Arquivo de Para endender a Crise Mundial

Terceira etapa da grande crise: a Grécia em toda parte

À sombra da crise financeira, floresce sobretudo na Europa o negócio com a dívida pública. Os Estados são os melhores devedores que um credor pode desejar. A lógica é perversa e beira o surrealismo. Nos últimos meses, o Banco Central Europeu inundou os bancos europeus com créditos baratos, negando-se ao mesmo tempo a emprestar dinheiro a Estados membros em dificuldade. Os bancos europeus – a começar pelos alemães – tomaram empréstimos do BCE a juros ínfimos para oferecê-los como empréstimos ao Estado grego com taxas de juro elevadíssimas. Ao mesmo tempo, como resposta à crise, propõe novas "reformas" neoliberais. O artigo é de Michael Krätke

Michael Krätke - Sin Permiso

Postado: Carta Maior

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Como era previsível, à crise bancária e financeira não tardou em seguir a crise econômica mundial. E a elas vem somar-se agora a crise das finanças públicas, terceira etapa da Grande Crise. Dívida, culpa e expiação, uma luta encarniçada: os cidadãos devem subsidiar o generoso resgate dos bancos. As dívidas públicas ampliadas aceleradamente são usadas para alimentar essa lógica. Alguns pequenos povos – os islandeses no Norte, os gregos no Sul – tentam resistir a este absurdo dominante e se negam a pagar pela crise. Do dia para a noite, as dívidas de terceiros se converteram em problema de todos.
De acordo com as últimas cifras do FMI, cinco dos Estados do G-8 têm um déficit público superior a 100% do PIB, com o Japão (200%) liderando esse ranking. Alemanha e Canadá, até aqui, estão abaixo do patamar dos 100%. Já os membros da União Européia – Espanha, Portugal, Itália e Grécia – estão beirando esse limite ou já o ultrapassaram. Nunca antes em tempos de paz o déficit público havia subido de maneira tão extrema nos países capitalistas desenvolvidos como vem ocorrendo agora desde o início da crise financeira mundial, no final de2007.
Somente em 2009, os títulos de obrigações emitidos pela República Federal da Alemanha cresceram até alcançar a cifra de 1,6 trilhão de euros. Só em 1995, quando se fizeram sentir de verdade pela primeira vez os custos da reunificação, o salto da dívida pública alemã registrou um salto maior. Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o nível médio dos déficits públicos chegou a alcançar cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e, em poucos anos, poderia rebaixar de maneira generalizada a marca dos 100%. A Grécia está em todas as partes.
Os economistas estão fortemente divididos em matéria de dívida pública. Um Estado que contrai pouca dívida pública compromete o futuro; um Estado com demasiados credores arruína a economia nacional. Na Alemanha, como em todos os países governados por neoliberais, impera o dogma segundo o qual as dívidas públicas são um mal em si mesmas, levam à inflação, a uma carga fiscal exorbitante e à bancarrota do Estado. Tentam fazer esquecer, contando para isso com todo o poder dos meios de comunicação, a conexão entre crise financeira, socorro bancários e explosão da dívida pública. Em troca, entoam a cantilena do arrocho e dos cortes com o refrão do “Estado social insustentável”.
Não há razão para o pânico. Nenhum Estado europeu tem que ir à falência. Tampouco os gregos devem devolver esses quase 300 bilhões de euros (cerca de 130% de seu PIB), mas sim devem limitar-se ao refinanciamento regular, isto é, ir substituindo regularmente as velhas dívidas por dívida nova. Em princípio, isso não deveria representar o menor problema. O Estado, dotado de monopólio fiscal e monetário, é o melhor devedor. Ao contrário dos grandes bancos, só pode quebrar quando toda a economia nacional está arruinada. Mas, apesar da crise, isso não pode ocorrer em nenhum lugar da União Européia.
Quanto mais crescem as dívidas dos Estados, mais se coloca dívida pública em alguns mercados financeiros que, em geral, estão ávidos em comprá-las, inclusive com ganhos de cotização, porque os empréstimos oferecidos estão super valorizados. Nem a Grécia teve problemas no início do ano para colocar o triplo da dívida nos mercados financeiros. No conjunto da União Européia, emitiram-se em 2008 mais de 650 bilhões de euros de dívida pública. Em 2009, foram mais de 900 bilhões. Em 2010, segundo as estimativas mais prudentes, esse valor chegará a 1,1 trilhão de euros.
O conjunto dos Estados da União Européia já tem mais de 8 trilhões de dólares inscritos como dívida pública. Os EUA os acompanham com mais de 2,3 trilhões de dólares de dívida pública fresca. O negócio com os títulos de dívida pública floresce como nunca. Por que, então, a inquietude nos mercados financeiros? Por que a repentina preocupação com as dívidas da Grécia, Itália, Espanha, Portugal ou Irlanda? De onde vem o medo de uma bancarrota pública na qual, manifestamente, os mercados financeiros não acreditam nem um pouco? Agora como antes, os pacotes de dívida pública grega, espanhola e portuguesa são comprados com pães quentes saídos do forno; são tão desejados quanto os títulos públicos alemães. Naturalmente, com suculentas cobranças pelo risco, o que torna ainda mais rentável o negócio com esses pacotes.
A dívida pública é mais velha que o capitalismo moderno. A bancarrota do Estado foi outrora – antes do descobrimento do déficit público permanente – um meio bm provado de que se serviam os governantes para submeter seus credores, que se vingavam com juros exorbitantes. Em nossos dias, a falsa demagogia sobre os perigos da bancarrota pública é um meio sumamente efetivo de submeter governos, povos e nações pretensamente soberanos aos interesses dos mercados financeiros. Se o crédito de um Estado é posto efetivamente em dúvida, isso serve sobretudo aos credores e, hoje em dia, a regra geral é que os credores não são outros Estados, mas sim investidores privados, bancos, companhias seguradoras e fundos. Uma parte considerável da riqueza de uma nação vai parar em seus bolsos.
As meras taxas de déficit e de dívida pública pouco dizem sobre o risco efetivo do devedor. Obviamente, os leigos em economia que formam a classe política adoram essas taxas, porque elas desviam a atenção das verdadeiras debilidades da economia nacional (por exemplo, no caso da Alemanha, a extrema dependência das exportações). Também se simplificam de muito bom grado os tipos de juros, a relação entre as receitas fiscais anuais e os juros pagos anualmente. Quando, como ocorre agora na Grécia, as receitas fiscais caem, então os tipos de juros sobem rapidamente até 30 ou 40%. Quando isso ocorre, ou seja, quando o serviço da dívida gera um rombo no orçamento público, o país afetado cai, efetivamente, na armadilha devedora. Para evitá-la é preciso reduzir a carga de juros. Uma comunidade como a formada pelos euro-países poderia conseguir isso de maneira mais simples, fortalecendo a credibilidade de um membro como a Grécia sem necessidade de aumentar a pressão de sua dívida pública. Com isso, seriam desfeitas todas as necessidades populistas de Merkel e companhia.
Foram e seguem sendo os bancos – no caso, os europeus – os compradores da dívida pública grega, os controladores da mesma e os principais responsáveis por sua crise financeira: seguradoras e institutos bancários franceses, suíços e alemães são os principais credores, seguidos de longe por bancos britânicos e estadunidenses. Os bancos portugueses possuem quase tanta dívida pública grega quanto os dos EUA.
Não resta dúvida: os déficits públicos podem ser enxugados com uma vigorosa inflação que desvalorize os títulos da dívida e reduza os juros nominais que o Estado tem que pagar por esses títulos. Mas, para ajudar no curto prazo, a inflação teria que ser galopante. Apesar de uma dívida pública crescente em escala planetária, isso é agora praticamente impossível, pois, dado que existem supercapacidades estruturais em praticamente todos os ramos da economia, os preços podem apenas levantar a cabeça. Por ora, o impulsionador dos preços é o Estado e algumas grandes corporações empresariais capazes de controlar a energia e os recursos. E isso não basta para uma hiperinflação.
Que saída resta então? Pois bem, por uma vez só e para variar um pouco, por que não proceder com bom juízo em vez de adotar zelo dogmático e tendência populista? Seria possível ajudar o povo grego de modo simples e efetivo sem aumentar um centavo a dívida pública do país. Por exemplo, com eurobônus ou créditos do Banco Central Europeu (BCE). Bastaria agarrar-se à regra extraordinária que permite que os bancos centrais da Zona Euro aceitem dívida pública e obrigações da Grécia e de outros países.
Para evitar crises deste tipo no futuro faria mais sentido mudar as regras. Não tem nenhuma lógica econômica que os estatutos do BCE proíbam comprar e possuir dívida pública dos países membros da Zona do Euro. Conforme essa regra absurda, o BCE inundou nos últimos meses os bancos europeus com créditos baratos, negando-se ao mesmo tempo a emprestar dinheiro a Estados membros. Ao invés disso, os bancos europeus – a começar pelos alemães – tomaram empréstimos do BCE a juros ínfimos para oferecê-los como empréstimos ao Estado grego com taxas de juro elevadíssimas. Bonito negócio. Ackerman (1) e companhia estão fascinados.
Não se trata só de necessidade; a coisa tem método. Com o medo da bancarrota pública e a ameaça de um caos monetário em caso de queda do euro, promovem-se novas “reformas” neoliberais. Na Espanha, Itália, Portugal e Inglaterra; a ordem do dia é a aposentadoria aos 67 anos. Em toda parte elas impõem aos cidadãos comuns - não aos proprietários de capital e de patrimônio – drásticos aumentos de impostos. Por toda parte se cortam serviços públicos, se reduz o setor público. Impulsionada agora pela situação de suposta emergência financeira do Estado, avança-se irresponsavelmente na privatização da propriedade pública. Os gregos são massacrados, os portugueses são torrados; as facas contra a Espanha perfilam-se com zelo digno da melhor causa. De te fabula narratur (A história fala de ti).
(1) Josef Ackerman é o presidente executivo do Deutsche Bank, o principal banco privado alemão.
(*) Michael R. Krätke, membro do Conselho Editorial de Sinpermiso, é professor de Política Econômica e Direito Tributário na Universidade de Amsterdan, investigador associado ao Instituto Internacional de História Social dessa mesma cidade e catedrático de Economia Política e diretor do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster, na Inglaterra.
Tradução: Katarina Peixoto

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Marx e as crises - Daniel Bensaïd

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Este texto constitui a primeira parte da introdução de Daniel Bensaïd à recolha de textos de Marx sobre as crises publicada por Demopolis: ‘Karl Marx, As Crises do Capitalismo’, Demopolis, Paris, Junho de 2009.

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A proeza de Marx, contemporâneo da primeira grande expansão bancária dos anos vitorianos e do Segundo Império, é ter atravessado as aparências, a superfície confusa das coisas, para procurar no coração do sistema as razões da ausência de razões, a lógica do ilógico.

Quando, no início dos anos 50, ele se dedica ao grande estaleiro da crítica da economia política, falta-lhe, no entanto, recuo histórico para apreender plenamente os ritmos da economia e desmontar os seus mecanismos. O próprio Ricardo, escrevendo sobre as crises de 1815, "não sabia, no fundo, nada sobre as crises". Os seus sucessores já não tinham as mesmas desculpas: "Os fenómenos posteriores, em particular a periodicidade quase regular das crises do mercado mundial, já não lhes permitem negar os factos ou interpretá-los como acidentais".

"O dinheiro grita o seu desejo"

"A crise inquieta-me de maneira infernal: Todos os dias, os preços baixam. Manchester afunda-se cada vez mais na crise.", escreve Engels a Marx a 17 de Dezembro de 1857. O seu entusiasmo perante a propagação da crise americana de 1857 é contagioso. As notas dos Manuscritos de 1857-1858 (ou Grundisse) testemunham-no. A crise surge sob a metáfora da loucura, mas de uma loucura que "domina a vida dos povos". As tendências esquizóides do sistema capitalista manifestam-se plenamente. A unidade aparente da mercadoria "fragmenta-se". O valor de uso e o valor de troca "dissociam-se" e "comportam-se de maneira autónoma um em relação ao outro". Toda a economia se torna delirante, "alienada", enquanto esfera autónoma tornada incontrolável.

O vocabulário clínico não tem aqui nada de fortuito: "No decurso das crises, quando o momento de pânico passou e a indústria estagna, o dinheiro está fixo nas mãos dos banqueiros, dos agentes de troca, e tal como o cervo brame a sua sede por água fresca, o dinheiro grita o seu desejo de um domínio onde possa ser valorizado enquanto capital.’ "[1] A sobre produção e a desvalorização do capital aparecem então como "a recordação repentina de todos os momentos necessários da produção fundada sobre o capital". Um regresso do recusado, em suma: a crise recorda à esfera (ou à bolha) financeira que ela não flutua por levitação, desligada daquilo a que hoje chamamos bizarramente "a economia real".

A condição de possibilidade das crises inscreve-se na duplicidade da mercadoria. Como todo o bom burguês, ela vive uma dupla vida. Por um lado, ela é tempo de trabalho abstracto materializado; por outro lado, é o resultado de um trabalho determinado. Para se comparar a outras grandezas de trabalho, ela deve "ser em primeiro lugar transposta em tempos de trabalho, ou seja, em qualquer coisa que difira qualitativamente dela". Esta "dupla existência" comporta em si mesma o risco permanente de uma cisão; Ela "deve necessariamente progredir até à diferença, a diferença até à oposição e à contradição entre a natureza particular da mercadoria enquanto produto [valor de uso] e a sua natureza universal enquanto valor de troca. "

Para Marx, a crise de 1857 coloca em evidência o divórcio entre o valor de uso do produto e o valor de troca expresso no dinheiro. É possível que a mercadoria já não possa ser "colocada em equação com a sua forma universal, o dinheiro". Instala-se então a discórdia entre produção e circulação. Compra e venda adquirem formas de existência "espacial e temporalmente distintas uma da outra, indiferentes uma à outra": "A sua identidade cessa imediatamente". A crise revela e conduz ao paroxismo esse mal-estar identitário. A busca da identidade perdida perante uma fuga em frente, seguida de separações dolorosas e de reencontros efémeros. Como numa canção de Jules y Jim, compra e venda perdem-se de vista e reencontram-se sem cessar: "Eles podem corresponder-se ou não se corresponder; eles podem coincidir ou não; A sua relação pode ser marcada por desproporções. Certo, eles procurarão constantemente igualizar-se, mas agora é o movimento contínuo da igualização que substitui a igualdade imediata anterior, igualização que, precisamente, pressupõe que seja continuamente criada uma não-igualdade. "

A crise de 1857 coloca em evidência o divórcio entre o valor de uso da mercadoria e o valor de troca expresso no dinheiro, que ameaça interromper a sua "convertibilidade. O perigoso salto do capital da forma de mercadoria para sua forma de dinheiro pode então torna-se mortal. O "germe das crises" está então presente no dinheiro enquanto "valor tornado autónomo", "forma de existência tornada autónoma do valor de troca" [2]. Esta autonomia engendra a ilusão de que o dinheiro possa multiplicar-se por partenogénese, crescer no circuito do crédito sem ser fecundado pela sua passagem pelo processo de produção.

Uma cisão nunca vem só. Aquela que divide a troca em actos independentes, de compra e de venda, refracta-se na divisão entre capital industrial, comercial e bancário: "o valor para a troca separa-se da troca por mercadorias". Marx entrevê então a ordem complexa das arritmias do capital: "Até aqui, só demonstrámos com evidência a indiferença recíproca dos momentos singulares do processo de valorização; que interiormente eles se condicionam, e que exteriormente se procuram, mas que eles podem ou não encontrar-se, separar-se ou não, corresponder-se ou não uns aos outros. A necessidade interna daquilo que forma um todo; e, ao mesmo tempo, a sua existência autónoma e indiferente, que já constitui a base das contradições. Mas, estamos longe de ter terminado. A contradição entre a produção e a valorização - na qual o capital constitui a unidade - deve ser apreendida de forma ainda mais imanente, como manifestação indiferente e aparentemente independente dos diferentes momentos singulares do processo, ou, mais exactamente, da totalidade de vários processos que se opõem. " [3]

A divisão propaga-se. A ordem descompassada da produção mercantil, onde o valor das coisas vira as costas à sua substância útil, range e empena por todas as partes. Não são mais do que queixas e lamentos, agonias e gemidos de corpos desarticulados: "A crise manifesta a utilidade dos momentos promovidos à autonomia relativamente uns aos outros. Não existiria crise sem esta unidade interna de elementos aparentemente indiferentes uns em relação aos outros. Ela não é mais do que a instalação violenta da unidade das fases do processo de produção, que se autonomizaram uma face à outra. É o estabelecimento pela força da unidade entre os momentos promovidos à autonomia e à autonomização pela força de momentos que estão essencialmente unidos". [4] A ordem do capital - mas não a harmonia social - deve então ser restabelecida pela violência e pela força. Isto é o que se obstinam em negar os economistas que se limitam à "unidade essencial" e ignoram o que torna os elementos do processo de conjunto estranhos uns aos outros, e hostis até à explosão.

Desequilíbrio lógico

Na passagem das Teorias sobre a mais-valia retomadas no presente volume, Marx reaborda e desenvolve a análise das crises e da sua recorrência, que tinha iniciado em Grundrisse. Ele opõe-se às teorias do equilíbrio, inspiradas no "insípido Jean-Baptiste Say", segundo as quais a sobre produção seria impossível, devido a uma identidade imediata entre a procura e a oferta. O princípio pelo qual "trocamos produtos contra produtos" garantiria, segundo ele, "um equilíbrio metafísico entre vendedores e compradores". Ricardo recorre a esta fábula de Say, segundo a qual "ninguém produz sem a intenção de vender ou de consumir, e ninguém vende sem ser para comprar uma outra mercadoria que lhe possa ser útil". Ao produzir, cada um tornar-se-ia "necessariamente quer consumidor da sua própria mercadoria, quer comprador ou consumidor das mercadorias de outrem". O ciclo seria então perfeitamente fechado; e o equilíbrio entre compra e venda, oferta e procura, assegurado.

O disfuncionamento não poderia então senão de uma falta de informação ligada à complexidade crescente do mercado. Ricardo contempla-o, mas tranquiliza-se de imediato: "Não poderíamos admitir que o produtor possa estar mal informado durante muito tempo sobre as mercadorias que pode produzir com o lucro mais alto", e "é portanto inverosímil que ele possa produzir duravelmente uma mercadoria para a qual não existe procura". Em suma, o mercado seria um informador perfeito. Mais próximo de nós, este foi o argumento liberal de Friedrich Hayek em favor da concorrência livre e não falseada, tão cara aos arquitectos da União Europeia. A privatização da informação financeira e a invenção de produtos financeiros cada vez mais sofisticados, que apagam as pistas e confundem as mensagens, retiram fundamento a este mito. O mercado mostrou-se incapaz de suportar "o desafio informativo" ligado à micro finança. Constatando a impotência da comissão encarregue de vigiar os mercados americanos (a SEC, Securities and Exchange Commission) em desenredar as contas fabulosas de um Madoff, o seu antigo presidente, William Donaldson, admite que continua "por inventar" um "controlo adaptado a sistemas do mercado complexo".

É uma constatação de fracasso, em boa e devida forma, das pretensiosas "matemáticas financeiras" que nunca são, como bem escreve Denis Guedj, senão matemáticas mercenárias aplicadas à finança [5]. O seu modelo ‘Iraniano’, concebido para formalizar "efeitos de agitação média", é impotente para prestar contas "das situações de risco extremo que podem surgir nos mercados, de forma que eles não vêem as crises ou as falhas", lamenta Olivier Le Courtois, professor de finanças (!) na EML de Lyon. Nas situações extremas em que o sistema capitalista gera de forma recorrente o "imprevisto sábio" sobre o qual trabalham os calculadores de risco, transforma-se, com efeito, em "imprevisto selvagem".

Ricardo ainda podia crer na imparcialidade e na fiabilidade informativa do mercado, se não em tempo real, pelo menos a prazo, a longo prazo, a posteriori. Mas, e enquanto se espera? Entretanto, a cisão entre venda e compra permanece, e a "disjunção do processo de produção imediato e do processo de circulação desenvolve a possibilidade da crise". Esta possibilidade resulta do facto de as formas que o capital percorre no ciclo das suas metamorfoses (de dinheiro - A - a meios de produção - P - de meios de produção a mercadorias - M -, e de mercadorias a dinheiro) "poderem ser, e serem, separadas". Elas "não coincidem no tempo e no espaço". E mais ainda com a mundialização: o capitalista individual entende o salário que paga aos seus assalariados como um custo de produção puro, a partir do momento em que o consumidor compra produtos de importação e que os seus próprios produtos são vendidos num mercado longínquo. O círculo, qualificado de virtuoso, entre produção e consumo, venda e compra, é estilhaçado.

A separação da venda e da compra distinguem a economia capitalista de uma economia de troca onde "ninguém pode ser vendedor sem ser comprador", e vice-versa. Então, o conjunto da população é directamente orientado para a satisfação de necessidades imediatas. "Na produção mercantil", em contrapartida, "a produção imediata desaparece". Já não se produz para as necessidades, mas pelo lucro, que não tem qualquer interesse pelas necessidades sociais, mais apenas pela procura solvente. Pois, "se a venda não tem lugar, é a crise". Na produção mercantil, para realizar a mais-valia que lhe é incorporada, "a mercadoria deve necessariamente ser transformada em dinheiro, enquanto o dinheiro não deve necessária e imediatamente transformado em mercadorias". É por isso que venda e compra se podem dissociar. Sob a primeira forma, "a crise é a metamorfose da própria mercadoria, a disjunção da compra e da venda". Sob a segunda forma, ela é função do dinheiro como meio de pagamento tornado autónomo, "em que o dinheiro figura em dois movimentos separados no tempo, em duas funções distintas", de simples equivalente geral entre mercadorias e de capital acumulado.

Esta autonomização do dinheiro encontra o seu prolongamento na separação entre o lucro de uma empresa e o capital portador de interesse. Então, diz Karl Marx, "dar à forma da mais-valia uma existência autónoma, causa a esclerose desta forma relativamente à sua substância. Uma parte do lucro, por oposição à outra, desliga-se completamente da relação capitalista enquanto tal, e parece derivar não da exploração do trabalho assalariado, mas sim do trabalho do próprio capitalismo. Por oposição, o interesse parece então ser independente quer do trabalho assalariado do operário e do trabalho do capitalismo, e ter no capital a sua fonte própria, autónoma. Se primitivamente o capital fazia, na superfície da circulação, de fetiche capitalista, de valor criador de valor, ele reaparece aqui sob a forma de capital portador de interesse, a sua forma mais alienada e a mais característica. "[6] Este prodígio do capital portador de interesse, do dinheiro que parece fazer dinheiro sem percorrer o ciclo completo das suas metamorfoses, é o estádio supremo do fetichismo e da mistificação mantida pelos economistas vulgares.

Assim, para realizar a mais-valia é necessário vender. Mas a busca insaciável do lucro tende a restringir os mercados, comprimindo os salários ("o poder de compra"!). Graças aos prodígios do crédito, a autonomia do dinheiro permite que seja empreendido um novo ciclo de produção, que flua uma nova vaga de mercadorias, enquanto a precedente ainda não foi escoada. Saturação do mercado (sobre produção) e sobre acumulação do capital são, então, o verso e o reverso de um mesmo fenómeno [7]. Os sucessores de Ricardo, escreve Marx, bem quiseram admitir a sobre produção sob uma das suas formas, "a plétora, ou sobre abundância de capital", mas negam-na sob outra forma, a da sobre abundância de mercadorias no mercado [8]. Claro que esta sobre produção não tem nada a ver com uma saturação das necessidades sociais, que continuam amplamente insatisfeitas: "Ela não tem senão a ver com as necessidade solventes". Não se trata de uma sobre produção absoluta ou em si, mas sim de sobre produção relativa à lógica da acumulação do capital.

O capital transporta em si a crise

Nos Manuscritos de 1857-1858, a crise intervém de forma tripla: empiricamente, através da recessão americana; através da separação da compra e da venda, que cria as condições formais da sua possibilidade; e, por fim, metaforicamente, como loucura e sofrimento pela cisão. Mas a teoria carece ainda de luzes sobre o plano de conjunto da Crítica da economia política. Em ‘O Capital’, ela ganha a sua coerência.

No Livro I, sobre o "processo de produção", Marx retoma a sua crítica da lei clássica dos mercados e do equilíbrio: "Não há nada mais tolo do que o dogma segundo o qual a circulação implica necessariamente o equilíbrio das compras e das vendas, visto que toda a venda é compra, e vice-versa." O que se pretende provar assim é que "o vendedor leva ao mercado o seu próprio comprador". Esta identidade imediata, que existia no comércio de troca é rompida pela generalização da produção mercantil e pela autonomização do dinheiro enquanto equivalente geral. Já não se trata, portanto, de troca directa de um valor de uso contra um outro valor de uso, mas de uma mercadoria contra dinheiro. A transacção torna-se "uma pausa", ou "um intermédio na vida da mercadoria, que pode durar mais ou menos tempo". A autonomia do dinheiro sanciona então a ruptura da simetria perfeita da troca. A vida da mercadoria, o encadeamento das suas metamorfoses, depende primeiramente dos desejos e caprichos do seu comprador potencial, mas também dos seus meios e solvência. No mostrador ou na vitrina, ela retém o seu alento face ao dinheiro, esse belo indiferente, que quererá comprá-la ou a desdenhará, segundo o seu belo prazer. Se este intermédio e esta espera se eternizam, a mercadoria em apneia arrisca a asfixia. A disjunção e a assimetria entre o acto de compra e o acto de venda é, portanto, um factor, não de equilíbrio, mas sim de desequilíbrio dinâmico.

O conceito de crise intervém então uma primeira vez em ‘O Capital’, não para evocar as crises empíricas, mas como consequência lógica do "laço íntimo" e contraditório entre os actos disjuntos e potencialmente contraditórios de compra de venda. Aparece de novo, mais à frente, no capítulo sobre "A lei geral da acumulação capitalista". Articula-se então com a temporalidade própria do capital. A acumulação apresenta-se como "um movimento de extensão quantitativa" que visa, graças às inovações tecnológicas estimuladas pela concorrência, a um aumento da produtividade do trabalho e a uma economia do trabalho vivo (logo, de emprego). A produção pode então continuar a aumentar enquanto os mercados se reduzem. Apesar das aparências, o factor determinante não reside na tecnologia em si, mas nos fluxos e refluxos da força de trabalho empregada.

Marx aborda assim, não apenas as condições de possibilidade das crises, mas o seu carácter recorrente e cíclico: "A conversão contínua e renovada de uma parte da classe operária em outro tanto de braços semi-ocupados, ou totalmente desocupados, imprime assim ao movimento da indústria moderna a sua forma típica. Da mesma forma que os corpos celestes, uma vez lançados na sua órbita, a descrevem durante um tempo significativo, a produção social, uma vez lançada no movimento alternado de expansão e de contracção, repete-o por uma necessidade mecânica. Os efeitos tornam-se, por sua vez, causas, e peripécias irregulares e aparentemente acidentais, assumem cada vez mais a forma de uma periodicidade normal. "É apenas do século XIX, desta época em que o mercado se mundializa, em que as nações industrializadas se tornam numerosas, «que datam os ciclos renascentes cujas vagas sucessivas abarcam anos, e que levam sempre a uma crise geral, ao fim de um ciclo e ponto de partida de um outro". O conceito de crise associa-se ao dos ciclos económicos que caracteriza a economia capitalista [9].

No Livro II, sobre "o processo de circulação", Marx marca as estações do calvário da mercadoria no processo de circulação. Ele introduz novas determinações, nomeadamente as do capital fixo e de capital circulante, e do seu ritmo desigual de renovação. Ele retira também consequências da descontinuidade entre produção e circulação. Submetida às exigências de uma acumulação guiada pela busca insaciável de lucro, a produção em massa pode continuar sem que as mercadorias produzidas no ciclo anterior tenham realmente entrado e sido escoadas no consumo individual ou produtivo. O fecho do ciclo das metamorfoses do capital não está, portanto, garantido. Se fracassa, "as vagas de mercadorias sucedem-se", enquanto as precedentes ainda não foram senão aparentemente absorvidas pelo consumo. Produz-se então "uma paragem". "Compra e venda paralisam-se reciprocamente". Assim, "a totalidade do processo de produção encontra-se no estado mais florescente, enquanto uma grande parte das mercadorias ainda não entrou senão aparentemente no consumo e permanece nas mãos dos revendedores sem encontrar comprador, ou seja, encontram-se ainda no mercado. ". É a quebra das vendas, são os preços em queda para escoar os stocks, a venda com prejuízo, se necessário, de forma a reconstituir liquidez.

No Livro III, sobre "o processo de reprodução de conjunto", Marx mostra, enfim, como a cristalização do capital em diversos capitais - industrial, comercial, bancário - chega a ocultar temporariamente a desproporção crescente entre a reprodução alargada e a procura final restante. A explosão da crise pode assim ser diferenciada, nomeadamente graças à intervenção dos capitalistas financeiros, que transformam o seu lucro realizado em capital-dinheiro de empréstimo: "Conclui-se então que a acumulação desse capital, diferente da acumulação real, qualquer que seja o rebento, aparece se não considerarmos senão os capitalistas financeiros, banqueiros, etc., mas também a acumulação própria destes capitalistas financeiros. "[10] Assim, a acumulação deste "capital fictício" na véspera da crise actual, tinha atingido tais dimensões que o esvaziar da bolha financeira foi igualmente vertiginoso: Em pouco menos de um ano, entre 29 de Dezembro de 2007 e 31 de Março de 2009, a capitalização bolseira do banco HSBC passou de 199,9 para 68 milhões de dólares (ou seja, uma quebra de dois terços), a do Bank of America passou de 194,6 para 31,1 milhões, a do Citygroup passou de 151,3 para 13 milhões, a do Natixis passou de 29,8 para 4,9 milhões, etc. Entre as sessões de 29 de Junho de 2007 e a do 1º de Abril de 2009, os índices das principais praças financeiras caíram em 53% (CAC 40) e 43% (Dow Jones).

A crise não pode, portanto, ser conjurada indefinidamente. O desenvolvimento do crédito pode adiá-la, como se produziu nos anos 1990, em que a desregulação financeira pôde dar a ilusão de um "regresso do crescimento". Mas o capital não pode prosperar indefinidamente a crédito. A quebra das vendas, ou o fracasso por causa da acumulação de créditos insolventes, acaba por dar o sinal geral de alarme. Quando já não podemos ignorar que a primeira vaga de mercadorias não foi senão aparentemente absorvida pelo consumo (ou graças a um crédito aventureiro), é a avalanche: "Os capitais mercantis disputam o lugar no mercado. Para vender, os últimos a chegar vendem abaixo do preço, enquanto os primeiros stocks não são liquidados dentro dos prazos de pagamento. Os detentores são obrigados a declarar-se insolventes, ou a vender a qualquer preço para poderem pagar. Esta venda não corresponde em nada ao estado da procura, ela corresponde apenas à procura de pagamento, à necessidade absoluta de converter a mercadoria em dinheiro. A crise rebenta. " [11] É muito exactamente o que se produz desde o início da crise de 2008: vemos concessionários propor duas viaturas pelo preço de uma, promotores imobiliários oferecerem um automóvel como prémio do aluguer de uma habitação, e saldos monstruosos que começam a 70% ou menos de 90% do preço inicial!

A primeira determinação da crise reside então na disjunção entre a esfera da produção e a da circulação. A segunda, na disjunção entre o ritmo de rotação do capital fixo e aquele do capital circulante. O Livro III introduz uma nova, que pressupõe e integra as duas precedentes: a "lei da queda tendencial da taxa de lucro". O capítulo 13, sobre "A natureza da lei", recapitula "os três factos principais da produção capitalista": a concentração dos meios de produção em poucas mãos, a organização do trabalho social e a sua divisão como trabalho cooperativo, e a constituição do mercado mundial. "No que respeita à população, a enorme força produtiva que se desenvolve no quadro do modo de produção capitalista, e o aumento dos valores-capital, que crescem bem mais depressa do que a população, entram em contradição com a base do lucro sobre a qual se exerce esta enorme força produtiva - e que, relativamente ao aumento da riqueza, se ameniza cada vez mais -, e com as condições de valorização deste capital que cresce sem cessar. Daí as crises". Com efeito, daí as crises.

Na realidade, por detrás da aparência económica da "lei da queda tendencial da taxa de lucro", manifestam-se o conjunto das barreiras sociais sobre as quais choca a acumulação do capital. Esta estranha lei, que Marx expõe no capítulo seguinte, "as contradições internas", alimentou bastantes controvérsias. De facto, ela parece não se poder impor a não ser através das suas próprias negações: o aumento da taxa de exploração, que visa restabelecer o lucro; a predação imperialista, que permite reduzir a composição orgânica do capital através da exploração de uma força de trabalho em saldo, e através da redução do custo das matérias-primas; a aceleração da rotação do capital, graças à publicidade, ao crédito, à gestão dos stocks para compensar a quebra na taxa de lucro através do aumento da sua massa; A intervenção pública do Estado via despesas públicas, ajudas fiscais e despesas de armamento.

É, portanto, estranha, esta lei que se contradiz e contraria a si mesma: "A depreciação periódica do capital, que é um meio imanente ao modo de produção capitalista para deter a redução da taxa de lucro e acelerar a acumulação do capital através da formação de capital novo, perturba as condições determinadas nas quais se cumpre o processo de circulação e de reprodução do capital e, consequentemente, é acompanhada de bruscas interrupções e crises do processo de produção." Quando a taxa de lucro baixa, aumenta o volume de capital de que o capitalista deve dispor para investir. Segue-se uma concentração de capitais que implica uma nova baixa da taxa de lucro, na medida em que ela se traduz por uma acumulação acrescida de capital constante. Ameaças de asfixia, os pequenos capitais dispersos são então levados a "enveredar pela via da aventura".

Equação da queda tendencial da taxa de lucro

com
composição orgânica do capital

taxa de exploração

encontra-se no numerador a taxa de exploração (ou de mais-valia):
E no numerador da composição orgânica
de forma que, se a composição orgânica aumenta quando a taxa de exploração continua igual, a taxa de lucro diminui.

Quanto mais se acumula o trabalho morto (c) em detrimento do trabalho vivo (v), (mais a "composição orgânica" do capital aumenta), e mais a taxa de lucro tende então a baixar. Esta não é uma lei mecânica ou física, mais uma "lei social" (supondo que o termo da lei continue apropriado). A sua aplicação depende de variáveis múltiplos, de lutas sociais com resultado incerto, de relações de forças sociais e políticas instáveis. Ela não cessa portanto de se contrariar a si mesma, suscitando contra-tendências:

o aumento da taxa de exploração tende à repor a taxa de lucro, seja pelo alongamento do tempo de trabalho, seja pelo aumento da sua produtividade, seja pela compressão dos salários abaixo das taxas de inflação, ou seja ainda pela amputação do salário indirecto (a protecção social);

os mecanismos de dominação imperialista contribuem para fazer baixar a composição orgânica do capital pelo recurso a trabalho barato e pela redução do custo de produção de uma parte do capital constante;

a aceleração da rotação do capital compensa a queda da taxa de lucro com o aumento da sua massa;

a intervenção económica do Estado apoia a economia através das despesas públicas, das despesas de armamento, das ajudas fiscais e da "socialização das perdas".

O aumento da taxa de mais-valia () pode então contrariar a "queda tendencial" de diversas maneiras. Através:

da intensificação do trabalho - aumento da mais-valia relativa.

do alongamento da sua duração - aumento da mais-valia absoluta.

da redução do capital variável pela descida dos salários directos ou indirectos.

da redução do capital constante pela redução do custo das matérias-primas, a produção de fluxo contínuo (just in time3), o stock zero

Além disso:

A queda efectiva da taxa de lucro não implica automaticamente uma redução da sua massa. Se o ritmo de rotação do capital se acelera, a segunda pode continuar a aumentar, mesmo que a primeira caia. Se ele completa o seu ciclo, por exemplo, quatro vezes ao ano em vez de uma só, a massa pode, pelo contrário, ser multiplicada por dois, mesmo se a taxa diminui para metade. A facilidade do crédito, o marketing, a publicidade, a gestão do grande consumo, a obsolescência integrada, a falsa novidade da moda, contribuem precisamente a acelerar essa rotação e a dar o sentimento de uma aceleração da história.

A extensão geográfica do domínio da produção mercantil também pode retardar os prazos da crise. A duplicação em vinte anos da força de trabalho disponível no mercado mundial de trabalho significa assim, quer um aumento do capital variável (logo, uma descida relativa da composição orgânica global) e um aumento do grau de exploração (dada a vulnerabilidade social de uma mão-de-obra frequentemente provada de direitos do trabalho e de protecções sociais); são dois factores susceptíveis de travar a queda da taxa de lucro, ou mesmo de a impedir temporariamente.

Estas respostas do capital à erosão tendencial da taxa de lucro são os recursos ocultos daquilo a que o senso comum chama mundialização. Assim, as crises não constituem limites absolutos à produção e ao consumo de riquezas sociais, mas contradições relativas a um modo de produção específico "correspondente a uma certa época de desenvolvimento restrito das condições materiais de produção". Não se produzem demasiados bens de consumo relativamente às necessidades da população, nem demasiados meios de produção relativamente à população em condições de trabalhar, "mas produzimos periodicamente demasiada riqueza, sob formas capitalistas contraditórias". No Livro III de O Capital, a separação da compra e da venda que constitui a condição geral formal das crises, traduz-se então concretamente pelo facto de a capacidade de consumo solvente entrar em contradição com a procura do máximo lucro. Marx nunca fala de uma "crise final". Ele demonstra apenas como "a produção capitalista tende sem cessar a ultrapassar as suas barreiras imanentes". Contrariamente ao que, nos anos 30, puderam pretender Evgheni Varga e os teóricos da crise de afundamento final do capitalismo (Zusammenbruchstheorie) no seio da Terceira Internacional [12], as suas crises são inevitáveis, mas não inultrapassáveis. A questão é saber a que preço, e sobre as costas de quem, elas podem ser resolvidas. A resposta não pertence à crítica de economia política, mas à luta de classes e aos seus actores políticos.


Daniel Bensaïd, professor de filosofia na Universidade Paris-VIII, é militante do Novo Partido Anticapitalista (NPA). É autor de diversos ensaios, incluindo ‘Marx, o Intempestivo’, ‘Passion Marx’, ou ‘Os Hieróglifos de Marx, e mais recentemente ‘Marx, Modo de Emprego’ ilustrado por Charb.

Tradução de Sérgio Vitorino. Versão original aqui.

Notas

[1] K. Marx, Manuscritos de 1857-1858, Paris, Editions sociales, 1980, tomo 1, p.356.

[2] K. Marx, Manuscritos de 1861-1863, Paris, Editions sociales, 1980, pp. 17 et 18.

[3] K. Marx, Manuscritos de 1857-1858, op. cit. tomo I, p. 354.

[4] K. Marx, Théories sur la plus-value, Paris, Editions sociales, 1976, tomo 2, ver pp. 84 597 608, 612.

[5] Denis Guedj, "Estes matemáticos vendidos aos financeiros/ Ces mathématiques vendues aux financiers", Libération, 10 Dezembro 2008: "Como não falar da diva dos média, a senhora Karoui? Madre Superiora das MAF (matemáticas aplicadas à finança), entrevistada pelo Wall Street Journal, que ousou proclamar: "As matemáticas financeiras não têm nada a ver com a crise". Não é porque os seus rebentos não viram chegar a crise que deixam de ter alguma coisa a ver com ela. Interrogada sobre os produtos derivados, a senhora Karoui oferece esta resposta magnífica: «"a sua existência não é um absurdo". Enquanto matemática, ela utiliza a prova da existência pela impossibilidade de não-existência: os produtos derivados devem existir, visto que podem existir!"

[6] K. Marx, O Capital, Paris, Editions sociales, tomo 3, p.20.

[7.] Marx escreveu em O Capital que dizer que as crises são provocadas por uma ausência de procura ou de consumo efectivos constitui "uma pura tautologia": "O sistema capitalista não reconhece outro consumidor senão aquele que pode pagar. O facto de haver mercadorias invendáveis não significa mais do que o facto de não se lhes ter encontrado comprador ». E Engels precisa, na Anti-Dühring, que é impossível explicar as crises capitalistas com fenómenos que existiam bem antes do capitalismo: "O subconsumo de massa, a restrição do consumo das massas ao estritamente necessário à reprodução, não é um fenómeno novo. Isso sempre existiu, desde que há classes exploradoras e classes exploradas. Em consequência, enquanto o subconsumo foi um traço permanente ao longo de milhares de anos, o afundar dos mercados nas crises, resultante de uma sobre produção, é característico dos últimos cinquenta anos. O subconsumo das massas é uma condição necessária de toda a sociedade baseada na exploração, incluindo, portanto, a sua forma capitalista; mas é o modo específico de produção capitalista que gera as crises. O subconsumo das massas é, assim, uma condição necessária das crises, e joga no seu desenvolvimento um papel há muito reconhecido. Mas não nos diz grande coisa sobre porque é que as crises existem hoje e porque é que não existiam anteriormente."

[8] K. Marx, Théories sur la plus-value, Paris, Editions sociales, 1976, tomo 2, ver pp.

[9] A crise de 1857 é a ocasião de uma tomada de consciência da periodicidade das crises. Em 1862, Clément Juglar publica Les crises commerciales et leur retour périodique en France, en Angleterre, aux Etats-Unis (As crises comerciais e o seu retorno periódico em França, em Inglaterra e nos Estados Unidos). Na sua correspondência com Engels, Marx tenta ligar esta periodicidade das crises aos ritmos de renovação do capital fixo. A teoria de ciclos longos, atribuída a Kondratieff, é bem posterior. Ver, a este respeito, Ernest Mandel, Long waves of capitalisme, e Dockès e Rosier, Les rythmes économiques.

[10] K. Marx, O Capital, tomo 3, op. cit., p. 164 e 171.

[11] K. Marx, O Capital, op. Cit., Livro III, tomo 2, p. 71.

[12] Ver Giacomo Marramao, Il politico et le transformationi, Bari, 1979.

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“A esquerda não soube dar respostas à crise do capitalismo”

 

 

Na avaliação de ativistas do movimento altermundista, nem governos nem movimentos populares apresentaram alternativas concretas à ultima crise sistêmica do capital, perdendo uma oportunidade histórica para, de fato, superá-lo. Buscar essas respostas é mais um desafio colocado para o Fórum Social Mundial. Para o venezuelano Edgardo Lander, “o capitalismo, como sistema global, é incompatível com a preservação da vida”. Quem quiser discutir superação do capitalismo sem discutir o Estado que queremos estará girando em falso. A resistência eterna é o caminho da derrota”, diz Emir Sader.

Bia Barbosa

A crise internacional vivida pelo sistema capitalista no último ano expôs a fragilidade do modelo neoliberal. Mesmo para os mais adeptos da teoria do livre mercado, ficaram explícitas suas conseqüências em relação à desigualdade social e à concentração de renda e o absolutismo o modelo passou a ser questionado. Segundo as Nações Unidas, em 2009 mais de um bilhão de pessoas passou fome; um bilhão também não teve acesso à água. Há aqueles que afirmam que ultrapassamos os limites da sobrevivência da humanidade. Apesar do quadro apocalíptico, muitos países começam a sair da crise econômica sem que respostas concretas de superação do capitalismo tenham sido trazidas à mesa. Na avaliação de ativistas do movimento altermundista que participam das atividades da décima edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, nem governos nem movimentos populares apresentaram alternativas ao sistema hegemonizado pelo capital, perdendo uma oportunidade histórica para, de fato, superá-lo.

“O capitalismo, como sistema global, é incompatível com a preservação da vida. Hoje vivemos uma exigência radical de reverter essa lógica de crescimento e promover uma radical redistribuição do acesso dos seres humanos aos bens comuns”, afirma Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela. “No entanto, a sociedade capitalista conseguiu a incrível globalização da subjetividade, da consolidação no imaginário da realização da vida pelo consumo. Este padrão individualista de consumo e de produção do conhecimento está a ponto de ganhar a batalha final”, avalia.

Para Paulo Vizentini, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mesmo que a esquerda diga que outro mundo é possível, ela não ainda sabe muito bem que mundo é esse, nem como chegar lá. “Nos últimos anos, começou-se a resgatar o conceito de desenvolvimento e a promover uma maior intervenção do Estado, com a volta das políticas sociais, que haviam sido abandonadas nos anos 90. No entanto, ao olharmos para o quadro em âmbito global, os avanços são menores do que o desejado”, acredita Vicentine.

“O mais sério é a incapacidade de articular uma resposta política à crise econômica internacional. Não houve uma resposta tão forte quanto era necessário. A esquerda ainda age muito na resistência, sem ocupar espaços que são abertos. Há um sistema que de certa forma está falindo, mas consegue sobreviver face à ausência de uma posição mais contundente. Somam-se a isso as tentativas de cooptação de países emergentes, como China e Brasil, via a construção de propostas como o G2 [China e EUA], para que abandonem um novo projeto de desenvolvimento”, completa.

Ao mesmo tempo, os fatores de consolidação do socialismo como um sistema alternativo ao capital se retraíram. Para muitos, não é possível falar em socialismo do século XXI sem que se faça um balanço aprofundado e crítico do que aconteceu com o socialismo no século XX. “E o socialismo fracassou por duas razões fundamentais: não aprofundou a democracia e a possibilidade de participação popular, e deu continuidade a um modelo de desenvolvimento tão devastador quanto o capitalismo”, acredita o venezuelano Lander. Em relação aos partidos políticos e aos governos progressistas, a avaliação dos ativistas também é de extraordinárias debilidades.

“Do ponto de vista do padrão produtivo, do conceito de desenvolvimento e de progresso, os governos tidos como progressistas da América Latina, que chegaram ao poder com um projeto de mudança, que eram uma expressão de resistência a essa forma de desenvolvimento, não alteraram nada, e alguns ainda aprofundaram e acentuaram este padrão civilizatório na mesma direção”, diz ainda Lander.

O pesquisador da Universidade Central da Venezuela lembrou da luta do MST contra a legalização dos transgênicos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, que acabaram sendo liberados na gestão Lula. E, na Venezuela, apesar dos avanços no debate sobre a superação do capitalismo, a economia do país é mais dependente do petróleo na gestão Chávez do que era há dez anos.

“Hoje só existe um grande projeto de sociedade de consumo. Então esta decadência do capitalismo é relativa, lenta, sem que surja no horizonte uma alternativa. E o capitalismo não terminará se não houver uma alternativa”, sentencia Emir Sader, do CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais).

Desafios para os movimentos do Fórum Social Mundial
Se a crise de 2008 confirmou que as idéias do FSM estavam corretas, a ausência de concretude nas alternativas já desenvolvidas e a sobrevivência do capitalismo a mais uma avalanche revelam que os desafios dos movimentos populares organizados em torno do Fórum são ainda maiores e sua luta continua extremamente atual.

“Há uma oportunidade que está aberta e da qual não soubemos tirar o devido proveito. As eleições no Chile e o desfecho em Honduras soam como um alerta da disposição a uma contra-ofensiva para que mesmo os governos mais moderados não tenham possibilidade de continuidade dos seus governos. É necessário analisar as mudanças e organizar uma estratégica rapidamente, que passe por uma política de aliança com novas forças sociais de apoio para projetos dessa natureza. Falar de multipolaridade é falar de novos pólos emergentes de poder. Isso não será ainda a democracia, mas criará uma correlação de forças que permitirá um realinhamento de políticas e colocará a luta num outro patamar importante”, acredita Paulo Vizentini.

Para o sociólogo Emir Sader, o processo para a construção da disputa de hegemonia por um mundo multipolar precisa necessariamente discutir as políticas dos governos que foram construídos na mesma onda do Fórum Social Mundial. “O Fórum tem que discutir temas centrais de alternativas. Não podemos nos limitar a debater questões sociais. Quem quiser discutir superação do capitalismo sem discutir o Estado que queremos estará girando em falso. A resistência eterna é o caminho da derrota, e o Fórum tem que se abrir para este processo senão ficará para trás. Tem que se reciclar e aderir a esta dinâmica”, conclui.
Fotos: Eduardo Seidl

Postado: Carta Maior

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2009: Capitalismo em Crise

 

Escrito por Valéria Nader

27-Dez-2009 – Correio da Cidadania

O ano de 2008 encerrou-se melancólico no Brasil e no mundo, com a explosão da crise econômica internacional. Em nosso país, que navegava há alguns anos na alta popularidade do operário-presidente, agraciado por uma conjuntura internacional que impulsionou uma evidente recuperação dos índices de crescimento econômico, parecia estar-se adentrando em uma conjuntura improvável, quase um pesadelo.

271209_retro_2009 Previsões catastróficas ressoaram dos quatro cantos do mundo, vindas de especialistas de diferentes matizes políticos, e a voz geral dava a sentença de morte ao neoliberalismo, em função da necessidade de socorro público às instituições falidas. Passado o segundo trimestre de 2009, alguns países emergentes, especialmente o Brasil, começaram, no entanto, a dar sinais de retomada, encerrando o ano de modo efusivo, principalmente em face à elevação dos índices financeiros que pareciam ter virado pó no final de 2008.

Como se situar diante de uma crise explosiva e que agora, aparentemente, parece mesmo não ter passado em nosso país da ‘marolinha’ tão criticada por economistas que possuem visão crítica do atual sistema capitalista? Teremos todos nós estado realmente diante de uma mera marolinha?

A rapidez com que foi retomada a nova onda de otimismo e euforia não deixa margem para visões ingênuas, para não dizer precárias. Ela é indicativa não só de que não houve qualquer alteração no atual padrão de acumulação capitalista - cuja característica fundamental é a hegemonia absoluta do capital financeiro e de sua lógica de funcionamento -, mas também da natureza radical da instabilidade que governa esse atual padrão.

Em nosso país, a dependência externa, a tendência à reprimarização da economia e a precariedade da distribuição de renda são evidências profundas de que se mantêm intactas as chagas que acompanham nosso estilo de desenvolvimento.

Confira abaixo entrevista exclusiva com o economista Luiz Filgueiras, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia – UFBA - e autor, entre outros, do livro História do Plano Real.

Correio da Cidadania: Encerramos 2008 e começamos 2009 sob o fogo cerrado da crise econômica internacional que estourou em setembro de 2008, e com a previsão de que o mundo e o Brasil passariam pela mais dramática crise desde 1929. Pensando no Brasil, parece estar se configurando um clima de otimismo, quase euforia, nesse final de 2009. Como estamos encerrando, realmente, 2009?

Luiz Filgueiras: O mundo, de fato, passou pela pior crise do capitalismo desde 1930. Especialmente os países desenvolvidos: desestruturação e colapso dos sistemas financeiros; queda da produção e do emprego; falências de grandes corporações, fusões e aquisições, com enorme centralização de capitais. No entanto, acredito que pelo menos três razões pesaram para que a crise não continuasse a se aprofundar, diferentemente de 1929:

1) A intervenção quase que imediata de todos os Estados, encampando e estatizando instituições falidas; promovendo a aquisição de umas por outras; injetando bilhões de dólares, euros e iens; além das tradicionais medidas de política monetária e fiscal, como a queda da taxa de juros, a expansão do crédito, a redução de impostos e o aumento dos gastos públicos. Nos anos 1930, a intervenção do Estado foi protelada, em razão da crença dogmática no livre mercado, o que dramatizou enormemente a crise. Agora, o credo do livre mercado e de sua eficiência também estava difundido, mas muito mais como ideologia e instrumento de dominação do capital sobre o trabalho; quando a crise começou, a demanda e até exigência do socorro estatal foi mediata.

O fantasma de 1929 rondou ameaçador e o capital não teve dúvidas, recolheu momentaneamente o discurso neoliberal e se protegeu sob as asas do Estado, o que explicitou, claramente, o papel do Estado como "Comitê Central da Burguesia". É sintomática a absoluta irrelevância do FMI e de suas proposições no enfrentamento da crise, explicitando também o seu papel político-ideológico de dominação sobre os países da periferia.

2) A presença da China, com uma enorme e dinâmica economia (a que mais cresce e já com o 3º PIB do mundo) integrada à acumulação capitalista mundial, mas ainda com forte controle estatal, contra-restou a difusão da crise a partir dos EUA, em especial mantendo-se ainda como forte demandante de matérias-primas dos países da periferia, impedindo o colapso do comércio internacional. O capitalismo "heterodoxo" chinês, apesar de sua forte relação comercial, produtiva e financeira com os EUA, não foi abalado fortemente; sua elevadíssima taxa de crescimento se reduziu um pouco momentaneamente, mas não levou o país à recessão. O mesmo ocorrendo com a Índia, nesse particular.

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Observações sobre o desastre econômico

Ricardo Musse

Os desdobramentos da crise financeira são ilustração exemplar da explicação feita por Marx do capitalismo.

1. A partir dos anos 1970, os EUA introduziram paulatinamente uma série de alterações no funcionamento do sistema econômico internacional que, na prática, subverteu o modelo anterior firmado no pós-guerra. As políticas anticíclicas que permitiram a expansão conhecida como os “30 anos dourados” foram desmontadas uma a uma.

Os excedentes monetários, até então sob o controle parcial dos Estados, passaram a ser geridos pelo mercado, com a concomitante redução da participação dos salários na renda nacional e dos benefícios conquistados como direitos sociais. O controle de capitais pelos Estados nacionais, outra peça-chave do arcabouço anterior, cedeu lugar à livre circulação inclusive de capitais de curto prazo, propiciando os movimentos especulativos que moldam atualmente o mercado de dinheiro.

Ao longo desse processo, os Estados passaram por alterações substanciais não só com a restrição de sua participação direta como agente econômico, mas sobretudo com a redução significativa de suas atividades de planejamento e regulação.

2. Com o fim da situação de exceção, da assim chamada “regulação keynesiana”, o capitalismo retornou ao seu leito habitual. O ímpeto e a dinâmica econômica voltaram a ser ditados pelo mercado, e as crises a se suceder com precisão matemática.

Para um leitor de Karl Marx os delineamentos e desdobramentos da atual crise bancária e financeira afiguram-se como uma ilustração exemplar e quase didática de sua explicação do capitalismo. A teoria do valor e o fetichismo da mercadoria expostos em "O Capital" ressaltam que, apesar de sua origem como uma mercadoria específica, como equivalente geral, o dinheiro tende a adquirir autonomia no decorrer do processo em que salta da condição de mero mediador das trocas alçando-se à posição de centro impulsionador da circulação mercantil.

No descolamento entre essas funções, em si contraditórias, encontra-se o germe das crises econômicas, precipitadas, em geral, pela correção abrupta de ativos inflados devido à lógica imanente que os descola de seu solo e substrato real.

A teoria marxista prediz ainda que um desarranjo financeiro tende a afetar a ordem econômica em suas múltiplas dimensões. A desarticulação da função “meio de pagamento” (o sistema de crédito), que o dinheiro adquire com o desenvolvimento dos mecanismos de compensação bancária, altera suas outras funções como “meio de circulação” ou como “medida de valor”. Eis por que uma crise bancária não deixa de ressoar no âmbito da produção e tende a se tornar sistêmica com a perda da medida de valor das mercadorias e das empresas, fenômeno patente na volatilidade dos mercados e das bolsas.

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Crise financeira no Dubai: Rumo a um cenário de pesadelo?

 

 por Mike Whitney

palm_island_dubai O incumprimento verificado no Dubai não é o princípio do Colapso Financeiro Nº2. Não veja dominós aqui. Sim, ele levanta questões graves acerca da ameaça da dívida que paira sobre economias emergentes – particularmente a Europa do Leste. Mas isto não é um "incumprimento soberano" no sentido estrito, nem há qualquer grande contágio de risco. O Abu Dhabi rico em petróleo está carregado de activos líquidos, possivelmente tanto quanto US$800 mil milhões. Eles poderiam liquidar a miserável dívida de US$60 mil milhões do Dubai num piscar de olhos. Mas o Abu Dhabi quer dar ao seu perdulário irmão mais jovem um sinal para acordar forçando o Dubai a reestruturar a sua dívida. Isto significa que bancos, possuidores de títulos e empreiteiros terão de se encolher, o que não é surpreendente dada a condição abissal do mercado imobiliário comercial.
Os proprietários do Dubai World foram apanhados na mesma vertiginosa farra da construção comercial alimentada pela dívida que varreu os Estados Unidos. O problema tem a ver com padrões de empréstimo laxistas e baixas taxas de juro. Agora a procura caiu um precipício e o crédito está a ficar mais apertado. O Dubai World não pode rolar a sua dívida ou cumprir as suas obrigações. Isto é o que tipicamente acontece quando estouram bolhas de crédito.
Na quinta-feira, analistas do Bank of America emitiram uma declaração: "Ninguém pode descartar – como um risco final – a possibilidade de que isto escalasse num grande problema de incumprimento soberano, o qual então repercutiria por todo o globo nos mercados emergentes do mesmo modo que o da Argentina no princípio de 2000 ou a Rússia no fim dos anos 1990".
Isto é asneira. Não haverá incumprimento soberano. O Abu Dhabi não vai remeter os mercados globais para um mergulho vertical a fim de poupar uns poucos milhares de milhões de dólares. O Bank of America está a soprar fumaça. O petróleo já deslizou US$3 por barril desde que a crise começou. Provavelmente haverá uma tentativa de resolução quando os mercados abrirem segunda-feira. Isto não significa que não haja importantes lições a serem retiradas desta mais recente calamidade financeira. Há.
Primeiro, ela ilustra que a crise financeira não está ultrapassada – famílias, negócios e países ainda estão a desalavancar. Este processo em andamento reduzirá gastos e aumentará incumprimentos, bancarrotas e arrestos. Garantias governamentais e programas de estímulo não reverterão as tendências prevalecentes. Mais incidentes como o do Dubai World seriam expectáveis. Estes "eventos do crédito" perturbarão a recuperação e estimularão maior aversão ao risco, a qual pressionará acções para a baixa.
Amab Das, do RGE Monitor, resume isto assim: "Somos obrigados a ver um aumento da aversão ao risco. A situação do Dubai significa que embora os principais bancos centrais de todo o mundo tenham estabilizado o sistema financeiro, eles não podem fazer com que todos os excessos simplesmente desapareçam. Ainda temos de resolver aquelas tensões dos balanços. A recuperação prossegue, mas ainda há desafios significativos pela frente". (Bloomberg News)
Segundo, quando estes incidentes se verificam, provavelmente há um considerável dano colateral decorrente de apólices de seguro não regulamentadas (credit default swaps) dos que subscreveram os títulos. Estes derivativos CDS não são vendidos numa bolsa pública de modo que ninguém sabe quem os possui, em que quantidade, ou se o emissor tem suficientes reservas de capital para liquidar as exigências. Deveríamos esperar uma repetição da AIG múltiplas vezes novamente (embora mais pequenas) até que o sistema esteja regulado ou os CDS estejam proibidos. O resultado final é que a actual arquitectura financeira não é concebida para funcionar; é concebida para tornar um punhado de especuladores muito rico. Estes especuladores possuem o Congresso, a Casa Branca e os media financeiros, razão pela qual não tem havido mudança significativa nas regulamentações.
O Dubai não é a Argentina. Haverá uma resolução e os empreiteiros serão pagos, embora não "plenamente". Haverá perdas, grandes perdas. Mas não contágio.
A notícia da "paralização" dos pagamentos do Dubai enervou os mercados globais, onde a confiança do investidor já é diminuta. O dólar e o yen fortaleceram-se os Títulos do Tesouro dos EUA subiram. A "fuga para a segurança" está a tornar duplamente difícil para o Fed reflacionar preços de activos. Eventos de crédito como o do Dubai tornam nervosos os investidores e eles escoiceiam. Isso estende a queda e aprofunda a recessão.
Se a crise do Dubai se arrastar, o dólar ficará mais forte e o florescente carry trade será esmagado. Isso significa que os bancos no limite da capacidade (o quais investiram pesadamente em posições de alto risco) ficarão esmagados mais uma vez. Este é o cenário de pesadelo.
O Fed tem amparado ao colo o sistema financeiro e proporcionou garantias ilimitadas sobre milhões de milhões (trillions) de dólares de colaterais comprometidos. Mas isso pode não ser suficiente.

28/Novembro/2009

O original encontra-se em http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=16310
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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O pior passou para os exploradores. Mas para a classe trabalhadora a crise ainda está longe do fim!

Postado: Movimento Revolucionário

crise

 

“Agora o pior já passou”! Essa frase fica incessantemente sendo repetida nos meios de comunicação por economistas, políticos, e principalmente por Lula: dizem que o pior da crise passou e agora a economia já demonstra um crescimento.

Os economistas estão comemorando o fim da recessão também na Europa. Dados divulgados recentemente demonstram que o PIB da Zona do Euro (bloco formado por 15 países) aumentou nesse segundo trimestre, fazendo com que, oficialmente, a economia saia da recessão. Isso aconteceu graças a um crescimento do 0,4% do PIB na região!

O “fim” da recessão foi puxado graças ao crescimento das principais economias européias. França, com um crescimento de 0,3%, e Alemanha, 0,7% (índices que não recuperam absolutamente nada do que foi perdido). Mas a verdade é que para os trabalhadores isso tudo não passa de conversa fiada! Vários países que compõe a União Européia continuam tendo PIB´s negativos: Grécia (-0,3%), Espanha (-0,3%), Chipre (-1,4%), Hungria (-1,8), Romênia (-0,7%) e até mesmo o Reino Unido (-0,4%).

Mesmo que os analistas digam que a economia está se restabelecendo, ainda está longe do que era. Alguns novos índices apontam uma melhora mas, se compararmos ao mesmo período de 2008, segue existindo uma contração na economia de 4,1%, na Zona do Euro. Esse índice sobre para 4,3% em relação à União Européia, somando os 27 países que compõe o bloco. Logo, a economia européia está longe de ser o que era.

Os números mostram o fim da recessão. E o desemprego mostra a sua continuação!

Todos esses índices significam uma coisa para os trabalhadores: o desemprego, que tornou-se uma constante dentro dos países europeus.

Enquanto a burguesia comemora os primeiros números positivos depois de mais de um ano vendo seus lucros despencarem, para os trabalhadores europeus não há nada a comemorar, já que o número de desempregados segue crescendo, atingindo seus piores índices em 10 anos! Estima-se que dentro da UE existam mais de 20 milhões de pessoas desempregadas! Em setembro, esse número representou 9,7% da população sem atividades remuneradas (o maior índice desde 1999, quando atingiu 9,6%). O número é comparável a economias periféricas e subdesenvolvidas, como o caso de Brasil e Argentina, onde mesmo levando em consideração a crise econômica, a taxa de desemprego varia sempre em torno dos 10%.

Enquanto os governos de todos os países, ricos ou pobres, mobilizaram-se para salvar os banqueiros e grandes empresários, afirmando que ajudavam as empresas para evitar que demitissem, a burguesia tentava manter as taxas de lucro através das demissões em massa. Ou seja, mais uma vez, quem paga a conta para salvar os patrões são os trabalhadores, já que esse dinheiro que os governos concederam saiu dos cofres públicos. Verbas que, depois de serem desviadas para os bolsos dos políticos corruptos, talvez fossem para saúde, educação… Porém, diante da riqueza entregue aos exploradores, fica um rombo gigantesco que exige do governo o corte de grande parte dos gastos públicos para continuar mantendo a arrecadação no mesmo patamar. Quer dizer, menos investimento em saúde, educação, emprego, segurança.

Para os trabalhadores europeus só existe uma saída: a luta. Desde o início da crise econômica, o proletariado europeu tomou a linha de frente na luta de classes mundial e novamente demonstra sua força.

Diante de cada ataque que a classe trabalhadora sofre, ela responde com mais lutas e, no que depender dos índices econômicos, isso não tende a parar.

Os trabalhadores devem avançar cada vez mais em sua luta contra a burguesia, que desemprega e arrocha seus salários, assim como contra os governos, que atacam e retiram seus direitos. E, a partir disso, avançar cotidianamente em sua organização internacional, para acabar com o capitalismo no mundo todo.

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Itália: Cem mil exigem mais medidas contra a crise

 

Manifestação na Italia contra a Crise  Convocada pela central sindical CGIL manifestaram-se neste Sábado em Roma mais de cem mil pessoas, exigindo mais medidas contra a crise. Gugliemo Epifani, secretário geral da CGIL, declarou que "o governo não tem feito nada para apoiar os trabalhadores e os reformados".

Segundo Epifani, num ano em Itália foram perdidos 570.000 empregos, dos quais 300.000 precários.

A CGIL prevê que a crise se agrave nos próximos tempos e exige mais medidas em defesa do trabalho e das reformas.

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Debate Crise do capital e perspectivas do socialismo

Cartaz Seminário Crise do Capital.indd

 

com Perry Anderson, Emir Sader e Flávio Aguiar
mediação de Ruy Braga
Dia 17/11/2009, terça-feira, às 19h
Auditorio de Cultura japonesa da USP
Av. Prof. Lineu Prestes, 159, Cidade Universitária
São Paulo - SP

A Universidade de São Paulo receberá na próxima semana o historiador Perry Anderson. Promovido pela Boitempo Editorial e por Clacso, Cenedic e Programa de Pós-graduação em Sociologia da USP, o debate "Crise do capital e perspectivas do socialismo" acontecerá na terça-feira dia 17 de novembro, às 19h. Além de Perry Anderson, o debate contará com a participação de Emir Sader, do professor de literatura e jornalista Flávio Aguiar e do sociólogo Ruy Braga. A entrada é gratuita e não será necessário fazer inscrição prévia.
Perry Anderson nasceu em Londres, em 1938. É professor de história da UCLA, Estados Unidos, ex-editor da revista New Left Review e autor de vários livros publicados no Brasil, entre os quais Afinidades Seletivas (2002) e Considerações sobre o marxismo ocidental/ Nas trilhas do materialismo histórico (2004), lançados pela Boitempo. Seu próximo livro a ser publicado pela Boitempo, em 2010, será Spectrum.
Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador- geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Autor de vários livros, publicou pela Boitempo os títulos A vingança da história (2003), A nova toupeira (2009), entre outros.
Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947. É professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo desde 1973 e, atualmente, vive em Berlim. É também jornalista e autor, entre outras obras, do livro Anita (1999) e A palavra no purgatório (1997), além de organizador, em parceria com Og Doria, da antologia A escola e a letra (2009).
Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP (Cenendic). É autor de, entre outros livros, Por uma sociologia pública (com Michael Burawoy) (São Paulo, Alameda, 2009) e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003) e organizador, ao lado de Ricardo Antunes, do livro Infoproletários, recém-lançado pela Boitempo.
Serviço:

Crise do capital e perspectivas do socialismo

Debate com: Perry Anderson, Emir Sader, Flávio Aguiar e Ruy Braga

Promoção: Boitempo, Clacso, Cenedic e Programa de Pós-graduação em Sociologia da USP

Dia 17/11, no Auditorio de Cultura japonesa da USP (Av. Prof. Lineu Prestes, 159, Cidade Universitária) , às 19h. Mais informações pelo telefone (11) 3875 7285.

Entrada gratuita

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As duas facetas de Keynes

Chris Harman

Economistas de esquerda e de direita apresentam as idéias e propostas de Keynes como resposta à atual crise do capitalismo. Desde as teorias de Keynes, pretende-se fazer pequenas mudanças que não desafiem fundamentalmente o funcionamento do capitalismo. Não é hora, para quem se reivindica de esquerda, de reconhecer suas debilidades?

"Hoje, todos acham que foi um grande economista". É o que diz um artigo do Financial Times sobre John Maynard Keynes. E é o que aparenta ser. Dizem que Keynes mostrou nos anos 30 como superar as crises e que seus métodos podem ser aplicados aos dias atuais.

Entretanto, há um grande erro nesta mensagem. Keynes nunca mostrou como superar as crises nos anos 30, o que fez foi polemizar impiedosamente contra aqueles que consideravam que as crises poderiam ser superadas a partir da piora das condições de vida dos trabalhadores e que, em última instância, era o preço a ser pago para salvar a economia de mercado. Os argumentos de Keynes sobre a idiotice de acreditar que o mercado solucionaria nossos problemas continuam relevantes para os dias de hoje.

Os economistas convencionais de hoje confiam na chamada Lei de Say que defende que não se pode gerar uma crise de superprodução porque alguém sempre compra algo que alguém vende. Keynes tinha um ponto de vista que já havia sido colocado 60 anos antes por Karl Marx (mesmo que Keynes tenha dito que leu algumas poucas páginas das obras de Marx): tudo que é produzido pela economia apenas pode ser vendido se os trabalhadores gastam todo seu salário e os capitalistas gastam todos seus lucros. Os trabalhadores não podem evitar com que gastem todo seu salário. Mas os capitalistas podem decidir guardar seus lucros em bancos ou "debaixo da cama", ao invés de utilizá-los para investimentos ou gastos próprios. Neste caso, abre-se uma brecha entre o que se produz e o que se pode vender.

Aos que diziam que mais bens podem ser vendidos e que o desemprego pode desaparecer se os trabalhadores aceitassem reduções salariais - o que permitiria uma queda nos preços - Keynes respondeu que isto significava que os trabalhadores comprariam menos bens. E, conseqüentemente, implicaria em mais reduções salariais e diminuição das vendas. Desta maneira, ele destruiu o argumento que era utilizado como justificativa para não fazer nada sobre as massas desempregadas. Mas ele não encarou seus argumentos como "anticapitalistas", mas sim como uma forma de convencer os capitalistas a aceitar mudanças que poderiam salvar o capitalismo.

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Crise econômica em Portugal faz brasileiros voltarem

Por Redação: Revista Fórum

Por Esquerda.net.

crise econômica Nos últimos dois anos triplicaram os pedidos de ajuda na missão portuguesa da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Com o objetivo de obter apoio para regressar ao país de origem, a maioria dos pedidos é de imigrantes brasileiros, cerca de 76%, que encontram-se desempregados em Portugal.
Os números da OIM, que representam apenas uma pequena amostra do complexo fenômeno da imigração, dão importantes indícios sobre o impacto da crise econômica e das políticas de imigração em Portugal. A dificuldade em obter dados fidedignos sobre os fluxos de imigração tornam a tarefa da análise quantitativa do fenômeno quase impossível.

Segundo a OIM, até ao final de outubro 854 estrangeiros tinham procurado apoio para regressar para os seus países de origem, mais 220 do que em todos os pedidos do ano passado, e quase o triplo dos feitos em 2007, ano em que o número total de pedidos foi 320. Os números avançados pela OIM reforçam a percepção de muitas associações de imigrantes e investigadores que afirmam que o aumento acentuado do desemprego teve fortes impactos na população imigrante.
A grande presença de brasileiros entre os imigrantes que fizeram o pedido junto a OIM também é explicada por um sentimento de melhora em relação à economia brasileira.

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Fim da crise econômica é ilusória e momentânea

Escrito por Guilherme Costa Delgado

19-Ago-2009 – Correio da Cidadania

Temos lido e visto com freqüência notícias alvissareiras sobre o fim da crise econômica, especialmente daquela que se abateu sobre a economia brasileira desde o último trimestre de 2008.

Em resposta às políticas econômicas, houve sucessivas reações dos mercados externo e interno nos dois últimos trimestres em termos de produção, emprego, comércio externo e consumo interno. A partir destes sinais, especula-se sobre o fim da crise econômica e a retomada do ciclo de crescimento da economia mundial e, dentro desta, da economia brasileira. Mas esta é apenas a parte visível e conjuntural de um fenômeno mais complexo: o funcionamento da economia mundial e sua tendência recorrente a crises financeiras nos últimos 30 anos, cada vez mais freqüentes e profundas.

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A crise está em crise?

“Qualquer prognóstico para os próximos meses é terrivelmente incerto - o que é um dado objetivo a mais para demonstrar a profundidade da crise”, Sérgio Lessa.

 

11/08/2009

Dafne Melo

da Redação – Brasil de fato

“Passado quase um ano desde a hecatombe econômica de setembro, o mundo já dá sinais de que começa a sair da crise”. A frase, do diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, também primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em artigo escrito para a Folha de S. Paulo do dia 4, não é uma percepção isolada. Todos os dias, a imprensa corporativa divulga notícias animadoras de recuperações aqui e acolá. Estaria a crise sendo superada? De acordo com cinco especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, não. Não somente porque ela é estrutural, mas porque os gargalos que a originaram, em setembro de 2008, não foram solucionados, mas apenas amenizados, o que certamente não se sustentará por muito tempo.

Quem são os entrevistados:

Adriano Benayon é economista e foi professor da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Rio Branco.

Fábio Bueno é economista e militante da Consulta Popular.

José Carlos de Assis é engenheiro de formação e presidente do Instituto Desemprego Zero.

Leda Paulani é professora do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Sérgio Lessa é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

 

Futuro - Qual seu prognóstico para os próximos meses?

 

 

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Adriano Benayon

O colapso financeiro vai se agravar mais ainda do que ocorreu nos momentos mais difíceis que se sucederam desde meados de 2007, principalmente nos EUA e na Europa. É provável que o dólar não possa mais ser sustentado, nem mesmo do modo que está ocorrendo nos últimos meses, isto é, com moderada, mas persistente desvalorização. A crise das moedas deve abranger, além do dólar (este em maior grau), também a libra esterlina, o euro, o franco suíço e o yen.

No Brasil, os reflexos só não serão muito negativos se o governo se tornar mais independente das decisões externas, fazendo desatrelar, o máximo possível, a economia brasileira da vinculação ao dólar e da prioridade ao comércio exterior. Urge nacionalizar a economia, voltar-se para o mercado interno e para o intercâmbio com a América do Sul, Rússia, Índia e alguns outros países menos associados aos hegemônicos.

Fábio Bueno

Internacionalmente, ganhará mais corpo o debate de uma nova onda de ajuste neoliberal dos Estados, diante do aumento exponencial da dívida pública, ligada aos mega pacotes de ajuda. O comércio internacional e a produção industrial continuarão se retraindo no próximo semestre, cabendo acompanharmos sua intensidade. Não está descartada nova rodada de empréstimos públicos aos bancos visando resolver os problemas que se arrastam desde 2007. Por fim, as taxas de desemprego mostram claramente uma tendência de elevação nos próximos meses, principalmente no âmbito da OCDE.

No Brasil, mostra-se uma tendência de alteração das políticas estatais, pois a manutenção da ajuda à burguesia em um quadro de queda da arrecadação e dificuldades de renovação da dívida exigirá cortes em outras áreas, como a social.

José Carlos de Assis

Sombrios a curto prazo, luminosos a médio e longo prazo: num livro que escrevi sobre a crise, A Crise da Globalização, sustento que estamos deixando a Idade Moderna, baseada no princípio da liberdade irrestrita em todos os campos, para entrar na Idade da Cooperação, sem a qual será impossível superar a crise econômica, a crise ambiental, a crise política e os desafios da investigação científica.

Leda Paulani

É difícil, acho que há problemas não resolvidos na economia estadunidense e essa questão da confiança deixa tudo instável. Pode-se ter subidas e descidas. De aqui até uns 12 meses vamos viver numa gangorra, como temos visto.

Sérgio Lessa

Incerto. Não há nada mais incerto do que qualquer prognóstico para os próximos meses. Há crescentes indícios de que os pacotes de ajuda (uma montanha de capital fictício que apenas intensifica a contradição trazida ao sistema do capital pelo crescimento exorbitante – para o próprio capital – do capital fictício) não foram capazes de gerar novas bolhas econômicas para puxar a economia para fora da crise, mesmo que momentaneamente. Some-se a isso as incertezas quanto às crises militares e à situação dos EUA no Afeganistão e no Iraque, as incertezas do que vai ocorrer com a pandemia da gripe suína e, por fim, as incertezas do comportamento das crescentes tensões sociais nos grandes centros urbanos. Qualquer prognóstico para os próximos meses é terrivelmente incerto – o que é um dado objetivo a mais para demonstrar a profundidade da crise.

Diante de um aparente cenário de calmaria, reforçado pela imprensa, resta perguntar: a crise acabou?

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A crise está em crise?

Diante de um aparente cenário de calmaria, reforçado pela imprensa, resta perguntar: a crise acabou?

Diante de um aparente cenário de calmaria, reforçado pela imprensa, resta perguntar: a crise acabou?

11/08/2009

Dafne Melo

da Redação

“Passado quase um ano desde a hecatombe econômica de setembro, o mundo já dá sinais de que começa a sair da crise”. A frase, do diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, também primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em artigo escrito para a Folha de S. Paulo do dia 4, não é uma percepção isolada. Todos os dias, a imprensa corporativa divulga notícias animadoras de recuperações aqui e acolá. Estaria a crise sendo superada? De acordo com cinco especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, não. Não somente porque ela é estrutural, mas porque os gargalos que a originaram, em setembro de 2008, não foram solucionados, mas apenas amenizados, o que certamente não se sustentará por muito tempo.

Quem são os entrevistados:

Adriano Benayon é economista e foi professor da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Rio Branco.

Fábio Bueno é economista e militante da Consulta Popular.

José Carlos de Assis é engenheiro de formação e presidente do Instituto Desemprego Zero.

Leda Paulani é professora do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Sérgio Lessa é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Reação da esquerda - A esquerda tem respondido à crise de maneira satisfatória? Tem conseguido pautar suas alternativas?

 

No quadro de fragmentação que marca a esquerda brasileira na década de 2000, conseguimos depois de muito tempo mobilizações unitárias em torno do tema da crise”, Fábio Bueno

“No quadro de fragmentação que marca a esquerda brasileira na década de 2000, conseguimos depois de muito tempo mobilizações unitárias em torno do tema da crise”, Fábio Bueno

Adriano Benayon

“Esquerda” é uma palavra que abrange muita gente diferente uma da outra. Grande parte dessa gente parece ter um fraco pelo capitalismo concentrador e fica, por exemplo, fazendo novas teorizações de como Marx e outros estudaram a natureza das crises do capitalismo. São poucos os que buscam novos caminhos. Muitos dos partidos políticos que se diziam ou se dizem de esquerda não têm divisado caminhos verdadeiros para sair da crise. Esses caminhos passam por completa modificação das relações e da estrutura do poder econômico e do poder político. A maioria acredita ser viável conviver com a presente estrutura de poder, sem que se aprofunde a destruição da civilização.

Fábio Bueno

Diante do fato de que os impactos da crise se concentraram no trabalho assalariado, a esquerda adotou uma estratégia correta até o momento. No quadro de fragmentação que marca a esquerda brasileira na década de 2000, conseguimos depois de muito tempo mobilizações unitárias em torno do tema da crise, em que pese os grandes problemas operacionais e políticos enfrentados nesses atos. Isso é um fato importante. Isso não diminui o desafio dos sindicatos que foram chamados a combater o ajuste empresarial nos direitos trabalhistas, mostrando sérios limites de atuação. A esquerda deve ficar mais do que atenta ao rebaixamento dos direitos trabalhistas que a burguesia tenta e tentará colocar.

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A crise está em crise?

Diante de um aparente cenário de calmaria, reforçado pela imprensa, resta perguntar: a crise acabou?

 

11/08/2009

Dafne Melo

da Redação – Brasil de Fato

“Passado quase um ano desde a hecatombe econômica de setembro, o mundo já dá sinais de que começa a sair da crise”. A frase, do diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, também primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em artigo escrito para a Folha de S. Paulo do dia 4, não é uma percepção isolada. Todos os dias, a imprensa corporativa divulga notícias animadoras de recuperações aqui e acolá. Estaria a crise sendo superada? De acordo com cinco especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, não. Não somente porque ela é estrutural, mas porque os gargalos que a originaram, em setembro de 2008, não foram solucionados, mas apenas amenizados, o que certamente não se sustentará por muito tempo.

Quem são os entrevistados:

Adriano Benayon é economista e foi professor da Universidade de Brasília (UnB) e do Instituto Rio Branco.

Fábio Bueno é economista e militante da Consulta Popular.

José Carlos de Assis é engenheiro de formação e presidente do Instituto Desemprego Zero.

Leda Paulani é professora do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Sérgio Lessa é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

 

 

Oscilações - Especialistas afirmam que em um período de crise há oscilações entre momentos mais agudos e outros de "alívio". Em que momento da crise estamos?

 

“A crise de 1929 foi na verdade a crise dos anos 1930. As consequências se estenderam até metade da década, e ao longo dela houveram recuperações e momentos piores”, Leda Paulani


11/08/2009

Adriano Benayon

Nem chega a ser de alívio. O que pensam ser alívio é apenas um período de aparente melhora em alguns setores, prenunciando nova e profunda recaída.

Fábio Bueno

Definitivamente estamos em um momento de calmaria e isso é consensual na esquerda e na direita. Entretanto, enquanto a burguesia encara o momento como um sinal de inflexão, da chegada ao fundo do poço em direção a uma retomada (mesmo lenta e gradual), a esquerda olha a calmaria como aquelas pequenas encostas que amortecem momentaneamente a queda um precipício ou como o olho de um furacão, que traz calmaria antes da segunda parte da tempestade chegar. No plano mais geral e internacional, a intensidade de desvalorização dos capitais vem sendo menor do que se esperaria em uma crise dessa proporção, o que recoloca para o capital problemas mais agudos à frente e ao trabalho um período de maiores ataques e tentativas de aumento da exploração, de modo a mitigar as necessárias desvalorizações generalizadas no estoque de capital.

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