Arquivo de Marxistas

A importância actual de Marx, 150 anos depois dos Grundrisse

Marcello Musto

Eric Hobsbawm é considerado um dos maiores historiadores vivos. É presidente do Birkbeck College (Universidade de Londres) e professor emérito da New School for Social Research (Nova Iorque). Entre as suas muitas obras, encontra-se a trilogia acerca do “longo século XIX”:A Era das Revoluções: Europa 1789-1848 (1962); A Era do Capital: 1848-1874 (1975); A Era do Império: 1875-1914 (1987), e o livro A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991 (1994).

Professor Hobsbawm, duas décadas depois de 1989, quando foi apressadamente relegado ao esquecimento, Karl Marx regressou ao centro das atenções. Livre do papel de intrumentum regni que lhe foi atribuído na União Soviética, e das algemas do “marxismo-leninismo”, não só tem recebido nos últimos anos atenção intelectual pela nova publicação da sua obra, como também tem sido objecto de interesse generalizado. De facto, em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur dedicou um número especial a “Karl Marx, le penseur du troisième millénaire?” (Karl Marx – o pensador do terceiro milénio?). Um ano depois, na Alemanha, numa sondagem patrocinada pela companhia de televisão ZDF para estabelecer quem eram os alemães mais importantes de todos os tempos, mais de 500.000 espectadores votaram em Marx; obteve o terceiro lugar na classificação geral e o primeiro na categoria de “relevância actual”. Depois, em 2005, o semanário Der Spiegelapresentou-o na capa sob o título “Ein Gespenst Kehrt zurük” (Um espectro está de volta), enquanto os ouvintes do programa “In Our Time” da Rádio 4 da BBC votaram em Marx como o maior filósofo de todos os tempos.

Numa entrevista com Jacques Attali recentemente publicada, você disse que, paradoxalmente, «são os capitalistas, mais do que outros, que têm vindo a redescobrir Marx» e falou também do seu assombro quando o homem de negócios e político liberal George Soros lhe disse: «Tenho andado a ler Marx e há muitas coisas interessantes no que ele diz». Ainda que seja débil e algo vago, quais são as razões para este renascimento? É possível que a sua obra seja considerada como de interesse só de especialistas e intelectuais, sendo apresentada em cursos universitários como um grande clássico do pensamento moderno que nunca deveria ser esquecido? Ou poderá surgir no futuro uma nova “procura por Marx” também do ponto de vista político?

Há um indiscutível renascimento do interesse público em Marx no mundo capitalista, embora provavelmente ainda não nos novos membros da União Europeia, do leste europeu. Foi provavelmente acelerado pelo facto de o 150° aniversário da publicação do Manifesto do Partido Comunista ter coincidido com uma crise económica internacional particularmente dramática num período de ultra-rápida globalização do livre mercado.

Marx previu a natureza da economia mundial do início do século XXI cento e cinquenta anos antes, com base na análise da “sociedade burguesa”. Não é surpreendente que os capitalistas inteligentes, especialmente no sector financeiro globalizado, ficassem impressionados com Marx, já que eles estavam necessariamente mais conscientes que outros sobre a natureza e as instabilidades da economia capitalista na qual eles operavam. A maioria da esquerda intelectual já não sabia o que fazer com Marx. Tinha sido desmoralizada pelo colapso do projecto social-democrata na maioria dos estados do Atlântico Norte, nos anos 1980, e pela conversão massiva dos governos nacionais à ideologia do livre mercado, assim como pelo colapso dos sistemas políticos e económicos que afirmavam ser inspirados por Marx e Lenin. Os chamados “novos movimentos sociais”, como o feminismo, tampouco tinham uma conexão lógica com o anti-capitalismpo (ainda que, como indivíduos, muitos dos seus membros pudessem estar alinhados com ele) ou questionaram a crença no progresso sem fim no controlo humano sobre a natureza, que tanto o capitalismo como o socialismo tradicional tinham partilhado. Ao mesmo tempo, o “proletariado”, dividido e diminuído, deixou de ser crível como agente histórico da transformação social de Marx. Devemos também ter em conta que, desde 1968, os mais proeminentes movimentos radicais preferiram a acção directa não necessariamente baseada em muitas leituras e análises teóricas.

Claro que isto não significa que Marx deixará de ser encarado como um grande pensador clássico, ainda que, por razões políticas, especialmente em países como França e Itália, com outrora poderosos partidos comunistas, tenha havido uma apaixonada ofensiva intelectual contra Marx e as análises marxistas, que provavelmente atingiu o seu apogeu nas décadas de 1980 e 1990. Há agora sinais de que essa corrente já passou.

Ao longo da sua vida, Marx foi um agudo e incansável investigador, que percebeu e analisou melhor do que ninguém no seu tempo o desenvolvimento do capitalismo a uma escala mundial. Ele entendeu que o nascimento de uma economia internacional globalizada era inerente ao modo capitalista de produção e previu que este processo geraria não somente o crescimento e prosperidade alardeados por políticos e teóricos liberais, mas também violentos conflitos, crises económicas e injustiça social generalizada. Na última década, vimos a crise financeira do leste asiático, que começou no Verão de 1997, a crise económica argentina de 1999-2002 e, sobretudo, a crise hipotecária do subprime, que começou nos Estados Unidos em 2006 e se tornou agora a maior crise financeira do pós-guerra. É correcto dizer, então, que o retorno do interesse por Marx está também baseado na crise da sociedade capitalista e na sua capacidade duradoira de explicar as profundas contradições do mundo actual?

Se a política da esquerda no futuro será inspirada uma vez mais nas análises de Marx, como eram os velhos movimentos socialistas e comunistas, dependerá do que acontecer ao capitalismo mundial. Mas isso aplica-se não somente a Marx, mas à esquerda como um projecto e uma ideologia política coerente. Posto que, como você diz correctamente, o retorno do interesse por Marx está consideravelmente – eu diria, principalmente – baseado na actual crise da sociedade capitalista, a perspectiva é mais promissora do que foi na década de 1990. A actual crise financeira mundial, que pode bem tornar-se uma grande depressão económica nos EUA, dramatiza o fracasso da teologia do livre mercado global descontrolado, e obriga até o governo estado-unidense a considerar empreender acções públicas esquecidas desde a década de 1930. As pressões políticas já estão a debilitar o compromisso dos governos economicamente neoliberais numa globalização descontrolada, ilimitada e desregulada. Em alguns casos (China), as vastas desigualdades e injustiças provocadas por uma transição geral para uma economia de livre mercado já colocam problemas importantes para a estabilidade social e levantam dúvidas mesmo nos escalões mais altos de governo.

É claro que qualquer “retorno a Marx” será essencialmente um retorno à análise de Marx sobre o capitalismo e o seu lugar na evolução histórica da humanidade – incluindo, sobretudo, as suas análises sobre a instabilidade central do desenvolvimento capitalista, que procede por meio de crises económicas periódicas auto-geradas, com dimensões políticas e sociais. Nenhum marxista poderia acreditar por um instante que, como argumentaram os ideólogos neoliberais em 1989, o capitalismo liberal se tinha estabelecido para sempre, que a história tinha chegado ao fim, ou na verdade que qualquer sistema de relações humanas possa alguma vez ser final e definitivo.

Você não acha que, se as forças políticas e intelectuais da esquerda internacional, que se questionam sobre o socialismo no novo século, renunciassem às ideias de Marx, perderiam um guia fundamental para o exame e a transformação da realidade actual?

Nenhum socialista pode renunciar às ideias de Marx, na medida em que sua crença em que o capitalismo deve ser sucedido por outra forma de sociedade está baseada, não na esperança ou na vontade, mas numa análise séria do desenvolvimento histórico, particularmente na era capitalista. A sua previsão de que o capitalismo seria substituído por um sistema administrado ou planeado socialmente ainda parece razoável, embora ele tenha certamente subestimado os elementos de mercado que sobreviveriam em quaisquer sistemas pós-capitalistas. Uma vez que ele deliberadamente se absteve de especular sobre do futuro, não pode ser tornado responsável pelas formas específicas em que as economias “socialistas” foram organizadas sob o “socialismo realmente existente”. Quanto aos objetivos do socialismo, Marx não foi o único pensador que queria uma sociedade sem exploração e alienação, em que todos os seres humanos pudessem realizar plenamente as suas potencialidades, mas expressou esta aspiração de forma mais poderosa que qualquer outro, e as suas palavras mantêm o poder de inspirar.

No entanto, Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que os seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, como autoridade ou de outra maneira, nem como descrições da situação actual do capitalista mundial de hoje, mas sim como guias da sua forma de entender a natureza do desenvolvimento capitalista. Nem podemos ou devemos esquecer que ele não conseguiu realizar uma apresentação coerente e completamente reflectida das suas ideias, apesar das tentativas de Engels e outros de construir, a partir dos manuscritos de Marx, um volume II e III de O Capital. Como mostram os Grundrisse, mesmo umCapital completo teria conformado apenas uma parte do próprio plano original de Marx, talvez excessivamente ambicioso.

Por outro lado, Marx não regressará à esquerda até que a tendência actual entre os activistas radicais de converter o anti-capitalismo em anti-globalismo seja abandonada. A globalização existe e, salvo um colapso da sociedade humana, é irreversível. De facto, Marx reconheceu isso como um facto e, como um internacionalista, deu-lhe as boas vindas, em princípio. O que ele criticou, e deve ser criticado, foi o tipo de globalização produzida pelo capitalismo.

Um dos escritos de Marx que suscitaram o maior interesse entre os novos leitores e comentadores são os Grundrisse. Escritos entre 1857 e 1858, os Grundrisse são o primeiro rascunho da crítica da economia política de Marx e, portanto, também o trabalho inicial preparatório do Capital; contém numerosas reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu noutra parte da sua obra incompleta. Por que, na sua opinião, são estes manuscritos uma das obras de Marx que continuam a provocar mais debate que qualquer outra, apesar do facto de ele os ter escrito somente para resumir os fundamentos da sua crítica da economia política? Qual é a razão do seu persistente interesse?

Do meu ponto de vista, os Grundrisse provocaram um impacto internacional tão grande no panorama intelectual marxista por duas razões relacionadas. Eles permaneceram praticamente não publicados antes da década de 1950, e, como você diz, continham uma massa de reflexões sobre assuntos que Marx não desenvolveu em nenhuma outra parte. Não fizeram parte do largamente dogmatizado corpus do marxismo ortodoxo no mundo do socialismo soviético, contudo o socialismo soviético não podia simplesmente descartá-los. Puderam, portanto, ser usados por marxistas que queriam criticar a ortodoxia ou ampliar o alcance da análise marxista mediante o apelo a um texto que não podia ser acusado de herético ou anti-marxista. Assim, as edições das décadas de 1970 e 1980 (bem antes da queda do Muro de Berlim), continuaram a provocar debate, fundamentalmente porque nestes escritos Marx colocava importantes problemas que não foram considerados no Capital, por exemplo, as questões levantadas no meu prefácio ao volume de ensaios que você coligiu [1].

No prefácio deste livro, escrito por vários especialistas internacionais para comemorar o 150° aniversário da sua composição, você escreveu: «Talvez este seja o momento certo para voltar a um estudo dos Grundrisse menos constrangido pelas considerações temporais das políticas de esquerda entre a denúncia de Stalin por parte de Nikita Khruschev e a queda de Mikhail Gorbachev». Além disso, para sublinhar o enorme valor deste texto, você afirmou que os Grundrisse «contêm análises e compreensão, por exemplo sobre tecnologia, que levam o tratamento de Marx do capitalismo muito para além do século XIX, para a era de uma sociedade onde a produção já não requer mão-de-obra massiva, para uma era de automatização, do potencial de tempo livre e das transformações da alienação em tais circunstâncias. É o único texto que vai, de alguma maneira, para além dos próprios indícios de Marx do futuro comunista naIdeologia Alemã. Em poucas palavras, tem sido descrito acertadamente como o pensamento de Marx em toda a sua riqueza». Assim, qual poderia ser o resultado de reler os Grundrisse hoje?

Não há, provavelmente, mais do que um punhado de editores e tradutores que têm um pleno conhecimento desta grande e notoriamente difícil massa de textos. Mas uma re-releitura, ou antes leitura, deles hoje poderia ajudar-nos a repensar Marx: a distinguir o que é geral na análise do capitalismo de Marx daquilo que foi específico da situação da “sociedade burguesa” em meados do século XIX. Não podemos prever que conclusões são possíveis ou prováveis desta análise, somente que certamente não levarão a acordos unânimes.

Para terminar, uma pergunta final. Por que é importante ler Marx hoje?

Para qualquer pessoa interessada nas ideias, seja um estudante universitário ou não, é patentemente claro que Marx é e permanecerá uma das grandes mentes filosóficas e um dos grandes analistas económicos do século XIX e, no seu melhor, um mestre da prosa apaixonada. Também é importante ler Marx porque o mundo no qual hoje vivemos não pode ser entendido sem ter em conta a influência que os escritos deste homem tiveram sobre o século XX. E, finalmente, deveria ser lido porque, como ele mesmo escreveu, o mundo não pode ser efectivamente transformado a não ser que seja compreendido – e Marx permanece um soberbo guia para compreender o mundo e os problemas que devemos enfrentar.

Fonte: Informação Alternativa - http://infoalternativa.org

Comentários

Marx: naturalismo e história

Marx O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Marcel Conche, professor emérito na Sorbonne, nos convida a entender a posição do Marx filósofo, não a do historiador nem a do economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea fortemente marcada pelo legado hegeliano, retomando nos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história.

Marcel Conche - Le Nouvel Observateur

 

Em outubro de 2003, a revista francesa Le Nouvel Observateur dedicou um número especial à obra de Karl Marx. Cinco anos antes da hecatombe econômica mundial de 2008, a publicação perguntava: Marx pode ser o pensador do terceiro milênio? Como escapar da mercantilização do mundo? Com a eclosão da crise que abalou o sistema financeiro internacional, Marx “voltou à moda”. Um retorno positivo, pois traz de volta ao cenário intelectual um gigante do pensamento humano, mas que precisa enfrentar uma série de clichês, mitos e deformações teóricas que se construíram em torno e invariavelmente contra as idéias do autor de “O Capital”. Um dos méritos da publicação francesa é apontar algumas idéias e metodologias investigativas de Marx que podem nos ajudar a entender (e transformar) o mundo neste início de século XXI.
No artigo intitulado “Marx philosophe: matérialiste, hélas!”, Marcel Conche, professor emérito da Sorbonne, propõe-se a responder ou, ao menos, a indicar o caminho de resposta para algumas perguntas importantes sobre a obra de Marx: O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Qual era a paixão de Marx? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Para Conche, o materialismo de Marx está preso a um inimigo do passado (o idealismo) e, neste sentido, olha para trás. Por outro lado, ao nos libertar de algumas idéias de Hegel deixa um legado para pensarmos uma filosofia da Natureza e da finitude, uma “filosofia para o amanhã”.
Mais do que defender a atualidade de Marx, ou antes de fazê-lo, Conche nos convida a entender uma posição, a de Marx filósofo, não a de historiador nem a de economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea - e fortemente marcada pelo legado hegeliano -, retomando nos clássicos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história. Essa crítica é, vale dizer, uma grande desconhecida do ambiente de debate público que foi consolidado há pouco mais de 30 anos, no mundo. No período que se seguiu aos ditames financistas dominantes, a mercantilização avançou sobre a informação e a consumiu, inclusive com a carapaça de que o marxismo defendia um fim na história, com base em aberrações teóricas autoritárias datadas e obviamente na má-fé que precificou a informação, especialmente a brasileira, ao longo das últimas décadas.
O texto de Marcel Conche não traz qualquer novidade, nem uma leitura peculiarmente interessante da obra de Marx. Ele traz Marx, enquanto filósofo, inclusive da história. Só isso e tudo isso. A Carta Maior seguirá oferecendo os seus leitores outras contribuições que julgarmos válidas para esclarecer, informar e contribuir, na pequena parte que nos cabe, a formar um ambiente não-mercantil de informação no país. Segue o artigo:
Marx, filósofo: materialista, hélas! (Marcel Conche)
Publicado originalmente no Le Nouvel Observateur – Hors-Série, edição outubro/novembro de 2003
Há alguns anos, em “Viver e Filosofar” (“Vivre et Philosopher”, PUF, 1992), respondi às questões de Lucille Laveggi. Uma delas era esta: “O que hoje em dia você preserva do marxismo?”. A resposta foi esta: “Entendendo por marxismo unicamente o conjunto das idéias de Karl Marx, preservo delas alguma coisa? Parece-me que sim, mas num domínio, o da economia política, que eu ao mesmo tempo abandono como dele. Não tenho nada a dizer nesse domínio, o da economia política, mas a repartição desigual e injusta dos bens materiais é um fato que é preciso explicar, e ele o explicou. Isso quer dizer que sou marxista? Não, não mais do que sou newtoniano por admitir a lei universal da gravidade. ‘Eu não sou marxista’, diria o próprio Marx, querendo com isso dizer que ele não tinha a mais para se dizer marxista do que o tinha Newton para se dizer newtoniano” (p. 151). É que se trata de ciência, que é impessoal: é o espaço que é euclidiano, não o geômetra.
Deixando de lado a análise da exploração capitalista, que hoje em dia teria somente de ser atualizada – mas seria necessário para tanto um novo Marx – e, portanto, deixando de lado o Marx sábio, eu me volto ao Marx filósofo. Mas ele é realmente um filósofo? “Os filósofos dedicaram-se somente a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é transformá-lo”, diz a tese XI das “Teses sobre Feuerbach”. Que seja preciso transformar o mundo, a injustiça e a desigualdade que nele reinam, tudo bem. Mas desde quando isso é o papel do filósofo? A filosofia se define como busca da verdade – não dessa ou daquela, mas da realidade em seu conjunto: o que, dessas verdades, é o Todo da realidade? É nesse sentido que o filósofo tem a paixão da verdade. E é essa a paixão de Marx? De modo algum – pois ele não pode esquecer os homens. A paixão de Marx é a paixão moral. Observem o que Hans Jonas escreveu: “É impossível imaginar Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo sem um grau supremo de paixão – a paixão do bem que era objeto de suas visões: eles eram naturezas morais, voltadas a um fim trans-pessoal” (“O Princípio Responsabilidade”), Cerf, 1992, p. 162). Isso vale do mesmo modo para Marx. Pacifista, se eu mesmo sou uma “natureza moral” o sou antes no sentido kantiano. O pacifista “tem as mãos puras, mas não tem mãos”, dizia Péguy. Falso dilema, pois a escolha é: ter as mãos puras ou sangrentas. Eu recuso a violência, mesmo visando ao bem. Para falar como Sartre, os capitalistas são “sujos”. Que seja! Mas os filhos dos capitalistas são inocentes.
Em vista do bem é preciso “revolucionar o mundo existente.” Para tanto, é preciso primeiro conhecer esse mundo. Daí vem a ciência do “Capital” - ciência comparável, diz Marx, não à física, mas à biologia. Contudo, o método são poderia ser experimental, a la Claude Bernard. É necessário um método que permita pensar um mundo, quer dizer, uma totalidade. É exatamente isso o que o método dialético de Hegel permite. É suficiente despojá-lo de sua carapaça mística, de distinguir nele seu fundo racional. Althusser erra ao querer caracterizar a especificidade da dialética com a ajuda de conceitos emprestados à psicanálise, onde eles designam mecanismos de elaboração do sonho. Mas ele tem razão quando diz que a dialética com que Marx opera “não retém essencialmente quaisquer dos conceitos hegelianos, nem a negatividade, nem a negação, nem a cisão, nem a negação da negação, nem a alienação, nem a superação” (“Pour Marx”, Maspero, 1966, p.223, nota 52). Decerto a contradição é “a fonte de toda dialética” (“O Capital”, Editions Sociales, T. III, p. 37, nota 2); mas por contradição aqui é preciso entender simplesmente a unidade dos contrários e, no “Capital” Marx pensa em termos de unidade de contrários: não em termos hegelianos, mas heraclitianos. Marx nos libertou de Hegel: sem ele, Nietzsche, Bergson teriam sido possíveis?
O que significa passar de Hegel a Heráclito, do idealismo especulativo ao naturalismo? Significa cessar de usar a dialética para escamotear o tempo. Porque o tempo não é superável: não se o escamoteia. O movimento do pensamento não deve ser absolutizado, como em Hegel, onde ele se torna “o demiurgo da realidade”: ele não é, em sua realidade, senão a “reflexão do movimento real”. Por movimento real é preciso entender: movimento que implica o tempo – um tempo histórico. Em Hegel, o movimento real não ocorre na Enciclopédia, mas com a “História Universal”. Assim, o movimento real não é essencial à dialética. É somente na história universal que a dialética se entronca com o movimento real. Mas, não sendo a história universal senão um momento, é superada. E nisso reside a diferença radical com Marx: em Hegel, a História é justificada e superada; em Marx, não há superação da História. Isso quer dizer que não há “um sentido na história” já encerrado na Idéia eterna.
Em Hegel, o movimento é superado, pois a Causa do movimento é, como em Aristóteles, a Idéia eterna. Em Marx, não há outras causas que não as contradições inerentes às formas existentes e o movimento não é superado. Como o movimento está ligado à contradição, isso quer dizer que esta não é superável. Todas as contradições particulares são superáveis, mas a contradição como tal não o é. Como em Heráclito, onde o devir não é superável, sempre houve e haverá movimento, e nada mais: aparecimento e desaparecimento perpétuos das formas. Só resta à dialética as coisas finitas: só há finitos – e essa é a essência do materialismo, segundo Hegel.
A dialética significa, em Marx, a auto-supressão daquilo que é. Daí que não há nada de absoluto, nada que seja imune à instabilidade e que não venha a desaparecer. Em particular, o modo de produção capitalista não poderia ser considerado, a exemplo de Ricardo, como um absoluto. A lei da queda tendencial da taxa de lucro o mostra, criando seu próprio limite. Essa limitação testemunha “o caráter limitado e puramente histórico, transitório, do sistema de produção capitalista” (“O Capital”, Editions Sociales, T. VI, p.255). O modo de produção capitalista suprime a si mesmo, cria ele mesmo as condições de um modo de produção “superior” (p. 271). A substituição de um certo modo de produção por um outro, esse é o sentido aproximado da história que vivemos. E não há outro sentido senão o aproximado. A história não é finalista, ela não tem um sentido geral definido anteriormente, pois dedução alguma pode substituir a história real. A dialética vai do abstrato ao concreto, mas o concreto é “o verdadeiro ponto de partida”: ela portanto não teria nada a ver com o concreto que será mas ainda não o é. Ela nos dá a inteligência da história em sua necessidade, mas [a necessidade] da história real, efetivada, não da história que ainda não é real. Ela não permite absolutamente a antecipação. Antecipar seria ainda um modo de escamotear o tempo. Ora, a dialética só tem sentido como reflexão do movimento real, o qual supõe a absoluta realidade do tempo.
Não há disso tudo nada que não me pareça justo. Seria o caso de me chamar materialista? Não me sinto inclinado a tanto. Naturalista, sim; materialista, não. Pois eu filosofo a partir do que se mostra, do que se oferece a mim. Ora, o que se oferece a mim é a Natureza, não a matéria. A Natureza é um dado, não um conceito: a matéria é um conceito, não um dado. A Natureza está aí tanto como um Todo infinito. Isso é claro para aqueles que, a exemplo de Pascal ou de Spinoza, sabem chegar, aquém das evidências comuns, a uma evidência primeira, mais imediata. E o naturalismo espontâneo se confirma pela reflexão. Nele não pode haver senão finitos (seres finitos). O finito pressupõe o infinito… Mas eu não posso me engajar aqui na querela do infinito atual.
O que me deixa reservado e distante do nível materialista é ainda isto. O materialismo marxista é uma filosofia reativa e uma filosofia de combate. Por isso mesmo, resta numa dependência daquilo a que se opõe. Marx filósofo gasta muita energia criticando os outros – Hegel, Feuerbach, Bruno Bauer, Max Stirner, etc. Por que ele não se dedica às coisas mesmas, em vez de deixá-las nos livros? É isso o que ele faz na Economia, onde se trata, é verdade, de ciência, não de interpretação. Por sua dependência do seu passado e de seu inimigo, o idealismo, o materialismo de Marx é uma filosofia que olha para trás. Qual a filosofia para o amanhã? Porque a Natureza é unicamente o que se oferece a todos os homens, seria uma filosofia da Natureza. Marx a tornou possível ao nos libertar de Hegel (para quem a filosofia “da Natureza” só existe no título).
Marcel Conche é professor emérito da Sorbonne.
Tradução: Katarina Peixoto

Comentários

Notícia triste: PERDEMOS DANIEL BENSAID

 

Daniel Bensaid

DANIEL BENSAID

Faleceu hoje Daniel Bensaid, filósofo e militante político. Nascido em Toulouse há 64 anos, foi um dos dirigentes mais destacadas do Maio de 68, sendo um dos iniciadores do Movimento 22 de Março, ao lado de Cohn Bendit e de outros activistas. Fundador da LCR francesa e depois do NPA (Novo Partido Anticapitalista) , Bensaid acompanhou directamente a revolução portuguesa colaborando com a LCI e PSR e participando em comícios e outras actividades políticas nos anos de 1974 e 1975 e posteriores. Teve uma intensa cooperação com o Bloco de Esquerda desde a sua criação.
Publicou vários livros de ensaio político, de debate e de filosofia, sobretudo sobre Karl Marx, Walter Benjamim e o pensamento socialista contemporâneo, e afirmou-se como um dos mais importantes pensadores revolucionários dos anos do combate ao Império, à guerra e ao liberalismo selvagem que é o capitalismo realmente existente.
Foi também um amigo e um camarada, e lamento profundamente o seu desaparecimento. A paciência impaciente das suas ideias é um convite à resistência e à rebeldia: assim foi Daniel Bensaid, até ao fim, na luta contra a doença como na luta pela vida toda.

Retirado da página de Francisco Louçã no Fecebook

Assista aqui 

Os irredutíveis - entrevista com Daniel Bensaïd - Parte 1

 

Os irredutíveis - entrevista com Daniel Bensaïd - Parte 2

 

 

Os irredutíveis - entrevista com Daniel Bensaïd - Parte 3

 

Comentários

Marx e a teologia enquanto metáfora

Por Jorge Pinheiro, de São Paulo

Postado: Via Política

Uma maneira metafórica de usar temas bíblicos e conceitos teológicos deve levar o leitor de Marx a uma leitura oblíqua, tanto filosófica e econômica, mas também teológica.

       O jovem Marx

211209_marx O filósofo da libertação Enrique Dussel considera Marx um teólogo negativo, que construiu um discurso metafórico, que possibilita leituras transversas num novo século marxiano, diferente do anterior, por não mais existir o bloco burocrático. Será a partir de Dussel que vamos fazer uma rápida viagem por este pensamento metafórico-teológico de Karl Marx.
Partimos da hipótese de que Karl Marx não está teoricamente morto, mas, ao contrário, continua a dar impulso a novas leituras no campo da filosofia e da teologia [1]. Marx, luterano de origem judia [2], se preparou para ser professor adjunto de Bruno Bauer em Bonn, e como Bauer seria um professor de teologia, se não tivesse deixado a universidade. Na verdade, a teologia não estava fora do horizonte existencial de Marx [3], porque o protestantismo da região renana, que influenciou Tréveris, cidade natal de Marx, esteve sob forte presença pietista. Ainda no segundo grau, Marx conheceu o pensamento pietista, através dos ambientes hegelianos de Berlim e da própria filosofia vigente na época. Schelling, Hoelderlin e outros da mesma geração também foram marcados pelo pietismo. E nessa tradição situam-se o idealismo alemão e o Iluminismo [4].
Assim, as posições filosóficas, éticas, antropológicas e históricas de Marx estavam relacionadas aos problemas teológicos colocados na época. Marx apresentava, assim, soluções para problemas teológicos. Não é de admirar, então, que se descubra leituras teológicas no pensamento de Marx, entre as quais uma discussão da escatologia do anti-Cristo, presente no pietismo alemão, que dava prioridade à práxis. E será a partir dessa leitura que Marx se oporá ao Estado luterano em primeiro lugar e depois lançará sua crítica contra o capital.
Nessa construção, Marx trabalhou com duas premissas, a primeira delas dizia: se um cristão é capitalista; a segundo premissa era: se o capital é a besta do Apocalipse [5], o demônio visível [6]. Ora, da sua origem judaica e mesmo da compreensão pietista, Marx parte da tradição teológica de que Deus é transcendente, donde uma divindade visível é satânica, idolátrica, e não pode ser Deus. E a conclusão é: esse cristão se encontra em contradição prática [7].
A primeira premissa situa o cristianismo existente, cotidiano, enfim, o cristianismo protestante e puritano da Europa na época de Marx. O capitalismo é o realmente existente, compreendido cotidianamente por todos. A segunda premissa apresenta o capital como Moloch, um fetiche, o demônio visível, como desenvolvimento da doutrina do anti-Cristo pietista. O cristão se encontraria em contradição porque o exercício cotidiano da práxis no sistema capitalista envolveria eticamente uma ação satânica, demoníaca [8]. E tal construção lógica é verdadeira, pois o cristão só teria quatro maneiras de livrar-se dela: (a) afirmar o cristianismo e renunciar ao capitalismo; (b) afirmar o capitalismo e renunciar ao cristianismo; (c) inventar uma religião fetichista, com o nome de cristã, que não seja contraditória com o capital; e, por último, (d) interpretar o capital, a fim de que não apareça como contradição diante do cristianismo autêntico e profético.
As possibilidades a e b não podem ser criticadas porque solucionam a contradição objetivamente. Mas, a possibilidade c deve levar à crítica da religião fetichista, questão sobre a qual Marx deixou sugestões, que foram agregadas à tradição marxiana como crítica da religião. Essa crítica da religião fetichista é aceitável quando se pretende construir a consciência cristã autêntica, profética. De Marx podemos dizer o que disse Justino, no século II, quando criticou os grupos hegemônicos do império romano: “Daí que nos chamem também de ateus. E quando se trata desses supostos deuses [romanos] confessamos ser ateus” [9].
Com respeito à possibilidade d, Marx dedica a ela O Capital, ao impossibilitar ao cristão escapar da contradição, ao mostrar que o capital é mais valia acumulada, e como mais valia é objetivação do trabalho não pago, ou seja, não se pode esconder a visão crítica da não-eticidade do capital. Para desenvolver tal argumento, Marx mostra que o capital esconde essa não-eticidade através da pretensão de criar o lucro a partir dele próprio. Essa pretensão é fetichismo. O caráter fetichista do capital é outra cara da interpretação econômica, política, ideológica, que oculta a essência não-ética do capital: é a afirmação do capital como “absoluto”.
A crítica do caráter fetichista do capital é, em termos epistemológicos, uma tarefa econômico-filosófica. E o argumento de Marx parte da premissa menor “e se o capital é anti-Cristo, o demônio visível”: esse enunciado pode soar como distorção do discurso de Marx para apresentá-lo como teólogo. No entanto, o fato é de que essa contradição do cristão com o caráter fetichista do capital não foi ainda analisado pela teologia cristã. Mas, sem dúvida, Marx desenvolve de maneira metafórica o tema nos capítulos quatro e cinco de O Capital, ao referir-se às determinações relacionadas ao fetiche, ao demônio e à besta do Apocalipse, ou sob outros predicados Moloch[10], Mamon [11] e Baal [12]. Essas metáforas produzem um discurso paralelo dentro do discurso econômico-filosófico de Marx. É o discurso da metáfora, é a teologia metafórica de Marx.
A metáfora, o símbolo, não produz um novo conhecimento no campo da filosofia e da economia, mas abre um horizonte teológico. Por não serem metáforas caóticas e fragmentárias, não se pode falar que não existem metáforas teológicas na obra de Marx. Mas como as metáforas têm uma lógica, então pode-se falar de uma teologia implícita em Marx.
Podemos dizer que Marx não teve a intenção de produzir uma teologia explícita e, por isso, não foi teólogo, mas que abriu caminho para reflexões teológicas. Um exemplo: nos Grundrisse, ao falar do dinheiro, diz que “[O dinheiro] de sua figura de servo, que antes se apresentava como simples meio de circulação, se torna de repente soberano e deus do mundo das mercadorias[13]. Aqui Marx se refere ao texto do apóstolo Paulo, em Filipenses 2.6-7, quando diz: “Ele, apesar de sua figura divina, não procurou ser igual a Deus, ao contrário, alienou-se a si mesmo e tomou a figura de servo”. Marx utiliza o Novo Testamento de forma sutil e consciente. Mostra o dinheiro como o inverso do Cristo, como anti-Cristo. Enquanto Cristo era “figura divina” que se alienou assumindo a “figura de servo”, o dinheiro, em movimento contrário, ao ser “figura de servo”, se transforma em “deus”, em fetiche. Cristo se humilhou, o dinheiro se exalta, se diviniza. Trata-se de uma inversão.
Essa maneira metafórica de usar temas bíblicos e conceitos teológicos deve levar o leitor de Marx a uma leitura oblíqua, tanto filosófica e econômica, mas também teológica. Só a leitura aberta, que procura descobrir a lógica do discurso filosófico e econômico de Marx, pode traduzir os significados do caráter fetichista do capital dentro de seu pensamento. Esse é o caminho proposto por Dussel para a compreensão do discurso metafórico, de sentido teológico implícito, negativo e fragmentário de Marx.

20/12/2009
Fonte: ViaPolítica/O autor
Mais sobre Jorge Pinheiro
jorgepinheiro.sanctus@gmail.com


Notas:

[1] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx, Navarra, Editorial Verbo Divino, 1993, p. 5.
[2] Dussel cita Heinz Monz [Karl Marx. Grundlagen der Entwicklung zu Leben und Werk, Trier, 1973, pp. 215-222] e diz que “quase todos os rabinos de Tréveris desde o século XVII até a emancipação pertenceram à família dos pais de Karl Marx”. E segundo Arnold Künz-li [Karl Marx. Eine Psychagraphie, Wien, 1966, p. 817], também citado por Dussel, Marx só é “compreensível desde a configuração do Antigo Testamento e da mensagem bíblica do judaísmo”. A mãe de Marx, Henriette Marx (1788-1863), era judia de origem holandesa, e teve entre seus familiares importantes rabinos. Seu sobrenome de solteira era Pressburg (Pressborck). Por motivos políticos, já que o imperador prussiano desejava uma burocracia homogênea, seu pai foi obrigado a se batizar, possivelmente entre 1816 e 1817. No dia 26 de agosto de 1824 Marx foi batizado. Sua mãe nunca se batizou, mantendo-se espiritualmente judia. Mas, ao que tudo indica, Marx não aprendeu hebraico, porque em seu exame de final do curso secundário não recebeu nenhuma nota em hebraico, o que leva seus biógrafos a deduzirem que não conhecia o idioma. (Kadenbach, op. cit., p. 273, nota 27). E como seu pai, Marx era de origem pequeno-burguesa, formado na tradição judaica, mas também luterana com influências pietistas, dentro da cultura Iluminista da época.
[3] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 6.
[4] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 13.
[5] Apocalipse 13.17: “Ninguém podia comprar ou vender, a não ser que tivesse o sinal da Besta ou o número de seu nome”. Apocalipse 17.13: “Esses dez estão de acordo entre si e entregaram a Besta o poder e a autoridade que possuem”. El Capital, México, Siglo XXI, t. I/1, 1979, p. 106. Edição inglesa, Londres, t. I, 1977, p. 90: Marx-Engels Werke (MEW), t. 23, p. 101. Dussel cita Engels, que em sua obra El libro del Apocalipsis (1883) [MEW, 21, p. 11], quando ao falar do fetichismo do capital diz que “essa crise é o grande combate final entre Deus e o anti-Cristo, como o chamaram outros. Os capítulos decisivos são os 13 e 17”. (Texto incluído na obra de Hugo Assmann, Karl Marx-Engels, Sobre la religión, Sígueme, Salamanca, 1974, p. 326). Engels cita o mesmo texto de Marx em O Capital, e comenta: “O cristianismo, como todo grande movimento revolucionário, foi estabelecido pelas massas” (Ibid., p. 324; p. 10).
[6] Karl Marx, La Sagrada Familia, México, Grijalbo, 1967, p. 86 (MEW, II, p. 21).
[7] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 14.
[8] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 15.
[9] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 16.
[10] O Antigo Testamento no livro de Levítico 18.21 diz: “Não oferecerás em sacrifício o seu filho a Moloch (…)”. E o deus Moloch, a quem os amonitas queimavam seus filhos, aparece 2 Samuel 12.30; Jeremias 32.35; Sofonias 1.5; e no Novo Testamento: Lucas 20.2-5. E nos Manuscritos de 44 (OF, I, p. 107; CW, III, p. 273; MEW, EB 1, p. 512) Marx diz: “Para poder converter o amor em Moloch, no demônio corpóreo, o senhor Edgar começa convertendo-o em deus. E uma vez convertido em deus, quer dizer, em objeto teológico, cai naturalmente sob a crítica da teologia, e, como é sabido, Deus e o diabo não andam nunca um muito longe do outro”.
[11] “Acaso quando dizeis que deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, não considerais como Rei e Príncipe deste mundo não só ao Mamon de ouro, mas também […] à livre razão?”. Junto a Moloch aparece agora o outro nome do ídolo: Mamon. E Marx adota a posição dos profetas de Israel, explicitamente, já que se compara como jornalista a eles, apresentando-se como “traça para a Judéia e câncer para Israel”, referência ao texto do profeta Oseas 6.12. [Gazeta de Colonia, em OF, I, p. 233; CW, I, p. 147; MEW, 1, p. 42].
[12] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 18.
[13] Enrique Dussel, Las metáforas teológicas de Marx,
op. cit., p. 19.

Comentários

Chris Harman: 1942-2009

Harman foi um importante membro do Partido Socialista dos Trabalhadores (Socialist Workers Party), da Inglaterra, e da tendência Socialismo Internacional. Fez importantes contribuições teóricas e políticas à luta revolucionária mundial. Infelizmente grande parte de sua obra não tem tradução para o português. Veja no nosso site e blog mais artigos de Cris Harman.

 

O que é e como funciona o marxismo

Chris Harman

Apresentação à tradução brasileira

imagens O texto que disponibilizamos a seguir é uma tradução do livreto "How Marxism Works", de Chris Harman. Publicado pela primeira vez no ano de 1.979, teve sucessivas reedições. A tradução que ora apresentamos foi feita com base na edição de 1983. Apesar do tempo e, obviamente das referências a fatos e acontecimentos um tanto quanto antigos (afinal, muita água rolou nesses 17 anos), o texto permanece essencialmente atual. Nele o leitor encontrará um texto introdutório ao marxismo, escrito de uma forma simples, compreensível, porém sem cair nas armadilhas do simplismo barato. Ao contrário dos manuais e "cartilhas" que à guisa de apresentar uma exposição compreensível das principais categorias marxistas, acabam por vulgarizar o próprio marxismo, o texto de Harman é um convite ao estudo e à reflexão. Simplesmente "abre uma porta" para que o leitor possa a partir dele aprofundar seus conhecimentos e alimentar uma prática socialista e revolucionária conseqüente, na qual a teoria e a prática estão intimamente ligadas. Chris Harman é dirigente do Socialist Workers’ Party da Grã Bretanha e autor de inúmeros livros, dentre os quais Explaining the crisis, The Lost Revolution, The Fire Last Time (1968 and after), The Changing Working Class (co-autoria com Alex Callinicos), The Economics of the Madhouse e, lançado recentemente, A People’s History of the World, além de inúmeros ensaios e textos. A presente tradução é de autoria de Sérgio Domingues.

Introdução

Existe um mito muito difundido de que o marxismo é difícil. Isto é muito propagado pelos inimigos do socialismo - Harold Wilson gaba-se de nunca ter sido capaz de ir além da primeira página d’O Capital. É um mito também encorajado por um tipo peculiar de acadêmicos que se dizem marxistas: eles deliberadamente cultivam frases obscuras e expressões místicas com o objetivo de dar a impressão de que possuem um conhecimento especial, negado aos outros.

Portanto não é nada surpreendente que muitos socialistas que trabalham 40 horas por semana em fábricas, minas e escritórios acabem concebendo o marxismo como algo que nunca terão tempo ou oportunidade para entender.

Na verdade, as idéias básicas do marxismo são notavelmente simples. Ele explica a sociedade em que vivemos, como nenhum outro grupo de idéias consegue fazê-lo. Essas idéias possibilitam entender um mundo destroçado por crises, com sua pobreza em meio a tanta riqueza, seus golpes de estado e ditaduras militares, em que invenções fantásticas levam milhões para as filas do desemprego e da miséria, "democracias" toleram a ação de torturadores e estados socialistas ameaçam uns aos outros com mísseis nucleares.

Enquanto isso, os pensadores do establishment que tanto desprezam as idéias marxistas dão combate uns aos outros em um louco jogo de cabra-cega, entendendo pouco e explicando menos ainda.

Mas, embora o marxismo não seja difícil, ele apresenta alguns problemas para o leitor que toma contato com os escritos de Marx pela primeira vez. Marx escreveu há mais de cem anos. Ele usa a linguagem de seu tempo, cheia de referência a pessoas e eventos que praticamente ninguém conhece hoje em dia, a não ser que seja historiador.

Lembro de minha perplexidade quando, ainda na faculdade, tentei ler sua obra O 18 Brumário de Luiz Bonaparte. Não sabia sequer o que significava Brumário e quem era Luiz Bonaparte. Quantos socialistas não terão abandonado suas tentativas de se aproximar do marxismo após tais experiências?

Esta é a justificativa para este caderno. Ele pretende fornecer uma introdução às idéias marxistas, que fará mais fácil para os socialistas compreender sobre o que Marx falava e entender o desenvolvimento do marxismo também sob os cuidados de Engels, Rosa Luxemburgo, Lenin, Trotsky e todo um conjunto de pensadores menores.

A maioria do que está escrito neste panfleto apareceu em uma série de artigos no Socialist Worker (Trabalhador Socialista) sob o título "Explicando o Marxismo". Mas adicionei quantidade substancial de material novo. Em geral esse material novo é proveniente de uma exposição simplificada das idéias de Marx em "O Significado do Marxismo" de Duncan Hallas e das "Séries de Educação Marxista" da seção do SWP (Socialist Workers Party - Partido dos Trabalhadores Socialistas) de Norwich.

Uma última questão. O pouco espaço impediu-me de enriquecer este panfleto com algumas contribuições importantes da análise marxista do mundo moderno. Referências para leituras mais aprofundadas podem ser achadas no apêndice.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

Morre aos 100 o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss

Pesquisador deu aulas nos primeiros anos da USP e iniciou os estudos que o tornariam famoso no Brasil

SÃO PAULO - O antropólogo e filósofo francês Claude Lévi-Strauss morreu aos 100 anos de idade. Lévi-Strauss lecionou na Universidade de São Paulo nos anos 30. Aqui, realizou seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas, trabalho que desenvolveu ao longo da vida e que o transformou num clássico obrigatório das ciências humanas.

A USP divulgou nota lamentando a morte do antropólogo: "Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso ‘Tristes Trópicos’, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês".

A França reagiu emocionalmente a sua morte, com o presidente francês Nicolas Sarkozy se juntando a oficiais do governo e políticos em tributos ao antropólogo. O ministro do Exterior, Bernard Kouchner, elogiou sua ênfase em um diálogo entre culturas e disse que o país perdeu um "visionário". Sarkozy honrou o "humanista incansável".

A Academia Francesa disse que planeja um tributo ainda nesta semana. Com um programa de filmes, leituras e reflexões sobre sua contribuição ao pensamento moderno. A editora informou apenas sobre a morte de Lévi-Strauss sem dar mais detalhes sobre as causas ou o lugar onde aconteceu. No entanto, de acordo com colegas da Escola de Estudos Sociais, Lévi-Strauss morreu na madrugada do domingo.

Lévi-Strauss foi reconhecido no mundo todo por ter reestruturado a antropologia, introduzindo novos conceitos em padrões de comportamento e relacionamento especialmente através de mitos, em sociedades primitivas e modernas. Durante sua carreira de seis décadas, ele escreveu livros como "Saudades do Brasil" e "O cru e o cozido".

Foi com "Tristes Trópicos", de 1955, que o antropólogo alcançou a fama: um relato do período em que viveu no Brasil entre 1935 e 1939, bem como das expedições que fez ao norte do Paraná, Mato Grosso e Goiás, onde conviveu com tribos indígenas. O livro é considerado um dos mais importantes do Século 20.

Comentários

Trabalho morto: Marx e Lênin mereceriam Nobel de Economia

images Marx previu a miséria crescente dos trabalhadores e Lênin previu a subordinação da produção de bens à acumulação de lucros do capital financeiro com a compra e venda de instrumentos de papel. As suas previsões são de longe superiores aos "modelos de risco" aos quais tem sido atribuído o Prêmio Nobel e estão mais próximos da moeda do que as previsões do presidente do Federal Reserve, de secretários do Tesouro dos EUA e de economistas nobelizados tais como Paul Krugman, o qual acredita que mais crédito e mais dívida são a solução para a crise econômica. A análise é de Paul Craig Roberts
"O capital é trabalho morto, o qual, como um vampiro, vive apenas para
sugar o trabalho vivo, e quanto mais sobreviver, mais trabalho sugará".
(Karl Marx)

 

Paul Craig Roberts*
Se Karl Marx e V. I. Lênin hoje estivessem vivos, seriam os principais candidatos ao Prêmio Nobel de Ciência Econômica. Marx previu a miséria crescente dos trabalhadores e Lênin previu a subordinação da produção de bens à acumulação de lucros do capital financeiro com a compra e venda de instrumentos de papel. As suas previsões são de longe superiores aos "modelos de risco" aos quais tem sido atribuído o Prêmio Nobel e estão mais próximos da moeda do que as previsões do presidente do Federal Reserve, de secretários do Tesouro dos EUA e de economistas nobelizados tais como Paul Krugman, o qual acredita que mais crédito e mais dívida são a solução para a crise econômica.
Na primeira década do século XXI não houve qualquer aumento no rendimento real dos trabalhadores americanos. Houve sim um declínio agudo na sua riqueza. No século XXI os americanos sofreram dois grandes crashes no mercado de ações e a destruição da sua riqueza imobiliária.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

Carta aos verdadeiros comunistas

CAKX4EPQCADTY4IOCAAAZAG2CADLZN4RCAP5V1ILCA9HR6LLCAZ341U1CAYC0FX5CAH2IJK0CAKYI5SVCA03H0M5CA1W0LUHCAK2UTXLCA6IDHD1CAK04RF6CA8K1G12CAGWUU52CAW94SZOCATWAKFN *Ivan Pinheiro (Secretário Geral do PCB)
“O êxito do XIV Congresso Nacional do PCB foi a coroação de uma fase importante da reconstrução revolucionária do Partido, que cria condições para ele se apresentar aos verdadeiros comunistas brasileiros como uma alternativa concreta. Aliás, num gesto inédito, nos debates prévios ao Congresso dialogamos com comunistas amigos do PCB, o que contribuiu para valorizar e qualificar as resoluções adotadas.
Mas o PCB precisa estar à altura da possibilidade que a vida lhe está oferecendo, para colher os frutos do trabalho até agora construído, contribuindo para a unidade comunista, uma necessidade histórica.
Cabe à militância do PCB - reforçada por novos camaradas que chegam e por velhos camaradas que voltam - a responsabilidade de colocar em prática as corretas resoluções que adotamos em 2008, na Conferência de Organização, e agora, em 2009, no XIV Congresso. Para isso, é preciso dedicar-se ao estudo teórico; aprimorar a disciplina consciente, o centralismo democrático e a direção coletiva; inserir-se no movimento de massas e praticar o internacionalismo proletário.
O Partido tem que estar preparado para enfrentar o capital, em qualquer circunstância. Quem determina a hora e a forma na luta de classes não somos nós unilateralmente, mas a correlação de forças e a conjuntura. Não podemos nos comportar como um destacamento de plantão esperando o momento revolucionário. A revolução é um processo complexo e o capitalismo não vai cair de podre. Podemos e devemos incidir para antecipar a emancipação da classe trabalhadora.
O Partido deve funcionar como um sistema de organizações que articulem e potencializem uma férrea unidade de ação, nas pequenas e grandes lutas e tarefas.
O PCB não pode se julgar o dono da verdade e muito menos o Partido vocacionado para dirigir o processo revolucionário. Há muita vida inteligente e revolucionária fora das nossas fronteiras; há uma rica e complexa teia de organizações políticas e sociais com tendência ou caráter revolucionário que precisa ser articulada numa frente contra o capital. A revolução brasileira será obra coletiva de um amplo conjunto de forças antagônicas à ordem burguesa e, sobretudo, da ação das massas proletárias e de seus aliados.
Para se tornar um estuário e crescer com qualidade e eficiência, o PCB terá que estimular o diálogo com os comunistas brasileiros, grande parte dos quais pulverizados como consequência de uma verdadeira diáspora, provocada por um conjunto de fatores, entre os quais se destacam erros teóricos que o PCB cometeu dos anos 60 ao início dos anos 90, sobretudo a ilusão de uma revolução democrático-burguesa, fonte de várias cisões no período, a maioria delas, a bem da verdade, pela esquerda.
O PCB tem que estar de coração e braços abertos para receber todos aqueles que, confiando nas mudanças recentes que promovemos no Partido, venham a se somar ao esforço da reconstrução revolucionária.
Quem sabe, em breve, seremos mais vozes a gritar: É FORÇA, AÇÃO; AQUI É O PARTIDÃO!” (*Enviado por PCB / Ivan Pinheiro)

Comentários

Discurso sobre a ação política da classe operária

Friedrich Engels

A abstenção absoluta em matéria política é impossível; por isso, todos os jornais abstencionistas fazem política. Trata-se apenas de como se a faz e de qual. Quanto ao resto, para nós, a abstenção é impossível. O partido operário existe já como partido político na maior parte dos países. Não nos compete arruiná-lo, pregando a abstenção. A experiência da vida atual, a opressão política que lhes é imposta pelos governos existentes para fins quer políticos quer sociais, forçam os operários a ocuparem-se de política, quer eles queiram quer não. Pregar-lhes a abstenção seria empurrá-los para os braços da política burguesa. A seguir a Comuna de Paris, sobretudo, que pôs a ação política do proletariado na ordem do dia, a abstenção é completamente impossível.

Nós queremos a abolição das classes. Qual é o meio de a ela chegar? A dominação política do proletariado, e quando todas as partes estão de acordo com isso, pedem-nos para não nos metermos em política! Todos os abstencionistas se dizem revolucionários e mesmo revolucionários por excelência. Mas a revolução é o ato supremo da política; quem a quer tem de querer o meio, a ação política, que a prepara, que dá aos operários a educação para a revolução, e sem a qual os operários, no dia a seguir à luta, serão sempre os enganados pelos Favre e pelos Pyat. Mas a política que é preciso fazer é a política operária; é preciso que o partido operário seja constituído não como a cauda de qualquer partido burguês mas, como partido independente que tem o seu objetivo, a sua política própria.

As liberdades políticas, o direito de reunião e de associação e a liberdade de imprensa, eis as nossas armas; e deveríamos cruzar os braços e abstermo-nos se no-las querem tirar? Diz-se que todo o ato político implica que se reconheça o estado existente das coisas. Mas quando esse estado das coisas nos dá meios para protestar contra ele, usar esses meios não é reconhecer o estado existente.

Comentários (1)

A ação política de Marx e Engels antes de 1848

Jaques Droz

Publicamos a última parte do texto de Jacques Droz, aonde analiza a ação política de Marx e Engels no periodo pré 1848 e a edição do Manifesto

Parte III

Se a preocupação essencial de Marx e Engels havia sido a de dar uma base científica ao socialismo, a conquista do proletariado europeu, e em particular do proletariado alemão, para a sua causa não foi descurada. Com efeito, eles estavam convencidos do caráter internacional do movimento comunista. De que meios de ação dispunham então na véspera das Revoluções de 1848?

A ação política de Marx e Engels

O ponto de partida da sua influência foi o Comitê de Correspondência que tinham criado em Bruxelas no princípio do 1846 com o belga Philippe Gigot, e que cumpriu um enorme trabalho na condição de centro de organização e de divulgação da ideologia comunista, em particular nos meios da Liga dos Justos.

Foi por intermédio de circulares litografadas que este Comitê conduziu a luta contra os conceitos artesanais de Weitling, confundido por Marx no decurso de um defrontamento em Bruxelas a 30 de Março de 1846; que pôde ser feita uma campanha contra os sustentadores do “socialismo verdadeiro” e de todo o socialismo de matiz religioso, em particular contra Hermann Kriege, redator do Volkstribun de Nova Iorque, acusado de transformar o pensamento social numa “ruminação sobre o amor” e de confundir “comunismo” e “comunhão”; que foi consolidada a primazia de Marx sobre certos jornais, como o Westfätlischer Dampfboot. Um amplo trabalho de clarificação e de estruturação pôde ser assim realizado, que tinha em vista simultaneamente a natureza do socialismo e o fim a atingir no decurso da próxima revolução.

Leia o restante deste artigo »

Comentários (1)

Teses sobre a estrutura organizativa, os métodos e a ação dos partidos comunistas

Resolução do III Congresso da Internacional Comunista
I. Generalidades

1. A organização do Partido deve corresponder às condições e ao propósito de sua atividade. O Partido Comunista deve ser a vanguarda, o setor mais avançado do proletariado, durante todas as fases de sua luta de classes revolucionária, e no período subseqüente de transição para o socialismo, primeiro passo no desenvolvimento de uma sociedade comunista.

2. Não pode haver nele uma forma de organização imutável e absolutamente conveniente para todos os Partidos comunistas. As condições da luta proletária se transformam constantemente e, conforme essas transformações, as organizações de vanguarda do proletariado devem também procurar constantemente formas novas e adequadas. As particularidades históricas de cada país determinam também formas especiais de organização para os diferentes países.

Sobre esta base deve se desenvolver a organização dos Partidos Comunistas e não tender à formação de algum novo Partido modelo no lugar daquele já existente ou procurar uma forma de organização absolutamente correta com estatutos ideais.

3. A maioria dos Partidos Comunistas, assim como a Internacional Comunista e o conjunto do proletariado revolucionário do mundo inteiro, concordam, nas condições de sua luta, que devem lutar contra a burguesia dominante. A vitória sobre ela, a conquista do poder arrancado à burguesia, constitui para esses Partidos e para sua Internacional o objetivo principal.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

A conquista do Poder Político

Karl Kautski

Amigos e inimigos do Partido Socialista coincidem em reconhecê-lo como um partido revolucionário. Porém, desgraçadamente, o conceito de revolução admite numerosas interpretações, o que divide bastante as opiniões sobre o seu caráter revolucionário. Um número muito grande de adversários não quer entender por revolução mais que anarquia, efusão de sangue, pilhagem, incêndio, assassinato; e, por outra parte, há camaradas para quem a revolução social para a qual marchamos não parece ser mais que uma transformação lenta, uma transformação parecida à que a máquina a vapor produziu.
O certo é que o Partido Socialista, uma vez que luta pelos interesses de classe do proletariado, é um partido revolucionário.
É impossível, com efeito, na sociedade capitalista, assegurar ao proletariado uma existência satisfatória, pois sua emancipação exige a transformação da propriedade privada dos meios de produção e de dominação capitalista em propriedade social, assim como a substituição da propriedade privada pela produção social. O proletariado não pode encontrar satisfação senão em uma ordem social completamente deferente da de hoje.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

A IDEOLOGIA ALEMÃ

Karl Marx e Friedrich Engels

Prefácio

Até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas relações mútuas em função das representações de Deus, do homem normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas próprias criações. Libertemo-los portanto das quimeras, das idéias, dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar. Revoltemo-nos contra o império dessas idéias. Ensinamos os homens a substituir essas ilusões por pensamentos que correspondam à essência do homem, afirma um; a ter perante elas uma atitude crítica, afirma outro; a tirá-las da cabeça, diz um terceiro e a realidade existente desaparecerá.

Estes sonhos inocentes e pueris formam o núcleo da filosofia atual dos Jovens Hegelianos; e, na Alemanha, são não só acolhidas pelo público com um misto de respeito e pavor corno ainda apresentadas pelos próprios heróis filosóficos com a solene convicção de que tais idéias, de uma virulência criminosa, constituem para o inundo um perigo revolucionário. O primeiro volume desta obra propõe-se desmascarar estas ovelhas que se julgam lobos e que são tomadas como lobas mostrando que os seus balidos apenas repetem numa linguagem filosófica as representações dos burgueses alemães e que as suas fanfarronadas se limitam a refletir a pobreza lastimosa da realidade alemã; propõe-se ridicularizar e desacreditar esse combate filosófico contra assombras da realidade que tanto agrada à sonolência sonhadora do povo alemão.

Em tempos, houve quem pensasse que os homens se afogavam apenas por acreditarem na idéia da gravidade. Se tirassem esta idéia da cabeça, declarando por exemplo que não era mais do que uma representação religiosa, supersticiosa, ficariam imediatamente livres de qualquer perigo de afogamento. Durante toda a sua vida, o homem que assim pensou viu-se obrigado a lutar contra rodas as estatísticas que demonstram repetidamente as conseqüências perniciosas de uma tal ilusão. Este homem constituía um exemplo vivo dos atuais filósofos revolucionários alemães (1)

Leia o restante deste artigo »

Comentários

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo

foto_mat_23551 No segundo texto da série "Marxismo e Século XXI", Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: "Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica", defende.

Emir Sader

Postado: Carta Maior

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.
(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)
O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

Leia o restante deste artigo »

Comentários

Expropriação, blindagem, crise: pequena história de uma mercadoria

Tanto nos países centrais, quanto na periferia do capitalismo, a história da arte se consolidou em torno de práticas e noções análogas às das técnicas financeiras. Hoje o destino da arte está atado à crise do capital fictício. Não são poucos os artistas, inclusive jovens, que concebem trabalhos para o gozo do entesouramento. O artigo é de Luiz Renato Martins, professor do departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, o quarto texto da série "Marxismo e Século XXI", organizada pela Carta Maior, com curadoria do sociólogo Chico de Oliveira.

Luiz Renato Martins

Na era do mercado, a arte, como o mais, é bifronte: trabalho vivo e concreto, para o artista; trabalho coisificado, valor acumulado, para o colecionador. Tal embate trava-se em vários fronts desde há muito, e não foram poucos os artistas combativos, da Revolução Francesa em diante, que se associaram à resistência anticapitalista e às lutas revolucionárias.
Já no âmbito da história da arte, associada à gestão dos grandes acervos e que pauta as grandes mostras e a recepção geral, quase não houve disputa. A hegemonia do ponto de vista do colecionador foi sempre inconteste e a luta política, quando houve, deu-se abaixo. No alto, o sistema que rege a circulação da arte, e dita o valor de face das obras, operou sempre com a idéia da arte como valor. Deste modo, a rotina da história da arte é a de sancionar o confisco do trabalho vivo do artista, e não difere do vampirismo patronal que suga, sabe-se, a mais valia do trabalhador para transformá-la em coisa morta monetizável. O resultado deste alinhamento, dos historiadores e curadores com os proprietários, é a noção corrente da obra de arte como valor, objeto especial e isolado das demais, vale dizer, em situação de rigor mortis.

Leia o restante deste artigo »

Comentários (1)

« Publicações anteriores ·