trotsky e Alexandra Kollontai, membros do Comitê Central do Partido Operário Socialdemocrata Russo, escreveram: "O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução."

“Em 1921, realizou-se, em Moscou, na URSS, a Conferência das Mulheres Comunistas que adota o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional das Operárias. A partir dessa Conferência, a 3ª Internacional, recém-criada, espalhará a data 8 de Março como data das comemorações da luta das mulheres”.

Gianotti refere-se ao 08 de março como um dia esquecido e depois reinventado e diz: nos primeiros anos da Rússia comunista, o dia 8 de Março era comemorado todo ano, como o Dia Internacional da Mulher Comunista. Mas, aos poucos, foi se “perdendo o interesse e o adjetivo comunista foi caindo à medida que o ímpeto revolucionário da União Soviética começou a se arrefecer”. No final da década de 20 e nos anos 30, “o Dia Internacional da Mulher, seja comunista ou socialista, se perderá na tormenta que se abateu sobre o mundo. A ascensão do nazismo na Alemanha, o triunfo do stalinismo na URSS e o declínio da socialdemocracia na Europa e o vendaval da 2ª Guerra Mundial enterram as manifestações do Dia das Mulheres”.

O coordenador do NPC afirma que “fora dos países comunistas, no Ocidente, a humanidade só voltará a falar do Dia da Mulher, no final dos anos 60. Nesse lapso de tempo, o marco do 8 de Março, data da greve das operárias de Petrogrado, de 1917, foi esquecido. A data da vitória das revolucionárias rebeldes russas, que impôs a derrota do absolutismo do Czar e deslanchou a Revolução Russa, não interessava aos comunistas do mundo todo. Estes, quase todos, viviam anestesiados pelos encantos ou pelo terror stalinista. Retornar a lembrança daquele 8 de Março das operárias revolucionárias de Petrogrado também não interessava à Socialdemocracia, rejuvenescida após a destruição da Segunda Guerra Mundial e em conflito aberto com o comunismo dos países do bloco soviético”.

Em seu artigo, Gianotti afirma que, “neste clima, propício ao esquecimento da verdadeira história do Dia da Mulher, já na década de 1950, nas publicações do Partido Comunista, na França, se começou a falar de uma forte luta das operárias americanas, em 8 de março de 1857. Talvez, a famosíssima greve do 1º de Maio, na Chicago de 1886 e as numerosas greves nas tecelagens americanas estimularam as fantasias e levaram a enfatizar a participação dos Estados Unidos na luta da mulher, o que favoreceu esta confusão de datas” E diz “… foi assim, sem precisar de uma conspiração organizada por um suposto império do mal, que na Alemanha Oriental, em 1966, a Federação das Mulheres Comunistas noticiou a história do Dia da Mulher, enriquecida com o martírio das 129 queimadas vivas”.

E mais: foi “sem nenhuma deliberação conspiratória, que o mito que acabava de ser criado, em 1966, no Leste Europeu, começou a ser divulgado e foi depois enriquecido fartamente, nos EUA do final dos anos 60 e em todo o mundo ocidental. Depois disso, era só enriquecer o mito. O que foi feito, até sua cristalização em 1975, com a ONU e logo depois com a Unesco, em 1977”.

Gianotti termina seu trabalho com afirmações muito fortes, enaltecendo a luta das mulheres e defendendo a derrubada do mito do 08 de março.

Ele afirma:

1. Que o Dia Internacional da Mulher é uma data muito rica que não precisa de mitos;
2. Que derrubar o mito de origem da data 8 de Março não implica desvalorizar o significado histórico que este adquiriu. Muito pelo contrário!

E mais, significa retomar:

• A verdade dos fatos que são suficientemente ricos de significado e que carregam toda a luta da mulher no caminho da sua libertação;
• Enriquecer a comemoração desse dia com a retomada de seu sentido original;
• Voltar às origens do ideal socialista da maioria das mulheres que lutavam por um mundo novo sem exploração e opressão do homem pelo homem e especificamente da mulher pelo homem;
• Integrar todos os novos e importantíssimos aspectos da luta da libertação da mulher, descobertos com a evolução histórica da humanidade no século XX, com a retomada de suas raízes socialistas;
• Integrar à clássica luta libertária, socialista e comunista do começo do século XX, as contribuições de diferentes linhas de pensamento e países, que vão de Wilhem Reich a Simone de Beauvoir, de Herbert Marcuse a Samora Machel, de Betty Friedann a Rose Marie Muraro.
• Integrar toda a luta do feminismo para construir uma sociedade onde a mulher seja reconhecida como gente;
• Integrar estas elaborações teóricas com as lutas e as experiências de vida de milhares de ativistas, militantes e organizadoras da luta das mulheres, no mundo inteiro: das guerrilheiras latino-americanas, às mulheres vietnamitas, das trabalhadoras das fábricas às plantadoras de arroz da Índia, das Mães dos desaparecidos argentinos às lutadoras pela reforma agrária do MST.

Para ele, a luta das mulheres, é “uma longa luta sem medo da felicidade, sem medo do prazer. Sem medo de lutar por uma revolução, que deverá ser social, sexual, e profundamente cultural. Sem medo de levantar as bandeiras vermelhas da luta pela libertação da humanidade. A libertação de homens e mulheres”

Vitória, Março/2010

Lujan Miranda
Da Coordenação Nacional da Intersindical e da Direção Nacional do PSol

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