Arquivo de Literatura

Faleceu o prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter

Por TeleSUR. Inglaterra

Pinter foi um grande defensor da Revolução Cubana e do seu líder Fidel Castro, e formou parte do Comitê Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, quando o ex-presidente sérvio estava preso na Haia, acusado de genocídio e outros crimes na antiga Iugoslávia.

Por TeleSUR.

O Prêmio Nobel de Literatura 2005, o britânico Harold Pinter faleceu nesta quarta-feira à idade de 78 anos por causa de um câncer que sofria há vários anos, anunciou nesta quinta-feira sua esposa, Lady Antonia Fraser.

Em um correio eletrônico, a agente de Pinter, Judy Daish informou que o dramaturgo morreu de câncer na quarta-feira e que em uma data ainda a precisar, terá os funerais privados e discretos.

Pinter, laureado com o Nobel em 2005, sofria de câncer fazia vários anos. Fraser disse ao jornal The Guardian: “Era um grande e foi um privilégio morar com ele durante 33 anos”.

Entre suas obras se destacam “The Birthday Party” (“A festa de aniversário”) e “The Homecoming” (“O retorno a casa”) e “The Dumb Waiter” (“O ajeitador de pratos”), que recorrem correntemente ao jargão do seu bairro, Hackney, no leste de Londres, onde nasceu em 10 de outubro de 1930.

Filho de um alfaiate judeu, Pinter era conhecido por seus posicionamentos políticos, como sua oposição à guerra do Iraque, que o levou a atacar com dureza ao primeiro ministro britânico Tony Blair y ao presidente estadunidense George W. Bush na mensagem de aceitação do Nobel.

Em 2005, Pinter anunciou que deixava de escrever peças de teatro para concentrar-se na poesia e realiza incursões na interpretação e na escrita de roteiros.

Trás receber tratamento pelo câncer de esôfago que lhe foi diagnosticado em 2002, voltou à cena, conseguindo críticas muito favoráveis pela sua interpretação do monólogo de Samuel Beckett “A última fita” (“Krapp”s Last Tape”), em Londres em 2006.

O sucesso lhe chegou com “The Caretaker” (“O guarda noturno”), obra que transformará em roteiro cinematográfico para ser filmada em 1963.

Pintar escreverá outros roteiros como o de “A mulher do tenente francês”, filmada em 1981 e interpretada por Jeremy Irons y Meryl Streep.

Prolífica carreira

Durante sua prolífica carreira escreveu 29 obras, 21 adaptações para cinema (entre elas “A amante do tenente francês”) e dirigiu 27 produções teatrais.

Ao longo de sua vida ganhou diversos galardões: o Prêmio Nobel de Literatura em 2005, o Prêmio Shakespeare, o Prêmio Europeu de Literatura, o Prêmio Britânico de Literatura David Cohen e o Galardão Olivier, entre outros.

Além do reconhecimento que obteve pela sua produção literária, Pinter era conhecido pelas suas opiniões de esquerda, e fez pública sua oposição à política exterior dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Também foi um grande defensor da Revolução cubana e do seu líder Fidel Castro, e formou parte do Comitê Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, quando o ex-presidente sérvio estava preso na Haia, Holanda, acusado de genocídio e outros crimes de guerra na antiga Iugoslávia.

También fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

TeleSUR - Afp - Bbc / ff-/IM

Versão em português: Raul Fitipaldi, de América Latina Palavra Viva.

Falleció el premio Nobel de Literatura Harold Pinter

Pinter fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

Por TeleSur.

El Premio Nobel de Literatura 2005, el británico Harold Pinter falleció este miércoles a los 78 años de edad debido a un cáncer que sufría hace varios años, anunció este jueves su esposa, Lady Antonia Fraser.

En un correo electrónico la agente de Pinter, Judy Daish, informó que el dramaturgo murió de cáncer el miércoles y que en una fecha por precisar, tendrá unos funerales privados y discretos.

Pinter, laureado con el Nobel en 2005, sufría cáncer desde hacía varios años. Fraser dijo al diario The Guardian: “Era un grande y fue un privilegio vivir con él durante 33 años”.

Entre sus obras destacan “The Birthday Party” (”La fiesta de cumpleaños”) y “The Homecoming” (”El regreso a casa”) y “The Dumb Waiter” (”El montaplatos”), que recurren a menudo a la jerga de su barrio, Hackney, en el este de Londres, donde nació el 10 de octubre de 1930.

Hijo de un sastre judío, Pinter era conocido por sus posicionamientos políticos, como su oposición a la guerra de Irak, que le llevó a cargar con dureza contra el primer ministro británico Tony Blair y el presidente estadounidense George W.Bush en el mensaje de aceptación del Nobel.

En 2005, Pinter anunció que dejaba de escribir obras de teatro para concentrarse en la poesía y realizar incursiones en la interpretación y la escritura de guiones.

Tras recibir tratamiento por el cáncer de esófago que le fue diagnosticado en 2002, volvió a escena, consiguiendo críticas muy favorables por su interpretación del monólogo de Samuel Beckett “La última cinta” (”Krapp’s Last Tape”), en Londres en 2006.

El éxito le llegó con “The Caretaker” (”El guardián nocturno”), obra que transformará en guión cinematográfico para ser filmada en 1963.

Pinter escribirá otros guiones, como el de “La mujer del teniente francés”, filmada en 1981 e interpretada por Jeremy Irons y Meryl Streep.

Prolífica carrera

Durante su prolífica carrera escribió 29 obras, 21 adaptaciones para cine (entre ellas “La amante del teniente francés”) y dirigió 27 producciones teatrales.

A lo largo de su vida ganó diversos galardones: el Premio Nobel de Literatura en 2005, el Premio Shakespeare, el Premio Europeo de Literatura, el Premio Británico de Literatura David Cohen y el Galardón Olivier, entre otros.

Además del reconocimiento que obtuvo por su producción literaria, Pinter era conocido por sus opiniones políticas de izquierda, e hizo pública su oposición a la política exterior de Estados Unidos y del Reino Unido.

También fue un gran defensor de la Revolución cubana y de su líder Fidel Castro, y formó parte del Comité Internacional para Defender a Slobodan Milosevic, cuando el ex presidente serbio estaba preso en La Haya, Holanda, acusado de genocidio y otros crímenes de guerra en la antigua Yugoslavia.

TeleSUR - Afp - Bbc / ff-/IM

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Editores

Por José Saramago

Voltaire não tinha agente literário. Não o teve ele nem nenhum escritor do seu tempo e de largos tempos mais. O agente literário simplesmente não existia. O negócio, se assim lhe quisermos chamar, funcionava com dois únicos interlocutores, o autor e o editor. O autor tinha a obra, o editor os meios para publicá-la, nenhum intermediário entre um e outro. Era o tempo da inocência. Não quer isto dizer que o agente literário tenha sido e continue a ser a serpente tentadora nascida para perverter as harmonias de um paraíso que, verdadeiramente, nunca existiu. Porém, directa ou indirectamente, o agente literário foi o ovo posto por uma indústria editorial que havia passado a preocupar-se muito mais com um descobrimento em cadeia de best-sellers que com a publicação e a divulgação de obras de mérito. Os escritores, gente em geral ingénua que facilmente se deixa iludir pelo agente literário do tipo chacal ou tubarão, correm atrás de promessas de vultosos adiantamentos e de promoções planetárias como se disso dependesse a sua vida. E não é assim. Um adiantamento é simplesmente um pagamento por conta, e, quanto a promoções, todos temos a obrigação de saber, por experiência, que as realidades ficam quase sempre aquém das expectativas.

Estas considerações não são mais que uma modesta glosa da excelente conferência pronunciada por Basílio Baltasar em finais de Novembro no México, com o título de “A desejada morte do editor”, na sequência de uma entrevista dada a “El País” pelo famoso agente literário Andrew Willie. Famoso, digo, embora nem sempre pelas melhores razões. Não me atreveria, nem seria este o lugar adequado, a resumir as pertinentes análises de Basilio Baltasar a partir da estulta declaração do dito Willie de que “O editor é nada, nada” e que me recorda as palavras de Roland Barthes quando anunciou a morte do autor… Afinal, o autor não morreu, e o ressurgimento do editor amante do seu trabalho está nas mãos do editor, se assim o quiser. E também nas mãos dos escritores a quem vivamente recomendo a leitura da conferência de Basilio Baltasar, que deverá ser publicada, e um seu consequente debate.

Blog: O Caderno de Saramago

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Palavras

José Saramago

Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.

Do Blog: O Caderno de Saramago

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Impressionismo em tons de cinza

Entre as primeiras vítimas de uma ditadura, seja de direita ou de esquerda, está a história. Esta frase é um clichê, mas isso só prova que clichês não devem ser descartados de pronto, e sim olhados com cuidado. A narrativa histórica é empobrecida e castigada durante os regimes de exceção e, infelizmente, também após a sua derruba. A política e a moral continuam a simplificar a narrativa sobre esses períodos – por vezes apenas invertendo os pólos de valoração –, não fazendo jus à experiência daqueles que o atravessaram. História do pranto, de Alan Pauls (Editora Cosac Naify), desafia a historicidade convencional, ao mesmo tempo em que realiza uma ficção de qualidade, com escolhas de estilo inusitadas.

Como um período histórico deve ser necessariamente sentido? Como um regime de exceção tem que ser lembrado? A história do pranto vasculha a sensibilidade de um personagem não nomeado, que viveu parte da infância e adolescência durante o regime militar argentino. Resgatar sentimentalmente o que aconteceu, identificar o seu peso, não é uma perspectiva nova à ficção de Pauls. O leitor brasileiro conheceu o autor justamente com a edição de O passado, um romance de 470 páginas sobre um relacionamento mal terminado. Neste novo livro, também traduzido por Josely Vianna Batista, Pauls afina esse olhar retrospectivo para entrelaçar história pessoal e história política. A sua técnica se mostra em um nível superior: continuam os períodos textuais enormes, que mais cercam o momento do que o colocam em fluxo – porém a sua frase está menos mecânica e mais rica. Mesmo sendo uma obra curta – uma novela de fato, com apenas 85 páginas –, o leitor tem a impressão de que leu uma obra de fôlego muito maior, pelo alcance da prosa do argentino. Nela, a infância é apresentada pela atenção detalhada do protagonista aos machucados no corpo (nos dedos), aos detalhes de uma piscina em que está mergulhado e, simultaneamente, pelo modo com que a sua mente se joga em alguma narrativa fantasiosa, inspirada na TV. A infância aparece como uma mistura de extremos, entre a corporalidade acentuada e a fantasia, e é nessa mistura que a sensibilidade individual passa a ser construída. Esses dois extremos estão presentes na seguinte passagem:

“[E]le cruza a sala com toda pressa, vestido com a patética roupa de Super-Homem que acaba de ganhar de presente, e com os braços estendidos para frente, numa tosca simulação de vôo, pato com talas nas asas, múmia ou sonâmbulo, atravessa e estilhaça o vidro da janela francesa que dá para a sacada. Um segundo depois volta a si, como se acordasse de um desmaio. Descobre-se de pé entre floreiras, apenas um pouco acalorado e trêmulo. Olha suas mãos e vê, como que desenhados, dois ou três filetes de sangue escorrendo-lhe pelas palmas.

O que o salvou não foi a compleição de aço do super-herói que ele evoca, como poderia parecer à primeira vista e como logo irão cuidar de repetir os relatos destinados a manter viva essa façanha, a mais chamativa, senão a única, de uma infância que, aliás, destinada desde o início em não chamar a atenção, prefere ir levando em atividades solitárias, leitura, desenho, a juveníssima televisão da época, indícios de que isso que em geral chamamos de mundo interior e que define, ao que parece, crianças um tanto esquisitas, nele é consideravelmente mais desenvolvido do que na maioria dos meninos de sua idade. O que o salvou foi sua própria sensibilidade…”

Autoritarismo e universo individual

Esse olhar reflexivo vai recair sobre o pranto, sobre quando se deve chorar ou não. Enquanto a realidade política vai penetrando o ambiente do personagem, tal consciência sobre a própria sensibilidade se torna o fio condutor do livro. Militares andam nas ruas perto da sua casa, um deles se torna seu vizinho. Ao lado dessa realidade imediata, vemos se formar na vida social um tipo de teatro para o tratamento da política, em se que busca definir posições e sentimentos de antemão. Seu pai, que é divorciado de sua mãe e é um oposicionista clandestino, leva-o para o show de um cantor de protesto recém-anistiado, onde há uma discrepância evidente entre o que se vê e o que deveria acontecer:

“O punhado de homens e mulheres a que se reduz a audiência com a qual se reencontra nessa noite o cantor de protesto, o mesmo que apenas sete ou oito anos atrás lota estádios e cede, satisfeito, suas melodias aos redatores de palavras de ordem militantes, não pode não ser um sinal, e um sinal não dos melhores, sobretudo quando a penumbra calculada do ‘pub’, o falso antigo de seus revestimentos de madeira, o ar radiante dessas mulheres vestidas de branco e esses homens bronzeados que seguram copos longos na mão reproduzem ao pé da letra o clima, a cenografia e os protagonistas dos anúncios gráficos de marcas de cigarros ou de uísque que ocupam as contracapas das revistas de atualidades que há seis anos denunciavam o cantor de protesto como uma ameaça e exigiam a proibição de suas canções.”

Já adolescente, o protagonista tem grande interesse pela sua época, compra periódicos políticos de oposição e lê os intelectuais de esquerda importantes. Porém, algo indefinido o impede de ter a emoção que considera correta. Pela TV, vendo com um amigo a derrubada de Salvador Allende no Chile, ele fica perplexo; contudo, ao contrário da companhia ao lado, não consegue chorar. Uma incapacidade que o faz sentir-se frustrado. Ironicamente, a imagem do Super-Homem, figura pop americana, sempre volta como símbolo do posicionamento justo e corajoso, ao que o protagonista não consegue se colocar à altura.

História do pranto é uma obra claramente política, mas que não procura validar as narrativas convencionais da direita ou da esquerda. Alan Pauls cria a sua ficção reconstruindo o contato complexo do autoritarismo com o universo individual. Para esse fim, o autor argentino faz algumas opções pouco triviais. Primeiramente, embora seja um texto de teor memorialista, ele é narrado em terceira pessoa. Essa voz narrativa, por sua vez, oscila entre uma visão bem próxima e intimista – em termos práticos, idêntica a de uma primeira pessoa – e uma perspectiva distanciada de análise. Em segundo lugar, se os longos parágrafos e as recordações interligadas e fluidas podiam sugerir um texto calcado no impressionismo proustiano, Pauls prefere fazer uma rememoração esvaziada de lirismo, em tons cinzentos, como se quisesse evitar a passionalidade em geral ligada ao tema. Essas duas escolhas podem fazer o livro ser confuso e sufocante para alguns leitores, mas garantem também que ele seja único e surpreendente. Assim como Respiração artificial, de Ricardo Piglia – que assina uma pequena apresentação na contracapa do livro de Pauls –, História do pranto já pode ser considerada uma obra importante sobre o período de exceção latino-americano. As duas obras exemplificam o poder da literatura quando falta riqueza à historicidade e, não menos importante, são textos que se sustentam por si como boa ficção.

Assim como “Respiração artificial”, de Ricardo Piglia, “História do pranto” já pode ser considerada uma obra importante sobre o período de exceção latino-americano

Marco Polli

(01/12/2008)

Le Monde Diplomatique Brasil

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A humanidade não merece a vida, diz Saramago

Prêmio Nobel português se define como um “comunista hormonal” e afirma que os instintos servem melhor aos animais do que a razão aos homens

O ESCRITOR português José Saramago, 86, disse ontem que “a história da humanidade é um desastre” e que “nós não merecemos a vida”. O autor, vencedor do Nobel de Literatura em 1998, participou de sabatina da Folha em celebração dos 50 anos da Ilustrada. O debate, assistido por 300 pessoas em um Teatro Folha lotado, teve como mediador o secretário de Redação do jornal Vaguinaldo Marinheiro. Participaram também, como entrevistadores, o crítico Luiz Costa Lima, a repórter da Ilustrada Sylvia Colombo e Manuel da Costa Pinto, colunista do caderno.

DA REPORTAGEM LOCAL

HUMANIDADE
A história da humanidade é um desastre contínuo. Nunca houve nada que se parecesse com um momento de paz. Se ainda fosse só a guerra, em que as pessoas se enfrentam ou são obrigadas a se enfrentar… Mas não é só isso. Esta raiva que no fundo há em mim, uma espécie de raiva às vezes incontida, é porque nós não merecemos a vida. Não a merecemos. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar o outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto. Se fizermos um cálculo de quantos delinqüentes vivem no mundo, deve ser um número fabuloso. Vivemos na violência. Não usamos a razão para defender a vida; usamos a razão para destruí-la de todas as maneiras -no plano privado e no plano público.

MARXISMO HORMONAL
Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo está errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que se esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa idéia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal. O que isso quer dizer? Assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista.

CRISE ATUAL
Marx nunca teve tanta razão quanto agora. O trabalho constrói, e a privação dele é uma espécie de trauma. Vamos ver o que acontece agora com os milhões de pessoas que vão ficar sem emprego. A chamada classe média acabou. Ou melhor: está em processo de desagregação. Falava-se em dois anos [para a recuperação da economia depois da crise financeira]; agora já se fala em três. Veremos se Marx tem ou não razão.

DEUS E BÍBLIA
Por que eu teria de mudar [a concepção de Deus após a doença]? Porque supostamente me salvou a vida? Quem me salvou foram os médicos e a minha mulher. E Deus se esqueceu de Santa Catarina? Não quero ofender ninguém, mas Deus não existe. Salvo na cabeça das pessoas, onde está o diabo, o mal e o bem. Inventamos Deus porque tínhamos medo de morrer, acreditávamos que talvez houvesse uma segunda vida. Inventamos o inferno, o paraíso e o purgatório. Quando a igreja inventou o pecado, inventou um instrumento de controle, não tanto das almas, porque à igreja não importam as almas, mas dos corpos. O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos. A Bíblia foi escrita ao longo de 2.000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos…

RELAÇÃO COM PORTUGAL
Espalham por aí idéias sobre minha relação com meu país que não estão corretas. Saímos [Saramago e sua mulher, Pilar] de Lisboa [para a ilha de Lanzarote] em conseqüência de uma atitude do governo, não do país nem da população. Mas do governo, que não permitiu que meu livro [”O Evangelho Segundo Jesus Cristo”] fosse inscrito num prêmio da União Européia. Nunca tive problemas com o meu país, mas com o governo, que depois não foi capaz de pedir desculpas. Nisso, os governos são todos iguais, dificilmente pedem desculpas. Fomos para lá e continuamos pagando impostos em Portugal. Agora temos duas casas. Mudei de bairro, porque o vizinho me incomodava. E o vizinho era o governo português.

ACORDO ORTOGRÁFICO
Em princípio, não me parecia necessário. De toda forma, continuaríamos a nos entender. O que me fez mudar de opinião foi a idéia de que, se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única. Se Portugal tivesse 140 milhões de habitantes, provavelmente teríamos imposto ao Brasil a nossa grafia. Acontecem que os 140 milhões estão no Brasil, e o Brasil tem mais presença internacional. Perderíamos muito com a idéia de que o português é nosso, nós o tornaríamos uma língua que ninguém fala. Quando acabou o “ph”, não consta que tenha havido uma revolução.

LITERATURA BRASILEIRA
Houve um tempo em que os autores brasileiros estavam presentes em Portugal, e em alguns casos podíamos dizer que conhecíamos tão bem a literatura brasileira quanto a portuguesa. Graciliano Ramos, Jorge Amado, os poetas, como João Cabral [de Melo Neto], Manuel Bandeira, essa gente era lida com paixão. Para nós, aquilo representava a voz do Brasil. Agora, que eu saiba, não há nenhum escritor brasileiro que seja lido com paixão em Portugal. Culpo a mim, talvez, por não ter a curiosidade. Mas também não temos a obrigação de descobrir aquilo que nem sabemos se existe.

LEITOR
O leitor me importa só depois que escrevi. Enquanto escrevo, não importa, porque não se escreve para um leitor específico. Há dois tempos, o tempo em que o autor não tinha leitores e o tempo em que tem. Mas a responsabilidade é igual, é com o trabalho que se faz. Agora, eu penso nos leitores quando recebo cartas extraordinárias. É um fenômeno recente. Ninguém escreveu a Camões, mas hoje há essa comunicação, essa ansiedade do leitor.

“Em nome de todos os brasileiros, obrigada por existir”, disse alto, ao final da sabatina, uma integrante da platéia, enquanto Saramago terminava de falar.

Folha de S. Paulo - 29 de novembro de 2008

Assista ao vídeo da sabatina

www.folha.com.br/0833310

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Gabriel García Márquez

por Ivan Marques
Jornalista e professor

O maior livro da língua espanhola depois de “Dom Quixote” – foi o que disseram o poeta chileno Pablo Neruda, o escritor mexicano Carlos Fuentes e outros fãs ardorosos de Gabriel García Márquez.

O romance é a síntese do chamado “realismo mágico”. Essa mistura entre os planos da realidade e da imaginação marcou escritores de vários países. Autores bem diferentes como o argentino Júlio Cortázar, o cubano Alejo Carpentier e o peruano Mário Vargas Llosa, responsáveis pelo “boom” da literatura latino-americana na segunda metade do século 20.

Em “Cem anos de solidão”, García Márquez narra a fundação da aldeia Macondo. Ao contar a saga dos Aurelianos e José Arcadios, apresenta um desfile de fantasias, arbitrariedades, guerras e tragédias. Amor, poder, morte e a interminável marcha do ser humano em direção à mais completa solidão.

García Márquez nasceu em 6 de março de 1928 em Aracataca, no litoral caribenho. Estudou direito, mas logo se apaixonou pelo jornalismo, que ele considera a melhor profissão do mundo, algo que marcou profundamente a sua carreira de escritor. Militante apaixonado, viveu anos fora de seu país, se tornou um dos maiores defensores de Fidel Castro, comprou briga com os americanos e chegou a fazer greve contra o ditador chileno Pinochet, ameaçando parar de escrever.

A greve foi interrompida com a publicação de um dos seus melhores livros, a novela “Crônica de uma morte anunciada”, de 1981. Essa narrativa dos momentos que antecedem um crime numa província caribenha não tem nada de mágico. É um relato bastante sóbrio, uma espécie de síntese entre jornalismo e literatura.

Do jornalismo de García Márquez, um dos melhores exemplos é “Notícias de um seqüestro”, livro sobre a guerra colombiana que ele escreveu quando voltou a morar no país.

Segundo o escritor, todos os seus livros tratam de um mesmo tema: a solidão. Solidão que às vezes resulta do poder, como se vê em “O outono do patriarca” e “Ninguém escreve ao coronel”, que foi filmado no México…

Poder sempre violento e arbitrário, como mostra “A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada”, que também ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Ruy Guerra.

E, em contraste com tanta desumanidade, também há espaço para a poesia do amor, que ele sempre considerou uma fonte de inspiração. Assim como a beleza da cidade de Cartagena, um dos principais cenários de suas histórias.

García Márquez recontou a história da América Latina como se estivesse escrevendo a Bíblia. Mas o que importa pra ele, mais do que a imaginação, é a memória. Realismo mágico? “Não invento nada”, garante. “O que tenho é apenas um grande poder de observação”.

Ivan Marques

Doutor em literatura brasileira pela USP, dirige o programa Entrelinhas, da TV Cultura. Na mesma emissora, também exerceu os cargos de editor e editor-chefe do programa Metrópolis. Realizou vários documentários culturais, especialmente sobre literatura, como “Versos diversos: a poesia de hoje”, “Orides: a um passo do pássaro” e “Assaré: o sertão da poesia”. Tem artigos publicados em livros, jornais e revistas.

Entrelinhas - TV Cultura

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Tropicália: uma revolução na cultura brasileira

por Veronica Stigger
Escritora
Entrelinhas - TV Cultura

Em seu livro de memórias, o crítico George Steiner afirma: “A literatura, a música e o pensamento sérios têm o hábito exasperante de serem produtivos sob tirania”. Este é o caso da Tropicália, talvez o fenômeno artístico mais inovador da cultura brasileira, englobando artes plásticas, música, cinema, teatro, literatura. A Tropicália surgiu em plena ditadura militar, um ano antes de ser decretado o nefasto ato institucional número 5, que previa, entre outras coisas, a cassação de mandatos políticos, a censura prévia e a privação das liberdades individuais.

Tudo teve início em 1967. Hélio Oiticica expôs a obra Tropicália no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dentro da mostra Nova Objetividade Brasileira. Inspirada nas favelas, esta instalação se constituía de dois penetráveis, pelos quais o público caminhava, como num labirinto, no fundo do qual tinha uma televisão ligada. Naquele mesmo ano, Caetano Veloso tomou emprestado o título da obra de Oiticica para uma de suas canções. Ainda em 1967, Caetano e Gilberto Gil surpreenderam o público do terceiro festival da Record com “Alegria, alegria” e “Domingo no Parque”, enquanto José Celso Martinez Corrêa revolucionava o teatro com a montagem de O rei da vela, de Oswald de Andrade. E, no cinema, Glauber Rocha estreava Terra em transe.

Atualmente, uma grande exposição no Rio celebra os 40 anos deste momento da arte brasileira. E o catálogo desta mostra traz seis artigos que fazem uma reavaliação do Tropicalismo, além de reproduzir manifestos e textos críticos da época.

Os ensaios do catálogo reafirmam a importância da figura de Oswald de Andrade para o tropicalismo. Houve, neste momento, uma interessante reapropriação de um aspecto específico do Modernismo brasileiro: a antropofagia, tal como preconizada por Oswald. Ou seja, deglutir as estéticas estrangeiras, para reprocessá-las, para subvertê-las, transformando-as em expressões nossas, singulares, paradoxalmente originais.

No “Manifesto Pau-Brasil”, Oswald de Andrade propôs uma poesia “de exportação”. Esta utopia de uma arte brasileira que pudesse conservar seu interesse mesmo num cotejo com a arte internacional de seu tempo só se realizou de fato depois que ultrapassamos o modernismo. É a Tropicália que vem despertando cada vez mais o interesse do mundo, influenciando os artistas, fascinando os críticos. Se a Tropicália é, nas palavras de Oiticica, “o grito do Brasil para o mundo”, tudo indica que este grito ainda vai ecoar por muito tempo.

Veronica Stigger

Nascida na cidade de Porto Alegre em 1973. Formou-se em jornalismo, mas deixou as redações para dedicar-se à pesquisa universitária. É doutora em teoria e crítica da arte pela USP, com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade. Desde 2001, vive em São Paulo. “O trágico e outras comédias”, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004, foi lançado em versão brasileira pela 7Letras.

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eu sou 300, eu sou 350 - Mário de Andrade

por Marcelo Coelho
Sociólogo, escritor e articulista
Entrelinhas - TV Cultura

Com o tempo, a imagem de Mário de Andrade foi mudando: crítico de música, pesquisador, grande orientador dos escritores mais jovens, criador do que viria a ser a secretaria municipal de cultura, Mário de Andrade é hoje reconhecido não só como artista, mas como uma figura de erudito, de professor, de teórico também.
Saiu agora pela editora Agir um livro que reúne vários depoimentos sobre Mário de Andrade, feitos por pessoas que o conheceram bastante. Em primeiro lugar, sua prima, Gilda de Mello e Souza, que viveu durante um tempo na famosa casa da rua Lopes Chaves. Mas também os críticos Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, a escritora Rachel de Queiroz e o jornalista Mauricio Loureiro Gama.
O título desse livro é tirado de um verso que abre o livro “Remate de Males”, de Mário de Andrade – eu sou 300, eu sou 350. Naturalmente há quem lembre a dedicação, a delicadeza de Mário de Andrade, seu lado de professor; muitos jovens se sentiam intimidados quando o conheciam, ou tinham medo de procurá-lo. É o caso de Mario da Silva Brito. Tinha visto Mário de Andrade muitas vezes tomando chope no bar Franciscano; nunca soube como se aproximar.
Terminou sendo apresentado a ele no final de uma conferência. Mário de Andrade convidou-o para conversar com ele algum dia, mas Silva Brito achou que era mera cortesia. Passa-se o tempo, eles se encontram de novo, e Mário da Silva Brito percebe que Mário de Andrade não se lembrava bem de quem ele era. “Não me reconheceu. E eu fui embora.” Ao chegar em casa à noite, encontra uma carta do Mário. É o poeta pedindo desculpas “são 18 horas, e a primeira coisa que faço é pedir perdão a você, tratei-o de maneira longínqua hoje à tarde!” Silva Brito resume: Mario de Andrade era um ser eminentemente ético.
Sua prima Gilda de Mello e Souza guarda lembranças bem diferentes do convívio familiar. Ela conta que Mário ria muito ao ver as crianças apavoradas com as histórias que contava. “Outra coisa que Mário de Andrade fazia”, diz Gilda, “era sentar-se à mesa e dizer coisas para minha irmã mais velha, que era com quem ele tinha mais lida, fazê-la chorar, porque ela chorava facilmente. Ele se sentava à mesa e dizia: “hoje eu vou fazer Maria chorar”. E ela dizia: “você não me faz chorar coisa nenhuma”. Ela já era mocinha, tinha 15 anos. Ele tantas fazia que ela acabava chorando mesmo. E saía da mesa; ele achava uma graça enorme.”
Crueldade, talvez, mais do que brincadeira. Estranha mistura de agressividade e dedicação, de sacrifício pelos outros e, sem dúvida, de jogo de gato e rato com os outros. Não é simples ser qualquer pessoa. Mas deve ter sido especialmente complicado ser Mário de Andrade. Sem ser indiscreto, este livro traz mais do que depoimentos protocolares sobre o escritor – mostra, quase como se fosse um romance, como sabemos pouco de cada um de nós, e de que modo mesmo um autor conhecido, sobre o qual tanto já se escreveu, continua a ser obscuro, inesgotável e vivo, tantos anos depois de sua morte.

Marcelo Coelho

Nascido em 1959, na cidade de São Paulo. Formado em Ciências Sociais pela FFCLH-USP, mestre em Sociologia com tese sobre a construção de Brasília e o governo Kubitschek. É articulista da Folha de S. Paulo desde 1984. Publicou, entre outros, “Gosto se discute” (Ed. Ática, 1994), “Jantando com Melvin” (Ed.Imago, 1998), e “Folha Explica Montaigne” (Publifolha, 2002). Seu mais recente livro é “Crítica Cultural: Teoria e Prática” (Publifolha, 2006).

Comentários

Em Os irmãos Karamázov, estão reunidas as principais vertentes da obra de Dostoiévski

Legado precioso

Aurora Bernardini

Ao se ler hoje a obra de um grande autor, vem imediato a pergunta do quanto dela ficou, o quanto permanece válida em nossos dias que se vêem continuamente desapossados de tantos dos valores do passado. De Fiódor Dostoievski (1821-1881), fica o estilo mais que atual, pois, como se sabe, não apenas escrevia de forma muito ágil - inicialmente para se manter dentro dos prazos dos editores, pois dependia dos adiantamentos para sobreviver, e depois por hábito - mas, uma vez esboçados, ele costumava ditar seus textos que, muitas vezes, nem pareciam revisados. Além disso, tal como Tchekhov, em alguns de seus contos, ele mimava a maneira de se expressar característica de cada personagem. O tradutor de Os irmãos Karamázov, Paulo Bezerra, comentou as suas dificuldades com a fala do irmão ilegítimo Smerdiákov, cheia de artimanhas, de modo que o resultado era uma linguagem muito viva, e o é agora, felizmente, sem aquela homogeneização a que era submetida via traduções indiretas. Fica a engenhosidade dos romances: neste, o último, iniciado dois anos antes da morte do autor, ele conseguiu reunir todas as vertentes de sua arte. “É um romance policial psicológico, como Crime e castigo; é, quanto a Dmítri, a história de um idealista mal julgado, como O idiota; é, quanto a Ivan, o romance dos intelectuais ateus, como Os demônios; é, quanto a Aliocha, a história da formação de um (homem) novo, como O adolescente” (Otto Maria Carpeaux , prefácio à edição da Ediouro, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes).

“Permanece a inteligência da urdidura, a universalidade dos temas, o gigantesco das personagens” (Joseph Frank, O manto do profeta - Edusp 2008), mas permanece também a pergunta, por sinal reforçada por Freud em Dostoiévski e o parricídio, de 1928: “Como é que o primeiro Dostoiévski, o de Gente pobre, exaltado pelo crítico populista Bielínski e condenado à morte (depois comutada) pelo czar por seu socialismo utópico (a crença num mundo melhor, nessa terra), se transforma no último Dostoiévski, submisso a esse mesmo czar, amigo do seu temível conselheiro K. P. Pobedonóstsev, invocando a fé não apenas nos valores morais cristãos, mas nos seus pressupostos sobrenaturais, como os proclamados por Aliocha na última página do romance “a única coisa que podia dar um sustentáculo seguro?”. A resposta de Freud, que não vamos comentar aqui e que implica sado-masoquismo e sentimento de culpa, é - como a grande maioria das suas grandes respostas - brilhante, apesar dos pequenos deslizes que o tempo revelou (não há certeza de que tenham sido os servos revoltados a matar o pai de Dostoiévski, como não era o abutre, mas sim o milhafre, a ave simbólica de Uma lembrança infantil de Leonardo da Vinci).
A resposta que dá o contemporâneo e, num certo sentido, rival, Lev Tolstói, (sete anos mais jovem que Dostoiévski, mas que morreu 29 anos mais tarde), ao escritor Maksím Gorki que o visita, já ancião, na Criméia (3 Russos- Martins-Martins Fontes, 2006) é seca e contundente: “Ele escreve sobre algo em que não acredita”.

Já Otto Maria Carpeaux propõe uma interpretação (aristotelicamente) dialética: “O romance Os irmãos Karamázov passa-se em dois níveis diferentes. Embaixo, a Rússia dos Karamázov, envolvida nas névoas da paixão sexual desenfreada, das bebedeiras e orgias, do crime mascarado e da justiça cega, das filosofias subversivas e das visões satânicas; o diabo aparece em pessoa para conversar com Ivan, que, por sua vez, dirige a mão do parricida. Em cima, o convento, luminoso como um reflexo de glória celeste. Essa dicotomia representa a visão dostoievskiana do futuro: o cristianismo salvará a Rússia (não o da Igreja de Roma, porém); e a Rússia fará o cristianismo vencer no mundo. Eis a mensagem de Dostoiévski, que ele lança contra a mensagem escondida na filosofia de Ivan e de todos os Ivans que esperam que a revolução salvará a Rússia e que a Rússia salvará o mundo. Pelo seu romance, afirma Dostoiévski que a primeira tese, a sua, é evangélica e que a outra é satânica. Mas não escapa à inteligência insubornável do escritor o fato de que as duas teses são, no fundo, idênticas: basta trocar um substantivo para transformar uma na outra”. Outros críticos e filósofos chegaram a uma descoberta próxima. Em Dostoiévski e a consciência cristã, hoje (1971), Pierre Pascal pergunta: “Mas este paraíso na terra, que Dostoiévski não define de outra forma, será ele cristão?

Os autores que trataram dessa noção em Dostoiévski vêem nela uma sobrevivência do antigo entusiasmo dele pelo “socialismo utópico”. Bem, dentro da polifonia dos romances dostoievskianos, a fala que mais impressiona o leitor, no livro, é a do “herético” Ivan Karamazóv, embora - quem sabe - a fala do autor se escondesse atrás das palavras do puro Aliocha. Aí, como provou Bakhtin, está a revolução literária do autor Dostoievski - não é a voz dele a que necessariamente se impõe. Ivan das torturas infligidas às crianças, Ivan que recusa o bilhete desse mundo de Deus, Ivan que compõe A lenda do grande inquisidor. Ainda mais paradoxal, as sementes de trigo da epígrafe produziram fruto sim, mas curiosamente, no sentido oposto ao que Dostoiévski esperava. O “nosso pobre povo” quer o Milagre, o Mistério e a Autoridade em que se apoiar, enquanto o deus Capitalismo - o que o narrador execrava na figura do velho pai hedonista, Fiódor Pávlovitch Karamázov - continua regendo os destinos do mundo, até sua utópica derrocada.

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Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Literatura Russa da USP
Revista Cult

Comentários

Remembranças de seu Zito

Diante do aniversário de morte de Guimarães Rosa, a CULT apresenta uma entrevista com o vaqueiro Zito, também guia e cozinheiro da tropa que acompanhou o escritor modernista na travessia do sertão

Texto João Correia Filho
Revista Cult

Da viagem que Guimarães Rosa fez pelo sertão mineiro, em maio de 1952, ficaram algumas lembranças na memória dos oito vaqueiros que acompa nharam o escritor, dos quais apenas dois ainda estão vivos. Com a morte de Manuelzão, em 1997, acreditava-se que o legado da viagem havia se perdido por completo. Engano. A CULT viajou até a cidade de Três Marias, a 230 quilômetros de Belo Horizonte, e obteve o depoimento de João Henrique Ribeiro, o seu Zito, vaqueiro que acompanhou o escritor em sua viagem por mais de 40 léguas sertão adentro. Pesquisando os arquivos de Rosa, surpreendentemente, o que se descobre é que Zito foi a grande fonte do escritor, sendo citado em suas anotações como o mais esperto dos vaqueiros que conheceu durante a viagem. Guia e cozinheiro da tropa, Zito ia à frente e era quem conversava com o escritor durante quase todo o tempo, dedicando boa parte de suas horas às indagações e dúvidas de Rosa. Todas as noites, encerrado o trabalho dos vaqueiros, Zito sentava-se à beira da fogueira e escrevia versos que narravam o que havia acontecido durante o decorrer do dia. Esses versos foram registrados nas cadernetas de viagem de Guimarães Rosa, que se encontram atualmente arquivadas no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), em São Paulo. Aos 74 anos, morando numa casa muito simples no interior de Minas Gerais, Zito guarda com orgulho os jornais da época, os quais trazem sua foto ainda jovem ao lado do escritor. Com memória e inteligência assustadoras, seu Zito conta alguns trechos da viagem que marcou a obra do escritor e que está repleta de muitas outras histórias.

CULT - O sr. se lembra do dia em que o Rosa chegou para a viagem?
ZITO - Lembro, foi em 16 de maio de 1952. Foi aquela grande confusão. Foi muita gente ver. O povo achava que o Rosa era Cristo. Ele chegou lá uma tarde e no dia seguinte o padre chegou também. A fazenda era do primo dele, o Francisco Moreira. Eu saí da Sirga (fazenda localizada no município de Três Marias), fui em Araçaí e busquei a besta que ele tá montado na foto que saiu no jornal, que chamava Balalaica. O arreio também foi eu que busquei. Eu trouxe umas vinte rês, uma novilha e essa besta. O Rosa veio num jipe de lá de Araçaí. Ele veio pra Belo Horizonte, pra Sete Lagoas, lá pegaram esse jipe e ele veio mais um compadre de Chico Moreira. Ele chegou três dias antes de sair a boiada pra conhecer um pouco mais. Lá na Sirga mesmo, tinha um lugar em que a água ia batendo no barranco, tem até hoje esse lugar, só que fizeram uma ponte. E lá tinha um sabiá cantando e o Rosa ficou encantado. “Que qué isso São Pedro?” Cadê a chuva? Que que há São Pedro?” (imita o passarinho cantando). O sabiá tava pedindo chuva, ele falava direitinho. Sabiá é aquele marronzinho. O Rosa ficou entusiasmado com aquilo. Aí nós seguimos e encontramos com uma dona, ela era muito bonitinha, era uma comadre minha, tava mais nova, vestindo uma sainha muito curtinha. E Rosa ficou olhando pro lado dela e eu falei: “Rosa isso não é da sua conta não.” (risos) Aí ele brincou, deu risada, e tudo. Tinha umas cachacinhas, mas ele não tomou não, ele não gostava. Eu tomei. Aí subimos e fomos pra casa, passando por uma capelinha. Tinha um horror de gente já arrumando ela, que ia ter que levantar o mastro da festa.

CULT - Então houve uma festa antes da saída da boiada?
ZITO - Teve sim uma festa, no outro dia. À tardinha nós fomos embora. Saímos e fomos nos gerais. É lá que falam que teve uma garrafa com biscoito. Não teve garrafa com biscoito nenhum, eu que estava com ele. Quando foi no outro dia, o padre chegou e teve a missa e ele foi à missa. Eu fiquei ocupado com a festa e não lembro com quem que ele saiu depois. Quando foi no dia seguinte, teve a festa, ele dançou e gostou. Ele fazia tudo quanto há, fazia direitinho. Tinha de tudo, nós dançamos, o Rosa dançou, tinha comida, o padre era muito bom, teve missa, levantou o mastro, era procissão. Nessa época aí era um festão, era só isso que tinha.

CULT - E havia sempre essa festa?
ZITO - Essa festa começou logo que a mãe do Manuelzão morreu. Fazia todo ano, naquela casa que tinha uma cagaiteira (árvore típica do cerrado). Primeiro era só a missa. Lá onde o Manuelzão construiu a capelinha, onde tá enterrada a mãe e a primeira esposa dele. Lá tem um cruzeirão grande, fui eu que mandei fazer, com um compadre meu, o Chico Barbosa. O Rosa gostava muito dele também, que ele tocava rabeca. Tudo isso era uma coisa que ninguém pensava. Passou muito tempo sem ninguém mexer nessas histórias. Sempre lembro de muita coisa, mas às vezes esqueço de tudo. E aí quando foi no outro dia, terminou tudo. Foi no dia 19 que nós saímos pra viagem. Eu juntei o gado e fui apartar. Tem um lugar na história que fala: “na apartação do gado tinha um velho Santana”. Ele tomou um coice, tinha um boi muito bravo, ele chegou o ferrão no boi e o boi deu um coice e ele caiu. Aí eu falei: “traz um pouco de vinagre com rapadura”. Isso tá escrito no jornal e nos cadernos do Rosa. Ele tomou o chá e melhorou. Não tinha remédio, era tudo inventado aqui. Papaconha, cidreira… esses eram os remédios. Até hoje a gente toma, contra gripe. Tudo é por Deus, não por homem, eu, você, a moça não. É por Deus. Deus é que criou isso tudo. Aqui tem um outro remédio chamado tiú. Só acha ele na sexta-feira da Paixão. Você pode andar o campo inteiro e você não acha não. Na sexta-feira ele amanhece todo cheio de folha. É uma batatinha assim ó. É um ótimo remédio pra gripe, pra dor por dentro. É o remédio que a gente tinha pra curar. Você arranca ele e faz um chá. Aqui não tem não, é só na Sirga que tem, nas veredas, e só lá que eu conheço.

CULT - Quais eram as fazendas e como foi a passagem por elas?
ZITO - Na saída da boiada tinham dezessete vaqueiros, porque a boiada sai brava, correndo, é pra evitar uma ribada. Quando chegou perto de uma ponte, lá em cima, saindo da Sirga, voltaram oito e seguimos em nove. Saiu da Sirga mesmo. Lá era a casa do Manuelzão. Ele era funcionário do Chico Moreira. Nós que construímos tudo aquilo. De lá fomos pra Tolda, uma fazenda bonita, onde passa um riachinho dentro da cozinha. Na Tolda dormimos na casa de uma senhora chamada Iara Tancredo. Tem a casa até hoje, e onde era o quarto hoje é uma sala. Depois da Tolda, indo pra Andrequicé, tinha uma vereda. Aí o Rosa viu uns passarinhos e de brincadeira pediu pra eu dar um tiro de revólver. Isso tem no livro Tutaméia. Lá em Andrequicé, na casa de Pedro Mendes, ele dançou de novo. Era uma casa de assoalho velho, uma casa velha, um curral bonito e tinha uma vitrolinha de corda. O Rosa gostou muito. Depois fomos pro Catatau e eu pedi pra arrumar uma cama pra ele, e ele dormiu melhor. Era colchão de palha, tudo feito na roça, no chão. Saímos do Catatau e fomos pro Riacho das vacas. Também ia dando cama. Depois do Catatau nós fomos no Meleiro. Lá o velho falou: “Cê vai jantar comigo”. Tinha frango, nós comemos arroz, feijão, carne. Não tinha mais nada. Ah, tinha também um angu de muitos dias, descascava e comia aquilo. Mas o Rosa não quis comer não. “Se eu comer angu que mosquito passeou, barata…”, ele disse. Ele até inventava muita coisa. Aí fomos pro Barreiro do Mato. Lá o Rosa dormiu dentro de uma forma de rapadura. Depois passamos na fazenda do Juvenal, na Fazenda Ventania, Riacho da Areia, que era de um paulista. O Rosa jantou bem. Lá tem até hoje o prato em que o Rosa comeu. Você pede pra Dona Antonieta, mulher do Juvenal, e ela tem o prato, o garfo, a colher, tem a cama, tudo guardado. E o Rosa ficou satisfeito demais. Comeu, comeu. Juvenal tinha um filho chamado Geraldo, que mora em Mascarenhas (pequeno distrito da região de Curvelo), tava doente, de cama mesmo. E aí o Rosa falou: “Deixa eu ver ele”; e falou: “Ele tá com febre, ele tá com sarampo. Você pega umas folhas de laranja e faz um chá.”. O Rosa olhou no bolso da camisa, tinha um Melhoral e deu pra ele. Tomou, em dois dias cortou a febre e o rapaz amanheceu bom. O sarampo saiu. Chá de folha de laranjeira. Isso tudo tá escrito. Aí quando saiu no outro dia eu fui na frente da fazenda de um outro primo dele, o doutor José Saturnino, já chegando em Cordisburgo (cidade natal do escritor). Quando você passa a igrejinha do Rosário você vira à esquerda, antes da entrada que vai pra Gruta do Maquiné. Cheguei na fazenda, chamei, saiu a dona lá. Eu falei: “Tô aqui pra arrumar a pousada, que o Rosa vem aí.” “Ah! Mas eu não quero, não estamos interessados, estamos com muito boi”, a dona falou. Era mentira. Eles tinham medo de “afetosa”. E olha só: dali ele podia ter ido pra casa do avô dele, ali pertinho, mas não quis. Tomava um banho, tudo direitinho… dormia. Mas ele não quis fazer isso não, foi embora, acompanhou a gente todo dia. Aí eu fui na frente outra vez. Cheguei numa fazenda e pedi um frango. “Frango não tem, eu tenho só uma galinha velha”, disse a dona. A dona pegou pra limpar, arrumou tudo, pois pra cozinhar, sentamos pra comer, mas tava muito duro. O Rosa tomou só o caldo. Dormimos, saímos no outro dia e chegamos num lugar que chama Toca do Urubu; tem uma pedreira de muitos metros de altura, e lá mora urubu direto. Chegando nesse lugar, encontramos com o pessoal do Cruzeiro (Álvares Dias e Eugênio Silva - repórter e fotógrafo, respectivamente, do jornal O Cruzeiro que registraram parte da viagem de Rosa pelo sertão). Fizeram foto minha com o berrante e tudo.

CULT - E o sr. era bom de berrante?
ZITO - Ah, eu era bom. Batia, todo mundo suspirava. Às vezes eu batia o berrante e dizia. “Eh, não suspira não que eu vou e volto”.

CULT - Depois de Araçaí, o Rosa foi embora?
ZITO - Entregou a boiada em Araçaí, numa fazenda pertinho de onde hoje é a cidade. Tinha uns currais, nós tiramos mais retratos com ele no curral, eu lacei uma vaca, peguei ela e passei a corda pelo pescoço e amarrei no rabo. Fazia tudo pontuadinho, porque tinha esperteza, tinha ligeireza. Eu cantava verso, tudo direitinho. Poesia é pra ser poeta, poeta não. Deus dá o dom pra pessoa, aquele dom ninguém pode tomar. Só agora com a doença. Ia na lapa do Bom Jesus e via um livro e comprava, comprava outro e guardava. Lia e aprendia. Se eu lesse duas vezes, eu já guardava. Depois, chegando em Araçaí eu fui pra casa do meu pai; eu, o seu Manuel (Manuelzão) e o Bindóia (morto em 98). Dormiram e noutro dia ele pegou um jipe com a carreta e foi embora.

CULT - O sr. era o guia da tropa. Qual a função do guia?
ZITO - O guia vai na frente, que ele sabe da distância. Ele sabe quando é descida, dá sinal pro detrás que e pro boi não correr. Se você sabe que tem um córrego, você dá sinal pra afinar o gado e ele passar na água e não sujar demais pros que vêm atrás poder tomar. O guia fica avisando o que vai acontecer. Você é motorista, quando vai fazer uma curva você já dá um sinal, só que com o gado é com a mão. E o gado acostuma. Chega numa porteira, faz um sinal e o outro já sabe que ali é uma porteira. Tudo que você faz é com a mão, tudo sem gritar. O guia vai na frente, quando o gado chega já está o pasto arrumado, o fogo tá aceso. Já vê se a cerca tá boa, se não tem buraco.

CULT - O sr. também era cozinheiro, além de guia. O guia é sempre o cozinheiro?
ZITO - Não são todas as pessoas, mas eu, durante o tempo que eu viajei com gado, em muitas boiadas eu fui cozinheiro. Eu fazia aquele entalagato. Foi o Rosa que colocou esse nome. Dizia que era comida ruim.

CULT - Então ele não gostou da comida do sr.?
ZITO - Não, aquilo era só pra fazer graça. Mas não tinha nada. Só tinha arroz, feijão e carne. Frango alguma vez. Mas sempre era carne seca, carne de jabá. Eram nove pessoas, eram nove pedaços de toucinho e nove de carne. E tinha também farinha.

CULT - E qual era o nome dos outros vaqueiros que acompanharam a viagem?
ZITO - Era o Tião Leite (ainda vivo), o Santana, o Sebastião de Jesus, o Gregório, o Manuelzão, o Bindóia, eu e o João Rosa. Tem o Aquiles também, um bom violeiro. Ah, e um rapazinho que não é falado. Ele não saiu na reportagem, era menino, mas acompanhou todos os dias, devia ter saído. Tinha uns doze anos. Falado são sempre os oito, nove com o Rosa. Nós levamos trezentos e sessenta bois. Só boi grande. Eu batia o berrante e eles seguiam.

CULT - Mas era o sr. que ia conversando com o Rosa?
ZITO - Conversei durante o tempo todo.

CULT - E sobre o que o sr. ia conversando com ele?
ZITO - Falava tudo quanto era bobagem. Inventava as coisas muito bem pra conversar com ele. Às vezes não tinha mais assunto. Falava de mulher, de moça bonita. Falei muita bobagem pro Rosa e ele escrevia tudo. Eu lia muito livro, sabia tudo de cor, mas não sei mais nada. Sabia tudo quanto é bestagem.

CULT - E o Rosa foi anotando tudo isso?
ZITO - Tudo, ele escreveu tudo. A sucupira ele anotou, era uma baita de uma árvore. Tinha a flor roxa e a flor amarelada; ele anotou qual a diferença que tem. A diferença da madeira. Tudo tá escrito na caderneta dele.

CULT - E os versos que o sr. fez? Eram feitos quando?
ZITO - Era feito durante a viagem, de noite. O que passava no dia, eu escrevia de noite.

CULT - Que tipo de história o Rosa gostava mais?
ZITO - Verso, ele gostava muito de verso. Mas não aprendia nada… (risos). Eu sabia tudo de cor. Ele anotava tudo. Depois que eu adoeci, a memória ficou fraca e esqueci tudo. Depois que eu adoeci, esqueci quase tudo.

CULT - E como era o Rosa, seu Zito?
ZITO - Era uma pessoa excelente, brincalhão. Ele era tão simples que ele veio do Rio e não trouxe nem gilete, nem estojo. Naquele tempo não tinha “prestibarba”, era estojo. Durante todos os dias ficou sem fazer a barba. Eu tinha, mas ele não falou nada e eu não levei. Até hoje a minha barba é pouca. Pra quem tirava a barba toda manhã, ficar dez dias sem tirar, né? A cara ficou vermelha. Mas ele era mesmo muito simples. E na viagem não podia chamar ele de Dr. João. Era Rosa, vaqueiro Rosa.

CULT - E ele sofreu muito durante a viagem?
ZITO - Não tinha garrafa térmica, coava café no bule, tomava ali, e copo de vidro quase não tinha e ele não trouxe. Na beira da estrada não tinha nada, você chegava assim pra comprar um frango, pra limpar, pra picar, mas precisava ter um vasilha. Ele comeu muitos dias feijão de manhã, feijão com carne seca cozida no meio e toucinho. Separava o da janta e tomava um gole de café. À tarde comia outra vez. Se ele tivesse pensado, podia ter trazido uma garrafa, deixava na garupa dele, ué. Podia ter trazido uma marmita. Também não tinha banheiro por aqui. De tarde a gente ia tomar banho no córrego. A água era longe, dormia às vezes sem tomar banho. Não tinha água, que banho todo dia não tinha jeito. Fazenda nenhuma tinha um banheiro. A comida era um pouco pesada pra ele que não tinha costume. Mas o que ele queria era aquilo…

CULT - E na hora de dormir?
ZITO - Tirava sela, lavava o cavalo, jogava ela no chão e era a cama. Forrava ela no chão, põe o pelego, a coberta, a capoteira, você punha a roupa e virava o travesseiro. Era tudo bem arrumado.

CULT - E como o Rosa dormia, era assim?
ZITO - Mesma coisa, ele deitava em qualquer lugar. Dormiu até em cima de espiga de milho. E ainda que à noite ele gemeu… “Você deita igual às galinha quando tá botando ovo”, eu disse. Ele não sabia, amanheceu com um caroço na costela. Dormiu também na tábua de rapadura. Tirava os trem até dar o tamanho dele, botei capim, tudo foi eu que fiz. Chegava na casa de Dona Benedita, na casa da Dona Rita, eu pedia cama pra ele. Eu tinha entusiasmo com o povo. Não deixavam eu sair de manhã sem fazer um engrossado, que é um ovo que você frita na água, sem gordura, põe a farinha, cebola e come. Aquele trem é forte. Comia, ficava bem o dia todo.

CULT - E o Rosa comentou alguma coisa sobre o que faria com o material da viagem, sobre o Grande sertão: Veredas, por exemplo?
ZITO - Aquele livro não foi escrito com o assunto dessa viagem. Aquele livro foi uma viagem que ele fez pra Fortaleza, numa saída de boiada. Foi na saída. E aquele Riobaldo foi alguém que contou pra ele e o resto ele inventou. Vou te contar uma coisa, você põe uma coisa que você acha que dá certo naquela estória, então inventa o resto. É assim que o Rosa fez. O que Rosa escreveu foi dito por nós. Ele não sabia daquilo. O Rosa saiu de Cordisburgo rapaz novo, foi fazer medicina, participou daquela revolução de 32 e abandonou a medicina pra ir pro exterior. Aí quando ele morreu, vieram outras pessoas pra confirmar onde o Rosa passou. Mas ele inventou o resto.

CULT - E a história de que o Rosa conversava com os bois?
ZITO - Ele conversava com o boi mesmo. Conversava toda a tarde. Quando chegava no pouso, eu que já tinha coado café, já tinha desarreado a besta dele, o meu burro, tudo já estava arrumado. Então ele vinha e falava: “meu boizinho tá cansado, tá com a barriga vazia…” Todo dia ele conversava, o boi era mansinho. Foi tirado retrato dele passando a mão no boi, lá no curral da fazenda. Mas eu nunca vi nenhum. Era Tarzan e Cabocla. Cabocla era uma vaca preta que eu furei o nariz dela. Ah… se o boi falasse, a gente morria. Ele só entende o nome. O boi entendia e olhava pra ele.

CULT - Ter encontrado o Rosa mudou a vida do sr.?
ZITO - Vem sempre um povo aqui pra conversar, eu converso. Mas eu não lembro muita coisa. Se for uma pessoa que eu gosto, eu lembro, se não for, eu não tô lembrado de nada. Mas eu gosto de falar do Rosa. Ele queria me levar pro Rio de Janeiro, ele dava lugar pra eu morar, ele pagava meu estudo. Mas na época eu preferi não ir, queria era ser vaqueiro.

CULT - O sr. fica orgulhoso quando alguém o procura?
ZITO - Sinto muito orgulho, é uma coisa muito bonita. Eu sinto alegria em falar das coisas do Rosa. Em maio eu vou pra Sete Lagoas e vou mandar fazer outro óculos pra mim e aí eu vou voltar a ler de novo os livros dele, do Guimarães Rosa.

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Texto originalmente publicado na CULT 43

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O som e a fúria - William Faulkner

por Andrea Del Fuego
Escritora

Faulkner fica com cem por cento da liberdade, pois se o leitor não se entrega a ponto de reagir com os personagens, a leitura perde a força e o sentido. É o caso de ‘O Som e a Fúria’.

Faulkner, o gigante, recebeu o Nobel e o Pullitzer. Nasceu no final do século XIX em Mississipi, o estado mais pobre dos Estados Unidos. Morreu lá mesmo em 1964. O autor só saiu de sua cidade em missão pelo Ministério do Exterior dos Estados Unidos, ocasião em que conheceu até mesmo o Brasil em 1954.

Publicado em 1929, ‘O som e a fúria’ conta a história da família Compson. A trama se passa no sul dos EUA no começo do século XX. O livro é dividido em quatro partes, o primeiro narrador é um deficiente mental de 33 anos. O segundo é o irmão dele que, com a grana da venda das terras do deficiente, vai estudar em Harvard. O terceiro narrador é outro irmão, o que segura as pontas da mãe, da casa e é dono de um gênio sombrio. A quarta parte é em terceira pessoa e fala dos empregados. Eles não têm voz própria, eles não narram, são narrados. A família Compson se deteriora a passos largos, sendo a empregada negra a última coluna de sustentação da casa, fazendo parte mas sem pertencer. O livro fecha com um apêndice, um resumo de quem é quem, créditos finais que sobem a tela conectando partes, ligando nome à pessoa, pessoas aos fatos.

Um dado sobre o livro dá a dimensão da narrativa. Em Macbeth, Shakespeare escreve que a vida é “ uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”. Por isso o título, por isso o primeiro narrador, por isso o destino dessa família.

William Faulkner é um Guimarães Rosa americano. Ou você ama ou você não precisa dele. A comparação também vale pela originalidade, o uso livre da palavra, a crueldade rústica. Em o ‘O som e a fúria’, Faulkner diz roseanamente: “O homem é o somatório de seja lá o que for”. É um autor violento e ousado. Trata-se de um criador tão livre que é impossível alcançá-lo. Em seu discurso na entrega do Nobel, em 1949, ele explica sua fúria em uma frase:

“Eu me recuso a aceitar o fim do homem.”

Andrea Del Fuego

Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. É autora da trilogia de contos “Minto enquanto posso” (O Nome da Rosa, 2004), “Nego tudo” (Fina Flor, 2005) e “Engano seu” (O Nome da Rosa, 2007, projeto contemplado com a bolsa de incentivo à criação literária da Secretaria do Estado de São Paulo) e do romance juvenil Sociedade da Caveira de Cristal (Scipione, 2007). Integra diversas antologias e mantém o blog www.delfuego.zip.net

Entrelinhas - TV Cultura

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Biblioteca Marxista

Manifesto do
partido comunista

Karl Marx e Friedrich Engels

Com o prefácio à edição alemã de 1872


Salário, preço e lucro

Karl Marx

Informe pronunciado por Marx nos dias 20 e 27 de junho de 1865 nas sessões do Conselho Geral da Associação internacional dos Trabalhadores. Publicado pela primeira vez em folheto à parte, em Londres (1898), com o título de Valor, Preço e Lucro. Publica-se de acordo com a edição soviética de 1950, em inglês, cujo texto é o da edição inglesa de 1893, cotejado com as anotações manuscritas de Marx.


90 anos do Manifesto Marxista

Leon Trotsky

O presente texto, também conhecido como “A Atualidade do Manifesto do Partido Comunista”, foi escrito por Leon Trotsky como prefácio à primeira edição do clássico de Marx e Engels publicada na África do Sul.


O 18 Brumário de Luis Bonaparte

Karl Marx


Do socialismo utópico ao
socialismo cientifico

F. Engels


Prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política”

Karl Marx


O Estado e a Revolução

V.I. Lênin

O que ensina o marxismo sobre o Estado e o papel do proletariado na Revolução


Teses sobre Feuerbach

Karl Marx

Escrito por Marx na primavera de 1845. Publicado pela primeira vez por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx. Traduzido do alemão.


A Ideologia Alemã

Karl Marx e Friedrich Engels

Introdução


O imperialismo, etapa superior do capitalismo

V.I. Lênin

"A brochura que apresentamos ao leitor foi escrita por mim em Zurique durante a Primavera de 1916. "


Karl Marx

V.I. Lênin

Biografia escrita por Lênin


Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas

Karl Marx e Friedrich Engels

Março 1850


Introdução à Dialética da Natureza

Friedrich Engels


Um passo em frente,
dois passos atrás

V.I. Lênin

(A CRISE NO NOSSO PARTIDO)


Que fazer?

V.I. LÊNIN

As Questões Palpitantes do Nosso Movimento


As premissas objetivas da Revolução Socialista

Leon Trotsky

"Operários e operárias de todos os países, organizem-se sob a bandeira da IV Internacional!
É a bandeira de sua próxima vitória"



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Febeapá

por Marcelo Coelho
Sociólogo, escritor e articulista

Os três volumes de crônicas que compõem o Febeapá foram relançados agora, num livro só, pela Editora Agir.

O pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta talvez se refira ao irreverente Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Mas se quisermos um termo de comparação, o autor de Febeapá corresponde a uma espécie de José Simão dos anos 60, carregando a ironia contra os militares que acabavam de assumir o poder com o golpe de 64.

Será que ainda é engraçado? Será que ainda é bom, do ponto de vista literário? Tenho dúvidas. As crônicas de Stanislaw Ponte Preta eram uma espécie de válvula de escape num período muito repressivo, na política e na moral.

No começo, o regime militar não era só anticomunista: era muito zeloso da moral e dos bons costumes, misturando carolice e suposto combate à corrupção. Um clima de conservadorismo sexual e de dedo-durismo tomava conta do país. Os abusos de poder, presentes em todo lugar, tornavam-se francamente absurdos nas mãos das pequenas autoridades municipais. Um delegado em Ouro Preto quis impedir a realização de serenatas; em Niterói, proibiu-se uma encíclica do papa; em São Paulo, o dramaturgo Sófocles [imagem] foi ameaçado de prisão. Em São Luís, um prefeito vetou o uso de máscaras no carnaval.

O nome do prefeito era Epitácio Cafeteira. Stanislaw Ponte Preta brinca, dizendo que ele devia ser da “família dos bules”. A piada, hoje em dia, soa bastante fraca. Mas numa época repressiva toda graça, mesmo forçada, parece liberadora e original.

O segredo de Stansilaw Ponte Preta talvez tenha sido o de tratar com leveza, com informalidade, o que era motivo de revolta e indignação. Mas isso teve um preço: a descontração dos textos parece estranhamente forçada. Seu tom “popular” não disfarça o relativo isolamento político dos setores de oposição naquela época. E o que por razões de conveniência era chamado de “besteira”, no fundo, era coisa muito pior. Era violência, obscurantismo, estupidez. Para defender um ponto de vista verdadeiro, Stansilaw Ponte Preta tinha de dourar a pílula: tratou a ditadura como uma fonte de casos pitorescos, destinados a não diurar muito tempo. Duraram; daí a importância histórica do livro.

Marcelo Coelho

Nascido em 1959, na cidade de São Paulo. Formado em Ciências Sociais pela FFCLH-USP, mestre em Sociologia com tese sobre a construção de Brasília e o governo Kubitschek. É articulista da Folha de S. Paulo desde 1984. Publicou, entre outros, “Gosto se discute” (Ed. Ática, 1994), “Jantando com Melvin” (Ed.Imago, 1998), e “Folha Explica Montaigne” (Publifolha, 2002). Seu mais recente livro é “Crítica Cultural: Teoria e Prática” (Publifolha, 2006).

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Dostoiévski

por Manuel da Costa Pinto
Escritor e colunista de literatura

“Comparadas com as personagens de Dostoiévski, as figuras da literatura anterior parecem idílicas e neutras”.

A frase do crítico Arnold Hauser é provocativa: mitos literários como Ulisses, Dom Quixote, Hamlet ou Fausto seriam então personagens menos complexas do que criações do escritor russo, como o Raskolnikov de Crime e Castigo ou o príncipe Michkin de O idiota?

Não há muito sentido em criar um Fla-Flu literário ou uma loteria de escritores e livros. Na literatura não há vencedores solitários, mas – para continuar na metáfora futebolística – craques generosamente distribuídos pelas diferentes posições do campo.

Dostoiévski não foi um poeta da língua, como Dante e Shakespeare, ou um estilista como Flaubert, Proust e Joyce. Nenhum escritor, porém, atingiu a intensidade psicológica de suas personagens.

Existe um consenso de que Shakespeare criou literariamente a idéia moderna de sujeito, de uma individualidade contraposta ao meio exterior, à vida social. As personagens de Shakespeare ouvem a própria voz, que se sobrepõe à voz das outras personagens em cena – como ocorre quando Hamlet conversa com o fantasma do pai, determinando o destino da peça.

Dostoiévski vai um pouco além e inverte o jogo. Em seus romances, não existe mundo externo, somente paisagens interiores. Ou melhor, cada personagem tem um mundo que lhe é próprio, um mundo autônomo, que escapa ao controle até mesmo do narrador, que se limita ao papel do maestro que determina a entrada dos diferentes naipes da orquestra.

Suas personagens discursam, gritam, agonizam, defendem idéias com a mesma intensidade com que vivem paixões carnais. Dostoiévski conserva os ingredientes do melodrama (crime e traição, culpa e expiação), mas transforma os enredos de mistério em aventuras espirituais,

Em Crime e castigo, o assassinato cometido por Raskolnikov não tem por objetivo vingança ou dinheiro, mas simplesmente comprovar a tese de sua superioridade moral, da capacidade de o indivíduo impor seus valores.

Vem daí o paradoxo desse escritor que é considerado o ápice do realismo: as tramas de seus romances são absolutamente inverossímeis.

Em O Idiota, mal percebemos que os encontros miraculosos e as cenas escandalosas que ocupam as 200 páginas iniciais se passam num único dia – pois tempo e espaço, em Dostoiévski, pertencem a uma outra dimensão, mais real do que a realidade objetiva.

Manuel da Costa Pinto

Nascido em 1966 na cidade de São Paulo. Jornalista, autor dos livros “Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século 21”, “Literatura Brasileira Hoje”, ambos pela Publifolha, e “Albert Camus – Um Elogio do Ensaio” (Ateliê), foi editor-assistente da Edusp, redator do caderno “Mais!”, da Folha de S.Paulo e de 1997 a 2003, editor da CULT – Revista Brasileira de Literatura. Atualmente, é coordenador editorial do Instituto Moreira Salles, colunista de literatura da Folha de S.Paulo.

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Nelson Rodrigues

por Reinaldo Moraes
Escritor e tradutor

Olha, não sei o que você acha, mas eu acho o seguinte: ter viajado é bem me-lhor que viajar. Se isso parece óbvio, direi que o óbvio também é filho de Deus. Chegar é sublime. Aquele que chega é sempre um ser comovido e transcen-dente. E de onde é que eu tô chegando? Ou por outra: aonde estou querendo chegar? É o que perguntaria a vizinha gorda e patusca do Machado de Assis, sentada no sofá com seu saco de pipocas, num pavoroso trabalho de mandíbu-las. De fato, não sei onde quero chegar. Mas sei de onde cheguei, e afirmo: não foi de Paris. Mas, por favor, não falemos de Paris, que é um lugar comum irrespirável. Falemos, se quiserem, do carnaval. Não do que passou, nem do que ainda vai chegar, e muito menos desse carnaval sociológico dos idiotas da objetividade. De fato, se me dão licença, nem é bem do carnaval que eu gosta-ria de falar, mas sim da linda passista morena que ilumina o asfalto durante o carnaval, a rebolar seus flancos plenos, saturados de vida fecunda. Mais espe-cificamente ainda, quero falar da beleza da morena. Ora, desde os tempos em que Sócrates caçava passarinho com bodoque, sabe-se que a beleza feminina desfruta de tamanho apreço simplesmente porque não há tantas mulheres tão belas quanto a passista morena. Nem aqui, nem em Paris. Nem na Escandiná-via, onde, aliás, o Otto Lara Resende jura não ter encontrado uma só mulher bonita. Essa é toda a verdade: não há mulheres bonitas na Escandinávia, loiras ou morenas. É que lá são todos belos. Homens, mulheres, cachorros, papagai-os, se papagaio houver na Escandinávia, todos esguicham uma saúde de vaca premiada, saúde que o Estado lhes oferece de graça. E a saúde, como se sa-be, é a mãe biológica da beleza. Se não a mãe, a tia, pelo menos. Ora, onde todos são bonitos, ninguém é bonito. A beleza tem de ser uma exceção, como a dessa morena carnavalesca que eu tô falando, em seu biquini de corista do Moulin Rouge. Os surrealistas, que preferiam o sonho à realidade, achavam que a verdadeira beleza tem de ser espasmódica. Eu diria que além de espas-módica, ela tem de ser rítmica, tropical, despudorada. Se o André Breton to-passe com a minha passista em Saint-Germain-des-Prés, cairia do alto da luci-dez varado de luz feito um anjo de vitral. Acabaria seus dias num hospício a-marrado num pé de mesa, passando a pão seco e água servida numa cuia de queijo Palmira, dando arrancos triunfais de cachorro atropelado e vertendo lá-grimas grossas como pitangas – só de pensar na passista morena. E aqui che-gamos ao assunto que se escondia feito uma normalista tímida no fundo do meu cérebro: o amor. Falo do verdadeiro amor, não dessa enfatua-ção glandular que os tempos modernos chamam de amor. O amor é a arte do lazer. O amor precisa de tempo – eis o que eu estou para dizer desde que a-cordei hoje de manhã.

Reinaldo Moraes

Nascido em 1950 na cidade de São Paulo. É autor dos romances “Tanto faz” publicado pela Ed. Brasiliense e reeditado pela Ed. Azougue em 2003, e “A órbita dos cararóis” pela Cia das letras, onde publicou o conto “Umidade”(2005). Foi co-autor de telenovelas em várias emissoras brasileiras, crônista de programas de variedades e roteirista dos filmes “Tainá, uma aventura na Amazônia” (1998) e “Eliana e o segredo dos golfinhos” (2004).

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Leitura para Formação Política

 

Clique na foto para ver as obras, e clique no nome para saber mais.

Karl Heinrich Marx
Foi um intelectual alemão, Economista, sendo considerado um dos fundadores da Sociologia.Também é possível encontrar a influência de Marx em várias outras áreas,como: Filosofia e História, já que o conhecimento humano, em sua época, não estava fragmentado em diversas especialidades da forma como se encontra hoje. Teve participação como intelectual e como revolucionário no movimento operário, sendo que ambos(Marx e o movimento operário)influenciaram uns aos outros durante o período em que o autor viveu.

Friedrich Engels

Foi um filósofo alemão que junto com Karl Marx fundou o chamado socialismo científico ou marxismo. Ele foi co-autor de diversas obras com Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista. Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital, principal obra de seu amigo e colaborador.

Vladimir Ilitch Uliânov - Lênin

Lênin foi um revolucionário russo, responsável em grande parte pela execução da Revolução Russa de 1917, líder do Partido Comunista, e primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União Soviética. Influenciou teoricamente os partidos comunistas de todo o mundo. As suas contribuições resultaram na criação de uma corrente teórica denominada Leninismo. O seu pseudónimo de "Lenine" provém de que foi exilado para uma terra às margens do rio Lena, ou seja, do nome desse rio.

Leon Trótski

Leon Trótski foi um intelectual marxista e revolucionário bolchevique, fundador do Exército Vermelho e rival de Stalin na tomada do PCUS à morte de Lenine.Nos primeiros tempos da União Soviética desempenhou um importante papel político, primeiro como Comissário do Povo (Ministro) para os Negócios Estrangeiros; posteriormente como criador e comandante do Exército Vermelho, e fundador e membro do Politburo do Partido Comunista da União Soviética.

Rosa Luxemburgo

Rosa Luxemburgo, foi uma filósofa marxista e militante revolucionária polonesa ligada à Social-Democracia do reino da Polónia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha. Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha. Foi brutalmente assassinada, depois de ser seqüestrada e espancada, por membros de uma organização paramilitar, do governo social-democrata alemão.

Enesto Che Guevara de la Serna

Revolucionário e líder político latino-americano, cuja negação a aderir-se tanto ao capitalismo quanto ao comunismo ortodoxo, transformou-o num emblema da luta socialista. Por sua aparência selvagem, romântica e revolucionária, Che Guevara significa hoje uma lenda para os jovens revolucionários de todo o mundo, um exemplo de fidelidade e total devoção à união dos povos subjugados.

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Biografia de Joaquim Nabuco

Fundador da Cadeira 27.

Joaquim Nabuco (J. Aurélio Barreto N. de Araújo), escritor e diplomata, nasceu em Recife, PE, em 19 de agosto de 1849, e faleceu em Washington, EUA, em 17 de janeiro de 1910. Compareceu às sessões preliminares de instalação da Academia Brasileira, fundador da Cadeira nº 27, que tem como patrono Maciel Monteiro. Designado secretário-geral da Instituição na sessão de 28 de janeiro de 1897, exerceu o cargo até 1899 e de 1908 a 1910.

Era filho do Senador José Tomás Nabuco de Araújo e de Ana Benigna Barreto Nabuco de Araújo, irmã do marquês do Recife, Francisco Pais Barreto. Estudou humanidades no Colégio Pedro II, bacharelando-se em letras. Em 1865, seguiu para São Paulo, onde fez os três primeiros anos de Direito e formou-se no Recife, em 1870. Foi adido de primeira classe em Londres, depois em Washington, de 1876 a 1879.

Atraído pela política, foi eleito deputado geral por sua província, vindo então a residir no Rio. Sua entrada para a Câmara marcou o início da campanha em favor do Abolicionismo, que logo se tornou causa nacional, na defesa da qual tanto cresceu. De 1881 a 1884, Nabuco viajou pela Europa e em 1883, em Londres, publicou O Abolicionismo. De regresso ao país, foi novamente eleito deputado por Pernambuco, retomando posição de destaque da campanha abolicionista, que cinco anos depois era coroada de êxito. Ao ser proclamada a República, em 1889, permaneceu com suas convicções monarquistas. Retirou-se da vida pública, dedicando-se à sua obra e ao estudo.

Nessa fase de espontâneo afastamento, Joaquim Nabuco viveu no Rio de Janeiro, exercendo a advocacia e fazendo jornalismo. Freqüentava a redação da Revista Brasileira, onde estreitou relações e amizade com altas figuras da vida literária brasileira, Machado de Assis, José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, de cujo convívio nasceria a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Nesse período, Joaquim Nabuco escreveu duas grandes obras: “Um Estadista do Império”, biografia do pai, mas que é, na verdade, a história política do país e um livro de memórias, “Minha Formação”, uma obra clássica de literatura brasileira.

Em 1900, o Presidente Campos Sales conseguiu demovê-lo a aceitar o posto de enviado extraordinário e ministro plenipotenciário em missão especial em Londres, na questão do Brasil com a Inglaterra, a respeito dos limites da Guiana Inglesa. Em 1901, era acreditado em missão ordinária, como embaixador do Brasil em Londres e, a partir de 1905, em Washington. Em 1906, veio ao Rio de Janeiro para presidir a 3ª. Conferência Pan-Americana. Em sua companhia veio o Secretário de Estado norte-americano Elihu Root. Ambos eram defensores do pan-americanismo, no sentido de uma ampla e efetiva aproximação continental. Em 1909, fez uma viagem oficial a Havana, para assistir à restauração do governo nacional de Cuba.

Grande era o seu prestígio perante o povo e o governo norte-americano, manifestado em expressões de admiração dos homens mais eminentes, a começar pelo Presidente Theodore Roosevelt e pelo Secretário de Estado Root; e na recepção das Universidades, nas quais proferiu uma série de conferências, sobre cultura brasileira. Quando faleceu, em Washington, seu corpo foi conduzido, com solenidade excepcional, para o cemitério da capital norte-americana, e depois foi trasladado para o Brasil, no cruzador North Caroline. Do Rio de Janeiro foi transportado para o Recife, a cidade que o viu nascer. Em 28 de setembro de 1915, Recife inaugurou, em uma de suas praças públicas, sua estátua.

Fonte: Site da Academia Brasileira de Letras

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Obras de Rubem Alves

Bibliografia:

Crônicas

As contas de vidro e o fio de nylon, Editora Ars Poética (São Paulo)
Navegando, Editora Ars Poética (São Paulo)
Teologia do cotidiano, Editora Olho D’Água (São Paulo)
A festa de Maria, Editora Papirus (Campinas)
Cenas da vida, Editora Papirus (Campinas)
Concerto para corpo e alma, Editora Papirus (Campinas)
E aí? - Cartas aos adolescentes e a seus pais, Editora Papirus (Campinas)
O quarto do mistério, Editora Papirus (Campinas)
O retorno eterno, Editora Papirus (Campinas)
Sobre o tempo e a eterna idade, Editora Papirus (Campinas)
Tempus fugit, Editora Paulus (São Paulo)

Livros Infantis

A menina, a gaiola e a bicicleta, Editora Cia das Letrinhas (SP)
A boneca de pano, Edições Loyola (SP)
A loja de brinquedos, Edições Loyola (SP)
A menina e a pantera negra, Edições Loyola (SP)
A menina e o pássaro encantado, Edições Loyola (SP)
A pipa e a flor, Edições Loyola (SP)
A porquinha de rabo esticadinho, Edições Loyola (SP)
A toupeira que queria ver o cometa, Edições Loyola (SP)
Estórias de bichos, Edições Loyola (SP)
Lagartixas e dinossauros, Edições Loyola (SP)
O escorpião e a rã, Edições Loyola (SP)
O flautista mágico, Edições Loyola (SP)
O gambá que não sabia sorrir, Edições Loyola (SP)
O gato que gostava de cenouras, Edições Loyola (SP)
O país dos dedos gordos, Edições Loyola (SP)
A árvore e a aranha, Edições Paulus (SP)
A libélula e a tartaruga, Edições Paulus (SP)
A montanha encantada dos gansos selvagens, Edições Paulus (SP)
A operação de Lili, Edições Paulus (SP)
A planície e o abismo, Edições Paulus (SP)
A selva e o mar, Edições Paulus (SP)
A volta do pássaro encantado, Edições Paulus (SP)
Como nasceu a alegria, Edições Paulus (SP)
O medo da sementinha, Edições Paulus (SP)
Os Morangos, Edições Paulus (SP)
O passarinho engaiolado, Editora Papirus (Campinas)
Vuelve, Pájaro Encantado, Sansueta Ediciones SA (Madrid, España)

Filosofia da Ciência e da Educação

A alegria de ensinar, Editora Ars Poética (SP)
Conversas com quem gosta de ensinar, Editora Ars Poética (SP)
Estórias de quem gosta de ensinar, Editora Ars Poética (SP)
Filosofia da Ciência, Editora Ars Poética (SP)
Entre a ciência e a sapiência, Edições Loyola (SP)

Filosofia da Religião

O enigma da religião (Campinas, Papirus)
L’ enigma della religione (Roma, Borla)
O que é religião? (S. Paulo, Brasiliense)
What is religion? (Maryknoll, Orbis)
Was ist religion? (Zurich, Pendo)
Protestantismo e Repressão (S. Paulo, Ática)
Protestantism and Repression (Maryknoll, Orbis)
Dogmatismo e Tolerância (S. Paulo, Paulinas)
O suspiro dos oprimidos (S. Paulo, Paulinas)

Biografias

Gandhi: A Magia dos gestos poéticos (S. Paulo/Campinas, Olho D’Água/Speculum)

Teologia

A Theology of Human Hope (Washington, Corpus Books)
Christianisme, opium ou liberation? (Paris, Éditions du Cerf)
Teologia della speranza umana (Brescia, Queriniana)
Da Esperança (Campinas, Papirus)
Tomorrow’s child (New York, Harper & Row)
Hijos del manana (Salamanca, Siguime)
Il figlio dei Domani (Brescia, Queriniana)
Teologia como juego (Buenos Aires, Tierra Nueva)
Variações sobre a vida e a morte (São Paulo, Paulinas)
Creio na ressurreição do corpo (Rio de Janeiro, CEDI)
Ich glaube an die Auferstehung des Leibes (Dusseldorf, Patmos VERLAG)
I believe in the resurrection of the body (Philadelphia, Fortress Press)
Je crois en la résurrection du corps (Paris, Éditions du Cerf)
Poesia, Profecia, Magia (Rio de Janeiro, CEDI)
Der Wind blühet wo er will (Dusseldorf, Patmos)
Pai nosso (Rio de Janeiro, CEDI)
Vater Unser (Dusseldorf, Patmos)
The Poet, the Warrior, the Prophet (London, SCM Press)

Vídeos

O Símbolo
Visões do Paraíso (realizado para apresentação na ECO -92)