Arquivo de Para endender a Crise Mundial

Crise sistémica global: Novo ponto de inflexão em Março de 2009

 

— ‘quando o mundo tomar consciência de que esta crise é pior que a dos anos 1930′

por GEAB [*]

O LEAP/E2020 prevê que em Março de 2009 a crise sistémica global venha a experimentar um novo ponto de inflexão de uma importância análoga ao de Setembro de 2008. Nossa equipe considera com efeito que este período do ano de 2009 será caracterizado por uma tomada de consciência geral da existência de três importantes processos desestabilizadores da economia mundial, a saber:
1. A tomada de consciência da longa duração da crise
2. A explosão do desemprego no mundo inteiro
3. O risco do colapso brutal do conjunto dos sistema de pensão por capitalização.
Este ponto de inflexão será assim caracterizado por um conjunto de factores psicológicos, a saber: a percepção geral pelas opiniões públicas na Europa, na América e na Ásia de que a crise em curso escapou ao controle de qualquer autoridade pública, nacional ou internacional, que ela afecta severamente todas as regiões do mundo ainda que algumas sejam mais afectadas do que outras (ver GEAB Nº 28), que ela atinge directamente centenas de milhões de pessoas no mundo ‘desenvolvido’ e que ela não faz senão pior à medida em que as consequências se fazem sentir na economia real. Os governos nacionais e as instituições internacionais têm apenas um trimestre para se prepararem para este situação que potencialmente é portadora de um risco importante de caos social. Os países menos bens equipados para gerir socialmente a ascensão rápida do desemprego e o risco crescente sobre as reformas serão os mais desestabilizados por este tomada de consciência das opiniões públicas.
Neste GEAB Nº 30, a equipe do LEAP/E2020 pormenoriza estes três processos desestabilizadores (dois dos quais são apresentados neste comunicado público) e apresenta as suas recomendações para enfrentar este aumento dos riscos. Além disso, este número faz também, como todos os anos, uma avaliação objectiva da fiabilidade das antecipações do LEAP/E2020, que permite precisar igualmente certos aspectos metodológicos do processo de análise que executamos. Em 2008, a taxa de êxito do LEAP/E2020 é de 80%, com uma ponta de 86% para as antecipações estritamente sócio-económicas. Para um ano de grandes perturbações, é um resultado de que estamos orgulhosos.

geab30

Como pormenorizámos no GEAB Nº 28 , a crise afectará de maneira diversificada as diferentes regiões do mundo. Contudo, e o LEAP/E2020 deseja ser muito claro acerca deste ponto, ao contrário dos discursos actuais dos mesmos peritos que negavam a existência de uma crise em gestação há três anos, que negavam que ela fosse global há dois anos e que negavam há apenas seis meses que ela seja sistémica, nos antecipámos uma duração mínima de três anos para esta fase de decantação da crise [1] . Ela não estará terminada nem na Primavera de 2009, nem no Verão de 2009, nem no princípio de 2010. É só nos fins de 2010 que a situação começará a se estabilizar e a melhorar um pouco em certas regiões do mundo, a saber na Ásia e na zona Euro, assim como para os países produtores de matérias-primas energéticas minerais ou alimentares [2] . Alhures, ela continuará. Em particular nos Estados Unidos e no Reino Unido e nos países mais ligados a estas economias, em que ela se inscreve numa lógica decenal. É apenas por volta de 2018 que estes países podem encarar um retorno ao crescimento real.
Além disso, não se pode imaginar que a melhoria do fim de 2010 assinalará o retorno a um crescimento forte. A convalescença será longa. As bolsas, por exemplo, precisarão igualmente de uma década para retornar aos níveis do ano de 2007, se elas ali chegarem um dia. É preciso recordar que a Wall Street precisou de 20 anos para retornar aos seus níveis do fim dos anos 1920. Ora, segundo o LEAP/E2020 esta crise é mais profunda e durável que aquela dos anos 1930. Esta tomada de consciência da longa duração da crise vai progressivamente tornar-se clara junto às opiniões públicas no decorrer do próximo trimestre. E ela desencadeará imediatamente dois fenómenos portadores de instabilidade sócio-económica: o medo pânico do amanha e a crítica reforçada dos dirigentes do país.
O risco de colapso brutal do conjunto dos sistemas de pensão por capitalização
Finalmente, no quadro das consequências da crise que afectarão directamente dezenas de milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido, no Japão, na Holanda e na Dinamarca em particular [3] , é preciso integrar o facto de que a partir deste fim de ano de 2008 vão multiplicar-se noticias referentes a perdas maciças dos organismos que gerem activos destinados a financiar estas reformas. A OCDE estima e US$4 milhões de milhões as perdas dos fundos de pensão apenas para o ano de 2008 [4] . Na Holand [5] assim como no Reino Unido [6] , os organismos de vigilância dos fundos de pensão acabam de lançar gritos de alarme exigindo com urgência um acréscimo das quotizações obrigatórios e uma intervenção do Estado. Nos Estados Unidos, são anúncios múltiplos de aumento das contribuições e de diminuição dos pagamentos que são emitido a um ritmo crescente [7] . E é só nas próximas semanas que numerosos fundos vão poder fazer realmente o cálculo do que perderam [8] . Muitos iludem-se ainda sobre a sua capacidade de reconstituir o seu capital no momento de uma próxima saída da crise. Em Março de 2009, quando gestores de fundos de pensão, reformados e governos vão simultaneamente tomar consciência de que a crise vai durar, que ela vai coincidir com a chegada maciça dos "babyboomers" à aposentadoria e que as bolsas tem pouco probabilidade de recuperar antes de longos anos os seus níveis de 2007 [9] , o caos vai instalar-se neste sector e os governos vão se aproximar cada vez mais da obrigação de intervir para nacionalizar todos estes fundos. A Argentina, que tomou esta decisão há alguns meses, surgirá então como um precursor.
Todas estas tendências já estão em curso. A sua conjunção e a tomada de consciência pelas opiniões públicas das consequências que elas implicam constituirá o grande choque psicológico mundial da Primavera de 2009, a saber, que estamos todos mergulhados numa crise pior que aquela de 1929; e que não há saída possível da crise a curto prazo. Esta evolução terá um impacto decisivo sobre a mentalidade colectiva mundial dos povos e dos decisores e modificará pois consideravelmente o processo do desenrolar d crise no período que se seguirá. Com mais de ilusões e menos de certezas, a instabilidade sócio-política global vai aumentar consideravelmente.
Finalmente, este GEAB Nº 30 apresenta igualmente uma série de 13 perguntas/respostas a fim de ajudar de maneira quase interactiva os poupadores/investidores/decisores a melhor compreender e antecipar os desenvolvimentos a acontecer da crise sistémica global:
1- Esta crise será diferente das crise que anteriormente afectaram o capitalismo?
2- Esta crise será diferente da crise dos anos 1930?
3- A crise será tão grave na Europa e na Ásia quanto nos Estados Unidos?
4- As medidas empreendidas actualmente pelos Estados do mundo inteiro serão suficiente para jugular a crise?
5- Quais os principais riscos que pesam sobre o sistema financeiro internacional? E todas as poupanças são iguais face à crise?
6- A zona Euro constituirá uma verdadeira protecção contra os piores aspecto da crise? E o que poderia ela fazer para melhorar este estatuto?
7- O sistema de Bretton Woods (sob a sua última versão dos anos 1970) está em vias de afundar? O euro deve substituir o dólar?
8- O que se pode esperar do próximo G20 em Londres?
9- Pensa que a deflação seja actualmente a maior ameaça que paira sobre as economias mundiais?
10- Pensa que o governo Obama estará em condições de impedir os Estados Unidos de soçobrar na "Muito grande depressão americana"?
11- Em termos de moedas, para além da vossa antecipação referente à retomada da queda do dólar dos EUA ao longo de todos os próximos meses, pensa que a libra esterlina e o franco suíço sejam sempre moedas de estatuto internacional?
12- Pensa que o mercado dos CDS esteja a ponto de implodir? E quais seriam as consequências de um tal fenómeno?
13- A "bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA" estará a ponto de explodir?

16/Dezembro/2008

Notas:
(1) Acerca desta crise é útil ler uma contribuição muito interessante de Robert Guttmann publicada no 2º semestre de 2008 no sítio web Revues.org , apoiado pela Maison des Sciences de l’Homme Paris-Nord..
(2) São as matérias-primas que começam a relançar o mercado do transporte marítimo internacional. Fonte: Financial Times, 14/12/2008
(3) Um vez que são os países que mais desenvolveram os sistemas de reforma por capitalização. Ver GEAB Nº 23 . Mas também é o caso da Irlanda. Fonte: Independent, 30/11/2008
(4) Fonte: OCDE , 12/11/2008
(5) Fonte: NU.NL , 15/12/2008
(6) Fonte: BBC , 09/12/2008
(7) Fontes: WallStreetJournal, 17/11/2008 ; Phillyburbs , 25/11/2008 ; RockyMountainNews , 19/11/2008
(8) Fonte: CNBC , 05/12/2008
(9) E não mencionamos sequer a influência da explosão da bolha dos Títulos do Tesouro dos EUA que também afectará brutalmente os fundos de pensão. Ver Q&A, GEAB N°30.
[*] Global Europe Anticipation Bulletin.
O original encontra-se em www.leap2020.eu

Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

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A grande explicação desse emaranhado

O grau de criticismo em relação ao predomínio financeiro no capitalismo está crescendo abarcando mesmo nomes inesperados. O artigo abaixo foi escrito pelo colunista do The New York Times, Thomas Friedman, um dos principais expoentes da direta não religiosa na grande imprensa estado-unidense. Como em outro artigo recém-publicado, Capitalistas estúpidos, de Joseph Stiglitz, publicado na Vanity Fair, a catástrofe econômica atual aparece como resultado inevitável do funcionamento prévio do capitalismo,da ideologia do livre mercado e do poder político nos Estados Unidos.

Thomas Friedman, do The New York Times. O Estado de S.Paulo, 19 de dezembro de 2008

O estrangeiro, um empresário ocidental, sentou-se ao meu lado durante um almoço da Asia Society em Hong Kong e me fez uma pergunta que, digo honestamente, jamais tinha sido feita até então: “Até que ponto a América está corrompida?” A pergunta veio a propósito da prisão do gestor de recursos e investidor Bernard Madoff, acusado de dirigir um chamado esquema Ponzi que lesou investidores em bilhões de dólares, mas não foi só por isso.

É toda essa maldita confusão que se verificou em Wall Street - o centro financeiro que os financistas de Hong Kong sempre admiraram. E eles se perguntam como nomes de marca do porte de um Bear Stearns, Lehman Brothers e AIG puderam acabar com os pés na lama? Onde, eles perguntam, estava a nossa Comissão de Valores Mobiliários e os rígidos padrões que nós pregamos para eles durante todos estes anos? Um dos mais respeitados banqueiros de Hong Kong, que pediu para não ser identificado, disse-me que a empresa de investimento americana onde trabalha fez fortuna na última década colocando ordem em bancos asiáticos enfermos. E isso foi feito importando as melhores práticas americanas, particularmente o princípio do “conheça o seu cliente” e os rígidos controles de risco. Mas agora, ele perguntou, para onde olhar em busca de uma liderança exemplar? “Antes havia os EUA”, disse ele. Supunha-se que os investidores americanos tinham um conhecimento melhor e agora o próprio país está em dificuldades. Para quem vão vender seus bancos? É difícil para a América adotar os próprios remédios prescritos com sucesso para outros. Já não há mais médicos. O próprio médico está doente.

Não simpatizo com Madoff. Mas o fato é que o seu alegado esquema Ponzi foi apenas ligeiramente mais vergonhoso do que o esquema “legal” que Wall Street conduziu, alimentado pelo crédito barato, parâmetros medíocres e uma enorme ganância. Que nome dar para o fato de se dar a um trabalhador que ganha US$14 mil por ano uma hipoteca sem entrada e sem prestação por dois anos, para comprar uma casa de US$750 mil e depois transformar essa hipoteca em bônus - que a Mooddy’ s ou a Standard & Poors classificam como títulos AAA - vendendo-os depois para bancos e fundos de pensão pelo mundo todo? Era isso o que o nosso setor financeiro estava fazendo. Se não se trata de um esquema de pirâmide, então o que é? Longe de estar fundamentado nas melhores práticas, este esquema Ponzi legal teve por base os corretores hipotecários, pacotes de bônus, as agências de classificação, os vendedores de títulos e os proprietários de imóveis, todos trabalhando segundo o princípio IBG (”I’ll be gone” - já terei partido) quando os pagamentos vencerem ou a hipoteca tiver de ser renegociada.

É revelador e deprimente observar a nossa crise bancária a partir da China. É difícil evitar a conclusão de que Estados Unidos e China estão se tornando dois países e um único sistema.

Como assim? Fácil: diante do enorme pacote de ajuda aos bancos, pode-se agora olhar para os dois e dizer: “Bem, a China tem um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado e os EUA hoje têm um enorme setor bancário estatal ao lado de um privado. A China tem grandes setores estatais, juntamente com setores privados e, tão logo Washington preste sua ajuda financeira a Detroit, os EUA terão um enorme setor estatal ao lado de setores privados.

Pode parecer exagero, mas a verdade é que as diferenças começam a ficar menos claras. Por duas décadas, autoridades americanas desfilaram por Pequim, pregando sobre a necessidade de a China privatizar bancos, disse Qu Hongbin, economista chefe do HSBC na China. “Assim, lentamente nós assim o fizemos, e agora, repentinamente, vemos todo mundo nacionalizando os seus bancos”.

É deprimente porque a China, sob vários aspectos, sente-se mais estável do que os EUA hoje, com uma estratégia mais clara para superar a crise. E embora os dois países pareçam mais semelhantes, também parecem estar em trajetórias muito diferentes. Enquanto o capitalismo salvou a China, o fim do comunismo parece ter perturbado os EUA que perdeu os dois maiores concorrentes ideológicos : Pequim e Moscou. Quando o capitalismo americano não precisou mais se preocupar com o comunismo, parece ter enlouquecido.

Os bancos de investimento e os fundos de hedge se endividaram em níveis insanos, pagando para si mesmos salários absurdos e inventando instrumentos financeiros que desconectaram os credores dos tomadores de empréstimos, sem nenhum responsável. É por isso que não precisamos de um pacote de ajuda financeira; precisamos de uma ajuda ética, restabelecer o equilíbrio básico entre nossos mercados.

*Thomas Friedman é articulista

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Bancos recebem ajuda de US$ 4 trilhões. E o resto do planeta?

Estudo destaca que já foram empregados, para o auxílio às instituições financeiras, mais de quatro trilhões de dólares, um valor quarenta vezes superior ao que se investe para combater a pobreza e a mudança climática. Os US$ 152,5 bilhões investidos pelos EUA para o resgate de uma só empresa, a AIG, supera longe os 90,7 bilhões de dólares que esse país e os europeus destinaram à ajuda para o desenvolvimento em 2007.

Haider Rizvi - IPS

Nova York (IPS) – As enormes somas de dinheiro que Estados Unidos e países europeus estão destinando para socorrer os bancos em risco de quebra podem ocasionar conseqüências desastrosas para os esforços que visam a reduzir a pobreza e os efeitos da mudança climática, alertam especialistas. Um informe da organização não-governamental Instituto para Estudos de Políticas, com sede em Washington, destaca que já foram empregados para o auxílio às instituições financeiras mais de quatro trilhões de dólares, um valor quarenta vezes superior ao que se investe para combater a pobreza e a mudança climática.

Os autores do estudo assinalam que os governos dos países ricos provavelmente usarão a desculpa dos custos do resgate dos bancos para não cumprir seus compromissos em matéria de ajuda para o desenvolvimento e ações contra o aquecimento global.

O trabalho foi divulgado na véspera de duas reuniões patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o propósito de fazer avançar sua agenda sobre meio ambiente e desenvolvimento. Neste final de semana, em Doha, inicia a conferência de três dias sobre financiamento para o desenvolvimento, enquanto que a cúpula sobre mudança climática começará na próxima semana na cidade polonesa de Poznan, com a presença de mais de 8 mil delegados.

Espera-se que durante os debates, que se estenderão por mais de uma semana, chegue-se a novos compromissos para combater a mudança climática, incluindo a assistência aos países em desenvolvimento para que implementem medidas com esse fim. Funcionários da ONU têm a esperança de que a reunião constitua um “marco no caminho ao êxito” para as negociações lançadas em conferências anteriores.

Ela tem a missão de estabelecer a agenda para as conversações finais sobre o tratado que sucederá o Protocolo de Kyoto que, em 1997, estabeleceu metas de redução de emissões de gases. Essas conversações serão realizadas na Dinamarca, em 2009. No entanto, analistas assinalam que, dada a preocupação dos governos dos Estados Unidos e dos países europeus com a crise econômica, é altamente improvável que se consigam grandes avanços em matéria de financiamento para mitigar a mudança climática.

Independentemente do que façam as nações ricas nesta matéria, destaca o estudo, a crise financeira está golpeando todos os países igualmente. “O aumento da pobreza e do desemprego no mundo em desenvolvimento levarão a uma competição ainda mais brutal que a atual pelo emprego”, disse John Cavanagh, principal autor do estudo.

A mudança climática, acrescentou, põe em perigo o futuro do planeta. Para Cavanagh, as nações ricas “têm a fixação de responder apenas à crise financeira e, especificamente, de sustentar suas próprias instituições financeiras”. Segundo o estudo, os 152,5 bilhões investidos pelos EUA para o resgate de uma só companhia, a AIG, supera longe os 90,7 bilhões de dólares que esse país e os europeus destinaram à ajuda para o desenvolvimento em 2007. No ano passado, Washington destinou à assistência de todas as nações em desenvolvimento US$ 23 bilhões, mas gastou 29 bilhões para salvar o banco Bear Stearns. A soma empregada pelos europeus e pelos EUA para resgatar as instituições financeiras é mais de 300 vezes superior aos 13 bilhões de dólares em novos compromissos assumidos para ajudar os países mais pobres a enfrentar a mudança climática nos próximos anos.

Os investigadores destacaram ainda que o governo suíço destinou 60 bilhões de dólares para socorrer o banco UBS, cinco vezes mais que a soma comprometida pelo conjunto dos governos europeus em 2007 para financiar ações contra a mudança climática nos países pobres. O estudo assinala também que os Estados Unidos não financiam nenhum projeto relacionado à mudança climática no mundo em desenvolvimento e jamais firmou o Protocolo de Kyoto, ainda que seja responsável por um quarto das emissões de gases do planeta, principal causa do aquecimento global segundo os cientistas.

“Esta assimetria nas prioridades atormentará os Estados Unidos e o resto dos países do hemisfério Norte no longo prazo, Eles não só têm a obrigação de solucionar o desastre que provocaram, como também isso é algo que responde a seus interesses”, resumiu Sarah Anderson, co-autora da investigação.

Tradução: Katarina Peixoto

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Lula e o primeiro Natal da crise

por Luiz Araújo

No dia 22 de dezembro, o presidente da República fez um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão. A tônica do pronunciamento continuou sendo a minimização dos possíveis impactos da crise na vida dos brasileiros.

Lula disse que cada brasileiro não deveria ter medo de gastar. “Se você está com dívidas, procure antes equilibrar seu orçamento. Mas, se tem dinheiro no bolso ou recebeu o 13.º e está querendo comprar uma geladeira, um fogão ou trocar de carro, não frustre seu sonho com medo do futuro”, sugeriu.

E arriscou fazer uma análise didática dos motivos da crise econômica mundial. O presidente culpou “a falta de controle do sistema financeiro dos países ricos” pela crise e que isso aconteceu por que os bancos não cumpriram o seu papel na economia, pois não financiaram o setor produtivo e viraram grandes cassinos. Afirmou que a “jogatina foi longe, mas um dia a conta chegou. Bancos quebraram, um grande número de empresas entrou em dificuldades e milhões de trabalhadores perderam as casas ou os empregos”.

Fez juras de que tudo que for necessário para proteger os cidadãos brasileiros dos efeitos da crise será feito, que os investimentos do PAC e da área social não serão cortados.

E de forma uma pouco patética propôs que todos se unissem contra a crise. Disse que “Se remarmos juntos, na mesma direção, venceremos as turbulências e prosseguiremos na rota do crescimento”.

A declaração do presidente esconde a realidade. E assim fazendo, apresenta um conjunto de meias-verdades para os cidadãos às vésperas do primeiro natal da maior crise econômica do capitalismo dos últimos anos.

Em primeiro lugar, ele fala da falta de regulação do sistema financeiro como alguém que tivesse tido uma postura diferenciada dos países da Europa ou dos EUA. Pelo contrário, Lula aprofundou a desregulação iniciada no governo FHC, editando medidas que favoreceram a entrada de capitais especulativos e financiando com o superávit primário a ciranda financeira que critica.

Em segundo lugar, todas as principais medidas tomadas pelo governo até o presente momento foram destinadas a proteger os banqueiros, especuladores e empresas que decidiram apostar na ciranda financeira e que amargaram prejuízos com a crise mundial.

Em terceiro, não foram tomadas nenhuma medida eficaz para incentivar realmente o consumo dos brasileiros. No dia seguinte a fala presidencial o Banco Central anunciou que os juros para pessoa física subiram 3,8 pontos percentuais em novembro, alcançando 58,7% ao ano, o maior nível desde março de 2006. Somente os juros do cheque especial subiram 4 pontos percentuais em novembro, passando de 170,8% ao ano em outubro para 174,8% no mês seguinte. A taxa do crédito pessoal também aumentou de 57,5% ao ano em outubro para 60,6% ao ano em novembro. Para o financiamento de veículos, a taxa passou de 34,1% ao ano para 37,6% em novembro.

Ou seja, o crédito pessoal está mais caro e o presidente manda os brasileiros gastarem para garantir que a economia não pare. Comprar geladeira, fogão ou trocar de carro ficou bem mais caro.

Em quarto, a economia está desacelerando e as demissões começaram a aparecer. O desemprego crescerá por duas linhas. A primeira, pessoas estão e continuarão perdendo postos de trabalho, como aconteceu na Vale, nas montadoras e em outros setores. A segunda diz respeito a incapacidade da economia absorver os novos jovens em idade de trabalhar com um crescimento projetado pelo Banco Central de 3,2% e pela Cepal de 2%.

É necessário medidas concretas para proteger os trabalhadores dos efeitos da crise. Mas isso não faz parte das preocupações do presidente, pelo menos enquanto sua popularidade continuar em alta. No momento é suficiente que ele salve o natal dos principais financiadores de suas campanhas. Depois do natal, quem sabe após o carnaval, ele comece a pensar nos eleitores comuns.

Luiz Araújo é secretário geral do PSOL.

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O problema está aqui

17/11/2008 16:31:05

Luiz Gonzaga Belluzzo
Carta Capital

“O que criou essa bolha e produziu seu estouro barulhento”, diz John Helyar, editor da Bloomberg, “foi a mudança do modelo de negócios de Wall Street. A rejeição do Glass-Steagall Act em 1999 permitiu que os bancos comerciais e os bancos de investimento criassem sinergia entre suas incompetências.” O Glass-Steagall, prolatado em 1930, determinou a separação entre os bancos comerciais e os bancos de investimento. Os primeiros são instituições que recebem depósitos à vista e realizam empréstimos mantidos em carteira até o vencimento. Os bancos de investimento se dedicam ao aconselhamento de empresas nas emissões primárias de títulos de dívida e ações e na gestão desses instrumentos financeiros – avaliados e negociados diariamente nos mercados de capitais, primários e secundários. São brokers e dealers.

A desregulamentação financeira rompeu os diques impostos – depois da crise dos anos 30 – à ação dos bancos comerciais, que voltaram a operar como supermercados financeiros e passaram a se valer da “securitização” de créditos, o que facilitou o seu envolvimento com o financiamento de posições nos mercados de capitais e em operações “fora do balanço” com derivativos.

A nova configuração institucional acirrou a concorrência entre as instituições financeiras na atração da clientela e na aceleração das inovações financeiras. Os gestores de portfólios – bancos comerciais, de investimento e fundos mútuos, de pensão e de hedge –, no afã de carrear mais recursos sob o seu controle e na ânsia de bater os concorrentes, são constrangidos a exibir as melhores performances.

Um experiente administrador de fundos concluiu, em meio à tormenta do subprime: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude mais corajosa é não fazer nada”. Piedosa intenção. Quem disputa o jogo da concorrência nos mercados financeiros – frouxamente regulados e displicentemente supervisionados – está obrigado pela clientela a buscar o rendimento máximo, sob pena de ser desbancado pelo rival da esquina. Ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o expresso da alegria, até o comboio descarrilar.

O entusiasmo quase generalizado com a liberalização e a desregulamentação dos mercados financeiros deu lugar à recriminação e à busca de culpados. Agora já são muitos os que criticam as interpretações convencionais que atribuíam as crises financeiras e cambiais à má gestão monetária e fiscal dos governos. Desde o episódio asiático, os analistas mais responsáveis e menos comprometidos com o mundo dos negócios procuraram ressaltar o papel desempenhado pelos bancos e empresas privadas, sempre envolvidos em surtos especulativos com ativos reais e mobiliários, bem como nos ataques às moedas fracas.

A sucessão de quebras e intervenções do Federal Reserve e do Tesouro nos Estados Unidos deixou de calças na mão os arrogantes e presunçosos do Primeiro Mundo ocidental. Digo ocidental porque muitos juravam de pés juntos: as encrencas bancárias no Japão e a crise financeira na Ásia eram o resultado lógico de sistemas bancários concebidos para um “capitalismo de compadres”. Coisa de orientais que descuravam da supervisão e regulamentação de seus sistemas bancários. Não foram poucos os que antecipavam o surgimento de problemas de liquidez nos bancos chineses, diante do crescimento dos non performing loans.

Os fanfarrões demoraram a descobrir que os bancos de investimento americanos e seus parceiros, como os hedge funds e as seguradoras de crédito, estavam empenhados em jogar entulho na cordilheira de lixo tóxico. A cadeia de montanhas de detritos financeiros foi construída mediante a multiplicação e negociação de ativos lastreados em créditos hipotecários e a disseminação de derivativos que supostamente garantem os investidores contra o default, os indefectíveis CDS (Credit Default Swaps). Estimulados por comissões polpudas para suas instituições e incentivados pela expectativa de bônus estonteantes, os administradores da finança ajudaram a montar o cenário do desastre.

Já relatei, em outra ocasião, o debate promovido pela revista inglesa Prospect entre George Soros, Anatoly Kaletstky do London Times, Martin Wolf do FT e John Gieve do Comitê de Estabilidade Financeira do Banco da Inglaterra, entre outros. Trechos do debate foram traduzidos de forma livre e se concentram na controvérsia sobre os instrumentos mais adequados para administrar um ciclo de crédito com inflação de ativos.

Alto dirigente do Banco da Inglaterra, Gieve não escapa pela tangente ao comentar a responsabilidade das autoridades no desenvolvimento das práticas e inovações que levaram ao desfecho indesejado. Diz ele: é impossível negar que a ausência de regulação no mercado de hipotecas contribuiu para a eclosão da crise. Na última euforia com a valorização de ativos, as operações estruturadas de crédito – vender títulos lastreados em empréstimos hipotecários e outros – fizeram a diferença. Os que inventavam e promoviam tais produtos não tinham a menor idéia a respeito do comportamento de seus preços em condições econômicas agudas.

O assim chamado megaespeculador George Soros desconfia das teorias que informam as decisões dos protagonistas dos mercados financeiros. Para ele, as autoridades e os demais participantes do jogo de avaliação da riqueza apóiam-se em uma falsa interpretação sobre o funcionamento dos mercados. Imaginam que tendem ao equilíbrio e os desvios são aleatórios. Essa falsa concepção permitiu a elaboração dos produtos estruturados e produziu uma crise muito maior e mais abrangente do que uma simples bolha imobiliária americana.

Bolhas de ativos são endêmicas. As autoridades reguladoras têm obrigação de lidar com elas enquanto é tempo. Não é o caso de se utilizar a política monetária, ou seja, de tentar furar a bolha com aumento do juro. Trata-se de operar através do canal do crédito. Soros, como Hyman Minsky, assegura que os mercados financeiros lidam com promessas e avaliações sobre o curso futuro dos ativos e dos títulos de dívida. Estão, portanto, sujeitos a gerar endogenamente euforia e pânico. O Banco Central deve estar sempre pronto para modificar as exigências de reservas e de capital conforme a toada do ciclo econômico.

Gieve não só concorda com Soros, como acrescenta: usar a taxa de juro para controlar um ciclo de ativos pode produzir graves danos à economia – as taxas devem subir muito para conter as expectativas altistas e eufóricas dos investidores. As autoridades – leia-se o Banco Central – devem recorrer à ampliação das exigências de capital e de liquidez para dar eficácia anticíclica às suas políticas.

A omissão das autoridades diante das pirotecnias dos mercados é a marca registrada do capitalismo americano. As crises financeiras se tornam graves quando as flutuações no valor da riqueza contaminam os bancos comerciais, aqueles que recebem depósitos e fazem empréstimos, além de funcionar como sistema de pagamentos na economia monetária. Na terça-feira 16 de setembro, os bancos cobravam entre si taxas exorbitantes nos mercados interbancários onde são efetuadas as trocas de reservas. As taxas sinalizam para uma forte contração do crédito, a despeito das sucessivas e maciças injeções de liquidez promovidas pelos bancos centrais.

Quando isso acontece, a maquinaria econômica trava. É certo que a sucessão de intervenções e nacionalizações tem o propósito de fazer a engrenagem do crédito voltar ao seu funcionamento normal. Mas a opacidade dos mercados securitizados e alavancados é de tal ordem que não há como descobrir onde está o contraparte e, muito menos, se ele é um justo ou um pecador. Sendo assim, o sistema de crédito é tomado pelo descrédito.

A dinâmica da crise financeira parece impor aos recalcitrantes lições interessantes sobre as inter-relações entre mercados financeiros, crédito e moeda no capitalismo moderno. Na corrida dos investidores para os títulos do governo americano, os mercados prestam reverência à soberania monetária do Estado nacional responsável pela gestão da moeda reserva. Os preços dos ativos derretem, as pseudomoedas se desvalorizam, o crédito desaparece. A fuga para a qualidade, ou seja, a preferência para a liquidez, revela que a diversificação e o fracionamento da riqueza e das moedas sucumbem ao caráter central e centralizador do dinheiro universal.

Como nos anos 30, as autoridades terão de avançar o controle sobre as finanças até as fronteiras da estatização do crédito, para não falar da administração pública das inevitáveis fusões e aquisições. O processo de centralização de capital na órbita financeira será comandado pelo Estado, respondendo aos clamores do mercado. Seja qual for o nome atribuído a essas venturosas operações.

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Pela 1ª vez, mundo vê 3 crises ao mesmo tempo

Ignácio Ramonet
Pátria Latina

Nunca havia acontecido antes. Pela primeira vez na história da economia moderna, três crises de grande amplitude – financeira, energética e alimentar – estão em conjunção, confluindo e combinando-se. Cada uma delas interage sobre as demais, agravando, de modo exponencial, a deterioração da economia real.
Por mais que as autoridades se esforcem em minimizar a gravidade do momento, o certo é que nos encontramos diante de um sismo econômico de magnitude inédita, cujos efeitos sociais, que mal começaram a se fazer sentir, explodirão nos próximos meses com toda a brutalidade. A numerologia não é uma ciência exata e o pior não costuma ser previsto, mas 2009 pode muito bem se parecer com o nefasto ano de 1929…
Como temíamos, a crise financeira continua aprofundando-se. Aos descalabros de prestigiosos bancos norte-americanos, como o Bear Stearns, o Merrill lynch e o gigante Citigroup, somou-se o recente desastre do lehman Brothers, quarto maior banco de negócios, que anunciou, em 9 de junho, um prejuízo trimestral de 2,8 bilhões de dólares. Como foi a primeira perda desde o lançamento de suas ações na Bolsa, em 1994, o resultado teve efeito de um terremoto financeiro, nos já violentamente traumatizados EUA.
A cada dia difundem-se notícias sobre novas quebras. Até agora, as entidades mais afetadas admitem prejuízos de quase 330 bilhões de dólares, e o Fundo Monetário Internacional estima que, para escapar da catástrofe, o sistema necessitará de cerca de 950 bilhões de dólares (o equivalente à metade do PIB do Brasil).
A crise começou nos Estados unidos, em agosto de 2007, com a desconfiança nas hipotecas de má qualidade (subprime) e propagou-se por todo o mundo. Sua capacidade de se transformar e se espraiar por meio da contaminação de complexos mecanismos financeiros faz com que se assemelhe a uma epidemia fulminante, impossível de controlar. As instituições bancárias já não emprestam dinheiro entre si. Todas desconfiam da saúde financeira de suas rivais.
Apesar das injeções maciças de liquidez efetuadas pelos grandes bancos centrais, nunca se vira uma seca tão severa de dinheiro nos mercados. E agora o maior temor de alguns é uma crise sistêmica — ou seja, que o conjunto do sistema econômico mundial entre em colapso.
Da esfera financeira, o problema passou para o conjunto da atividade econômica. De um momento para outro, as economias dos países desenvolvidos sofreram um desaquecimento. A Europa encontra-se em franca desaceleração e os Estados Unidos estão à beira da recessão.
O setor imobiliário é onde melhor aparece a dureza desse ajuste. Durante o primeiro trimestre de 2008, o número de vendas de moradias na Espanha caiu 29%! Cerca de dois milhões de apartamentos e casas estão sem compradores. O preço das propriedades continua a desmoronar. O aumento dos juros hipotecários e os temores de uma recessão lançaram o setor numa espiral infernal, com ferozes efeitos em todas as frentes da imensa indústria da construção. Todas as empresas desses setores estão agora no olho do furacão. E assistem, impotentes, à destruição de dezenas de milhares de empregos.
Da crise financeira passamos à crise social. E políticas autoritárias voltaram a surgir. O Parlamento Europeu aprovou, em 18 de junho passado, a infame “diretiva de retorno”. Imediatamente, as autoridades espanholas declararam sua disposição em favorecer a saída da Espanha de um milhão de trabalhadores estrangeiros…
Em meio a essa situação de espanto, ocorre o terceiro choque do petróleo, com o preço do barril em torno de US$ 140. Um aumento irracional (há dez anos o barril custava menos de US$ 10) devido não apenas a uma demanda despropositada mas, especialmente, à ação de muitos especuladores, que apostam no aumento contínuo de um combustível em vias de extinção. Retirando-se da bolha imobiliária, que desinfla, os investidores alocam somas colossais em contratos para entrega futura de petróleo, o que pode levar o preço do barril a algo em torno de US$ 200.
Ou seja: está ocorrendo uma “financeirizacão” do petróleo, com conseqüências como formidáveis aumentos de preços da gasolina, em muitos países, e a ira de pescadores, caminhoneiros, agricultores, taxistas e todos os profissionais mais afetados. Em muitos casos, eles exigem de seus governos ajudas, subsídios ou reduções dos impostos, com grandes manifestações e enfrentamentos.
Como se todo esse contexto não fosse bastante sombrio, a crise alimentar agravou-se repentinamente e chega para nos lembrar que o espectro da fome continua ameaçando quase um bilhão de pessoas. Em cerca de 40 países, a carência de alimentos provocou levantes e revoltas populares. A reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), foi incapaz, em 5 de junho, em Roma, de chegar a um consenso para retomar a produção de alimentos no mundo. Aqui também os especuladores, fugindo do desastre financeiro, têm parte de responsabilidade — porque apostam num preço elevado das futuras colheitas. Até mesmo a agricultura está se “financeirizando”.
Este é o saldo deplorável de 25 anos de neoliberalismo: três venenosas crises entrelaçadas. Já está na hora de os cidadãos gritarem: “Basta!”.

Postado em 19/08/2008 ás 16:51

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Interconexão entre as crises, entrevista com Eric Toussaint

22-Dez-2008

Eric Toussaint"É preciso realizar uma ruptura radical", diz Eric Toussaint, ao comentar as soluções para resolver as crises mundiais, em entrevista exclusiva à IHU On-Line , publicada a 9 de Dezembro.
Para ele, "é preciso romper com o capitalismo", mas de imediato, explica, é preciso tomar uma série de medidas urgentes para enfrentar as crises financeira, económica, alimentar e climática.

IHU On-Line - Como entender que as crises financeira, alimentar e climática estejam tão interligadas, uma influenciando a outra?

Eric Toussaint - É muito claro que há uma interconexão entre as crises financeira, alimentar e climática. A interconexão está ligada ao modo de produção que domina o Planeta hoje, ou seja, ao sistema capitalista. A busca do lucro privado máximo provocou nos últimos tempos uma evolução que resultou principalmente na crise financeira e na crise alimentar. A crise climática é resultado de uma evolução mais longa do capitalismo.

A crise financeira, por sua vez, é resultado do desregulamento do sistema bancário privado nos Estados Unidos e nas outras partes do Planeta, e também do desregulamento a nível do movimento de capitais. Há 20 anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e outras instituições, assim como o governo dos países mais industrializados, cresceram, pois todos os controles que existiam durante décadas sobre o movimento de capitais foram suprimidos. Para países como o Brasil e outros emergentes, são os planos justamente estruturais recomendados pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário que resultaram no abandono dos controles sobre o movimento de capitais. Há com isso, um desregulamento financeiro generalizado, o que permitiu às instituições bancárias privadas e a outras instituições financeiras criarem novos produtos financeiros que fogem a todas as regras. E essa lista é bastante longa. Pode-se tomar, por exemplo, os credit default swap (CDS), que consistem nestes seguros contra risco de falta de pagamento da dívida. Esses créditos representam o valor que é garantido, ou seja, mais de 50 mil milhões de dólares. Trata-se de uma quantidade absolutamente enorme que é garantida por produtos financeiros que ninguém controla. E há outras criações de produtos financeiros que chamamos de CDO etc. Estou falando rapidamente sobre este assunto. E simplesmente saliento que a partir do ano passado estas montagens financeiras, complexas, não regulamentadas, entraram em crise.

Crises financeira e económica geram declínio da economia

O segundo elemento da crise é a crise económica. Não há somente uma crise financeira; há uma crise económica que começou no sector imobiliário nos Estados Unidos, onde houve uma superprodução de imóveis. Assim, há uma crise financeira, ou seja, uma crise da dívida privada, e uma crise económica que, ao se misturar à crise financeira, produz agora uma crise económica que atinge a todos os sectores. Os mais atingidos são os sectores da produção de automóveis, da metalurgia em geral, o qual reduz a procura global que produz agora o declínio económico no sector de matérias-primas. Há uma queda muito forte no preço da matéria-prima desde o mês de Setembro de 2008.

Busca a qualquer preço pelo lucro gera fome e desequilíbrio no Planeta

A crise alimentar está ligada à crise financeira. Por quê? Porque uma série de grandes investidores financeiros, como o Fundo de Pensões, o Banco de Investimentos, o Banco de Negócios, os bancos comerciais, as companhias de seguros começaram a investir capitais no mercado de produtos alimentares. Os principais mercados de produtos alimentares são os de Chicago, de Minneapolis e de Kansas City, nos Estados Unidos. Grandes sociedades financeiras especularam sobre o preço de produtos alimentares, especialmente os cereais. E isto está ligado ao desregulamento financeiro. Mas a crise alimentar foi causada por outros factores: pela crise climática e pelo aumento da produção de agrocombustível, também conhecido como biocombustível. Isto vem, sobretudo, de uma mudança importante ocorrida a partir de 2005 nos países da América do Norte e Europa Ocidental. As grandes sociedades de agronegócios que produzem biocombustíveis convenceram o governo de Washington, a comissão europeia e os governos dos países da Europa Ocidental a subvencionarem a produção de biocombustíveis. É preciso saber que, nos países do norte, os biocombustíveis não são rentáveis, salvo se há uma subvenção do Estado. E o agronegócio pediu subvenções do Estado para que uma parte da produção alimentar fosse dirigida à produção de biocombustíveis. Então, com esse desvio, provocou-se uma redução da oferta de produtos alimentares, o que gerou um aumento muito forte no preço dos alimentos.

Sob o pretexto de combater a crise climática, o agronegócio convenceu o governo do norte a subvencionar a produção de biocombustíveis, argumentando que com isso reduziria a produção de gás carbónico. Mas, analisando este pretexto e alternando as subvenções, aumentou-se o preço dos alimentos e provocou-se a crise alimentar. É preciso acrescentar que muitos cientistas consideram a produção de biocombustíveis responsável pela libertação e a produção de uma quantidade importante de gás carbónico. Então, não é uma energia tão limpa quanto se afirma. Transforma-se alimentos em combustíveis, pois tornou-se rentável desviar a produção alimentar para fazer biocombustíveis.

Como analisei recentemente no artigo "Retour sur les causes de la crise alimentaire mondiale" ("Retorno sobre as causas da crise alimentar mundial"), é preciso dizer que a produção de biocombustíveis no Brasil, feita a partir da cana-de-açúcar, não é a responsável directa pelo aumento do preço dos alimentos, uma vez que ela não é um alimento directo nem é como os cereais. Entretanto, a produção desses biocombustíveis tem um péssimo efeito sobre o meio ambiente e sobre o clima, porque gera monocultura e conduz ao desmatamento. Além do mais, a produção de biocombustíveis faz-se através da exploração da mão-de-obra. Os cortadores de cana-de-açúcar fazem parte de um sector agrícola de trabalhadores que são explorados, mal pagos, enfrentam condições de trabalho absolutamente escandalosas, detestáveis.

IHU On-Line - O que fazer para resolver essas crises? Por que o senhor afirma que a conjugação destas crises mostra aos povos a necessidade de se libertarem da sociedade capitalista e do seu modelo produtivo?

Eric Toussaint - Penso que seja preciso realizar uma ruptura radical. A partir do momento em que se constata que a crise está ligada ao sistema capitalista, é preciso romper com o capitalismo. É claro que isso implica uma mudança revolucionária, mas antes de se chegar à revolução é preciso tomar uma série de medidas imediatas. Na área de finanças, é preciso restabelecer um controle muito rígido sobre o movimento de capitais e um controle sobre as operações de trocas de moeda. É preciso tomar o controle pelo poder público do sector bancário e nacionalizar os bancos que estão à beira da falência. Quando se nacionaliza estes bancos, é preciso recuperar o custo da operação da nacionalização, descontando a soma do salvamento bancário do património dos accionistas e dos grandes administradores das sociedades financeiras. Na área alimentar, precisamos proibir a especulação no mercado de produtos alimentares, reduzir radicalmente a produção de agrocombustíveis, ou, em todo o caso, a produção feita a partir de alimentos. Pode-se imaginar uma produção de agrocombustíveis, mas no quadro da agricultura familiar, rural, orgânica, e não uma produção em grandes indústrias. É preciso retornar a uma política de soberania alimentar e, para isso, precisamos de reformas agrárias. É preciso, evidentemente reduzir - se se quer combater a crise climática - radicalmente a produção de gás carbónico. Os países do norte devem fazer um esforço mais radical, pois há uma dívida climática ou ecológica que foi acumulada por eles no curso dos dois últimos séculos, desde o princípio da Revolução Industrial.

IHU On-Line - Qual é a importância, neste momento de crise, de discutir novos modelos energéticos?

Eric Toussaint - Essa discussão é fundamental. É preciso reduzir radicalmente a produção de gás carbónico. Radicalmente quer dizer reduzir a 80%, nos países do norte e 25% nos países do sul. Então, é preciso um novo modelo energético para utilizar doravante energias renováveis que emitam o mínimo de gás carbónico.

IHU On-Line - Como os países do Terceiro Mundo, no caso da América Latina, podem evitar maiores consequências da crise financeira internacional utilizando a abundância dos seus recursos naturais e renováveis? O senhor acha que deveria haver uma mudança de estratégia por parte dos governos?

Eric Toussaint - É preciso garantir a segurança e a soberania energética utilizando ao máximo os recursos naturais e renováveis. Então, a América Latina tem uma capacidade e um potencial enormes nesse sentido. É preciso dar prioridade a isso e abandonar as centrais térmicas. Além disso, países como o Brasil e a Argentina devem abandonar o modelo de energia nuclear. A Venezuela também quer produzir energia nuclear, mas deve abandonar esta perspectiva.

Os governos da América do Sul precisam abandonar o modelo capitalista produtivista, e nas outras áreas da actividade económica reduzir ao máximo as despesas, por exemplo, de grandes infraestruturas. Sou muito crítico ao projecto Iniciativa pela Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA), lançado por Fernando Henrique Cardoso, e que visa dotar a América Latina de grandes infraestruturas - destruidoras do meio-ambiente -, e de grandes consumidoras de energias e de materiais. Há muito a ser melhorado na comunicação entre os países da América Latina. Por isso, os governos deveriam investir em caminhos de ferro ao invés de estradas.

IHU On-Line - Qual a importância, neste momento, de lutar pela anulação da dívida dos países do Terceiro Mundo? As chances aumentam ou diminuem?

Eric Toussaint - Está a nascer uma nova crise da dívida, com a qual os países da América Latina estão confrontados. A crise da dívida é produzida por dois fenómenos: a baixa das receitas de exportação, devido à baixa do preço das matérias-primas que a América Latina exporta para o mercado mundial, e o aumento do custo do crédito nestes últimos meses por casa da crise bancária nos países do norte. Os banqueiros do norte não querem emprestar dinheiro aos países do sul, então eles exigem uma remuneração mais elevada. Configura-se, assim, uma nova crise da dívida. Se quisermos afrontar esta situação, é preciso multiplicar as auditorias da dívida em todos os países da América Latina, identificar as dívidas ilegítimas e suspender o pagamento delas. Hoje isso é mais necessário do que nunca.

IHU On-Line - Na nova configuração social, marcada pela revolução cultural e tecnológica (suponha um desprendimento da sociedade industrial), qual o papel dos pequenos produtores (no caso da agricultura)?

Eric Toussaint - Este papel é primordial. Ele é fundamental no novo modelo de sociedade que deve romper com o capitalismo produtivista. A agricultura familiar orgânica deve constituir a actividade principal para produzir alimentos de qualidade, garantindo a soberania alimentar dos povos. Isso é válido para todos os países. É preciso uma grande reforma agrária e um apoio dos governos aos pequenos produtores.

IHU On-Line - Com essa junção de crises, como fica a imagem do capitalismo e do neoliberalismo? O senhor vislumbra uma mudança de parâmetros nesse sentido? Estamos chegando ao fim da era neoliberal?

Eric Toussaint - Assistimos à crise do sistema capitalista. Não é simplesmente a crise da versão neoliberal do capitalismo, mas uma crise muito mais profunda. Claro que o capitalismo não irá morrer por si mesmo. Ele desaparecerá pela acção consciente dos povos. É preciso, então, uma acção decisiva e consciente da sociedade para colocar fim a este sistema e substituí-lo por um modelo socialista e democrático. Estamos no final da era neoliberal, caminhando em direcção ao socialismo do século XXI.

IHU On-Line - É possível pensar que no futuro a energia será produzida e consumida no mesmo local? Qual a viabilidade desse projecto?

Eric Toussaint - Sim. Penso que em muitos lugares do Planeta isso é perfeitamente possível. É claro que haverá sempre a necessidade de deslocar uma parte da energia. Ou seja, será preciso distribuir a energia por um sistema de distribuição eléctrica, por exemplo. Mas poderá produzir-se o máximo de energia renovável no local. E preciso substituir as grandes barragens por um sistema muito mais leve e inteligente de barragem.

Entrevista de Graziela Wolfart e Patricia Fachin, divulgada também pelo blogue Outra política

Eric Toussaint é doutor em Ciências Políticas, pela Universidade de Liége, Belgica, y pela Universidade de Paris VIII, França. É autor de A Bolsa ou a Vida (Fundação Perseu Abramo, SP, 2002).

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Crise na Espanha arruína sonhos de imigrantes


O fim do boom na construção deixou muitos sem trabalho

Por VICTORIA BURNETT

MADRI - Quando Camelia Condurat viu que não conseguiria juntar uns trocados para comprar pão para as três filhas, achou um pouco de farinha e fermento no fundo do armário e fez o próprio pão. "Se você não tem nem 50 centavos para comprar pão, vai fazer o quê? Você se vira", disse ela.
Virar-se tem sido uma árdua tarefa diária para esta romena de 24 anos. Seu marido, Costel, veio para a Espanha em 2003, e há quatro anos ela o seguiu. Em outubro, ele perdeu o emprego de pedreiro, e pela primeira vez desde que chegou ao país ela teve de procurar trabalho. Agora, prepara comida e limpa um restaurante local, em jornadas de 12 horas, sete dias por semana, em troca de um salário de 700 euros mensais (cerca de R$ 2.300).
Metade do salário vai para o aluguel do pequeno apartamento de três quartos que a família divide com dois outros inquilinos. O que sobra não cobre as despesas da família, então Camelia passa o seu raro tempo livre em filas para receber ajuda do governo, da Cruz Vermelha e de uma igreja do bairro.
Costel, 39, um ex-policial na Romênia, ganhava cerca de mil euros por mês como pedreiro. Agora, fica em casa com as filhas.
"Está difícil demais", disse Camelia num espanhol fluente, olhando para as mãos calejadas, e com as filhas, de três, cinco e seis anos, subindo em seu colo. "Fico envergonhada de pedir ajuda. Mas tenho três meninas, então deixo meu orgulho em casa."
Em subúrbios proletários e com muitos imigrantes, como Coslada, nos arredores de Madri, histórias como essa se tornaram comuns na atual crise econômica.
A Espanha criou mais empregos e atraiu mais imigrantes do que qualquer outro país europeu na última década, em grande parte graças ao "boom" na construção civil. Com a retração econômica, o desemprego está crescendo em um ritmo alarmante -passou de 8% no final de 2007 para mais de 11% no terceiro trimestre, maior índice da União Européia.
Entre os imigrantes, estima-se que o desemprego seja de 17%. Há cerca de 5 milhões de estrangeiros registrados entre os 46 milhões de habitantes do país. Marroquinos, romenos e equatorianos formam os maiores contingentes.
Para o pintor e decorador colombiano René Bonilla, 33, a crise econômica esmagou uma vida construída ao longo de sete árduos anos. Em novembro de 2007, ele começou o processo de trazer da Colômbia sua esposa, Iuli, e sua filha, Arancha, 2. Ganhava 1.100 euros por mês e acreditava que poderia sustentá-las.
Mas quando Iuli e Arancha chegaram, em setembro, Bonilla já estava desempregado havia um mês. Havia gastado suas economias de 4.000 euros para trazê-las a Madri, e agora os três passam os dias confinados num quarto de um apartamento no violento subúrbio de Alcorcón. Sobrevivem com empréstimos do senhorio, um espanhol idoso.
"Agora, estou de volta aonde comecei", disse Bonilla, com os olhos inchados pela falta de sono. "Na verdade, estou pior. Estou sete anos mais velho, e agora somos três para alimentar."
As autoridades têm punido empresas que contratam trabalhadores ilegais, e os imigrantes dizem que policiais a paisana rondam nos trens de subúrbio, prendendo os sem-papéis. O presidente de governo José Rodríguez Zapatero diz apoiar a rígida Diretiva de Retorno da União Européia, que permite a detenção de imigrantes clandestinos por até 18 meses.
Em novembro, o governo iniciou um programa de retorno que paga uma bolada em seguro-desemprego a quem voltar para o seu país e abrir mão do direito de regressar à Espanha por um prazo de três anos.
"A Espanha viu um crescimento realmente forte nos últimos cinco anos, e não conseguiríamos isso com os nossos próprios cidadãos", disse o ministro do Trabalho, Celestino Corbacho, numa entrevista. "Mas agora estamos numa situação muito diferente."

New York Times - Seleção de artigos na Folha de S. Paulo - 22/12/08

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O Natal dos desempregados nos EUA

País tem sua maior perda de empregos dos últimos 34 anos; com a crise, cerca de 10 milhões de postos desapareceram

País tem sua maior perda de empregos dos últimos 34 anos; com a crise, cerca de 10 milhões de postos desapareceram

19/12/2008

Memélia Moreira

de Orlando (EUA) - Jornal Brasil de Fato

O cenário já começa a se tornar sombrio nas grandes cidades dos Estados Unidos. E as milhares de milhões de luzes que decoram casas e vitrines são insuficientes para trazer de volta os excitados burburinhos das compras de fim de ano. As luzes de Natal mal conseguem esconder o desalento que se espalha nas grandes cidades.

E não é para menos. Com um índice de desempregados que já ultrapassa 10 milhões de trabalhadores, os estadunidenses têm recebido um golpe atrás do outro desde as eleições presidenciais em 4 de novembro. A cada semana, o noticiário traz mais e mais informações que abalam a auto-estima da sociedade estadunidense. E a única reação até agora tem sido a perplexidade.

Aturdidos com a sucessão de fatos negativos, pouco se animam a ir às compras, hábito dos mais cultivados na população desse país onde os shoppings centers são verdadeiras catedrais do consumismo. A fuga dos consumidores obrigou o comércio a promover grandes liquidações que, em alguns casos, chegam a oferecer descontos da ordem de 70 a 80% do valor do produto. Quem está se esbaldando são os turistas, principalmente alemães, franceses, holandeses e…brasileiros.

O movimento de compras e troca de presentes está tão fraco, que a agência de Correios que mais atende brasileiros, localizada na International Drive, em Orlando, viu encalhar as 10 mil caixas que eles vendem para os clientes. Nem fila havia neste agência, às vésperas do Natal. As atendentes, todas brasileiras, informam que esse ano não foi necessário guichês extras, porque "não há tanto trabalho".

A sucessão de choques se iniciou na segunda semana de novembro quando foi anunciado o fechamento de mais 533 mil postos de trabalho em todo o país. Somados aos índices de agosto a outubro, o número atingiu aquelas marcas que se tonam memoráveis. Ou seja, 10 milhões, a maior perda de empregos dos últimos 34 anos.

De novembro até a segunda semana de dezembro, mais empresas de pequeno e médio porte fecharam suas portas, enquanto uma das grandes marcas, a Electrolux, fabricante de eletro-domésticos, anunciou a redução do número de funcionários. Ou seja, o balanço do final do ano pode chegar a 11 milhões de desempregados. Isso é a população de uma metrópole brasileira e uma megalópole nos Estados Unidos, país que se caracteriza por cidades pequenas, sendo que apenas dez ultrapassam 2 milhões de habitantes.

Armas de destruição

Logo em seguida, na terceira semana de novembro, com a cara mais lavada do mundo, o presidente George W. Bush veio a público anunciar que se "enganou" ao determinar a ocupação do Iraque, porque acreditara nos relatórios com as informações de que o Iraque armazenava armas de destruição em massa. O presidente do Estado mais poderoso do planeta não teve a mínima vergonha de confessar primeiro o grau de sua leviandade ao mandar invadir um país soberano sem certezas sobre os alvos e, segundo, deixar claro que os serviços de espionagem e proteção dos Estados Unidos são falhos e mentem para o próprio presidente.

A declaração poderia ser vista como um ato de humildade do presidente se, por trás desse ato não tivesse acontecido o massacre de mais de 100 mil pessoas, de um povo que hoje vive uma verdadeira diáspora porque seu país se tornou um campo de guerras e experiências contra a vida. E mais, a invasão do Iraque não deixa só um rastro de torturas e massacres. Ela também destruíu boa parte da história da humanidade com a derrubada de monumentos e eliminação pura e simples de manuscritos históricos.

Imaginem se Hitler, caso tivesse sobrevivido aos últimos dias de guerra viesse a público, pelo rádio e dissesse ao mundo: "Perdão, ouvintes, só agora meu serviço secreto me informou que judeus, ciganos e homosssexuais são seres humanos". Ou, então, se Ariel Sharon, depois do massacre dos palestinos em Sabra e Chatila repetisse o gesto de pedido de desculpas. Em todos estes casos, das palavras escorreriam gotas de hipocrisia.

Montadoras no limite

Dezembro já começou no sufoco. Um jogo de empurra-empurra no Congresso para saber se concediam ou não a ajuda de 14 bilhões de dólares às montadoras Chrysler, Ford e General Motors. Estava em jogo a antiga base da economia dos EUA e alguns milhões de empregos. Na noite de 11 de dezembro, o Senado rejeita a proposta de socorro financeiro.

Por trás da rejeição, a máfia sindical estadunidense. Sim, os sindicatos, os mesmos sindicatos que durante toda essa crise se mantém a uma distância suspeita na defesa dos seus filiados, impediu a aprovação da ajuda porque ela implicava em reduzir alguns privilégios. O mais importante deles é o valor da hora trabalhada. Na maioria esmagadora das fábricas, os trabalhadores recebem 44 dólares por hora. Nas três montadoras que agora precisam de ajuda, a hora vale 72 dólares. É bom que se explique que os sindicatos jamais reivindicaram um reajuste para os demais, como se houvesse operários de primeira categoria e operários de segunda categoria, desempenhando funções semelhantes.

O impasse do pacote de 14 bilhões de dólares que ajudaria as montadoras a manter empregos pelo menos até abril de 2009 levou um dos diretores da General Motors a declarar que resta à empresa mais duas semanas de vida. Ou seja, imediatamente depois do Natal, mais desempregados podem estar perambulando pelas ruas do Estado de Michigan, onde se concentram as três montadoras.

Enquanto a Casa Branca estudava uma solução, eis que mais uma notícia negativa invade as casas dos estadunidenses. A prisão do governador de Illinos, Estado onde o presidente eleito Barack Obama fez sua carreira política. O governador, Rod Blagojevich, foi pego com a boca na botija, tentando vender o mandato de senador para quem quisesse ocupar a cadeira que foi de Obama. Nos Estados Unidos não há suplente de senador e, em caso de morte ou renúncia, o governador escolhe um senador biônico. Blagojevich, de quem Obama nunca foi muito chegado, resiste em renunciar mas, cedo ou tarde sofrerá um processo de impeachment. O fato, deprimente em si, mostrou que os Estados Unidos não se difere muito dos vizinhos do Sul que um dia já foram chamados de "repúblicas de bananas".

O Alvo

As armas de destruição em massa se transformaram numa banda de um sapato masculino arremessado pelo jornalista Muntazer al-Zaid contra a cabeça do presidente dos Estados Unidos. George W. Bush, que dentro de quatro semanas deixará a Casa Branca para sempre, com certeza esperava uma recepção calorosa dos iraquianos quando fez mais uma visita de surpresa a Bagdá. Afinal de contas, ele fora ao país ocupado por suas tropas para anunciar a retirada de seus soldados até 2011.

Nada disso, o que se viu foi um sapato voando. E o alvo era o presidente Bush que nunca mostrou tanta agilidade diante de uma situação de risco. O dono do sapato não se satisfez apenas com o gesto desesperado e ainda gritou:"É o beijo da despedida, cachorro". Até agora não houve protestos das sociedades protetoras de animais mas, chamar o presidente dos Estados Unidos de "cachorro" enquanto tenta acertar seu rosto com um sapato, foi um momento de extrema humilhação não apenas para Bush, mas para todos os estadunidenses. Afinal de contas, eles o elegeram há quatro anos.

O arremesso de sapato transformou o jornalista em herói e desencadeou uma nova onda protestos em Bagdá e em outras cidades do Iraque, e resume o desprezo com o qual um povo vê seus agressores.

Enfim, 2008 não foi exatamente um ano feliz para o Império. E ainda faltam alguns dias para que se encerre. Quanto às perspectivas para 2009, poucos fazem apostas. Ninguém ousa prever que medidas o próximo governo vá tomar que não seja apenas imprimir mais notas de dólares como se essa moeda de pressão fosse apenas um papel de jornal.

Matéria publicada no jornal Brasil de Fato - Edição 303 - 19 a 24 de dezembro/2008

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A atitude da esquerda socialista diante da crise

Escrito por Fernando Silva

11-Dez-2008

Os números da intensidade com que a crise econômica mundial varre o mundo são bastante assustadores. Estamos diante de uma severa recessão mundial, com epicentro na principal economia do planeta, que assiste a uma impressionante destruição de postos de trabalho a cada mês.

É justamente na questão do emprego da classe trabalhadora que surge o mais inquietante sintoma desta crise mundial no Brasil. Nem mesmo os recentes números do crescimento do PIB brasileiro no 3º trimestre do ano - último momento pré-crise no Brasil - estão se mostrando suficientes para impedir uma inicial escalada de demissões e/ou férias coletivas.

Estamos diante de fatos e não previsões, como atestam as 1.300 demissões na Vale do Rio Doce após a mesma anunciar uma redução de 30% na sua produção, o aumento das demissões na indústria de autopeças, as 450 demissões na Volvo, além das férias coletivas generalizadas nas montadoras.

Do alto da sua popularidade, o governo Lula, através da sua candidata preferencial para 2010 Dilma Roussef, limitou-se a declarar que o governo não tem como segurar o emprego.

Tem se esforçado na verdade para segurar o capitalismo. Pois não faltam montanhas de dinheiro para as montadoras (4 bilhões só do governo federal), sem falar que 10% das reservas cambias do país já foram queimadas para segurar o dólar, ajudar o agronegócio e os bancos.

Estamos diante de uma crise estrutural do capitalismo que chegou ao Brasil e que poderá ter desdobramentos ainda dramáticos para o ano de 2009.

O debate na esquerda e a luta contra o desemprego

A questão que se coloca nesta conjuntura em que se agravam os sinais da crise sobre os ombros da classe trabalhadora é: qual deve ser a atitude de uma esquerda socialista, combativa e classista?

O momento é de extrema gravidade e difícil: o desemprego começa a bater à porta de milhares de lares, a pressão por cortes nos gastos sociais vai aumentar, o endividamento da classe trabalhadora no crédito e a inadimplência crescem a cada mês.

Portanto, o centro do perfil político e da ação da esquerda socialista deve estar focado na resposta e no enfrentamento dos desdobramentos da crise.

O centro da nossa atividade deve ser enfrentar aquilo que é estrutural. E a crise é também desta natureza porque ela afeta profundamente a vida real dos explorados, que vão precisar de capacidade política, unidade de classe na ação e um projeto que reúna forças na classe trabalhadora e nas suas camadas mais exploradas para resistir e superar as mazelas desta crise de um ponto de vista dos seus interesses de classe, que não pode ser outro que não um ponto de vista socialista.

É esse o terreno em que se deve concentrar a energia dos partidos, sindicatos e movimentos sociais populares, especialmente dos instrumentos políticos partidários socialistas, que pela sua própria natureza e propósito têm a obrigação de apresentar projetos de poder para buscar a superação do capital nos seus momentos de crise estrutural.

É preciso compreender que, nesse patamar de uma crise de conseqüências de longo prazo e longa duração, surgirão várias escaramuças nos podres poderes da República, com revelações e novas denúncias de corrupção, ainda mais em momentos de crise, que vão ameaçar também a continuidade de empresas e grandes negócios do capital. Contradições conjunturais que devemos saber também utilizar como parte do arsenal de denúncia destes poderes, mas que de forma alguma podem ser o eixo da atividade da esquerda socialista quando enfrentamos uma crise com as dimensões atuais.

Desafios práticos

Dessa forma, coloca-se como cada vez mais urgente dois desafios práticos:

1) A luta pela constituição de uma ampla frente única na ação, que hoje deveria ter como eixo prático uma campanha em defesa do emprego dos trabalhadores e trabalhadoras do país. Mas uma frente que se articule também pela apresentação de uma plataforma de emergência dos trabalhadores para enfrentar essa crise e preparar ação e resistência organizada.

2) O segundo desafio a ser encarado é construir espaços e condições para um debate de projeto estratégico e de poder da classe trabalhadora, com um norte muito claro nesse período histórico de buscar a superação do capitalismo. Na medida em que avançar a ação prática em torno de uma plataforma capaz de unir um amplo leque de forças da classe trabalhadora, esta busca por um projeto de poder estratégico será ainda mais candente e inadiável.

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

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Eles querem demitir e precarizar. E muito

Escrito por Francisco de la Cruz

15-Dez-2008

Há dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional, o PL nº4302/1998 e o PLP 248/1998 (curiosamente, ambos de 1998, quando ainda vigia o governo anti-social de Fernando Henrique Cardoso), cuja finalidade é a continuidade e o aprofundamento das reformas de cunho neoliberal ansiadas pela elite econômica nacional em associação com as elites de outros países.

O primeiro projeto citado precariza e amplia ainda mais o campo do chamado trabalho temporário ao permitir que contratos dessa modalidade possam ser prorrogados e, tão ruim aos trabalhadores quanto essa prorrogação, que atividades consideradas como atividades-fim também possam ser executadas com o uso desse tipo de trabalho.

E, apesar de certas partes contidas nesse projeto de lei que parecem querer inibir o uso permanente de trabalhadores temporários nas atividades-fim, experiências semelhantes extraídas das relações de trabalho no Brasil e a possibilidade de prorrogação por tempo superior a 270 dias, a serem acordadas por sindicatos frágeis ou corrompidos em convenções coletivas, tendem a estender prazos desses contratos e a precarizar ainda mais as já precarizadas relações entre capital e trabalho existentes no setor privado brasileiro.

Já o segundo projeto de lei apresentado visa permitir a demissão de funcionários públicos estatutários por insuficiência de desempenho, após estes serem avaliados como insuficientes quanto ao seu desempenho durante dois anos consecutivos, ou por três avaliações negativas interpoladas durante cinco anos. Este projeto de lei atinge fundamentalmente os funcionários públicos não enquadrados como pertencentes a carreiras típicas de Estado, pois caso seja aprovado como se encontra, estarão sujeitos a serem demitidos sem que tenham o direito de submeter-se a um processo administrativo e, mais grave ainda, sem o direito a recorrer da decisão (leiam os textos contidos nos links colocados ao final do texto).

Com esses dois projetos de lei, a elite econômica nacional, mancomunada com sua correspondente transnacional, pretende extrair o pouco que se tem distribuído em termos de renda e de riqueza para parte dos trabalhadores e igualmente para funcionários públicos estatutários. Depois, apossar-se dessas para si mesma, em um movimento de concentração de renda e de riqueza sem fim que se observa desde quando a vertente mais selvagem do capitalismo, a neoliberal, ressurgiu e passou a dominar a maior parte dos governos do mundo.

É na esteira do processo de diminuição drástica do Estado nas áreas de previdência social, através de sua privatização parcial ou total, de restrição dos programas de assistência social a pouquíssimos grupos de miseráveis e de corte drástico no quadro de funcionários públicos, além do aviltamento de salários e condições de trabalho dos que dependem deste para a subsistência, que as elites citadas conseguirão aumentar ainda mais seus lucros.

O PL 4302/1998 na íntegra

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Projetos/PL/1998/msg344-980319.htm

O PLP 248/1998 na íntegra

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Projetos/Plp/plp248.htm

Brasil - Perigo no Congresso: avança o PL4302/1998, que retira direitos (texto sobre o PL 4302/1998, em questão)

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=35936

Artigo retirado do blog do autor: http://francescodelacruz.blogspot.com/2008/05/eles-querem-demitir-e-muito-plp-2481998.html

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A CRISE E O IMPÉRIO

Livro debate o “mito do colapso do poder americano”

Os professores José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano (foto), do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lançam livro defendendo que a crise atual não significa o fim do poder dos EUA ou do capitalismo. Lançamento ocorre nesta quinta, na Livraria Argumento, no Rio de Janeiro.

A Editora Record e a Livraria Argumento lançam nesta quinta-feira (11), no Rio de Janeiro, o livro “O mito do colapso do poder americano”, de autoria conjunta de José Luís Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano professores do Núcleo de Estudos Internacionais do Instituto de Economia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em meio à grave crise econômica que assola todas as nações do planeta, os autores argumentam que a desordem, a crise e as guerras fazem parte de uma transformação de longo prazo, que vem aumentando naturalmente a pressão competitiva dentro do sistema mundial e provocando uma nova corrida imperialista entre as grandes potências. O lançamento ocorrerá às 19 horas, na Livraria Argumento Copacabana (Rua Barata Ribeiro, 502).

O livro surgiu durante uma conversa entre os três professores no final de 2007. Na ocasião, eles debateram sobre a abordagem de políticas internacionais, que acreditavam estar muito defasada , relata Franklin Serrano. Com a recente crise na economia norte-americana, iniciada com o colapso do setor imobiliário, a obra acaba por caracterizar uma fase imediatamente anterior à conjuntura atual. No livro, Carlos Medeiros trata das diferenças no processo de transição para o capitalismo da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e da China. José Luis Fiori, por sua vez, ao contrário do que alguns autores vêm defendendo, argumenta que a crise atual não significa o fim do poder dos Estados Unidos ou do capitalismo. Para Fiori, “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial”. Do ponto de vista econômico, defende ainda, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os EUA.

Segue entrevista concedida por José Luís Fiori ao jornal O Globo (em 30/11/2008), tratando de um dos argumentos centrais do livro:

“Vai haver uma nova corrida imperialista”

Professor e diretor do Programa de Pós-graduação de Economia Política Internacional da UFRJ, José Luís Fiori contesta a tese de que a crise global, que nasceu no berço americano, signifique o fim ou colapso do poder global dos Estados Unidos ou a crise terminal do capitalismo.

No livro que chegou às bancas esta semana, “O mito do colapso do poder americano” (Record), escrito em parceria com Carlos Medeiros e Franklin Serrano, Fiori volta ao século XIII para mostrar o movimento de formação dos Estados nacionais. Ele prevê “nova corrida imperialista”, com os EUA no papel central, junto com China e Rússia, indo para África e Ásia Central. E diz que acabou a “adolescência assistida da América do Sul”.

No seu livro, o senhor prevê uma nova corrida imperialista. Como isso vai ocorrer, quem serão os atores dessa nova corrida?
Fiori: É uma idéia de uma explosão, que eu exponho pela primeira vez nesse livro. Cheguei a essa conclusão, a partir de uma reflexão longa, com um diálogo crítico com toda a teoria dos ciclos hegemônicos. Concordo que os EUA estão enfrentando no campo econômico e de sua estratégia militar internacional uma grande crise. Minha divergência é teórica e tem a ver com a própria déia de que o foco de analise do sistema mundial seja a ascensão e declínio de países tomados individualmente. A minha pesquisa histórica e minha reflexão teórica foram cada vez me fazendo pensar mais na relação da Inglaterra e Estados Unidos, não como uma sucessão de ciclos hegemônicos, e sim, uma continuidade de uma mesma força expansiva anglo-saxônica, que arranca da Holanda, passa pela Inglaterra e chega ao Estados Unidos. Mesmo que aceitasse que houvesse fim do ciclo hegemônico, ela não tem nada a ver com o fim de um modo de produção e da uma formação social.

Globo: Fala-se até em fim do capitalismo…
Fiori: Mesmo que acreditasse nesse colapso, o fim da supremacia americana não é o fim do capitalismo. Não vai ser o fim do capital financeiro. Não há nenhum sinal disso. A origem desse sistema mundial que nasce da Europa e é ganhador impõe sua supremacia ao mundo, nas suas formas básicas de organização do poder como estado e da economia como capitalista. Vitória estrondosa que nasce na Europa nos Séculos XII a XIV até o aparecimento das economias nacionais no fim do século XVI. Fernando Braudel sugere que é preciso subir ao sótão para ver as relações do príncipe com o banqueiro. O sistema mundial que nasceu na Europa se assemelha mais a um universo em expansão contínua do que a uma sucessão de ciclos vitais ou biológicos. Como se este sistema acumulasse energia e se expandisse de forma continua desde o século XIII e passando momentos de explosão expansiva, como no século XVI, XIX e agora de novo, neste início do século XXI.

E a globalização?
Fiori: O que se globalizou foi o fenômeno do estado nação. Agora tem estado nacional para todos os lados. No início do Século XX, eram no mais 60 países, no máximo. Agora tem 200 estados. O capital, quando mais fortalece e expande, mais fica nacionalista.

Com a crise, isso ficou mais claro?
Fiori: Agora só um cego não vê. Ficou transparente a relação inseparável que sempre existiu entre o príncipe e banqueiro, de que fala Braudel.

O senhor quer dizer que não é possível essa separação entre estado e mercado?
Fiori: Jamais, porque a união entre o Estado e o capital foi a originalidade da Europa e é a grande fonte da força expansiva vitoriosa deste sistema que nasceu na Europa. Uma teoria que só fale do mercado não dá conta do que seja o capitalismo. Como disse Braudel, “o capitalismo é o antimercado”. O pior do ponto de vista ético é que o que “ordena” esse sistema mundial é a possibilidade permanente da guerra, e a existência de “eixos de conflito crônicos”. Não são os acordos internacionais ou multilaterais, estes acordos são sempre transitórios, o que permanece é a possibilidade e a preparação permanente para a guerra. Além disto, este sistema em expansão é sempre “imperialista” e neste sentido o imperialismo não é uma etapa superior do capitalismo, é sua condição originária e permanente. Neste sistema interestatal capitalista a sua liderança é sempre coletiva, competitiva e complementar. E seus líderes transitórios nunca desaparecem. Neste sentido, uma vez que se afirmou globalmente o poder americano, ele pode se transformar, mas já não desaparecerá mais, a menos que este sistema ou universo desapareça como um todo. Para bem ou para o mal, já não há possibilidade de uma ordem mundial futura, qualquer que ela seja, sem a presença do poder americano, que jamais vai parar de acumular poder e riqueza, mesmo quando já esteja quilômetros à frente dos seus seguidores e competidores imediatos.

E para onde deve se dar esta nova onda expansiva de que o senhor fala?
Fiori: Minha impressão que está expansão competitiva e imperialista se dará imediatamente na África Central, e em um tempo mais, na América do Sul.

Então, a África é o continente da vez?
Fiori: Lamentavelmente, porque é um continente que foi punido por todas as ondas expansivas e imperialistas do sistema mundial. Além disso, a competição entre as grandes potências gera “zona de fratura” onde tendem a se multiplicar as guerras civis, como já está acontecendo de novo na África A América do Sul virá logo a seguir por se tratar de um território com imensos recursos energéticos, minerais, hídricos, com zonas de plantações de alimentos espantosamente produtivas e população escassa.

É um território potencial sim. Há sinais disso. Conflitos aqui e lá. Uma manifestação indiscutível de que a região está se integrando dentro do sistema mundial de competição entre as nações. Já não há mais espaço vazio. Todos estão dentro da zona de pressão competitiva global. Neste sentido, costumo dizer que acabou a “adolescência assistida” da América Latina. Chegou a hora de caminhar com as próprias pernas dentro de um mundo cada vez mais complexo. O nível de relacionamento econômico, trocas, de comércio e investimento, está crescendo. As conexões energéticas e de transporte estão se adensando. Seremos em breve os maiores exportadores de alimentos do mundo, e a Argentina já ocupa um lugar de destaque neste campo. Não é uma coisa trivial. E há o petróleo. A água é questão essencial.

Já há sinais disso?
Fiori: Por todo o lado. Pequenos conflitos já são manifestações de coisas que estão em curso. Você vê menos porque a América Latina é uma região sabidamente de supremacia americana. Mas a ativação da IV frota americana é um exemplo deste aumento da preocupação com o continente. Estas disputas no continente não passam apenas pelo interesse e a competição externa, passam também pela expansão do Brasil e dos seus interesses econômicos e políticos que também vão se internacionalizando rapidamente. Aqui também, este aumento da pressão competitiva tende a criar novas “zonas de fratura”, ativando assimetrias e diferenças
preexistentes que acabam se transformando quase invariavelmente em guerras civis ou regionais, como acontece em todo o mundo. As assimetrias e conflitos locais que estavam latentes e que se transformam em conflitos vivos.

E a Rússia?
Fiori: Na verdade, um dos grandes desestabilizadores do sistema mundial nas próximas décadas deverá ser a Rússia e não a China. A Rússia foi a grande derrotada deste final do século XX, e perdeu cerca de um terço do território do seu velho império. Daqui para frente sua estratégia estará sempre voltada para a recuperação total ou parcial de suas perdas. Isso será um fator básico de contestação de qualquer nova ordem que nasça nas próximas décadas. É inevitável. Não há como a política externa e a estratégia internacional da Rússia não estarem orientadas nos próximos 50 anos pela perdas que teve nos últimos 15 anos. Não há como. É da lógica do sistema, é da história.

Por que?
Fiori: Não se tira um terço de seu território e de sua população sem provocar uma resposta. Ninguém, nenhum povo jamais aceitou pacificamente este tipo de amputação.

No seu livro, o senhor diz que não haverá um duelo final entre China e Estados Unidos.
Fiori: Nem haverá um duelo final e a integração financeira só tende a crescer, numa aliança virtuosíssima. Isso não quer dizer que não vão competir fortemente pelo controle de energia e de alimentos…

E o Obama?
Fiori: Frente a uma situação como a que estamos vivendo, não há conversa. É uma crise econômica, profunda, extensa, gravíssima, prolongada. A isso se junta a incerteza do ponto de vista estratégico militar americano depois do fracasso no Oriente Médio. A junção das duas coisas cria um situação de grande complexidade seja na administração da crise econômica, seja na reorientação da estratégia militar
internacional dos EUA.

E a sua futura política externa?
Fiori: Neste campo, muitos depositam expectativas contraditórias no novo governo americano. Mas, o programa democrata da sra. Hillary como o de Obama são explicitamente intervencionistas. Além disto, a provável futura secretária de Estado, sra. Hillary Clinton, foi a favor da guerra no Iraque. E no governo de Bill Clinton, os Estados Unidos fizeram cerca de 48 intervenções ao redor do mundo ao contrário do que se imagina do que foi a década de 90. Os Estados Unidos têm hoje acordo militar com cerca de 130 países e tem mais de 700 bases militares ao redor do mundo. Os EUA não têm mais como recuar desta posição global. Enfrentarão dificuldades e contradições crescentes, mas não recuarão por sua própria vontade.

O senhor diz que o Brasil não terá uma presença internacional maior, que vai consolidar sua posição na América do Sul.
Fiori: O que digo é que o Brasil não tem capacidade nem mostra interesse em projetar globalmente o seu poder. Mas sim tem um poder e capacidade crescente dentro da América do Sul. Neste sentido, deve se prever uma tensão maior entre o Brasil e a nova administração democrata do que a que houve durante a administração republicana. Haverá disputa de interesses de todos os tipos crescentemente, mas não quer dizer que haverá um rompimento com os Estados. Pela tradição dos democratas, e pelos programas de Obama e Clinton, pode-se prever uma intervenção americana maior na América do Sul. Portanto, deverão surgir mais áreas de divergência entre o Brasil e os EUA. É natural que assim seja. Eu diria que é inevitável. Além disso, o Brasil tem alargado sua presença em vários cenários, e instâncias multilaterais, isso o Brasil expandiu muito. Relações com a África, com a Ásia, o G-20. Mas isso é diferente de ter uma capacidade de projeção global de poder que tem a ver Basicamente com canhão e capital.

O senhor acredita numa mudança na engenharia financeira depois da crise?
Fiori: Sim, mas sem qualquer tipo de acordo ou regulação multilateral . Mais uma vez, como nas década de 70 e 80, os EUA vão tentar reorganizar e regular o sistema a partir de si mesmo. O resto serão reuniões e discursos. Bom material para discussões de intelectuais e teses acadêmicas. Mas que não servirão para mais nada do que isto.

Carta Maior

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"Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. É preciso agir rápido, antes que ocorra a trombose"

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

"Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. É preciso agir rápido, antes que ocorra a trombose"

Em entrevista à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a crise. “As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso", adverte. Para ela, o Brasil tem algumas vantagens importantes para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e pelo menos três grandes empresas públicas de peso, salvas do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior. Isso dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado.

Redação - Carta Maior

Decana dos economistas brasileiros, uma espécie de banco de reflexão de última instância ao qual se socorrem economistas quando o horizonte do mercado exibe mais interrogações que cifrões, a professora Maria da Conceição Tavares, 78 anos, quase não dormiu na noite de terça para quarta-feira. E voltou a fumar, muito, o que não deveria, por orientação médica. Motivo: os abalos seguidos nos alicerces do sistema capitalista norte-americano e seus efeitos sísmicos no mundo, inclusive no Brasil.
Conhecida pela rara capacidade de equilibrar razão e paixão – não necessariamente nessa ordem - , costuradas em frases contundentes e metáforas esmagadoras sobre os desafios da economia e do desenvolvimento, Conceição falou à Carta Maior sobre a crise em curso no sistema capitalista. A voz rouca e o cansaço de uma noite insone não impedirem que reafirmasse a reputação construída a partir de uma lucidez corajosa, que mesmo os adversários respeitam - e temem.
A seguir trechos de sua conversa com a Carta Maior:
“A questão central é que o crédito está congelado: entupiu o sistema circulatório do capitalismo. Sem crédito uma economia capitalista não funciona. Agora é torcer para que o entupimento não se transforme em trombose”.
“O Martin Wolf foi lento (NR: editor do Financial Times, conhecido pelas convicções neoliberais que, em artigo transcrito hoje pelos jornais brasileiros, pede um resgate estatal urgente, e amplo, do sistema bancário). Assim como ele, as autoridades norte-americanas também foram lentas. Demasiado lentas. Vão dizer que não sabiam o tamanho do estrago? Ignoravam a gravidade da bolha especulativa feita de hipotecas podres e derivativos, cuja soma vai além de US$ 6 trilhões, sem falar do resto? Como não sabiam? Eles são gente de Wall Street. São escolhidos entre os “piranhões” do mercado. Não podem dizer que não sabiam. O problema não é esse. O problema é que eles acreditam no mercado. Essa é a tragédia. Esperaram até o limite da irresponsabilidade para intervir. Aí perderam o controle e estão diante do pânico: ninguém empresta a ninguém, entupiu o sistema circulatório do capitalismo”.
“Agora tem de fazer isso mesmo, estatizar parcelas abrangentes do sistema financeiro; implantar safenas. Não é isso que estão fazendo? O FED já começou a descontar commercial papers direto no mercado. Tem que intervir largamente, e rápido. Eles são o centro da crise mundial. Mas um pânico financeiro não respeita fronteiras”.
“O problema do Brasil não são os fundamentos, que no geral são bons. Mas aqui também foram feitas operações especulativas por grandes empresas exportadoras. Ou será que a Sadia e a Aracruz agiram solitariamente? Não agiram. Não foram exceções. Foram irresponsáveis. Não se contentaram em contratar hedge (seguro) contra a variação cambial. Quiseram apostar quantias fantásticas na variação futura do câmbio e apostaram errado. Jogaram na valorização do Real o que é insólito, diga-se. Como exportadores deveriam engrossar as vozes que pediam maior competitividade da moeda brasileira. Mas apostaram. erraram e isso abriu rombos que a Sadia, felizmente, já reconheceu no seu balanço. Digo felizmente porque não pode pairar dúvidas no mercado sobre o tamanho e a abrangência desses prejuízos ou isso gera incerteza e a desconfiança bate nas taxas do dólar.”
“O Banco Central tem o registro, sabe quem fez operações de hedge, mas não sabe quem derivou daí a segunda operação, especulativa. Se soubesse deveria intervir, sanar rapidamente o problema para evitar essa incerteza. Mas o BC, infelizmente, não tem os controles de operações que são totalmente desreguladas. O jeito então é intervir direto no mercado. Impedir a disparada do câmbio que dificulta a vida dos exportadores e importadores. A volatilidade impede o fechamento de contratos de exportação e importação; isso desequilibra a oferta de dólares e empurra ainda mais as cotações. O BC deve intervir direto vendendo dólares (NR: foi o que ocorreu depois que Conceição falou a CM). Não adianta mais fazer swaps (contratos futuros), precisa vencer moeda mesmo. Moeda das nossas reservas – fazer o quê? Note que não há fuga de capitais, não é como no passado. Se fosse fuga de capitais, a simples existência de reservas de US$ 207 bilhões controlaria. O diabo não é fuga, nem inflação, nem recessão… É irresponsabilidade, exportadores- especuladores”.
“As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso. É preciso entende