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“Devemos buscar uma revolução midiática”

Para o jornalista espanhol Pascual Serrano, fundador da página Rebelión, a esquerda mundial deve criar seus próprios meios para trazer à tona os fatos “silenciados” pela imprensa comercial
O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa – e, consequentemente, aos donos do mundo –, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, lançado em meados do ano passado.
“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação. Criar seus próprios meios, em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.
Brasil de Fato – Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?


Pascual Serrano – Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo. Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa. Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa.
Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas. Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam. Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante, mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra.
E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro. Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense. Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro. No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário.
Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.
BF: Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?
SERRANO: O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão. Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem. Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China.
Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.
BF: Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?
SERRANO: Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana. A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem. Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual.
Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.
Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira.
BF: Como é esta articulação?
SERRANO: Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia. Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas. Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público.
A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!
BF: Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?
SERRANO: Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação. Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados. Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela. O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!
BF: Como é possível se contrapor a este poder?
SERRANO: Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz. Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.
BF: Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?
SERRANO: A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível. Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.
BF: Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?
SERRANO: É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.
QUEM É PASCUAL SERRANO
Nascido em Valencia (Espanha) em 1964, Pascual Serrano fundou em 1996, juntamente com um grupo de jornalistas, a página Rebelión (www.rebelion.org). De 2006 a 2007, Serrano foi assessor editorial da Telesur. Hoje, colabora com publicações espanholas e latino-americanas e, mensalmente, com Le Monde Diplomatique. Entre seus livros sobre política e comunicação, destacam-se: “Desinformación. Cómo los medios ocultan el mundo”, de 2009; “Perlas 2. Patrañas, disparates y trapacerías en los medios de comunicación”, de 2007, e “Medios violentos. Palabras e imágenes para el odio y la guerra”.
(Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Nilton Viana, do Brasil de Fato, e Tatiana Merlino, da Caros Amigos, de Guararema, São Paulo)

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A falta que fazem aqueles quatro repórteres

por Luiz Carlos Azenha

imagemmenor Fiquei sabendo que meu amigo Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S. Paulo, disse que os blogs jamais seriam capazes de substituir os jornais e, como argumento, destacou o fato de que a Folha deslocou quatro repórteres para cobrir o terremoto do Haiti contra nenhum dos blogs.

Justo, mas posso dizer que não li a Folha e talvez, através de blogs, tenha me informado mais e melhor sobre o Haiti do que se fosse assinante do jornal. Sim, porque recorri diretamente aos próprios haitianos. Que falam a língua, conhecem as pessoas e a cultura locais. Muito antes que o primeiro repórter estrangeiro chegasse a Jacmel, por exemplo, os estudantes de uma escola de cinema local já tinham subido vários vídeos no Vimeo mostrando o impacto do terremoto. Não vejo como os repórteres da Folha, que caíram de paraquedas no Haiti, poderiam fazer melhor cobertura que os próprios moradores de Jacmel. Além do que, não acredito que os blogs tenham o objetivo de substituir os jornais, muito embora isso eventualmente poderá acontecer se os jornais e os repórteres dos jornais se tornarem irrelevantes.

O que me leva ao ponto: acho que os quatro repórteres que a Folha mandou para o Haiti estão fazendo falta em São Paulo.

Mais exatamente, na cobertura das enchentes que tiram os paulistanos e paulistas do sério.

Nos últimos dias, a Folha e outros orgãos da mídia tem dançado em torno de um recorde irrelevante: se as chuvas deste janeiro em São Paulo serão ou não as maiores dos registros históricos. Minha pergunta é: e daí? Para quem é vítima das enchentes ou para quem dirige pelas marginais do Tietê e do Pinheiros isso é absolutamente irrelevante. A chuva "acumulada" nos recordes não caiu de uma só vez e, portanto, pode não haver relação entre a soma de toda chuva e os transbordamentos episódicos.

Trata-se de um factóide à altura das mensagens de José Serra no Twitter: serve à desinformação.

O que importa é saber o motivo pelo qual a obra central da estratégia contra as enchentes em São Paulo, o rebaixamento da calha do rio Tietê, não está dando conta de impedir os transbordamentos. É preciso ter em conta sempre o papel central que o rio Tietê tem nas enchentes da cidade: quase todos os rios que cortam São Paulo desaguam nele. Se não há vazão adequada no Tietê, o risco de transbordamento dos afluentes também aumenta.

É impossível dançar em torno dessa realidade: o gerenciamento das represas do Alto Tietê e a capacidade de vazão do próprio rio são essenciais não apenas para a temporada de chuvas de 2010, mas de 2011, 2012, 2013… independentemente de quem seja o governador de São Paulo.

Sabemos que o então governador Geraldo Alckmin concluiu uma obra bilionária cuja promessa central era acabar com as enchentes em São Paulo. Está até em um site tucano essa promessa. Ficou expressa em placas e faixas espalhadas pela região da marginal do Tietê.

No entanto, quatro anos depois da conclusão desta obra o rio Tietê já transbordou quatro vezes: uma durante o próprio governo de Alckmin e três recentemente, no governo Serra. Foram milhões em prejuízos para a cidade, tanto em danos diretos como em danos indiretos.

O que os paulistas e paulistanos gostariam de saber é: o Tietê vai encher outras vezes? Quanto precisa chover para que o Tietê transborde? A obra foi em vão? Ou houve falta de manutenção?

Pelo que apurou a repórter Conceição Lemes, deste blog, o rio Tietê ficou três anos sem limpeza (2006, 2007, até outubro de 2008). O plano do governo de fazer uma parceria público-privada para providenciar a limpeza teria fracassado. A limpeza foi retomada através de concorrência pública, em 2008, bem abaixo do que é recomendado por alguns técnicos.

Apesar da insistência da repórter, o órgão do governo que poderia fornecer os documentos comprovando que fez a limpeza, se de fato ela foi feita, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), se negou a responder.

O que nos leva a uma questão secundária, não menos importante: a falta de transparência do governo Serra quando se trata de temas politicamente embaraçosos. O próprio Defensor Público que zela pelos interesses de moradores da Zona Leste vítimas das inundações teve de recorrer à Justiça para obter documentos da Sabesp e de outros órgãos controlados pelo governo Serra. A mídia exige do governo federal a transparência que não cobra de autoridades estaduais e locais.

Por fim, vamos à questão do gerenciamento das barragens do Alto Tietê, que diz respeito diretamente ao nível do rio quando ele atravessa a metrópole.

Mais uma vez, a repórter Conceição Lemes foi direto ao ponto, em entrevista com José Arraes, membro do Comitê da Bacia do Alto Tietê, do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê e do conselho gestor da APA (Area de Proteção Ambiental) da várzea do Tietê. Ele denunciou que a Sabesp e o DAEE mantinham os reservatórios cheios antes mesmo do início do período das chuvas, o que os obrigou a "sangrar" as represas no período de chuvas, agravando as enchentes:

Viomundo – Por que a Sabesp e o Daee mantiveram as barragens lotadas?

José Arraes – Eu desconfio de um destes esquemas. Primeiro: para não faltar água para a Região Metropolitana de São Paulo. Assim, pode ter havido determinação governamental para estarem na cota máxima. Segundo: a Sabesp e o Daee já estarem aumentando o volume das represas, visando aumentar a produção da Estação de Tratamento de Água Taiaçupeba de 10 metros cúbicos por segundo para 15 metros cúbicos por segundo (10m³/s para 15m³/s) . Terceira: a privatização do Sistema Produtor de Água do Alto Tietê – chamado SPAT. Hoje é um consórcio de empresas privadas que regula, administra, mantém e fornece as águas que estão represadas nessas barragens.

Viomundo – Por favor, explique melhor isso.

José Arraes – Existe um consórcio de empresas – entre elas, uma empreiteira conhecida na nossa região, a Queiroz Galvão –, que hoje gerencia as águas reservadas nas represas em uma parceria público-privada. Toda a água represada em todas as barragens do Sistema do Alto Tietê são gerenciadas por esse consórcio. Quanto mais cheias as represas, mais interessantes para o consórcio. Interesse comercial, nada mais do que isso.

Viomundo – Quer dizer que as águas das barragens do Alto Tietê estão privatizadas?

José Arraes – Sim. As empresas do consórcio fazem a conservação das barragens e a intermediação com a necessidade da Sabesp que a trata e remete para a população. Logo, para o consórcio de empresas, quanto mais cheias estiverem as barragens, mais água fornece para a Sabesp. Mais ganhos financeiros, portanto.

Viomundo – Qual das três hipóteses é a mais provável?

José Arraes – Talvez a combinação das três. Cabe ao Ministério Público investigar. O fato é que as barragens do Alto Tietê estão excessivamente cheias e as comportas estão sendo abertas, contribuindo com as inundações em toda a calha do rio até a região do Pantanal.

A íntegra está aqui

Depois da entrevista, foi um blog, o NaMaria News, que localizou o contrato: a Sabesp deve pagar até 1 bilhão de reais durante 15 anos para que o consórcio privado que controla os reservatórios faça obras, com a promessa de aumentar a capacidade de fornecimento de água tratada de 10 para 15 metros cúbicos por segundo.

O que levanta questões importantes para o futuro: o que vai prevalecer na gestão dos reservatórios, o interesse público ou o interesse privado?

A parceria público-privada foi apresentada pela Sabesp, no Diário Oficial, como uma forma de vencer a burocracia das licitações e acelerar as obras. Isso é bom ou ruim?

No mesmo DO, diz-se que a PPP paulista foi o primeiro passo de um modelo que poderia ser exportado pela própria Sabesp para outros estados brasileiros. Isso já aconteceu?

O estado de São Paulo paga para entregar represas que já existem a empresas privadas, que embolsam 1 bilhão de reais. Quanto elas devolverão em obras? Essas obras — e a administração das represas por 15 anos — valem esse bilhão?

O estado de São Paulo paga ainda ao consórcio privado pelas águas contidas nos reservatórios e entregues à Sabesp para tratamento na estação de Taiaçupeba. Quanto custa o metro cúbico da água vendida à Sabesp?

Qual a posição da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) a respeito?

Se as PPPs de fato forem exportadas para outras regiões do país, entre o abastecimento de água para a população e a geração de energia elétrica, quem terá prioridade no uso das águas quando houver conflito de interesses?  Quem decidirá, os órgãos públicos locais, estaduais e federais ou as empresas privadas? A população será ouvida?

O controle das águas, uma questão essencial e politicamente explosiva, como se viu em Cochabamba, na Bolívia, é um tema muito importante para ser decidido nos bastidores, como aparentemente o foi em São Paulo.

É importante registrar que várias das perguntas que aparecem acima foram feitas por comentaristas deste blog que, ao contrário da Folha, incorpora a seu conteúdo, em tempo quase real, as indagações do público.

São todas questões pertinentes e interessantes que aqueles quatro repórteres que a Folha mandou para o Haiti poderiam fazer aqui no Brasil.

Poderiam fazer, como as fez a Conceição Lemes, do ponto-de-vista dos que ficam à mercê do poder público, especialmente dos que sofrem com as enchentes e de outros que, através do pagamento de impostos, são duplamente vítimas dos planos mirabolantes e fracassados para extinguir as inundações.

Não se trata, portanto, de uma questão de número de repórteres ou de recursos financeiros. Os blogs crescem no espaço que os jornais abdicaram de cobrir, quando interesses políticos e econômicos particulares deles, jornais, se colocam acima do interesse público.

Texto: / Postado em 02/02/2010

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“Devemos buscar uma revolução midiática”

 

pascual_serrano_editada

Por Tatiana Merlino, Cristiano Navarro*, Igor Ojeda* e Nilton Viana* (*)

O silêncio é, paradoxalmente, um dos principais mecanismos adotados pelos meios de comunicação para manipular os fatos. Se uma notícia não interessa aos donos da imprensa e, consequentemente, aos donos do mundo, ela simplesmente não é veiculada. Tal denúncia é feita pelo jornalista espanhol Pascual Serrano, um dos fundadores da página alternativa Rebelión e autor do livro “Desinformación. Como los médios ocultan el mundo”, lançado no ano passado.

“Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião”, diz, em conversa na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Portanto, segundo ele, os meios, além de ignorarem seletivamente determinados fatos, lançam mão de outros expedientes, como a descontextualização e a linguagem enviesada. Para Serrano, só há um modo da esquerda se defender de tamanha manipulação. Criar seus próprios meios, em vez de ficar esperando por pequenos espaços na grande mídia.

Você tem um livro chamado “Desinformação. Como os meios ocultam o mundo”. Quais são os principais mecanismos que os meios utilizam para ocultar o mundo?

Eu dividiria em dois mecanismos. Por um lado, os estruturais: ou seja, os mecanismos cotidianos de funcionamento da imprensa que, por seu modelo de trabalho, são incompatíveis com a explicação do mundo.

Fundamentalmente, seria a falta de antecedentes sobre um contexto para se compreender uma situação complexa, a dinâmica da televisão – que, com seu ritmo trepidante, impede a compreensão, sobretudo, de assuntos complicados – e o culto ao sensacionalismo da imagem – que ocorre muito na televisão. Isso impede aprofundar as questões e enviar uma mensagem complexa. Por exemplo, quando você quer dar um sentido simples – que o Irã tem bomba atômica ou que o Chávez é um ditador –, isso pode ser dito em poucas palavras. Mas se você quer explicar que a política dos EUA está provocando um genocídio no Afeganistão, isso exige uma explicação mais complexa.

Uma outra situação é quando há um consenso e um plano premeditado por parte dos grandes meios para enviar uma mensagem concreta. Isso contempla estigmatizar ou criminalizar líderes políticos que não são do gosto do establishment mundial, até criminalizar movimentos sociais, ou determinados coletivos ou causas.  Atentem para o fato de que o mecanismo não é somente a mentira, que essa existe, mas não é a mais habitual. Porque eles sabem que sua principal carta é a credibilidade. Se contarem muitas mentiras, perderão sua credibilidade, perderiam sua eficácia como mecanismo de formação de opinião. Ou seja, o plano é mais refinado: utilizam-se de silenciamentos de notícias que eles não gostam.

Por exemplo: a missão Milagre, realizada em uma parceria entre Venezuela e Cuba, que fez com que um milhão de pessoas de origem humilde na América Latina e Caribe conseguissem recuperar a visão, é notícia, parece evidentemente relevante , mas isso está silenciado. Além disso, eles também jogam com o enquadro, o enfoque da notícia, buscando elementos dentro de um contexto que levem para uma tese e não para outra. E o que fica claro no livro é que o modelo muda de uma região para outra, de um tema para outro. Por exemplo: no conflito Palestina-Israel, o problema é a falta de contexto. Ninguém, neste momento, parece saber dizer a origem deste conflito, apesar dele estar presente todos os dias no noticiário. Utilizam a linguagem como método de manipulação, de maneira que sistematicamente chamam de terrorista os palestinos. Chamam de sequestrados os soldados israelenses capturados. Chamam de detidos os civis palestinos que são sequestrados pelo exército israelense. Na África, por exemplo, aplica-se o silenciamento, ou apresenta-se os conflitos como questões tribais, em vez de mostrarem os interesses de empresas e poderes coloniais como França e EUA. E, na América Latina, utilizam a estigmatização e criminalização constante dos líderes, como Hugo Chávez, Evo Morales ou Fidel Castro.

No caso da Venezuela, é curioso, porque apresentam como escândalos notícias que se apresentam como normais em outros países. Reivindicam como escândalos a não renovação de uma concessão de TV cujo prazo acabou e a mudança de um fuso horário. Há outra pauta habitual em relação à América Latina, através da qual o presidente ou o líder político são apresentados sempre em meio a uma imagem de crise, desestabilizações e caos. Isso faz com que, na Europa, todo mundo conheça os nomes dos presidentes da Bolívia e da Venezuela, mas não conheçam o nome do presidente do Peru ou do México. Inclusive, se você pergunta quem teria sido outro presidente da Bolívia ou da Venezuela, não sabem dizer. E dos últimos anos, Evo Morales e Hugo Chávez, todo mundo sabe quem é.

Quais foram os métodos utilizados para fazer o livro, como foi a pesquisa?

O livro nasceu um pouco da minha experiência como diretor da Telesur, onde observei que tudo que chega das agências de notícia e, inclusive, os hábitos dos jovens jornalistas, impedem explicar em profundidade o está acontecendo no mundo. Então, refleti sobre como explicar o mundo com suficiente complexidade na televisão.

Tudo que eu quis fazer na Telesur muitas vezes não é possível fazer em uma televisão por imperativos técnicos, econômicos, logísticos ou de imagem. Assim, comecei a entrevistar especialistas e jornalistas que considero autores de confiança e que conhecem em profundidade diferentes regiões – por exemplo, sobre Afeganistão, Congo, Cuba, China. Enfim, perguntei a estes especialistas sobre a zona que conheciam. Perguntei se o que passa na imprensa se ajusta ao que acontece. Eles, evidentemente, opinaram e mostraram como determinadas situações não estão ajustadas ao que está sendo contado nos meios de comunicação. Falei com as organizações de direitos humanos que estão nos locais. Busquei analistas que trabalham com meios de comunicação, observatórios de meios de comunicação, especialistas nos seguimentos de notícia em âmbito acadêmico. Conversei com meios alternativos que não estão tão influenciados por interesses publicitários ou de grupos econômicos empresariais.

Você acredita que existe uma espécie de plano estabelecido entre os diversos meios para desinformar ou as coisas acontecem de forma mais natural e automática, como sendo uma espécie de ação de imprensa que vai se estabelecendo?

Não é um plano desenhado, mas parte da evolução espontânea do mecanismo de funcionamento dos meios de comunicação. Seguindo a ideia: meios de comunicação são propriedades de grandes grupos empresariais. Interesses econômicos de grandes empresas multinacionais pedem grandes investimentos em publicidade. Políticos liberais que não gostam de políticas progressistas reagem em conjunto com estes atores. Ou seja, assim se forma um consenso para satanizar o Hugo Chávez ou para satanizar ou criminalizar a Revolução Cubana.

A grande imprensa não se reúne para dizer: “como vamos atacar Cuba ou Chávez?”. Os interesses destes grupos econômicos é que vão atuar em consenso, sem necessidade de se coordenarem. Um exemplo claro são os países latino-americanos que passam por reformas nas leis de comunicação. A reação dos grandes meios de comunicação na Venezuela, na Argentina e no Equador foi igual. Governos que iniciam processos de democratização dos meios de comunicação, cedendo espaço aos movimentos sociais, meios independentes e imprensa livre, encontram sistemática oposição de grupos midiáticos espanhóis, bolivianos, argentinos e equatorianos. E, se amanhã houver uma iniciativa como essa no Brasil, será igual.

Mas, se por um lado não há um plano, por outro existe uma articulação dos meios, como, por exemplo, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) ou a ONG Repórteres Sem fronteira. Como é esta articulação?

Sim, eles têm mecanismos de combate comum. E é bom decifrar como operam e como não têm nenhuma legitimidade ou representatividade. Por exemplo, quando se fala da Sociedade Interamericana de Imprensa, não devemos nos cansar de explicar que se trata de uma associação patronal. Que defende as empresas e não representa nenhuma liberdade de expressão. É como se empresas que constroem estradas falassem da falta de liberdade de movimento porque estão impedidas de construírem uma estrada na Amazônia. Não, liberdade de movimento é diferente de construir estradas.

Além disso, temos que esclarecer que quando as empresas falam de liberdade de expressão, estão reivindicando o seu direito de censura. Ou seja, querem continuar com seu direito de manter o oligopólio e o controle da informação. Dizer o que pode ir ou não para a tela e chegar ao público. A Repórteres Sem Fronteiras é algo similar. Tem denunciado os jornalistas mortos no Iraque, mas muda de reação quando fala da Colômbia. Recentemente, fiz em uma entrevista com um jornalista colombiano que disse que uma vez perguntou a um representante da Repórteres Sem Fronteiras como ele considerava a liberdade de expressão na Colômbia. Ele respondeu: “Sim, é verdade que nos matam, mas na Colômbia a liberdade de expressão existe”!

Quais são os países onde a desinformação é maior? Em qual nação os meios estão mais concentrados?

Eu acredito que o país mais desinformado é os EUA, considerando a quantidade de recursos que o governo estadunidense tem para infiltrar analistas, comprar jornalistas, pressionar as linhas informativas aos seus interesses. Ademais, os lobbies das empresas, como as de armas, sobre conteúdos jornalísticos, ficou claro na guerra do Iraque. Em alguns países, as denúncias de que não haviam armas de destruição massiva ou de que era uma invasão ilegal ao país do Oriente Médio tiveram uma certa aceitação.

Nos EUA, dados de analistas e informações mostraram que a desinformação publicada a respeito da invasão era totalmente a favor da intervenção. Ao ponto em que 51% dos estadunidenses acreditavam que Saddam Hussein havia participado pessoalmente nos atentados de 11 de setembro. O que demonstra claramente que foram enganados.

Mas acredito que o país onde a desinformação levou ao enlouquecimento manipulador de maneira mais violenta e radical é a Venezuela. O livro narra exemplos impressionantes. Não só como os meios de comunicação venezuelanos tratavam o Chavéz, mas como as informações chegavam a outros países. Me lembro de uma manifestação a favor de Chávez que as televisões, ao vivo, para mostrarem que haviam poucas pessoas, filmaram a dois quilômetros de onde estava acontecendo o ato. Ou mostravam e repassavam para outros países imagens de manifestação em oposição a Chávez com imagens gravadas há anos!

Como é possível se contrapor a este poder?

Neste momento, o principal mecanismo de combate que o capital e a burguesia possuem contra os governos progressistas não é sequer a ameaça de um golpe militar, são os meios de comunicação. Já conseguiram coisas que nenhuma empresa e nenhum governo conseguiram. Maior impunidade, menos controle por parte das legislações. Creio que os governos progressistas reagiram demasiadamente atrasados. Evo Morales ou o Lula passaram anos reclamando que os meios de comunicação não paravam de atacá-los e agredi-los. Apenas reclamar me parece uma política ineficaz.

Se um governo progressista é atacado, o que ele tem a fazer é desenvolver políticas públicas para evitar isso. É como em educação: se não há colégio para todas as crianças, os governos não devem vir se queixar, devem construir escolas. E estes governos devem criar políticas públicas de democratização da comunicação. Mas estes meios públicos e comunitários não podem se converter em meios de governo, presidentes e partidos. Devem ser participativos, democráticos e estar sob controle do cidadão. Esses são pontos imprescindíveis e que estão se desenvolvendo lentamente, mas com passos firmes. A Venezuela está na primeira linha de desenvolvimento de meios comunitários e públicos, à frente da Europa.

Você acredita que a esquerda, de maneira geral, já se deu conta da importância dos meios de comunicação como mecanismo de resistência à dominação das elites?

A esquerda se deu conta, ela é consciente de que tem grandes inimigos nos meios de comunicação, mas não sabe o que fazer. Durante muitos anos, a esquerda achou que deveria pactuar com os grandes meios. Organizando entrevistas coletivas, passando as informações, dando subvenção fiscais. Assim, acreditaram em um acordo com o capital, pensando que ele os poderiam deixar governar. A esquerda tradicional, seja em governos progressistas ou em partidos políticos, precisa compreender que não há pacto possível. Os grandes meios somente hipotecam espaços, mas não deixarão que nada se mova. O que devemos buscar é uma revolução midiática. Pois o dilema da mídia é o mesmo dilema que há em outros setores. Então, não há pacto com latifundiário, porque ele nunca vai querer perder o latifúndio, nem de terra, nem de mídia. Porque são empresas de comunicação e, por trás, grupos de empresários e um modelo econômico.

Como é o panorama da imprensa de esquerda na Espanha?

É deprimente. O México tem um excelente jornal, que é o La Jornada. No Brasil, vocês têm o Brasil de Fato, que é uma experiência muito bonita de coordenação dos movimentos sociais para ter uma publicação, o que é algo muito difícil. Na Itália, ainda há o Il Manifesto e outros ligados à esquerda. Mas na Espanha não.

* Do jornal Brasil de Fato.

(*) Entrevista publicada originalmente no sítio da revista Caros Amigos.

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Blogs fazem ‘permuta’ para driblar censura

 

Blogueiros decidem trocar informações para evitar a proibição imposta pela Justiça contra divulgação de dados
Dois blogueiros censurados pela Justiça de publicar informações sobre casos de escândalos decidiram trocar informações, publicando um a notícia do outro. Dessa forma, conseguiram furar a mordaça imposta por tribunais estaduais sem que fossem executados judicialmente. Os autores da ideia são o jornalista Fábio Pannunzio e a economista Adriana Vandoni.
Desde que foi criada no dia 14 de dezembro, a "permuta de censura" - como foi batizada - já ganhou duas adesões. A última da jornalista Alcinéia Cavalcanti, proibida pela Justiça do Amapá de publicar notícias sobre a família Sarney.
Segundo Pannunzio, jornalista da Rede Bandeirantes que mantém o Blog do Pannunzio, a proposta tem o "objetivo de preservar o interesse público e a liberdade de imprensa". "Ao mesmo tempo em que respeitamos a decisão dos juízes que nos censuraram, cujas decisões alcançam apenas o que é veiculado em cada um dos blogs, e não de terceiros", explica.
O Blog do Pannunzio está proibido pela Segunda Vara Cível de Curitiba de veicular notícias sobre Deise Zuqui, uma brasileira investigada pela Polícia Federal por suposto envolvimento com uma quadrilha de traficantes de trabalhadores.
Adriana Vandoni, que mantém o blog Prosa e Política, está proibida pela Justiça de Mato Grosso de publicar informações a respeito do presidente da Assembleia Legislativa local, José Riva, que responde a mais de 100 ações por improbidade administrativa.
No caso do Amapá, os blogueiros lembraram que "ao processar Alcinéa mais de vinte vezes, Sarney, que da tribuna do Senado afirmou que jamais processara um jornalista, transformou-se em pioneiro desse novo tipo de censura, agora decretada por juízes togados".
Também integra a rede de "permutada de censura" o blog Página do E, mantido pelo jornalista Enock Cavalcanti, também alvo de ação judicial no Mato Grosso. (Ricardo Brandt - Agência Estado)

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Os Jornais e os Operários - Antonio Gramsci

Postado: Enlace

 

É a época da publicidade para as assinaturas. Os diretores e os administradores dos jornais burgueses arrumam as suas vitrines, passam uma mão de tinta pela tabuleta e chamam a atenção do passante (isto é, do leitor) para a sua mercadoria. A mercadoria é aquela folha de quatro ou seis páginas que todas as manhãs ou todas as tardes vai injetar no espírito do leitor os modos de sentir e de julgar os fatos da atualidade política que mais convém aos produtores e vendedores de papel impresso.

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Estamos dispostos a discorrer, com os operários especialmente, sobre a importância e a gravidade daquele ato aparentemente tão inocente que consiste em escolher o jornal que se pretende assinar?
É uma escolha cheia de insídias e de perigos que deveria ser feita com consciência, com critério e depois de amadurecida reflexão. Antes de mais, o operário deve negar decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria recorda-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por idéias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma idéia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E, de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela esta preocupação. Mas o pior reside nisto: em vez de pedir dinheiro à classe burguesa para o subvencionar a obra de defesa exposta em seu favor, o jornal burguês consegue fazer-se pagar pela própria classe trabalhadora que ele combate sempre. E a classe trabalhadora paga, pontualmente, generosamente. Centenas de milhares de operários contribuem regularmente todos os dias com seu dinheiro para o jornal burguês, aumentando a sua potência. Porquê? Se perguntarem ao primeiro operário que encontrarem no elétrico ou na rua, com a folha burguesa desdobrada à sua frente, ouvirão esta resposta: É porque tenho necessidade de saber o que há de novo. E não lhe passa sequer pela cabeça que as notícias e os ingredientes com as quais são cozinhadas podem ser expostos com uma arte que dirija o seu pensamento e influa no seu espírito em determinado sentido. E, no entanto, ele sabe que tal jornal é conservador, que outro é interesseiro, que o terceiro, o quarto e quinto estão ligados a grupos políticos que têm interesses diametralmente opostos aos seus. Todos os dias, pois, sucede a este mesmo operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária. Rebenta uma greve? Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores.
O governo aprova uma lei? É sempre boa, útil e justa, mesmo se não é verdade. Desenvolve-se uma campanha eleitoral, política ou administrativa? Os candidatos e os programas melhores são sempre os dos partidos burgueses. E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador. Apesar disto, a aquiescência culposa do operário em relação ao jornal burguês é sem limites. É preciso reagir contra ela e despertar o operário para a exata avaliação da realidade. É preciso dizer e repetir que a moeda atirada distraidamente para a mão do ardina é um projétil oferecido ao jornal burguês que o lançará depois, no momento oportuno, contra a massa operária.
Se os operários se persuadirem desta elementaríssima verdade, aprenderiam a boicotar a imprensa burguesa, em bloco e com a mesma disciplina com que a burguesia boicota os jornais dos operários, isto é, a imprensa socialista.
Não contribuam com o dinheiro para a imprensa burguesa que vos é adversária: eis qual deve ser o nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pela campanha de assinaturas, feitas por todos os jornais burgueses. Boicotem, boicotem, boicotem!

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Assinou em 30 de convenções no âmbito da Comissão Cuba-Venezuela

Destinadas a reforçar a plataforma de comunicações

Radio Nacional de Venezuela é uma série de projetos para fortalecer as estações de rádio e rádio comunitária indígena nacional.

Postado: Radio Nacional de Venezuela

comunicação popular Cuba .- O ministro do Poder Popular para a Comunicação e Informação, Branco Eeckhout, informou neste sábado a 12 de dezembro em Havana, Cuba, a assinatura de 30 acordos no âmbito da Comissão Cuba-Venezuela, a cimeira da ALBA.
Ele relatou que estes acordos visam reforçar e desenvolver um processo de integração da plataforma de comunicação com o povo.
Ele mencionou que há projetos importantes como a Alba TV, um espaço de televisão meios de comunicação para a América Latina e Radiosur.
"Nós temos a força de nossa mídia, neste caso, Venezuelana de Televisão, com tudo o que vai ser a actualização, digitalizando seu filme de arquivo, que é a herança da Venezuela, e seremos capazes de alcançar uma plataforma tecnológica que nos permite acesso rápido e eficaz para toda a memória presente do país ", disse ele.
Também afirmou que ele é responsável pela promoção de meios de comunicação comunitários.
Ele reiterou que a Rádio Nacional da Venezuela, ela encontra uma série de projetos para fortalecer as estações de rádio e rádio comunitária indígena nacional.

 


Escute o relatório para RNV Alicia Herrera de Cuba (MP3 2min)
Clique para ouvir o áudio


Ouça as declarações do ministro do Poder Popular para a Comunicação e Informação, Eeckhout Branco (MP3 3 min 06 seg)
Clique para ouvir o áudio

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A internet e a cultura escrita

Danilo Albergaria

Das pequenas tábuas de argila, passando pelo surgimento do papel, ao suporte virtualizado, onde, hoje, nos expressamos, o sistema de símbolos gráficos a que damos o nome de escrita conheceu revoluções que alteraram profundamente a maneira como produzimos e trocamos informações, sentimentos e ideias. Geralmente atrelada aos recursos e condições materiais dos diferentes contextos históricos em que se desenvolveu, a escrita tornou-se protagonista de convulsões sociais, culturais e religiosas numa Europa que ainda não havia compreendido completamente os significados da revolução nas técnicas de impressão iniciada por Gutenberg.

Vira e mexe, a essa democratização sem precedentes da escrita no século XV, comparam-se as mudanças que presenciamos atualmente com a explosão da internet. Estamos no calor do momento. A Wikipedia surgiu anteontem, os blogs ontem e o Twitter, agora há pouco. Apenas os historiadores do futuro terão condições de avaliar, com alguma precisão, o que realmente está nascendo, o que, afinal, está mudando e o que desaparecerá com as constantes revoluções tecnológicas da era digital. Mas, apesar das dificuldades, pensar e indagar o presente nunca deixou de ser fundamental, principalmente se se quiser avaliá-lo criticamente e, mais importante, estabelecer formas de interação positiva com as novidades que se apresentam. Como a cultura escrita está reagindo às diferentes inovações? Como a educação, em parte responsável pelo letramento dos indivíduos, pode enfrentar problemas ou se beneficiar das dádivas digitais?

“É um fenômeno extremamente interessante, as novas variantes linguísticas que vêm sendo criadas na web, por força dos novos gêneros que nela vêm surgindo”, afirma Magda Soares, professora e pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Estadual de Minas Gerais (UFMG). Soares esclarece que fenômenos de comunicação como blogs e Twitter geram novos gêneros de escrita, mas a chamada norma culta ainda tem lugar no ciberespaço, pois “muitas revistas científicas já circulam apenas na web, a maioria dos jornais tem sua versão web, artigos acadêmicos são publicados na web”. Nessas publicações, espera-se a norma culta, “e os leitores desses gêneros de texto são os que controlam a qualidade deles”, completa. Os novos gêneros surgidos na internet, como o e-mail e as salas de bate papo, têm padrões de adequação linguística diferentes da norma culta. O que não quer dizer, segundo Soares, que haverá mutações radicais na linguagem escrita: “As pessoas, em geral, sabem, em parte intuitivamente, em outra parte por efeito da escolarização, que é preciso adequar a variante linguística ao gênero”, explica.

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Imagens do 15º Curso do NPC

 

Até o ano que vem!

Postado: blog do NPC

O 15° Curso Anual do NPC acabou e já deixou saudade!

O encerramento aconteceu numa sessão do projeto Domingo é dia de cinema, no CineOdeon, Centro do Rio. O filme exibido foi o Linha de Passe e contamos com a presença especial do diretor, Walter Salles. O filme por si só já é sensacional, mas o debate que contou também com João Pedro Stedile, do MST, Marcelo Freixo, deputado estadual e MC Leonardo, funkeiro, tornou essa manhã ainda melhor.

No final ainda tivemos uma palhinha da música do MC que cantou o rap “Tá tudo errado”.

Depois do almoço chegou a hora de voltar cada um pro seu canto do Brasil.

Para os participantes e palestrantes só temos a dizer que foi um enorme prazer receber a todos. Fazer tudo acontecer dá bastante trabalho, mas viver tudo juntos com vocês garante a satisfação.

Até o ano que vem!

 

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Mario e Sheila na abertura do Curso do NPC

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José Arbex

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Pascual Serrano

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Virgínia Fontes

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Jongo da Serrinha

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Renato Ortiz

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Mesa de Cultura e Identidade Nacional

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Altamiro Borges, Sheila Jacob e Denis de Moraes

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Participantes do 15º Curso

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Vito Giannotti

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Comunicação de resistência e hegemonia

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Hamilton de Souza, Raimundo Pereira, Reginaldo

Moraes, Renato Rovai e Alípio Freire

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Rogério Almeida, Venício Lima e Cristian Goes

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Lalo Leal, Marcos Dantas e Arthur Willian falam sobre

o direito à informação e a Confecom

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Teatro da Maré

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Beto Almeida, Kátia Marko e Maria Lucia Fatorelli

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Oficina com Vito Giannotti

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Alunos do NPC no CineOdeon

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Debate sobre o filme “Linha de Passe”. Encerramento

do 15º Curso do NPC no Domingo é Dia de Cinema.

João Pedro Stedile, Marcelo Freixo, Walter Salles

e MC Leonardo.

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Walter Salles e MC Leonardo.

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PF investiga propina para "Palácio Band": a casa caiu!

*Rodrigo Vianna
A ‘Folha’ ficou tão preocupada em acusar Lula de ‘molestador sexual’ que, na última sexta, ‘esqueceu’ de dar uma notícia importante: as propinas que teriam sido pagas a políticos do PSDB em São Paulo, pela (empreiteira) Camargo Corrêa. Esse é o Castelo de Areia? A Camargo Corrêa ajudou Serra a consertar encanamento do "Palácio Band"?
O "Estadão" deu a notícia antes da "Folha". Saiu aqui:
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,documentos-indicam-mesada-de-empreiteira-a-politicos,473013,0.htm
Foi tudo investigado pela PF, na "Operação Castelo de Areia".
Atenção: não confundir com o caso que envolve o governador do DEM em Brasília:
http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/arruda-o-chorao-amigo-da-veja-esta-sob-suspeita
"Castelo de Areia" é outro caso. E muito mais importante, porque afeta o núcleo de poder do Serra.
Por coincidência, o ataque a Lula na "Folha" saiu no mesmo dia em que a PF concluiu a investigação sobre a "Castelo de Areia".
A "Folha" deu a noticia com um dia de atraso, porque estava empenhada em provar que Lula é um ‘molestador sexual’….
Tanto "Folha" como "Estadão" esconderam o fato principal. Na planilha das propinas, aparece uma indicação importante: doações ao "Palácio Band".
Veja como o "Estadão" descreve o fato: "Em outro arquivo, página 18, valores ao lado da expressão "Palácio Band" - 4 anotações, entre 8 de fevereiro e 30 de setembro de 1996, somando US$ 45 mil, ou R$ 46.165. Na última planilha, página 54, na coluna "Diversos" constam nove registros, um assim descrito: "14 de setembro de 1998, campanha política, Aloísio Nunes, US$ 15.780."
Ora. Imaginem se aparecesse uma planilha com a indicação "Palácio Planalto"? Imaginem! Estaria nas manchetes, durante semanas.
"Palácio Band" vocês acham que é o quê?
A sede do governo paulista fica no Palácio dos Bandeirantes. Lá, vive o chefe da imprensa paulista.
Aloysio Nunes Ferreira nós sabemos quem é: chefe da Casa Civil de Serra.
Imaginem se fosse a Dilma? Estaria na manchete.
Leiam o texto do "Estadão", e reparem como a notícia saiu bem escondida…
"Documentos indicam mesada de empreiteira a políticos"
"SÃO PAULO - A Polícia Federal (PF) concluiu a Operação Castelo de Areia - investigação sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro envolvendo executivos da Construtora Camargo Corrêa - e anexou ao relatório documento que pode indicar suposto esquema de pagamentos mensais a parlamentares e administradores públicos e doações "por fora" para partidos políticos. O dossiê é formado por 54 planilhas que sugerem provável contabilidade paralela da empreiteira. Elas registram dados sobre 208 obras e contratos da Camargo Corrêa entre 1995 e 1998, espalhados por quase todo o País e também no exterior - Bolívia e Peru.
Os repasses teriam ocorrido naquele período em favor de deputados federais, senadores, prefeitos e servidores municipais e estaduais. Em quatro anos a empreiteira desembolsou R$ 178,16 milhões. Em 1995, segundo os registros, ela pagou R$ 17,3 milhões. Em 1996, R$ 50,54 milhões. Em 1997, R$ 41,13 milhões. No ano de 1998, R$ 69,14 milhões. O que reforça a suspeita de caixa 2 é o fato de que os números alinhados aos nomes dos supostos beneficiários estão grafados em dólares, com a taxa do dia e a conversão para reais.
O Ministério Público Federal (MPF) poderá requisitar à Justiça o envio à Procuradoria-Geral da República dos dados referentes a autoridades que detêm prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Outra medida será a abertura de vários inquéritos para investigar as obras.
"Eu não conheço o documento, portanto não posso me pronunciar", disse o criminalista Marcio Thomaz Bastos, que coordena a defesa da Camargo Corrêa. Ele observou que o processo e o inquérito correm em segredo de Justiça. "É preciso lembrar que nessa mesma operação já foram divulgadas listas de nomes que depois se verificou dizerem respeito a doações absolutamente legais, declaradas à Justiça Eleitoral."
Planilhas
Na página 54, há quatro lançamentos em nome do deputado Walter Feldman (PSDB-SP). Cada registro tem o valor de US$ 5 mil, somando US$ 20 mil entre 13 de janeiro e 14 de abril de 1998. À página 21, outros 12 lançamentos associados ao nome Feldman, entre 26 de janeiro e 23 de dezembro de 1996 - US$ 5 mil por mês. O deputado indignou-se com a citação a seu nome.
Em outro arquivo, página 18, valores ao lado da expressão "Palácio Band" - 4 anotações, entre 8 de fevereiro e 30 de setembro de 1996, somando US$ 45 mil, ou R$ 46.165. Na última planilha, página 54, na coluna "Diversos" constam nove registros, um assim descrito: "14 de setembro de 1998, campanha política, Aloísio Nunes, US$ 15.780." Em 10 de novembro de 1995 o então senador Gilberto Miranda teria recebido US$ 50 mil.
A planilha "CPA", página 14, revela quatro pagamentos em 1996, todos supostamente destinados a partidos, denominados "clientes". Os destaques são de 21 de março, US$ 20 mil para "líder do PMDB, Milton Monti"; 19 de julho, US$ 200 mil para PMDB-PFL; 24 de julho, US$ 200 mil para PSDB-SP; 13 de setembro, US$ 270 mil para PSDB/PMDB/PFL/PPB. Em 1998, mostra outra planilha "CPA", foram pagos US$ 1,52 milhão em 10 parcelas a PSDB, PFL, PMDB, PPB e PTB. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo".
(*Rodrigo Vianna, do Blog "O Escrevinhador", para o Portal Vermelho - www.vermelho.org.br)

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Carta a um jovem internauta

Frei Betto*

Sei que você passa longas horas no computador navegando a bordo de todas as ferramentas disponíveis. Não lhe invejo a adolescência. Na sua idade, eu me iniciava na militância estudantil e injetava utopia na veia. Já tinha lido todo o Monteiro Lobato e me adentrava pelas obras de Jorge Amado guiado pelos "Capitães de areia".

A TV não me atraía e, após o jantar, eu me juntava à turma de rua, entregue às emoções de flertes juvenis ou sentar com meus amigos à mesa de uma lanchonete para falar de Cinema Novo, bossa nova - porque tudo era novo - ou das obras de Jean Paul Sartre.

Sei que a internet é uma imensa janela para o mundo e a história, e costumo parafrasear que o Google é meu pastor, nada me há de faltar…

O que me preocupa em você é a falta de síntese cognitiva. Ao se postar diante do computador, você recebe uma avalanche de informações e imagens, como as lavas de um vulcão se precipitam sobre uma aldeia. Sem clareza do que realmente suscita o seu interesse, você não consegue transformar informação em conhecimento e entretenimento em cultura. Você borboleteia por inúmeros nichos, enquanto sua mente navega à deriva qual bote sem remos jogado ao sabor das ondas.

Quanto tempo você perde percorrendo nichos de conversa fiada? Sim, é bom trocar mensagens com os amigos. Mas, no mínimo, convém ter o que dizer e perguntar. É excitante enveredar-se pelos corredores virtuais de pessoas anônimas acostumadas ao jogo do esconde-esconde. Cuidado! Aquela garota que o fascina com tanto palavreado picante talvez não passe de um velho pedófilo que, acobertado pelo anonimato, se fantasia de beldade.

Desconfie de quem não tem o que fazer, exceto entrincheirar-se horas seguidas na digitação compulsiva à caça de incautos que se deixam ludibriar por mensagens eróticas.

Faça bom uso da internet. Use-a como ferramenta de pesquisa para aprofundar seus estudos; visite os nichos que emitem cultura; conheça a biografia de pessoas que você admira; saiba a história de seu time preferido; veja as incríveis imagens do Universo captadas pelo telescópio Hubble; ouça sinfonias e música pop.

Mas fique alerta à saúde! O uso prolongado do computador pode causar-lhe, nas mãos, lesão por esforço repetitivo (ler) e torná-lo sedentário, obeso, sobretudo se, ao lado do teclado, você mantém uma garrafa de refrigerante e um pacote de batatas fritas…

Cuide sua vista, aumente o corpo das letras, deixe seus olhos se distraírem periodicamente em alguma paisagem que não seja a que o monitor exibe.

E preste atenção: não existe almoço grátis. Não se iluda com a ideia de que o computador lhe custa apenas a taxa de consumo de energia elétrica, as mensalidades do provedor e do acesso à internet. O que mantém em funcionamento esta máquina na qual redijo este artigo é a publicidade. Repare como há anúncios por todos os cantos! São eles que bancam o Google, as notícias, a wikipédia etc. É a poluição consumista mordiscando o nosso inconsciente.

Não se deixe escravizar pelo computador. Não permita que ele roube seu tempo de lazer, de ler um bom livro (de papel, e não virtual), de convivência com a família e os amigos. Submeta-o à sua qualidade de vida. Saiba fazê-lo funcionar apenas em determinadas horas do dia. Vença a compulsão que ele provoca em muitas pessoas.

E não se deixe iludir. Jamais a máquina será mais inteligente que o ser humano. Ela contém milhares de informações, mas nada sabe. Ela é capaz de vencê-lo no xadrez - porque alguém semelhante a você e a mim a programou para jogar. Ela exibe os melhores filmes e nos permite escutar as mais emocionantes músicas, mas nunca se deliciará com o amplo cardápio que nos oferece.

Se você prefere a máquina às pessoas e a usa como refúgio de sua aversão à sociabilidade, trate de procurar um médico. Porque sua autoestima está lá embaixo e o computador não haverá de encará-lo como se fosse um verme. Ou sua autoestima atingiu os píncaros e você acredita que não existem pessoas à sua altura, melhor ficar sozinho.

Nas duas hipóteses você está sendo canibalizado pelo computador. E, aos poucos, se transformará num ser meramente virtual. O que não é uma virtude. Antes, é a comprovação de que já sofre de uma doença grave: a síndrome do onanismo eletrônico.

*Frei Betto - Autor do livro de contos "Aquário Negro" (Agir), entre outras obras

(Publicado em: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=42676)

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Carta a um militante e experiente internauta

*Ronaldo Tamberlini Pagotto

Acabo de ler um artigo que circulou pela internet (Carta a um jovem internauta), e o que seria mais um chamou a atenção pelo tema e autoria. Um texto sobre o uso corriqueiro da internet por jovens e assinado pelo Frei Betto. A leitura primeiramente gerou questionamento da autoria e se não seria mais um caso da circulação de textos que indicavam a autoria para ganhar o mundo à custa dos “autores”.

O texto se volta para uma problemática da juventude em tempos atuais, os efeitos de uma crise profunda de paradigmas, referências, sonhos e horizontes. Esse que escrevo é para dialogar com as idéias do original, num propósito de debate e saudável polêmica sobre os pontos gerais que a temática enseja.

O texto

O texto foi redigido em forma de um diálogo / conselho, mais usual para a relação pais e filhos; professores e alunos; etc. partindo de uma leitura da realidade de certo perfil de jovem (que não se sabe ser um jovem de idade, ou um recém iniciado nas turbulentas navegações da rede mundial), definido pelo texto da seguinte forma, na primeira mensagem que isso fica claro:

“Sei que você passa longas horas no computador navegando a bordo de todas as ferramentas disponíveis.”

Adverte a esse interlocutor e comparando com os idos tempos do autor sobre o mau uso do tempo, que comparando com sua (do autor) época sugere que o fazia com coisas mais interessantes, ricas, úteis (?), valorosas, etc. e prossegue alertando que com essa ocupação adquiria a capacidade de “falar de Cinema Novo, bossa nova, ou das obras de Jean Paul Sartre”, sendo esta uma capacidade incrível se observada à situação do jovem de hoje, pressupõe. Nas palavras do autor:

“Não lhe invejo a adolescência. Na sua idade, eu me iniciava na militância estudantil e injetava utopia na veia. Já tinha lido todo o Monteiro Lobato e me adentrava pelas obras de Jorge Amado guiado pelos "Capitães de areia"”.

Na seqüência ressalta que o uso por longos períodos e de maneira aleatória (idéia da Nau a deriva) resultaria numa incapacidade de pensar o que lê-vê-ouve (internet tem essas três dimensões), alcançando uma "falta de síntese cognitiva”, provocada pela “avalanche de informações e imagens”. Admite desconhecer o que suscita o interesse desse jovem internauta, apenas sabendo dizer que isso levaria a um tipo de incapacidade, a de “transformar informação em conhecimento e entretenimento em cultura”. Prossegue indicando conhecer a rotina e que seria uma navegação em um “bote sem remos ao sabor das ondas” em alusão ao uso comum do termo “navegação” para isso que se faz a bordo de um computador e conectado ao mundo por uma rede.

Prossegue com uma pergunta – que aparenta retórica - sobre o tempo que esse “jovem internauta” passa em “conversa fiada”, e insiste na advertência de que para se trocar mensagens na rede mundial esse sujeito deveria “ter o que dizer e perguntar”. Navegando por mundos desconhecidos e ao mesmo tempo com tamanha precisão continua, e evoca conceitos que mais lembram a desvios de conceitos, como na passagem seguinte que nos remete aos tempos das leis “anti-vadiagem”, ao sugerir para esse jovem desconfiar de “quem não tem o que fazer”. E segue com uma ilação de que não deve (o tal jovem) se iludir com “mensagens eróticas”.

Na seqüência inicia uma orientação mais genérica e amiga. Propõe que esse jovem “use-a (internet) como ferramenta de pesquisa… para aprofundar seus estudos, visite nichos (seriam os sites em inglês ou sítios em português) que emitem cultura; conheça a biografia das pessoas que você admira”. Nessa sugestão geral escorrega ao sugerir o estudo da biografia das pessoas que o tal interlocutor, com tantas incapacidades e tão influenciado, gosta. Uma rede que oferta a biografia de pessoas bastante consultadas… Hitler, Napoleão, Bin Laden, etc. Ou a história de diversas organizações, como a Ku Klux Klan, Cia, FBI, etc. Fecha esse parágrafo com a indicação de audição musical de “sinfonias e músicas pop”. Há um claro sinal de conhecimento da realidade da juventude, especialmente da juventude que “passa horas a frente de um computador”.

Ainda na linha das orientações, parte para uma com conteúdo mais de saúde pública (saúde mental será em seguida). Propõe o aumento da letra da tela do computador para evitar problemas com a visão, e observa em tom de alerta a associação dessa atividade com o que seria um kit obesidade (nas palavras do autor): “refrigerante e pacote de batatas fritas” sempre ao lado do micro.

Após essa parte mais orientadora entra numa seara ainda mais complexa. A do uso da internet pelas estruturas da publicidade e estimulo ao consumo desenfreado, e o comentário é para chamar a atenção para os milhares de símbolos que saltam a tela de qualquer usuário.

Prossegue e faz um apelo em tom amigo para que o jovem “não se deixe escravizar pelo computador. Não permita que ele roube seu tempo de lazer, de ler um bom livro (de papel e não virtual), de convivência com a família e amigos”. E indica que ele (interlocutor) deve submeter o computador à sua “qualidade de vida”. E parte para a parte mais psicológica “vença a compulsão que ele provoca”. Usou um conceito complexo, que sugere ser a intensificação das manifestações já apontadas: compulsão.

A última parte do texto guarda um fim trágico. Há uma clara revolta que leva o nosso autor a um tom ofensivo. Sugere – por conta e risco – que o tal “jovem internauta”, indagando-o já como quem submete a um sermão: “Se você prefere a máquina as pessoas e a usa como refúgio de sua aversão à sociabilidade, trate de procurar um médico”. Duro e direito. Aquele jovem do diálogo agora já recebe uma receita: vá ao médico. Faz uma suposição de que a auto-estima do interlocutor estaria “lá embaixo” ou “atingiu os píncaros” e nesse caso último recomenda que seja melhor ele “ficar sozinho”.

Conclui o breve artigo como um arauto da anunciação do mal do computador afirmando, ao se dirigir finalmente ao tal jovem: “você esta sendo canibalizado pelo computador”. Esse computador, maléfico, agora também com características canibais (tenho dúvidas se seria esse o termo para designar a criatura devorando o criador). E que esse “jovem internauta” aos poucos “se transformará num ser meramente virtual”. E que isso seria a comprovação de que esse - a quem dirige o artigo - “sofre de doença grave”.

O artigo, sobre um suposto jovem, afeito aos prazeres da navegação, passou por orientações, recomendações, dicas, alertas e conclui com um prognóstico binário: ou doente de baixa auto-estima, ou por excesso de auto-estima.

Algumas reflexões sobre o texto e o tema

É dos antigos a idéia de que o médico que não sabe da doença e do doente, não tem como ajudar na cura. O resultado não pode fugir de dar remédio trocado, confundir a causa e as conseqüências, e no mais das vezes pode agravar o quadro, matar ou até deixar doido.

Outro ensinamento, esse de origem militar, é que se não sabes para onde correr, veja de onde vem o tiro, porque prá lá é para onde não podes ir. Depois vejam quem atira, para que não cometa o erro de se aliar com inimigos e o pior – atirar nos seus. Com isso organize sua ação, seja uma fuga “bate-perna”, uma contra ofensiva e até rendição.

O artigo me causou perplexidade e esta foi agravada pela autoria. Frei Betto, com uma história de luta que deve ter a minha idade, autor de livros importantes, dentre ele “Fidel e a Religião”, com um papel fundamental na disputa das idéias sobre a nossa América Latina, e que nos ajudou a entender – dentre outros – o papel do sonho, da publicidade e desse desejo de consumo na ruína do leste europeu.

O texto se dirige a um jovem, pressupondo – pelo tom – certa situação universalizante, quase combinando a idéia de jovem com internauta, num país em que a grande maioria dos jovens é carente de acesso a internet, assim como a maioria das “novidades” tecnológicas, sendo essa carência da realização do consumo, e não da universalização do seu desejo, esse que atinge a totalidade do povo.

De fato muitos passam horas na rede mundial, a deriva ou não, permitindo comparar – com as devidas diferenças – o que fazia seus antepassados, ao sentar-se na beira de uma estrada, sobre uma porteira, na praça, nas entradas da cidade ou nos portos a espera de novidades de toda sorte, notícias, novas histórias, informações úteis, curiosidade, mentiras, oportunidades e, sobretudo possibilidades.

O texto parte avança na generalização dos pressupostos e resultando no mais puro e cristalino pré-conceito. Sua origem e matriz é o desconhecimento da realidade. Com esses pressupostos, nalguns momentos em tom agressivo, se propõe a dialogar com esse “jovem internauta” doente, e desconsidera a realidade do nosso país, tão dedilhada pelo autor na sua longa trajetória de caminhada. Uma realidade em que a classe dominante exerce um controle com mão de ferro, seja na sua dimensão da força, do uso do Estado, do medo como mecanismo para manter a dominação e induzir o consumo, etc. seja no aprimoramento dos mecanismos ideológicos de dominação e na intensificação da exploração econômica, que nesse ponto, recai sobre os mais jovens com mais força. Desemprego, subemprego e os baixos salários, resultando que na capital do estado de São Paulo, as áreas que mais vem crescendo no emprego de jovens (sem contar as mais declaradamente ilegais) são absolutamente agressivas com a vida e o futuro: telemarketing, segurança privada, motoboys e toda sorte de trabalho com estética (este para as jovens mulheres). E uma cidade com milhões de jovens, e uma absoluta ausência de políticas para suas necessidades mínimas da cultura, lazer, esporte, com insuficientes praças para se espairecer, bibliotecas, programas culturais, teatro, cinema, circo…

Recordo-me de um coletivo de jovens da Casa de Cultura do Jardim São Luis (zona sul de SP), indagados sobre seus gostos e atividades culturais que gostavam advertiam, em coro “o cinema mais próximo daqui fica a 10 km, tem um preço muito alto e ainda quando vamos nos olham com reservas, quando não com perguntas, revistas e sendo seguidos”.

A internet, o computador, os chats, orkuts, etc. são utilizados em demasia, os números indicam. E será que o problema está no jovem? Seria uma falta de “espírito revolucionário e utópico”? Seria o mal de uma geração nova? Ou demonstrações dos tempos atuais, de crise da humanidade, que para o nosso povo é uma crise permanente? Seria possível esperar encontrar um jovem leitor de Sartre, com uma educação pública como a nossa? Formal, bancária, autoritária, que prima pelos números de “egressos” que concluem e não sua condição. A culpa é do jovem? Ou seria do professor? Parece-nos que de nenhum dos dois.

E a falta de curiosidade para as manifestações culturais de “nível superior” seria um problema de nascimento? Da internet e do Hannibal Lecter da DELL? Ou uma das heranças mais fortes da nossa classe dominante, um reflexo do que ela é: ignorante, babona da Europa e USA, leitora de poucos livros, que aprecia o que vem da indústria cultural, etc.?

Seria essa compulsão uma manifestação da doença do jovem? Ou uma absoluta capacidade do mercado de se apropriar das angústias mais íntimas, de problemas psicológicos graves, de todo o conhecimento da psicanálise para uso nas propagandas, na publicidade, no estimulo ao sonho, ao sonho pequeno? A capacidade da sociedade capitalista é de conviver com a socialização dos desejos e sonhos e a privatização da sua realização e consumo. E numa situação em que a publicidade avança sobre um jovem em formação, que recebe do nosso mercado todos os dias uma mensagem de algo que ele deveria ter: curso de computação; experiência (isso, para um jovem de 17-18 anos); línguas; datilografia (no meu tempo); word, Excel, Access, etc.; morar perto; boa aparência (escondendo a discriminação); escolaridade – ensino médio, superior, etc.; ter boa dicção; facilidade de relacionamento; não ter passagem pela polícia, nem nome sujo nos órgãos privados de controle do crédito, etc….ou seja, exigências que quase nenhum patrão alcançaria. E essa publicidade acolhe esse jovem, cheio de informações sobre o que “ele não é, não tem, não faz, não será, não isso e não aquilo” e planta a realização. Dialoga com o inconsciente e subconsciente. Mensagens certeiras.

E uma sociedade assentada sob o signo da exclusão, com uma crise que leva o nosso país a uma incerteza: que país estamos construindo? Que futuro nos espera? Esse país agro-exportador não é aquele de 1850 da lei de terras? Respostas diferentes para sonhos diferentes. E não seria uma crise dessa dimensão, recaindo numa sociedade que vive sendo provocada a ter medo, ao pânico, porque esse mercado que comemora o fim dos muros, aprendeu a levantar muros ainda mais altos e a uma lição que se tornou uma regra de ouro: o medo, a ansiedade, o temor, resulta numa luta pela vida e esta em grande parte passa pelo consumo.

E uma sociedade que apresenta uma perspectiva de futuro tão limitada a poucos, projeta esse jovem a uma luta e concorrência para ter um lugar ao sol – quando muito, que no fundo vive de rebaixar os horizontes do sonho a coisas mínimas, e no fundo não apresentando nenhuma perspectiva de futuro. E uma sociedade que congela o futuro no presente, que acaba com o sonho, pode esperar qualquer coisa dos seus jovens. As relações são funcionais, úteis. Essa sociedade doente transmite essa doença para todos, e resulta grande parte numa juventude com muitas dificuldades para se encontrar, e nisso o mundo virtual é um refúgio, portanto, se trata de mais de um sintoma do que causa.

A história da humanidade tem passagens difíceis em que o sonho se refugiou em utopias nostálgicas, em utopias longínquas e a nossa na utopia do eterno presente. Marcuse, ao tratar desse tema, refere-se ao que ocorreu na Europa nos tempos da peste negra e guerras, daquilo que ficou conhecido como o renascentismo, como a busca de transferir para a arte o que não era possível viver na realidade. A arte foi o refugio da racionalidade, do sonho e de uma “outra” realidade.

Em meio a um dos momentos mais trágicos da história da humanidade, Rosa Luxemburg, em plena primeira grande guerra, provocada por nações imperialistas e arrastando o povo – e o jovem proletariado – para a carnificina, a matança entre si, e a uma das mais catastróficas traições das organizações revolucionárias da II Internacional, em uma carta a Mathilde Wurm[1]

“A massa é sempre aquilo que precisa ser, de acordo com as circunstancias, e esta sempre pronta a se tornar outra do que aquilo que parece.(…) A decepção com as massas é sempre o mais vergonhoso testemunho para um dirigente político”.

Um tema complexo exige muito trabalho para o aprofundamento do conhecimento da realidade, dos fatores mais determinantes, dos setores que atuam por detrás das cortinas, e a quem de fato interessa essa situação. O quadro da juventude brasileira não é para um médico. Esse mesmo jovem, hoje bombardeado pelos instrumentos de dominação, para mudar esse quadro terá que se levantar e lutar. E como nos ensina a história, sua condição atual (que permite múltiplas caracterizações) não é hermética ou capaz de fechá-lo por muito tempo. Como qualquer modelo de dominação ideológica-política, semeia também as próprias contradições, estas que alimentam a indignação e se conformarão na tempestade que arrebatará a tudo. Assim cremos. Assim desejamos.

E que essa geração, hoje muito diferentes dos jovens de outrora, seja capaz de mudar a si e ao mundo, deixando para as vindouras um mundo melhor do que o nosso. Essa é a condição para que as futuras leiam Sartre, gostem de música clássica, do bom cinema, etc. E sabe-se lá o que serão os clássicos, o bom cinema e os Sartres. Esperamos que sejam melhores do que os nossos, mais humanos, alimentem sonhos muito maiores e semeiem uma realidade justa, fraterna, democrática e de seres humanos verdadeiramente livres.

[1] Datada de 16 de dezembro de 1917.

(*Ronaldo Tamberlini Pagotto – Militante da Consulta Popular em São Paulo)

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O Internauta e o profeta

*Márcio Amêndola de Oliveira

Quando visitei pela primeira vez um acampamento do MST, há alguns anos (não me lembro qual assentamento no interior paulista), o que mais me admirou foi a barraca da educação, uma escola improvisada onde as crianças, filhas dos acampados, recebiam as primeiras letras. Lembro-me do brado com que fomos recebidos, algo como "Ocupar, ocupar, o latifúndio do saber", ou algo assim (os camaradas do MST me perdoem pela imprecisão).

Também sem ser preciso (poderia buscar no Google as citações pra não errar, né?), sei que Lênin dizia que não devemos destruir a cultura burguesa, mas nos apropriar dela. Assim, não há incompatibilidade entre uma criança favelada e aulas de balé (que o digam algumas crianças de favelas do Rio de Janeiro que tiveram a oportunidade de ir à Rússia, estudar no Bolshoi). Isto, é claro, não invalida de forma alguma todas as práticas de cultura popular, do maracatu, do baião, da capoeira, do samba de roda, do pagode na laje, do hip-hop, da MPB, entre outras manifestações culturais. A experiência humana é tão rica, e temos tão pouco tempo…

Li com afinco os artigos dos camaradas Frei Betto e Ronaldo Pagotto. Concordo em demasia com as considerações do segundo, nem tanto com as do nosso bravo frei de tantas lutas. Meu pitáculo nesta questão da Internet e seus ‘interneteiros’. Estamos diante de uma forma de comunicação avassaladora, de novo tipo. O novo assusta e nos retrai (principalmente a nós, os velhos ‘cinquentões’ pra mais). Mas esta nova modalidade de comunicação é assustadora e fascinante ao mesmo tempo. Pro escambau quem inventou este tal de ‘wwww’. Era uma ferramenta para a CIA, NASA, para o US State Department, para o FBI, ou para as grandes corporações capitalistas? Que importa…

A Internet tornou-se rapidamente no território mais livre do planeta, em que pesem todos os mecanismos de controle e tentativas de cerceamento de seu uso. Conheço militantes de esquerda que se recusam a usar a web sob o argumento de que sempre alguém está nos vigiando na Internet, coletando nossos dados, preparando o ‘bote’ pra nos perseguir e eliminar, numa espécie de Big Brother (não aquele da Globo, mas o da ficção de George Orwell, ‘1984′) que tudo vê, tudo pode e tudo controla.

Se eu fosse pensar sobre isto antes de sair de casa, antes de assinar um cheque, antes de dar meu CPF para receber a ‘Nota Fiscal Paulista’, meus amigos, não sairia de casa nunca mais! Estamos expostos, e pronto. Isto é um fato. Mas fazer o quê, caras pálidas? Nos retrair, ou usar as armas do inimigo, responder fogo contra fogo?

Conheço hoje, ao menos duas ou três centenas de Sites, Blogs, Orkuts, Twitters, etc etc, voltados exclusivamente para divulgação de idéias socialistas, da cultura popular, da não-violência, da luta por direitos civis, contra o racismo e a discriminação de gênero, pela Reforma Agrária, pela democratização da comunicação, enfim, uma gama de gente que não se intimidou com esta nova forma de comunicação virtual. É claro que, em escala, ainda somos poucos diante das ‘zilhões’ de propostas capitalistas, racistas e alienantes na Internet, mas ao ver que o jovem lida hoje com ‘bilhões’ de informações de baixa qualidade na web, lembro-me do famoso texto de Jorge Luiz Borges, ‘funes, o memorioso’, aquele homem que era capaz de lembrar-se de absolutamente tudo, mas era incapaz de pensar, de abstrair, de raciocinar e refletir criticamente sobre o mundo.

Os que usam a Internet como se fosse uma torre de babel, que tentam esvaziar as mentes e corações destes jovens que ficam tanto tempo expostos à telinha de um computador, para desespero de nosso querido Frei Betto, na verdade, são experiências de curta duração. Tudo o que tem baixa qualidade, não só na Internet, como na televisão, nos meios impressos de comunicação, na música, enfim, no ‘mercado’, não tem duração longa. Esta vida curta do ‘bacilo’ capitalista refletido em produtos (reais e virtuais) é justamente o germen da auto-destruição deste sistema errático. Afinal, já dizia o velho Marx, ‘tudo o que é sólido desmancha no ar’ (será que ele disse isso assim mesmo? Depois vou tirar a dúvida na Wikipédia!).

Pra finalizar quero dizer apenas que devemos nos apropriar das armas do inimigo (neste caso, a Internet) e ressignificá-las em nosso benefício, e não ficar tentando fazer um jovem ler Jean Paul Sartre debaixo de uma goiabeira, à beira de um regato. Sartre, Marx, Rosa Luxemburg, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa só chegarão aos olhos e corações de nossos queridos jovens, se conseguirmos despertá-los para "uma nova consciência e juventude". Este é um processo longo e difícil, talvez não o vejamos realizado em vida, mas temos de preparar o caminho, e a única maneira de fazer isto é no dia a dia, no ‘andar’, na luta cotidiana. Se um se levanta, aos poucos, outros se levantarão, como os galos de João Cabral de Melo Neto, ‘tecendo a manhã’ de um novo amanhã que há de vir.

(*Márcio Amêndola de Oliveira, 49, é graduando em História na USP e Coordenador de Documentação e Memória do Instituto Zequinha Barreto, aliás, ‘ancorado’ na web em: www.zequinhabarreto.org.br)

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Mutirão de Assinaturas do Brasil de Fato de 15 a 25 de novembro

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94% dos brasileiros não têm Internet com banda larga

Muito longe da banda larga para todos. Plano federal quer levar internet rápida a 80% dos municípios do País, algo hoje restrito a 5,8% dos brasileiros

 

banda larga Adianta falar em inclusão digital sem conexão veloz? Governos de todo o mundo já discutem como universalizar o acesso rápido, mas o Brasil ainda engatinha nesta questão.

Existe um Brasil que não consegue assistir a vídeos no YouTube. Que não tem perfil no Facebook, não acompanha a dinâmica do Twitter nem sonha em entrar no Google Wave. Entra no MSN, mas precisa de nove horas para fazer o download do programa – isso quando a conexão não cai. É o Brasil desconectado – ou 94,2% do nosso País.

O Banco Mundial já avisou: cada vez que as conexões rápidas aumentam em 10%, o PIB de um país cresce 1,3%. Estamos longe disso: hoje a internet banda larga no País chega a 5,8% da população.

O governo federal se prepara para lançar ainda neste mês o Plano Nacional de Banda Larga, que pretende levar internet rápida a quase 80% dos municípios brasileiros. O plano prevê a expansão do acesso com planos, segundo o ministro das Comunicações, Hélio Costa, de até R$ 9,90. A meta é expandir o acesso domiciliar – mas, segundo o coordenador dos projetos de inclusão digital do governo federal, Cezar Alvarez, “seria ingenuidade pensar em atingir o universo da população com conexões individuais”. Para ele, é preciso investir também em acessos coletivos.

O plano está sendo discutido por um grupo de trabalho interministerial. O governo ainda não revelou se a rede de banda larga será administrada por uma empresa estatal, por exemplo, mas parte dessas dúvidas devem ser sanadas hoje. A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência realiza hoje, em Brasília, um seminário internacional sobre o assunto com a participação dos ministros Hélio Costa e Paulo Bernardo (Planejamento), Ronaldo Sardenberg, presidente da Anatel, e outros especialistas internacionais. O Plano Nacional está na pauta. Segundo o coordenador do evento, Gabriel Laender, a definição do texto “já foi praticamente concluída”. “Estamos num momento de revisão e articulação final”, disse.

Não se sabe ainda qual é o conteúdo, mas as metas são ambiciosas. Augusto Gadelha, secretário de Política da Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, diz que em cinco anos a banda larga atingirá um “porcentual significativo de domicílios e todas as escolas urbanas e órgãos públicos do País”. “Poderemos estar entre os dez países com maior penetração de banda larga do mundo”.

Internet cada vez mais veloz

Uma pesquisa conjunta das universidades de Oxford, na Inglaterra, e Oviedo, na Espanha, mostrou que, neste ano, a velocidade média da banda larga aumentou 45% em comparação com o ano anterior. A Coreia do Sul, líder do ranking, tem 97% de suas residências conectadas – o que leva a uma mudança no perfil de consumo, com a mídia física sendo substituída por músicas, filmes e livros digitais. É o Japão, no entanto, o dono da web mais veloz, com conexão média de 60 Mbps.

A importância de 2009, no entanto, não está nos dados de web ultravelozes, mas na iniciativa de diversos países para que uma conexão 1 Mbps seja garantida, colocando a web no mesmo patamar de serviços básicos como água e eletricidade. Começou com o primeiro ministro inglês Gordon Brown, que anunciou um projeto para a expansão da banda larga para todos os ingleses. Depois, Finlândia e Itália foram mais longe e colocaram a banda larga como um “direito fundamental”. E tudo indica que é apenas o começo.

O mundo e a Internet rápida

Melhor custo-benefício, o Japão tem 64% de suas casas com banda larga, com velocidade média de 60 Mbps, custando US$ 0,27 por 1 Mbps.

97% do povo coreana tem acesso à banda larga (média de 46 Mbps). O país é o líder de um ranking de conexões das universidades de Oxford e Oviedo.

Melhor país da Europa em conexão, a Suécia tem penetração de 69%, custo médio de US$ 0,63 por cada 1 Mbps e velocidade média de 18 Mbps na conexão.

Devido ao tamanho do território e ao controle sobre a população, a Suíça conseguiu conectar 90% de seus cidadãos com banda larga e é o segundo melhor país da Europa no ranking.

A Finlândia, que aprovou uma lei que diz que uma conexão de 1 Mbps é “direito fundamental” de qualquer cidadão, tem 80% de penetração e média de 22 Mbps.

Apesar de também ter um projeto para a universalização da banda larga, a situação da Itália não é tão boa: 50% de casas conectadas, com média de 4 Mbps.

Nos EUA, a média de velocidade é de 4,8 Mbps e a média de preço por 1 Mbps é de US$ 3,33. Cerca de 80% das residências têm acesso à banda larga.

A velocidade média de conexão por banda larga na França é de 17,6 Mbps. Paga-se US$ 1,64 por cada 1 Mbps e cerca de 70% das casas são atendidas pelo serviço de internet rápida. (Tatiana de Mello Dias / Link - Agência Estado)

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