Arquivo de Mercantilização

CONCENTRAÇÃO DO SISTEMA FINANCEIRO PREJUDICA A POPULAÇÃO E OS TRABALHADORES

A fusão do Itaú com o Unibanco cria o maior banco do Brasil, do Hemisfério Sul e o 17º maior do mundo, por valor de mercado. Fato que os capitalistas estão comemorando como a grande jogada para fortalecer o sistema financeiro nacional em época de crise.

Para nós trabalhadores esta fusão faz parte de uma política oligopólica que facilita a transferência dos recursos da população, através de juros altos e tarifas abusivas, para os banqueiros reduzindo significativamente o emprego para a categoria bancária no Brasil e em especial na Baixada Santista.

Em 1988, em nossa região, existiam 7.379 bancários distribuídos em 45 bancos que foram incorporados por apenas quatro. Hoje a quantidade de empregados está reduzida a apenas 3.461 bancários.

Vamos relembrar: o Itaú engoliu os bancos Francês e Brasileiro, Banestado, Banerj, Bemge, BEG, BBA, Fiat, Bank of Boston e City Card e agora anuncia a fusão com o Unibanco que incorporou o Nacional, Dibes, Credibanco, Bandeirantes, BNL e Banorte. O Bradesco não ficou atrás, devorou os bancos BCN, Pontual, Baneb, Boavista, Mercantil de São Paulo, BCA, Banco Cidadão, BBV, Zogbi, BEM, BEC, Credireal, Alvorada, Excel, Econômico, Antônio de Queiroz, Crefisul e Banco Itamarati. O Santander comprou o Geral do Comércio, o Noroeste, o Banespa, o Meridional, o Bozano, o Real, o ABN Amro Bank, o Sudameris, o Holandês Unidos e o América do Sul. Por sua vez o HSBC ficou com o Bamerindus e Lloyds.

Com a fusão Itaú/Unibanco aumenta a concentração bancária, 73% dos ativos financeiros (1,2 trilhão de dólares) ficarão com apenas cinco bancos: Itaú/Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco, Santander/Real e Caixa Econômica Federal.

O Sindicato dos Bancários de Santos e Região vem denunciando este desmonte da categoria já há algum tempo e tem conseguido barrar várias demissões, o que não foi suficiente para evitar esta situação, pois as demissões são feitas em doses homeopáticas. Inclusive este foi o tema central de nossa Campanha Salarial/2008.

Esta política vem consolidando um verdadeiro oligopólio financeiro aqui no Brasil entre três setores bancários: dois grandes bancos privados nacionais (Itaú/Unibanco e Bradesco), dois grandes privados estrangeiros (Santander/Real e HSBC) e o setor público (Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal).

A fusão Itaú/Unibanco abre uma corrida insana com o seu rival o Bradesco, que durante quase cinco décadas foi o maior, ele fará de tudo para incorporar, comprar ou mesmo fundir-se com outros para avançar na sua posição no mercado. Neste momento de crise a concentração do sistema financeiro brasileiro é incentivada pelo Banco Central através da liberação do depósito compulsório para compra de ações.

Como se não bastasse, o governo federal segue o mesmo caminho dos bancos privados, desviando-se do objetivo social transformando os bancos públicos em bancos de mercados que exploram a população, os trabalhadores, os micros e pequenos agricultores e empresários com juros exorbitantes, ou seja, os maiores do planeta.

E não pára por aí, a MP 443, que confere ao Banco do Brasil e a Caixa a faculdade de adquirir participação em instituições financeiras, públicas ou privadas, sediadas no Brasil, incluindo empresas dos ramos securitário, previdenciário, de capitalização e demais ramos (…) além dos ramos de atividades complementares às do setor financeiro, com ou sem o controle do capital social”, conforme declaração do secretário de Política Econômica do Governo Nelson Barbosa “…. tem por objetivo dar liberdade para BB e Caixa participarem de operações de mercado que sejam viáveis pela lógica empresarial”.

A população, os trabalhadores em especial os bancários só tem a perder com a grande concentração do sistema financeiro nacional.

RICARDO LUIZ LIMA SARAIVA – BIG – Presidente do Sindicato dos Bancário de Santos e Região

ENEIDA FIGUEIREDO KOURY – Secretária de imprensa e comunicação do Sindicato dos Bancários de Santos e Região

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A insustentável sociedade de consumo

Chris Bueno

Lojas de departamentos de vários andares, shopping centers que oferecem todos os tipos de serviços, boutiques finas que servem champanhe aos clientes, pequenas lojas que vendem toda sorte de produtos por menos de R$ 2,00. Há décadas consumir deixou de ser um simples ato de subsistência para ser identificado com uma forma de lazer, de libertação e até mesmo de cidadania. Homens e mulheres são levados a consumir, mesmo sem necessidade, apenas pelo simples ato de comprar. Para alguns pesquisadores, consumir é indispensável para fazer a economia girar e os países se desenvolverem. Para outros, o consumo desenfreado é uma grave doença moderna, com complicadas conseqüências para a sociedade e para o meio ambiente.

O consumo é considerado, por alguns economistas, como a “mola propulsora” da economia mundial. Consumir geraria demanda, que por sua vez geraria maior produção por parte das indústrias, estimulando o surgimento de novos empregos, o aumento de salários e até mesmo o investimento em novas tecnologias para aprimorar a produção. Isso significaria mais trabalhadores, com salários melhores, que também seriam levados a consumir, formando um ciclo que manteria a economia aquecida e contribuiria para o desenvolvimento dos países. Por muito tempo, essa foi uma corrente de pensamento econômico predominante nos países capitalistas. Mas esse modelo neoliberal, que tinha os Estados Unidos como seu principal representante, está sendo cada vez mais questionado.

A crise econômica que os Estados Unidos enfrentam atualmente coloca em dúvida esse modelo econômico fortemente baseado no consumo, pois evidencia sua instabilidade. A crise, desencadeada pelo setor imobiliário, levou os bancos norte-americanos a entrarem em colapso – muitos quebraram e outros precisaram pedir ajuda ao governo para seguirem ativos. Nesse cenário, as instituições financeiras tiveram que reduzir drasticamente o crédito ao consumidor, o que acarretou na queda do consumo e de toda a atividade econômica do país. Para conter a crise, o governo norte-americano lançou um pacote centrado no consumo da população. Uma das medidas do pacote determina a devolução de impostos à população como uma forma de injetar dinheiro na economia e esquentar o consumo. Se o baixo consumo representa um problema que agrava a crise nos Estados Unidos, no Brasil ocorre o exato oposto: o aumento do consumo da população está preocupando o governo, que teme a volta da inflação. Para evitar que isso ocorra, o governo brasileiro já está pensando em medidas que desestimulem o consumo e possam conter a alta dos preços. Mas não é só o Brasil e os Estados Unidos que enfrentam problemas econômicos relacionados ao consumo: o desemprego e a alta dos preços são sinais de desgaste do modelo que já despontam em diversos países da Europa, enquanto a desigualdade social conseqüente desse sistema mostra que ele está ficando cada vez mais inviável para os países da América Latina e da África.

“Estas relações geram impacto visível na economia, mas há um impacto ainda maior e mais grave na sociedade e sobre o meio ambiente”, aponta Aloísio Ruscheinsky e Mariana Ocaña Madruga, sociólogos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) . Segundo os pesquisadores, um dos principais impactos que esse estímulo ao consumo causa é o distanciamento entre ricos, que podem “consumir mais”, e pobres, que lutam para poder consumir o mínimo. “Esse fenômeno, por ironia da história tem como decorrência o aumento das desigualdades e do contingente da população na faixa da pobreza”.

“As relações sociais escravizaram-se pelo dinheiro e pelo poder de consumo”, afirma Valquíria Padilha, socióloga da USP e a utora do livro Shopping Center: A catedral das mercadorias . A socióloga explica que o cidadão foi reduzido a consumidor através de uma série de estratégias que construíram o capitalismo e o neoliberalismo. Como parte dessa estratégia, o Estado liberal foi deixando ao mercado responsabilidades que deveriam ser suas, como fornecer saúde, lazer, educação e infra-estrutura de qualidade. A conseqüência disso é um número cada vez maior de pessoas, principalmente de classe média, pagando, além dos impostos, planos de saúde privados, escolas privadas, pedágios e segurança privada. “Os ricos e endinheirados podem comprar conforto, segurança (ou ilusão de segurança), educação, saúde e lazer, mas os pobres morrem nas filas de hospitais públicos, ficam adultos analfabetos ou semi-analfabetos, não têm esgoto, água encanada, dentista, boas escolas”, declara. E conclui: “Quem não tem dinheiro não tem cidadania”.

Dessa forma, o consumo acabou se tornando um fator importante de construção de representações sociais. Ao comprar, não apenas se adquire um produto ou um serviço, mas define-se o status, e mesmo a identidade, de um indivíduo. É o “compro, logo existo”, uma forma do indivíduo se posicionar – e se diferenciar - dentro da sociedade através do que consome. “Aquilo que você veste, come e bebe define socialmente quem você é, onde você está e até onde pode ir. Desta forma, cria-se um mito cultural: aquele que maiores condições financeiras obtiver ‘irá mais longe’”, destaca Ruscheinsky. “ Os impactos psicossociais dessa lógica de vida são bastante complicados, porque o valor do ser humano é reduzido ao seu poder de compra. Quem tem carro importado é melhor, quem se veste com roupas da moda é gente de respeito e assim por diante”, concorda Padilha.

Comprando felicidade

Não é preciso apenas consumir para existir, mas é preciso consumir para ser feliz. Nessa lógica, vale tudo para se realizar um sonho de consumo: fazer horas-extras, “bicos” ou prestações a perder de vista. “É como se os objetos fossem capazes de propiciar o bem-estar social e a segurança que tanto se reclama e proclama”, aponta Ruscheinsky. Assim, busca-se a realização pessoal e a felicidade através do consumo. A sociedade de consumo vende a satisfação dos desejos individuais, mas desperta nos consumidores a cada momento novos desejos a serem satisfeitos, fazendo-os querer (e consumir) sempre mais. “O vazio existencial cavado pela complexidade dos relacionamentos psicossociais não se preenche facilmente com bolsas, celulares e carros. Se a felicidade prometida pela sociedade de consumo fosse real, nós não estaríamos vivendo uma sociedade tão violenta como a nossa. A violência física e simbólica são frutos da desigualdade e da perversidade da sociedade de consumo que elege os endinheirados como os sortudos da ilha da fantasia ”, alerta Padilha.

Para compreender a dimensão do consumo na vida moderna, é preciso vê-lo como uma prática social e cultural complexa e importante. “O acesso aos bens de consumo são parte das lutas pela eqüidade e das lutas pela qualidade de vida, em especial, as lutas pelo direito de escolha do tipo de vida que queremos viver. Nesse sentido, consumo e cidadania são inseparáveis, já que ambos criam e fortalecem sentimentos de pertencimento a um grupo social”, explica Fátima Portilho, socióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do grupo de pesquisa Sociedades e Culturas de Consumo e autora do livro Sustentabilidade ambiental, consumo e cidadania . A partir dessas considerações, não é mais possível pensar o consumidor como uma simples vítima manipulada pela propaganda, ou como uma pessoa superficial e alienada. Ao contrário, a tendência atual é que o consumo seja, cada vez mais, associado ao desejo de “fazer alguma coisa” e de participar da vida e dos problemas coletivos. “Ninguém quer apenas sobreviver biologicamente consumindo ‘produtos indispensáveis’, mas viver, ou seja, ter prazer, ter uma identidade, escolher, se expressar… E quem definirá o que é ‘consumir para sobreviver’, o que é supérfluo, o que é necessário, o que é indispensável?”, diz a socióloga.

“O consumo é indispensável na vida de todos os cidadãos. O que está em discussão é a tipologia, o significado e o montante do consumo. Principalmente no que diz respeito às produções que envolvem matérias-primas há uma crescente preocupação. A finitude dos recursos naturais é evidente, e é agravada pelo modo de produção regente, que destrói e polui o meio ambiente.”, diz Ruscheinsky. “O consumo é indispensável e cumpre diversas funções sociais, mas, nos níveis e padrões atuais, e em expansão, precisa ser modificado em direção a formas mais sustentáveis, tanto do ponto de vista social quanto ambiental”, concorda Portilho.

Repensando o modelo

O modelo da sociedade de consumo está tão enraizado na sociedade contemporânea que alguns pesquisadores já chegaram a afirmar que ele é irreversível. Porém, Padilha discorda: “Nada é irreversível quando se pensa em sociedade”. Para a pesquisadora, a atual crise nos Estados Unidos é um sinal de que esse modelo deve começar a ser repensado. “O produtivismo e o consumismo desenfreados são insustentáveis por mais tempo. O primeiro e mais importante limite dessa cultura do consumo, que estamos testemunhando hoje, são os próprios limites ambientais. O planeta não suportaria se cada habitante tivesse um automóvel, por exemplo. Psicológica e sociologicamente também não será suportável por muito mais tempo essa lógica de produção e consumo destrutivos a que estamos sujeitos hoje”, afirma.

“O espaço para discussão sobre o modo de produção e hábitos de consumo tem crescido muito atualmente, mesmo que ainda não tenha atingido a abrangência desejada e os resultados necessários para processos sustentáveis e processos reversíveis de uso dos recursos naturais”, declara Ruscheinsky. Porém, apesar de estar sendo colocada em cheque, ainda é preciso muita discussão e reflexão para se mudar a sociedade de consumo. Esse modelo possui uma estrutura complexa e precisaria da ação de vários atores para se alcançar uma mudança significativa. De acordo com os pesquisadores, é preciso trabalhar em vários níveis – do consumidor, da empresa e do Estado – para que haja uma alteração no sistema. Os consumidores precisam ser informados e conscientizados, buscando promover uma “mudança de hábito” que controle os efeitos do consumo desenfreado. As empresas, igualmente, devem procurar agir rumo a uma produção sustentável. E o Estado, através da promoção de políticas públicas, deve exercer diversas funções regulatórias, inclusive com as chamadas políticas de consumo sustentável (eliminação de subsídios, compras sustentáveis, políticas de estímulo ao transporte coletivo etc.).

Apesar de ainda não existir um modelo alternativo forte que possa substituir a sociedade de consumo, existem caminhos diversos que podem ajudar a torná-la mais sustentável. Portilho afirma: “ A ‘alternativa’ parece ser uma tendência à consideração do papel dos diversos atores (Estado, empresas, consumidores individuais, mídia, ONGs) que interagem no mercado e da redução das desigualdades de poder entre eles, em especial o consumidor, que nada mais é do que o cidadão nas relações com o mercado em expansão. Assim, embora não seja possível atribuir toda a responsabilidade pela resolução dos problemas ambientais a um só lado da equação (o consumidor), a atividade de consumo pode oferecer importantes possibilidades de ação política e exercício da cidadania”.

“Com Ciência”

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O capital internacional está dominando a agricultura brasileira

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A concentração e a centralização do capital, «foram complementados no setor agrícola com um processo de internacionalização do controle do mercado e do comércio a nível mundial. Ou seja, algumas empresas passaram a atuar em todos os países e controlar o mercado a nível mundial»

João Pedro Stédile

O movimento do capital financeiro

Nos últimos anos houve um processo intensivo e permanente de concentração e centralização das empresas que atuam e controlam todo processo produtivo da agricultura mundial.

Concentração é o conceito utilizado pela economia política para explicar o movimento que as grandes empresas fazem. Ir aglutinando, acumulando e se constituindo em grandes grupos. Assim, em cada ramo de produção vai se gerando uma situação de oligopólio, em que algumas poucas empresas controlam aquele setor. O segundo movimento do capital foi a centralização, que é a situação em que uma mesma empresa passa a controlar sozinha vários setores de produção, às vezes sem mesmo relação entre si. Esses dois movimentos lógicos do capital, foram complementados no setor agrícola com um processo de internacionalização do controle do mercado e do comércio a nível mundial. Ou seja, algumas empresas passaram a atuar em todos os países e controlar o mercado a nível mundial.

Esse movimento do capital, que era mais perceptível desde a teoria do imperialismo nas grandes empresas industriais, nos últimos dez anos passou a dominar também o setor agrícola. E o pior, agora, sob a hegemonia do capital financeiro, a velocidade e o volume de capital que aportou na agricultura veio com muito mais força e abrangencia, do que havia acontecido nos demais setores produtivos ao longo do século 20. E isso aconteceu, porque nos últimos anos acumulou-se nos países ricos, muito capital na forma de dinheiro, ou seja capital financeiro. E esse capital foi se deslocando para a compra de ações das empresas mais lucrativas também do setor primário. Assim, em poucos anos, por efeito da aplicação desse capital financeiro na compra de ações, a concentração e a centralização se deu de forma impressionante.

Resultado

Hoje, quase todos os ramos de produção agrícola estão controlados por grupos de empresas oligopolizadas, que se coordenam entre si. Assim, no controle da produção e comércio de grãos, como a soja, milho, trigo, arroz, girassol, estão apenas a Cargill, Monsanto, ADM, Dreyfuss, e Bungue, que controlam 80% de toda produção mundial. Nas sementes transgênicas, estão a Monsanto, a Norvartis, a Bayer e a Syngenta. Com controle de toda produção. Nos lacticínios e derivados encontramos a Nestlé, Parmalat e Danone. Nos fertilizantes, aqui no Brasil, apenas três empresas transnacionais controlam toda produção das matérias primas: Bungue, Mosaico e Yara. Na produção do glifosato, matéria prima dos venenos agrícolas, apenas duas empresas: Monsanto e Nortox. Nas máquinas agrícolas também o oligopólio é divido entre a AGco, Fiat, New Holland, etc.

Esse movimento que se desenvolveu a partir da década de 90, se acelerou nos últimos dois anos, com a crise do capitalismo nos Estados Unidos. As taxas de juros nos países centrais caíram ao nível de 2% ao ano, e, comparado com a taxa de inflação levou a que os bancos percam dinheiro. Então, o capital financeiro para a periferia dos sistema para se proteger da crise e manter suas taxas de lucro. Nos últimos dois anos, chegaram ao Brasil cerca de 330 bilhões de dólares na forma de dinheiro. Parte desse recurso foi aplicado através dos bancos locais, para incentivar as vendas a prazo, de Imóveis,eletrodomésticos, e automóveis, a taxas médias de 47% ao ano. Uma loucura, comparado com as taxas dos países desenvolvidos.

Outra parte do capital foi aplicado na compra de terras. Reportagem da Folha de São Paulo estimou que o capital estrangeiro comprou nos últimos anos, mais de 20 milhões de hectares. Em especial nas regiões do centro-oeste e na nova fronteira agrícola do chamado Ma-pi-to, (Maranhão, Piauí e Tocantis) aonde os preços das terras estavam muito baixos. Outra parte rumou para a amazônia em busca de áreas de minérios, de projetos de hidrelétricas, e garantindo a posse de imensas áreas de biodiversidade que mais tarde darão retorno para serem exploradas por seus laboratórios.

Na área de celulose, três grandes grupos norueguês (aracruz), sueco-finlandês (stora enzo)e americano (international paper) deslocaram toda sua produção para as ricas condições edafoclimáticas encontradas no Brasil. Assim, estão previstos uma expansão do monocultivo do eucalipto em toda região que vai do sul da Bahia até a fronteira com o Uruguai e mais seis novas fábricas projetadas. Serão milhares de hectares desse plantio industrial que destrói tudo e se transforma num verdadeiro deserto verde.

Também, houve elevada aplicação de capital estrangeiro na expansão do monocultivo da cana de açúcar para produção e exportação de etanol. A área de cana passou de 4 para 6 milhões de hectares. Há projetos para 77 novas usinas de etanol, que serão construídas ao longo de quatro grandes alcodutos projetados para trazerem o álcool do centro oeste para os portos de Santos e Paranaguá. E da região de Palmas(TO) para o porto de São Luis (MA). Dois desses alcodutos são da Petrobras e dois serão de investidores estrangeiros.

Aceleraram também seus investimentos na produção e multiplicação de sementes transgênicas, em especial do milho. Daí a pressão e o lobby das empresas Syngenta, Monsanto e Bayer, para que o governo liberasse suas variedades de milho transgênico. Algumas dessas variedades estão proibidas na Europa, mas por aqui… vale tudo!

O agronegócio

Essa avalanche do capital estrangeiro no controle de nossa produção agrícola, nos insumos e na expansão dos produtos para exportação só foi possível, em função da aliança que se produziu daquelas empresas com os fazendeiros grandes proprietários de terra. Os fazendeiros entram com grandes extensões de terra, com a depredação do meio ambiente e com a super-exploração do trabalho agrícola, as vezes até com trabalho escravo, e se associam subordinadamente a eles.

Nesse modelo agrícola, que chamamos de agronegócio, é o casamento das empresas transnacionais com os grandes proprietários de terras. Nele não há espaço para a agricultura familiar, camponesa. Não há espaço para o trabalho agrícola. Pois usam alta tecnologia, mecanização em todos os níveis e agrotóxicos.

O resultado já se percebe nas estatísticas. O Brasil está virando uma grande monocultura para exportação. Uma espécie de re-colonização agro-exportadora, lembrando os tempos do império. Dos 130 milhões de toneladas de grãos produzidos, nada menos de 110 milhões são apenas de soja e milho. A pecuária bovina fica com 300 milhões de hectares, para produzir para exportação. E o restante um imenso deserto verde do eucalipto. Esse é o modelo brasileiro! Dará muito lucro para alguns fazendeiros e para poucas empresas estrangerias. Já o povo brasileiro ficará com o passivo ambiental, com o desemprego e a pobreza.

Contradições afloram rápido

As contradições desse modelo perverso afloraram com rapidez. O preço dos alimentos disparou, fruto da especulação do capital financeiro nas bolsas e o controle oligopólico do mercado pelas empresas. Dobrou, em dólares, no ultimo ano. Os alimentos estão cada vez mais contaminados pelo uso intensivo de venenos. E o agro-negócio não consegue produzir alimentos sadios, sem agrotóxicos. Só agricultura familiar e camponesa consegue. A produção intensiva de etanol na forma de monocultivo da cana, não ameniza os problemas do aquecimento global, ao contrário, os agrava. O maior problema dos combustíveis não é apenas o petróleo, é sobretudo a forma de transporte individual, turbinado pelo capital financeiro no aumento de vendas de veículos a prazo. Transformaram nossas cidades num inferno.

Essa forma de monocultivo exaure os recursos naturais, o solo, o lençol freático e afeta a qualidade e localização das águas. O monocultivo destrói a biodiversidade e desiquelibra o meio ambiente da região.

Frente a essa situação é que os movimentos sociais reunidos na Via campesina Brasil resolveram se juntar e aumentar seus protestos. Nos últimos meses se multiplicaram os protestos de camponeses em todos os estados do país. Contra o modelo e contra a atuação das empresas transnacionais, como a Monsanto, Cargill, Syngenta, Bungue. Bayer, etc. Esses protestos tem servido como uma espécie de pedagogia de massas. Um alerta para que a sociedade brasileira desperte para a gravidade do problema e para suas conseqüências futuras.

A resposta das empresas…

As empresas estrangeiras e seus cães-de-guarda nacionais sabem dos problemas sociais e ambientais que causam. E não tendo razão na sua forma de dominar a natureza, resolveram enfrentar os movimentos da Via Campesina com diversas táticas combinadas. Primeiro, campanhas publicitárias milionárias, com artistas famosos, na imprensa. Segundo, manipulação de setores direitistas do judiciário e do Ministério publico, que aderem a eles por ideologia, para que criminalizassem com muitos processos aos líderes e militantes sociais. E aonde nada disso resolve, apelaram para a repressão, em especial naqueles estados governados por partidos direitistas como no Rio grande do sul, São Paulo, Rio e Minas Gerais, aonde os governos não êxitam em atiçar as policias militares na repressão violenta aos movimentos.

Engana-se que achar que esse tipo de problema se resolve com publicidade ou com repressão. Trata-se de uma disputa histórica entre duas formas de produzir alimentos. Uma que busca apenas o lucro, mesmo envenenando a natureza e seu produto. E a outra que visa a produção de alimentos saudáveis como um direito de toda população. Muitas batalhas haverá, certamente.

* João Pedro Stédile, Dirigente Nacional do MST, é amigo e colaborador de odiario.info

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Entrevista com Hermann Knoflacher, inventor do Andomóvel

Entrevista com Hermann Knoflacher, inventor do Andomóvel. Do blog Menos um carro.

Aqui ficam alguns excertos de uma excelente entrevista a Hermann Knoflacher, professor de Transportes na Universidade Técnica de Viena, à revista Die Zeit :

Qual é a influência que a motorização tem na nossa sociedade?

Uma influência inimaginável. O carro é como um vírus , que se estabelece no cérebro e altera totalmente o código comportamental, o sistema de valores e a nossa percepção. Um homem normal caracterizaria o nosso habitat actual como totalmente maluco. Nós mudamo-nos mais ou menos voluntariamente para casas vedadas com vidros especiais, de modo a deixar o barulho, o pó e as emissões dos automóveis lá fora. Isto é uma inversão total de valores, que já nem nos salta à vista.

Como chegou a essa opinião?

(…) No carro precisamos apenas de um sexto da nossa energia corporal [para nos movimentarmos] e temos a impressão de ser imensamente rápidos e fortes. Isto é uma componente. A outra é partir-se do princípio no planeamento urbano, de que o carro deve ser levado a uma enorme proximidade de todas actividades. Assim destrói-se o nosso habitat, o transporte público, o comércio tradicional e por último as redes sociais, que foram construídas pelo homem no correr dos milénios.

O carro destrói a evolução?

Não, mas as conquistas humanas das últimas gerações foram destruídas pelo carro.

A era do automóvel representa o nosso declínio cultural?

Eu não diria isso assim, porque o declínio cultural não é um verdadeiro problema na minha opinião. Apenas quebra uma camada de evolução mais tardia. Muito piores são os futuros danos estruturais, que são trazidos pelo automóvel.

O andar de automóvel é um vício?

Com certeza! O automóvel apodera-se das pessoas. Os automobilistas distinguem-se mais dos homens do que os insectos.

O que quer dizer com isso?

Os insectos têm em comum com os homens, o facto de vencermos a mobilidade com a nossa energia. O automobilista não. E não existem insectos, que destruam o habitat dos seus descendentes por comodismo, ou que se movam tão rápido que se possam matar.

(…)

É um crítico das entidades de transportes e ao mesmo tempo planificador. Como é possível?

No início da minha carreira descobri que a ciência dos transportes estava baseada em meras suposições. As consequências para a sociedade ou o ambiente não eram então tomadas em conta. Ninguém se preocupava se haveria problemas de ruído ou emissões, se haveria mortes, se a economia se alterava ou se criaria desemprego.

(…)

Assumia-se que o aumento da motorização levaria uma melhoria na mobilidade. Entretanto sabe-se que o número de viagens de automóvel cresce, mas a soma das viagens efectuadas é a mesma, porque diminuem as viagens por transportes públicos e a pé ao mesmo tempo. A segunda suposição errada é aquela da poupança de tempo com um aumento da velocidade. Esta tese faz parte da base de muitas análises económicas no planeamento de transportes. Na realidade não há nenhuma poupança de tempo através de velocidades mais elevadas. Aumentam apenas as distâncias para o mesmo tempo de viagem.

Como se sabe isso?

Ao analisar-se criticamente o nosso orçamento temporal. Curiosamente o tempo gasto diariamente para mobilidade é mais ou menos constante em todo o globo. No entanto as distâncias envolvidas são diferentes.(…)

Para mais informações, vejam o verbete (em inglês) na Wipedia sobre Hermann Knoflacher.

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A economia macabra da ocupação

GAZA Para racionalizar custos com o controle militar da Palestina, Israel impõe bloqueio à entrada de combustível no território

João Alexandre Peschanski

O governo israelense iniciou, em setembro de 2005, uma nova etapa na ocupação dos territórios palestinos. Esta começou com a retirada das colônias – conjuntos residenciais, localizados para além das fronteiras de Israel, determinados pela Organização das Nações Unidas – de Gaza e tem seu desdobramento mais recente no bloqueio à entrada de combustível nessa mesma região, em curso desde 17 de janeiro.
Na macabra lógica sionista, o objetivo da mudança na ocupação é encontrar uma forma economicamente sustentável de manter a Palestina sob controle. De acordo com dados de 2007 do Ministério das Finanças de Israel, 13% do orçamento anual do governo é gasto com a ocupação – algo como 9,3 bilhões de dólares por ano, aos quais se somam os 2,2 bilhões de dólares enviados anualmente por Washington. Enquanto o crescimento médio do orçamento israelense é de 1,7% por ano, nesse mesmo período o aumento dos custos da ocupação atinge 8%. Mantido esse ritmo, em cerca de 20 anos os gastos totais com o controle militar dos territórios palestinos equivalerá a 50% do total orçamentário.
“Não há Estado moderno que possa se manter com esse tipo de gastos. Na medida em que o governo israelense não está disposto a acabar com a ocupação, está desenvolvendo uma forma de ‘racionalizar’ a economia da violência”, explica o economista israelense Shir Hever, da organização não-governamental israelo-palestina Alternative Information Center (AIC – Centro de Informações Alternativas), uma das principais entidades de denúncia das mazelas da política belicista israelense.
A economia da ocupação se insere dentro de um plano governamental mais amplo, revela Hever, segundo quem há uma mentalidade hegemônica nos líderes de que “o ônus do controle sobre os territórios palestinos tem de ser garantido pela população israelense”, como o aumento de impostos e a redução de investimentos em políticas sociais – 9% em 2007, principalmente em saúde, assistência social e educação. Influenciado por órgãos financeiros multilaterais, o governo iniciou um processo de privatização das maiores estatais, principalmente das refinarias de petróleo.
Em 2006, de acordo com um relatório do AIC, o governo vendeu bens que somam 1 bilhão de dólares. “É um cálculo demente, pois, por mais que postergue um pouco a crise, logo os bens públicos à disposição de compradores vão acabar e o colapso será ainda mais profundo”, afirma o economista israelense.

Retirada das colônias
Desde 1967, o governo de Israel promoveu a construção de colônias em Gaza, geralmente habitadas por judeus radicais. A iniciativa contrariava acordos internacionais, como a Convenção de Genebra. Mas não importava para os governantes israelenses: com seu apoio financeiro, a população das colônias de Gaza passou de menos de 10 mil, em 1972, a quase 100 mil, em 2005. Organizados pelo Exército, os conjuntos residenciais foram construídos em locais estratégicos, para garantir o controle sobre a maior área possível, além de confiscar terras aráveis e recursos hídricos. Em 2005, quando da retirada, os israelenses das colônias representavam 0,5% dos 1,5 milhão de habitantes de Gaza, mas controlavam 20% de todo o território e das fontes de água.
A retirada das colônias de Gaza, aplaudida pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como uma iniciativa de paz, se caracterizou por uma intensificação do controle israelense sobre a população palestina, a custo inferior do que a manutenção da segurança dos colonos. Um quarto dos israelenses que saíram de Gaza foi diretamente deslocado para conjuntos residenciais na Cisjordânia. De acordo com dados do AIC, o governo gastou 144 milhões de dólares em 2004 com a segurança dos colonos, montante que crescia mais de 10% a cada ano.
A retirada foi acompanhada de uma intensificação militar da ocupação, com repetidas investidas militares nas principais cidades de Gaza.
Os ataques agravaram o desastre social que os israelenses deixaram para trás: informações do Banco Mundial revelam que, sem ajuda internacional, o nível de miséria na região passaria de 16% para 41%. “A situação em Gaza é emergencial. Não há indústria, não há agricultura, não há bases para uma economia sólida”, diz Hever.

Dependência coagida
Assim como o governo israelense não considera os representantes palestinos, especialmente os do Hamas, interlocutores razoáveis para negociar a paz da região, também não toma Gaza como um potencial parceiro comercial.
“Os economistas israelenses que assessoram o governo estipulam que o controle sobre os territórios palestinos é uma forma de arrecadar dinheiro para custear a ocupação”, afirma Hever, para quem o que ocorre em Gaza “é uma pilhagem”. Os recursos que entram em Gaza passam todos por Israel – já que não há portos e aeroportos na região. Há cobranças de taxas de transporte – e a maioria dos bens comprados é produção israelense.
O bloqueio à entrada de combustíveis, segundo o economista israelense, é uma forma de acentuar a dependência, impedindo o desenvolvimento de infra-estruturas. A economia macabra da ocupação israelense, com o bloqueio da entrada de recursos fundamentais para o funcionamento de serviços básicos, leva a um colapso humanitário em Gaza. Hever fala em “holocausto palestino”.
Um abaixo-assinado de entidades israelenses, divulgado na mídia em 29 de abril, descreve a situação em Gaza: “Expressamos nossa preocupação em relação à sistemática destruição de construções essenciais para a vida em Gaza, um território sob ocupação de Israel, que impede que haja combustível para gerar eletricidade, que funcionem os hospitais e as bombas de água. Essa situação é inaceitável, pois marca uma represália e uma punição coletiva contra civis, injustificáveis e passíveis de serem consideradas crimes de guerra”.

“Brasil De Fato”

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Do Fome Zero aos agrocombustíveis

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Um governo que fez do combate à fome sua grife pode terminar seus dias colaborando com o aumento da fome sistêmica em todo o planeta.

por Roberto Malvezzi
13-Ago-2008

Correio Cidadania

Quando Lula tomou posse, uma de suas primeiras atividades foi reunir seu ministério e levá-lo até Guaribas, sertão do Piauí. Andando longo trecho de ônibus, os ministros que só conheciam o sertão pelos livros e TVs puderam pôr o pé na realidade. O gesto era simbólico e, como já advertia Frei Betto, não era a revolução, mas era o que podia um governo eleito pelo voto. Lula proclamara o “Fome Zero” como uma das metas principais de seu governo. Depois, diante de observações feitas aqui das bases do Nordeste, o próprio Ministério do Meio Ambiente proclamou o “Sede Zero”. De qualquer forma, soava diferente de todos os governos anteriores.

O tempo se encarregou de mudar Lula e seu governo. A adesão firme ao agro e hidronegócios fez com que optasse pelos transgênicos ao invés de uma agricultura familiar diversificada e rica em alimentos, embora invista também nela, mas jamais na mesma proporção. Optou pela transposição do São Francisco ao invés de investir em obras descentralizadas de abastecimento, como as adutoras para as cidades do Nordeste. Finalmente, optou pelos agrocombustíveis em detrimento da produção de alimentos. Dá para demarcar passo a passo, numa linha do tempo, as mudanças profundas na rota do governo Lula.

Em Salvador, inaugurando obras e fomentando a aqüicultura nos mangues brasileiros, também em detrimento das populações pesqueiras do litoral, Lula disse que “não seria louco de deixar de encher o tanque do povo para encher o tanque dos carros”. De repente, parecia o velho Lula, com aquele semblante de indignação diante das injustiças brasileiras. Mas, a realidade é que ele estava apenas querendo justificar sua opção pelos agrocombustíveis, sempre na argumentação que não existe paradoxo entre produzir alimentos e agrocombustíveis. O assunto é uma espada no pescoço de seu governo e não faltam estatísticas de todos os tipos para contestar a linha de pensamento do presidente.

Esses dias, o preço das commodities agrícolas despencou e o programa do biodiesel da mamona faliu. O aumento da fome no mundo, em um ano, já passa de 100 milhões de pessoas. O preço dos alimentos explodiu. Contraria as metas do milênio e coloca a humanidade numa encruzilhada tenebrosa. O governo, ao pôr os melhores solos brasileiros a favor dos agrocombustíveis, ao incentivar a América Central e a África para o mesmo caminho, a pretexto de favorecer a renda dos agricultores, pode estar incentivando a escassez de alimentos no mundo. E não adianta falar em safra recorde porque essas commodities não põem a mesa do povo brasileiro.

Assim, um governo que fez do combate à fome sua grife pode terminar seus dias colaborando com o aumento da fome sistêmica em todo o planeta.

Roberto Malvezzi (Gogó) é coordenador da CPT (Comissão Pastoral da Terra).

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Petróleo e alimentos

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Ao contrário do que dizem os europeus, o Brasil não tem responsabilidade pela alta dos preços

Uma das questões mais importantes, de tantas que assombram os economistas, é entender o fantástico aumento dos preços do petróleo, dos metais e dos alimentos, que produz uma inflação planetária. O petróleo é o mais ubíquo dos fatores de produção e seus preços (e dos derivados) são custos em todo o sistema produtivo, particularmente na produção agrícola. Por isso, a elevação dos preços do petróleo e dos alimentos, que a rigor é uma mudança de preços relativos, tem um poder desestabilizador capaz de alterar o equilíbrio econômico e social da sociedade.

Uma tentativa de organizar o pensamento em torno dessas questões é apresentada no gráfico, no qual se busca esclarecer a estreita ligação entre os preços do petróleo e dos alimentos. A oferta de energia é a soma da energia não renovável (petróleo, gás natural, carvão mineral e urânio) com a renovável (hidráulica, etanol, biocombustível, lenha, carvão vegetal e eólica). A demanda de energia é gerada pelo crescimento da renda per capita, pelo crescimento da população e por sua concentração urbana. Elas determinam o preço da energia (PE). Este, por sua vez, cria as condições para o desenvolvimento da energia não renovável, estimulando a pesquisa de novas energias que aumentem a oferta e promovendo a economia de energia que reduz a demanda.

O preço da energia influencia diretamente os custos agrícolas, por meio do preço do combustível para mover o equipamento agrícola, o transporte e o uso de fertilizantes. O preço agrícola (PA) é determinado: 1. Pela demanda agrícola, determinada pelos mesmos fatores que controlam a demanda de energia. 2. Pela oferta agrícola, surgida da produtividade da terra (fertilizantes, pesquisa genética e tecnológica), pela produtividade da mão-de-obra (educação, saúde e capital) e pela disponibilidade de água e de terra.

Há ainda duas ligações importantes: 1. A demanda de energia exerce, certamente, alguma influência sobre as mudanças climáticas, o que condiciona a disponibilidade de água. Por exemplo: uma parte importante das dificuldades da oferta de alimentos atual deve-se a problemas climáticos na Austrália, Nova Zelândia, EUA, Canadá, Ucrânia e Eurolândia, o que ajudou a reduzir os estoques. 2. No resto do mundo, a demanda de energia renovável desvia a oferta agrícola para biocombustíveis. A exceção é o Brasil.

O conhecimento dessas múltiplas e complicadas ligações talvez seja útil para colocar o problema da inflação planetária em uma perspectiva mais adequada. O importante, entretanto, é reconhecer que ela é, basicamente, resultado de um desequilíbrio físico entre a oferta e a procura, particularmente no caso do petróleo, que não teve investimento nos últimos anos e foi consumida toda a capacidade ociosa do setor.

O produto cujos preços cresceram por uma mudança estrutural no seu uso é o milho, em razão da desesperada busca de autonomia energética pelos EUA. Eles produzem pouco menos que 40% da produção mundial (300 milhões de toneladas na safra 2007/08, enquanto o Brasil produz 57 milhões) e usam quase 30% para produzir etanol. Restam para o mercado de milho apenas 219 milhões de toneladas. A oferta mundial de milho, nos últimos cinco anos, tem crescido à taxa de 2,8% ao ano, enquanto a demanda aumenta cerca de 3,8%.

Sem o uso do milho para etanol, a oferta mundial para o mercado cresceria pouco mais de 4% ao ano. Nos EUA, a produção de “milho-livre” disponível para o mercado tem decrescido 1% ao ano desde a safra 2002/2003, com graves conseqüências sobre os preços dos seus derivados. Lá, entre julho de 2006 e julho de 2008, o preço do milho subiu 200%. O mesmo, mas em menor escala, tem ocorrido na Europa, com a produção do biodiesel de colza, trigo e beterraba. Certamente, não é isso que ocorre no Brasil, como os europeus têm afirmado.

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Um pogrom ecumênico

Ao expulsar estrangeiros, europeus se esquecem de que no continente há mais gente com o pé na cova do que em berçários

Sérgio Augusto

Até esta semana, o dia 18 de junho ostentava um currículo de alvissareiras mudanças para o mundo e a humanidade. Foi em 18 de junho de 1815 que Napoleão se desgraçou na Batalha de Waterloo. Foi em 18 de junho de 1858 que Charles Darwin decidiu publicar sua teoria sobre a Evolução das Espécies. Foi em 18 de junho de 1908 que aportou em Santos o navio Kasato Maru, trazendo as primeiras famílias japonesas para o Brasil. Quarta-feira passada, contudo, a data ganhou efeméride nada auspiciosa: a Diretriz de Retorno, aprovada pelo Parlamento Europeu em Estrasburgo.

Diretriz, sim, mas retorno é eufemismo, vocábulo engomado para enfeitar expressões como expatriação e expulsão. Ásperas, porém precisas, já que as diretivas lavradas na Alsácia autorizam, uniformizam e instrumentalizam prisão e conseqüente expulsão da União Européia de todo e qualquer estrangeiro em situação ilegal, com lenço, mas sem documento. Sin papeles, como na Espanha se diz.

Por 369 votos a favor, 197 contra e 106 abstenções, estabeleceu-se como norma comum a todos os países da UE a detenção por até 12 meses (ou 18, em casos excepcionais) de quem não estiver com sua documentação em ordem. Os que forem expulsos da comunidade européia ficarão impedidos de lá pôr os pés durante cinco anos. Se algum deles, nesse período, necessitar de asilo político, terá de bater às portas de outro continente. Nem a presenciar o enterro de parente próximo o “retornado” terá direito. Foi-se o tempo em que só os judeus estavam sujeitos a um pogrom.

O ecumênico pogrom deflagrado na quarta-feira afeta milhões de trabalhadores estrangeiros, ilegais ou não, vistos pelos europeus como uma ameaça à segurança e à economia, esquecidos de que são eles que suprem a escassez de mão-de-obra no continente, onde há muito mais gente com o pé na cova do que em ventres e berçários, e ajudam a diminuir o déficit da previdência.

Foi uma vitória da direita e seus mais conservadores aliados, europarlamentares do Partido Popular Europeu (217 votos), da Europa das Nações (40), mais meia centena de liberais e 34 socialistas (16 dos quais espanhóis obedientes às instruções de José Luis Zapatero). Uma dezena de socialistas alemães também votou a favor e diversos trabalhistas britânicos se abstiveram. Fecharam contra a diretriz 100 socialistas, a União de Esquerda Européia (37) e os Verdes (36), não sem antes lutarem em vão para atenuar determinadas medidas e abolir alguns artigos.

A diretiva de Estrasburgo, por muitos considerada um escândalo, uma imoralidade, uma afronta aos direitos elementares do ser humano, um desrespeito às tradições e valores humanísticos europeus, na verdade sacramenta a lógica do endurecimento vis-à-vis imigrantes adotada a partir do Conselho Europeu de Tempere, em 1999, e formalizada no Programa de Haia, em 2004. As recomendações anteriores, de 2005, já eram severas. As novas, bem, me atenho a repetir um comentário do europarlamentarista português Paulo Casaca: “A Europa está doente”.

Desta vez nem os menores de idade escaparam à fúria xenofóbica embutida na diretiva. Eles também serão deportados. Mesmo sem acompanhantes. E até para países com os quais não tenham nenhum vínculo. Como atenuante, não ficarão detidos em prisões comuns, como os adultos, sem que se tenha especificado que tipo de xilindró será. Invocou-se, para a atenuante, a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. Ocorre que a convenção, de 1989, não prevê a possibilidade de detenção de crianças por imigração ilegal.

A velha e acolhedora Europa blindou seu regaço, criminalizando como “ameaças à segurança” quem, em geral, apenas busca uma vida mais digna, trabalhando e pagando tributos, não raro incumbindo-se de serviços recusados pelos europeus como humilhantes e indignos. Perfilhou-se em Estrasburgo a instituição do “delito de imigração clandestina” (com pena de 6 meses a 4 anos de cadeia), introduzido na legislação italiana pelos ministros neofascistas de Berlusconi. O exu de Mussolini não foi totalmente exorcizado.

Seguindo o exemplo do “pragmatismo empresarial”, a nova legislação incentiva o que chama de “repatriação voluntária”, sucedâneo da “demissão voluntária”, que de voluntária também nada tem. Ou o “despapelado” aceita o retorno obrigatório ou vai para um daqueles centros de internamento que há mais ou menos dez anos funcionam na Europa, ao arrepio da lei, segundo Samir Naïr, que na quarta-feira publicou um artigo esclarecedor sobre a diretiva no jornal espanhol El País.

Filósofo francês nascido na Argélia e criador do conceito de “codesenvolvimento”, Naïr é um dos maiores especialistas em movimentos migratórios e seus efeitos sociopolíticos. Por seu intermédio fiquei sabendo que o “ciclo globalmente negativo sobre o asilo” teve início logo após a assinatura do tão decantado Tratado de Maastricht, em 1992, e que a Europa reclama de barriga cheia, pois recebe um número de pedidos de asilo relativamente baixo se comparado aos magotes que emigram no interior da África, Ásia e regiões fronteiriças com o continente europeu.

Desde a invasão do Iraque, mais de 2,4 milhões de pessoas abandonaram o país. Entre 2003 e 2007, cerca de 100 mil iraquianos pediram asilo na Europa, sendo que 40 mil o fizeram entre 2006 e 2007. A Síria, com um PIB bem inferior ao da UE, acolheu 1,4 milhões de iraquianos. Só a solidariedade muçulmana não explica essa diferença. Há outras razões, algumas imencionáveis, até porque óbvias, para os 200 mil estrangeiros detidos na UE, no primeiro semestre de 2007, dos quais pelo menos 90 mil foram expulsos. Desde que Nicolas Sarkozy assumiu o governo na França, o índice de deportações na pátria da liberdade, da igualdade e da fraternidade aumentou em 80%. Entre junho de 2007 e maio de 2008 a França expulsou 29 mil estrangeiros.

Durante séculos a Europa colonizou e pilhou as riquezas de terras estrangeiras, massacrando suas gentes e lhes impondo na marra credos e valores exóticos. Nada mais natural que vítimas da “barbárie civilizadora” e dos sátrapas por ela gerados ou afiançados um dia buscassem refúgio nas prósperas matrizes de sua espoliação. Prósperas, inclusive ou sobretudo, porque cevadas com a opulência das antigas colônias. A dívida acumulada é incomensurável e ninguém em sã consciência pode afirmar que ela já foi quitada. A Diretriz de Retorno só fez ampliar o débito. E jogar para as calendas a solução de um problemaço cuja raiz é o fato de apenas 5% da população mundial possuir 90% da riqueza do planeta.

“Estado de S. Paulo”

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O que é a globalização

Sob o título “O mercado contra o Estado”, Ignacio Ramonet – editor do Le Monde Diplomatique e autor de “Biografia a duas vozes”, entrevista de cem horas com Fidel Castro (Boitempo Editorial) – dá uma sintética e competente definição da globalização neoliberal.

Usemos este texto como tema de discussão, para entender melhor os problemas do nosso tempo, do mundo e do Brasil. É um bom texto para ser reproduzido e utilizado em seminários de debate.

“O que é a globalização? O enfrentamento central do nosso tempo. Aquele do mercado contra o Estado, do steor privado contra os serviços púiblicos, do indivíduo contra a coletividade, dos egoísmos contra as solidariedades.

Por todos os meios, o mercado procura ampliar sua área de intervenção em detrimento do Estado. É por isso que as privatizações se mutliplicam em todos os lados. Elas são, de fato, simplesmente tranferências para os setor privado de fragmentos (empresas, serviços) do patrimônio público. O que era gratuito (ou mais ou menos barato) e à disposiçáo de todos os cidadãos sem distitnção se torna pago ou mais caro. Esta grande regressão social tem sobretudo relação com as camadas mais pobres da população. Porque os serviços públicos são o patrimònio dos que não têm patrimônio.

A globalização é também, pelo mecanismo das trocas comerciais, a interdependência cada vez mais estreita das economias de numersos países. O fluxo das exportações e das importações aumenta regularmente. Mas a globalização das trocas se refere sobretudo ao setor financeiro, porque a liberdade de circulação dos fluxos de dinheiro é total. E isto faz com que este setor domine, com grande vantagem a esfera da economia.

As pessoas que detêm fortunas se encontram, para mutliplicar seu capital, diante da seguinte alternativa: seja investir seu dinheiro na Bolsa (não importa em que Bolsa do mundo, pois os capitais circulam sem entraves), seja investi-lo em um projeto industrial (criação de uma empresa de fabricação de produtos de consumo). Neste caso, a rentabilidade média é de entre 6 e 8% na Europa. Em compensação, no caso de um investimento na Bolsa, a rentabilidade pode chegar a níveis muito mais altos (na França, em 2006, os mercados bursateis conheceram uma alta de 17,5%, na Alemanha de 22% e na Espanha de 33,6%!)

Diane de diferenças tão grandes, os proprietários de capitais só aceitam investir na indústria (onde são criados empregos) com a condição de que isso lhes renda cerca de 15% ao ano. Mas vimos como a rentabiliade média para esse tipo de investimento na Europa é de entre 6 e 8%. O que fazer? Pois bem, investir na China ou na Tailândia, por exemplo, países nos quais, em razão dos custos muito baixos da mão de obra, o retorno sobre o investimento pode chegar e até superar os 15%. É por isso que tantos investimentos são feitos atualmente, principalmente na China.

E como a finalidade do exercício consiste em fabricar com baixos custos nos países pobres para vender a preços muito altos nos Estados ricos, isso leva a uma avalanche de produtos importador dos países-fábricas e vendidos, por exemplo, na Europa. Aqui eles competem deslealmente com os mesmos produtos fabricados no Velho Continente com custos de mão de obra mais altos porque os direitos sociais dos trabalhadores são aqui – felizmente – mais importantes. Em conseqüência as empresas européias vão à falência e numerosos outras são obrigadas a fechar as portas e a licenciar seus trabalhadores.

Para sobreviver, alguns capitalistas optam por “deslocalizar”, isto é, transferir seu centro de produção para um país com mão de obra barata. O que se traduz, também nesse caso, nos países ricos, em fechamento de empresas e em desemprego.

A globalização atua assim como uma mecânica de triagem permanente sob o efeito de uma concorrência generalizada. Há concorrência entre o capital e o trabalho. E, como os capitais circulam livremente, enquanto os homens são muito menos móveis, quem ganha é o capital.

Da mesma forma que oa grandes bancos ditaram, no século XIX, sua atitude para numerosos países, ou como as empresas multinacionais o fizeram entre os anos 1960 e 1980, os fundos privados dos mercados financeiros têm agora em seu poder o destino de muitos países. E, em certa medida, o destino econômico do mundo.

Os mercados financeiros estão em condições de ditar suas leis aos Estados. Nessa nova paisagem político-econömica, o global se impõe sobre o nacional, a empresa privada sobre o Estado. Náo há praticamente mais distribuição de renda e o único ator do desenvolvimento – nos dizem – é a empresa privada, o único reconhecido como competente em escala internacional. E assim o único motor em torno do qual – nos dizem – é preciso reorganizar tudo.

Em uma economia globalizada, nem o capital, nem o trabalho, nem as matérias primas constituem, em si, o fator econômico determinante. O importante, é a relação ótima entre esses três fatores. Para estabelecer essa relação, uma emrpesa não leva em conta nem as fronteiras, nem as regulamentações, mas apenas a exploração mais rentável que ela possa fazer da informação, da organização do trabalho e da revolução da gestão. Isso produz sistematicamente uma fratura das solidariedades dentro de um mesmo país. Ocorre assim um divórcio entre o interesse das empresas e os interesses da coletividade nacional, entre a lógica do mercado e a lógica da democracia.

As empresas globais fingem que não têm nada com isso: elas sub-contratam e vendem no mundo inteiro; e reivindicam um caráter supra-nacional que lhes permita atuar com uma grande liberdade porque não existe, para dizê-lo de alguma maneira, instituições internacionais com caráter político, econômico ou jurídico em condições de regulamentar eficazmente seu comportamento.

A globalização constitui assim uma imensa ruptura econômica, política e cultural. Ela submete os cidadãos a uma regra única: “adaptar-se”. Abdicar de qualquer vontade, para obedecer mais às injunções anônimas dos mercados. Ela constitui o ponto de chegada final do economicismo: construir um homem “mundial”, esvaziado de cultura, de sentido e de consciência do outro. E impor a ideologia neoliberal em todo o planeta”.

(Publicado em “Les dossiers de la mondialisation”, Manière de voir de Le Monde Diplomatique – janeiro-fevereiro de 1007-
(Tradução de Emir Sader)

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O futebol e suas razões de Estado

As relações entre o mundo político e o da bola sempre foram íntimas. Com a confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014, ficam também mais perigosas

Flávia Tavares e Fred Melo Paiva

O historiador e torcedor Hilário Franco Júnior está feliz da vida. Torcedor feliz, hoje, significa torcedor são-paulino. Hilário é são-paulino de verdade, daqueles de freqüentar estádio. Na quarta-feira passada, perdeu o jogo do título porque vive metade do ano na França. Até planejara a volta para aquele dia. Mas, com a Air France em greve (e o apagão aéreo na ativa), ficou em casa. Ele acordou de madrugada para ver na internet o placar da partida. Resultado: ficou feliz da vida.

O paulistano, de 59 anos, é um especialista em futebol. Desde 2003 ministra curso sobre a história social desse esporte para alunos de pós-graduação da Universidade São Paulo. Seu interesse pelo tema extrapola as quatro linhas e o limite dos estádios. A partir da análise do jogo e suas adjacências, Hilário trabalha em campos diversos, da sociologia à religião, da antropologia à lingüística. “O futebol é uma manifestação tribal, antropológica, de sociedades de todos os cantos do mundo há muito tempo”, diz. Ganhador de dois prêmios Jabuti - por A Eva Barbada (Edusp) e Cocanha (Companhia das Letras) -, é autor também de A Dança dos Deuses (Companhia da Letras), o fruto de seu mergulho no universo da bola.

Na França ninguém sabe que Hilário entende de futebol. Pesquisador da École des Hautes Études en Sciences Sociales, seu negócio, por lá, é história medieval. Trabalha com o maior especialista do mundo na matéria, Jacques Le Goff. Na semana em que o Brasil foi confirmado como sede da Copa de 2014, ele conversou pela primeira vez sobre a possibilidade de traduzir para o francês seu livro de futebol - é possível que, agora, mais gente se interesse pelos pontos de vista de alguém nascido na República do Futebol. Ou na meca do esporte, como sugeriu Michel Platini. “O Brasil está no mapa-múndi em boa parte graças ao futebol.”

De sua casa em Paris, Hilário Franco Júnior concedeu ao Aliás a seguinte entrevista:

O que o senhor achou da caravana de políticos brasileiros que foi a Zurique para ouvir a confirmação do Brasil como sede da Copa de 2014?

O futebol hoje é business, espetáculo e aparências. Essa caravana, embora desnecessária, faz parte dessa lógica. Desnecessária porque se sabia qual seria a revelação da Fifa, já que o Brasil era o único candidato para sediar a Copa. Mas justamente o fato de ser o único candidato esvaziava o impacto da oficialização. Para recuperar esse impacto, que interessa a muitos, montou-se essa cena toda.

A CPI do futebol apontou diversas irregularidades das entidades que comandam o esporte no Brasil. Mas os governos mantêm uma boa relação com elas . Por que há tanta tolerância com a corrupção no futebol?

Eu diria que pela mesma razão que nós toleramos o mensalão, a crise aérea, etc. O Brasil tem uma história de tolerância que países mais críticos não têm. Por ser o futebol um produto tão popular, os políticos tentam se aproximar dessa fonte de popularidade e não medem o grau ético do mundo dos cartolas.

O futebol continua servindo de trampolim para carreiras políticas?

Não da forma que servia há algumas décadas, quando dirigentes se elegiam para cargos públicos. Atualmente, há exceções como o Eurico Miranda (Vasco), o Roberto Dinamite (Vasco) e o Reinaldo (Atlético Mineiro). Mas essa aproximação não é mais tão direta e, por isso mesmo, ela é mais problemática - para não dizer mais perigosa. Isso porque essas alianças acontecem nos bastidores, em negociações escusas. Há indícios que nos permitem deduzir que o casamento política-futebol continua bastante forte.

Isso se agrava com a confirmação da Copa 2014?

A Copa pode ser positiva para o Brasil. Porém, a comparação com os Jogos Olímpicos de Barcelona, por exemplo, não procede. Afinal, a Olimpíada aconteceu em uma cidade e a Copa acontecerá no país inteiro - com pelo menos dez cidades-sede. Então, serão necessários aeroportos eficientes, uma rede rodoviária que funcione, uma rede ferroviária que exista, hotéis para todos os bolsos e bem distribuídos geograficamente. Se existem recursos para que essas coisas sejam feitas, por que elas não foram feitas antes? Se não existem, de onde eles virão? É aí que entra a relação com os políticos. Os governadores querem que seus Estados tenham uma cidade-sede para captar e gerir esses recursos e usufruir da infra-estrutura resultante do esforço pela Copa.

Concretamente, como a política pode atrapalhar a Copa?

Vou dar um exemplo prático. Em 1950, nós perdemos a Copa por vários motivos. Um deles foi a soberba. Mas os políticos tiveram um papel decisivo na derrota. A seleção estava concentrada em um hotel nos arredores do Rio de Janeiro, isolada. Na véspera do jogo, os políticos transferiram a seleção para a concentração do Vasco, no meio do Rio. A partir daí começou uma romaria de figurões à concentração. A Copa era em junho e as eleições viriam em outubro. Então, muitos vereadores, deputados e governadores queriam ser fotografados com os futuros campeões mundiais. No dia da final, acordaram os jogadores às 6 da manhã para ouvir blábláblá de um candidato qualquer. Foram dois dias sem sossego. Dá para tirar uma importante lição desse episódio. Poderíamos manter os políticos afastados da seleção, do começo ao fim da Copa.

Novamente, teremos eleições no Brasil em ano de Copa.

Isto é só uma infeliz coincidência. A Copa não seguiu uma seqüência fixa. Foi interrompida com a 2ª Guerra Mundial, por exemplo. E, no Brasil, já tivemos mandatos presidenciais de cinco anos.

Teria sido deselegante o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, responder à pergunta sobre violência no Brasil, feita por uma jornalista canadense, dando exemplos de violência em outros países?

Deselegante é pouco. Esse foi mais um rompante do autoritarismo que ele exerce. Se há uma pergunta que não agrada, use argumentos sobre sua casa. Mesmo porque perderemos em todas as comparações - a não ser a de número de títulos mundiais ganhos.

O que o senhor achou da ausência de Pelé na cerimônia da Fifa?

É, mais uma vez, uma combinação entre deselegância e autoritarismo. Se o Pelé estivesse lá, ele seria o centro das atenções. Espero que isso mude, que ele se envolva. É impensável que a Alemanha organize uma Copa sem que o Beckenbauer esteja à frente do evento. Ou que a França faça a sua sem o Platini.

Chegaremos a 2014 com a infra-estrutura necessária para a Copa?

Sou bastante cético. Espero me enganar, mas os dados históricos sobre comportamentos de instituições dão a entender que não. Nada disso muda da noite para o dia. Vai depender muito de quais pessoas estarão à frente desse projeto. Em sete anos, há uma rotatividade de governos. O que não vai mudar, certamente, é o comando da CBF.

Como o presidente da CBF se mantém no poder há tanto tempo?

O futebol é uma estrutura pouco democrática em todos os seus níveis. Tanto na Fifa quanto nas confederações nacionais, nas federações estaduais e nos clubes. Os presidentes de clubes, no cargo há anos, elegem os presidentes das federações estaduais, que, por sua vez, elegem o presidente da CBF. E os estatutos permitem a reeleição continuada. É quase um poder monárquico.

Não existe oposição?

Sim, existe. Mas sistemas pouco democráticos são tão fortes que conseguem cooptar ou abafar os oposicionistas. Na Copa de 2014, por exemplo, a CBF vai manobrar as federações estaduais com a possibilidade de um Estado ter ou não cidade-sede. A partir daí, veremos uma enorme troca de favores que reproduzirá o que acontece no Congresso brasileiro. A política do é-dando-que-se-recebe acaba por dizimar a oposição, que não consegue aliados suficientes para derrubar o poder instituído.

A Fifa é comparada à ONU quanto à abragência de seus filiados. Que poder ela tem para além do futebol?

A Fifa reúne 208 países e, portanto, movimenta direta e indiretamente bilhões de reais todo ano e envolve milhões de pessoas no mundo. Ela acaba sendo uma instituição que, embora voltada para um único esporte, tem um poder de influir em uma série de setores. A Fifa tem uma atuação mais ativa do que a da própria ONU, que tem um sistema interno razoavelmente democrático. Quando se percebe um absurdo qualquer em algum país, não se entra de um dia para o outro ali. Há um processo de discussões que acaba amarrando a ONU. A Fifa não tem nada de democrático. Por isso, ela tem agilidade para interferir no que lhe parece importante. Nesse paralelo, guardadas as proporções, sente-se mais no cotidiano das pessoas o papel da Fifa do que o da ONU.

A relação entre clubes e jogadores também é algo que beira a disciplina militar. Afinal, não há espaço para a democracia no futebol?

Há um grupo de países, do qual o Brasil faz parte, em que a gestão dos clubes não é democrática. As presidências dos times são passadas quase de pai para filho. Ficam sempre na mão do mesmo grupo. Não é casual o sucesso do São Paulo: além da boa administração, ele é um dos poucos clubes que têm uma democracia interna, com disputas eleitorais reais entre situação e oposição. Nos clubes de países mais democráticos, é um pouco diferente. Por exemplo, o Silvio Berlusconi pode até ser o “dono” do Milan, mas o clube tem ações cotadas em bolsa. Os proprietários minoritários têm instrumentos legais para intervir na empresa-clube se eles acharem que suas ações estão prejudicadas. Isso se reflete nos jogadores, que têm mais liberdade, porque são mais conscientes profissionalmente. Os clubes europeus não fazem concentração antes dos jogos. No Brasil, isso ainda é preciso.

De modo geral, as Copas mudaram radicalmente a infra-estrutura dos países onde foram realizadas?

Não. Há fatos pontuais. O belíssimo Estádio Centenário, no Uruguai, por exemplo, foi construído para a Copa de 1930. Só que o Uruguai tinha um altíssimo nível de vida naquela época. Países com uma situação mais sólida do que a nossa fizeram investimentos grandes, mas para melhorias específicas. A rede rodoviária alemã recebeu reparos para a Copa 2006, mas é de alta qualidade há 40 anos.

Quando sediamos a Copa de 1950, tivemos uma melhora significativa?

Não. Se em 1950 tivéssemos começado a construir metrô no Rio de Janeiro e em São Paulo, muita coisa hoje seria melhor. Nessa lógica, a Copa de 1950 não ajudou o desenvolvimento do Brasil. A vantagem que tínhamos é que os dois principais estádios do País, Pacaembu e Maracanã, eram novos. Agora, estão todos precisando de reformas drásticas. Em compensação, a decisão de que receberíamos a Copa de 1950 aconteceu em 1948. Desta vez, temos sete anos para nos preparar.

Ou para fazer bobagens.

Exatamente. O presidente da Fifa pediu que não fizéssemos a CPI do Corinthians para não atrapalhar a Copa. Atrapalhar em quê? Em dois anos, essa CPI se resolveria e não teria nada a ver com o evento. Um prazo longo pode servir de pretexto, tipicamente brasileiro, para empurrar as coisas com a barriga.

Por falar em CPI, não é estranho que o futebol puna aquele que vai à Justiça comum contra as decisões de suas entidades controladoras?

O futebol tomou uma dimensão que o levou a criar quase um mundo paralelo. Houve um choque muito importante com a decisão da Corte Suprema Européia no caso da Lei do Passe. Um jogador desconhecido de um time pequeno da Bélgica entrou na Justiça “comum” (uma terminologia pejorativa usada no mundo do futebol para definir a única justiça que existe) para dizer que se sentia cerceado em seu direito de trabalhar, já que o clube não queria negociar seu passe. Mas as instituições não têm coragem de ir à Justiça comum, porque correm o risco de ser desfiliadas da Fifa.

O futebol tem o poder de colocar países no mapa?

Sem dúvida. Se não fosse o futebol, acho que estaríamos excluídos de muitos mapas do mundo. Temos uma grande rivalidade com a Argentina, mas temos que admitir que os argentinos são melhores que os brasileiros em muitos planos - talvez só não o sejam no futebol. Claro que o Brasil é um país enorme e não seria ignorado. Porém, o futebol dá uma cidadania internacional a certos países que não têm direito a ela por vias, digamos, mais nobres. Países que não têm uma produção científica, uma história longa, uma contribuição reconhecida internacionalmente acabam aparecendo via futebol. As referências ao Brasil no exterior acontecem em momentos que têm a ver com o futebol ou tragédias.

O craque francês Michel Platini se referiu à Copa no Brasil como uma peregrinação a Meca.

Há um respeito enorme pelo futebol brasileiro. A principal publicação esportiva da França, a revista France Foot, fez, em sua mais recente edição, um dossiê sobre o Brasil. A capa traz estampada uma bandeira brasileira. Nas reportagens, há uma preocupação: eles dizem que o brasileiro é muito bom com a bola no pé, mas fora do campo, em sua organização, há problemas. Se tirarmos o futebol do Brasil, do que falariam sobre o País no exterior? Pontualmente, poderiam surgir alguns aspectos positivos, mas não são muitos.

Por que o orgulho que o brasileiro tem de seu futebol não contagia outras esferas do País, possivelmente melhorando outros aspectos?

Porque o futebol, por mais importante que seja, é um produto da sociedade. Não é a sociedade que é produto do futebol. Quando se tem uma sociedade bem estruturada, o futebol desperta esse nacionalismo de uma forma forte e saudável. A Alemanha tinha uma questão nacionalista muito reprimida, porque toda manifestação remete ao nazismo. Na Copa de 2006 isso foi recuperado, porque a seleção alemã, que começou desacreditada, embalou e a organização do evento foi excelente. O nacionalismo que estava abafado reapareceu a partir do futebol. Nós não temos esse perfil nacional. O nacionalismo brasileiro surge do nada perto da Copa e desaparece depois da Copa, tendo o Brasil ganhado ou perdido.

O músico e escritor José Miguel Wisnik tem uma teoria de que o futebol é a única área em que o jeitinho brasileiro, representado no drible, dá certo. O senhor concorda?

O jeitinho funciona numa representação social, que é o futebol. Mas isso levado para uma vida que pede um plano de organização e rigidez maior não funcionou até hoje e não sei se funcionará. Fora do campo, o que funciona é o estilo inglês e alemão. Pode ser feio para ver o futebol, mas é como a sociedade funciona melhor. As regras do futebol têm um paralelismo com as regras sociais, mas as sociais são mais complexas. A essência do futebol é enganar o outro. Como uma sociedade pode funcionar baseada nesse preceito?

No Brasil, duas das maiores manifestações populares - o carnaval e o futebol - são geridas por pessoas e entidades sob suspeita. O que isso revela sobre o caráter nacional?

Se o objetivo do futebol é enganar o outro, o do carnaval é criar uma ilusão de um mundo perfeito e sem normas por três dias. Tanto um quanto outro são representações do mundo real, mas levadas a um tal nível que acabam se descolando da realidade. Os políticos usam futebol e carnaval como instrumentos. Não podemos dar um diagnóstico fechado, mas, num país onde essas duas manifestações são os eventos mais importantes, isso dá uma pista, sim, sobre o caráter nacional. Somos muito bons na arte de representar e de enganar. O problema é que isso nos leva a mentir para nós mesmos e, assim, a não fazer um plano de nação.

Diz-se que o futebol, com seus uniformes, hinos, bandeiras e gritos de guerra guarda semelhança com uma manifestação fascista. O senhor concorda?

Na verdade, o futebol é uma manifestação tribal, antropológica, de sociedades de todo o mundo há muito tempo. Que esse tipo de manifestação tenha sido incorporado por um regime político X ou Y não pode desnaturar uma manifestação que é maior e mais antiga que esse regime. O fascismo, o nazismo, o stalinismo e até a ditadura brasileira recorreram a tudo isso, mas não por isso o futebol é um esporte de direita ou ditatorial.

Os times de futebol em dificuldade financeira devem ser ajudados pelo governo?

É preciso fazer alguma coisa, mas são as comunidades em questão que devem agir, e não toda a sociedade. Eu, cidadão brasileiro pagador de impostos, não vejo por que teria que pagar pelos desmandos que as diretorias de Flamengo ou Corinthians possam ter feito. Mas, se a comunidade flamenguista ou corintiana se organizar e se cotizar, será importante, porque são instituições que têm história.

O que se pode dizer da exportação dos nossos jogadores e da “obrigação” de que joguem no exterior para que sejam convocados pela seleção?

Eles não são obrigados a jogar no exterior para ser convocados. O caso é que os melhores jogam no exterior. Eles saem porque as propostas dos clubes europeus são atraentes demais para o jogador. Mas quem é esse jogador que vai jogar no exterior? São jovens como outros milhões que não têm oportunidades no Brasil e tentam uma vida melhor lá fora. A gente só percebe mais a ida desses jogadores por conta da profissão deles, que vive sob holofotes. Eles são um porcentual pequeno de jovens de mesmo perfil sociológico que deixam o Brasil para ser motoristas, carregadores, pizzaiolos. Não podemos cercear a liberdade de trabalho de quem tem o dom de jogar bola e deixar o que vai ser pizzaiolo ir embora.

Os brasileiros dão a mesma importância para a seleção que davam no passado?

O torcedor tem uma relação mais forte com o próprio time que com a seleção. Não só porque os jogadores atuam no exterior e não há identificação com o elenco da seleção. Mas, ao torcer por um time, você se identifica com um número menor de pessoas. As emoções ganham um gosto especial, porque você sabe que esse sentimento (de vitória ou derrota) é mais exclusivo, atinge menos pessoas, não o País inteiro. Além disso, a Copa do Mundo tem sete partidas e acontece a cada quatro anos.

O público nos estádios brasileiros passou por um longo período de baixa e agora se recupera. O que isso quer dizer?

O público demorou a se acostumar com o sistema de pontos corridos. No mata-mata, o que podia decidir um campeonato era o improviso e a sorte. O campeonato de pontos corridos exige planejamento. Ora, o brasileiro não tem o hábito de pensar no longo prazo. A organização nunca foi valorizada por nós. Se isso está dando certo no futebol, pode ser um indício positivo para a sociedade.

Jornal Estado de S. Paulo

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Sáude: proteja-se. Especialistas mostram como fortalecer o sistema imunológico sem recorrer a cápsulas ou a fórmulas milagrosas

JULLIANE SILVEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Um nariz escorre daqui, uma tosse ataca dali e, à medida que aumenta a incidência desses mal-estares, percebe-se que o inverno se aproxima -com ele, gripes, resfriados, infecções. A grande amplitude térmica desta época -na última terça-feira, por exemplo, a temperatura oscilou entre 15ºC e 25ºC em São Paulo- também ajuda a causar esses distúrbios.
“O organismo sente as variações bruscas de tempo no mesmo dia. Elas geram estresse, o que desencadeia a produção de hormônios com ação indireta no sistema imunológico”, explica o imunologista Luiz Vicente Rizzo, professor do Instituto de Ciências Biológicas e chefe do ambulatório de imunodeficiência do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).
Manter janelas fechadas, hábito comum no frio, também aumenta a concentração de vírus e bactérias e facilita a exposição a eles. Isso sem contar os climatizadores, emissores de sujeira e bactérias quando a limpeza não é feita da forma e com a freqüência corretas.
Se os agentes externos são inevitáveis, fortalecer o sistema imunológico pode ser a saída para minimizar os desconfortos outono invernais. E não se trata de se entupir de remédios vendidos como eficazes para prevenir esses males. “Não existe fórmula milagrosa: o que faz bem para todo o organismo certamente fará bem para o sistema imunológico”, pondera Rizzo. Bons hábitos, mais do que remédios, favorecem as células responsáveis pela imunidade e são a melhor forma de prevenir doenças o ano todo.
Isso porque o sistema imunológico trabalha em dependência com outros mecanismos do corpo, como a produção de hormônios e a metabolização da glicose. Qualquer desequilíbrio nesses fatores também pode mudar a eficácia das células de defesa -e tornar o corpo mais vulnerável à ação de vírus e bactérias. “O sistema imunológico é uma intrincada rede de células com diversas funções, e elas têm de trabalhar de forma harmoniosa”, diz Victor Nudelman, imunologista da clínica de especialidade pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein.
Veja o que influencia o sistema imunológico e saiba o que fazer para equilibrar naturalmente suas defesas.

Peso saudável
O ganho excessivo de peso pode fazer com que células do sistema imunológico se alojem nas camadas de gordura do corpo e não trabalhem corretamente na defesa do organismo. Além disso, as células gordurosas “roubam” a glicose que seria usada como energia pelo sistema imunológico.
Para seu doutorado na USP, a endocrinologista Cristiane Moulin estudou o impacto da cirurgia bariátrica em obesos mórbidos. Entre outras melhorias, constatou que esses pacientes, após perderem cerca de 26% do peso, voltaram a produzir citocinas, substâncias que regulam o sistema imunológico.
Moulin diz que ainda não se sabe exatamente quais são os mecanismos envolvidos nesse processo, mas acredita que obesos e pessoas com sobrepeso também podem ter melhorias em seu sistema imune com a perda de peso. “Há pesquisas mostrando que onde trafegam as células imunológicas trafegam as de gordura e, por isso, pode haver alguma relação”, afirma Nudelman.
Dietas restritivas e baixo peso também debilitam o sistema imunológico; por isso, a perda de peso, se necessária, deve ser acompanhada de uma alimentação equilibrada.

Controlar o estresse
Em situações de estresse físico ou emocional, o organismo entende que é preciso liberar hormônios que ajudam a dar energia para que o organismo enfrente a dificuldade, e esse processo “rouba” glicose das células imunológicas. Também altera os níveis de alguns hormônios que têm ação no sistema imune.
O estresse ainda leva a uma diminuição do sono e do aproveitamento dos alimentos ingeridos, o que pode aumentar a susceptibilidade a infecções.
Se a rotina é estressante, procure uma válvula de escape nos momentos de maior pressão. “Tudo o que desfaz o estresse e restabelece o equilíbrio básico do organismo traz benefício ao sistema imunológico”, diz Nudelman, do Albert Einstein.

Dormir bem
Um dos hormônios secretados na hora de dormir, a melatonina, tem função indireta em diversas células e, mais uma vez, nas células de defesa, já que ajuda no controle da resposta imune mais especializada.
Qualquer anormalidade que altere a produção dessa substância, como sucessivas noites mal dormidas, pode desregular essa resposta e tornar o organismo mais vulnerável. “Se a pessoa não dorme bem, não secreta melatonina direito e, assim, todas as atividades ligadas à imunidade celular estarão prejudicadas: a asma e as doenças auto-imunes pioram, por exemplo”, diz Luiz Rizzo, da USP.
As necessidades individuais de descanso variam. Procure atingir diariamente o tempo de sono que o faça se sentir bem-disposto durante todo o dia.

Praticar exercícios
Apesar de trazer efeitos positivos, ainda não se sabe se a atividade física tem efeito direto no sistema imunológico ou se o auxilia pelo fato de ajudar a reduzir o estresse, a manter o peso e a dormir melhor. “Mas há estudos que mostram que quem caminha todo dia tem melhor resposta imune e quem se exercita moderadamente passa menos dias doente”, afirma a imunologista Amélia Ribeiro de Jesus, membro da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia).
No entanto, exercícios em excesso deprimem o sistema imunológico. Segundo o ortopedista André Pedrinelli, diretor do Comitê de Trauma do Esporte da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia), sair do sedentarismo e partir para exercícios de alto impacto pode trazer os mesmos malefícios da atividade em excesso. “Trabalhar acima da capacidade fisiológica pode levar a microlesões em todos os sistemas corporais, inclusive no imunológico.”

Não abusar de antibióticos
Tomar esses remédios para qualquer dor de garganta pode deixar o sistema imunológico mais vulnerável, pois as bactérias benéficas também são atingidas -e são elas que ajudam a proteger o organismo contra microorganismos invasores. Além disso, em geral, infecções de garganta são causadas por vírus -de nada adianta tomar medicamentos que combatem bactérias.
“Os antibióticos podem diminuir a tolerância à alergia no trato gastrointestinal e quebrar a barreira de bactérias com a qual o sistema imunológico conta”, diz o imunologista Victor Nudelman.
Mantenha as vacinas em dia, observando recomendações para reforços e outras doses. Idosos devem se vacinar contra gripe e pneumonia.

Alimentos certos
Em geral, uma dieta equilibrada é suficiente para obter todos os nutrientes que ajudam no funcionamento do sistema imune. Porém, sabe-se que o ácido graxo ômega 3, o selênio, o zinco e vitaminas como a A, a C e a E influenciam diretamente nas células imunológicas.
É possível escolher alimentos para garantir o aporte desses nutrientes e a resistência ao sistema imunológico. “Eles atuam diretamente na imunidade ou ajudam a neutralizar os radicais livres produzidos em situações de estresse, que podem prejudicar as funções celulares”, explica a nutricionista Elizabeth do Nascimento, professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Mas eles precisam estar na dieta com freqüência.

ALHO
Tem componentes que ajudam no sistema imune, como a arginina, que modula a função do linfócito T, uma das células imunológicas. As alicinas, compostos presentes no vegetal, também estimulam as células de defesa.

OSTRA
Esse fruto do mar é fonte de zinco e selênio, minerais que ajudam a formar enzimas essenciais para as atividades das células que são fundamentais para destruir os microorganismos causadores de doenças.
O zinco também está presente na carne bovina e de frango, no ovo e no leite integral; a castanha-do-brasil é uma das principais fontes de selênio

VEGETAIS AMARELO- ALARANJADOS
Cenoura, abóbora e mamão são ricos em vitamina A, que aumenta a resistência a agentes infecciosos. De acordo com Elizabeth do Nascimento, o betacaroteno, precursor da vitamina A, atua na regulação da função das células do sistema imune.

PEIXES
Aqueles ricos no ácido graxo ômega 3, como salmão, sardinha, atum, anchova e arenque, melhoram o controle imunológico nas reações inflamatórias. O ômega 3 é um precursor de citocinas, substâncias que atuam no combate a inflamações
Óleo de linhaça, soja, nozes e amêndoas são boas fontes desse ácido graxo

FRUTAS VERMELHAS
Cerejas, amoras, framboesas e uva roxa possuem catequinas, que ajudam a estimular as defesas do organismo. O chá verde também é rico nessas substâncias

FRUTAS CÍTRICAS
“Parece banal, mas freqüentemente não se suprem as necessidades diárias de vitamina C, pois muita gente não ingere os alimentos que são fontes do nutriente”, alerta Victor Nudelman. Ele aconselha a ingestão diária de frutas cítricas, que ajudam a garantir a quantidade necessária. “Um estudo feito na África com crianças desnutridas mostrou que a resposta às vacinas melhora com a reposição de vitamina C”, afirma Nudelman.

PROBIÓTICOS
Ajudam a regular a microflora intestinal -formada por bilhões de microorganismos e que pode chegar a dois quilos. “Essa microflora forma uma barreira para vários micróbios, evitando que eles entrem no organismo, e também ajusta o sistema imune”, afirmou Philippe Sansonnetti, responsável pela unidade de microbiologia molecular patogênica do Institute Pasteur, em entrevista realizada no mês passado, em Paris.
Uma hipótese levantada por Sansonnetti é que a microflora ative o sistema de sobrevivência das células imunológicas, presentes, em grande parte, no intestino. Estudo recente do instituto mostrou que idosos que consumiram probióticos por sete semanas tiveram uma melhor resposta à vacina antigripe do que aqueles que não tomaram. “Trabalhos mostram que crianças alérgicas têm menos dermatite atópica quando consomem iogurtes probióticos”, acrescenta Victor Nudelman.
O leite materno, iogurtes e leites fermentados são fontes de probióticos; pessoas com imunodeficiências graves não devem usar esse tipo de produto

Evitar bebidas alcoólicas
A ação do excesso de álcool é direta: um dos subprodutos da metabolização da bebida no organismo é altamente tóxico para as células imunológicas e pode baixar sua produção.
Cuidado também com excessos na ingestão de doces: picos de insulina podem enfraquecer o sistema imunológico.

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fonte: DANIELLI BOTTURE, nutricionista da RG Nutri
Colaborou AMARÍLIS LAGE , da Reportagem Local, que viajou a Paris a convite da Danone

Folha de São Paulo - Caderno Equilibrio

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Leilão da Hidrelétrica Jirau é “entrega do patrimônio nacional”

Sobre o leilão da Usina Hidrelétrica Jirau

O Movimento dos Atingidos por Barragens considera que o leilão da Usina Hidrelétrica Jirau, que aconteceu ontem (19/05), é mais um episódio da entrega do patrimônio nacional aos interesses das grandes empresas, tal como aconteceu no processo de privatização das estatais brasileiras.

Porém o leilão da hidrelétrica Jirau, assim como foi o leilão da hidrelétrica Santo Antônio, possui um agravante: além do investimento público na construção, possibilita o saqueio dos recursos naturais da Amazônia através da criação de hidrovias para o transporte da madeira (muitas vezes ilegal) e de minérios, além de criar um corredor para o escoamento da soja que vem sendo produzida na região amazônica. Se não bastasse, a construção de Jirau abre definitivamente a fronteira amazônica para a construção de grandes empreendimentos energéticos, seja para a construção de novas usinas hidrelétricas, ou para a plantação de cana-de-açúcar e produção do etanol, agravando a destruição da floresta.

O custo total para a construção da UHE Jirau é de R$ 8,7 bilhões, que somados ao custo das demais obras previstas para o Complexo Madeira, chega a um total de R$ 43 bilhões. Este valor equivale a um investimento de R$ 113 mil para cada habitante da capital do estado de Rondônia. Cabe lembrar que Porto Velho ocupa o 1498° lugar no ranking nacional do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M 2000). Mesmo assim, o governo prefere investir dinheiro público para beneficiar somente as grandes empresas do setor energético.

O MAB denuncia que um dos consórcios em disputa é liderado pela mesma empresa que elaborou os estudos de viabilidade da obra, a Odebrecht, que também faz parte do consórcio que ganhou o leilão da UHE Santo Antônio. Portanto, nossa denúncia é de que a Odebrecht, e as demais empresas que fazem parte do consórcio, estão se tornando donas dos rios amazônicos.

Por fim, exigimos que o governo federal e a Aneel respeitem os interesses do povo brasileiro, que não se curvem aos interesses do capital e que cancelem o leilão da UHE Jirau e os projetos de hidrelétricas nas bacias dos rios Amazonas, Tocantins e Araguaia.

19 de maio de 2008

Coordenação Nacional do MAB

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Elementos de uma política neoliberal para o esporte: Timemania e Lei de Incentivo ao Esporte

Heitor Martins Pasquim, Ricardo “Xis” e Thiago Firmino

“Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes!”
(Torcida “Resistência Coral”, do Ferroviário Atlético Clube)

Como o título supõe pretendemos aqui esboçar um ensaio que ressalte elementos para a compreensão e crítica ao programa neoliberal para o esporte. Partimos de uma hipótese central, de que o Governo Lula, através do Ministério do Esporte, cedido ao PCdoB desde sua criação, no primeiro mandato, é um marco sem precedentes de reorganização do esporte no país. É através dele, que, políticas públicas, antes secundarizadas, são orientadas no sentido de um projeto neoliberal sólido para o esporte. Faz isso partindo de um tripé: (1) massificação de um olhar idealista do fenômeno, (2) super-valorização do esporte “de rendimento” e (3) reformas dentro do Estado Brasileiro.

Para melhor organizar esse desafio de sistematização, focaremos no texto duas políticas aprovadas recentemente com forte apelo midiático, conhecidas como Timemania e Lei de Incentivo ao Esporte. Ambas foram encaminhadas ao Congresso Nacional pelo Executivo por Medida Provisória, modus operandi característico desse governo, e foram aprovadas, apesar do voto contrário da bancada do Partido Socialismo e Liberdade – PSOL. Deixaremos outras, como as privatizações e limpeza militar do PAN, estímulo aos atos profissionais privativos, corrupção e debates teóricos conceituais para outras contribuições.

A Timemania, decreto nº 6.187/07, é uma loteria utilizada para que os clubes de futebol profissionais paguem suas dívidas com a Previdência Social e a Receita Federal. Tal política parte de uma lógica liberal que entende como patrimônio nacional, não o futebol ou a cultura, mas os clubes. Segundo o próprio Lula em discurso de sanção da mesma, referindo-se a pequena capacidade dos brasileiros em competirem, em pé de igualdade, com os europeus, afirma que

“Nós não podemos jogar a culpa em cima de um presidente de um time, em cima de um presidente da CBF. Nós temos que jogar a culpa em cima de todos nós, afinal de contas, é uma responsabilidade nossa cuidar conjuntamente de uma coisa que é uma paixão nacional” (Cerimônia de Sanção da Lei da Timemania, 2006).

No mesmo discurso, descreve o que para ele é o objetivo estratégico da lei, a reconstrução dos clubes em formato empresa. “O time-empresa (sic) é quando nós tivermos os times brasileiros preparados, gerando renda para poder sobreviver. Aí sim, nós viraremos time-empresa” (Idem, 2006). Com a criação do clube-empresa, a instituição passa a utilizar um sistema administrativo com características da iniciativa privada, podendo acessar inclusive a nova lei de falência alterada por Lula em 2005. Exemplo, o Guaratinguetá Futebol Ltda.

Carlos Arini, presidente do Guaratinguetá, deixa claro que “A estrutura de clube-empresa é igual a qualquer outra empresa, têm seus diretores e presidentes, todos remunerados, que visam o lucro acima de tudo. Clube-empresa é, acima de tudo, uma empresa, cujo negócio é o futebol” (Disponível no site: http://www.futebolinterior.com.br/news.php?id_news=29576 em 12/05/08).

Elio Gaspari destacou muito bem o recorte econômico que existe entre quem paga e quem é beneficiado pela Timemania, ou PróCartola. Para ele, a política “Destina-se a tomar dinheiro do andar de baixo para cobrir delinqüências fiscais da cartolagem dos clubes de futebol”. E continua, em “cada dez apostadores das loterias federais, oito têm renda inferior a três salários mínimos” (Folha de S. Paulo, 19/08/07).

É conveniente ressaltar que desde a divulgação da proposta do governo federal em criar a Timemania, a sonegação fiscal cresceu. Isso porque no período de 2005 até 2007, os clubes de futebol tinham certeza de que poderiam, até a assinatura presidencial, simplesmente não pagar suas dívidas sem prejuízos nos acordos. O Flamengo, o campeão brasileiro em calote e líder em apostas na Timemania, acumulou 59,7 milhões em dívidas até junho de 2007.

Antes da aprovação completa da lei, um acordo entre os ministros das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já previa a redução de cinqüenta por cento da multa e ampliação do prazo de pagamento para 240 meses. Entretanto, o marketing do clube rubro-negro reivindica mais! Afinal, os clubes foram obrigados a reconhecer todas as suas dívidas. “Infelizmente nós achamos que teremos de colocar dinheiro para pagar o que devemos. Achamos que o que irá ser arrecadado com a Timemania não será o necessário” (O Globo, 29/02/08).

Mesmo assim, Márcio Braga, presidente do Flamengo, exalta a popularidade das políticas de esporte de Lula entre cartolas e empresários, prevê um futuro de glórias para o futebol brasileiro, agora com a Timemania, e não economiza elogios ao presidente. “Convivo na política há mais de 50 anos e, por ser de outro partido, posso dizer que o Lula foi o melhor dos presidentes que o País já teve no que se refere ao esporte” (Estadão, 05/11/07).

Uma olhadela nos critérios utilizados para repartir os recursos obtidos com a Timemania já é o suficiente para evidenciar a prioridade em financiar a elite do futebol brasileiro e beneficiar o setor patronal. Os times da Série “A” receberão uma porcentagem maior que os times da Série “B”. Isso somado a regra do “Time do Coração” que vai beneficiar, a partir de 2010, aqueles que tiverem a maior participação na Timemania, consagra a intenção de fomentar os grandes clubes.

A Timemania não se propõe a problematizar qualquer questão sobre o estímulo da prática viciosa do jogo, pelo contrário dá a esse um caráter voluntarioso. Pois é através desses recursos que Santas Casas de Misericórdia serão auxiliadas. Mas por que não financiar o setor público de saúde diretamente?

Seguindo a direção neoliberal que retira financiamento e poder de decisão pública de políticas sociais, quem definirá a prioridade de auxílio as Santas Casas, não é o controle social do Sistema Único de Saúde – SUS, mas a Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas – CMB. Cabe ainda à Confederação Brasileira de Clubes – CBC, sindicato patronal, a aprovação de parte dos projetos esportivos apresentados pelos Clubes filiados para obtenção de recursos.

O dinheiro decorrente das apostas também será repartido, entre outros, com o Fundo Penitenciário Nacional. Nesse sentido, reforçando um imaginário equivocado que sustenta a necessidade de maior rigor na punição e gasto com presídios, enquanto se mantém inalterado o Estado Nacional organizando a violação dos direitos humanos.

O Deputado Federal Chico Alencar, líder da bancada do PSOL, destacou em plenário, que a nova lei abre a possibilidade de indivíduos favorecerem entidades, as quais participam ou são beneficiados, em referência explícita a Deputada Gorete Pereira que trabalha com entidades de reabilitação física que poderão ser beneficiadas pela Timemania.

A Timemania e a Lei de Incentivo ao Esporte se complementam. Com dívidas os clubes não tinham acesso a Certidão Negativa de Débito de Tributos e Contribuições Federais – CND, e por isso não poderiam obter incentivos fiscais ou patrocínios públicos, mas agora eles terão acesso a esse dinheiro.

A Lei de Incentivo ao Esporte, nº 11.438/06, não é menos perversa. Ela permite que patrocínios e doações para a realização de projetos esportivos sejam descontados do Imposto de Renda devido por pessoas físicas e jurídicas. Diferente das leis de incentivo da cultura e do audiovisual, essa não conta com recursos de fontes existentes, como, por exemplo, dos concursos prognósticos nem de fundos, a não ser da própria isenção de impostos.

O que nos parece é que essa lei avança numa concepção de estado minimizado para os direitos sociais, se retirando do controle e da administração públicas. Transforma, ainda, a indústria esportiva num tipo de herói nacional, e recompensa-o com a isenção de impostos.

O Governo Federal aprovou essa lei às pressas para conseguir regulamenta-la ainda em 2006, para ser mais exato no último dia útil do ano, no contrário ela não entraria em vigor em 2007. Em conjunto aprovou uma outra medida provisória que impôs um limite específico de 1% de dedução para pessoa jurídica, tentando eliminar a competição com a lei de incentivo à cultura. Entretanto, chama a nossa atenção o fato da medida provisória, que reduz para 1% o limite de dedução para pessoa jurídica, tenha recebido a mesma data da lei de incentivo e não a data de sua própria publicação no dia 02 de janeiro no Diário Oficial da União, o que obrigaria a sua entrada em vigor, em teoria, apenas agora em 2008 e não em 2007 como aconteceu.

Algumas políticas em nível estadual e municipal existem de forma bastante semelhante à Lei de Incentivo ao Esporte do Governo Federal, no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Paraíba, Acre, Goiás, Piauí, entre outros, e em algumas c