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Gramsci: Odeio os indiferentes

imagemmenor Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

Antonio Gramsci

11 de Fevereiro de 1917

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.

Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.

Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes.

Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir.

Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

Primeira Edição: La Città Futura, 11-2-1917

Origem da presente Transcrição: Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci"

Tradução: Pedro Celso Uchôa Cavalcanti.

Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive

HTML de: Fernando A. S. Araújo

Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive ( marxists.org ), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License

Fonte: www.port.pravda.ru

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A gênese do Capital, segundo Rosdolsky

 

Carlos Nelson Coutinho

Fundação Lauro campos

Roman Rosdolsky

Roman Rosdolsky

Quando morreu, em 1883, Marx havia publicado apenas uma parte relativamente exígua de sua enorme produção teórica. Se deixarmos de lado sua vasta e dispersa atividade como jornalista, dispunha-se apenas (e, em muitos casos, somente em bibliotecas de difícil acesso, já que os livros estavam há muito esgotados) de A sagrada família (1845), A miséria da filosofia (1847), O Manifesto Comunista (1848), Contribuição à crítica da economia política (1859), do Livro I de O capital (1867) e de alguns opúsculos econômicos e políticos. Necessitou-se de quase um século para que a obra completa de Marx se tornasse finalmente disponível. Ainda no século XIX, Engels editou os Livros II e III de O Capital. Na primeira década do século XX, Karl Kautsky tornou disponíveis os três volumes de Teorias da mais-valia, também conhecido como o Livro IV de sua obra-prima. No início dos anos 30, vieram à luz os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 e a seminal A ideologia alemã, escrita em colaboração com Engels, em 1845. A publicação de todos estes inéditos ampliou grandemente o campo do que se passou doravante a entender como "marxismo", favorecendo ademais a emergência de diferentes escolas de interpretação do pensamento de Marx. Assim, quando hoje nos referimos a "marxismo", certamente designamos um universo conceitual bem mais rico e polimórfico do que aquele que era defendido pelos marxistas do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX.

Também permaneceu inédita, em particular, pelo menos até a segunda metade do século XX, uma enorme massa de manuscritos que formam as várias tentativas de Marx no sentido de elaborar a obra teórica a que dedicou seus melhores esforços, ou seja, sua "crítica da economia política", finalmente intitulada O Capital. Tão logo se convenceu, depois da derrota da revolução européia de 1848, de que o movimento revolucionário entrara em refluxo, Marx afastou-se temporariamente de sua atividade política e dedicou-se quase integralmente, de 1851 até o fim da sua vida, a compilar o material necessário à redação daquela que viria a ser sua indiscutível obra-prima, que ele julgava um empreendimento absolutamente necessário para dar base teórica ao movimento operário e comunista ao qual aderira com o coração e a mente.

Depois de anos de estudos na biblioteca do Museu Britânico, quando se assenhora do essencial da literatura econômica até então existente, Marx finalmente inicia e completa, entre 1857 e 1858, a primeira redação de sua "crítica da economia política". Uma parte deste manuscrito foi utilizada, em 1859, em Contribuição à crítica da economia política, que trata da mercadoria e do dinheiro. Entre 1861 e 1863, Marx redige uma nova versão da sua "Economia", que permaneceu inédita até os anos 80 do século XX. Uma terceira versão é elaborada entre 1863 e 1865, formando a base não só do Livro I de O Capital, único publicado em vida de Marx, mas também do Livro III e das Teorias da mais-valia, publicados respectivamente por Engels e por Kautsky.

Dentre tais manuscritos "econômicos" publicados postumamente, o mais famoso é certamente aquele de 1857-1858, que os editores - com base numa indicação do próprio Marx - intitularam Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie, ou seja, Elementos fundamentais para a crítica da economia política, conhecidos simplesmente como Grundrisse. Neste manuscrito, com cerca de mil páginas, Marx aborda pela primeira vez, praticamente em sua integralidade, os temas que, mais tarde, iriam constituir os Livros I e II de O Capital, que tratam dos processos de produção e de circulação do capital. A primeira edição deste manuscrito apareceu em Moscou, em dois volumes, em 1939 e 1940, em seu original alemão. Em função do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial, esta primeira edição teve escasssíssima divulgação no Ocidente. Somente em 1953, os Grundrisse foram reeditados na ex-Alemanha Oriental, passando então a despertar o interesse de estudiosos marxistas e não marxistas.

Por puro acaso, porém, um destes estudiosos pôde tomar conhecimento da obra já em 1948. Com efeito, Roman Rosdolsky - um polonês estudioso de Marx e militante trotsquista, perseguido pelo nazismo e pelo stalinismo, então vivendo nos Estados Unidos, onde morreu em 1967 - tomou conhecimento, numa biblioteca universitária norte-americana, de um dos poucos exemplares da edição soviética dos Grundrisse que chegara ao Ocidente. Como ele mesmo nos diz, imediatamente se deu conta da importância do livro para o pleno conhecimento das principais categorias da crítica marxiana da economia política. Dedicou ao exame dos Grundrisse o resto da sua vida, do que resultou este magnífico Gênese e estrutura de "O Capital" de Marx, que Rosdolsky não teve a alegria de ver publicado. O livro foi editado em alemão em 1968, um ano após sua morte.

Entre os temas principais a que se dedica Rosdolsky, em Gênese e estrutura, está precisamente o exame das razões por que Marx alterou o plano de sua "Economia" esboçado na época dos Grundrisse, o que o levou a abandonar essa primeira versão de sua obra e a empreender a redação de uma (na verdade, de duas) novas versões. Para Rosdolsky, essas razões não se referem tanto ao abandono das descobertas teóricas de 1857-58, mas sobretudo ao fato de que Marx se deu conta, work in progress, de que o adequado tratamento do material demandava uma nova forma de exposição, mais aderente à lógica dialética que Marx herdara de Hegel e que, com as necessárias inversões materialistas, constitui a espinha dorsal do método que utiliza em todos os seus trabalhos, em particular na sua "crítica da economia política". Marx buscava essa maior aderência à dialética porque, para ele, isso significava uma maior aderência também ao real, em suas múltiplas e complexas determinações.

A atenção dedicada ao tema do método é um dos principais méritos do livro de Rosdolsky. Referindo-se com freqüência a Lukács, o autor de Gênese e estrutura mostra que as reflexões econômicas de Marx não pertencem ao domínio da "ciência econômica" de tipo positivista. Para ele, isso resulta do fato de que Marx adota o ponto de vista da totalidade já presente na dialética de Hegel: todos os fatos econômicos tratados por Marx são submetidos ao crivo da historicidade e da totalidade, o que lhe permite tratar o capital como relação social (e não como "coisa") e como fato histórico (e não como algo "natural" ou eterno). É precisamente isto o que distingue Marx dos economistas clássicos (Smith, Ricardo), dos quais herda as principais categorias. Rosdolsky busca demonstrar como o método e a tessitura expositiva da crítica marxiana da economia têm como base as categorias de "abstrato" e "concreto", de "imediaticidade" e "mediação", de "essência" e "aparência", de "em si" e "para si", etc., categorias que certamente têm origem na dialética hegeliana.

Mas a maior parte da obra de Rosdolsky é dedicada precisamente ao exame das categorias econômicas (dinheiro, capital, mais-valia, lucro e juros, etc.) tais como aparecem nos Grundrisse. O objetivo de Rosdolsky é mostrar como esse primeiro exame de tais categorias por Marx é decisivo para entender o modo como elas são reelaboradas na versão definitiva de O capital, onde aparecem certamente em sua forma mais madura. É mérito de Rosdolsky deixar claro o seguinte: embora o estudo dos Grundrisse seja absolutamente necessário para entender plenamente O capital, é nesta última obra que Marx atinge o ponto mais elevado de sua elaboração teórica. Por isso, no original alemão, seu livro intitula-se Zur Entstehungsgeschichte des Marxshen Kapitals, ou seja, mais ou menos literalmente, Para a história da gênese de "O Capital" de Marx. Talvez a única crítica que se possa fazer a esta bela edição brasileira do livro de Rosdolsky, brilhantemente traduzido por César Benjamin, é ter adotado o título já empregado nas edições italiana e espanhola da obra, ou seja, Gênese e estrutura de "O Capital" de Marx, ao contrário das edições francesa e inglesa, que mantêm o título original. O título usado na edição brasileira pode dar a falsa impressão de que o livro é dedicado não aos Grundrisse, mas a O capital, ou seja, não ao momento da gênese das categorias, mas ao da sua consolidação.

É pena que uma das mais lúcidas leituras dos Grundrisse até hoje escrita chegue à nossa língua antes de que o leitor brasileiro possa desfrutar de uma edição em português dos próprios Grundrisse. Dispomos já, em nosso idioma, de uma boa parte da obra de Marx, inclusive de duas boas traduções de O capital e de uma das Teorias da mais-valia. É de se esperar que a edição brasileira do excepcional livro de Rosdolsky seja um incentivo para que essa lacuna venha a ser rapidamente suprida. Mas também, sobretudo, para que se tenha mais uma ocasião de estudar Marx e de constatar assim que, sem a extraordinária produção teórica do autor do Manifesto do Partido Comunista, não é possível entender plenamente o nosso tempo. Afinal, vigora ainda hoje - e certamente como nunca - o modo de produção capitalista que Marx tão argutamente analisou e combateu.

[Jornal do Brasil.  Idéias, 22 dez. 2001, p. 4]

Comentários

A cisão da dialética e a não identidade entre o fenômeno e o seu conceito

Sergio Granja – Fundação Lauro Campos

Engels

Friedrich Engels: "a unidade do conceito e do fenômeno se apresenta como um processo infinito por essência"

Em sua avaliação da correspondência de Marx e Engels, Lênin conclui que "quando, por assim dizer,  se tenta definir numa palavra o núcleo de toda a correspondência, esse ponto central para o qual converge toda a rede de ideias exprimidas e debatidas, essa palavra será a dialética".1

O conceito de dialética, todavia, é objeto de uma disputa na qual Marx distingue netamente a dialética materialista da idealista:

"[…] meu método de exposição não é o de Hegel, porque eu sou materialista e Hegel idealista. A dialética de Hegel é a forma fundamental de qualquer dialética, mas somente quando se a desembaraça de sua forma mística, e é precisamente isso que distingue meu método."2

Engels aponta uma "deformação da dialética em Hegel":

"A deformação da dialética em Hegel advém do fato de que ela deve ser ‘a auto-evolução do pensamento’, do qual a dialética das coisas é um simples reflexo, enquanto que, na realidade, a dialética que está na nossa cabeça não é outra coisa que o reflexo do desenvolvimento real que se opera no mundo da natureza e da sociedade humana e obedece às formas dialéticas.

"Compare-se, então, o desenvolvimento da mercadoria no capital, em Marx, ao desenvolvimento do ser na essência, em Hegel, e se terá um excelente paralelo: aqui a evolução concreta, tal como se desenrola na realidade, e lá uma construção abstrata, na qual pensamentos propriamente geniais e transições por lugares muito importantes, como por exemplo a da quantidade em qualidade e vice-versa, se transmutam numa autoevolução aparente de uma noção na outra.  Como se poderia fabricar uma boa dozena."3

Em contrapartida, diz Engels, "Marx condensa o conteúdo comum dos fatos e das relações em sua expressão conceitual mais geral; sua abstração consiste, portanto, simplesmente em devolver, sob forma conceitual, o conteúdo que as coisas previamente encerram."4

A abstração como expressão condensada do real pressupõe logicamente a não identidade entre o fenômeno e o seu conceito.  Contestando objeções de Conrad Schmidt5, Engels explica:

"As objeções que você faz à lei do valor atingem todos os conceitos, ao considerá-los do ponto de vista da realidade.  A identidade do pensamento e do ser, para retomar a terminologia hegeliana, coincide em toda a parte com o seu exemplo do círculo e do polígono.  Ou ainda: o conceito de uma coisa e a realidade desta são paralelos, como duas assíntotas que se aproximam sem cessar uma da outra sem nunca se encontrar.  Essa diferença que as separa é precisamente o que faz que a realidade não seja imediatamente o seu próprio conceito.  Pelo fato de um conceito possuir o caráter essencial de um conceito, portanto, dele não coincidir de cara, imediatamente, prima facie, com a realidade, da qual é preciso inicialmente abstraí-lo, por esse fato, ele é sempre mais do que uma simples ficção, a menos que você considere ficção todos os resultados do pensamento, porque a realidade só corresponde a esses resultados através de um longo desvio e, mesmo assim, só se aproxima dela de maneira assintótica.

"Será diferente com a taxa geral de lucro?  A cada instante, ela só existe de maneira aproximada.  Quando se realiza em dois estabelecimentos a ponto de coincidir no menor detalhe, se todos os dois obtêm num exercício dado exatamente a mesma taxa de lucro, é pura coincidência; na realidade, as taxas de lucro variam em função de múltiplas circunstâncias, de uma empresa a outra e de um ano para outro, e a taxa geral só existe como média de numerosas empresas e sobre toda uma série de anos.  Mas exigir que, em cada empresa e a cada ano, a taxa de lucro seja exatamente a mesma até a centésima casa decimal, que seja, digamos, de 14,876934…, sob pena de vê-la se reduzir a uma simples ficção, seria desconhecer grandemente a natureza da taxa de lucro e das leis econômicas em geral - elas todas só existem como aproximação, tendência, média, mas não na realidade imediata.  Isso deve-se em parte a que sua ação é contra-arrestada pela ação simultânea de outras leis, mas também em parte por sua natureza enquanto conceitos.

"Ou então, tome a lei do salário, a maneira pela qual se realiza o valor da força de trabalho, que só se realiza na média - e mesmo assim nem sempre - e que varia segundo a localidade, mesmo segundo o ramo, em função de hábitos de vida.  Ou ainda a renda fundiária, que representa, em relação à taxa geral, o sobre-lucro resultante da monopolização de uma força natural.  Aí não menos, sobre-lucro real e renda real não coincidem em nada automaticamente, mas somente de maneira aproximada, na média.

"Exatamente o mesmo ocorrerá com a lei do valor e a repartição da mais-valia por meio da taxa de lucro.

"1. As duas coisas só se realizam completamente, de maneira aproximada, na hipótese de uma produção capitalista se realizando completamente em toda a parte, quer dizer, na hipótese de uma sociedade reduzida às classes modernas dos proprietários fundiários, dos capitalistas (industriais e comerciantes) e dos operários, todas as classes intermediárias estando eliminadas.  Ora, situação semelhante não existe nem na Inglaterra e não existirá nunca: nós não deixaremos as coisas chegarem lá.

"2. O lucro, compreendida a renda, compõe-se de diferentes elementos:

"a) O lucro por propaganda enganosa das mercadorias - que se anula na soma algébrica desses lucros.

"b) Os lucros resultantes do incremento de valor dos estoques (por exemplo, o saldo da última colheita, quando a seguinte é ruim).  Estes também devem, teoricamente, se compensar no final das contas, se é que já não foram anulados pela queda de valor de outras mercadorias, os capitalistas compradores devendo desembolsar a mais o que ganham os vendedores, ou devido ao fato, se se trata da subsistência dos operários, de que o salário deverá, a longo termo, aumentar. Mas as mais importantes dessas argumentações do valor não se produzem a termo;  só há, então, compensação sobre uma média de vários anos e essa compensação é muito imperfeita: é notório que ela se opera às despensas dos operários; eles produzem mais-valia a mais, porque sua força de trabalho não é totalmente paga.

"c) A soma total da mais-valia, mas da qual é subtraída então a fração que se dá de presente ao comprador,  particularmente em tempo de crise, quando o valor da superprodução é reduzida da quantidade de trabalho socialmente necessária que ela contém realmente.

"De tudo isso se segue, de cara, que a totalidade do lucro e da mais-valia só podem coincidir aproximadamente.  Se você acrescentar que a totalidade da mais-valia assim como a totalidade do capital não são valores constantes, mas grandezas variáveis, que se modificam de um dia para o outro, parece que é pura e simplesmente impossível exprimir a taxa de lucro pela fórmula Σ pl / Σ (c+v)  de outro modo que não considerando-a como uma função aproximada e de não considerar a totalidade do preço e a totalidade do valor a não ser como uma tendência à unidade e por isso descartando a identidade.  Em outros termos, a unidade do conceito e do fenômeno se apresenta como um processo infinito por essência - e realmente o é, nesse caso e em qualquer outro.

"Será que o feudalismo alguma vez coincidiu com o seu conceito?  Fundado no reino dos Francos ocidentais, desenvolvido na Normandia pelos conquistadores noruegueses, melhor elaborado na Inglaterra e na Itália meridional pelos normandos franceses, foi no reino efêmero de Jerusalém, que nos legou nos seus Assizes de Jerusalém a expressão mais clássica da ordem feudal, a que mais se aproximava de seu conceito.  Essa ordem era por isso uma ficção, por só ter conhecido, sob sua forma clássica, uma breve existência na Palestina e, mesmo assim, em boa parte, somente no papel?

"Ou ainda, os conceitos admitidos nas ciências naturais são ficções porque seria preciso que recobrissem sempre exatamente a realidade?  A partir do momento que aceitamos a teoria da evolução, todos nossos conceitos da vida orgânica só correspondem à realidade de maneira aproximada.  Senão, não haveria transformação; no dia em que conceito e realidade coincidirem absolutamente no mundo orgânico, será o fim da evolução.  O conceito de peixe implica a existência na água e a respiração com a ajuda de gueiras; como você quer passar do peixe ao animal anfíbio sem romper o conceito?  E há efetivamente uma ruptura; conhecemos toda uma série de peixes cuja bexiga natatória evoluiu até o pulmão e que podem respirar o ar.  Como você quer passar do réptil ovíparo  ao mamífero, que põe os filhotes no mundo, sem entrar em conflito com a realidade de um dos conceitos ou com os dois ao mesmo tempo?  E, na realidade, possuímos, com os monotremos, toda uma subcategoria de mamíferos ovíparos - em 1843, eu vi em Manchester as obras sobre o ornitorrinco e, na minha suficiência ignorante, debochei dessa estupidez: como se um mamífero pudesse pôr!  E eis que agora está provado!  Não faça, então, em relação ao conceito de valor, como eu já fiz, e isso porque fui obrigado em seguida a pedir perdão ao ornitorrinco!"6

Sem dúvida, o ornitorrinco é algo que nos obriga a dar tratos à bola..

Notas:

1 Lênine, Oeuvres, Paris-Moscou, t. 19, p. 594

2 Carta de Marx a L, Kugelmann, 6 de março de 1868 (Correspondance: 199-200)

3 Carta de Engels a C. Schmidt, 1 de novembro de 1891 (Correspondance: 474)

4 Carta de Engels a K. Kautsky, 20 de setembro de 1884 (Correspondance: 390)

5 Conrad Schmidt (1863-1932) foi um economista e filósofo alemão que se afastou do marxismo e tornou-se autor de obras "revisionistas".

6 Carta de Engels a C. Schmidt, 12 de março de 1895 (Correspondance: 523-528)

Bibliografia:

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich.  Correspondance (1844-1895), Moscou: Editions du Progrès, 1971.

* Citações traduzidas livremente do francês.

Sergio Granja é pesquisador da Fundação Lauro Campos

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O marxismo de olho no Brasil

Lejeune Mato Grosso de Carvalho

 

MarxO marxismo nesses últimos anos adquiriu uma dramática atualidade. Depois de estar ameaçado pelos arautos da pós-modernidade de ser jogado num museu ao lado de machados de pedras, ele "reapareceu" como instrumento teórico essencial para entender a crise por que passa o mundo atual. O próprio projeto socialista - realização prática dos pressupostos teóricos e políticos do marxismo - recobrou energia diante da falência da globalização neoliberal e das ideologias que lhe deram suporte.

O livro de Buonicore se insere nessa nova fase da luta teórica - e porque não dizer ideológica - travada em nosso país. É, em primeiro lugar, uma obra que visa afirmar a imprescindibilidade do marxismo para aqueles pesquisadores e militantes que desejam conhecer e transformar a realidade em que vivem. Essa, afinal, é uma das marcas essenciais e originais do pensamento de Marx. Para o pensador alemão, a teoria não deveria ser separada da prática. O desenvolvimento do conhecimento só teria sentido se ele fosse Brasil deveria ser um marxismo redimido dos desvios "economicistas". É claro, esse marxismo renovado, precisamente por ser marxismo, não perde a referência dos níveis econômicos - determinantes apenas em "última instância" - mas afirma que as sociedades concretas só podem ser compreendidas pela articulação dinâmica das várias instâncias (ou estruturas) do real: econômica, ideológica, política e cultural.

Nem as classes, nem a luta de classes, nem o Estado, nem a revolução são resultados naturais do simples desenvolvimento das forças produtivas. É, justamente, através desse marxismo que o autor procurou analisar a evolução e as contradições da sociedade brasileira, tratando de temas como: a história das classes e da luta de classes, a formação do Estado, as diversas interpretações da revolução e do povo brasileiro. Por colocado a serviço da transformação social e da construção de um mundo melhor.

Como diz o autor: "O conjunto dos textos se insere em um movimento mais amplo iniciado em meados da década de 1990 e que teve por motor a necessidade de interpretar a sociedade brasileira - sua formação econômica, política, social e cultural - a partir de uma perspectiva histórico-crítica do marxismo. Um movimento que, na ocasião, foi sintetizado na consigna ‘Marxismo mais Brasil’. Começava, assim, um processo que visava a, entre outras coisas, cobrir uma lacuna importante na formação dos militantes da esquerda brasileira: a da articulação do instrumental teórico marxista, agora desprovido de sua carga dogmática, e conhecimento do Brasil".

O marxismo dogmático - e esquemático - procurava reduzir a complexidade do mundo às fórmulas simplistas e entendia a complexa história humana como simples reflexo, sem mediação, das relações econômicas. Por isso mesmo, o instrumento para análise da história do Brasil deveria ser um marxismo redimido dos desvios "economicistas". É claro, esse marxismo renovado, precisamente por ser marxismo, não perde a referência dos níveis econômicos - determinantes apenas em "última instância" - mas afirma que as sociedades concretas só podem ser compreendidas pela articulação dinâmica das várias instâncias (ou estruturas) do real: econômica, ideológica, política e cultural. Nem as classes, nem a luta de classes, nem o Estado, nem a revolução são resultados naturais do simples desenvolvimento das forças produtivas.

É, justamente, através desse marxismo que o autor procurou analisar a evolução e as contradições da sociedade brasileira, tratando de temas como: a história das classes e da luta de classes, a formação do Estado, as diversas interpretações da revolução e do povo brasileiro. Por fim, o livro traz uma original reflexão das leituras marxistas sobre a questão racial. Cada um desses ensaios é aberto com a apresentação breve dos pressupostos teóricos marxistas que permitiriam analisar esses fenômenos. E tudo isso é feito em uma linguagem simples para qualquer estudante ou trabalhador consciente. Não devemos confundir, aqui, simplicidade com falta de profundidade teórica ou analítica. Nem todo pensamento denso deve ser hermético. No primeiro ensaio, Buonicore faz uma rica resenha do pensamento dos principais autores marxistas que trataram do problema da revolução burguesa. Começando por Marx e Engels, passando por Lênin, Gramsci e Lukács. O ponto culminante, no entanto, é o tratamento dado ao estudo da chamada revolução brasileira. Ali apresenta, sem preconceito, as contribuições dos principais autores marxistas brasileiros, como Nelson Werneck Sodré, Caio Prado Jr, Jacob Gorender e Carlos Nelson Coutinho.

O autor chegou à conclusão que a revolução burguesa no Brasil se deu pelo processo que Lênin e outros autores chamaram de "Via Prussiana". O seu transcurso teria sido longo e tortuoso. Teria existido "todo um período de transição que vai da década de 1880 até 1950 - e que, para alguns, ainda está inconcluso. Esse processo teve na Independência (1822), na Abolição da escravidão (1888), na proclamação da República (1989) e na Revolução de 1930 seus marcos decisivos". A "via prussiana" teria dado "um forte teor conservador ao processo de transição capitalista no Brasil, impedindo a realização do que seria uma das principais tarefas de uma revolução democrática burguesa: a reforma agrária antilatifundiária. O reflexo superestrutural dessa política de conciliação com o atraso foi a dificuldade de implantação de uma democracia estável e ampliada". Isso explicaria também a exclusão dos camponeses, que representavam a maioria da população, de uma série de direitos sociais.

Mas, para Buonicore, falar em "via prussiana" não significa desconhecer a existência e a centralidade da luta das classes populares. Todo um capítulo do livro é dedicado à análise do desenvolvimento das classes e da luta de classes em nosso país. Quando trata das nossas transições, ele afirma: "A história brasileira e o país que temos hoje são, em última instância, os resultados de séculos de uma acirrada luta de classes - ora cruenta, ora incruenta, ora aberta, ora mascarada (…). A Nação tem as marcas das lutas do nosso povo - dos escravos, camponeses, operários, intelectualidade progressista - às vezes derrotadas e às vezes vitoriosas. Mesmo quando derrotadas e banhadas em sangue, as lutas populares ajudaram a empurrar a roda da história para frente".

Assim, não existe nenhuma visão negativista sobre a nossa história, apenas a constatação crítica dos limites desses processos que, em geral, não se completaram e mantiveram elementos do atraso, como o latifúndio, a dependência externa e a exclusão de parte de nosso povo de uma cidadania plena.

 

i176397 "A HISTÓRIA BRASILEIRA E O PAÍS QUE TEMOS HOJE SÃO, EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, OS RESULTADOS DE SÉCULOS DE UMA ACIRRADA LUTA DE CLASSES - ORA CRUENTA, ORA INCRUENTA, ORA ABERTA, ORA MASCARADA (…). A NAÇÃO TEM AS MARCAS DAS LUTAS DO NOSSO POVO - DOS ESCRAVOS, CAMPONESES, OPERÁRIOS, INTELECTUALIDADE PROGRESSISTA - ÀS VEZES DERROTADAS E ÀS VEZES VITORIOSAS. MESMO QUANDO DERROTADAS E BANHADAS EM SANGUE, AS LUTAS POPULARES AJUDARAM A EMPURRAR A RODA DA HISTÓRIA PARA FRENTE"
Augusto Cesar Buonicore, autor de Marxismo, História e Revolução Brasileira: Encontros e desencontros

Livro: Marxismo, História e Revolução Brasileira: Encontros e desencontros Autor: Augusto César Buonicore Editora: Anita Garibaldi Ano: 2009 Páginas: 319 Preço informado: R$35,00

* Lejeune Mato Grosso de Carvalho é sociólogo, professor, escritor e arabista. Lecionou na Unimep de 1985 até 2006. Preside hoje o Sindicato dos Sociólogos do Estado de SP, tendo sido presidente da FNSB de 1996 a 2002

Fonte: Revista Sociologia – http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/

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Feuerbach. Oposição das Concepções Materialista e Idealista (Capitulo Primeiro de A Ideologia Alemã)

Postado: http://www.marxists.org/portugues

[f.1] Segundo anunciam ideólogos alemães, a Alemanha passou nos últimos anos por uma revolução sem paralelo. O processo de decomposição do sistema de Hegel, iniciado com Strauss[N3], transformou-se numa fermentação universal para a qual são arrastados todos os "poderes do passado". No caos geral, poderosos impérios se formaram para logo de novo ruírem, emergiram momentaneamente heróis para serem de novo remetidos para a obscuridade por rivais ousados e mais poderosos. Foi uma revolução ao pé da qual a Revolução Francesa[N4] é uma brincadeira de crianças; uma luta universal face à qual as lutas dos Diádocos[N5] aparecem mesquinhas. Os princípios expulsaram-se uns aos outros, os heróis do pensamento derrubaram-se uns aos outros com uma pressa inaudita, e nos três anos entre 1842 e 1845 varreu-se mais do passado na Alemanha do que anteriormente em três séculos.

Tudo isto teria ocorrido no pensamento puro.

Trata-se, por certo, de um acontecimento interessante: do processo de putrescência do espírito absoluto. Depois de extinta a última centelha de vida, as várias partes constitutivas deste caput mortuum (1) entraram em decomposição, estabeleceram novas combinações e formaram novas substâncias. Os industriais da filosofia, que até aí tinham vivido da exploração do espírito absoluto, lançaram-se agora sobre as novas combinações. Cada um procedeu, com o maior zelo possível, à venda ao desbarato do quinhão que lhe coubera. Isto não podia sair bem sem concorrência. Esta foi inicialmente conduzida de um modo bastante burguês e respeitável. Mais tarde, quando o mercado alemão estava saturado e a mercadoria, a despeito de todos os esforços, não encontrava acolhimento no mercado mundial, o negócio foi estragado à maneira habitual na Alemanha - pela produção em grande escala e fictícia, pela deterioração da qualidade, pela adulteração da matéria-prima, pela falsificação dos rótulos, por compras fictícias, por vigarices no saque de letras e por um sistema de crédito destituído de qualquer base real. A concorrência acabou numa luta encarniçada que agora nos é exaltada e apresentada como uma mudança de importância histórica, como geradora dos resultados e conquistas mais prodigiosos.

Para apreciar correctamente esta charlatanice filosófica, que até no peito do cidadão alemão honesto desperta um grato sentimento nacional, para dar bem a ideia da mesquinhez, da tacanhez provinciana de todo este movimento jovem-hegeliano, nomeadamente do contraste tragicómico entre os verdadeiros feitos destes heróis e as ilusões sobre esses feitos, é necessário observar todo o espectáculo de um ponto de vista exterior à Alemanha (2).

[1.] A Ideologia em Geral, Nomeadamente a Alemã

[f.2] A crítica alemã não abandonou, até aos seus esforços mais recentes, o terreno da filosofia. Longe de examinar as suas premissas filosóficas gerais, as suas questões saíram todas do terreno de um sistema filosófico determinado, o de Hegel. Não apenas nas suas respostas, mas já nas próprias questões estava uma mistificação. Esta dependência de Hegel é a razão pela qual nenhum destes críticos mais recentes tentou sequer uma crítica ampla do sistema de Hegel, por mais que cada um deles afirme estar para além de Hegel. A sua polémica contra Hegel, e entre si, reduz-se ao facto de cada um deles ter chamado a si uma faceta do sistema de Hegel e tê-la virado tanto contra todo o sistema como contra as facetas reclamadas pelos outros. A princípio chamavam a si categorias puras de Hegel, não falsificadas, como substância e consciência de si (3), mas posteriormente profanaram estas categorias com nomes mais mundanos, como espécie, o Único, o Homem (4), etc.

Toda a crítica filosófica alemã de Strauss a Stirner se reduz à crítica de representações religiosas (5). Partiu-se da religião real e da autêntica teologia. O que são consciência religiosa e representação religiosa foi posteriormente definido de maneiras diversas. O progresso consistiu em subsumir [subsumieren] as representações metafísicas, políticas, jurídicas, morais e outras, pretensamente dominantes, também na esfera das representações religiosas ou teológicas; e, do mesmo modo, em explicar a consciência política, jurídica e moral como consciência religiosa ou teológica, e o homem político, jurídico e moral em última instância, "o Homem" — como religioso. Pressupunha-se o domínio da religião. Gradualmente, cada relação dominante foi explicada como uma relação da religião e transformada em culto: culto do direito, culto do Estado, etc. Por toda a parte se lidava apenas com dogmas e com a fé em dogmas. O mundo foi canonizado numa medida sempre crescente, até que por fim o venerável São Max (6) o pôde declarar santificado en bloc (7), e deste modo despachá-lo de uma vez por todas.

Os Velhos-Hegelianos tinham compreendido tudo logo que reduzido a uma categoria lógica de Hegel. Os Jovens-Hegelianos criticaram tudo substituindo a tudo representações religiosas ou declarando-o teológico. Os Jovens-Hegelianos concordam com os Velhos-Hegelianos na crença no domínio da religião, dos conceitos, do universal no mundo existente. Só que uns combatem o domínio como usurpação, e outros celebram-no como legítimo.

Como para os Jovens-Hegelianos as representações, ideias, conceitos, em geral os produtos da consciência, por eles autonomizada, valem como os grilhões autênticos dos homens, do mesmo modo que para os Velhos-Hegelianos significam os verdadeiros elos da sociedade humana, percebe-se que os Jovens-Hegelianos também só tenham de lutar contra estas ilusões da consciência. Como, segundo a sua fantasia, as relações dos homens, tudo o que os homens fazem, os seus grilhões e barreiras, são produtos da sua consciência, os Jovens-Hegelianos colocam-lhes o postulado moral, consequentemente, de trocarem a sua consciência presente pela consciência humana, crítica ou egoísta (8), e deste modo eliminarem as suas barreiras. Esta exigência de mudar a consciência conduz à exigência de interpretar de outro modo o que existe, ou seja, de o reconhecer por meio de outra interpretação. Os ideólogos jovens-hegelianos são, apesar das frases com que pretendem "abalar o mundo" [N6], os maiores conservadores. Os mais novos dentre eles encontraram a expressão correcta para a sua actividade quando afirmam que lutam apenas contra "frases". Esquecem, apenas, que a estas mesmas frases nada opõem senão frases, e que de modo nenhum combatem o mundo real existente se combaterem apenas as frases deste mundo. Os únicos resultados a que esta crítica filosófica pôde conduzir foram alguns esclarecimentos, e ainda por cima unilaterais — de história da religião -, sobre o cristianismo; todas as suas demais afirmações são apenas outros tantos adornos para a sua pretensão de haverem proporcionado, com estes esclarecimentos insignificantes, descobertas de importância histórica e universal.

Não ocorreu a nenhum destes filósofos procurar a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, a conexão da sua crítica com o seu próprio ambiente material (9).

[2. Premissas da concepção materialista da história] (10)

[p. 3] As premissas com que começamos não são arbitrárias, não são dogmas, são premissas reais, e delas só na imaginação se pode abstrair. São os indivíduos reais, a sua acção e as suas condições materiais de vida, tanto as que encontraram como as que produziram pela sua própria acção. Estas premissas são [p. 4], portanto, constatáveis de um modo puramente empírico.

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Obras Escolhidas

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Teses sobre Feuerbach

Karl Marx

1845

 

 

 

 

Escrito: primavera de 1845.

Publicado pela primeira vez: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx.

Traduzido : do alemão por Álvaro Pina.
Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.

HTML por Jørn Andersen para Marxists’ Internet Archive, 25.7.00.

Copyright: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.



1

A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias - o de Feuerbach incluído - é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objecto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjectivamente. Por isso aconteceu que o lado activo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo - mas apenas abstractamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a actividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objectos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objectos do pensamento; mas não toma a própria actividade humana como atividade objectiva [gegenständliche Tätigkeit]. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica como a genuinamente humana, ao passo que a práxis é tomada e fixada apenas na sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da actividade "revolucionária", de crítica prática.

2

A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica.

3

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).

A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como práxiss revolucionante.

4

Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo no mundo religioso, representado, e num real. O seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso na sua base mundana. Ele perde de vista que depois de completado este trabalho ainda fica por fazer o principal. É que o fato de esta base mundana se destacar de si própria e se fixar, um reino autônomo, nas nuvens, só se pode explicar precisamente pela autodivisão e pelo contradizer-se a si mesma desta base mundana. É esta mesma, portanto, que tem de ser primeiramente entendida na sua contradição e depois praticamente revolucionada por meio da eliminação da contradição. Portanto, depois de, por exemplo a família terrena estar descoberta como o segredo da sagrada família, é a primeira que tem, então, de ser ela mesma teoricamente criticada e praticamente revolucionada.

5

Feuerbach, não contente com o pensamento abstrato, apela ao conhecimento sensível [sinnliche Anschauung]; mas, não toma o mundo sensível como atividade humana sensível prática.

6

Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.

Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente - isoladamente - humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como "espécie", como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos.

7

Feuerbach não vê, por isso, que o próprio "sentimento religioso" é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade.

8

A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis.

9

O máximo que o materialismo contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão [Anschauung] dos indivíduos isolados na "sociedade civil".

10

O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada.

11

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

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Potências do comunismo

Daniel Bensaid

Em um artigo de 1843 sobre “os progressos da reforma social no continente”, o jovem Engels (que tinha acabado de fazer 20 anos) via o comunismo como “uma conclusão necessária, que se está claramente obrigado a tirar, diante das condições gerais da civilização moderna”. Um comunismo lógico em suma, produto da revolução de 1830 em que os operários “votaram às fontes vivas e ao estudo da grande revolução e se apoderaram vivamente do comunismo de Babeuf”.

Para o jovem Marx, por outro lado, esse comunismo não era ainda mais do que uma “abstração dogmática”, uma “manifestação original dos primórdios do humanismo”. O proletariado nascente havia “se atirado nos braços dos doutrinários de sua emancipação”, das “seitas socialistas” e dos espíritos confusos que “divagavam como humanistas” sobre “o milênio da fraternidade universal” como “abolição imaginaria das relações de classe”. Antes de 1848, este comunismo espectral, sem programa preciso, estava presente, então, no ar do tempo sob as formas “pouco polidas” das seitas igualitárias ou dos sonhos icarianos[1].

Entretanto, já então a superação do ateísmo abstrato implicava um novo materialismo social que não era outra coisa senão o comunismo: “da mesma forma em que o ateísmo, em relação à negação de Deus, é o desenvolvimento do humanismo teórico, também o comunismo, quanto à negação da propriedade privada, é a reivindicação da vida humana verdadeira”. Longe de todo anticlericalismo vulgar, esse comunismo era “o desenvolvimento de um humanismo prático”, para o qual não se tratava só de combater a alienação religiosa, senão a alienação e a miséria sociais reais das quais nasce a necessidade de religião.

Da experiência fundadora de 1848 até a da Comuna, o “movimento real” que busca abolir a ordem estabelecida tomou forma e força, dissipando as “loucuras sectárias” e deixando no ridículo “o tom de oráculo da infalibilidade científica”. Dito de outra forma, o comunismo, que foi primeiro um estado de espírito ou “um comunismo filosófico”, encontrava sua forma política. Em um quarto de século, levou a cabo sua transformação: de seus modos de aparição filosóficos e utópicos à forma política, por fim encontrada na emancipação.

1. As palavras de emancipação não saíram imunes das tormentas do século passado. Pode-se dizer delas, como dos animais da fábula, que não morreram todas, mas que todas foram gravemente feridas. Socialismo, revolução, anarquia inclusive, não estão muito melhor do que comunismo. O socialismo esteve implicado no assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, nas guerras coloniais e nas colaborações governamentais, até o ponto de perder todo conteúdo na medida em que ganhava em extensão. Uma metódica campanha ideológica conseguiu identificar aos olhos de muitos a revolução com a violência e o terror. Mas, de todas as palavras outrora portadoras de grandes promessas e de sonhos de porvir, a palavra comunismo foi a que mais danos sofreu devido à sua captura pela razão burocrática de Estado e ao seu submetimento a uma empresa totalitária. Fica por saber, todavia, se de todas essas palavras feridas há algumas que valem a pena reparar e pôr de novo em movimento.

2. É necessário para isso pensar no que ocorreu com o comunismo do século XX. A palavra e a coisa não podem ficar fora do tempo das provas históricas às quais foram submetidas. O uso massivo do título “comunista” para designar o Estado liberal autoritário chinês pesará muito mais durante longo tempo, aos olhos da grande maioria, do que os frágeis testes teóricos e experimentais de uma hipótese comunista. A tentação de subtraí-la de um inventário histórico crítico conduziria a reduzir a ideia comunista a “variáveis” atemporais, a fazer dela um sinônimo das ideais indeterminadas de justiça ou de emancipação, e não a forma específica de emancipação na época da dominação capitalista. A palavra perde então em precisão política o que ganha em extensão ética ou filosófica. Una das questões cruciais é saber se o despotismo burocrático é a continuação legítima da revolução de Outubro ou o fruto de uma contrarrevolução burocrática, verificada não só pelos processos, pelas purgas, pelas deportações massivas, senão também pelas comoções dos anos trinta na sociedade e no aparelho de Estado soviético.

3. Não se inventa um novo léxico por decreto. O vocabulário se forma com o tempo, através de usos e experiências. Ceder à identificação do comunismo com a ditadura totalitária estalinista seria capitular ante os vencedores provisórios, confundir a revolução e a contrarrevolução burocrática e fechar assim o capítulo das bifurcações, único aberto à esperança. E seria cometer uma irreparável injustiça com os vencidos, todas as pessoas, anônimas ou não, que viveram apaixonadamente a ideia comunista e que a mantiveram viva contra suas caricaturas e falsificações. É vergonhosa a postura dos que deixaram de ser comunistas ao deixarem de ser estalinistas e que não foram comunistas mais do que foram estalinistas![2]

4. De todas as formas de nomear “a alternativa” necessária e possível ao capitalismo imundo, a palavra comunismo é a que conserva mais sentido histórico e carga programática explosiva. É a que evoca melhor a repartição comum e a igualdade, a partilha do poder, a solidariedade contra o cálculo egoísta e a competição generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade - naturais e culturais-, a extensão aos bens de primeira necessidade de um espaço de gratuidade (desmercantilização) dos serviços, contra a rapina generalizada e a privatização do mundo.

5. É também o nome de uma medida diferente da riqueza social da adotada pela lei do valor e da valorização mercantil. A competição “livre e não falseada” repousa sobre “o roubo do tempo de trabalho do outro”. Pretende quantificar o não quantificável e reduzir à sua miserável medida comum, mediante o tempo de trabalho abstrato, a incomensurável relação da espécie humana com as condições naturais de sua reprodução. O comunismo é o nome de um critério diferente de riqueza, de um desenvolvimento ecológico qualitativamente diferente da corrida quantitativa pelo crescimento. A lógica da acumulação de capital exige não só a produção para o lucro, e não para as necessidades sociais, senão também “a produção de um novo consumo”, a ampliação constante do círculo de consumo “mediante a criação de novas necessidades e pela criação de novos valores de uso… Por isso, a exploração da natureza inteira e da terra em todos os sentidos”. Essa desmesura devastadora do capital funda a atualidade de um eco-comunismo radical.

6. A questão do comunismo é primeiro, no Manifesto Comunista, a da propriedade: “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: supressão da propriedade privada dos meios de produção e de troca, que não deve ser confundida com a propriedade individual dos bens de uso. Em todos os movimentos colocam a questão da propriedade, em qualquer grau de evolução que tenham conseguido chegar, como a questão fundamental”. Dos dez pontos que concluem o segundo capítulo, sete dizem respeito, com efeito, às formas de propriedade: a expropriação da propriedade latifundiária e o emprego da renda da terra em proveito do Estado; a instauração de impostos fortemente progressivos; a abolição da herança dos meios de produção e de circulação; o confisco dos bens dos emigrados rebeldes, a centralização do crédito em um banco público; a socialização dos meios de transporte e a construção de uma educação pública e gratuita para todos; a criação de manufaturas nacionais e o cultivo das terras improdutivas. Estas medidas tendem todas a estabelecer o controle da democracia política sobre a economia, a primazia do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado. Não se trata de abolir toda forma de propriedade, senão “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa”, “o modo de apropriação” fundado na exploração de uns por outros.

7. Entre dois direitos, o dos proprietários de se apropriarem dos bens comuns e o dos despossuídos à existência, “é a força que decide”, dizia Marx. Toda a historia moderna da luta de classes, da guerra dos camponeses na Alemanha até as revoluções sociais do século passado, passando pelas revoluções inglesa e francesa, é a história desse conflito. Resolve-se pela emergência de uma legitimidade oposta à legalidade dos dominantes. Como “forma política enfim encontrada de emancipação”, como “abolição” do poder do Estado, como realização da república social, a Comuna ilustra o surgimento desta nova legitimidade. Sua experiência tem inspirado as formas de auto-organização e de autogestão populares surgidas nas crises revolucionárias: conselhos operários, sovietes, comitês de milícias, cordões industriais, associações de vizinhos, comunas agrárias, que tendem a desprofissionalizar a política, a modificar a divisão social do trabalho, a criar as condições de extinção do Estado enquanto corpo burocrático separado.

8. Sob o reino do capital, todo progresso aparente tem sua contrapartida de regressão e de destruição. Não consiste, afinal, “em nada mais do que uma mudança na forma de servidão”. O comunismo exige uma ideia diferente e critérios distintos dos do rendimento e da rentabilidade monetária. Para começar, uma redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e uma mudança da noção mesma de trabalho: não poderá haver completo desenvolvimento individual no ócio ou o “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. A perspectiva comunista exige também uma mudança radical na relação entre o homem e a mulher: a experiência da relação entre os gêneros é a primeira vivência da alteridade e enquanto subsistir esta relação de opressão, todo ser diferente - por sua cultura, sua cor ou sua orientação sexual - será vítima de formas de discriminação e de dominação. O progresso autêntico reside enfim no desenvolvimento e na diferenciação de necessidades cuja combinação original faça de cada um e de cada uma um ser único, cuja singularidade contribua para o enriquecimento da espécie.

9. O Manifesto concebe o comunismo como “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos”. Apresenta assim a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem com o igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel. O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica no livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário.

10. O comunismo não é uma ideia pura, nem um modelo doutrinário de sociedade. Não é o nome de um regime estatal, nem o de um novo modo de produção. É o nome de um movimento que, de forma permanente, supera/suprime a ordem estabelecida. Mas é também o objetivo que, surgido desse movimento, o orienta e permite - contra políticas sem princípios, ações sem continuidade e improvisações cotidianas - determinar o que aproxima do objetivo e o que afasta dele. Desse modo, não é um conhecimento científico do objetivo e do caminho, mas uma hipótese estratégica reguladora. Nomeia, indissociavelmente, o sonho irredutível de um mundo diferente, de justiça, de igualdade e de solidariedade; o movimento permanente que aponta para a derrocada da ordem existente na época do capitalismo; e a hipótese que orienta este movimento para uma transformação radical das relações de propriedade e de poder, longe dos acordos com um mal menor que seria o caminho mais curto para o pior.

11. A crise social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não posterga já seus próprios limites senão ao preço de uma desmesura e de uma injustiça crescentes, ameaçando por sua vez a espécie e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade do comunismo” radical que invocou Benjamin frente ao ascenso dos perigos do entre guerras.

Notas:

[1] Tal expressão faz referência a Icária, nome dado por Cabet - um dos representantes do chamado socialismo utópico - ao seu país utópico e, mais tarde, à sua colônia comunista na América [nota do tradutor]. (retornar ao texto)

[2] Ver Mascolo, D. (2000) A la recherche d´un communisme de pensée. Paris : Editions Fourbis, p. 113. (retornar ao texto)

Fonte: Revista Viento Sur.

Tradução: Daniel Monteiro.

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O Socialismo e a Emancipação da Mulher

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Obras Escolhidas

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(em Três Tomos)

V. I. Lénine


Nota da Edição Portuguesa

A tradução do primeiro tomo das Obras Escolhidas de V. I. Lénine em três tomos foi feita segundo a correspondente edição russa, preparada pelo Instituto de Marxismo-Leninismo anexo ao CC do PCUS, com o acréscimo dos artigos: Friedrich Engels, no Tomo I e As Eleições para Assembleia Constituinte e a Ditadura do Proletariado no Tomo III

© Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1977, que gentilmente autorizou a transcrição para o Marxists Internet Archive.

Transcrição: Fernando A. S. Araújo para o Marxists Internet Archive, 2006.

 

Tomo I

Prefácio

KARL MARX (Breve nota biográfica com uma exposição do marxismo)

FRIEDRICH ENGELS

AS TRÊS FONTES E AS TRÊS PARTES CONSTITUTIVAS DO MARXISMO

MARXISMO E REVISIONISMO

A QUE HERANÇA RENUNCIAMOS?

QUE FAZER? Problemas candentes do nosso movimento

UM PASSO EM FRENTE, DOIS PASSOS ATRÁS (A crise no nosso partido)

O COMEÇO DA REVOLUÇÃO NA RÚSSIA

DUAS TÁCTICAS DA SOCIAL-DEMOCRACIA NA REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA

AS LIÇÕES DA INSURREIÇÃO DE MOSCOVO

NO CAMINHO

À MEMÓRIA DE HERZEN

SOBRE A VIOLAÇÃO DA UNIDADE ENCOBERTA COM GRITOS DE UNIDADE.

SOBRE O DIREITO DAS NAÇÕES À AUTODETERMINAÇÃO

A GUERRA E A SOCIAL-DEMOCRACIA DA RÚSSIA

ACERCA DO ORGULHO NACIONAL DOS GRÀO-RUSSOS

SOBRE A PALAVRA DE ORDEM DOS ESTADOS UNIDOS DA EUROPA

NOTA DA REDACÇÃO DO «SOTSIAL-DEMOKRAT» SOBRE O MANIFESTO DO CC DO POSDR ACERCA DA GUERRA

O IMPERIALISMO, FASE SUPERIOR DO CAPITALISMO (Ensaio popular)

SOBRE A TENDÊNCIA NASCENTE DO «ECONOMISMO IMPERIALISTA»

O PROGRAMA MILITAR DA REVOLUÇÃO PROLETÁRIA

Tomo 2

PREFÁCIO

CARTAS DE LONGE

SOBRE AS TAREFAS DO PROLETARIADO NA PRESENTE REVOLUÇÃO

SOBRE A DUALIDADE DE PODERES

AS TAREFAS DO PROLETARIADO NA NOSSA REVOLUÇÃO (Projecto de plataforma do partido proletário)

VII CONFERÊNCIA (DE ABRIL) DE TODA A RÚSSIA DO POSDR(b)

INTRODUÇÃO ÀS RESOLUÇÕES DA SÉTIMA CONFERÊNCIA (DE ABRIL) DE TODA A RÚSSIA DO POSDR(b)

I CONGRESSO DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS E SOLDADOS DE TODA A RÚSSIA

O DEZOITO DE JUNHO

COM QUE PODIAM CONTAR OS DEMOCRATAS-CONSTITUCIONALISTAS AO RETIRAREM-SE DO MINISTÉRIO?

ONDE ESTÁ O PODER E ONDE ESTÁ A CONTRA-REVOLUÇÃO?

TRÊS CRISES

SOBRE A QUESTÃO DA COMPARÊNCIA PERANTE OS TRIBUNAIS DOS LÍDERES BOLCHEVIQUES

A SITUAÇÃO POLÍTICA (Quatro teses)

CARTA À REDACÇÃO DO «PROLETÁRSKOE DELO»

A PROPÓSITO DAS PALAVRAS DE ORDEM

AS LIÇÕES DA REVOLUÇÃO

AO COMITÉ CENTRAL DO POSDR

SOBRE OS COMPROMISSOS

PROJECTO DE RESOLUÇÃO SOBRE O MOMENTO POLÍTICO ACTUAL

A CATÁSTROFE QUE NOS AMEAÇA E COMO COMBATÊ-LA

UMA DAS QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA REVOLUÇÃO

A REVOLUÇÃO RUSSA E A GUERRA CIVIL

O ESTADO E A REVOLUÇÃO. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução

OS BOLCHEVIQUES DEVEM TOMAR O PODER

O MARXISMO E A INSURREIÇÃO

DO DIÁRIO DE UM PUBLICISTA. Os erros do nosso partido

A CRISE AMADURECEU

CONSERVARÃO OS BOLCHEVIQUES O PODER DE ESTADO?

CARTA AO CC, AO CM, AO CP E AOS MEMBROS BOLCHEVIQUES DOS SOVIETES DE PETROGRADO E MOSCOVO

CONSELHOS DE UM AUSENTE

CARTA AOS CAMARADAS BOLCHEVIQUES QUE PARTICIPAM NO CONGRESSO REGIONAL DOS SOVIETES DA REGIÃO DO NORTE

REUNIÃO DO COMITÉ CENTRAL DO POSDR(b). 10 (23) de Outubro de 1917

REUNIÃO DO COMITÉ CENTRAL DO POSDR(b). 16 (29) de Outubro de 1917

CARTA AOS MEMBROS DO PARTIDO BOLCHEVIQUE

CARTA AO COMITÉ CENTRAL DO POSDR(b)

CARTA A I. M. SVERDLOV

CARTA AOS MEMBROS DO CC

AOS CIDADÃOS DA RÚSSIA!

SEGUNDO CONGRESSO DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS E SOLDADOS DE TODA A RÚSSIA

PROJECTO DE REGULAMENTO SOBRE O CONTROLO OPERÁRIO

RÁDIO DO CONSELHO DE COMISSÁRIOS DO POVO

INTERVENÇÃO NA REUNIÃO DO CC DO POSDR(b)

RESOLUÇÃO DO CC DO POSDR(b) SOBRE A QUESTÃO DA OPOSIÇÃO DENTRO DO CC

ULTIMATO DA MAIORIA DO CC DO POSDR(b) À MINORIA

À POPULAÇÃO

RESPOSTA ÀS PERGUNTAS DOS CAMPONESES

DO COMITÉ CENTRAL DO PARTIDO OPERÁRIO SOCIAL-DEMOCRATA DA RÚSSIA (BOLCHEVIQUE). A todos os membros do partido e a todas as classes trabalhadoras da Rússia

CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DOS SOVIETES DE DEPUTADOS CAMPONESES DE TODA A RÚSSIA

A ALIANÇA DOS OPERÁRIOS COM OS CAMPONESES TRABALHADORES E EXPLORADOS. Carta à redacção do «Pravda»

REUNIÃO DO CEC DE TODA A RÚSSIA

RELATÓRIO SOBRE A SITUAÇÃO ECONÓMICA DOS OPERÁRIOS DE PETROGRADO E AS TAREFAS DA CLASSE OPERÁRIA NA REUNIÃO DA SECÇÃO OPERÁRIA DO SOVIETE DE DEPUTADOS OPERÁRIOS E SOLDADOS DE PETROGRADO. Relato jornalístico

TESES SOBRE A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE

PELO PÃO E PELA PAZ

DISCURSO SOBRE A NACIONALIZAÇÃO DOS BANCOS NA REUNIÃO DO CEC DE TODA A RÚSSIA

PROJECTO DE DECRETO SOBRE A APLICAÇÃO DA NACIONALIZAÇÃO DOS BANCOS E SOBRE AS MEDIDAS NECESSÁRIAS EM LIGAÇÃO COM ISTO

COMO ORGANIZAR A EMULAÇÃO?

DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO POVO TRABALHADOR E EXPLORADO

PROJECTO DE DECRETO SOBRE A DISSOLUÇÃO DA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE

PARA A HISTÓRIA DA QUESTÃO DA PAZ INFELIZ

POSFÁCIO ÀS TESES SOBRE A QUESTÃO DA CONCLUSÃO IMEDIATA DE UMA PAZ SEPARADA E ANEXIONISTA

DISCURSOS SOBRE A GUERRA E A PAZ NA REUNIÃO DO CC DO POSDR(b) 11 (24) de Janeiro de 1918. Acta

TERCEIRO CONGRESSO DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS, SOLDADOS E CAMPONESES DE TODA A RÚSSIA

PROJECTO DE RADIOGRAMA AO GOVERNO DO IMPÉRIO ALEMÃO

A PÁTRIA SOCIALISTA ESTÁ EM PERIGO!

POSIÇÃO DO CC DO POSDR (BOLCHEVIQUE) NA QUESTÃO DÃ PAZ SEPARADA E ANEXIONISTA

UMA LIÇÃO DURA, MAS NECESSÁRIA

PROJECTO DE DECRETO DO CCP SOBRE A EVACUAÇÃO DO GOVERNO

ESTRANHO E MONSTRUOSO

SÉTIMO CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DO PCR(b)

A TAREFA PRINCIPAL DOS NOSSOS DIAS

IV CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DOS SOVIETES DE TODA A RÚSSIA

AS TAREFAS IMEDIATAS DO PODER SOVIÉTICO

ESBOÇO DO PLANO DE TRABALHOS C1ENTÍFICO-TÉCNICOS

SEIS TESES ACERCA DAS TAREFAS IMEDIATAS DO PODER SOVIÉTICO

ACERCA DO INFANTILISMO «DE ESQUERDA» E DO ESPÍRITO PEQUENO­BURGUÊS

TESES SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA ACTUAL

SOBRE A FOME (Carta aos operários de Petrogrado)

DISCURSO NO I CONGRESSO DE TODA A RÚSSIA DOS CONSELHOS DA ECONOMIA NACIONAL

OBSERVAÇÕES ACERCA DO PROJECTO DO «REGULAMENTO SOBRE A GESTÃO DAS EMPRESAS NACIONALIZADAS

V CONGRESSO DE TODA A RÚSSIA DOS SOVIETES DE DEPUTADOS OPERÁRIOS, CAMPONESES, SOLDADOS E COMBATENTES DO EXÉRCITO VERMELHO

DISCURSO NUM COMÍCIO NO BAIRRO DA PRÉSNIA

DISCURSO NA REUNIÃO CONJUNTA DO CEÇ DE TODA A RÚSSIA, DO SOVIETE DE MOSCOVO, DOS COMITÉS DE FÁBRICA E DOS SINDICATOS DE MOSCOVO

CAMARADAS OPERÁRIOS! MARCHEMOS PARA O ÚLTIMO E DECISIVO COMBATE!

CARTA AOS OPERÁRIOS AMERICANOS

REUNIÃO CONJUNTA DO CEC DE TODA A RÚSSIA, DO SOVIETE DE MOS­COVO, DOS COMITÉS DE FÁBRICAS E DOS SINDICATOS

AS PRECIOSAS CONFISSÕES DE PITIRIM SORÓKINE

Tomo 3

PREFÁCIO

A REVOLUÇÃO PROLETÁRIA E O RENEGADO KAUTSKY

I CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA: Teses e Relatório Sobre a Democracia Burguesa e a Ditadura do Proletariado

VIII CONGRESSO DO PCR(b)

TESES DO CC DO PCR(b) RELATIVAS À SITUAÇÃO NA FRENTE LESTE

SAUDAÇÃO AOS OPERÁRIOS HÚNGAROS

UMA GRANDE INICIATIVA. (Sobre o heroísmo dos operários na retaguarda. A propósito dos «Sábados Comunistas»)

TODOS À LUTA CONTRA DENÍKINE! (Carta do CC do PCR (bolchevique) às organizações do partido)

SOBRE O ESTADO. Conferência na Universidade Sverdlov

CARTA AOS OPERÁRIOS E CAMPONESES A PROPÓSITO DA VITÓRIA SOBRE KOLTCHAK

O EXEMPLO DOS OPERÁRIOS DE PETROGRADO

OS RESULTADOS DA SEMANA DO PARTIDO EM MOSCOVO E AS NOSSAS TAREEAS

A ECONOMIA E A POLÍTICA NA ÉPOCA DA DITADURA DO PROLETARIADO

RELATÓRIO AO II CONGRESSO DE TODA A RÚSSIA DAS ORGANIZAÇÕES COMUNISTAS DOS POVOS DO ORIENTE

VIII CONFERÊNCIA DE TODA A RÚSSIA DO PCR(b)

DISCURSO NO I CONGRESSO DAS COMUNAS AGRÍCOLAS E ARTÉIS AGRÍCOLAS

AS ELEIÇÕES PARA A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE E A DITADURA DO PROLETARIADO

CARTA AOS OPERÁRIOS E CAMPONESES DA UCRÂNIA A PROPÓSITO DAS VITÓRIAS SOBRE DENÍKINE

RESPOSTAS ÀS PERGUNTAS DE KARL WIGAND, CORRESPONDENTE EM BERLIM DA AGÊNCIA DE INFORMAÇÃO AMERICANA «UNIVERSAL SERVICE»

CONVERSA   COM   O   CORRESPONDENTE   DO   JOR.NAL   AMERICANO THE WORLD, LINCOLN EIRE

IX CONGRESSO DO PCR(b)

DA DESTRUIÇÃO DE UM REGIME SECULAR À CRIAÇÃO DE UM NOVO REGIME

A DOENÇA INFANTIL DO «ESQUERDISMO» NO COMUNISMO

DISCURSO AOS SOLDADOS VERMELHOS QUE PARTEM PARA A FRENTE POLACA. Relato jornalístico

TESES PARA O II CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA

II CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA

AS TAREFAS DAS UNIÕES DA JUVENTUDE (Discurso no III Congresso de Toda a Rússia da União Comunista da Juventude da Rússia)

SOBRE A CULTURA PROLETÁRIA

DISCURSO NA CONFERÊNCIA DE TODA A RÚSSIA DOS COMITÉS DE INSTRUÇÃO POLÍTICA DAS SECÇÕES DE GUBÉRNIA E UEZD DA INSTRUÇÃO PUBLICA

PROJECTO DE RESOLUÇÃO «AS TAREFAS DOS SINDICATOS E OS MÉTODOS DA SUA REALIZAÇÃO»

VIII CONGRFSSO DOS SOVIETES DE TODA A RÚSSIA

MAIS UMA VEZ SOBRE OS SINDICATOS, O MOMENTO ACTUAL E OS ERROS DOS CAMARADAS TRÓTSKI E BUKHÁRINE

SOBRE O PLANO ECONÓMICO ÚNICO

X CONGRESSO DO PCR(b)

SOBRE O IMPOSTO EM ESPÉCIE (O significado da nova política e as suas condições)

DISCURSOS GRAVADOS EM DISCO

X CONFERÊNCIA DE TODA A RÚSSIA DO PCR(b)

III CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA

PARA O QUARTO ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO OURO AGORA E DEPOIS DA VITÓRIA COMPLETA DO SOCIALISMO

DIRECTIVAS PARA A DELEGAÇÃO SOVIÉTICA À CONFERÊNCIA DE GÉNOVA

SOBRE O SIGNIFICADO DO MATERIALISMO MILITANTE

PARA O DÉCIMO ANIVERSÁRIO DO PRAVDA

ACERCA DA FORMAÇÃO DA URSS. Carta a L. B. Kámenev para os membros do Bureau Político do CC do PCR (b)

SOBRE O MONOPÓLIO DO COMÉRCIO EXTERNO

IV CONGRESSO DA INTERNACIONAL COMUNISTA

DISCURSO NO PLENÁRIO DO SOVIETE DE MOSCOVO

ÚLTIMAS CARTAS E ARTIGOS DE V. I. LÉNINE

I. CARTA AO CONGRESSO

II.

III.

IV. SOBRE A ATRIBUIÇÃO DE FUNÇÕES LEGISLATIVAS A GOSPLAN

V.

VI.

VII. (PARA A SECÇÃO SOBRE O AUMENTO DO NÚMERO DE MEMBROS DO CC)

SOBRE A QUESTÃO DAS NACIONALIDADES OU DA AUTONOMIZAÇÃO»

PÁGINAS DO DIÁRIO

SOBRE A COOPERAÇÃO

SOBRE A NOSSA REVOLUÇÃO (A propósito das notas de N. Sukhánov)

COMO DEVEMOS REORGANIZAR A INSPECÇÃO OPERÁRIA E CAMPONESA (Proposta ao XII congresso do partido)

É MELHOR MENOS, MAS MELHOR

Comentários

Editada pelo PCB - Partido Comunista do Brasil. Circulou de Agosto de 1947 até 19??

 

Nº 1
Agosto 1947

 

capa_01Sumário

Apresentação

Redação

A Reforma Agrária

Luiz Carlos Prestes

A Grã Bretanha e os Estados Unidos

I. Taigin

A Exclusão Arbitrária dos Comunistas do Parlamento Francês

Arthur Ramette

A Luta Pela Democracia na França

Joanny Berlioz

O Partido Comunista, Vanguarda da Classe Operária

Joseph Stalin

A Doutrina de Truman

Joseph Starobin

A Revolução Pacífica da Polônia

Miroslaw Zulawsky

Notas e Comentários

Redação

 

 

Nº 2
Setembro 1947

 

tn_capa_02 Sumário

Participemos ativamente das eleições municipais

Luiz Carlos Prestes

Aumentar Cem por Cento nos Salários Mínimos

Diógenes Arruda

A Religião, O Estado, a Família

Carlos Marighella

O Desenvolvimento e as Perspectivas da Situação Internacional

Edward Kardelj

A Estrutura Orgânica do Partido Comunista da Checoslovaquia

H. Lomsky

O Partido Comunista, Destacamento Organizado da Classe Operária

J. Stalin

O Plano Marshall

James S. Allen

O Petróleo na Doutrina Truman

Virgínia Gardener

A Verdadeira Situação da China

Frederick V. Field

Figuras do Movimento Operário: Jean Jaurés

Roger Garaudy

Antônio Gramsci

Palmiro Togliatti

Notas

Comentários

O protesto operário

Partido Operário Socialista
Portugal

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logo_prot_operario

Em Portugal, com a fundação do Partido Socialista a 10 de Janeiro de 1875 dois novos jornais de carácter socialista foram criados: «O Protesto» e «O Operário», os quais mais tarde se haveriam de fundir para dar lugar ao «Protesto Operário», órgão do Partido Socialista e que mantinha uma redacção em Lisboa e outra no Porto. Circulou de março de 1882 até 1???.

Foto do nº 1 do jornal publicado em 5 de Março de 1882

prot_oper2

(Fonte: Almocreve das Petas)

18 de Março de 1883  Karl Marx (notícia do falecimento)

25 de Março de 1883 Karl Marx (confirmação do falecimento)

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Comentários

O pensamento de Lênin

Luciano Gruppi

"A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo."

 

lênin

Vladimir Ilyitch Ulianov - Lênin (1870-1924)

Do estudo do pensamento de Lênin, fica-nos a persuasão de que a característica mais profunda de seu método, de sua mentalidade, é o sentido da concreticidade histórica, a consciência da historicidade.  "A análise concreta da situação concreta é a alma viva, a essência do marxismo" (v. 31, p. 135).  Essa advertência, que reaparece mais de uma vez, parece-nos caracterizar o modo pelo qual ele se situa diante do marxismo.

Assim, ele parte - com um emprego do marxismo que já é incrivelmente maduro - da investigação da específica situação histórica russa, do modo peculiar pelo qual o capitalismo se desenvolve nesse país.  A investigação da especificidade russa serve-lhe para fundar a posição do proletariado diante da democracia burguesa, assim como a necessidade da sua hegemonia.  Em 1917, ele vê a articulação singular, original, que se verifica na Rússia entre o poder da grande burguesia e a ditadura democrática dos operários e dos camponeses; vê o modo pelo qual o alinhamento das forças políticas cria as condições e põe a necessidade de que as tarefas da revolução democrática sejam assumidas pela ditadura do proletariado e resolvidas numa conexão historicamente nova, original, entre a revolução democrática e a revolução socialista.

A convicção de Marx e Engels de que o marxismo não é um dogma, mas um método para a ação, é assim em Lênin algo muito forte; trata-se de uma ideia frequentemente repetida, sobretudo nos momentos de virada histórica e quando surgem novas situações políticas.  É o caso em 1907, quando - após a derrota da primeira revolução - coloca-se a questão da atitude da classe operária em face da Duma reacionária; é o caso depois da Revolução de Fevereiro, quando se trata de passar para a nova etapa da revolução proletária.  A teoria revolucionária não é dada para sempre; ela generaliza, elevando ao nível da consciência, a experiência histórica.  Todas as vezes que - a história, como Lênin observa, "jamais se repete" - todas as vezes que se põem à praxis tarefas novas, as conquistas teóricas alcançadas até aquele momento não bastam mais e colocam-se novas tarefas de investigação e de elaboração.

O marxismo, portanto, não é uma teoria universal que contenha em si todas as respostas; não é uma "filosofia da história" da qual possam ser deduzidas todos os momentos históricos.  É o método que permite compreender o processo histórico em sua determinação concreta.  Não é possível nenhuma separação entre método e teoria.  O método só é tal enquanto se vale de categorias científicas, resultantes da tomada de consciência dos elementos que constituem o processo da história.  Mas a história não é um fluir indistinto de fatos que devam ser apenas constatados e aos quais se deva apenas aderir; movida pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, pelos alinhamentos de classe correspondentes, a história se divide em formações econômico-sociais diversas.  Essa categoria de formação econômico-social, definida pelas leis que a governam, permite compreender a direção de um desenvolvimento histórico, antes mesmo que suas linhas tenham emergido com plena clareza; mas não esgota a necessidade de descobrir o modo específico pelo qual uma formação econômico-social se realiza nas diferentes situações.  Na noção de formação econômico-social, na consciência da historicidade das leis econômicas, do caráter dinâmico dos sistemas econômicos, na conexão que estabelece entre análise econômica e análise sociólogo e política, consistem a cientificidade do marxismo.  Nisso reside sua capacidade de descobrir as características concretas do processo histórico.

No interior de uma formação econômico-social geral (por exemplo: a capitalista), especificam-se os diversos processos de desenvolvimento dessa formação: a especificidade nacional, a especificidade dos alinhamentos de classe, a singularidade das situações e dos eventos políticos.  Só se faz política, praxis transformadora, quando há utilização das categorias constitutivas da formação econômico-social com o objetivo de descobrir as formas concretas através das quais ela se desenvolve.

Reside também aqui o fundamento científico da política proletária, que se faz guiar por categorias científicas e que as verifica na praxis.

Mas, precisamente porque a formação econômico-social representa o modo pelo qual se demarca o desenvolvimento histórico, ela deve ser captada em seu desenvolvimento, em suas transformações.  É assim que Lênin - que compreendeu a concreticidade de uma situação histórica determinada (russa) graças à aplicação das categorias científicas do marxismo - se eleva à compreensão da nova fase do desenvolvimento da formação econômico-social capitalista: o imperialismo.

O processo histórico é concebido em sua totalidade, na relação de estrutura e superestrutura, na conexão entre economia e política.  Se Marx nos dá a estrutura do capitalismo - observa Lênin - emprega ao mesmo tempo as categorias constitutivas dessa estrutura para a compreensão dos desenvolvimentos reais, da atitude das forças políticas, da função das personalidades individuais.

Para Lênin, o momento decisivo é o da política.  É o caso quando, diante da Revolução de 1905, critica os neo-iskristas por não compreenderem a função dos partidos, que intervêm ativamente no desenvolvimento histórico, por não terem entendido as teses de Marx sobre Feuerbach, por terem rebaixado o materialismo histórico a um materialismo pré-marxista, metafísico.  É o caso depois da Revolução de Fevereiro, quando a atitude a assumir é sugerida antes de mais nada pelo juízo sobre o alinhamento político.  É sempre o caso.  Mas a política só decide na medida em que implica a compreensão da situação objetiva, empregando categorias científicas, reportando-se à estrutura que governa o processo histórico.

Há uma conexão dialética entre economia e política, estrutura e superestrutura, situação objetiva e iniciativa revolucionária, objeto e sujeito.  Se considerarmos o conjunto do pensamento de Lênin, veremos que a atenção se volta sempre para a dialética: dialética dos processos reais, modo pelo qual se manifesta neles a contradição, relação entre todos os elementos que a constitutem, conexão entre situação objetiva e iniciativa política.  A política só é plenamente tal, só atinge uma fundamentação científica própria, se for guiada pela teoria, pelo conhecimento das leis que governam o desenvolvimento histórico e das categorias que devem ser aplicadas à análise das situações concretas.  Mas, precisamente por isso, a política - fundada pela teoria - por sua vez funda essa teoria, a verifica, exige seu desenvolvimento, num constante reexame crítico.  A política representa a unidade entre a teoria e a ação, a mediação entre elas.

A estreita relação entre a teoria e a ação, a permanente preocupação política, prática, que guia todos os momentos do pensamento de Lênin, a estreita adesão à concreticidade da história, torna esse pensamento - como esperamos ter conseguido demonstrar - extremamente rico e articulado.

Disso resulta a impossibilidade de reduzir sua concepção (ou, mais exatamente, o desenvolvimento de sua concepção) a algumas obras, por mais importantes que sejam.  Assim, para darmos um exemplo, não entenderemos sua concepção do imperialismo, em toda sua riqueza, se nos limitarmos ao famoso ensaio, embora seja o escrito mais importante sobre o assunto, e se não considerarmos as análises desenvolvidas em outros textos sobre o capitalismo monopolista de Estado.  Do mesmo modo, não entenderemos sua concepção do Estado se nos limitarmos a O Estado e a Revolução.  Se nos referirmos só a algumas obras, correremos o risco de incidir em graves equívocos, em perigosas sinplificações do seu pensamento.

Mas, sobretudo, nada - ou quase nada - compreenderemos da sua ação e dos seus escritos se não os situarmos no momento histórico e político a que eles se referem, se não esclarecermos qual era o fim político, prático, ao qual sempre tendiam de modo consciente.  Ele mesmo o diz, num prefácio a seus escritos, datado de 1907: "O erro fundamental em que incorrem hoje os que polemizam com o Que Fazer? está no fato de que esse escrito é inteiramente separado de sua conexão com uma situação histórica determinada, com um período determinado" (v. 13, p. 89).

Uma daquelas ironias da história, às quais Lênin gosta de se referir, terminou por fazer com que precisamente seu pensamento - e, mais ainda, momentos de seu pensamento - fossem absolutizados, prescindindo-se do seu condicionamento histórico-político, tomando-se esse pensamento ou esses momentos isolados dos desenvolvimentos que as concepções leninianas conhecem em outros momentos e escritos.

O fato é que, quando de sua morte, a áspera luta política (e consequentemente teórica) que se travou no Partido Comunista Russo (bolchevique), envolvendo alguns temas decisivos para a vida do regime soviético, teve de tomar como referência - o que era não só inevitável, mas também justo - os ensinamentos de Lênin.  Condição para que uma tese se afirmasse sobre outra foi a de que aparecesse como a interpretação mais fiel e consequente do pensamento de Lênin: e aqui se foi além do que era justo.  A luta política, assim, transformou-se também em luta por uma determinada interpretação de Lênin.  Formulações que eram desenvolvimentos da teoria revolucionária em comparação com o pensamente do Lênin, desenvolvimentos exigidos por situações novas, eram ao contrário apresentadas pura e simplesmente como teses do próprio Lênin.  Foi o caso, por exemplo, da teoria do socialismo num só país, cuja possibilidade está contida nos últimos escritos - em particular em Melhor pouco mas bom -, mas apenas a possibilidade e não a afirmação explícita.  A afirmação de que o socialsimo pode vencer "primeiro" em alguns ou mesmo em um só país - contida em Os Estados Unidos da Europa - é invocada como a prova de que a teoria do socialismo num só país já estava presente em Lênin.  E deixou-se de lado o "primeiro", assim como o fato de que ele não especificou de que países se pudesse tratar.

Em suma, toda uma série de momentos do pensamento de Lênin foram absolutizados, destacados da situação concreta de onde surgiram e para a qual se dirigiam.  Enquanto isso, outros momentos foram deixados na sombra ou esquecidos.

Mestre desse modo de "utilizar" Lênin foi indubitavelmente Stalin.  Não se pode negar, ao seu modo de interpretar o pensamento de Lênin, força teórica e extrema lucidez, notabilíssima capacidade de síntese.  É preciso reconhecer que "acertar contas" com Lênin, confrontar-se na base de uma interpretação do seu pensamento, assim como "sintetizá-lo", era naquele momento uma necessidade.  É isso tanto para a luta política que então se travava, quanto em função da necessidade de formar teoricamente uma grande massa de quadros e de militantes, não só soviéticos, mas de outros países, provenientes dos mais variados ambientes políticos e culturais e geralmente pouco aparelhados culturalmente.  Assim, interpretação para os fins da luta política e difusão e divulgação se articulavam como dois momentos igualmente necessários.  Mas,.desse modo, perdia-se grande parte da rica articulação do pensamento e da ação de Lênin.  Sua concepção é simplificada, empobrecida, em grande parte deformada.

Tomemos, como o exemplo mais rico de consequências e mais significativo, a "síntese" da concepção de Lênin contida nas lições de Stalin sobre os Princípios do Leninismo.  Trata-se, em seu gênero, de uma obra prima de síntese teórica, de precisão e de clareza.  Não se poderia explicar de outrro modo sua enorme influência.  Mas quanto se perde da "polpa" nessa tentativa de reduzir a concepção leniniana à sua estrutura essencial?  E quantas deformações são assim introduzidas na concepção de Lênin?

Vejamos alguns exemplos.  "Lênin chamava o imperialismo de ‘capitalismo moribundo’" (As questões do leninismo, Edições em Línguas Estrangeiras, Moscou, 1946, p. 11).  As contradições do imperialismo "transformaram o ‘florescente’ capitalismo de outrora em capitalismo moribundo" (Ibdem, p. 12).  Ora, como vimos, a concepção de Lênin sobre o imperialismo é bem mais rica e dialética.  Decerto, o imperialismo é a fase de putrefação do capitalismo; mas é também a fase de seu máximo desenvolvimento, a fase na qual têm lugar também grandes possibilidades de desenvolvimento tecnológico e produtivo.  Precisamente por isso, porque o imperialismo é o momento do máximo desenvolvimento do capitalismo, ele é também o momento de sua crise e de sua putrefação.  É perdida assim toda uma dimensão do pensamento de Lênin.  Toda a compreensão da complexidade e contraditoriedade de um desenvolvimento econômico-social é simplificada.  E pode-se bem compreender as consequências disso para um estudo objetivo do capitalismo nessa fase, o empobrecimento que resulta para a luta política e para o desenvolvimento da teoria.

E mais: destaca-se apenas um momento da ditadura do proletariado, o momento da violência exercida sem nenhuma limitação legal.  Trata-se, sem dúvida, de um elemento essencial da teoria de Lênin.  Mas, como vimos, não é o único.  A noção de ditadura do proletariado conheceu em Lênin, à medida que ele insistia cada vez mais no momento da direção, uma articulação bem mais complexa.  Deve-se notar que, enquanto Lênin insistia cada vez mais sobre a ditadura do proletariado como capacidade de direção, de educação, de persuasão, à medida mesmo que se iam colocando as tarefas construtivas do poder, Stalin - numa fase posterior, quando as tarefas do poder soviético tinham se tornado cada vez mais positivas - insiste, ao contrário, na violência, no momento que Lênin pusera em evidência sobretudo no período mais áspero da guerra civil, negligenciando os demais aspectos.  As razões e as consequências políticas desse modo de interpretar a teoria leniniana da ditadura são de fácil compreensão.

É assim deixada na sombra a insistência com a qual Lênin afirma que, com a ditadura do proletariado, o Estado começa imediatamente a se extinguir.  O fato de que logo após a tomada do poder e na época de Stalin, numa situação de isolamento do Estado soviético e não de rápida extensão da revolução, a questão não pudesse mais ser colocada desse modo é algo evidente.  Mas aqui não nos encontramos diante de um confronto teórico, avaliado em relação à diversidade de situações, mas simplesmente diante do cancelamento da questão.  E isso não deixa de ter profundas consequências, já que - quando as condições históricas não permitem (como não permitiam) uma rápida extinção do Estado - perde-se uma das características essenciais do regime socialista, isto é, a gradual identificação do poder estatal com o autogoverno da sociedade; é assim uma das razões fundamentais da sua democraticidade que se perde.  Com isso, recusa-se ver como a construção do socialismo em um só pais, ainda que obrigatória, alterou algo essencial na concepção que Lênin (reportando-se a Marx e Engels) tinha da "primeira fase do comunismo".  O fato é que a maneira pela qual Lênin é agora tratado torna impossível uma real confrontação teórica.  Os textos de Lênin são cada vez mais assumidos como o critério da verdade.  O critério da verdade transfere-se da praxis para os "clássicos" do marxismo.  Na realidade, o critério da verdade é estabelecido segundo o modo pelo qual Stalin interpreta Lênin; e cada vez mais se transferirá, de modo imediato, para as afirmações de Stalin.

Para Lênin, o partido é sem dúvida o momento mais alto da cosnciência de classe em comparação com as outras organizações da classe operária.  Em Stalin, essa concepção se converte numa rígida hierarquização das relações e num substancial empobrecimento da articulação das diversas organizações do poder proletário.  "O partido - diz Stalin - […] é a única organização capaz de centralizar a luta do proletariado e, portanto, de transformar as organizações proletárias apartidárias […] em orgãos auxiliares e em correias de transmissão que ligam o partido à classe" (Ibdem, p. 84).  Ora, o conceito de "correia de transmissão" está certamente presente em Lênin, em referência ao sindicato; mas é também verdade que é empregado, entre outras coisas, para recusar a proposta de sua estatização, para defender a função que lhe é própria.  Lênin não fala de organizações "auxiliares" do partido; ao contrário, vê o poder soviético apoiar-se num conjunto de organizações sobre as quais o partido exerce a função dirigente.

Mais tarde, na concepção da unidade do partido, será introduzido o conceito de monolítico, inteiramente ausente em Lênin, o qual - se havia insistido sobre a necessária compacticidade do partido - concebera-a sempre como o resultado de uma confrontação dialética.

Um outro exemplo nos é dado pelo modo de situar historicamente Lênin.  "Entre Marx e Engels, por um lado, e Lênin, por outro, estende-se todo o período do domínio do oportunismo da II Internacional" (Ibdem, p. 16).  O juízo de Lênin sobre a II Internacional, como vimos, era bem mais rico.  Ele indica, em toda uma fase histórica da II Internacional, uma função positiva, de desenvolvimento do movimento em partidos nacionais, de difusão do marxismo, e até mesmo de sua defesa frente aos ataques "revisionistas" de Bernstein.  Ao mesmo tempo, vê como as razões do oportunismo foram se acumulando gradualmente, até determinarem a capitulação de 1914.

Não se pode dizer que a análise histórica de Lênin esgote inteiramente a questao, que a categoria de "aristocracia operária" explique tudo o que pretende explicar.  Pode-se observar que ele não viu como a "renegação" do marxismo por Kaustsky tivesse suas raízes no modo pelo qual este interpretara o marxismo já nos anos anteriores; mas é certo que, em Stalin, encontramo-nos diante da extrema esquematização de uma avaliação histórica e da profunda modificação do juízo que Lênin formulara sobre a questão.

Disso resulta o que nos parece ser uma falsificação pura e simples da inserção de Lênin na história do movimento operário.  Trata-se da conhecida carta de Stalin à revista Proletarskaia Revoliutsia, de 1931, onde ele afirma: "Todo bolchevique sabe […] que já muito antes da guerra, mais ou menos por volta de 1903-1904, quando se formou na Rússia o grupo dos bolcheviques e pela primeira vez se ouviu falar dos esquerdistas na social-democracia alemã, Lênin seguia uma linha orientada para o rompimento, para a cisão com os oportunistas, tanto entre nós, no Partido Social-democrata da Rússia, quanto na II Internacional, particularmemnte na social democracia alemã" (Ibidem, p. 384).

Ora, é fato incontestável que a constituição da fração bolchevique no POSDR determinou divergências com a II Internacional, a respeito da posição que essa deveria ter assumido diante dos contrastes no interior da social democracia russa.  E é também certo que a II Internacional e o próprio Kautsky tinham maiores simpatias pelos mencheviques do que pelos bolcheviques, e que a razão disso se encontra numa concepção de partido diversa da que Lênin propugnava.  Mas não há um só documento, um só escrito ou discurso de Lênin onde se revele uma intenção de rompimento.  Ao contrário, a orientação de Lênin se volta no sentido de superar as incompreensões da II Internacional para com os bolcheviques, de conquistar para eles a plena cidadania naquela organização, acompanhando esse esforço com a luta contra o oportunismo.  Pode-se dizer que o Lênin de Que Fazer?, e, mesmo antes, o dos primeiros escritos econômicos, já fosse um marxista bem diverso do de Kautsky; mas deve-se também acrescentar que, no próprio Lênin, não havia uma plena consciência dessa diferença, tanto assim que ele continuou a se referir a Kautsky como à maior autoridade em marxismo; e deve-se ainda recordar, sobretudo, que mesmo depois, quando a ruptura já ocorrera e a crítica não poderia ter sido atenuada por motivações políticas, ele continuou a falar com admiração de textos de Kautsky anteriores a 1914 e a referir-se, sem reservas, a um período no qual este "ainda era marxista".

Também no que se refere à social democracia russa, não se deve esquecer o esforço de Lênin - embora com sucesso pouco consistente - no sentido de reconstituir a unidade das duas correntes, por ocasião do IV Congresso do POSDR.

Depois da morte de Lênin, formou-se toda uma tendência a cancelar da história do movimento operário a II Internacional em seu conjunto, como se se tratasse de um obscuro parênteses.  Ignora-se assim que se Lênin, desde os primeiros anos, reportou-se diretamente a Marx e aplicou com originalidade o seu método e a sua teoria, sem deixar-se aprisionar pela mediação de Kautsky, ele aceitou porém uma certa mediação desse teórico do marxismo.  Assim como também aceitou a de Plekhânov para a luta contra os populistas, embora a tenha travado logo em seguida de modo original.  Aceitou a mediação de Kautsky, tanto no que se refere à questão agrária quanto à teoria do partido; nesse último caso, recolheu de Kautsky a tese decisiva segundo a qual a teoria revolucionária vem "de fora" do movimento operário.  A influência filosófica de Plekhânov continuou a atuar, mesmo depois do rompimento, pelo  menos até Materialismo e Empirocriticismo.

Essa eliminação de qualquer mediaçãqo da II Internacional na relação de Lênin com Marx e Engels foi o momento necessário de uma importante operação ideológica: a construção da noção de "marxismo-leninismo".  Com essa fórmula, pretende-se precisamente afirmar a rigorosa continuidade da concepção e da ação de Lênin com relação a Marx; e, ao mesmo tempo, pretendeu-se dizer que Lênin imprimiu um vigoroso e consequente desenvovlimento ao marxismo, tal como a nova fase imperialista do capitalismo tornara necessário.  Há nisso tudo uma profunda verdade, tanto na afirmação de uma rigorosa relação de continuidade entre Lênin e Marx, quanto na acentuação do valor essencial do desenvolvimento que ele emprestou ao marxismo.  Mas há também uma simplificação inaceitável.  Precisamente a negação da existência de uma mediação histórica entre Marx e Lênin, que na verdade existiu; e a recusa de analisar o que essa mediação significou.  A consequência foi que depois, com a noção de "marxismo-leninismo", terminou-se por apresentar a teoria revolucionária do movimento comunista como um todo compacto, em si acabado, capaz de responder a todos os problemas.  Perdeu-se de vista a extraordinária riqueza do pensamento de Marx, Engels e Lênin, as diversidades que existem entre momentos diversos do pensamento deles e de cada um deles em particular, assim como o que distingue a personalidade desses revolucionários.  Perdeu-se o sentido da historicidade do marxismo e a consciência de que era necessário aplicar o método marxista ao estudo da história do próprio marxismo.

Essa fórmula tornou-se possível por causa de uma certa interpretação de Lênin que transformava seu pensamento num sentido doutrinário, que o simplificava e empobrecia.  Só se pode falar de "marxismo-leninismo" quando Lênin é visto através da interpretação de Stalin.  Na realidade, o marxismo-leninismo é essencialmente a interpretação de Lênin que nos é dada por Stalin1.

Stalin nos deu uma célebre definição do "leninismo".  Como se sabe, Stalin gostava das definições e possuía uma incomum capacidade didática ao apresentá-las; não tinha, em face das definições, a prudência e a desconfiança de Lênin.

"O leninismo é o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária.  Mais exatamente: o leninismo é a teoria e a prática da revolução proletária em geral, a teoria e a prática da ditadura do proletariado em particular" (Ibdem, p. 10).

Pode-se observar que nem todo Marx está presente em Lênin, nem toda a excepcional dimensão de sua visão teórica (e isso mesmo sem levar em conta os escritos marxianos que Lênin não pudera conhecer).  E pode-se observar que existem em Lênin, além de novos desenvovlimentos da teoria e de novas tarefas da ação revolucionária por ele enfrentadas, capacidades e sensibiluidades que não existiam em Marx ou que a história não lhe dera ocasião de manifestar.

Não queremos aqui nos deter sobre o modo pelo qual a conexão entre teoria e ação passa historicamente, com Lênin, a um novo nível e atinge uma dimensão qualitativamente diversa.

Todavia, Stalin se dá conta - quando fala de "leninismo" - que não se refere à concepção geral do marxismo que Lênin assumira, mas "ao que há de particular e de novo na obra de Lênin" (Ibidem, p. 9).

É difícil negar que essa definição de Stalin capte o momento em que Lênin se insere na história de modo decisivo, um modo que faz dele o grande dirigente do movimento revolucionário que conhecemos.  Desse ponto de vista, cremos que essa definição possa ser aceita; mas recordando o que o apodítico Stalin esquece, algo que Lênin, ao contrário, tinha bem presente: ou seja, que "todas as definições muito concisas são certamente cômodas, como é o caso das que resumem o essêncial do fenômeno em questão, mas revelam-se insuficientes quando se trata de deduzir delas os traços mais essenciais do fenômeno a definir (v. 22, p. 266). Isso vale também para a definição staliniana de "leninismo", que deixa na sombra toda uma série de momentos essenciais do pensamento de Lênin.  Basta pensar na investigação da especificidade russa, que nos fornece também o exemplo de um método de investigação aplicável a outras realidades históricas; basta pensar na teoria do partido, que não pode ser reabsorvida na referência "à teoria e tática da revolução proletária em geral, da ditadura do proletariado em particular".

Concluindo: é preciso voltar hoje a uma leitura não dogmática, não doutrinária de Lênin, mas a uma leitura guiada pelo senso da historicidade, capaz de estabelecer a colocação histórico-política e a riqueza da articulação do pensamento e da ação de Lênin.  Uma leitura capaz de recuperar a relação entre método e teoria que lhe era propria e, por isso, a visão crítica do seu pensamento, única que pode ser fecunda.

Isso significa que é preciso libertar-se da mediação deformante do péríodo da direção de Stalin, mas sem repetir o erro que Stalin cometeu: o de ignorar que as mediações existem, não podem ser canceladas; por isso, elas devem ser também atentamente estudadas, pelo que foram, pelas razões históricas profundas que as determinaram, já que só assim poderão ser criticamente superadas.

Nota:

1 CF. Valentino Gerratana.  Lo stalinismo teorico. In Rinascita, no 43, ano 26, outubro de 1969.

Fonte:  GRUPPI, Luciano.  O pensamento de Lênin.  Tradução de Carlos Nelson Coutinho.  Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 297-308.

O pensamento de LêninLuciano Gruppi (1920-2003), teórico e dirigente comunista italiano, escreveu na revista Critica marxista e organizou os últimos volumes das Obras de Palmiro Togliatti; é autor de uma valiosa Introdução ao estudo de Gramsci (1987); vários de seus livros foram traduzidos no Brasil: O pensamento de Lênin, O conceito de hegemonia em Gramsci, Tudo começou com Maquiavel.

Fonte: Fundação Lauro Campos – http://www.socialismo.com.br

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Imprensa Proletária

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O Futurismo Italiano (carta a Trotski) António Gramsci

Fonte: Gentilmente cedido pela Juventude do PSTU.

HTML por José Braz para o Marxists Internet Archive

Site: http://www.marxists.org/portugues


Eis aqui as respostas às perguntas que você me fez sobre o futurismo italiano: O movimento futurista, na Itália, perdeu, completamente, seus traços característicos, depois da guerra. Marinetti dedica-se muito pouco com o movimento. Casou-se e prefere consagrar sua energia à esposa. Monarquistas, comunistas, republicanos e fascistas participam, atualmente, do movimento futurista. Em Milão, onde, recentemente, se fundou um semanário político, Il Principe, que formula, ou procura formular, as teorias desenvolvidas por Maquiavel para a Itália do século XV, a saber: Só um monarca absoluto, um novo César Bórgia, colocando-se à frente dos grupos rivais, pode encerrar a luta, que divide os partidos locais e leva a nação ao caos. Dois futuristas, Bruno Corra e Enrico Settimelli, dirigem o órgão. Marinetti colabora hoje nesse periódico, embora tivesse sido preso por causa de violento discurso contra o rei, que pronunciou em 1920, durante manifestação patriótica, em Roma. Os principais porta-vozes do futurismo de antes da guerra tornaram-se fascistas, à exceção de Giovanni Papini, que se converteu ao catolicismo e escreveu uma história do Cristo. Os futuristas, durante a guerra, foram os mais tenazes partidários da "luta até a vitória final" e do imperialismo. Só um fascista, Aldo Palazzeschi, declarou-se contra a guerra. Rompeu com o movimento e terminou emudecendo como escritor, embora fosse dos mais inteligentes. Marinetti publicou um manifesto para demonstrar que a guerra - sempre, aliás, exaltada por ele - constituía o único remédio higiênico para o universo. Tomou parte no conflito como capitão de um batalhão de carros blindados, aos quais teceu um hino entusiasta no seu último livro, A Alcova de Aço. Escreveu também uma brochura intitulada Fora do Comunismo, na qual desenvolve suas doutrinas políticas - se se pode qualificar de doutrina as fantasias desse homem - que são por vezes espirituosas e sempre estranhas. A seção de Turim do Proletkult, antes da minha partida da Itália, pediu a Marinetti que explicasse, na abertura de uma exposição de quadros futuristas, o sentido do movimento aos operários. Ele aceitou, voluntariamente, o convite. Visitou a exposição com os operários e declarou-se satisfeito com o fato de demonstrarem mais sensibilidade que os burgueses no que concerne à arte futurista. O futurismo, antes da guerra, era muito popular entre os operários. A revista L’Acerbo tinha uma tiragem que atingia a 20.000 exemplares, dos quais quatro quintos circulavam entre operários. Quando de numerosas manifestações de arte futurista, nos teatros das maiores cidades italianas, os operários defendiam os futuristas contra os jovens - semiaristocratas e burgueses - que os atacavam. O grupo futurista de Marinetti não existe mais. Um certo Mario Dessi, um homem sem o menor valor, tanto como intelectual quanto como organizador, agora dirige o seu antigo órgão, Poesia. No Sul, notadamente na Sicília, apareceram muitas folhas futuristas nas quais Marinetti escreve artigos; publicam-nas estudantes que encobrem com o futurismo a sua ignorância da gramática italiana. Os pintores compõem o grupo mais importante entre os futuristas. Há, em Roma, uma exposição permanente de pintura futurista, organizada por um certo Antonio Giulio Bragaglia, fotógrafo falido, produtor de cinema e empresário. O mais conhecido dos pintores futuristas é Giorgio Balla. D’Annunzio, publicamente, nunca tomou posição em relação ao futurismo. Deve-se dizer que o futurismo, na sua origem, manifestava-se, expressamente, contra d’Annunzio. Um dos primeiros livros de Marinetti intitulava-se Les Dieux s’en vont, d’Annunzio reste(1). Ainda que durante a guerra os programas políticos de Marinetti e de d’Annunzio coincidissem em todos os pontos, os futuristas permaneceram anti-d’Annunzio. Eles, praticamente, não mostraram nenhum interesse pelo movimento de Fiúme, embora mais tarde participassem das manifestações.

Pode-se dizer que, depois da conclusão da paz, o movimento futurista perdeu completamente o seu caráter e dissolveu-se em diversas correntes, formadas no transcurso da guerra e em conseqüência dela. Os jovens intelectuais são quase todos reacionários. Os operários, que viram no futurismo elementos de luta contra a velha cultura acadêmica italiana, ossificada e estranha ao povo, hoje devem combater de armas na mão por sua liberdade e demonstram pouco interesse pelas velhas querelas. Nas grandes cidades industriais, o programa do Proletkult, que visa a despertar o espírito criador do operário para a literatura e a arte, absorve a energia daqueles que ainda têm tempo e desejo de ocupar-se com tais questões.

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Os Jornais e os Operários Antonio Gramsci 1916

Primeira Edição: …………….
Origem da presente Transcrição: ……………….
Tradução: ……………..
Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive.
HTML de: Fernando A. S. Araújo para o Marxists Internet Archive, Junho 2005.
Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License


É a época da publicidade para as assinaturas. Os diretores e os administradores dos jornais burgueses arrumam as suas vitrines, passam uma mão de tinta pela tabuleta e chamam a atenção do passante (isto é, do leitor) para a sua mercadoria. A mercadoria é aquela folha de quatro ou seis páginas que todas as manhãs ou todas as tardes vai injetar no espírito do leitor os modos de sentir e de julgar os fatos da atualidade política que mais convém aos produtores e vendedores de papel impresso. Estamos dispostos a discorrer, com os operários especialmente, sobre a importância e a gravidade daquele ato aparentemente tão inocente que consiste em escolher o jornal que se pretende assinar?

É uma escolha cheia de insídias e de perigos que deveria ser feita com consciência, com critério e depois de amadurecida reflexão. Antes de mais, o operário deve negar decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria recorda-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por idéias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma idéia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E, de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela esta preocupação. Mas o pior reside nisto: em vez de pedir dinheiro à classe burguesa para o subvencionar a obra de defesa exposta em seu favor, o jornal burguês consegue fazer-se pagar pela própria classe trabalhadora que ele combate sempre. E a classe trabalhadora paga, pontualmente, generosamente. Centenas de milhares de operários contribuem regularmente todos os dias com seu dinheiro para o jornal burguês, aumentando a sua potência. Porquê? Se perguntarem ao primeiro operário que encontrarem no elétrico ou na rua, com a folha burguesa desdobrada à sua frente, ouvirão esta resposta: É porque tenho necessidade de saber o que há de novo. E não lhe passa sequer pela cabeça que as notícias e os ingredientes com as quais são cozinhadas podem ser expostos com uma arte que dirija o seu pensamento e influa no seu espírito em determinado sentido. E, no entanto, ele sabe que tal jornal é conservador, que outro é interesseiro, que o terceiro, o quarto e quinto estão ligados a grupos políticos que têm interesses diametralmente opostos aos seus. Todos os dias, pois, sucede a este mesmo operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária. Rebenta uma greve? Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores.

O governo aprova uma lei? É sempre boa, útil e justa, mesmo se não é verdade. Desenvolve-se uma campanha eleitoral, política ou administrativa? Os candidatos e os programas melhores são sempre os dos partidos burgueses. E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador. Apesar disto, a aquiescência culposa do operário em relação ao jornal burguês é sem limites. É preciso reagir contra ela e despertar o operário para a exata avaliação da realidade. É preciso dizer e repetir que a moeda atirada distraidamente para a mão do ardina é um projétil oferecido ao jornal burguês que o lançará depois, no momento oportuno, contra a massa operária.

Se os operários se persuadirem desta elementaríssima verdade, aprenderiam a boicotar a imprensa burguesa, em bloco e com a mesma disciplina com que a burguesia boicota os jornais dos operários, isto é, a imprensa socialista.

Não contribuam com o dinheiro para a imprensa burguesa que vos é adversária: eis qual deve ser o nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pela campanha de assinaturas, feitas por todos os jornais burgueses. Boicotem, boicotem, boicotem!

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