Arquivo de Para endender a Crise Mundial

Que crise econômica? Os lucros aumentam!

Por James Petras [*]

imagemcapa Enquanto os progressistas e os esquerdistas escrevem sobre as "crises do capitalismo", os industriais, as companhias petrolíferas, os banqueiros e muitas outras grandes empresas de ambos os lados do Atlântico e da costa do Pacífico encaminham-se sorrateiramente para a banca.

A partir do primeiro trimestre deste ano, os lucros das empresas dispararam entre vinte a mais de cem por cento (Financial Times, 10/Agosto/2010, p. 7). Na realidade, os lucros das empresas subiram mais do que antes do início da recessão em 2008 (Money Morning, 31/Março/2010). Contrariamente aos bloggers progressistas as taxas dos lucros estão a subir em vez de descer, principalmente entre as maiores empresas (Consensus Economics, 12/Agosto/2010). O acréscimo dos lucros empresariais é conseqüência direta do agravamento das crises da classe trabalhadora, dos funcionários públicos e privados e das pequenas e médias empresas.

No início da recessão, o grande capital eliminou milhões de postos de trabalho (um em cada quatro americanos ficou desempregado em 2010), conseguiu recuos dos patrões dos sindicatos, beneficiou de isenções de impostos, de subsídios e de empréstimos praticamente sem juros dos governos locais, estaduais e federal.

Quando a recessão bateu no fundo temporariamente, os grandes negócios duplicaram a produção com a restante mão-de-obra, intensificando a exploração (maior produção por trabalhador) e reduziu os custos passando para a classe trabalhadora uma fatia muito maior dos encargos com os seguros de saúde e com os benefícios de pensões a aquiescência dos responsáveis milionários dos sindicatos. O resultado é que, embora as receitas tenham diminuído, os lucros subiram e os balancetes melhoraram (Financial Time, 10/Agosto/2010). “Paradoxalmente, os diretores-gerais utilizaram o pretexto e a retórica das crises” oriundas dos jornalistas progressistas para impedir os trabalhadores de exigirem uma fatia maior dos lucros florescentes, ajudados pela reserva cada vez maior de trabalhadores desempregados e subempregados como possíveis "substitutos" (amarelos) no caso de ações de protesto.

A atual explosão de lucros não beneficiou todos os sectores do capitalismo: a sorte grande saiu sobretudo às maiores empresas. Em contrapartida, muitas pequenas e médias empresas registraram altas taxas de falências e de prejuízos, o que as tornou baratas e presa fácil para aquisição pelos "grandes chefões" (Financial Time, 01/Agosto/2010). As crises do capital médio levaram à concentração e centralização do capital e contribuíram para a taxa crescente de lucros das empresas maiores.

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SAIR DA CRISE?

Publicado em A Nova Democracia, nº 68, agosto de 2010

 

Adriano Benayon * - 26.07.2010

Contas externas

No artigo publicado em junho de 2010, “O Brasil e o Colapso Mundial”, apontei que o Brasil deixou, desde a crise de 2007/2008, de ter saldos positivos nas transações correntes com o exterior e que, no 1º trimestre de 2010, o déficit dessa conta atingiu recorde: mais de US$ 12 bilhões.

2. Agora dispomos dos dados para todo o 1º semestre, período em que esse déficit atingiu US$ 23,8 bilhões. Só não aumentou mais, porque em maio entraram em cena as exportações ligadas à safra agrícola. Mas em junho o ritmo de crescimento do déficit acelerou-se novamente.

3. A balança comercial teve saldo positivo de 7,9 bilhões. As transferências unilaterais (remessas de trabalhadores brasileiros no exterior), também tiveram superávit de US$ 1,51 bilhões.

4. Isso significa que o déficit de “rendas e serviços” foi de nada menos que U$ 33,21 bilhões. Nesta conta predomina o peso das “rendas”, com U$ 19,4 bilhões, quantia da qual estão deduzidos os rendimentos de capitais brasileiros no exterior.

5. Portanto, o capital estrangeiro prossegue remetendo vultosos lucros ao exterior, não obstante o Brasil vir tendo medíocre crescimento econômico, valendo, ademais, notar que os rendimentos líquidos oficiais das transnacionais não incluem os serviços superfaturados e fictícios, nem o subfaturamento de exportações e o superfaturamento de importações.

6. O próprio comércio de mercadorias, i.e., a balança comercial, confirma estar o Brasil afundando no em subdesenvolvimento. De fato, quando se trata de bens de maior conteúdo tecnológico, em vez de superávit, cresce o déficit, como se dá com os eletroeletrônicos, em que, nos seis primeiros meses de 2010, as exportações foram de US$ 3,64 bilhões e as importações, US$ 15,76 bilhões.

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“Crise é sistêmica e epicentro está nos EUA”, diz Moniz Bandeira

Segundo o cientista político, a situação da moeda estadunidense é pior do que a do euro

Renato Godoy de Toledo

da Redação Brasil de Fato

O cientista político e historiador Luiz Antonio Moniz Bandeira concedeu uma entrevista ao Brasil de Fato acerca da crise na Europa. Bandeira aponta que a crise europeia tem origem no sistema financeiro dos EUA e os reflexos têm aparecido mais na Europa, até por conta de as agências de avaliação de risco terem sede em Wall Street.

Confira a entrevista abaixo.

Brasil de Fato - A atual crise na Europa faz repensar se "valeu a pena" a constituição da União Europeia? Dá para avaliar se a UE ainda promove mais ganhos do que perdas para os cidadãos europeus?

Luiz Antonio Moniz Bandeira - Não se pode discutir se “valeu ou não” a constituição da União Europeia. Constituiu uma consequência natural do desenvolvimento do capitalismo, decorrente de uma necessidade histórica, tal como, na segunda metade do século XIX, processou-se formação dos Estados nacionais, com a superação dos Estados pequenos, das formas débeis de Estado, geradas na época da economia natural e da economia simples de mercado, pelo Estado unitário. Essa questão eu exponho detalhadamente em dois dos meus livros: “Brasil, Argentina e Estados Unidos (Da Tríplice Aliança ao Mercosul)”, cuja 3ª edição a Editora Civilização Brasileira acaba de lançar, e “Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque)”, no qual demonstro que, conforme Kautsky previra, a guerra mundial compeliu as potências imperialistas a formar uma federação, e o capitalismo entrou em nova fase, marcada pela transferência dos métodos dos cartéis, para a política internacional, a fase do ultra-imperialismo, e a transferência das guerras para a periferia do sistema. A crise da União Europeia é uma crise global, cujo epicentro está nos Estados Unidos.

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Crise europeia ou mundial?

Especialistas apontam as similaridades e diferenças entre 2008 e 2010

Renato Godoy de Toledo

da Redação Brasil de fFto

A crise que eclodiu em 2008 tendo como estopim a inadimplência dos títulos imobiliários estadunidenses, os chamados subprimes, atingiu em cheio a principal economia do mundo. A instabilidade financeira levou a acontecimentos simbólicos nos Estados Unidos, tal como a quebra do segundo maior banco de investimento do mundo, o Lehman Brothers, e o socorro estatal à General Motors, então empresa mais rica do planeta.

Desde então, o sistema financeiro mundial ainda não apresentou um momento de normalidade, apesar de algumas importantes regiões, como a Ásia e a América do Sul, apontarem sinais de retomada do crescimento.

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O capitalismo não é invencível: crise econômica e turbulências no sistema internacional de Estados em perspectiva histórica

Valerio Arcary, professor do IFEC&T/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), doutor em história pela USP.

Todavia - e dentro de determinados limites - o capital pode compensar a queda da taxa de lucro mediante o aumento da massa de lucro. Sobre isso, lemos nos Grundrisse: "Na média, a massa de lucro - ou seja, a mais-valia considerada à margem de sua relação formal, não como proporção, mas sim como simples magnitude de valor, sem relação com nenhuma outra magnitude - crescerá não conforme a taxa de lucro, mas sim conforme o volume do capital. A taxa de lucro evolui em relação inversa ao valor do capital, mas o lucro total evolui em relação direta com ele.”[1]
Roman Rosdolsky

A crise econômica mundial deu um salto de qualidade em 2008 com a falência do Lehmann Brothers. Desde então se confirmou que a economia mundial entrou em recessão. O perigo de uma depressão é grave. O capitalismo, como todos os modos de produção que o precederam, corresponde a um período histórico e está condenado a desaparecer. Mas a burguesia não vai cometer “suicídio coletivo”. Vive, pode-se presumir, muito satisfeita o usufruto de seus privilégios, e não renunciará às suas riquezas sem uma luta encarniçada. A epígrafe em que Rosdolsky cita Marx fala por si mesma: “A taxa de lucro evolui em relação inversa ao valor do capital, mas o lucro total evolui em relação direta com ele”. Em relação direta significa que quanto mais capital, maior o lucro, embora o processo de acumulação seja mais lento, porque a taxa de lucro é menor.

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Europa alerta para profundidade da crise do capital e vulnerabilidade do Brasil

Escrito por Fernando Silva

Jun-2010 – Correio da Cidadania

"O futuro não virá por si só, se não tomarmos medidas", Maiakovski.

crise do capital Estamos em meio a um novo pico da crise econômica mundial. Agora com centro na Europa, especialmente nos seus elos mais frágeis. A Grécia é o primeiro experimento dos governos centrais, desde 2007-2008, de descarregar nítida e brutalmente sobre as costas da classe trabalhadora o ônus da crise da dívida, que quebrou aquele país e ameaça contagiar a União Européia como um todo. Para obter a ajuda do FMI e dos bancos centrais europeus – fundamentalmente do que manda na "comunidade do euro", o alemão –, o governo grego tenta aplicar um plano que prevê corte de salários, de direitos e de gastos sociais numa dose nunca vista no longo pós-segunda guerra mundial. Balões de ensaio semelhantes estão sendo tramados para Portugal, Espanha e Itália. Não se trata de uma mera falência dos "pobres da Europa", que por si só seria grave, mas da ameaça de morte do euro como moeda comum àquele espaço, portanto, do pilar da integração européia.

Este novo momento da crise combina estagnação, alto desemprego, alto endividamento da sociedade e do Estado, quebrados após esgotarem sua capacidade de financiar, ou melhor, depois de injetarem bilhões em seus bancos para salvar os ricos das "bolhas" artificiais, como a imobiliária.

Ou seja, a situação na Europa alerta: apesar da relativa calmaria de 2009, não se fechou a crise aberta entre 2007 e 2008. Pois nunca se tratou de uma crise das bolsas ou dos bancos simplesmente, mas de uma crise do "modo de funcionamento" do sistema, digamos assim, adotado desde o final dos anos 70. Ou seja, segue aberta e se agravando a crise da "era das desregulamentações", do "livre mercado", da hiper-liberdade de circulação de capitais. Uma avalanche que abala os parâmetros com que o capital se acumulou e reproduziu nas últimas quatro décadas, com profunda integração entre finanças, comércio e produção globais.

Embora esta nova avalanche ainda não tenha atingido aquele que continua sendo o coração do sistema (os Estados Unidos), o novo momento traz uma diferença de qualidade do ponto de vista dos revolucionários: luta de classes. Há fortíssima reação dos trabalhadores, trabalhadores e da juventude na Grécia; greves e protestos muito expressivos em Portugal, Espanha, Itália. Mesmo na Inglaterra, ainda longe do epicentro da crise da dívida dos elos mais frágeis, há fortes tensões sociais provocadas pelo alto endividamento e desemprego da sociedade, que resultaram, como era de se esperar, na derrota dos trabalhistas nas eleições gerais e na volta dos conservadores (ainda que sem maioria absoluta, expressando uma crise do velho bipartidarismo).

As eleições inglesas e, ainda mais dramaticamente, o levante social na Grécia evidenciam que ainda estamos em uma etapa de forte crise de alternativas. É certo que, onde há lutas sociais, tendem a surgirem e se fortalecerem alternativas anticapitalistas sindicais e partidárias. Ainda assim, não está de modo algum definido qual será o desenlace para a esquerda socialista neste riquíssimo, mas difícil processo de lutas de classes na Europa. Ali, as diferentes agrupações anticapitalistas – algumas já razoavelmente consolidadas, como o Bloco de Esquerda em Portugal, ou mais atuantes, na Grécia – serão colocadas à prova.

Em resumo, cabem duas observações sobre o novo momento:

a) A crise é de longa duração. A simples repetição dos remédios mais duros do período anterior, como se vê agora na Grécia, sinaliza a inexistência de uma nova política ou novo padrão de recomposição do capitalismo para superar a crise. É uma crise estrutural, que acarretará um longo período de turbulências, estagnação, tensões sociais, e prováveis realinhamentos geopolíticos, com disputas ainda mais violentas por mercados, recursos energéticos e naturais. Ainda que se mantenha a predominância do imperialismo norte-americano, vão se acirrar também contradições inter-estatais, além das contradições de classes. A economia dos Estados Unidos, apesar de uma leve recuperação conjuntural, parece caminhar para uma estagnação semelhante à japonesa dos anos 90. Embora o neoliberalismo demonstre seu fracasso, não muda o modelo de acumulação, liderado pelo capital financeiro. Embora os governos centrais tenham conseguido impedir a depressão aguda, com as injeções massivas de dinheiro público na economia, seus "planos de resgate" são medidas de resultado duvidoso no longo prazo e sem condições de vida muito longa

b) Está mais do que nunca na ordem do dia a reconstrução e a reorganização das bases de um projeto para a revolução, como necessidade imediata e histórica. Pois, sem superar a crise das alternativas das classes trabalhadores e sem referências claras para a construção de uma saída em que as ações de massas e elementos de auto-organização comecem a tomar o centro da cena, os custos, dramas e sofrimentos humanos para que o capitalismo supere esta crise serão imensos, incalculáveis. A História do século 20 é repleta de exemplos de até aonde vai o grande capital para resolver suas crises sistêmicas.

Desdobramentos da crise e a situação no Brasil

O futuro se constrói no presente. Não basta apresentar objetivos estratégicos para uma década ou mais, lá adiante. Isto significa buscar compreender a situação conjuntural em que atuamos, ou seja, o cenário brasileiro, a política concreta do governo Lula e do grande capital no contexto mundial; os desdobramentos que essa crise global poderá ter no país, com que tempos e contradições a partir do cenário político de hoje.

Em 2008, a crise econômico-financeira nos países centrais chegou com extrema velocidade e violência no Brasil. Com a súbita escassez de crédito internacional, queda brusca das exportações provocada pela retração do comércio mundial e a queda no preço das commodities, o país viveu uma rápida recessão, com dois trimestres de retrocesso e um saldo de um milhão de novos desempregados.

Porém, do segundo trimestre de 2009 para cá, o país vem conseguindo uma recuperação igualmente rápida, com projeção de crescimento de 6% para 2010, após o crescimento zero de 2009. O que permitiu ao governo e ao grande capital brasileiros controlarem a crise? A montanha de verbas públicas injetada na economia sob a forma de liberação de crédito. O baixo endividamento da população em relação ao padrão ocidental – que permite uma margem de manobra na expansão do crédito. A redução paulatina das taxas de juros (já interrompida). A intensificação da política de isenções fiscais. O peso do mercado interno - especialmente na produção industrial, da qual 80% são consumidos em território brasileiro. A recuperação do salário mínimo e um crescimento da massa salarial, ainda que em razão do aumento da precarização dos contratos – este crescimento se deu fundamentalmente na faixa de 1 a 3 salários mínimos.

Estes fatores, somados às políticas compensatórias do governo Lula, com eixo no Bolsa Família, estão na raiz da popularidade imbatível do presidente que, a propósito, torna o cenário eleitoral cada vez mais favorável à candidatura do governo e, simetricamente, extremamente difícil e limitado para uma visão crítica e de esquerda nas eleições de 2010.

Porém, em que pese não ser provável nenhum descontrole econômico, nem qualquer turbulência nos níveis do último trimestre de 2008, nem de longe se deve desconsiderar que esse novo pico da crise com centro na Europa deverá passar ao largo do Brasil.

É o próprio BNDES que afirma isso, ao prever conseqüências negativas expressivas para as exportações do país com a crise européia, já que vai para o velho continente cerca de um terço daquilo que é exportado ao ano pelo Brasil. Nem é demais lembrar que, na semana do anúncio do pacote impopularíssimo do governo grego, a fuga de capitais do Brasil foi da ordem de US$ 2 bilhões, e mais algumas semanas de instabilidade na Bolsa.

É preciso não perder de vista o grau de vulnerabilidade da economia brasileira, dado pelo modelo agro-industrial-exportador, sua enorme dependência do comércio mundial e sua subordinação ao capital financeiro. A manutenção deste modelo, ancorado na remuneração e dependência do capital financeiro, mantém sérios gargalos e arma bombas de tempo importantes, que cedo ou tarde serão acionadas no Brasil.

A manutenção de altas taxas de juros e o conseqüente aumento da dívida pública, o crescimento do endividamento da sociedade, o estrangulamento dos serviços públicos e sociais, a manutenção da política preventiva de arrocho no setor público, a busca de retirada de direitos, o estrangulamento também da infra-estrutura, a política de crescimento predatório e privatista na área energética com sérias conseqüências ambientais… Tudo isso deverá cobrar seu preço talvez no próximo governo, diante de um cenário cada vez mais instável no mundo.

A lógica ortodoxa neoliberal de submissão ao capital financeiro abre brechas e contradições flagrantes na política do governo Lula, como agora na questão do reajuste dos aposentados e do fim fator previdenciário, que o governo já anunciou que vai vetar.

Desafios da esquerda socialista nessa conjuntura

Há tempos diferentes, portanto, para a construção de uma política e de uma ação socialista conseqüente para disputar a consciência da classe trabalhadora. Há brechas que se abrem e inegáveis desafios conjunturais aos quais uma autêntica esquerda socialista precisa responder nestes tempos de crise.

Mesmo numa situação econômica e política concreta muito diferente da norte-americana (de estagnação econômica) e da européia (ameaçada por um terremoto político e social), a resposta socialista no Brasil tem que se referenciar na crise global.

Impossível, porque incorreto, abrir mão da denúncia da manutenção desta política econômica, cujos pilares são os mesmos que levaram o mundo à porta da bancarrota com conseqüências muito graves no Brasil – onde qualquer nova turbulência se combina com as "tradicionais" mazelas que acossam diariamente o povo trabalhador: o desastre da saúde pública, da política habitacional, o desprezo para com os direitos da classe trabalhadora, dos aposentados, a precarização do trabalho, a falta de esperança para a juventude das grandes periferias, uma criminalização permanente sobre as lutas sociais e sobre a pobreza, só para ficar em alguns dos mais evidentes exemplos.

Tais questões estarão em pauta neste ano de eleições presidenciais que definem a sucessão de Lula. As duas principais candidaturas – a do governo Lula e a da oposição de direita – são claramente portadoras do mesmo modelo em vigor até aqui, modelo do qual não discorda a candidatura Marina Silva, capaz de apresentar-se como uma alternativa síntese, pois defende a herança da política econômica dos mandatos de FHC e Lula. Assim, é um desafio de grande monta atuar nas eleições de 2010 com uma política de esquerda autêntica, alternativa e socialista, sintetizada hoje no PSOL e na candidatura de Plínio Arruda Sampaio.

Por isso, é fundamental a construção de uma política e de um programa que, a partir das demandas populares e da crítica radical da política do Estado e do grande capital até hoje vigentes no Brasil, consigam apresentar uma autêntica alternativa anticapitalista, popular e socialista.

Está colocada, por exemplo, uma campanha em defesa dos aposentados, contra o veto ao fim do fator previdenciário. No terreno do programa, é preciso esclarecer a conexão entre os vetos de Lula e o peso da dívida pública, da obrigação perversa de remuneração com recursos do Estado ao capital financeiro, enquanto o orçamento social, arrochado, não dá conta das necessárias reformas agrária, urbana, ambiental, nem de um mero reajuste para os aposentados.

Será a partir da crítica à submissão do Estado brasileiro à lógica da dependência ao grande capital e seus interesses que nascerá uma alternativa anticapitalista. Nesta etapa de crise de longa duração, a natureza de um programa dos trabalhadores, seja nas lutas, nos debates ou nas eleições, só pode ser de ruptura com o capital.

Será uma tarefa pedagógica alertar ao povo sobre o que virá por aí em tempos de crise global. Nem bem a turbulência econômico-financeira bateu às portas do país em 2008 e o grande capital desencadeou enorme ofensiva sobre os direitos e o emprego da classe trabalhadora. E intensifica uma preventiva ofensiva criminalizadora sobre as lutas e movimentos sociais para impedir e minar ao máximo a capacidade de resistência operária e popular.

Por isso, um dos objetivos principais nestas eleições deve ser construir uma campanha colada aos movimentos sociais, referenciada nas suas demandas, nas suas lutas, apoiando as suas iniciativas, como a de construção da nova central combativa, as ocupações dos sem-terra, estimulando a auto-organização popular.

Por fim, voltemos ao início: a natureza da crise atual na economia capitalista e a queda de braços entre governos e o capital com as classes trabalhadoras na Europa, com centralidade agora nos enfrentamentos na Grécia, terão desdobramentos no globo e no nosso país ao longo do tempo. No Brasil, o norte é a luta para a constituição de alternativas estratégicas de saída da crise e de poder do ponto de vista dos "de baixo". Mas isso se consegue na atuação nas lutas e demandas sociais não atendidas e com uma conseqüente atuação nas importantes eleições de outubro, buscando recapacitar a formatação de um projeto socialista para o Brasil.

Pois é desde já que se constrói o dia depois de amanhã.

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista.

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O trabalho na crise econômica no Brasil: primeiros sinais

Marcio Pochmann

O trabalho oferece uma avaliação sintética do comportamento do mercado de trabalho e da pobreza no período atual ante a contaminação do Brasil pela crise internacional.

NESTE ARTIGO, busca-se identificar e analisar os principais efeitos mais imediatos para o mundo do trabalho que decorrem da contaminação da economia brasileira pela crise internacional desde outubro de 2008. Para isso, o estudo encontra-se dividido em duas partes, sendo a primeira referente à inflexão na trajetória de expansão socioeconômica nacional imposta pela crise internacional e seus principais impactos para o mercado de trabalho no país; a segunda parte analisa o comportamento recente da pobreza no Brasil, especialmente a partir dos meses em que o país ingressou na recessão econômica. As considerações finais procuram resgatar os principais resultados do estudo.

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Inflexão no ciclo econômico recente e impactos laborais no Brasil

A contaminação do Brasil pela crise internacional a partir do mês de outubro de 2008 fez que o Produto Interno Bruto (PIB) acumulasse queda de mais de 4% entre o último trimestre do ano passado e o primeiro semestre de 2009. O setor industrial, com redução de 11,6% nesse mesmo período de tempo, foi o principal responsável pela inflexão na evolução do PIB, uma vez que o setor agropecuário registrou leve expansão de 0,6% e o setor terciário cresceu 4,2%.

Apesar dos importantes sinais da recessão industrial instalada na economia brasileira, há situações distintas entre os setores de atividade, com dimensões diferenciadas no total da produção e da ocupação nacional. Enquanto a queda da produção atingiu fundamentalmente o setor industrial, que representa quase 31% da produção e 22% da ocupação do país, o setor de serviços, que responde por mais de dois terços da produção e quase 60% da ocupação nacional, apresenta importante expansão.

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De todo o modo, o ciclo de expansão produtivo mais duradouro nos investimentos desde o milagre econômico da década de 1970 no Brasil terminou sofrendo importante inflexão com a crise econômica internacional. Em virtude disso, o mercado de trabalho passou a acusar três importantes consequências: desemprego, ocupação precária e rotatividade, conforme tratado a seguir.

Desemprego aberto e perfil do desempregado

Diante da queda na expansão da produção, as demissões cresceram acima das contratações, fazendo que trabalhadores perdessem empregos e novos ingressantes no mercado de trabalho não tivessem possibilidades de trabalhar. A consequência tem sido a elevação da taxa de desempregados, interrompendo a trajetória de queda no desemprego no Brasil.

Ademais da elevação na taxa de desemprego no Brasil, contata-se também uma modificação no perfil do desempregado, especialmente nas grandes regiões metropolitanas. No mês de março de 2009, por exemplo, menos de 54% do total dos desempregos das regiões metropolitanas eram considerados pobres, uma vez que possuíam renda mensal familiar per capita inferior a meio salário mínimo. Se atualmente há, a cada dois desempregados, um que se encontra na situação de pobreza, em março de 2002 havia mais de 66% nessa mesma condição. Ou seja, de cada três desempregados, dois eram pobres, indicando a queda de 18,8% na taxa de pobreza entre os desempregados na comparação do mês de março de 2009 com março de 2002.

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A razão disso pode estar relacionada a dois aspectos principais. O primeiro decorre do avanço das políticas de proteção social, como a bolsa família, elevação do salário mínimo e demais medidas de atenção à base da pirâmide social. Entre janeiro de 2005 e março de 2009, por exemplo, a taxa de pobreza entre os desempregados caiu 16,3%, enquanto o contingente de desempregados diminuiu somente 5,5%. Mesmo com a contaminação do Brasil pela crise internacional, não houve modificação clara na taxa de pobreza entre os desempregados. De outubro de 2008 a março de 2009, a taxa de pobreza entre os desempregados caiu 2,5%, enquanto o número de desempregados aumentou 16,5%.

O segundo aspecto refere-se aos setores econômicos que estão demitindo e ao mesmo tempo apresentando maiores dificuldades para contratar novos trabalhadores. Como se trata de uma recessão concentrada no setor industrial, que oferece, em geral, empregos de maior remuneração, o desemprego tende a afetar mais as famílias não pobres.

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De outubro de 2008 a março de 2009, por exemplo, a taxa de desemprego entre a população pobre aumentou 18,5%, enquanto, para a população não pobre, a taxa de desemprego cresceu 24,8%. Mesmo com diferenças na evolução recente do desemprego, permanecem diferenças abissais em relação às taxas de desemprego por nível de renda. Nas principais regiões metropolitanas, a taxa de desemprego para a população pobre chega a 24,8%, ao passo que para a população não pobre a taxa de desemprego alcança somente 5,2% do total.

Ocupação precária e informal

A inflexão no ritmo de expansão da economia brasileira implica desemprego maior, acompanhado da degradação de parte dos postos de trabalho existentes, sobretudo no setor privado. A informalidade no interior das ocupações tende a aumentar em razão da ausência de um sistema universal de garantia de renda a todos desempregados.

Em virtude disso, parcela dos trabalhadores desempregados tende a desenvolver atividades com objetivo de obter algum rendimento para a sobrevivência, geralmente por meio de ocupações precárias. Ao aceitar o emprego de sua força de trabalho em contratações informais, o trabalhador situa-se abaixo do patamar mínimo estabelecido pela legislação social e trabalhista vigente.

Ademais da expansão do trabalho informal, constata-se a queda na remuneração dos ocupados. Isso tende a ocorrer mais intensamente nos salários dos trabalhadores ocupados informalmente.

Com o avanço do trabalho não formal, há o rebaixamento das condições gerais de emprego da mão de obra. Mas também se observa que a arrecadação de recursos para o fundo público resultante de mais empregos sem contrato formal se reduz, penalizando a fonte de financiamento das políticas previdenciárias e sociais de maneira geral.

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Rotatividade da mão de obra

No mesmo sentido do atual funcionamento desfavorável do mercado de trabalho, a rotatividade da mão de obra coloca-se de forma mais intensa no rebaixamento da remuneração e das condições de trabalho dos empregados, geralmente aqueles com contrato formal. Em termos gerais, trata-se da demissão de trabalhador com maior remuneração para os contratos de novos empregados em condições inferiores de salário.

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No Brasil, a rotatividade se apresenta demasiadamente elevada, muito acima da verificada em outros países. Geralmente a taxa de rotatividade entre empregados com até três meses de trabalho chega a ser de duas a cinco vezes superiores à praticada noutras economias.

Ainda que se note uma leve elevação no ritmo de rotatividade nos países selecionados, chama a atenção o aumento da rotatividade no Brasil a partir do ano passado, quando a crise econômica contaminou a economia nacional. Com isso, podem-se verificar diferenças importantes em relação ao perfil do trabalhador exposto à rotatividade no Brasil e nos países selecionados.

Nações como Japão e Estados Unidos concentram mais a rotatividade no emprego feminino, diferentemente do Brasil e da União Europeia. No Brasil, a rotatividade atinge mais os postos de trabalho com empregados de menor remuneração, ao contrário dos demais países que envolvem empregados com maior escolaridade

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Se considerada a rotatividade por setor econômico, por faixa etária e por período de tempo do empregado na mesma empresa, notam-se diferenças importantes entre os países. No Brasil tende a predominar a rotatividade entre os mais jovens e no primeiro mês de contratação, enquanto nos outros países selecionados concentra-se nas faixas etárias adultas e nos dois ou três meses de contratação.

Por fim, em relação à rotatividade por setor econômico, destaca-se o maior peso no setor terciário das economias selecionadas. Nesse sentido, o Brasil tende a se aproximar mais do mercado de trabalho dos Estados Unidos.

Nos seis meses que decorrem da manifestação inicial da crise internacional no Brasil (de outubro de 2008 a março de 2009), a taxa média nacional de rotatividade do emprego formal foi de 3,88%. No mesmo período de tempo anterior (de outubro de 2007 a março de 2008), a taxa média nacional de rotatividade foi de 3,74%. Com isso, observa-se que, a partir da crise, a rotatividade cresceu 3,7%, indicando que um dos mecanismos de ajuste do mercado de trabalho, além do fechamento de vagas, tem sido a substituição na mesma ocupação de um empregado de maior remuneração por outro de menor salário.

 

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Desde outubro de 2008, os setores que aumentaram a rotatividade não foram os que mais demitiram empregados formais. O setor terciário, por exemplo, que contempla o comércio e os serviços em geral, manteve o saldo positivo entre contratação e demissão no período recente, porém com aumento da rotatividade em relação ao período anterior.

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Já o setor industrial, com maiores baixas no nível ocupacional, terminou apresentando queda na taxa de rotatividade da mão de obra formal. Em síntese, o processo de ajuste no interior do mercado de trabalho formal ante a crise internacional tem sido a demissão acompanhada da rotatividade, que significa a contratação com condições de salário inferiores às anteriores.

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Desde outubro de 2008, observa-se que a rotatividade da mão de obra formal cresceu mais para trabalhadores de nível médio e superior de escolaridade. Além disso, nota-se que a rotatividade, segundo sexo, não sofreu alteração importante, ao contrário do perfil por faixa etária, com leve redução para empregados com menos de 21 anos e maiores de 46 anos, bem como a maior expansão para trabalhadores entre 22 e 45 anos de idade.

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Pobreza recente no Brasil metropolitano

O conjunto das seis principais regiões metropolitanas do Brasil registra uma tendência de queda na taxa de pobreza desde abril de 2004. Entre março de 2002 e abril de 2004, a quantidade de pobres metropolitanos cresceu 2,1 milhões de pessoas, enquanto, no período de abril de 2004 e março de 2009, a quantidade de pobres foi reduzida em quase 4,8 milhões de pessoas.1

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Em virtude disso, a taxa de pobreza, que era 42,5% do total da população das seis regiões metropolitanas no mês de março de 2002, passou para 42,7% em abril de 2004, com aumento de 0,5%. Para o mês de março de 2009, a taxa de pobreza no Brasil metropolitano foi de 30,7%, o que significou queda de 28,1% em relação ao mês de abril de 2004.

Com os sinais de internalização da crise internacional no Brasil desde outubro de 2008, observa-se que não houve, até o mês de março de 2009, interrupção no movimento de queda da taxa de pobreza nas seis principais regiões metropolitanas do país. Entre outubro de 2008 e março de 2009, houve a diminuição em quase 316 mil pessoas da condição de pobreza no Brasil metropolitano.

A taxa de pobreza de 30,7% de março de 2009 foi 1,7% menor que a de março de 2008, acusando também redução de 670 mil pessoas da condição de pobreza (queda de 4,5% no número de pobres). Nos períodos recessivos, a pobreza aumentou, como entre 1982 e 1983, com o adicional na quantidade de pobres em quase 7,7 milhões de pessoas nas seis regiões metropolitanas, enquanto, em 1989/1990, o número de pobres cresceu em mais de 3,8 milhões de brasileiros.

Esse comportamento distinto da taxa de pobreza no Brasil metropolitano em relação a outros períodos pode estar diretamente relacionado ao valor real do salário mínimo em relação à base da pirâmide social, especialmente aos trabalhadores ocupados e aos inativos associados às políticas de garantia de renda. Durante os quatro períodos de desaceleração econômica considerados, nota-se que somente no período atual o valor real do salário mínimo conseguiu guardar seu valor real superior (8%). Entre os anos de 1998/1999, o salário mínimo perdeu 3,1% do seu poder aquisitivo. Na recessão de 1989/1990, o valor real do salário mínimo caiu 33,6%, enquanto, entre 1982 e 1983, a perda no poder de compra do mínimo foi de 8,2%.

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Ademais da importância do valor do salário mínimo para os trabalhadores ativos no interior do mercado de trabalho, convém destacar a sua relação com benefícios da previdência e assistência social. Como os seus valores encontram-se indexados ao valor do mínimo nacional, parcela importante da população inativa também acaba sendo beneficiada pelo poder aquisitivo garantido nos períodos de forte desaceleração econômica.

Em síntese, a base da pirâmide social brasileira conta atualmente com uma rede de garantia de poder de compra originária nos programas de transferências condicionadas de renda. O Programa Bolsa Família destaca-se pelo universo de beneficiados em todo o país. Somadas as parcelas com benefícios previdenciários e assistenciais, o Brasil conta atualmente com 34,1% da população, sobretudo a de menor rendimento protegida com algum mecanismo de garantia de renda, o que constitui algo inédito em relação aos outros períodos de forte desaceleração econômica no país.

Considerações finais

Por dois trimestres seguidos, desde outubro de 2008, o Brasil apresentou queda na taxa de expansão do PIB, influenciado decisivamente pelo comportamento do setor industrial. Em virtude disso, o funcionamento do mercado de trabalho voltou a apresentar-se mais desfavorável àqueles que dependem do próprio trabalho para sobreviver. Além do aumento do desemprego, observa-se também o crescimento dos postos de trabalho informais e da rotatividade nos empregos assalariados formais.

Não obstante a piora no interior do mercado de trabalho, constata-se que a pobreza nas seis regiões metropolitana não vem aumentando, apresentando, mesmo, queda até o mês de março de 2009. Em grande medida, o comportamento inédito da pobreza desde a crise da dívida externa no Brasil (1981-1983) encontra-se relacionado à elevação do valor real do salário mínimo e à existência de uma rede de garantia de renda aos pobres.

A crise afeta decisivamente o conjunto dos trabalhadores em maior medida que outros setores da sociedade. Mesmo assim, a base da pirâmide social não registra ainda os mesmos sinais de regressão econômica e social verificados em outras crises ocorridas no Brasil.

Nota

1 A taxa de pobreza refere-se ao contingente de pessoas com renda familiar per capita mensal de até meio salário mínimo em relação ao total da população.

Marcio Pochmann é professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). @ – marcio.pochmann@ipea.gov.br

Fonte: Scielo – www.scielo.br

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Na crise, banco dos EUA lucra US$ 5 milhões por hora

O grupo financeiro JPMorgan lucrou US$ 5 milhões por hora no primeiro trimestre deste ano, informa reportagem de Clóvis Rossi para a Folha de S. Paulo.
Dá praticamente R$ 9 milhões, o que significa que um trabalhador brasileiro de salário mínimo levaria cerca de 1.500 anos para receber o que um grupo como esse ganha em uma hora.
O JPMorgan não está sozinho em ganhos tão siderais: o Goldman Sachs registrou lucros de pelo menos US$ 25 milhões em cada um dos 63 dias úteis do ano (R$ 44 milhões).
No total, os 14 maiores bancos de investimento tiveram uma receita conjunta de US$ 78,8 bilhões no primeiro trimestre, os melhores números em três anos, apenas US$ 1,2 bilhão abaixo do pico de US$ 80 bilhões registrado no primeiro trimestre de 2007, antes da eclosão da crise chamada então de "crise das subprimes". (Folha Online - 05/2010)
NOTA DO CONTRAPONTO!: É revoltante saber que no sistema capitalista um único banco dos EUA fatura em UMA HORA, o que um trabalhador levaria 1.500 ANOS (!), recebendo um salário mínimo. Alguém aí ainda acha que não é preciso uma REVOLUÇÃO SOCIALISTA?

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A crise do euro, a reestruturação geopolítica e os países emergentes

Entrevista especial com Amir Khair

040510_lula-e-vargas Economias sólidas e desenvolvidas “consumiram, artificialmente, por meio do sistema financeiro, muito mais do que poderiam pagar”. Esse é, na avaliação do especialista em finanças públicas, Amir Khair, um dos motivos que tem levado países desenvolvidos a atravessarem crises financeiras. Na entrevista que segue, concedida, por telefone, à IHU On-Line, Khair diz que, a partir da crise da Grécia e da União Européia, é possível que ocorra uma “continuação da depreciação do euro perante outras moedas”. Esse processo, assegura, pode se transformar numa vantagem para o bloco europeu no que se refere à exportação. “A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado”.

Segundo ele, as crises financeiras estão acelerando o novo arranjo geopolítico, que consiste na reorganização do capitalismo. Nesta reestruturação, países emergentes ganham destaque, enquanto Europa, EUA e Japão perdem “capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos emergentes”. Khair destaca ainda que os países desenvolvidos chegaram “a um patamar de saturação do ponto de vista de crescimento, e os países emergentes se mostram mais competitivos e em maiores condições de expansão”. Por isso, segundo ele, a maneira que as economias desenvolvidas “terão para poderem competir em condições de maior vigor no comércio internacional será por meio da depreciação de suas moedas”.

Khair é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Atualmente, é consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A crise da Grécia e da UE estão relacionadas apenas ao déficit público e à dívida pública do Estado grego, ou elas também têm uma relação com o setor privado, com o déficit em conta-corrente e a dívida externa de outros países?

Amir Khair – Elas têm relação com ambos. Tudo isso confluiu para pôr em evidência os frágeis fundamentos macroeconômicos não apenas da Grécia, mas de vários outros países da Europa.

IHU On-Line – Há risco para um crash do euro? Quais os efeitos disso para a economia global?

Amir Khair – Sim, há um risco, desde a extinção do euro, como também no sentido da depreciação do euro perante outras moedas. Assumindo essa segunda hipótese, a qual acho mais provável, há uma questão vantajosa para o bloco europeu como um todo no sentido da exportação. A moeda deles estando mais depreciada irá favorecê-los como players internacionais mais fortes para a colocação de seus produtos no mercado. Isso, no meu entender, vai na mesma direção do que está acontecendo também com EUA e Japão, que são países que deverão continuar um processo de depreciação de suas moedas para fortalecer as suas posições exportadoras. Eles perderam capacidade competitiva no mercado internacional, fundamentalmente, pelo diferencial salarial que praticam em relação aos países emergentes, especialmente do leste da Ásia. Assim, a maneira que eles terão para poder competir em condições de maior vigor no comércio internacional será por meio da depreciação de suas moedas, caminho que eu vejo quase que inexorável e que será acelerado em decorrência dos trilhões de dólares emitidos para salvar seus sistemas financeiros.

IHU On-Line – É por isso que o senhor diz que a crise serviu para acelerar um novo arranjo geopolítico em construção nas últimas décadas? Em que consiste esse novo arranjo e quais países que fazem parte dessa nova reorganização?

Amir Khair – Há mais de 20 anos, vem ocorrendo, no mundo, uma alteração geopolítica. Esse processo consiste basicamente na lógica do próprio desenvolvimento do sistema capitalista, que terá uma fase nova no sentido de ser um capitalismo mais bem estruturado do que é hoje.

O sistema capitalista sofreu e, deverá ainda sofrer, períodos de crises de superprodução. Nestas condições, os países emergentes foram beneficiados, de uma forma mais geral, por processos no qual o capital, querendo se reproduzir com mais força e seguindo a sua lógica, foi em busca de mão-de-obra mais barata e de mercados com maior potencial de expansão. É de se observar que, há vários anos, o crescimento dos países emergentes como um todo é cerca de 3 a 4 vezes maior do que o dos países desenvolvidos. É como se os países desenvolvidos chegassem a um patamar de saturação do ponto de vista de crescimento, e os países emergentes se mostram mais competitivos e em maiores condições de expansão. Assim, o capital começou a se dirigir para países em desenvolvimento, criando empregos e massa de salários maiores, ampliando o consumo. Ao fazer isso, o capital atrai mais investimentos para esses locais. Esse processo terá continuidade e isso ocorrerá a ponto de, internacionalmente, se ter uma redução do diferencial de salários entre países desenvolvidos e emergentes. Nesse sentido, vejo a globalização como um instrumento positivo sob o aspecto comercial. Já sob a perspectiva da globalização financeira – que é a destruidora do sistema capitalista -, se não forem impostas regras rígidas, ela será o algoz do sistema capitalista.

IHU On-Line - A que atribui a fragilidade financeira, monetária e fiscal dos países desenvolvidos?

Amir Khair – Esses países consumiram, artificialmente, por meio do sistema financeiro, muito mais do que poderiam pagar. A questão é que o sistema financeiro ainda aposta neles e está disposto a emprestar dinheiro.

Os países se endividam tanto que, num determinado período, o próprio mercado financeiro começa a desconfiar da capacidade deles pagarem os seus compromissos. Ou seja, tanto EUA quanto Europa e Japão são países que consomem mais do que a sua própria capacidade de pagar. Com isso, eles foram criando déficits externos bastante pesados. O epicentro disso é os EUA. Só que a China, a Alemanha – que é uma exceção na Europa -, e os países produtores de petróleo, inclusive o Brasil, ajudaram a fechar o rombo externo americano da ordem de 5% a 8% do PIB, que ainda são considerados os de maior segurança do mundo. Isso está retardando a verdadeira crise americana que ainda poderá vir.

Em algum momento, os países perceberão que esses títulos não têm essa segurança; que títulos de outros países são mais seguros porque têm condições macroeconômicas melhor assentadas. Isso tende a se deslocar, primeiramente, para a China, que é um país que tem estruturas macroeconômicas mais sólidas, porém com riscos muito grandes porque o país ainda oferece pouca segurança institucional, além de ter uma proteção social baixíssima.

Nessas condições, vejo que esse deslocamento tende a continuar do ponto de vista comercial, porém, do ponto de vista financeiro, essa questão de “quebrar o galho” do excesso de consumo sob a capacidade de pagamento tem limites. A falta de solução para esse problema só irá acelerar essa mudança geopolítica.

IHU On-Line - O senhor também analisa o processo da crise econômica, financeira e social dos países desenvolvidos por meio do esgotamento do modelo de desenvolvimento experimentado desde o início da revolução industrial. Como isso contribuiu para a crise econômica?

Amir Khair – A base disso é a crise periódica que vive o sistema capitalista de excesso de produção. Essas crises, se não forem analisadas no devido termo, acabam por mostrar a fragilidade do sistema de concentração de renda. Não creio que possa ter um sistema harmonioso no mundo, no qual haja uma desigualdade de renda em termos internacionais tão elevada quanto a existente hoje. Então, quando houver um sistema de distribuição de renda melhor posicionado e não tiver tanta convivência entre grandes fortunas e grandes misérias, aí, sim, se terá condições sociais de maior justiça social dentro do sistema mundial, e condições de ter um novo sistema que supere o capitalismo. Esse novo sistema seria uma presença mais forte de regras internacionais e nacionais, como, por exemplo, regras de fortalecimento do processo de valorização da pessoa humana, dos seus direitos perante a comunidade. Essa questão está muito longe de ser estabelecida, mas é inexorável que se caminhe nesse sentido. Quem sabe, serão colocadas regras bastante fortes ao controle das empresas com posição oposta ao laissez-faire, que foi permitido no sentido de a empresa e o mercado serem os deuses, e o Estado, o demônio.

Embora se fale nos países democráticos como Estados democráticos, esses não o são de verdade porque pensar em Estado democrático é pensar Estado de bem-estar global para a população, em mídia democrática, por exemplo. Nesse ponto, a Internet terá um papel decisivo na questão democrática. E, então, haverá um sistema mais voltado para o homem e menos voltado para a diferenciação de homens e, portanto, para a primazia do capital sob o trabalho.   

IHU On-Line - De que maneira as crises financeiras geram crises sociais?

Amir Khair – As crises financeiras sempre acabam sendo pagas pela população. Veja o exemplo da Grécia. Acumulou-se dentro do país um processo de grandes perdas do ponto de vista das suas transações correntes e da situação fiscal do país. Para resolver seu problema, a Grécia teria de pagar uma soma absurda de recursos que foram se acumulando, a qual ela não tem condições de pagar. Então, está se empurrando o problema para frente. Isso já está sendo percebido pelo mercado. Há essa euforia no sentido de que finalmente o Banco Central Europeu, o FMI e os líderes europeus se deram conta de que o processo grego poderia contaminar o conjunto da Europa e, quem sabe, o resto do mundo e, aí, resolveram fazer um pacote para auxiliar o país.

O adversário da “solução” financeira para a Grécia é o povo grego. Se for feita uma restrição tão forte quanto à colocada ao povo, irá ocorrer uma rebelião social lá, sem sombras de dúvida. Algumas demonstrações já ocorreram. Esse mesmo processo só pode ser solucionado com a moratória. Eles usam uma expressão diferente para mostrar que não é uma moratória, mas seria uma readequação da dívida. Não vejo como a Grécia possa pagar esse volume de dívidas que acumulou. Ela terá de desvalorizar fortemente essa dívida na semelhança do que fez a Argentina e, então, ela irá encontrar um novo caminho, o qual terá de se adaptar a gastar aquilo que o povo realmente tem como recursos e não exacerbar esses gastos que beneficiaram economias, em especial a alemã, exportando para a Grécia.  

IHU On-Line – Então a União Européia não deve ajudar a Grécia e outros candidatos à falência?

Amir Khair – Os que querem “ajudar” os candidatos à falência devem encarar com realismo o fato de que se esses países tiverem de se submeter a regimes de pagamentos que inviabilizem social e politicamente seu país, eles não o farão.

IHU On-Line - O euro pode ser a moeda comum de tantos países, tão diferentes? Quais as vantagens e desvantagens de unificar a moeda num continente?

Amir Khair – A vantagem seria de ter um comércio fluído entre o bloco euro, que daria uma preferência nas transações comerciais de todos os países. Então, se teria condições de privilégios do ponto de vista de colocação de seus produtos em relação a produtos de fora dessa área. A desvantagem é que, ao unificar a moeda, cada país cede a sua capacidade de fazer políticas cambiais diferenciadas. Então, eles ficam sem condições de poder usar um elemento macroeconômico importante, que é a política cambial, no sentido de adaptar-se a essa grande concorrência internacional, criada pela globalização, e às assimetrias econômicas existentes entre os países da zona do euro. A restrição ao uso de política cambial é a questão crucial. A China, por exemplo, faz uma política cambial que é criticada pelos EUA, a qual consiste na depreciação sistemática da sua moeda, acompanhando a depreciação do dólar. Outros países reclamam disso porque perdem seu poder competitivo do ponto de vista internacional.

Mas penso que um país, para ter solidez macroeconômica efetiva, precisa se basear não no mercado internacional como prioridade número um, mas no desenvolvimento do seu próprio mercado doméstico, que me parece o grande movimento que está dominando os países emergentes.

IHU On-Line - É possível sair da crise sem mudar a política do euro?

Amir Khair – Penso que sim, desde que haja a desvalorização da moeda. Isso poderá criar condições para que esses países exportem mais e importem menos porque eles não têm capacidade para pagar a conta da sua dívida, que deverá sofrer forte redução à semelhança do que fez a Argentina. Assim, aos poucos, eles poderão se adaptar a uma realidade nova, mais compatível com o equilíbrio macroeconômico.

IHU On-Line - Deseja acrescentar alguma coisa?

Amir Khair – Podemos tirar, dessa crise, um exemplo para a própria economia brasileira. Sem me estender muito, diria que há um diagnóstico, para mim totalmente equivocado, mas majoritário entre os economistas, de que no Brasil não pode crescer muito porque isso pode gerar inflação e um desequilíbrio nas contas externas. Eles pregam que o Banco Central pratique taxas de juros cada vez maiores para conter esse crescimento econômico que consideram elevado.

Meu ponto de vista é oposto e espero que o próximo governo pratique uma política mais inteligente do que essa que está colocada por estas análises. A chave de sucesso de um país, sob o aspecto fiscal, social, econômico e das contas externas, está no crescimento econômico forte, com redistribuição de renda. Esse crescimento se faz pelo estímulo ao consumo das camadas da população de menor renda. É exatamente o que fez o presidente Lula, ou seja, há uma diferença fundamental de política econômica entre o governo dele e dos anteriores: fazer a economia crescer com base no estimulo à base da pirâmide social. Isso se traduz em programas de valorização do salário mínimo, programas como Bolsa Família e a criação do crédito consignado. Esses programas ampliaram a classe média no Brasil, que tende a continuar crescendo se for mantida essa política de redistribuição de renda pelo Estado. Com isso, o país tem condições não apenas resolver seu problema fiscal, mas baixar esses juros malucos que o país tem há mais de uma década. Nessas condições, o Brasil irá surfar na onda de crescimento mundial e, de uma forma muito mais sólida, com muito mais força do Estado, como grande agente propagador desse crescimento, pela sua função redistributiva de renda que compete exclusivamente a ele, e não ao setor privado. 

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Crise Econômica: A hora da fatura

A Grécia é o primeiro país a iniciar uma nova etapa da crise internacional: o país está falido, o governo de frente popular ataca o funcionalismo público para conter a dívida e a resposta das ruas são as maiores lutas sociais desde o fim da ditadura militar, há 35 anos. Portugal e Espanha também correm o risco de quebrar

 

A metamorfose                         
serra_privatizar A crise econômica internacional, iniciada há dois anos, está se transformando em crise da dívida. A Grécia é o país que melhor representa esta mudança. Com o início da crise econômica, em 2008, os governos do mundo todo aumentaram seus endividamentos e entregaram cerca de US$ 13 trilhões para os grandes investidores.
No entanto, as faturas vencem, e a periferia da Europa parece não ter condições de pagar as suas dívidas sem recorrer a novos empréstimos. Os países mais endividados, chamados pejorativamente pela imprensa de PIIGS (porcos, em inglês) são Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.
A Grécia, o caso mais crítico, teve em 2009 um déficit orçamentário de mais de 12% do PIB, com sua dívida pública superando os 300 bilhões de euros (cerca de R$ 750 bilhões). Isso representa mais de 110% do PIB do país.
O velho neoliberalismo
Os países centrais da Zona do Euro (Alemanha e França) receiam que a crise da dívida ultrapasse as fronteiras, aumente a recessão em curso no continente e desestabilize o euro. Com isso, têm pressionado os governos endividados a adotarem as tão famosas políticas de austeridade fiscal, o velho neoliberalismo.
O discurso criado não é nada original: são apontados como responsáveis pela crise da dívida um suposto Estado de Bem-Estar social grego: privilégios do funcionalismo público, altos salários, rombos da previdência, ineficiência do Estado na gestão da saúde e da educação etc., que estrangularia os cofres públicos.
As razões da dívida
Os motivos reais do endividamento do país, no entanto, são outros. A Grécia não escapou das políticas neoliberais que assolaram a Europa a partir da década de 1990, criando um paraíso para o capital financeiro e tornado os serviços públicos cada vez mais precários.
Desde então, a Grécia é um dos países da zona do Euro que cobra menos impostos das empresas e, além disso, é conhecida por possuir uma enorme sonegação fiscal por parte de bancos e corporações. Inversamente, o sistema fiscal é penoso com os trabalhadores, sendo os impostos sobre os salários um dos maiores da Europa, de modo que o orçamento público depende quase exclusivamente da taxação dos trabalhadores assalariados e da classe média-baixa.
Como se não bastasse, as empresas, e até mesmo o governo, simplesmente pararam de contribuir para a previdência social, criando um rombo anual de 10 bilhões de euros. A gota d’água veio com a crise econômica internacional, quando os setores chaves da economia – construção civil, turismo e indústria naval – entraram em recessão.
Para se ter uma ideia da situação, basta uma conta simples. O governo recém-eleito quer cortar do orçamento 25 bilhões de euros durante os próximos três anos para reduzir o déficit orçamentário. No entanto, o governo anterior, do partido da Nova Democracia (direita), em apenas uma noite em fins de 2008, concedeu aos bancos gregos 28 bilhões de euros para salvá-los da crise.

 

O velho neoliberalismo
Os países centrais da Zona do Euro (Alemanha e França) receiam que a crise da dívida ultrapasse as fronteiras, aumente a recessão em curso no continente e desestabilize o euro. Com isso, têm pressionado os governos endividados a adotarem as tão famosas políticas de austeridade fiscal, o velho neoliberalismo.
O discurso criado não é nada original: são apontados como responsáveis pela crise da dívida um suposto Estado de Bem-Estar social grego: privilégios do funcionalismo público, altos salários, rombos da previdência, ineficiência do Estado na gestão da saúde e da educação etc., que estrangularia os cofres públicos.
As razões da dívida
Os motivos reais do endividamento do país, no entanto, são outros. A Grécia não escapou das políticas neoliberais que assolaram a Europa a partir da década de 1990, criando um paraíso para o capital financeiro e tornado os serviços públicos cada vez mais precários.
Desde então, a Grécia é um dos países da zona do Euro que cobra menos impostos das empresas e, além disso, é conhecida por possuir uma enorme sonegação fiscal por parte de bancos e corporações. Inversamente, o sistema fiscal é penoso com os trabalhadores, sendo os impostos sobre os salários um dos maiores da Europa, de modo que o orçamento público depende quase exclusivamente da taxação dos trabalhadores assalariados e da classe média-baixa.
Como se não bastasse, as empresas, e até mesmo o governo, simplesmente pararam de contribuir para a previdência social, criando um rombo anual de 10 bilhões de euros. A gota d’água veio com a crise econômica internacional, quando os setores chaves da economia – construção civil, turismo e indústria naval – entraram em recessão.
Para se ter uma ideia da situação, basta uma conta simples. O governo recém-eleito quer cortar do orçamento 25 bilhões de euros durante os próximos três anos para reduzir o déficit orçamentário. No entanto, o governo anterior, do partido da Nova Democracia (direita), em apenas uma noite em fins de 2008, concedeu aos bancos gregos 28 bilhões de euros para salvá-los da crise.
2010JAN_LIVROCRISE Em síntese, o governo quer que os trabalhadores que sustentam o Estado paguem mais uma vez pela crise: após o desvio de dinheiro público para salvar o grande capital, agora pretende cortar o orçamento estatal e direitos sociais.
Os ataques do governo
A Grécia tem um governo de colaboração de classes (Frente Popular) desde outubro de 2009, quando o partido Pasok ganhou as eleições prometendo se opor à proposta de congelamento de salário realizada pelo então governo da Nova Democracia. Além disso, também prometeu aumento da tributação do grande capital e acabar com as evasões fiscais. No entanto, não foram necessários 100 dias para demonstrar o caráter do novo governo.
Ainda em 2009, o recém-empossado primeiro-ministro George Papandreou anunciou as medidas que teria como objetivo conter a crise e retomar a credibilidade do mercado financeiro: congelamento dos salários do funcionalismo público (abrindo a possibilidade de que isso aconteça no setor privado), ampliação dos trabalhos temporários e contratação de apenas um trabalhador para cada cinco que se aposentarem.
Em relação à previdência, o governo procura realizar um corte de 10% do valor das aposentadorias, aumentar a idade mínima da aposentadoria para 63 anos (atualmente os homens se aposentam com 60 e as mulheres com 55) e substituir o sistema de previdência social para fundos de pensão privados e semiprivados.
Além disso, o governo também planeja redução de 10% dos gastos públicos, principalmente nas áreas sociais, deteriorando ainda mais a saúde e a educação gregas, consideradas umas das piores da zona do Euro. Por fim, planeja-se a privatização dos portos e dos serviços de água e energia.
“Aos bancos, eles dão dinheiro; aos jovens, eles oferecem… balas”
Também não foram necessários mais de 100 dias para começarem os enfretamentos com o novo governo: desde fins de 2009, os trabalhadores do serviço público têm feito manifestações de rua e paralisações. Apesar das traições das lideranças sindicais do Pasok, os atos contrários ao pacote de estabilização têm se intensificado e se tornado massivos.
Há três semanas que trabalhadores do serviço público estão acampados em frente ao parlamento. No último dia 10, realizaram uma massiva greve geral, com adesão de amplos setores, como saúde, educação, transporte aéreo, segurança entre outros.
O setor privado também marcou uma greve geral para o dia 24 de fevereiro, que deverá ser incorporada, mais uma vez, pelo setor público. Pequenos agricultores rurais também têm se enfrentado com o governo. Na semana passada, completou-se um mês que bloqueiam mais de 30 das principais estradas do país, exigindo subsídios para a produção. A resposta do Pasok tem sido reprimir todas as manifestações com muita violência, tornando a situação política ainda mais instável.
É difícil para os trabalhadores gregos derrotar um governo de Frente Popular recém-eleito. Por outro lado, a Grécia sempre foi um país de intensa mobilização social e, atualmente, passa por um período de retomadas das lutas e de fortes enfretamentos de rua.
O medo da burguesia é que se tenha um “dezembro dos trabalhadores”. A expressão faz referência à dezembro de 2008, quando milhares de jovens protagonizaram as maiores manifestações do país desde o fim da ditadura militar. Após a morte pela polícia de um jovem de 16 anos, as manifestações se tornaram massivas, e a polícia não tinha mais condições de contê-las. A cidade passou a ter atos diários, com regiões da cidade tomadas pelos manifestantes e protegidas por barricadas.

2010fev18_grecianatal2008

Grécia, noite de Natal de 2008
Com o acirramento da crise, todos esperam uma retomada dos grandes enfrentamentos. A greve geral do dia 10 já deu o seu recado: “Nós não pagaremos pela crise!”, diziam os cartazes na manifestação.
Retirado do Site do PSTU

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Bancos sem mitos

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O humor veio colaborar com a compreensão desta e de crises financeiras anteriores. Com ironia, o humorista gráfico espanhol, conhecido como El Roto, fez uma ilustração na qual um banqueiro diz: “A operação foi um sucesso: fizemos parecer uma crise o que não passou de um saque”. Recessão, destruição de empregos, protestos populares e mortes, aumento de impostos regressivos e redução de salários e aposentadorias, que conformam um quadro de profunda deterioração social são considerados danos menores. O artigo é de Alfredo Zaiat, do Página 12.

Alfredo Zaiat - Página 12

O próximo momento da crise grega se mostra tão previsível que provoca certa incredulidade na resposta dos líderes mundiais e organismos multilaterais. A débâcle argentina de 2001 é tão recente que parece que não aconteceu, para seguirmos nos persuadindo na insistência na receita do fracasso, com o FMI relegitimado pelas potências como auditor e polícia do ajuste. Embora substancial nas decisões, esse comportamento não se deve apenas a uma concepção ortodoxa de abordagem da questão econômica. O aspecto central é a hegemonia das finanças na fase atual do capitalismo global, que orienta o sentido das medidas do ajuste.
Estas medidas visam a evitar as bancarrotas bancárias generalizadas para evadir os custos ainda maiores que os atuais, dramáticos, e que já são ineludíveis. Recessão, destruição de empregos, protestos populares e mortes, aumento de impostos regressivos e redução de salários e aposentadorias, que conformam um quadro de profunda deterioração social são considerados danos menores frente à possibilidade de uma derrubada do sistema financeiro. Para evitá-la, anunciam pacotes milionários de auxílio como um ato de fé, apostando em melhorar dessa maneira as expectativas e em evitar a débâcle, ainda que a contrapartida seja o ajuste que aprofunda a crise e acelera o desenlace da desvalorização e do default.
O grande temor não é a queda da Grécia, que de fato já está prostrada numa virtual moratória, mas a situação dos grandes bancos europeus e o efeito expansivo para o resto da Europa, em especial países vulneráveis, como a Espanha e Portugal. A intervenção ativa da Alemanha nesta crise se explica, além de por sua condição de potência européia, como medida de proteção de seus bancos, dada a elevada exposição creditícia que eles têm nesses três países: na Grécia, 45,003 bilhões de dólares, em Portugal, 47,377 bilhões de dólares e, na Espanha, 237,983 bilhões de dólares.
Nesses três mercados a exposição de entidades alemãs equivale a quase 10% do total dos financiamentos externos de seu sistema bancário. No total, a exposição dos bancos europeus na Grécia chega a 192, 062 bilhões de dólares; em Portugal, a 240, 498 bilhões de dólares e, na Espanha, a 832, 288 bilhões de dólares. A fonte dessas cifras é o Banco Internacional de Compensações (BIS, em sua sigla em inglês) e correspondem ao fim de 2009.
O humor veio colaborar com a compreensão desta e de crises financeiras anteriores. Com ironia, o humorista gráfico espanhol, conhecido como El Roto, fez uma ilustração na qual um banqueiro diz: “A operação foi um sucesso: fizemos parecer uma crise o que não passou de um saque”.

Tradução: Katarina Peixoto

Postado: Carta Maior

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Crise grega ou crise da UE

Maio 2010 – Postado: Diário Liberdade

Roberto Laxe

Roberto Laxe

Existe un aforismo que é preciso ter en conta para calquer analise dunha realidade onde misturase feitos con propaganda, declaracions cara a galeria con politicas reais, e é que toda gran mentira ten un chisco de verdade; senon a mentira seria incredible.

O chisco de verdade en todo isto, na crise grega, na española ou na irlandesa… é que xunto cos datos da realidade (elevado deficit e debeda, taxas de desemprego desbocadas, etc.) o sector máis especulativo do capital esta a "xogar" cos riscos e os tipos de xuro dos países que teñen mais problemas na Union Europea. Iso é totalmente certo, os rumores fan parte das decisions nas bolsas, e os fabricantes de rumores estan moi interesados nese xogo.

Este é o elemento que utiliza o goberno para defender as suas políticas, e para defenderse dos ataques, reais ou ficticios, contra a estabilidade monetaria española.

Mas, tras ista verdade o que se agocha é algo moito máis profundo: porqué os especuladores podem xogar ao xogo de presionar a istos paises co gallo do seu deficit ou a súa debeda. E porque tanto as burguesías como os gobernos asustanse tanto, aceptan facer plans de choque que levan aos paises cara a recesion: en Grecia é o plan da UE quen esta abocando ao país a entrar en recesion. É a burguesia imperialista europea quen vai provocar un retroceso dun 3% no PIB grego, porqué?.

E non so iso, ameazan a estados mais grandes que Grecia ou Portugal, os especuladores apuntan tamen ao Estado Español e mesmo Italia. Cuestionan diste xeito, partes centrais da Union Europea, ainda que non o seu corazon, a Alemaña e a Francia. Qué gañan con este debilitamento de partes importantes da Union Europea, e da sua moeda, o euro.

Dicia Conan Doyle no seu persoaxe Sherlock Holmes, que se queres saber quén é o responsable dun crime, busca quen sae beneficiado do mesmo.

Do debilitamento do euro, o primeiro beneficiario é a burguesia aleman, que ate ha poucos meses era a primeira potencia exportadora do mundo (agora é China), e que cun euro forte as suas exportacions debilitabanse. Mas existe outro beneficiario, os EE UU, pois nos ultimos anos via como a sua capacidade de endebedamento baixaba a mesmo ritmo que o dólar perdia control de sectores do mercado mundial. Agora mesmo o 25% do comercio mundial xa se fai en euros, e moitos paises estan pasando parte das suas reservas de divisas á moeda europea (China á cabeza); e isto é un desastre para a economia com máis debeda do mundo, a ianqui.

Mentras o mundo ía sobre rodas coa taxa de ganancia ou os lucros pola especulacion, daba para todos, non existia problema irresolubel. Competian, si, mas, sen que a sangue chegara o rio.

Mas estoupou a crise, a taxa de ganancia caeu por baixo da rendabilidade dos investimentos, a especulacion deixou de ser o balon de oxixeno, pois baseabase nunha capacidade de creto e compra que xa non existe, é dicer, a tarta xa non chega para todos; enton desatase a guerra comercial, financieria, monetaria,… (a guerra por outros medios non esta na orde do día, polo momento). É o salvese quen poda, e cada un salvar os seus investimentos.

A burguesia aleman, principalmente, sendo como é a mais poderosa da Union Europea, impon as súas condicions, que non son outras que as aprobadas no Tratado de Maastricht: o limite do 3% no deficit publico, a debeda publica inferior ao 60% do PIB…. da taxa de inflacion non se preocupan, pois o risco nesta crise é a deflacion. Tanto lle ten que estos limites sexan os criterios para o xogo especulativo: os especuladores son xogadores de casino, os limites de Maastricht (o seu cumplimento ou incumplimento) é o risco que asumen coa xogada, e as axencias de cualificacion, os crupiers.

Os limites impostos ás economias no Tratado fundacional da Union Europea foron acordados nunhas condicions economicas moi diferentes ás de agora: restauracion capitalista no leste, recolonizacion, expansion da "revolucion" tecnoloxica (internet, Pcs á esgallo, informatizacion masiva da economia, etc.), neoliberalismo e privatizacions masivas nos 80 e sobre todo nos 90, destruccion das conquistas da clase traballadora.

Hoxe, a restauracion xa rematou e o unico que existe no mundo é capitalismo, a recolonizacion bate contra procesos como o venezuelano ou o ALBA, a revolucion tecnoloxica chegou o seu teito (a crise das .com a comezos de seculos foi o aviso), e xa non queda que privatizar salvo nalguns países da "vella" Europa. As conquistas dos 60 da clase traballadora xa non existen mais, salvo algunhas na "vella" Europa.

Este é o problema. O Tratado de Maastricht que sirviu para construir unha Union Europea neoliberal, serve agora para rematar o traballo privatizando o pouco que queda no Estado -ista é a esencia da campaña contra o deficit, por iso o limite do 3% sirvelles para ameazar ás poboacions: ou admites a privatizacion, é dicer a conversion en negocio o que ate ao de agora é servizo, ou pecho-, e atacando as conquistas da clase traballadora.

A loxica dun sector da burguesia de toda Europa, a que vai quedar fora de xogo se desde os poderes centrais da Union, presionase moito é a de saírse da UE.

Para todos, ate o de agora, a UE éra a taboa de salvacion, o balon de oxixeno, que, mal que ven, permitialles facer parte da acumulacion de capital dun bloque imperialista. Mas, agora que non ha para todos, van comezar a rexurdir as tendencias "separatistas", ultranacionalistas: a culpa ou é da Union Europea, do euro (co que todos eles estaban moi contentos, non fai tanto tempo), ou dos imigrantes; ou dos dous ao mesmo tempo, como unha maneira de desviar o obxectivo: o problema esta nun tipo de union europea feita baixo os criterios de Maastricht, a Union Capitalista Europea.

E digo isto, porque hoxe, co capitalismo que hoxe temos, é impensable outra union burguesa que non sexa a de Maastricht. Maastricht non é neoliberal, é a expresion "xuridica" do capitalismo deste tempo que tocounos viver. Por iso, gobernos aparentemente non neoliberais como o de ZP asustanse coas manobras especulativas, e admiten a sua presion; se ate un dirixente "sindical" como Toxo, no 1º, fixo eixo no creto. Nas suas palabras a saída crise pasa por que "haxa creto"; é dicer, que a xente, que xa debe ata a camisa, colla máis debeda, que a pequena e mediana empresa, que o gandeiro ou o labrego, pidan diñeiro aos bancos. A receita de Toxo é a receita dun neoliberal con titulo de sindicalista.

Para todos os representantes do sistema, politicos progresistas, sindicalistas de salon, etc., as fronteiras estan nos limites impostos en Maastricht. Fora del non ha vida.

A crise grega en realidade é a crise un modelo de union europea que non ten que ver coa verdadeira unidade que precisa Europa.

Os gregos colgaron o outro día unha faixa na Acropolis baixo o lema: pobos de Europa, alzade-vos. E situan perfectamente o problema.

As folgas xerais gregas contra os plans da UE baten directamente contra a aplicación dos limites impostos polo Tratado de Maastricht: reducir o deficit ao 3% e a debeda ao 60%, e para iso se teñen que vender illas do Exeo, que as vendan; mas que comecen privatizando, conxelando…

Grecia é o que lle reservan a todos paises de Europa (e que non se pensen os alemans o franceses que non lles vai tocar), é o campo de probas. A especulacion como xustificacion deu resultado, agora estan probando co Estado Español. Asustan aos gobernos con datos para xerar na poboacion a sensacion de que os limites de Maastricht son leis da vida, leis da natureza, contra as que non se pode loitar.

E teñen que asustar a gobernos como o español, o grego ou o portugués, porque son gobernos que din representar á clase traballadora, "socialistas", que prometen non tocar as conquistas sociais, que a sua base electoral e social esta xusto na clase traballadora (a un Sarkozi, un Berlusconi, ou Aznar/Rajoy non lle tremaria a man porque a sua base social é outra ben distinta, a que pide man dura, disciplina -Aznar dixit-, despido libre e gratuito-nin 33 dias quere a CEOE-); mentras baixo man van facendo a mesma politica que os outros. Mas precisa "xustificarse": non podemos facer outra cousa, senon os "mercados" van a por nós.

Hoxe, a crise, e a loita contra a crise esta no campo de xogo de Europa, da Union Europea. Foron eles coas suas manobras especulativas, cos seus plans de resgate, cos seus plans de choque, os que sacaron a necesidade da resposta das fronteiras estatais. E asi temolo que asumir.

Os limites de Maastricht, a Union Europea é o inimigo a batir. A palabra de orde dos gregos, "pobos de Europa, alzade-vos", ten que marcar as axendas da esquerda europea. Fronte a os plans da Union Europea, por unha saída obreira e popular da crise a nivel Europeo.

Os gregos non so enfrentan o seu goberno, enfrentan o noso, o aleman, o francés, … á Union Europea. Por iso, a crise non é a crise de Grecia, senon a crise da Union Capitalista Europea, e os gregos sós non van derrotar uns planos economicos e politicos que desbordan as súas fronteiras, precisan da unidade da clase traballadora europea.

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Greve Geral na Grécia: milhares tentam assaltar Parlamento burguês

Grécia - Laboral/Economia

Quarta, 05 Maio 2010

Postado: Diário Liberdade

 

grecia01 DL - Três pessoas terám morrido durante a jornada de luita popular contra o capitalismo e a sua crise na Grécia, primeiro Estado do centro capitalista a mostrar sintomas claros de falência.

As agências da burguesia informam da morte de três pessoas no incêndio de um banco no centro de Atenas, dentro da terceira jornada de greve geral dos últimos meses. Milhares de trabalhadoras e trabalhadores marchárom em manifestaçom em direcçom ao Parlamento burguês, cortando o tránsito e fazendo frente à dura violência policial.

As massas terám tentado repetidamente invadir o Parlamento, quando os deputados se aprontavam a debater novas agressons legais contra os direitos da maioria, no contexto da falência do sistema capitalista na Grécia.

A polícia do regime conseguiu evitar a queda do parlamento com disparos de bombas de gaś lacrimonéneo, enquanto o povo gritava "assassinos" à força repressiva e apelava à queima do Parlamento, em protesto polas contínuas reduçons de salários e pensons no contexto da profunda crise dos sistema chamado "de livre mercado".

Ao menos três prédios bancários terám sido incendiados durante a luita no centro da capital, numha marcha em que participárom entre 30.000 e 40.000 pessoas, no maior protesto desde o início da actual crise, no fim do ano passado.

A greve de hoje paralisa o funcionariado público e privado, os transportes terrestres, marítimos e aéreos e o comércio do país helénico. A participaçom nom é menor de 80%.

Entretanto, o primeiro-ministro George Papandreou continua a propor novas medidas de "austeridade" contra a maioria do povo, como a elevaçom generalizada do IVA, respeitando em simultáneo os privilégios da classe dominante.

Inclusive as informaçons divulgadas polas agências de notícias oficiais som indicativas, apesar da sua parcialidade pró-burguesa, dá ideia da dimensom das luitas que protagoniza hoje o povo grego.


 

BBC News

050510_grecia02 Pelo menos três pessoas morreram em um incêndio em um banco no centro de Atenas, em meio a confrontos entre a polícia e manifestantes nesta quarta-feira, segundo bombeiros.

Agências de notícias dizem que o incêndio teria sido provocado por coquetéis molotov jogados por manifestantes.

Cerca de 100 mil pessoas foram às ruas da capital grega nesta quarta apoiar uma greve geral em protesto contra o pacote de austeridade do governo grego, que prevê cortes de gastos e aumento de impostos.

Uma passeata que passou por diversos pontos da cidade teve momentos de tensão em frente ao Parlamento.

A polícia respondeu com bombas de gás lacrimogêneo quando cerca de 50 pessoas tentaram chegar perto do Parlamento.

Segundo a agência de notícias AP, manifestantes atiraram coquetéis molotov contra a polícia e em prédios. Pelo menos dois prédios pegaram fogo. Centenas de pessoas estiveram envolvidas em confrontos diretos com policiais.

É a terceira greve geral dos últimos meses, convocada por funcionários públicos e do setor de transportes.

Todos os voos internacionais foram suspensos a partir das 0h00 locais (18h de terça-feira em Brasília), enquanto trens e balsas permaneceram parados.

Escolas, hospitais e muitos escritórios estão fechados em todo o país. Funcionários públicos e professores já haviam cruzado os braços desde o meio-dia de terça-feira.

Pacote

050510_grecia03 As medidas de austeridade anunciadas pelo governo no último domingo fazem parte de um acordo com a União Europeia e o FMI por um pacote de ajuda de 110 bilhões de euros, e vêm provocando revolta entre os cidadãos gregos.

Entre elas estão o congelamento de salários dos funcionários públicos, o corte dos fundos de pensão e o aumento de impostos.

O Parlamento grego deve votar as medidas até a sexta-feira.

O objetivo é reduzir o orçamento em 30 bilhões de euros nos próximos três anos, com a meta de cortar o déficit orçamentário grego para menos de 3% do PIB até 2014. O déficit atual do país é de 13,6% do PIB.

Ainda nesta quarta-feira, o Parlamento da Alemanha começa a decidir se aprova ou não o plano de ajuda da UE à Grécia.

A chanceler Angela Merkel deve defender sua decisão de participar do pacote, que vai exigir que a Alemanha pague a maior parte do empréstimo.

Contágio
As preocupações com a economia grega e seu impacto na zona do euro voltaram a derrubar as bolsas na terça-feira nos Estados Unidos e na Europa.

O euro caiu para o menor nível em 13 meses em comparação ao dólar, para US$ 1,3004, e chegou a ficar abaixo de US$ 1,30 durante o dia.

Nos Estados Unidos, as bolsas tiveram o pior desempenho em três meses. O índice Dow Jones despencou 2%, e a Nasdaq teve queda de 2,98%.

Na Europa, o índice FTSE 100 da bolsa de Londres fechou o pregão em baixa de 2,56%; em Paris, o CAC 40 encerrou o dia em -3,6% e na Alemanha, o índice DAX registrou baixa de 2,60%. O principal índice da bolsa de Atenas fechou em -6,7%.

Seguindo a tendência internacional, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou o pregão em baixa de 3,35%, em 64.869 pontos.

 

À espera de novidades na jornada de luita grega, oferecemos alguns vídeos da mesma:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Declaração de partidos de esquerda da Europa sobre a crise

03/05/2010
Declaração sobre a crise europeia

A crise econômica global continua. Enormes quantidades de dinheiro foram injetadas no sistema financeiro – US$ 14 bilhões para as medidas de salavação nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e zona do euro, US$ 1,4 bilhões no ano passado para novos empréstimos bancários na China -, tantos esforços para aportar uma nova estabilidade à economia mundial. Mas se esses esforços serão suficientes para produzir um reestabelecimento durável, a questão está aberta. O crescimento segue sendo muito débil nas economias avançadas, enquanto a greve segue aumentando. Existem temores de que está se formando uma nova bolha financeira, desta vez, centrada na China. O caráter prolongado da crise – a mais grave desde a Grande Depressão – é sintoma do fato de que suas raízes se fixam na própria natureza do capitalismo como sistema.

Depois de um severo aumento nas demissões, agora na Europa o foco da crise está no setor público e no sistema de proteção social. Os mesmos mercados financeiros que têm sido salvos graças aos planos de ajuda agora estão em pé de guerra contra o aumento da dívida pública que tais planos causaram. Pedem reduções massivas nos gastos públicos. Essa é uma tentativa com caráter de classe para fazer pagar os custos da crise, não para quem a provocou – em primeiro lugar, os bancos -, e sim aos trabalhadores. Não só aos empregados no setor público, e sim também a todos os usuários dos serviços públicos.

A Grécia está atualmente no olho do furacão. Como tantas outras economias europeias, a grega é particularmente vulnerável, em parte por ter acumulado dívidas durante a fase de expansão, em parte por que é incapaz de rivalizar com a Alemanha, o gigante da zona do euro. Sob a pressão dos mercados financeiros, da Comissão Europeia e do governo alemão, o governo de Georgios Papandréou abandonou suas promessas eleitorais e anunciou cortes que equivalem a 4% do produto nacional.

Afortunadamente, a Grécia possui uma história rica em resistências sociais desde os anos 1970. Após a revolta da juventude, em dezembro de 2008, o movimento operário grego tem respondido ao pacote de cortes governamentais com uma série de greves e manifestações. Saudamos também o exemplo de referendo na Islândia, no qual o povo rechaçou a proposta de repagar a dívida imposta pelos bancos.

Os trabalhadores gregos necessitam das solidariedades revolucionárias, de sindicalistas e anticapitalistas de todos os países: a Grécia é o primeiro país europeu a se encontrar no alvo dos mercados financeiros, mas sua lista de objetivos potenciais compreende muitos mais, em primeiro lugar os Estados espanhol e português.
Precisamos de um programa de medidas que possam tirar a economia da crise com base numa prioridade das necessidades sociais, mais que benefícios, e que emponha um controle democrático de mercado. Devemos lutar por uma resposta anticapitalista: nossas vidas, nova saúde, nossos empregos valem mais que seus benefícios.
- Todos os cortes nos gastos públicos internos devem parar ou ser revertidos: não às “reformas” dos sistemas de aposentadoria, de saúde e de educação, que não se vendem;
- Garantia do direito a emprego e programa de criação de empregos públicos verdes: transportes limpos, indústrias de emergias renováveis e adaptação dos edifícios públicos e privados para reduzir as emissões de dióxido de carbono;
- Criação de um sistema bancário e financeiro público unificado sob controle popular;
- Imigrantes e refugiados não devem ser tidos como os culpados pela crise;
- Não aos gastos militares: retirada das tropas ocidentais de Iraque e Afeganistão, reduções massivas de gastos militares e dissolução da Otan.

Decidimos organizar atividades de solidariedade por toda a Europa contra as reduções de investimentos sociais e os ataques capitalistas. Uma vitória dos trabalhadores gregos reforçará a resistência social em todos os países.

Grécia: Aristeri Anasynthes, Aristeri Antikapitalistiki Syspirosi, Organosi Kommuniston Diethniston Elladas-Spartakos, Sosialistiko Ergatiko Komma, Synaspismos Rizospastikis Aristeras
Alemanha: Internationale Sozialistische Linke, Marx21, Revolutionär Sozialistischen Bund
Áustria: Linkswende
Bélgica: Ligue Communiste Révolutionnaire – Socialistische arbeiderspartij
Chipre: Ergatiki Dimokratia
Croácia: Radnička borba
Espanha: En lucha/En lluita, Izquierda Anticapitalista, Partido Obrero Revolucionario
França: Nouveau Parti Anticapitaliste
Grã-Bretanha: Socialist Resistance, Socialist Workers Party
Holanda: Internationale Socialisten, Socialistische Arbeiderspartij
Itália: Sinistra Critica
Irlanda: People Before Profit Alliance, Socialist Workers Party
Polônia: Polska Partia Pracy, Pracownicza Demokracja
Portugal: Bloco de Esquerda
Rússia: Vpered
Suíça: Gauche Anticapitaliste, Mouvement pour le Socialisme /Bewegung für Sozialismus, Solidarités
Turquia: Devrimci Sosyalist İşçi Partisi, Özgürlük ve Dayanışma Partisi

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Grécia: Nova greve geral marcada para quarta-feira

Esquerda grega apela a uma mobilização europeia contra o ataque conduzido pela finança europeia. Principais centrais sindicais avançam para uma greve geral na próxima quarta-feira. Depois de um Primeiro de Maio em que os gregos disseram nas ruas que não aceitam ser as vítimas do plano de austeridade imposto pela finança europeia, as principais centrais sindicais avançam para uma greve geral na quarta-feira enquanto se mantêm protestos contínuos, apesar da repressão policial. O partido Sinapismos e a coligação de esquerda Syriza exigem a convocação de um referendo sobre as medidas e lançam um apelo a uma acção coordenada de resistência em toda a Europa porque se os gregos são hoje as vítimas, "amanhã serão todos os povos europeus". A esquerda unitária no Parlamento Europeu, GUE/NGL, apela à solidariedade com o povo grego e apoia a greve geral: "Não vamos pagar a crise dos patrões".

O Banco Central Europeu, o FMI e os governos dos países da Zona Euro aprovaram domingo o chamado "plano de resgate", também chamado de "ajuda financeira" à Grécia para que o governo deste país consiga reduzir o défice público dos 8,1 por cento calculados para final deste ano até 2,6 por cento em 2014. Um "tratamento de choque" segundo a linguagem mediática de inspiração tecnocrática que permitirá ao executivo do socialista Papandreu recorrer a 110 mil milhões de euros em três anos - 30 mil milhões por conta do FMI e respectivas exigências e 80 mil milhões da responsabilidade dos países da Zona Euro distribuídos proporcionalmente de acordo com a importância de cada um no Banco Central Europeu. Portugal, cuja qualidade de crédito foi mais uma vez rebaixada pelas empresas de rating, terá de contribuir, através dos seus cidadãos, com dois mil milhões de euros.

A aplicação das "medidas de austeridade" impostas aos gregos por conta deste dinheiro serão fiscalizadas de três em três meses pelos emprestadores. Os mercados não tiveram qualquer reacção especial a estas decisões, mantendo-se "desconfiados", segundo os peritos, enquanto a chanceler alemã, Angela Merkel, afirma que a "solução" para a Grécia não pode ser encarada como um "precedente" em relação a outras situações que venham a registar-se.

As medidas impostas pelos financiadores - e que o primeiro ministro grego se recusa a debater até no próprio Parlamento onde tem uma confortável maioria absoluta - formam um pacote amplo que atinge especialmente as classes média e baixa. Entre elas figuram a subida do IVA de 21 para 23 por cento, aumentos de 10 por cento dos impostos sobre combustíveis, álcool e tabaco, idade de reforma aos 65 anos, impossibilidade de abandonar o trabalho antes dos 60 anos, congelamento dos salários da função pública até 2014, eliminação dos subsídios de férias e 14º mês a partir dos três mil euros e redução a mil euros nos casos dos salários inferiores, privatizações em vastas áreas de serviços públicos, reduções significativas dos investimentos na rede hospitalar e serviços de saúde. Com estas medidas, adoptadas das recomendações de índole neoliberal, o governo calcula aforrar 30 mil milhões de euros até 2012, além de 10 mil milhões como "reserva de estabilidade para garantir a solvência do sistema bancário".

Devido a esta "terapia de choque", a economia deverá contrair-se quatro por cento este ano, contra os 0,3 por cento anteriormente previstos, o que significará uma estagnação de actividade que afectará ainda mais os mais desfavorecidos. A vaga de privatizações provocará efeitos negativos suplementares pois suscitará fortes aumentos de preços em serviços que são utilizados sobretudo pelos estratos populacionais com os salários congelados. O desemprego vai continuar a crescer em elevado ritmo, o que é reconhecido pelo governo ao estabelecer uma taxa que permite às empresas realizarem despedimentos periódicos desde que não sejam superiores a dois por cento da força de trabalho.

Depois dos últimos agravamentos das medidas de combate ao défice o governo perdeu um dos argumentos que mais utilizava na propaganda: o de ter as sondagens a seu favor.

A situação inverteu-se. Mais de metade da população diz-se disposta a sair às ruas para defender os direitos afectados por estas medidas e mais de 61 por cento estão agora contra as práticas governamentais.

As centrais sindicais ADEDY, do sector público, e GSEE, do sector privado, convocaram uma greve geral para quarta-feira na sequência de manifestações muito fortes no Primeiro de Maio e que transmitiram a certeza de que os gregos não estão dispostos a aceitar esta ofensiva sem lutar por caminhos alternativos contra a crise.

Enquanto abundam os sinais de que pode vir a existir uma vaga de emigração em massa do país, manifestações sectoriais mantêm-se desde o fim de semana, prevendo-se ainda que as acções da polícia contra grupos radicalizados possam gerar uma instabilidade susceptível de expandir o clima de animosidade.

A esquerda unitária no Parlamento Europeu, grupo GUE/NGL, emitiu uma declaração apoiando a greve geral na Grécia e apelando à solidariedade em toda a Europa. "Não vamos pagar pela crise dos patrões", afirma. "Enquianto os governos europeus estão divididos quanto ao modo como lidar com a crise na Eurozona, que se aprofunda, estão unidos sobre quem deve pagar a crise", acrescenta. O GUE/NGL sublinha que "os trabalhadores gregos estão a ser alvos de ataques selváticos contra a sua qualidade de vida; os trabalhadores em Portugal, Espanha e Irlanda enfrentam semelhantes ataques, bem como os trabalhadores em toda a Europa".

"Apelamos a uma posição unida dos trabalhadores através da Europa", afirma o GUE/NGL, "para responder ao FMI, aos mercados financeiros internacionais e aos políticos neoliberais da Europa com a declaração: Não vamos pagar a crise".

"Há outros caminhos"

Numa carta dirigida ao presidente do Partido da Esquerda Europeia, o partido grego Synapismos e a coligação de Esquerda Syriza advertem que as medidas impostas são "uma escolha desastrosa para a Grécia e traduzem desenvolvimentos negativos para todos os povos da Europa" traçados pelas "forças dominantes na Europa dirigidas pelo sistema financeiro europeu, pelo Banco Central Europeu e pelo governo alemão de Angela Merkel em colaboração com o governo grego de Papandreu".

"O povo grego vê-se agora obrigado a pagar os custos de uma crise pela qual não têm qualquer responsabilidade", pelo que o Sinapismos e a coligação Syriza defendem outras opções. Entre elas, sublinha-se na carta, a convocação de um referendo para que os gregos possam pronunciar-se sobre a situação; e também a definição de "medidas de acção e colaboração" europeias de apoio ao povo grego que deverão ter ainda em conta a necessidade de "desenvolver lutas através da Europa contra o ataque de que o nosso povo é vítima hoje e de que todos os povos da Europa poderão ser vítimas amanhã".

Alexis Tsipras, presidente do Sinapismos e da coligação Syriza, assegura na carta que "os trabalhadores gregos assumem agora o importante dever de resistir a estas decisões, em nome das gerações futuras, em nome dos trabalhadores e povos da Europa".


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu

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