Arquivo de Meio Ambiente

A guerra contra a água engarrafada toma conta dos Estados Unidos

Yves Eudes

Oficialmente, Debra Anderson, uma elegante mulher de cerca de 40 anos, administra uma agência imobiliária em sua cidade natal de McCloud, um pequeno vilarejo turístico situado nos contrafortes do majestoso monte Shasta, no norte da Califórnia. Na realidade, Debra deixou o seu marido lidar com os seus negócios. Ela prefere dedicar seu tempo e sua energia para lutar contra o grupo Nestlé.

Um dia de 2003, Debra é informada de que o conselho do distrito está organizando uma reunião de informação a respeito de um projeto de construção, pela Nestlé, de um complexo industrial que captará a água do rio McCloud na sua fonte. O recurso será engarrafado e comercializado pela multinacional: “Os funcionários da Nestlé nos apresentaram um projeto enorme, eu pensava que aquela era uma simples reunião preliminar”. Ora, no dia seguinte, a cidade se depara com a informação de que, logo depois do encerramento da reunião, o conselho assinou sem mais nem menos o contrato proposto pela Nestlé.

Chocada diante desta precipitação, Debra consegue uma cópia do documento: “A Nestlé havia conseguido obter condições inacreditáveis: não seria realizado nenhum estudo prévio de impacto ambiental; tratava-se de um contrato exclusivo de cem anos, pelo qual a companhia teria o direito de bombear até 4.700 litros de água por minuto - inclusive em detrimento dos habitantes durante os períodos de seca -; o preço de compra da área de captação era irrisório, e o acordo outorgava à Nestlé o direito de demolir por completo a antiga usina de madeira da cidade, ao passo que existe um projeto de transformação destas construções numa zona de atividades alternativas. . .” Em troca, a Nestlé se comprometia a criar 240 empregos, e a pagar diversas taxas e impostos. Na realidade, uma vez que a região era considerada pelo Estado como uma zona desfavorecida, a multinacional acabaria sendo beneficiada por reduções de encargos fiscais.

Debra, que sempre votou em favor do Partido Republicano, nada tem contra a livre empresa, mas, neste caso, a Nestlé tinha ido longe demais: “O conselho do distrito era composto por simples cidadãos, que eram obviamente incapazes de conduzirem negociações neste nível. Os advogados e os especialistas da Nestlé os manipularam como bem entenderam”.

Junto com alguns amigos e colegas de profissão, ela se lança então numa aventura que vai mudar a sua vida. O objetivo é de obter a anulação deste contrato leonino. Sem se dar conta disso, ela acaba de declarar a guerra contra uma companhia de envergadura mundial. A Nestlé Waters, uma divisão da multinacional suíça, possui 72 marcas de água mineral, que são produzidas numa centena de usinas instaladas em 38 países. Apenas durante o ano de 2007, ela registrou um faturamento de 6,3 bilhões de euros (cerca de R$ 17 bilhões). Nos Estados Unidos, a Nestlé controla cerca de um terço do mercado da água engarrafada. Ela possui cerca de vinte usinas e registra um faturamento de cerca de 2,8 bilhões de euros (R$ 7,54 bilhões). Só que nada disso assusta Debra e seus amigos, que fundam uma associação, o McCloud Watershed Council (Conselho da região hidrográfica de McCloud), e empreendem uma campanha intensiva de informação dos cidadãos, que envolve abaixo-assinados, atos de protesto, panfletos, palestras. . . Ao relembrar hoje daquele período, Debra ri da sua ingenuidade: “Nós estávamos convencidos de que o problema seria solucionado no espaço de algumas semanas”.

Muito rapidamente, o Watershed Council reúne cidadãos que, à primeira vista, nada tinham a ver uns com os outros, nem a fazer juntos: eram republicanos conservadores, democratas liberais, ecologistas, e havia até mesmo um advogado de San Francisco, proprietário de uma residência secundária em McCloud, que se define como um marxista puro e duro. Sem demora, o combate do Watershed Council muda de natureza. Os ecologistas argumentam que, para transportar a sua água, a Nestlé passará a fazer circularem noite e dia centenas de caminhões de carga pela cidade. Eles insistem também no fato de que a fabricação, o transporte e a eliminação das garrafas de plástico representam um vasto desperdício de matérias-primas e de energia. Então, o Watershed Council passa a distribuir garrafas de alumínio, que podem ser reaproveitadas por muito tempo, e que os cidadãos podem encher com água da torneira, praticamente gratuita e perfeitamente puro, uma vez que ela provém da fonte que a Nestlé quer captar. Por fim, e, sobretudo, ao bombear massas tão consideráveis de água, a usina apresentaria o risco de provocar uma diminuição do nível dos rios e dos lagos, e ainda de secar os poços e de perturbar o lençol freático, provocando reações em cadeia incontroláveis que colocariam em perigo o ecossistema do vale.

Os militantes democratas contribuem para acrescentar uma problemática mais política: a água não é uma mercadoria, mas sim um elemento indispensável para a vida, e, como tal, é uma riqueza que deve permanecer no domínio público. Portanto, é imprescindível lutar contra a sua privatização, quer se trate da captação de fontes para o engarrafamento das suas águas, quer da compra das redes hidrográficas municipais por sociedades tais como Veolia ou Suez, muito ativas nos Estados Unidos. Considerada a partir de McCloud, a população americana tornou-se a vítima de uma globalização selvagem conduzida por europeus, com a ajuda da Organização Mundial do Comércio (OMC). . .

Aos poucos, o Watershed Council consegue obter a ajuda de grandes fundações filantrópicas e de associações de proteção do meio-ambiente. Ele vai travando uma guerrilha judiciária com o objetivo de obter a anulação do contrato, insiste na realização de estudos de impacto ambiental, e consegue atrasar a liberação das licenças para construir. . . Mas, apesar dos seus esforços, Debra e sua equipe convenceram apenas uma parte dos cidadãos de McCloud. Alguns deles fundaram até mesmo uma associação “pró-Nestlé”. Por sua vez, os operários da antiga usina de madeira, que foi fechada em 2003 depois de mais de um século de atividade, se dizem saudosos dos bons velhos tempos em que uma única companhia proporcionava um emprego vitalício para todos os habitantes.

Kelly Claro é uma prima germana de Debra Anderson. Ela é também uma militante pró-Nestlé encarniçada: “O meu marido trabalhou durante trinta anos em McCloud, mas agora, ele é obrigado a se deslocar todo dia até uma outra fábrica, que fica a 35 km daqui. Se a usina da Nestlé for aberta num dia desses, ele será o primeiro a apresentar sua candidatura a uma vaga. O mesmo acontece comigo: eu tenho dois empregos de meio-período, como motorista de ônibus e como balconista na quitanda do meu pai. Tudo isso é estafante. Com um emprego estável na Nestlé, a US$ 10 por hora trabalhada e mais as vantagens sociais, eu viverei melhor”.

Desde então, Debra e Kelly não se encontram mais. De fato, a cidade está dividida em dois campos. Querelas chegam a ser travadas no meio da rua, brigas ocorrem entre os membros de uma mesma família, amigos de infância estão brigados entre si para sempre, comerciantes que atuam numa mesma vizinhança intentam processos caríssimos uns contra os outros por motivos fúteis. Por ocasião das mais recentes eleições locais, os pró-Nestlé venceram com mais de 60% dos votos, mas a mobilização dos adversários da multinacional permanece intacta.

Cansada desta guerra, a Nestlé anunciou no início do ano que o seu projeto havia sido revisto, e apresentou novas metas, mais modestas: a usina de McCloud será três vezes menor do que a previsão inicial, e serão criados apenas 90 empregos. Então, em julho, a multinacional cancela o contrato com a municipalidade e comunica aos membros atordoados do conselho municipal que ela está disposta a retomar as negociações do zero.

Os anti-Nestlé já se mostram confiantes de que a vitória está próxima. Daqui para frente, o seu combate está sendo acompanhado e apoiado por muita gente, inclusive de fora da Califórnia, porque casos quase idênticos vêm ocorrendo por todo o território dos Estados Unidos. No Wisconsin, duas associações de moradores, uma democrata e a outra republicana, celebraram uma aliança para impedir que a Nestlé construa uma usina de água engarrafada, e acabaram ganhando o processo. No Michigan, uma coalizão de associações locais e de grupos anti-globalização liberal tentou fazer o mesmo, mas fracassou depois de uma batalha feroz contra os políticos e os funcionários públicos pró-Nestlé. No Maine, onde a Nestlé comprou a companhia local de água mineral Poland Springs, uma associação de moradores vem lutando para impedir que a multinacional amplie suas instalações.

A Nestlé não é a única companhia visada. Em Barrington, no Estado do New Hampshire, uma associação batizada de SOG (Save our Groundwater - Salvemos nosso lençol de água) vem travando uma batalha contra a construção de uma usina de água engarrafada pela companhia americana USA Springs. A fundadora da SOG, Denise Hart, conseguiu obter o apoio em prol da sua causa de vários conselhos municipais do condado, de dois escritórios de advocacia e dos veteranos militantes antinucleares. Depois de uma guerrilha político-judiciária que durou mais de sete anos, a USA Springs acaba de ser declarada falida judicialmente. O canteiro de obras da usina está abandonado, e a sua imensa armação metálica, que foi erguida no meio de um gramado, começou a enferrujar.

Nesse meio-tempo, o combate transformou-se numa disputa política em nível nacional. Dennis Kucinich, um representante democrata do Ohio no Congresso, organizou em dezembro de 2007 uma série de reuniões dedicadas ao problema da privatização da água, no âmbito de uma comissão da Câmara dos representantes. Ele também convidou militantes de diversas organizações a comparecerem em Washington. Estes puderam se familiarizar com as esferas de decisão, conheceram influentes políticos da capital e criaram uma rede informal.

A batalha contra a água engarrafada está se desenvolvendo também na outra extremidade da corrente, do lado dos consumidores. Grupos de ecologistas e de militantes da esquerda alternativa empreenderam campanhas que visam a convencer os americanos a beberem água da torneira. Os prefeitos de várias grandes cidades, de San Francisco a Minneapolis, proibiram que os serviços municipais comprassem garrafas de água mineral. Na Califórnia, muitos restaurantes antenados pararam de vender toda e qualquer água engarrafada, enquanto Igrejas protestantes recomendam aos seus paroquianos que evitem comprar esse tipo de produto. Nos campi das universidades, militantes organizam degustações para provarem para os estudantes que a água da torneira é tão boa quanto a água engarrafada.

Até o presente momento, o impacto sobre as vendas não se fez sentir verdadeiramente, enquanto os gigantes do setor como a Nestlé, a Coca-Cola ou a Pepsi Co celebraram acordos para lançarem contra-ofensivas por todos os lados. Contudo, os militantes de McCloud têm o sentimento de fazerem parte de um movimento irresistível. Militantes de países da Europa e do Terceiro Mundo os contatam por meio da Internet, e Debra Anderson está prestes a se tornar uma estrela internacional: “Alguns eleitos locais de uma região rural da Índia visitaram os Estados Unidos para divulgar seu combate contra uma usina de água engarrafada que pertence à Coca-Cola, e eles esticaram a sua viagem até McCloud, para nos conhecerem. Eles nos deram os parabéns! Depois disso, nós temos a obrigação de lutar até o fim”.

Le Monde

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Paris quer sistema self-service de carros

Idéia é permitir que parisienses retirem um automóvel em uma estação e o deixem em outro ponto da cidade, como já ocorre com a bicicleta
Programa Autolib usará veículos elétricos; custo de aluguel será de 4 por meia hora de uso, sem necessidade de fazer reserva prévia

CLARICE SPITZ
COLABORAÇÃO PARA FOLHA, EM PARIS

Depois da bicicleta, Paris se prepara para pôr em marcha um sistema de carros em self-service. A cidade, que inspirou o modelo de bicicletas públicas de São Paulo e Rio de Janeiro, planeja estender o serviço para as quatro rodas: a chamada Autolib.
Assim como no aluguel de bicicletas, o usuário poderá pegar o carro em uma estação de metrô ou trem deixá-lo em outro ponto da cidade. Ele não precisará retornar ao local de retirada nem fazer reserva. O programa, com previsão para começar em 2010, será ideal para pessoas que usam o veículo para curtas distâncias, como fazer compras e sair à noite, ou precisam ir ao aeroporto.
Autolib se baseia no conceito de "autopartage" ou compartilhamento de carro, que já é explorado por empresas privadas na capital francesa e em outros países, EUA, Suíça e Inglaterra. O "autopartage" consiste na locação horária, mas com reserva prévia e sem a mesma flexibilidade de devolução.
A idéia é que haja bastante rotatividade no uso do carro. O veículo é utilizado apenas quando necessário, por curto período, e em esquema de partilha. Para outros deslocamentos, o usuário tende a preferir o transporte público. Segundo estudo da Prefeitura de Paris baseado na experiência em outros países, em média, para cada veículo em "autopartage", sete particulares são vendidos.
Além de desafogar o trânsito, o projeto do prefeito Bertrand Delanoë -que sonha ser o candidato do Partido Socialista à Presidência- quer acrescentar à frota atual veículos menos poluentes: os carros serão elétricos. São estimados 4.000 veículos "limpos" e cerca de 1.400 estações na capital e na grande Paris. Os carros seriam recarregados nas estações.
Segundo os técnicos, a assinatura mensal deve custar de 15 a 20 (cerca de R$ 49 a R$ 66), além do pagamento de um valor a partir de 4 (cerca de R$ 13) por meia hora de uso. No caso do Vélib, o sistema de bicicletas, a assinatura é feita com cartão de crédito.
Oferta pública
A oferta pública será lançada em 2009. Empresas de locação de veículos como a Hertz, além de um consórcio formado por SNCF (companhia de trens), RATP (companhia de transporte urbano) Avis e Vinci, já declararam que estão no páreo. A Transdev e a Veolia, que estão no mercado de aluguel, também se interessaram.
O engenheiro Antoine Muguet, 28, utiliza há um ano um serviço de "autopartage" particular. Ele tem uma despesa mensal que varia de 40 a 200 (R$ 132 a R$ 662) e que o isenta de preocupações com combustível, seguro ou estacionamento. "No meu caso, não vale a pena comprar um carro", diz.
Para o sociólogo Bruno Marzloff, presidente do Grupo Chronos, que estuda fenômenos de mobilidade urbana, existe uma mudança de conceito. "O carro é menos visto como status social e passa a ser entendido como um serviço."
Apesar dos benefícios para o ambiente, os veículos elétricos não dispõem de grande autonomia. Eles podem rodar de 80 km a 150 km sem necessidade de recarga, segundo a prefeitura de Paris.
O professor Laurent Delaby, 30, que tem um carro próprio, mas que usa sobretudo sua bicicleta no dia-a-dia, diz não se considerar interessado por Autolib. "Eu me sinto um pouco ligado ao meu carro", diz.
Marzloff afirma que a perda do poder aquisitivo e a crise financeira podem acelerar a transição para Autolib. "Nós ainda estamos impregnados de um modelo patrimonial, em que se dispõe do veículo em tempo integral. É preciso dar um passo cultural em que eu abro mão do carro e me organizo de modo diferente."

Folha de S. Paulo - 22/12/08

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Chico Mendes. ‘Legado é maior do que já foi feito’

A senadora Marina Silva foi uma das principais companheiras de Chico Mendes na luta para impedir a destruição da floresta. Também acreana e filha de seringueiros, ela estava ao lado de Chico, tentando impedir a ação das motosserras.

Quinze anos após a morte do amigo, assumia o Ministério do Meio Ambiente, no início do governo Lula, com o objetivo de dar continuidade à luta, dessa vez pelos meios oficiais. Hoje de volta ao Senado, avalia que o legado de Chico é ainda maior do que os avanços alcançados após sua morte, e considera que ainda há muito a ser feito.

A entrevista é de Giovana Girardi e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 21-12-2008.

Eis a entrevista.

Passados 20 anos da morte de Chico Mendes, o que mudou na vida dos povos da floresta?

Quando a luta do Chico começou, essas populações estavam inteiramente abandonadas, dando um jeito de sobreviver depois de mais de um século de exploração em um regime de semi-escravidão. No final da década de 70, foram surpreendidos com a venda dos seringais pelos antigos supostos donos dessas terras para fazendeiros do Sul e Sudeste. Ali começou um processo de expulsão em massa, sobretudo no caso do Acre e de Rondônia, para as periferias das cidades. O momento em que o Chico começou a luta era de muito desamparo. O que se queria era a não derrubada da floresta e que as pessoas pudessem continuar em suas colocações nos seringais. Ali se cunhou o conceito de reserva extrativista. A primeira foi criada após a morte do Chico, e hoje já são mais de 11 milhões de hectares de reserva que beneficiam mais de 53 mil famílias no Brasil. São conquistas importantes que podem ser celebradas. Mas quanto ao sonho de ver o desenvolvimento da região com a proteção dos índios e das comunidades, ainda não conseguimos. Tivemos um processo de conquistas, mas elas não são plenas. Até porque a grande mudança que se queria era do modelo de desenvolvimento.

Qual seria a principal mudança?

A idéia que se tinha da Amazônia como um lugar atrasado, uma floresta a ser domada, foi mudando significativamente na mentalidade e na atitude da maioria dos brasileiros. Claro que ainda é um começo, mas é significativo. Até porque o outro modelo tem 300 anos de tecnologia, de incentivos, de governos apoiando. O modelo do desenvolvimento sustentável é muito recente. Até bem pouco tempo tínhamos no Acre o esquadrão da morte. A história se faz de processos cumulativos, mas claro que temos um sentido de urgência e que os passos precisam ser acelerados no rumo do desenvolvimento sustentável.

Apesar de terem sido criadas dezenas de reservas, essas populações ainda não têm conseguido viver só do extrativismo. Muitas reservas ainda não têm nem sequer plano de manejo e de ação. Isso não ofusca um pouco o avanço obtido?

Acho que são processos em curso, da mesma forma que ainda as pessoas nas periferias do País não vivem nas condições de dignidade que a gente gostaria que elas vivessem. Mas, no meu entendimento, esse trabalho não ficou só na demarcação da reserva, temos processos em curso. Por exemplo, a criação do Instituto Chico Mendes, criado para cuidar de todas as unidades de conservação do Brasil. Antes isso era responsabilidade só de uma diretoria do Ibama, com grandes dificuldades.

O problema é que enquanto isso não avança, algumas pessoas estão desistindo do extrativismo como modelo econômico, como o caso da Resex Chico Mendes, que teve aumento do cultivo de gado.

Concordo que deveria ser mais rápido, mas é um esforço que começou do zero. Essa mudança de algumas pessoas, que não são todas, que resolveram transformar parte da terra em pasto para adotar o gado de fazendeiros que ficam fazendo pressão ao lado da reserva, é um desvio.

A senhora acha que esse caso da Chico Mendes é uma exceção?

Estou dizendo é que a criação de uma reserva não é coisa de pequena monta. São ações que estão alterando um processo histórico de apropriação indevida, de grilagem. Primeiro se assegurou a terra das comunidades tradicionais. O próximo passo é implementação. As comunidades têm razão de querer urgência nisso, mas tem um caráter difícil mesmo. E não digo isso em uma perspectiva defensiva, mas é porque a luta do Chico Mendes tem conquistas. Se imaginar que foram inibidas 37 mil propriedades de grilagem no Amazonas… Barrar um processo como esse é fazer um empate institucional que as comunidades nunca teriam condições de fazer sozinhas. A luta do Chico teve essa vitória de transformar a agenda desses povos em uma agenda de Estado. E tornar a sociedade brasileira sensível à Amazônia e às comunidades.

E quando ele morreu o Brasil ainda levou uns dias para absorver a comoção que tinha sido no exterior.

Exatamente. Alguns dias antes de ele ser assassinado eu fui a Xapuri e nos encontramos. Quando estava indo embora, ele falou: “É, nêga véia, dessa vez vão me pegar.” Eu disse para irmos a Rio Branco, denunciar à imprensa. Ele disse: “Não adianta, toda vez que eu faço isso me dizem que estou me fazendo de vítima, que quero me promover, quero virar mártir.” Vi que estava desamparado, desolado. Saindo da impotência (vivo) para alguma potência (morto).

IHU - Online

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Mais de 90% dos municípios brasileiros sofrem com problemas ambientais, diz IBGE

RIO DE JANEIRO - Do total de municípios brasileiros estudados pelo IBGE para a sétima edição da Pesquisa de Informações Municipais (Munic), 90,6% informaram a ocorrência “frequente e impactante” de alguma alteração ambiental nos últimos 24 meses. Em média, foram levantados 4,4 problemas ambientais por município. O Munic investigou temas como gestão pública, meio ambiente, transporte e habitação e revelou seus resultados nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, às 10h.
Ainda quanto aos problemas ambientais, as queimadas, desmatamentos e assoreamentos foram os mais citados pelos gestores municipais. Apenas sete municípios revelaram a ocorrência simultânea destes três impactos: Bannach e  Marabá, no Pará; Tupiratins, no Tocantins; Bela Cruz, no Ceará; Santa Maria da Serra, em São Paulo; Novo Machado, no Rio Grande do Sul e Luiziânia, em Goiás.
Os técnicos do IBGE avaliaram que existe uma relação direta entre estes problemas ambientais. “O assoreamento tem como causas o desnudamento dos solos, ocasionados, em geral, por queimadas e desmatamento”, diz a pesquisa.
Por outro lado, 544 municípios (9,4% do total), em sua maioria das regiões Sul e Sudeste, disseram não ter sofrido nenhum problema ambiental neste sentido. Ainda dentro deste grupo, o estudo mostrou uma maior presença dos municípios de menor população - principalmente entre aqueles com até 5 mil habitantes. Entre os que têm mais de 500 mil habitantes, apenas Porto Alegre não registra grandes problemas ambientais.
Essa é a primeira vez que o IBGE divulga a Munic no ano de exercício da coleta - os dados se referem a 2008 e foram colhidos no primeiro semestre. Algumas informações se referem a 2008 e 2007, ano em que não foi feita a Munic por causa da contagem da população. Dessa forma, as comparações mais próximas são feitas com 2006.
As informações foram colhidas por meio de questionários enviados aos gestores municipais dos 5.564 municípios do Brasil e entrevistas com prefeitos feitas por enviados do IBGE. Apenas a cidade de Linha Nova, no Rio Grande do Sul, não respondeu ao instituto. Distrito Federal e Fernando de Noronha foram considerados municípios.
Problemas ambientais por regiões
O estudo do IBGE revelou que os três problemas mais citados se dividem da seguinte maneira entre as regiões brasileiras: as queimadas foram mais apontadas nas Norte e Centro-Oeste; o desmatamento no Norte e no Nordeste do País e o assoreamento foi predominante entre os municípios do Centro-Oeste e Sudeste.
Além dos três principais, a poluição e escassez da água, contaminação do solo e poluição do ar também foram citadas como problemas pelos gestores dos municípios estudados.
A poluição da água foi mais registrada nas regiões mais urbanizadas e economicamente mais desenvolvidas, que o IBGE considera sendo o Sudeste e o Sul. Já a escassez de água foi apontada no Sul e no Nordeste e os solos são mais contaminados no Nordeste e no Sul e o ar é mais poluído no Norte e no Centro-Oeste, pelo que mostrou a pesquisa.
Revelados os dados, os técnicos do IBGE compararam o resultado destas incidências com o Munic 2002. De acordo com o relatório, observa-se que se manteve igual as ocorrências de assoreamento, poluição do ar e degradação de áreas legalmente protegidas. Aumentaram os problemas de poluição de água e diminuíram as ocorrências de contaminação do solo e alteração que tenha prejudicado a paisagem.
Verbas para o meio ambiente
Apenas pouco mais de um terço (37,4%) das prefeituras brasileiras têm recursos próprios para o meio ambiente, segundo mostrou a pesquisa. O levantamento ainda mostra que o porcentual de municípios com recursos específicos para a área ambiental varia por regiões e gira em torno de 50% nas regiões Centro-Oeste (57,3%), Norte (54,1%) e Sul (49,1%), enquanto Sudeste (37,2%) e Nordeste (20,4%) estão abaixo da média nacional.
De acordo com a pesquisa, a presença de recursos específicos para meio ambiente aumenta à medida que cresce o porte dos municípios. Das prefeituras com até 5 mil habitantes, 29,6% tinham recursos para o meio ambiente, enquanto nos municípios com mais de 500 mil habitantes esse porcentual sobe para 97,3%.
Em termos da origem dos recursos para a área ambiental, de acordo com a pesquisa, "há uma forte predominância de órgãos públicos como fonte, em todas as regiões e classes de tamanho de municípios, com taxas sempre superiores a 85%".
As demais participações são bem inferiores: iniciativa privada (5,9%), empresas públicas (5,1%), organizações não-governamentais (2,8%), instituições ou órgãos internacionais (2,3%) e entidades de ensino e pesquisa (1,3%).
Impactos ambientais e condições de vida
De acordo com o Munic 2008, dos 5.564 municípios brasileiros, 14,9% informaram a ocorrência de alteração ambiental que tenha afetado as condições de vida da população. Esta porcentagem aumenta, segundo o IBGE, à medida que aumentam as faixas populacionais dos municípios, chegando a 40,5% entre aqueles com mais de 500 mil habitantes.
Este tipo de fenômeno acontece porque a degradação ambiental pode afetar atividades primárias, como a agricultura e pecuária. Em 22,1% dos municípios que apresentam estes problemas, por exemplo, a degradação altera a quantidade e diversidade do pescado. (Redação IG / Com informações da Agência Estado)

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Jornalista uruguaio expõe “a fraude da celulose”

Em visita a Porto Alegre (RS) para participar do lançamento do Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema), o jornalista uruguaio Victor Bacchetta falou sobre os mitos ambientais e sociais dos benefícios das empresas de celulose

Em visita a Porto Alegre (RS) para participar do lançamento do Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema), o jornalista uruguaio Victor Bacchetta falou sobre os mitos ambientais e sociais dos benefícios das empresas de celulose

16/12/2008


Raquel Casiraghi

Porto Alegre (RS)

Agência Chasque

Contaminação das águas por efluentes, ressecamento de mananciais e êxodo rural são alguns dos impactos da monocultura de eucalipto e das fábricas de celulose no Uruguai. O tema é retratado pelo jornalista Victor Bacchetta em seu livro, “A Fraude da Celulose”, lançado recentemente no país vizinho.

Em 10 anos de monocultura de eucalipto, o Uruguai acumula um forte esvaziamento do campo e a substituição de cultivos de grãos, de animais e do turismo pelo setor. Ao mesmo tempo, as empresas não geraram todos os empregos prometidos.

Dados do Censo Agropecuário de 2000 apontam que para cada mil hectares, o plantio de eucalipto emprega até cinco trabalhadores. Número menor do que a própria pecuária, que emprega em média até 6 trabalhadores e a fruticultura, que chega a 71 trabalhadores por mil hectares.

“Isso produziu uma segunda onda de esvaziamento do campo. Tem se fechado escolas rurais. Verifiquei em povos pequenos que trabalham com as fazendas vizinhas onde tem sido fechadas [abandonadas] porque ficaram sem água. Os poços ficaram secos”, conta.

Bacchetta também derruba alguns mitos ambientais da cadeia produtiva da celulose. Nas lavouras de eucalipto, denuncia o alto consumo de água e a contaminação pelo uso de agrotóxico. Nas fábricas, apesar de usarem tecnologias mais modernas, os efluentes ainda são largados com cloro e, principalmente, nitrogênio e potássio nos rios. Pesquisas demonstram que os efluentes lançados pela fábrica da empresa Botnia no rio Uruguai correspondem ao esgoto sem tratamento de uma cidade de 65 mil habitantes.

O jornalista denuncia ainda que as lavouras de eucalipto não produzem créditos de carbono, como as empresas propagandeiam.

“Tem uma pesquisa científica de um pesquisador uruguaio que mostra que o campo captura muito mais carbono do que a plantação. O que acontece é que no campo [pastizado] o carbono é capturado pelo solo e na plantação vai embora, é liberado”, afirma.

O jornalista prevê tempos mais sombrios para os uruguaios. Apenas para suprir a produção de 1 mi de toneladas anuais da fábrica da Botnia, em Fray Bentos, há 1 mi de hectares de eucalipto plantados. Para as próximas fábricas da Ence, Stora Enso e Portucel, estimativas apontam um crescimento para 4 mi de hectares de eucalipto, um quarto das terras agricultáveis do país.

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Plano para Amazônia é visto com ceticismo por ONGs, em reunião na Polônia

Ambientalistas dizem que meta contra desmatamento é ‘tática de negociação’.
Ambientalistas que participam da reunião das Nações Unidas sobre o clima na Polônia expressaram desconfiança sobre a capacidade do governo brasileiro em reduzir o desmatamento no Brasil em 40% entre 2006 e 2010.
Para o presidente da Global Forest Coalition, um coalizão de grupos ambientalistas e de direitos de povos indígenas, Miguel Lavera, o anúncio feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva é ‘mais do mesmo’, embora admita que a adoção inédita de metas fixas é um avanço.
"O histórico do Brasil não confere muita credibilidade ao país, qualquer coisa que eles prometerem é visto como tática de negociação", disse Lavera à BBC Brasil.
De fato, especialistas que também participam da 14ª reunião das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP 14) em Poznan, na Polônia, afirmaram à BBC Brasil que o plano divulgado pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, reforça a posição brasileira no encontro.
Menos pessimista, o diretor da campanha para a Amazônia do Greenpeace, Paulo Adario, acredita que "o carro está na direção certa, mas a velocidade está errada".
"A adoção de metas é extremamente positiva, mas precisa ser muito mais ambiciosa", disse Adario à BBC Brasil. Ele afirma que até 2010, o plano do governo brasileiro é suficientemente arrojado, mas a partir de 2017, "poderia fazer mais e melhor".
Já para Miguel Lavera, o problema é que é difícil levar a sério o compromisso assumido pelo governo brasileiro, já que ele "desperdiçou verbas recebidas para proteção de florestas e contra o desmatamento e continuou desmatando". "É preciso muito mais que um anúncio. Eles precisam provar que podem cumprir as metas." (BBC Brasil)

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Conferência do clima acaba sem avanços na Polônia

Fundo de adaptação à mudança climática, com pouca verba, foi único item de consenso entre os delegados de 150 nações. Países em desenvolvimento fizeram a lição de casa, mas nações desenvolvidas bloquearam acordo em financiamento e tecnologia.

Afra Balazina, Folha de S.Paulo, 13 de dezembro de 2008

A COP-14 (14ª Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas) terminou às 3h da manhã de hoje em Poznan, Polônia, deixando clara apenas uma coisa: que o caminho até chegar ao resultado final do acordo que irá substituir o Protocolo de Kyoto, daqui um ano, será bastante tumultuado. A oposição entre países desenvolvidos e os em desenvolvimento ficou ainda mais acirrada nesta reunião.

O único avanço foi chegar a um consenso no que diz respeito ao funcionamento do fundo de adaptação às mudanças climáticas, cujos recursos serão usados para apoiar projetos de países vulneráveis que sofrem as conseqüências do aquecimento global. Os países terão acesso direto ao fundo, sem depender de agências internacionais como o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Essa é a boa notícia. A má é que os recursos ainda são ridículos: US$ 80 milhões ao ano atualmente e no máximo US$ 300 milhões em 2012, para financiar projetos em todo o Terceiro Mundo.

Havia a tentativa de ampliar as fontes de dinheiro, mas os países desenvolvidos barraram a proposta. Hoje, na prática, são os países em desenvolvimento que financiam o fundo, pois ele é alimentado com 2% dos créditos gerados pelos projetos de MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo).

A falta de acordo causou protestos por parte dos países em desenvolvimento na sessão de encerramento da COP.
Também houve poucos avanços na inclusão da redução do desmatamento no regime pós-Kyoto, nenhum avanço em metas de redução de emissões, apesar do pacote europeu e nada de concreto sobre dois outros pontos cruciais da negociação, transferência de tecnologia e financiamento às nações pobres.

De concreto, sabe-se que em junho deve haver um rascunho do acordo de Copenhague e que a reunião na Dinamarca foi adiada em uma semana. Um documento de 84 páginas sobre o futuro regime, preparado pelo brasileiro Luiz Alberto Figueiredo, cresceu para 100. O grupo do qual o Brasil faz parte, o G77 (bloco que reúne mais de uma centena de nações em desenvolvimento) mostrou que tem feito a lição de casa.

A China prestou contas e informou as ações realizadas internamente, como o corte de 335 milhões de toneladas de emissões de CO2 com o aumento da eficiência energética nos anos de 2006 e 2007. O Brasil trouxe seu plano de mudança climática, com meta de reduzir 70% do desmatamento até 2018. O México anunciou corte de 50% nas emissões até 2050.
Índia e África do Sul (país que sediará a conferência posterior a Copenhague, em 2011) também mostraram seu comprometimento para evitar o aquecimento global acelerado.

Esses países esperavam alguma contrapartida do grupo dos industrializados -que, aliás, sempre cobraram ação efetiva e metas no clima das economias emergentes-, mas não houve nenhum sinal nesse sentido. Não houve avanço na área de transferência de tecnologia dos países ricos para os outros possam diminuir suas emissões, e também não houve anúncio de recursos para fundos que beneficiem os países menos desenvolvidos.

“Nesta conferência, quem teve o papel mais ativo foram países em desenvolvimento. Os EUA vieram com uma promessa fraca. O Canadá, Estados Unidos, Japão e Rússia tiveram uma atitude muito negativa, pouco construtiva”, disse o embaixador extraordinário do clima do Brasil, Sérgio Serra.

Estrada com buracos
Para Paulo Adário, do Greenpeace, a conferência deixou a desejar. “Poznan deveria pavimentar uma estrada para Copenhague, mas a estrada continua cheia de buracos, apenas com uma visibilidade um pouco melhor”, afirmou.

A repórter AFRA BALAZINA ficou hospedada na Polônia a convite da Convenção do Clima da ONU

ITENS DEBATIDOS NO ENCONTRO DO CLIMA

ADAPTAÇÃO
O fundo voltado para a adaptação dos países vulneráveis às mudanças climáticas, criado no ano passado, vai entrar em operação agora. Ele é alimentado com 2% dos recursos obtidos via MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo).

FLORESTA
Houve consenso de que as emissões de gases por desmatamento e degradação da floresta precisam entrar no acordo de Copenhague, no ano que vem.

METAS
Não foram discutidas metas de redução de emissões de gases-estufa na Conferência do Clima de Poznan (Polônia).

Ambientalistas apontam vácuo de liderança da UE em reunião

DA ENVIADA A POZNAN

Muitas ONGs também manifestaram desapontamento e reclamaram da falta de liderança da União Européia, que sempre esteve na vanguarda na questão. Savio Carvalho, da Oxfam, afirmou que esperava mais compromissos para mitigação e mais recursos para os países vulneráveis se adaptarem às mudanças da temperatura.

Tasneem Essop, do WWF, afirmou que está orgulhosa do papel dos países em desenvolvimento. “Esses países vieram com propostas firmes.”
O Brasil, que sempre relutou a adotar metas contra o aquecimento, foi um exemplo. Ontem, Al Gore, Prêmio Nobel da Paz e ex-vice presidente dos EUA, classificou de “impressionante” o plano brasileiro de mudanças climáticas.

oi o segundo elogio de peso que o país colheu na conferência. Anteontem foi a vez do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, dizer que o Brasil tinha “uma das economias mais verdes do mundo”.
O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) afirmou ontem que o reconhecimento ao plano nacional, que possui metas -ainda que modestas- de redução de desmatamento, já tem surtido efeitos positivos.

O governo brasileiro fez reuniões com Alemanha, França e Reino Unido, por exemplo. Esses países sinalizaram com a possibilidade de repassar recursos ao Brasil. Por enquanto, o Fundo Amazônia, criado para o combate ao desmatamento, só tem dinheiro da Noruega -US$ 100 milhões, com promessa de chegar a US$ 1 bilhão. Segundo Minc, o país precisa de algo entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões por ano para atuar contra o desmatamento.

Outros países em desenvolvimento também foram felicitados por Gore. Para ele, a China, sempre mencionada como obstáculo para deter as mudanças climáticas, agora está pronta.Sobre o fato de só haver mais um ano para o acordo sobre as metas para o período pós-2012, quando o Protocolo de Kyoto expira, ele afirmou que “pode ser feito, deve ser feito, vamos terminar esse processo”. Para isso, afirma, vários encontros precisarão ser feitos antes de Copenhague, no fim de 2009.

Em julho, as negociações para definir metas de redução das emissões de gases-estufa começarão efetivamente.

Gore terminou seu discurso em seu melhor estilo “showman”: “Yes, we can” (sim, nós podemos), declarou, numa alusão à frase de campanha de Barack Obama. A frase foi repetida por jovens na reunião. (AB)

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Novos limites de emissões de CO2 no sector automóvel

A partir de 2012 será implementado um sistema de multas que penalizará os construtores automóveis em 5€ pela primeira grama de CO2 por carro acima do limite estabelecido, 15€ para a segunda grama, 25€ para a terceira e 95€ para cada grama adicional. A partir de 2019 cada grama acima do limite de emissão será taxada em 95€ por carro produzido. A partir de 2020 o limite de emissão por quilómetro deverá ser reduzido para 95g de CO2.

No entanto, este acordo resultou de um suavizar de objectivos inicialmente traçados que em conjunto com os vários regimes de excepção geraram o protesto dos eurodeputados verdes e dos liberais - os liberais europeus distribuem-se entre esquerda e direita - contra os socialistas europeus e o Partido Popular Europeu. Os regimes de excepção aprovados incluem um crédito que pode ir até 7g/km no caso dos construtores introduzirem novas tecnologias amigas do ambiente, um super-crédito para marcas que produzam viaturas que emitam menos de 50g/km e uma redução de apenas 25% do nível de emissão de 2007 para construtores que produzam menos de 300 mil carros por ano. Como se deve imaginar neste segmento estarão incluídas algumas marcas de luxo.

06-Dez-2008 - Esquerda net

Segundo as novas regras aprovadas esta semana pela União Europeia mais de 65% dos automóveis deverão emitir menos de 130 g/km até 2012, aumentando essa exigência para 75% do parque automóvel em 2013, 80% em 2014 e deverá atingir os 100% em 2015.
Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

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Chegamos ao ponto de não retorno para o clima ártico?

05/12/2008
Chegamos ao ponto de não retorno para o clima ártico?
As temperaturas no Ártico estão aumentando de forma bem mais rápida do que em qualquer outra parte do mundo. Atualmente os pesquisadores afirmam que isto pode ser o resultado de uma alteração drástica dos padrões climáticos globais. Caso eles estejam certos, em breve o gelo do Pólo Norte poderá ser
Volker Mrasek
Há anos os cientistas vêm observando o Oceano Ártico com uma sensação de desconforto cada vez maior. O gelo marinho na extremidade norte do nosso planeta está derretendo - e isto vem ocorrendo de forma bem mais rápida do que se esperava.
De fato, em setembro de 2007, a área do Ártico coberta por gelo marinho equivalia a apenas a metade do território da Europa, o que corresponde a uma redução de 40% em relação à área coberta por gelo em meados da década passada, segundo cálculos do Centro Nacional de Dados Sobre Gelo e Neve, nos Estados Unidos. As geleiras da Groenlândia também estão desaparecendo em um ritmo alarmante. E o próprio Oceano Ártico vem sofrendo um aquecimento desde 1995, uma tendência que só acelerou-se desde o início desta década. No verão de 2007, a temperatura das águas no Mar de Bering, entre o Alasca e o leste da Sibéria, era 5ºC mais elevada do que a média. Ou seja, mais quente do que nunca.
Os dados são claros. A questão pendente há muito tempo é: Por que o Ártico está esquentando tão rapidamente? Os modelos climáticos projetam aquilo que deveria ser uma elevação de temperatura bem mais lenta na região ártica. Um aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa e o aquecimento da atmosfera terrestre resultante não são suficientes para explicar esse fenômeno.
Ponto de não retorno
Um novo estudo concluído por uma equipe de pesquisadores norte-americanos, noruegueses e alemães poderá agora fornecer algumas pistas. Publicado no periódico científico "Geophysical Research Letters" de novembro, o estudo afirma que desde o início da década vem ocorrendo uma mudança drástica nos padrões de circulação atmosférica, com os centros de alta pressão deslocando-se para o nordeste no inverno. O novo padrão de mudança climática súbita é caracterizado pelo "transporte de calor atmosférico e oceânico em direção ao pólo", escrevem os autores do estudo. Este transporte provoca a elevação da temperatura no Ártico. A descoberta foi feita com a utilização de filtros especiais que permitem o acompanhamento de mudanças dos centros de alta pressão no decorrer do tempo.
Porém, por trás da linguagem complexa e dos cálculos impenetráveis nos quais o estudo se baseia, existe uma possibilidade assustadora: a mudança climática no Ártico pode já ter atingido o ponto a partir do qual não há retorno possível. Os pesquisadores do clima há muito alertam para tais "pontos de não retorno", avisando que a ultrapassagem desses limites poderia gerar conseqüências irreversíveis para os ecossistemas e a humanidade. No caso do Ártico, isso poderia significar um desaparecimento completo do gelo na região durante os meses de verão. Isso, por sua vez, poderia intensificar ainda mais o aquecimento global, já que o gelo de um branco brilhante reflete a luz do sol para a atmosfera, enquanto as superfícies escuras terrestres e oceânicas absorvem calor.
"No caso do Oceano Ártico, já atingimos o ponto de não retorno", adverte James Hansen, proeminente pesquisador climático norte-americano e diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa.
Ar quente para o Ártico
As águas em torno do Pólo Norte são altamente influenciadas pelas correntes atmosféricas que circulam sobre os oceanos Atlântico e Pacífico. Essas correntes são geradas por sistemas conflitantes de pressão em cada oceano: no Pacífico, a zona de baixa pressão próxima às Ilhas Aleutas que tem início a oeste do Alasca interage com uma zona subtropical de alta pressão que fica ao sul; no Atlântico as correntes são determinada pela zona de alta pressão dos Açores e pela zona de baixa pressão da Islândia.
Há muito tempo o inverno no Ártico é determinado por aquilo que os pesquisadores chamam de um padrão "tripolar". A interação entre a zona de baixa pressão da Islândia, a zona de alta pressão dos Açores e a zona subtropical no Pacífico gera ventos predominantes de leste para oeste, um padrão que bloqueia o deslocamento de massas de ar mais quente para o norte, impedindo que elas entrem na região ártica.
Mas, desde o início desta década, os padrões mudaram. Agora, surgiu um padrão "dipolar" (bipolar) no qual um sistema de alta pressão sobre o Canadá e um sistema de baixa pressão sobre a Sibéria determinam a movimentação atmosférica. O resultado é que atualmente os ventos árticos sopram do norte para o sul, o que significa que o ar mais quente do sul não encontra obstáculos para penetrar na região ártica. "É como um curto-circuito", diz Rüdiger Gerdes, cientista do Instituto Alfred Webener de Pesquisa Polar e Marítima e um dos cinco autores do estudo.
De acordo com o estudo, o fluxo de ar quente do sul foi particularmente intenso durante o inverno de 2005-2006. Durante aquele período, 90 terawatts de energia fluíram do Pacífico Norte para o Oceano Ártico - uma quantidade de energia que supera as necessidades de todo os países industriais somados. Gerdes não tem dúvida de que o gelo "desaparecerá rapidamente caso os novos sistemas de pressão permaneçam onde se encontram atualmente". Ele afirma que o Oceano Ártico ainda congelará no inverno, mas acha que o bloco de gelo será muito pequeno para sobreviver aos meses mais quentes do verão.
Desaparecimento drástico do gelo ártico
James Overland, do Laboratório Marítimo-Ambiental do Pacífico em Seattle, concorda. No periódico científico "Tellus" o oceanógrafo, juntamente com colegas, também chama atenção para os novos padrões de fluxo norte-sul no Ártico. "Caso os fluxos dessas correntes permaneçam onde se encontram, o gelo marinho do Ártico desaparecerá 40 anos antes do que aconteceria devido apenas às emissões de gases causadores do efeito estufa", disse Overland a "Spiegel Online". Segundo ele, mesmo se a circulação atmosférica do Ártico retornasse ao normal e voltasse ao padrão "dipolar" apenas uma vez em cada década, a situação ainda seria muito ruim. "Cada vez que ocorre uma perda tão grande de gelo, é impossível retornar ao estado inicial", explica ele.
Segundo Overland, o desaparecimento drástico de gelo ártico observado em 2007 não foi uma exceção. Ele diz que o verão de 2008 foi tão ruim quanto o anterior. A progressão é clara: cedo ou tarde a banquisa de gelo tornar-se-á tão pequena que não será mais capaz de sobreviver aos meses quentes de verão.
Gerdes e os co-autores do seu trabalho temem que as mudanças no Ártico possam significar que teve início "uma nova era de mudanças climáticas forçadas pelo aquecimento global". O volume das emissões de gases causadores do efeito estufa como o dióxido de carbono e o metano na atmosfera do planeta pode ter provocado uma mudança permanente no sistema climático global.
Deve-se observar que a série de invernos quentes ocorridos no Ártico nesta década não se constitui na primeira vez em que a região teve um clima mais ameno. Atualmente os pesquisadores sabem que, na década de 1930, houve um padrão "dipolar" semelhante que empurrou ar quente para o Ártico. Porém, naquela época, o ar deslocado era originário do Atlântico Norte e não do Pacífico Norte. Além do mais, diz Gerdes, o ar quente não penetrou além dos 75 graus de latitude norte, marco geográfico que correspondia mais ou menos ao limite anterior da banquisa. Atualmente, o calor difunde-se por todo o Ártico.
Pode ser que os novos padrões de circulação atmosférica sejam causados por variações climáticas naturais. Mas, tendo em vista o derretimento drástico de gelo que vem sendo observado, tal explicação não é suficiente para satisfazer os pesquisadores. O cientista norte-americano Overland, por exemplo, não tem dúvidas: "A alteração drástica dos sistemas de pressão no Hemisfério Norte, combinada ao aquecimento do Ártico, é um sinal claro de aquecimento".
Tradução: UOL

Visite o site do Der Spiegel

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François Houtart: a lógica capitalista destrói a Terra

Prensa Latina

Qua, 30 de janeiro de 2008 20:10

La Habana - O reconhecido investigador François Houtart culpou hoje a lógica do capitalismo pelo desequilíbrio mundial e pelo perigo de destruição do planeta e da humanidade.

“O desequilíbrio fundamental que conhecemos agora tem duas origens, mas com uma lógica: a destruição da Terra e de uma grande parte da Humanidade”, disse o sacerdote católico e pensador francês, em declarações a Prensa Latina.

As duas respondem – apontou - a una lógica fundamental: a lógica do capitalismo, que é transformar tudo em mercadorias, lucros e acumulação de capital.

François Houtart é criador do Forum Social Mundial e presidente da Liga Internacional pela Libertação dos Povos. Publicou mais de 40 livros sobre temas filosóficos, econômicos e sociais.

“A natureza foi explorada para se tornar fonte de lucros e acumulação”, comentou o teólogo, que figura entre os convidados especiais à segunda conferência Pelo Equilíbrio do Mundo.

O encontro se encerrou nesta quarta-feira aqui com a presença de uns 400 delegados de 35 países.

Estamos presos a uma contradição. Agora o mundo capitalista tem medo porque estamos chegando a uma situação na qual a exploração da natureza é um obstáculo para a acumulação do capital, disse.

E é por isso – agregou - que o capitalismo começa a reagir, mas de maneira totalmente equivocada.

Essa reação – explicou - não é para resolver o problema do clima da Terra, senão que para ver como continuar a acumulação apesar disso e como aproveitar-se das contradições do capitalismo para acumular mais.

Daí – precisou - toda a propaganda nova que se desenhou para manter e garantir a continuação do sistema.

O segundo aspecto – indicou - é a ausência de capacidade de contribuir para a acumulação do capital de uma grande parte da humanidade.

Praticamente o capitalismo se constrói sobre 20 por cento da população, não mais; e o resto, especialmente os 25 ou 30 por cento mais pobres, são totalmente inúteis para o capital, argumentou.

Nas mentes de algumas pessoas – advertiu -, esse segmento pobre deve desaparecer porque são inúteis, não contribuiem para a criação de valor agregado, quer dizer, para a posibilidade de obter lucro e são tão pobres que não têm poder de compra.

Assim – acrescentou -, dentro desta lógica, deve-se diminuir a população, não a rica, não os 20 por cento que consomem de maneira desmedida e destroem o planeta, senão que os mais pobres, porque não contribuem para a acumulação do capital.

Desde essa lógica geral, não podemos resolver nem o problema da Terra nem o problema da Humanidade, sublinhou o catedrático.

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Santa Catarina: catástrofe natural ou relação homem-natureza?

por Afrânio Bopprè

A cobertura da mídia sobre a catástrofe que se abateu sobre Santa Catarina em novembro e dezembro de 2008 além de não alcançar a magnitude do problema traz consigo uma explicação distorcida das causas reais do fenômeno. Em meio a dor e ao sofrimento das histórias individuais das vítimas (enaltecendo o melodrama) busca-se uma explicação tendenciosa, ou seja, a naturalização da ocorrência, a banalização do episódio e a atribuição da culpa a um estado sobrenatural. É verdade que o índice pluviométrico saiu em muito da normalidade, mas a ele se deve agregar a relação homem-natureza. A mídia tentando dar “nó em pingo d’água” reduz tudo à relação natureza-natureza. Na prática pretendem suprimir os componentes essenciais do processo da espacialização capitalista em nosso território presidido pela lógica da lucratividade.

A visita da comitiva do PSOL composta por Heloísa Helena, Luciana Genro, Edilson Silva, Luiz Fernando Ozawa e por mim, nos dias 03 e 04 de dezembro, no local, além da solidariedade partidária; do compartilhamento do sofrimento; do sentido humanista da iniciativa serviu para uma reflexão sobre as causas, sobre as iniciativas populares no meio daquela situação de “guerra”; e as ações do Estado com suas capacidades e fragilidades.

Ficou claro que há uma timidez dos governos federal e estadual com relação as políticas de gestão da catástrofe comparativamente aos benefícios fornecidos ao mundo do capital mediante a crise econômica mundial. O primeiro anunciou a liberação do FGTS para os atingidos (já previsto em lei para casos como esse), antecipou (pasme) o pagamento do Bolsa Família em cinco dias e liberou R$ 1,4 milhões para sete estados da nação, verbas já previstas no orçamento e boa parte já carimbadas como do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ou seja, friamente anunciadas por Dilma Russef como mero remanejamento de recursos orçamentários – nada de dinheiro novo. Já o governo do estado criou uma política de elasticidade do pagamento dos impostos sobretudo do ICMS para as empresas atingidas e fez um apelo aos empresários para que não demitissem seus empregados. Na prática, o conjunto dos trabalhadores além de vitimados pela catástrofe, pela crise econômica mundial, estão também com seus empregos ameaçados por decorrência da racionalidade empresarial diante da enxurrada. No entanto, a ordem para salvar os banqueiros, empreiteiras e empresas em geral foi muito mais benevolente. As lágrimas do povo catarinense não foram tratadas com a mesma generosidade dirigida aos empresários e banqueiros.

Sobrevoamos com o helicóptero da Brigada Militar do Rio Grande do Sul durante uma hora e dez minutos e avistamos a situação de Itajaí, Ilhota, Gaspar e Luiz Alves. O chamado Complexo do Morro do Baú, um parque de preservação encravado na cartografia destes municípios ficou completamente desfigurado. Ali percebemos que mesmo se tratando de um Parque, sua ocupação está bastante dinamizada por plantações de árvores exóticas (pinus e eucaliptos), bananais e madeireiras. Cogita-se ainda que os deslizamentos no Baú foram seqüenciados a partir da explosão do gasoduto Bolívia-Brasil que interrompeu seu fornecimento inclusive para o Paraná. A explosão reverberou por quilômetros e precipitou os deslizamentos (está hipótese precisa ser estudada com rigor técnico por parte dos institutos de perícia).

Em Brusque, Indaial, Nova Trento dentre outros municípios mas principalmente Blumenau, após um longo período de convivência com enchentes, a população que pôde mudar de local de moradia, adotou um plano B. Como plano anti-enchentes “fugiu” das margens e arredores dos rios para áreas de encostas. Desta vez, em função do farto adensamento populacional, dos morros encharcados e da condescendência das autoridades públicas em permitir ocupações em áreas de riscos os vitimados também foram os moradores de encostas em larga proporção. O plano de proteção virou risco e morte.

A presença de voluntários, bombeiros, Força Nacional, redes de apoio e solidariedade organizadas, foi imprescindível para atenuar a dor das primeiras horas e dos primeiros dias. No entanto, logo após, quando na aparência a vida volta ao normal, o que estará reservado é o sofrimento do povo em sua individualidade, longe das lentes televisivas.

Em um importante artigo no Caderno Mais do Jornal FSP, o professor de geografia da USP Wagner Costa Ribeiro aponta um conjunto de iniciativas para lidar com situações de catástrofes e/ou evita-las: “compete ao Estado impedir a ocupação em áreas de risco; promover a remoção em situações mais graves; construir tanques de retenção (piscinões); recuperar matas ciliares; treinar a população para convier com as ameaças e agir com planos de evacuação”. Termina dizendo “enquanto o risco for negligenciado ou, mais grave, omitido pelas autoridades públicas à população, só restará lamentar perdas humanas e materiais”.

A necessidade de reprodução da sobrevivência colocará todo aquele contingente de vitimados em direção a lógica do capital – do algoz. O elo rompido pela catástrofe entre proprietário dos meios de produção e proprietários da força de trabalho será em breve reatado e em marcha insensata a nova catástrofe será construída – por alguns inconscientemente – como obra humana, do capital, e não natural.

Afrânio Bopprè é presidente do PSOL/SC

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Comunidade internacional tem um ano para se unir contra aquecimento fatal

 

 

Na abertura da Conferência da ONU sobre Alterações Climáticas, presidente do encontro aconselha negociadores a não cederem aos obscuros interesses privados para que seja seja possível muda o perigoso rumo que a humanidade tomou. "Levamos o sistema do Planeta ao seu limite. Continuar assum provocaria ameaças de uma intensidade nunca vista", advertiu o ministro do Ambiente da Polônia, Maaciej Nowicki.

Esquerda.Net

Por: Agência Carta Maior

 

A comunidade internacional foi advertida, na abertura da conferência sobre alterações climáticas, em Poznan, na Polônia, de que dispõe de um ano para se reunir e salvar o planeta de um aquecimento fatal. No encontro foi lançado um apelo para que seja concluído, no fim de 2009, em Copenhague, um acordo global ambicioso no intuito de travar as alterações climáticas, apesar das dificuldades agravadas pela crise financeira.
Perante 9.000 delegados, de 185 países que estarão reunidos até 12 Dezembro, para a XIV Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, o presidente dos trabalhos e anfitrião do encontro, o ministro do Ambiente polaco, Maciej Nowicki, considerou que «a humanidade, através do seu comportamento, já levou o sistema do Planeta ao seu limite».
«Continuar assim provocaria ameaças de uma intensidade nunca vista: enormes secas e inundações, ciclones devastadores, pandemias de doenças tropicais (…) e mesmo conflitos armados e migrações sem precedentes», afirmou, aconselhando os negociadores a não «cederem aos obscuros interesses privados (quando) devemos modificar o perigoso rumo que a humanidade tomou».
O presidente do Grupo de Peritos sobre a Evolução do Clima (GIEC) e prémio Nobel da Paz de 2007, Rajendra Pachauri, referiu também os graves impactos da «inação».
Um número suplementar de pessoas, mais 4,3 mil milhões a 6,9 mil milhões, ou seja, «quase a maioria da humanidade», que vive nas grandes bacias fluviais, arrisca-se a ser afetado pela seca, alertou.
Em Dezembro de 2007, a conferência de Bali fixou um roteiro que deveria levar os 192 Estados signatários da Convenção da ONU sobre as alterações climáticas (CNNUCC) à conclusão, até 2009, de novos compromissos contra o efeito de estufa.
Esses compromissos foram reforçados e alargados para incluir os Estados Unidos e as grandes economias emergentes, entre as quais a China, que se tornou o primeiro poluidor mundial.
Até hoje, apenas 37 países industrializados (todos, exceto os Estados Unidos) que ratificaram o Protocolo de Quioto estão obrigados a uma redução de emissão de poluentes, no período entre 2008 e 2012.
«O trabalho que vos espera é, ao mesmo tempo, difícil e crítico: mas perante cada dificuldade surgem oportunidades, se souberem concentrar-se naquilo que vos une em vez daquilo que vos divide», afirmou o secretário executivo da Convenção da CNNUCC, Yvo De Boer.
«Têm um ano, de agora, até Copenhaga. O tempo voa. É preciso andar a uma velocidade superior», disse, admitindo que a crise financeira vai complicar a tarefa. «A realidade é que mobilizar os recursos financeiros à escala necessária constituirá um verdadeiro desafio», disse.
Contudo, ressalvou, esta «crise não nos deve impedir de nos comprometermos no que diz respeito ao clima ou à redução da pobreza», considerou o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen. «Não nos podemos permitir abrandar o passo», afirmou, por sua vez, Brice Lalonde, embaixador de França para o clima, país que detém atualmente a Presidência rotativa da União Européia.

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As chuvas em Santa Catarina

As enchentes e os deslizamentos não são obra do acaso ou da ira de um deus vingativo.

01/12/2008

Elaine Tavares - Brasil de Fato

As chuvas que caem há três meses seguidos em Santa Catarina acabaram se transformando em tragédia. E, no meio da dor de milhares de famílias que perderam pessoas e coisas, me vêm à mente o célebre debate entre Voltaire e Rousseau, feito através de escritos, pouco depois do terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755.

Naquela tragédia européia morreram mais de 100 mil pessoas, a cidade ficou destruída e os grandes pensadores da época – que eram os que formavam opinião, tal qual hoje a mídia - erguiam os braços aos céus dizendo que era uma fatalidade, obra da providência divina. Voltaire ironizava esta idéia de que o terremoto fosse um castigo de deus e colocava a culpa na natureza. Já Rousseau, mostrava as causas sociais do desastre e apontava: “20 mil casas de seis ou sete andares foram construídas. O homem deveria tê-las feito menores e mais dispersas”. Para ele, era a civilização humana a culpada pelos males que se abatiam sobre ela. Rousseau inocentava assim, a deus e a natureza e lembrava que havia sido a idéia insana de muitos lisboetas de protegerem seus pertences que os levara – muitos – à morte.

Pois em Santa Catarina estamos nesse embate. O mundo literalmente desabou sobre nossas cabeças. Na região do vale do Itajaí os morros vieram abaixo, soterrando casas e gentes. As construções humanas se esmigalharam como se fossem folhas de papel, mostrando a fragilidade da raça. Algumas cidades foram inteiramente invadidas pelas águas dos rios e o desespero tomou conta de mais de um milhão de pessoas atingidas pela catástrofe. Como na Lisboa do século 18, não há aqui nada de providência divina. Se deus é bondade, não permitiria tanta dor. Eu que creio num deus minúsculo, que é apenas rede onde descansamos a dor, o eximo deste caso.

A grande mídia exibe os argumentos de Voltaire. A chuva é a grande vilã. Não fosse ela, nada teria acontecido. Ninguém fala que a chuva é coisa natural e que desde que o mundo é mundo ela cai, ora mais, ora menos. O que se diz é que os morros caíram por conta dela, que os rios subiram por conta dela e quando, de noite, ela volta, insistente, as gentes a maldizem e a temem.

Eu tendo a fazer uma leitura roussoniana. A chuva é coisa bendita. Ela vem para trazer vida, nunca morte. Se hoje, junto com ela vem a ceifadora, há que se buscar outros culpados. Afinal de contas, porque os rios transbordam? Que fizeram com eles os homens que habitam suas margens? E os morros que desabam, não teriam sido revirados para a plantação de tubos da gigantesca obra do gasoduto, tão denunciada por ambientalistas e estudiosos no início dos anos 90. Pois naqueles dias eram chamados de loucos, os eco-chatos, os anti-progresso, os que impediam o desenvolvimento.

As enchentes e os deslizamentos que cobriram de dor Santa Catarina não são obra do acaso ou da ira de um deus vingativo. Elas são o resultado da incapacidade dos homens em perceber que são parte da natureza, membros vivos da Pachamama, da mãe Gaia. Mas qual, isso é conversa de naturebas, falsos hipppies, inconseqüentes, os que vivem falando de socialismo, cooperação, vida simples e integrada com a natureza.

A tragédia que se abate sobre o vale do Itajaí e outras tantas regiões do Estado já estava anunciada. Desde sempre. Vinha sendo prevista por aqueles a quem as pessoas denominam “os arautos da desgraça”. Os que vêem defeito em tudo, que questionam cada obra faraônica, cada plano diretor mal planejado, cada ação irracional do sistema capitalista.

Basta que se dê uma espiada nos relatórios elaborados por estudiosos e ambientalistas, estes que nunca são ouvidos pelos governantes. As obras de prevenção sempre são caras demais e nunca saem do papel. Ás vezes se faz uma concessão aqui ou ali, mas no geral, as grandes saídas são esquecidas nas gavetas, até que venha uma nova tragédia.

Por isso me entristece um pouco ver toda essa comoção que imediatamente toma conta das pessoas em todos os lugares. Os comitês de ajuda, as doações de comida e roupas, as lágrimas de piedade. Não que eu ache que isso não é necessário. Sim, é. As pessoas precisam comer agora, aqui. Mas o povo de Santa Catarina não precisa só deste breve momento de musculação de consciência que vai durar enquanto a mídia centrar seus holofotes na região. A gente deste Estado vai precisar de todo esse povo na hora de empreender a luta por obras de prevenção, na hora em que tiver de abrir mão de algumas benesses do progresso e do desenvolvimento para garantir que coisas assim nunca mais aconteçam.

Cá com meus botões eu temo que tudo isso siga seu ciclo perverso. O mundo todo de olho no Estado por um mês ou dois e, depois, o esquecimento. As famílias que perderam gente, acomodam sua dor. Os que perderam coisas, recuperam. E a vida segue, enquanto nos palácios os governantes contratam empreiteiros para a reconstrução. Os mesmos de sempre levarão os lucros. Os que nada têm agradecerão por estarem vivos e os remediados se levantarão outra vez. Até quem venha um ciclone, outra chuva, um tsunami e tudo recomece na roda insana.

Talvez, a grande tragédia não seja a chuva, mas essa absurda incapacidade que grande parte das gentes têm de compreender que as catástrofes são faturas da nossa construção histórica, na nossa forma de organizar a vida, do desejo de dominar a natureza, da nossa ânsia de acumular riqueza. Não é à toa que enquanto o mundo todo ora por nós, o governo do Estado trame a aprovação – em caráter de emergência – de um novo código florestal que tem como princípio básico a destruição da natureza. Se efetivamente precisamos de lágrimas e comoção, que seja por isso. E que todos possam se unir na luta contra esse projeto tanto quanto estão mobilizados para a ajuda às vítimas. Como já dizia o velho Marx, é sempre bom que a gente possa ver para além da aparência. Eu, otimista incurável, acredito que Santa Catarina vai lutar.

Elaine Tavares é jornalista

Artigo publicado no Brasil de Fato

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União só investiu 8% do previsto contra desastres

O governo tem negligenciado investimentos em obras de prevenção a desastres, o que poderia atenuar os efeitos de enchentes como as ocorridas em Santa Catarina. A Defesa Civil estima que, além de salvar vidas, esse tipo de investimento reduz em até oito vezes os gastos pós-catástrofe, mas o padrão de gastos continua focado no socorro e na recuperação.

A reportagem é de Leila Suwwan e publicada pelo jornal O Globo, 30-11-2008.

Este ano, de toda a verba destinada a obras de prevenção de secas, enchentes, incêndios e outras emergências, o governo só gastou 8% do previsto, percentual que se repete desde 2003.

O Ministério da Integração Nacional culpa as eleições municipais e as novas regras para assinatura de convênios pela baixa execução do orçamento deste ano para prevenção de desastres.

Até este mês, R$ 49 milhões foram investidos em construções de galerias pluviais, drenagem, muros de contenção de encostas, barragens e realocação de famílias. O total orçado para este ano é de R$ 603 milhões, já incluídos os R$ 234 milhões adicionais da MP assinada pelo presidente Lula quinta-feira.

Este foi o ano da gestão Lula em que mais se investiu em termos absolutos. Em 2003 e 2005, nenhum centavo foi pago para esse tipo de obra. Em 2004, 2006 e 2007 somados, as obras preventivas consumiram R$ 30 milhões, segundo levantamento no Siafi realizado pela assessoria de orçamento da liderança do DEM.

IHU - Online

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A tragédia prevista

“O Direito dos homens não pune suficientemente o crime contra o ambiente. A natureza pune. Sem piedade ela cobra seu preço. Mas, a um prazo muito longo. Só as futuras gerações vão conferir o saldo”, escreve Walter Ceneviva, jornalista, no jornal Folha de S. Paulo, 30-11-2008.

Eis o artigo.

Diferentemente do que parece, a tragédia das enchentes em Santa Catarina era previsível e, portanto, poderia ter proporções muito menores.

O silêncio das comunidades e a incúria da administração pública (federal, estadual, municipal), nos três poderes, se somaram para o resultado estarrecedor em mortos, feridos e em danos materiais. O fenômeno destes dias não é estranho à vida catarinense. Dizem que foi o maior da história, o que não é de surpreender.

Em 12 de agosto de 1984, há mais de 24 anos, escrevi nesta Folha uma coluna de “Letras Jurídicas” sob o título “Crime que só a natureza pune”. Comecei anotando seriedade crescente das conseqüências de fenômenos atmosféricos. Disse que “os desastres naturais se agravaram sem sensibilizarem a consciência universal em grau suficientemente forte para impedirem a continuidade do processo”.

No caso catarinense, infelizmente, a constatação foi correta, o que me deixa mais triste. Reproduzo entre aspas, na íntegra, a anotação de 1984, com o exemplo daquele Estado, se escrever que “me serve, por agora, quando novas enchentes engasgam a incompetência federal. Não tendo sabido resguardar suas florestas e suas madeiras, não tendo preservado seus mananciais, tendo concentrado centros urbanos junto ao rio Itajaí, o homem catarinense (como o de outros Estados) paga um preço dramático, pela segunda vez em 12 meses”.

Fixei-me no exemplo do Itajaí, que “sempre foi um rio de grandes cheias. Conheço-o há mais de 30 anos em dezenas de viagens ao Estado de Santa Catarina, cuja simpatia é ilimitada. Porém, os resultados atuais são muito mais graves que no passado. A ocupação do solo foi feita ao sabor das imediatas conveniências econômicas, relacionadas com o crescimento industrial. Outra conseqüência do chamado “progresso” foi o desmatamento, a desproteção das margens. Enfim, a destruição da natureza, que, em São Paulo, é muito mais grave”.

Fecho as aspas aqui para reconhecer que, na cidade de São Paulo, as providências adotadas para as enchentes do rio Tietê foram longas, caras e estão produzindo bons resultados, embora seja certo que a manutenção da limpeza do rio não possa parar, jamais.

A natureza com seus fenômenos mais violentos tende a punir até mesmo os que cuidaram de remediar a geração de conseqüências sérias. A força natural, em certos momentos, pode ultrapassar todas as cautelas do ser humano, agindo individual ou coletivamente. Quando não houver cautela ou for insuficiente o sofrimento, pode atingir as condições dantescas hoje observadas na terra catarinense.

O fecho dado ao meu comentário publicado em 1984 pode ser novamente repetido sem qualquer alteração e, por isso, entre aspas. “O Direito dos homens não pune suficientemente o crime contra o ambiente. A natureza pune. Sem piedade ela cobra seu preço. Mas, a um prazo muito longo. Só as futuras gerações vão conferir o sadol.

Folha de S. Paulo - 30/11/08

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Santa Catarina: tragédia, descaso e hipocrisia no sul do país

Jeferson Choma
da redação do Opinião Socialista
Site do PSTU

• As águas começaram a recuar nas cidades atingidas pela enchente em Santa Catarina. No total, 97 pessoas foram encontradas mortas em decorrência da chuva até agora. Mas há inúmeros desaparecidos e é provável que o número seja maior. Os desabrigados chegam a 78 mil, mas o número de pessoas afetadas é de 1,5 milhão, um quarto da população do estado.

Em Itajaí, uma das cidades mais atingidas, a população faminta e desesperada realizou saques em supermercados. Na edição do dia 26 de novembro, o jornal carioca O Globo chamou os saqueadores de ladrões. O que o jornal não disse é que faltam cestas básicas, e muitos comerciantes tentam se aproveitar da situação para cobrar ágio em alimento e em galões de água.

Desesperados com a falta de alimento, moradores de Itajaí procuram comida para a família até mesmo no lixo. “A realidade e é que não está chegando comida para todos”, reconheceu um major do corpo de bombeiros.

A cidade de Blumenau foi declarada pelos bombeiros como uma imensa área de risco, devido aos danos causados pelas chuvas. Pelo menos 95% da população da cidade está sem água potável.

Na medida em que as águas cedem, surgem não apenas as várias histórias de horror daqueles que perderem tudo, inclusive suas famílias. A responsabilidade dos governantes também começa a vir à tona.

Prefeitos e governadores não medem esforços para fazer populismo diante da tragédia. Como informa Alexandre Schwarz, morador de Navegantes, o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) chegou a surgir num estúdio na TV com um colete salva-vidas para fingir que estava ajudando a resgatar alguém. Isso depois de pedir para que os turistas ficassem tranqüilos.

Também não acreditei quando ouvi o governador do Estado, numa entrevista à rádio Band, dizer que Santa Catarina sofre das conseqüências da poluição atmosférica e até das conseqüências das bombas atômicas.

Mas a tragédia enfrentada pelos catarinenses tem a ver com outras razões que estão além da mudança climática prevista pelo aquecimento global.

Embora o estado tenha registrado constantes desastres naturais – seis tornados e um ciclone desde 2004 –, as previsões de verbas estaduais para prevenir as conseqüências geradas por desastres naturais caíram entre 2004 a 2011 (período de gestão de Luiz Henrique).

Em 2004, as verbas previstas foram de R$10,2 milhões. Em 2007, baixou para R$9,6 milhões. A diferença representa uma queda de 6,7%.

O governo federal não revela o quanto destinou ao estado em verbas para a prevenção. Mas o total dos recursos disponibilizados nacionalmente é de insuficientes R$372,9 milhões. Insuficiente para construir, apenas em Santa Catarina, diques de contenção, canais e algum sistema de alerta eficiente que previna muitas mortes e prejuízos, se acionado em tempo hábil.

Já depois da tragédia, o governo federal anunciou que vai liberar R$1 bilhão para o estado. Mesmo assim, a população está tendo de dividir as poucas cestas básicas que chegam. O curioso é que para salvar as montadoras – que tiveram altos lucros nos últimos anos – o governo abriu os cofres prontamente para liberar R$4 bilhões.

Além disso, dos 14 municípios de Santa Catarina que registraram mortos, apenas Itajaí assinou algum convênio com a União sob o governo Lula.

Na tarde do dia 27, o presidente Lula viu de seu helicóptero o resultado desta política.

Do site do PSTU

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A sexta extinção das espécies ainda pode ser evitada

Christiane Galus - Le Monde

A espécie humana, que já conta 6,7 bilhões de indivíduos, modificou de tal maneira seu meio ambiente que, nesta fase atual da sua história, ela já começou a atingir gravemente a biodiversidade das espécies terrestres e marinhas, e, no médio prazo, já está ameaçando a sua própria sobrevivência. A tal ponto que um número cada vez maior de cientistas não hesita a falar de uma sexta extinção, que será provocada pelas importantes alterações introduzidas pelo ser humano na natureza e no meio ambiente. Esta nova extinção deverá se suceder às cinco precedentes, que estabeleceram o ritmo da vida na Terra.

O FIM DO MUNDO?
Os primórdios da vida remontam a 3,7 bilhões de anos. Mas foi preciso esperar até a explosão do período cambriano, há 500 milhões de anos (Ma), para que apareçam os primeiros organismos marinhos complexos. A partir dessa data, cinco grandes extinções ocorreram.
A PRIMEIRA, HÁ 440 MA, fez desaparecerem 65% das espécies, todas elas marinhas. Glaciações importantes, seguidas por um forte aquecimento teriam provocado grandes flutuações dos níveis marinhos.
A SEGUNDA, HÁ 380 MA, provocou a morte de 72% das espécies, em sua maior parte espécies marinhas. A catástrofe teria ocorrido devido a um esfriamento global que se sucedeu à queda de vários meteoritos.
A TERCEIRA, HÁ 250 MA, foi tão importante que a vida por pouco não conseguiu renascer. Segundo estimativas, 90% de todas as espécies (marinhas e terrestres) desapareceram. As causas dessa catástrofe até hoje vêm sendo debatidas, mas, acredita-se que imensas massas de lava em fusão que arrebentaram na Sibéria, possivelmente provocadas pela queda de um asteróide, alteraram profundamente o clima e diminuíram o oxigênio, o qual se dissolveu na água dos mares.
A QUARTA, HÁ 200 MA, é associada à abertura do oceano Atlântico e ao surgimento de importantes massas de lava em fusão que aqueceram o clima. 65% das espécies desapareceram.
A QUINTA, HÁ 65 MA, é a mais conhecida, uma vez que ela é associada ao desaparecimento dos dinossauros e de 62% das espécies. Entre as causas apresentadas estão a queda de um asteróide no golfo do México e o surgimento de importantes massas de lava em fusão na Índia.
MAIS PERTO DA NOSSA ÉPOCA, NO DECORRER DE UM PERÍODO QUE VAI DE 50.000 A 3.000 ANOS, antes dos nossos dias, a metade das espécies dos grandes mamíferos que pesavam mais de 44 kg desapareceu. Alguns pesquisadores incriminam principalmente o homem e consideram que a sexta extinção, aquela que é provocada pela ação do Homo sapiens, já começou.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), com sede na Suíça, que desenvolve estudos sobre 41.415 espécies (de um total de cerca de 1,75 milhão conhecidas) para elaborar sua lista vermelha anual, avalia que 16.306 dentre elas estão ameaçadas. Ou seja, um mamífero em cada quatro, uma ave em cada oito, um terço de todos os anfíbios e 70% de todas as plantas estudadas estão correndo perigo, segundo a UICN.

Será ainda possível frear esse declínio das espécies, que corre o risco de ampliar-se quando o nosso planeta atingir 9,3 bilhões de humanos em 2050? Os biólogos americanos Paul Ehrlich e Robert Pringle (da universidade Stanford, na Califórnia) acreditam que isso seja possível, com a condição de que diversas medidas radicais sejam tomadas no plano mundial. Eles apresentam essas medidas num relatório publicado em 12 de agosto na revista especializada americana “Proceedings of The National Academy Of Sciences” (PNAS - Minutas da Academia Nacional de Ciências), numa edição que dedica um dossiê especial à sexta extinção.

Em preâmbulo, os dois pesquisadores não hesitam a declarar que “o futuro da biodiversidade no decorrer dos próximos 10 milhões de anos será certamente determinado pelo que acontecerá nos próximos 50 a 100 anos que estão por vir, em função da atividade de uma única espécie, o Homo sapiens, que tem apenas 200.000 anos de existência”. Se considerarmos que as espécies de mamíferos - às quais nós pertencemos - têm uma vida útil de um milhão de anos em média, isso coloca o Homo sapiens em meados da sua adolescência. Este “adolescente” mal-criado, “um narcisista que pressupõe a sua própria imortalidade, andou maltratando o ecossistema que o criou e o mantém em vida, sem preocupar-se com as conseqüências dos seus atos”, acrescentam severamente Paul Ehrlich e Robert Pringle.

Consumo excessivo
Segundo os dois cientistas, é preciso insuflar uma mudança de mentalidade profunda, de maneira que a humanidade enxergue a natureza com outros olhos. Isso porque “a idéia segundo a qual o crescimento econômico é independente da saúde do meio ambiente e que a humanidade pode expandir indefinidamente sua economia é uma perigosa ilusão”, afirmam Ehrlich e Pringle. Para enfrentar esta perda de rumo, é preciso começar controlando o ritmo da expansão demográfica e diminuindo nosso consumo excessivo dos recursos naturais, dos quais uma boa parte serve para saciar gostos supérfluos e não para as necessidades fundamentais. Por exemplo, a piscicultura e a avicultura são atividades menos onerosas em termos de transportes e de consumo de combustível, do que a criação dos porcos e dos bois, dois animais reunidos no sacrossanto cheeseburger com bacon…

Os autores do estudo propõem um outro ângulo de ataque: os serviços oferecidos pela biosfera são numerosos e gratuitos. Ela fornece as matérias-primas; os sistemas naturais de filtração das águas; a estocagem do carbono pelas florestas; a prevenção da erosão e das inundações pela vegetação, além da polinização das plantas por vários tipos de insetos e de pássaros. Por si só, esta última atividade movimenta cerca de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 2,4 bilhões) nos Estados Unidos. Com isso, seria extremamente necessário avaliar os custos dos serviços oferecidos pela natureza e incluí-los nos cálculos econômicos, de tal modo que se possa garantir sua proteção.

Para financiar o desenvolvimento das áreas protegidas, cujo número é insuficiente e que são excessivamente parceladas, Paul Ehrlich e Robert Pringle propõem que se recorra a fundações privadas dedicadas à conservação. Esta solução apresenta a vantagem de ser menos custosa para os contribuintes e permite gerar quantias importantes. Na Costa Rica, um fundo desse tipo, o Paz Con La Naturaleza, arrecadou US$ 500 milhões (cerca de R$ 800 milhões), quantia esta que servirá para financiar o sistema de conservação do país. É possível igualmente associar de maneira mais estreita pastores e agricultores nas tarefas de preservação da biodiversidade, evitando impor-lhes decisões em relação às quais eles não têm nenhum poder de controle, e com a condição de que a sua fonte de renda seja preservada. Esse processo deve ser viabilizado por meio de explicações e de uma melhor educação neste campo. Contudo, nada impede que esforços também sejam empenhados na restauração das áreas onde o habitat foi deteriorado.

Entretanto, os dois pesquisadores se dizem preocupados diante do divórcio crescente, nos países industrializados, entre a população e a natureza, divórcio esse gerado pela utilização intensiva da multimídia. Eles constatam que, “nos Estados Unidos, a expansão das mídias eletrônicas coincidiu com uma diminuição importante das visitas nos parques nacionais, depois de um crescimento ininterrupto que durou cinqüenta anos”. Além disso, ao que tudo indica, fenômenos similares andaram ocorrendo em outros países desenvolvidos. Diante dessa tendência, mostrando com isso que eles também têm um senso inegável do que é oportuno, Paul Ehrlich e Robert Pringle propõem que se acrescente uma dimensão ecológica aos universos virtuais mais conhecidos, tais como o Second Life.

Le Monde

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CPT e Rede Social lançam relatório sobre os impactos da produção de cana

Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos lançaram nesta terça-feira, 18 de novembro, no auditório da APEOESP, em São Paulo, um relatório minucioso sobre a expansão do monocultivo de cana na Amazônia e no Cerrado. O documento (acessar nos sites indicados no final), contendo 80 páginas de dados, fotos e entrevistas, faz uma análise dos impactos sociais e ambientais dessa expansão e traz um relato detalhado do avanço deste monocultivo em 11 estados: Acre, Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A publicação foi debatida e fez parte das análises da mesa temática que discutiu as alternativas em curso pelo mundo na construção da soberania alimentar e energética, durante o Seminário Internacional “Agrocombustíveis como obstáculo à construção da soberania alimentar e energética”. O evento, promovido pela Via Campesina e entidades parceiras, foi realizado entre os dias 17 e 19 de novembro em São Paulo, sendo um contraponto à Conferência Internacional “Biocombustíveis como vetor do Desenvolvimento Sustentável”, convocada pelo governo brasileiro para promover o etanol nacional e tornar aceitável sua suposta “sustentabilidade” para o mercado global.
O documento cita dados sobre o avanço das plantações de cana e de novas usinas de etanol instaladas na região, além de projetos de infra-estrutura, incentivos fiscais concedidos por governos estaduais, E parcerias de órgãos do governo com empresas brasileiras e estrangeiras. Estes dados são complementados por uma pesquisa de campo sobre os impactos para a população local e para os trabalhadores. O estudo traz informações sobre violações de diretos trabalhistas, casos de trabalho escravo, morte de trabalhadores e impacto na saúde dos canavieiros e da população.
Em relação aos impactos ambientais, o relatório faz uma sistematização de estudos recentes sobre os efeitos poluidores dos monocultivos, sobre a destruição da biodiversidade, dos solos e das fontes de água. Diversos estudos demonstram que a expansão de monocultivos representa um risco maior para o aquecimento global do que as emissões de carbono provenientes de combustíveis fósseis. A pressão cada vez maior sobre a fronteira agrícola da Amazônia e