Arquivo de Mídia

A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas

Adorno e Horkheimer

Na opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor do ritmo de aço. Os decorativos prédios administrativos e os centros de exposição industrial mal se distinguem nos países autoritários e nos demais países. Os edifícios monumentais e luminosos que se elevam por toda a parte são os sinais exteriores do engenhoso planejamento das corporações internacionais, para o qual já se precipitava a livre iniciativa dos empresários, cujos monumentos são os sombrios prédios residenciais e comerciais de nossas desoladoras cidades. Os prédios mais antigos em torno dos centros urbanos feitos de concreto já parecem slums [cortiços] e os novos bungalows na periferia da cidade já proclamam, como as frágeis construções das feiras internacionais, o louvor do progresso técnico e convidam a descartá-los como latas de conserva após um breve período de uso. Mas os projetos de urbanização que, em pequenos apartamentos higiênicos, destinam-se a perpetuar o indivíduo como se ele fosse independente, submetem-no ainda mais profundamente a seu adversário, o poder absoluto do capital. Do mesmo modo que os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão, assim também as células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados. A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos.

Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela direção. Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis porque são aceitos sem resistência. De fato, o que explica é o círculo da manipulação e da necessidade retroativa., no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, nãoi deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia atual. A necessidade que talvez pudesse escapar ao controle central já é recalcada pelo controle da consciência individual. A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle. Elas limitam-se ao domínio apócrifo dos “amadores”, que ainda por cima são organizados de cima para baixo. No quadro da rádio oficial, porém, todo traço de espontaneidade no público é dirigido e absorvido, numa seleção profissional, por caçadores de talentos, competições diante do microfone e toda espécie de programas patrocinados. Os talentos já pertencem à indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente. A atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sitema da indústria cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. Quando um ramo artístico segue a mesma receita usada por outro muito afastado dele quanto aos recursos e ao conteúdo; quando, finalmente, os conflitos dramáticos das novelas radiofônicas tornam-se o exemplo pedagógico para a solução de dificuldades técnicas, que, à maneira do jam [improvisação jazzística], são dominadas do mesmo modo que nos pontos culminantes da vida jazzística; ou quando a “adaptação” deturpadora de um movimento de Beethoven se efetua do mesmo modo que a adaptação de um romance de Tolstoi pelo cinema, o recurso aos desejos espontâneos do público torna-se uma desculpa esfarrapada. Uma explicação que se aproxima mais da realidade é a explicação a partir do peso específico do aparelho técnico e do pessoal, que devem todavia ser compreendidos, em seus menores detalhes, como partes do mecanismo econômico de seleção. Acresce a isso o acordo, ou pelo menos a determinação comum dos poderosos executivos, de nada produzir ou deixar passar que não corresponda a suas tabelas, à idéia que fazem dos consumidores e, sobretudo, que não se assemelha a eles próprios.

Se, em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade, química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. Eles têm que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que sua esfera na sociedade de massas ─ esfera essa que produz um tipo específico de mercadoria que ainda tem muito a ver com o liberalismo bonachão e os intelectuais judeus ─ não seja submetida a uma série de expurgos. A dependência em que se encontra a mais poderosa sociedade radiofônica em face da indústria elétrica, ou a do cinema relativamente aos bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos setores individuais por sua vez se interpenetram numa confusa trama econômica. Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha demarcatória entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria atesta a unidade em formação da política. As distinções enfáticas que se fazem entre os filmes das categorias A e B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, têm menos a ver com seu conteúdo do que com sua utilidade para a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. Para todos algo está previsto; para que ninguém escape, as distinções são acentuadas e difundidas. O fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidade serve apenas para uma quantificação mais completa. Cada qual deve se comportar, como que espontaneamente, em conformidade com seu level [nível], previamente caracterizado por certos sinais, e escolher a categoria dos produtos de massa fabricado para seu tipo. Reduzidos a um simples material estatístico, os consumidores são distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa (que não se distinguem mais dos de propaganda) em grupos de rendimentos assinalados por zonas vermelhas, verdes e azuis.

O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets [acessórios], nos filmes ao número de estrelas, á exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production [produção ostensiva], do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs [empregos] como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot [enredo] escolhido em cada caso pela direção de produção.

Socialismo e Liberdade

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Do sapato ao chapéu

do Blog do Bourdoukan de bourdoukan em 18/12/08

O presidente Lula pediu aos jornalistas para não tirarem os sapatos.

E, em tom de brincadeira, disse que eles infestariam o ambiente com chulé devido ao calor.

Foi durante a reunião dos presidentes e chefes de Estado latino-americanos e do Caribe.

A referência, naturalmente, remeteu à atitude do jornalista iraquiano que atirou o sapato no delinqüente Bush.

Engana-se o presidente.

Por dois motivos:

1- O jornalista iraquiano já faz parte da História. Sua atitude perdurará por séculos.

2- Crer que jornalista que milita na grande mídia teria coragem de tamanha bravura é ignorar o que se passa hoje com a profissão.

Jornalista que se imolou para honrar a profissão, jornalista que enfrentou regimes ditatoriais, que se sacrificou para cumprir a missão é coisa do passado.

E não é só no Brasil, não.

Isto, graças às escolas de comunicação que, ao invés de mostrar novos caminhos, domesticam.

O que facilita o trabalho dos patrões e seu sequazes, que só precisam amestrá-los quando entram na redação.

Por isso presidente Lula fique tranqüilo. Essa gente não precisa tirar o sapato para contaminar o ambiente.

Repare que ultimamente eles usam chapéus.

Nem tente imaginar o que esses chapéus ocultam.

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Os bastidores da premiação de um jornalista cubano

 

A mídia pró-Estados Unidos já está fazendo um carnaval com a premiação do jornalista “dissidente” cubano Ricardo González Alfonso (foto), ligado à organização Repórteres Sem Fronteira (RSF), detido desde 2003. O prêmio foi concedido pela próprio RSF — o que já de cara permite ver o que está por trás desta iniciativa.
González Alfonso, nascido em 1950, foi colaborador da agência Cuba Press e criador da De Cuba, primeira revista “independente” cubana. Em 1998, ele tornou-se correspondente na ilha da RSF e co-fundou, junto com Raúl Rivero, a Sociedade de Jornalistas Manuel Márquez Sterling, dedicada à formação de jornalistas “independentes”.
De Cuba, o jornalista tratou de temas como o chamado “projeto Varela”, que reivindicou uma “abertura democrática do regime”. Trata-se de uma movimento organizado pelo então chefe da seção de interesses dos Estados Unidos em Cuba, James Cason.
Em março de 2003, a Agência France Press (AFP) anunciou que cerca de 30 jornalistas participaram de um evento organizado pela “Assembléia para a Promoção da Sociedade Civil” na residência de Cason.
“Um grupo de cidadãos particulares pediu ajuda para discutir questões importantes para todas as sociedades livres e democráticas — meios de comunicação social independentes e profissionais”, disse um diplomata da seção norte-americana.
“O senhor Cason respondeu que sim, como fazem os chefes de missão dos Estados Unidos em todo o mundo, para apoiar este tipo de iniciativa importante e proporcionar uma oportunidade para que isso seja realizado”, acrescentou.
Além da Sociedade de Jornalistas Manuel Márquez Sterling, participaram do seminário a Federação Cubana de Jornalistas e a Federação dos Jornalistas Independentes Associates, segundo a AFP.
Ainda segundo a AFP, “os participantes foram divididos em subcomissões que abordaram temas como a fotografia, a relação entre jornalistas e editores, entrevistas, o conflito de interesses e de linguagem jornalística”.
Ao final do evento, os jornalistas “independentes” emitiram uma declaração condenando “a repressão das liberdades de expressão e de informação”, e chamou a atenção para “a censura existente em Cuba”.
O chanceler cubano Felipe Pérez Roque, em uma entrevista coletiva aos correspondentes estrangeiros no país, explicou, na ocasião, o que estava acontecendo. Ele disse que Cason estava desafiando as instituições jurídicas cubanas e que a missão norte-americana deveria se ater ao papel de “todas as representações diplomáticas em seu trabalho no nosso país”.
Pérez Roque mostrou um vídeo com uma entrevista de Cason em Miami. Veja um trecho:
Jornalista – Com a sua nova posição como chefe da seção de interesses dos Estados Unidos em Havana (…), o senhor tem se reunido com correntes e com dissidentes cubanos em Cuba. Já se reuniu com os dirigentes dos organismos anti-Castro no exílio também?
James Cason - Sim, duas ou três vezes. Toda vez que eu venho a Miami quero reunir com todos os grupos. Com a Fundação Nacional Cubano-Americana, com o Conselho para a Liberdade de Cuba, grupos independentes e todos os grupos daqui. Porque eu quero explicar o que tenho visto em Cuba, o que está acontecendo e ouvir os seus pontos de vista sobre aquilo que estamos fazendo para ver se há algo que devemos fazer e que não estamos fazendo.
É um diálogo muito simpático e uma das minhas mensagens é que a coisa importante em Cuba é que existe uma oposição, são isolados, perseguidos, mas são persistentes e têm muita coragem. (…) Há uma transição agora, mas lá vai ser uma nova Cuba um dia. E eles têm que assumir sua parte em formar e decidir o futuro de Cuba. Então, eles têm de conquistar seu espaço, começar a discutir o que tem de ser feito de maneira diferente para mudar Cuba (…).
Essas organizações “independentes” cubanas são braços da RFS. Com sede em Paris, ela divulga periodicamente seus relatórios sobre “prisões, assassinatos, ameaças e censuras aos meios de comunicação”. No geral, estes documentos centram seus ataques nos governos contrários à hegemonia dos Estados Unidos.
A RSF foi fundada em 1985 pelo jornalista Robert Ménard. Inicialmente, concentrou seus ataques aos países do bloco soviético — acusados de serem “autoritários e contrários à liberdade de imprensa”. Mas o seu alvo predileto sempre foi a revolução cubana. Tanto que Cuba já solicitou várias vezes sua exclusão do comitê de ONGs das Nações Unidas.
Altamiro Borges cita em coluna no Vermelho que segundo o professor Salim Lamrani, doutor pela Sorbonne e autor de um elucidativo artigo no site Resistir, “Robert Ménard sofre de uma doentia obsessão contra a revolução cubana e reúne em si todos os vícios e desmandos de que o jornalismo e os jornalistas são capazes”.
Segundo denúncia, “a RSF diz ‘defender os jornalistas encarcerados e a liberdade de imprensa. Conversa! A organização, financiada pelo milionário francês François Pinault e com a benevolência do comerciante de armas Arnaud Lagardère, fez da manipulação da realidade cubana o seu principal negócio”.
Na fase recente, a RSF também passou a satanizar o presidente Hugo Chávez, diz Altamiro Borges. Quando do frustrado golpe de abril de 2002, que teve como pivôs os principais donos da mídia venezuelana, Ménard não levantou a sua voz em defesa da “liberdade”.
Pelo contrário. Segundo reportagem dos estadunidenses Jeb Sprague e Diana Barahona, publicada na Réseau Voltaire, a RSF incentivou a brutal campanha midiática de preparação do golpe.

Texto: Por Osvaldo Bertolino, no blog O outro Lado da Not / Postado em 08/12/2008 ás 03:20

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A revista insiste em não ver

LEITURAS DE VEJA

 

Por Gabriel Perissé em 2/12/2008 - Observatório da Imprensa

A revista Veja insiste em não ver os professores com bons olhos. Com freqüência, publica matérias e entrevistas com o propósito de criar e enfatizar imagens negativas do professor, especialmente o do ensino público.

Nas páginas amarelas da edição nº 2088, a ex-secretária de política educacional do MEC dos tempos de FHC, Eunice Durham, afirma que os professores recém-saídos dos cursos de pedagogia não conseguem executar tarefas básicas e, pior, não admitem que "o ensino no Brasil é tão ruim, em parte porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função".

Ora, se eles não estão preparados, mas se são eles os profissionais que vêm reforçar os quadros existentes, o que sugere a professora Eunice? Boa parte desses professores formou-se nas faculdades particulares que surgiram nos últimos 20 anos, insufladas pela política contra a qual, diga-se de passagem, ela mesma se indispôs. Palavras dela, em 2001: "O aumento desenfreado de instituições particulares, guiadas pelo mercado e com fins lucrativos, ameaça a credibilidade do ensino no país" (Veja, nº 1713).

Muitas faculdades de pedagogia que a professora Eunice propõe serem "repensadas do zero" sobreviveram incólumes apesar das avaliações negativas do MEC ao longo das duas décadas. E são exatamente as que atraem estudantes menos escolarizados. Esses estudantes, em geral, não conseguem ingressar nas, em menor número, faculdades públicas, e não podem pagar as mensalidades cobradas por instituições privadas de medicina, engenharia, odontologia, economia, se é que desejariam freqüentá-las… São pessoas que não almejam as "melhores" vagas do mercado de trabalho, mas a função (mal remunerada) da docência. E não esqueçamos o idealismo, um tanto ingênuo, mas genuíno, na composição do perfil desse futuro professor.

Desafios de aprender

Se todos os professores tivessem salários melhores e melhores condições de trabalho, além do idealismo haveria aí um atrativo concreto. Novos candidatos, mais bem preparados, se sentiriam interessados pela carreira docente. Que estranha cegueira levará uma antropóloga com tantos anos de pesquisa e reflexão a pensar que aumentos de salário e outras históricas reivindicações dos sindicatos são apenas obsessões de corporativistas, e não questão de justiça, necessidade real para valorizar a arte de ensinar, e mesmo uma forma de exigir, em contrapartida, mais compromisso dos professores? Estará o curso de antropologia social da USP precisando também ser repensado do zero?

Que contraste (e que alívio!) ler o artigo "Como interpretar o vandalismo nas escolas?", da pedagoga Dagmar Zibas, publicado na Folha de S.Paulo (26/11/2008) e reproduzido pelo site Todos pela Educação. A autora do texto reconhece com serenidade que as reivindicações dos professores fazem parte da solução:

"Entre nós, as soluções para o fracasso do sistema público são conhecidas e se traduzem em antigas reivindicações dos educadores: adequada formação inicial e continuada dos docentes, valorização do magistério, com melhores salários e correspondente responsabilização pelo trabalho realizado, dedicação de tempo integral dos professores a um só estabelecimento, maior permanência diária dos alunos na Escola, recursos didáticos ricos e variados (laboratórios, internet, biblioteca, equipamentos esportivos, dispositivos multimídia)."

E que outro contraste (mas agora decepcionante), ao ler, de novo na Veja (nº 2089), o jovem economista Gustavo Ioschpe, já devidamente formato pela pedagogia vejiana (ver "O professorado e a `baboseira ideológica´"). Pois volta ele a retratar os professores da pior maneira possível: não estão preocupados com o aprendizado dos alunos, dão "aulas chatas", dedicam-se mais à pregação ideológica do que ao ensino, recusam-se a fazer auto-análise…

Não caiamos no erro oposto, generalizando em sentido contrário, como se os professores fossem anjos perfeitos. É sinal de honestidade intelectual admitir que há professores relapsos e irresponsáveis. Mas são a minoria, felizmente.

Nesta matéria – "Violência escolar: quem é a vítima?" –, também afirma Ioschpe que a mídia exagera, que as escolas não estão em situação tão difícil assim com relação à violência, e que "a maior vítima de agressão no nosso sistema escolar é o aluno". Uma agressão "intelectual". O articulista refere-se, logicamente, aos professores. Estes são os grandes agressores, em sua visão.

E tenta justificar o que diz, mencionando um "estudo recente da Unesco chamado `Repensando a escola´". É desse alentado estudo que vai pinçar alguns dados em busca de credibilidade e "apoio científico". Trata-se de um livro de 331 páginas, cujo título completo é "Repensando a escola: um estudo sobre os desafios de aprender, ler e escrever" e cuja coordenação coube a Vera Esther Ireland (da UFPB), orientada metodologicamente por Bernard Charlot. Logo no início, há um esclarecimento importante: o estudo não está vinculado apenas à Unesco. Sendo mais precisos, a publicação é uma parceria da Unesco no Brasil e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP-MEC).

Problema complexo

Vale a pena ler esse estudo. Acabaremos por descobrir passagens que Gustavo Ioschpe preferiu omitir (até porque dispunha de apenas duas páginas), para não atrapalhar sua argumentação. Diz Ioschpe que os professores querem culpar as famílias pelo mau desempenho dos alunos. O estudo, porém, oferece algumas considerações muito pertinentes a respeito:

Nas entrevistas, professores costumam queixar-se de que ou as famílias não cooperam com as atividades escolares de seus filhos, ou não têm condições de ajudá-los apropriadamente. Não é difícil entender que aí está uma fonte profunda de dificuldades: proporções majoritárias das gerações brasileiras anteriores receberam pouca ou nenhuma escolaridade, e de qualidade precária. Nos grupos focais com os progenitores, isto transparece de modo muito evidente. Têm dificuldade de ajudar; com freqüência nem de tempo dispõem, quando voltam, cansados, do trabalho. Tampouco os domicílios oferecem condições de tranqüilidade para tanto: muita gente convivendo, ruídos, TV ligada em alto volume, outras crianças brincando ruidosamente pela casa. E as escolas não têm espaço ou meios para proporcionar algo que possa suprir essa falta de suporte domiciliar e familiar — ou não há escolas de tempo integral, ou as poucas existentes no local se mostram insuficientes ou pouco eficientes." (pág. 220)

Ou seja, o próprio estudo mencionado pelo articulista traz informações que corroboram a complexidade do problema. E a revista Veja, vamos e venhamos, não tem condições de abordar esta complexidade com a necessária competência.

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Ausência de demanda é resultado de modelo equivocado

Jonas Valente – Observatório do Direito à Comunicação - TV digital
08.12.2008

No dia 2 de dezembro, a TV digital completou seu primeiro ano de vida no Brasil. O aniversário da primeira transmissão de sinais digitais de TV, realizada em São Paulo, foi basicamente tratado pelo Ministério das Comunicações e os radiodifusores como oportunidade para tentar colocar em evidência a nova tecnologia, que, afinal, em 12 meses não mostrou a que veio. Números do próprio setor demonstram que a implantação da TVD no Brasil ocorre em índices insatisfatórios.
A Associação de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), por exemplo, estima que até o fim do ano terão sido vendidos 470 mil conversores ou aparelhos adaptados para receber o sinal digitalizado. Isso significa que apenas apenas 0,5% da população tem hoje condições reais de aproveitar a nova tecnologia.
As razões para a baixa penetração da TV digital são várias e as declarações dadas nas últimas semanas por atores envolvidos no processo de implantação deixam clara a disputa de versões sobre o gargalo do processo. Nesta briga, ora a culpa é da oferta reduzida, ora da demanda não estimulada.
Para o ministro das comunicações, Hélio Costa, a venda reduzida de conversores seria resultado da baixa oferta deste tipo de dispositivo no mercado por parte dos fabricantes. “O que está faltando é um política industrial capaz de atender à necessidade de se produzir em grande escala o conversor de TV digital popular. Ele está sendo produzido, mas são 100 mil conversores por mês e a demanda é de mais de 1 milhão”, afirmou.
Já os fabricantes evitam incrementar a produção dos conversores sob a alegação da baixa perspectiva de venda. Para agentes do setor e para pesquisadores, a falta de interesse dos consumidores é gerada basicamente por dois fatores: o preço dos conversores e o modelo tecnológico e de negócio adotado, que não resultou na criação de novos conteúdos e funcionalidades para a boa e velha televisão.
Preço e redução de impostos
Até julho deste ano, os conversores disponíveis no mercado eram vendidos por cerca de R$ 600. A empresa Proview lançou naquele mês um modelo mais barato, anunciando reduzir o valor para até R$ 199. Passados seis meses, no entanto, o preço permanece na casa dos R$ 300. Segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador na área Marcelo Zuffo, para que o preço baixe para R$ 200 reais seria preciso um ganho de escala maior do que as 500 mil vendas. E aí se esbarra novamente no dilema: o preço não baixa porque não há escala e esta não é adquirida porque o preço mantém-se alto em um país com terrível distribuição de renda.
Em razão deste problema e na ausência de uma iniciativa do mercado, a solução deve vir com o investimento de recursos públicos na forma da redução de impostos. “Acho que o próprio governo tem espaço para reduzir impostos na área federal. Se conseguíssemos tirar o PIS e a Cofins, já teríamos aí um desconto básico de 30% no preço do conversor”, disse Costa.
Tentando apontar uma justificativa mais comportamental, Walter Duran, diretor de Tecnologia da Philips para América Latina, credita a baixa penetração a um fenômeno natural de resistência a novas tecnologias. “A população em geral tende a ser reativa a toda introdução de produtos com tecnologia inovadora. Ela demora um tempo para reagir a essa inovação; muitas vezes reage negativamente”, argumenta. Ele lembra que o DVD vendeu apenas 35 mil unidades em 1999 e, cinco anos depois, atingiu a marca de 2 milhões de aparelhos.
Problema no modelo
A comparação, no entanto, não se sustenta dentro das regras de mercado. No caso do DVD, o novo dispositivo trazia novas funcionalidades para além da melhoria na qualidade da imagem, o que criou demanda naturalmente. Em segundo lugar, a curva descendente nos preços do aparelho de DVD – que acompanha a ascensão rápida nas vendas – ocorreu porque a tecnologia foi adquirida inicialmente pelo conjunto das classes mais ricas, gerando a base para uma redução no valor para as pessoas com menor renda.
Isso se deu pelo fato de o DVD ter substituído totalmente seu antecessor, o videocassete, e não ter ainda um concorrente de peso. Além disso, diferente do padrão de TV digital adotado no Brasil, a tecnologia do DVD foi e é comercializada em escala mundial. Os equipamentos para TV digital necessários em terras brasileiras só são vendidos aqui e no Japão.
Para Gustavo Gindre, ocupante de uma das cadeiras da sociedade civil do Comitê Gestor da Internet no Brasil e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a baixíssima atratividade da TV digital se deve ao modelo equivocado adotado pelo país. A adoção do padrão japonês de modulação associada à opção de uso da nova tecnologia feita pelas emissoras não oferece ao telespectador nada além da alta definição de imagem e, por isso, esbarra na concorrência de outros segmentos que oferecem mais canais e funcionalidades interativas, como a TV paga, a IPTV e a internet.
Sem atrativos
"A TV digital aberta no Brasil é a velha TV aberta analógica, apenas com uma imagem melhor – e mesmo assim, onde não há áreas de sombras”, comenta. Gindre faz questão de frisar que “todas as grandes oportunidades de transformações foram negligenciadas em nome dos interesses dos radiodifusores” e, portanto, não há razão para que o cidadão tenha interesse em comprar um set top box. “Se ele quer serviços interativos, vai para a internet. Se quer muitos canais, vai para a TV paga (ou para o ‘gatonet’). Com isso, a penetração da TV digital aberta ainda é baixíssima e não há perspectivas dessa curva de adoção mudar nos próximos anos", analisa.
Para o professor da PUC do Rio de Janeiro Marcos Dantas, o governo federal abandonou os princípios do Decreto 4903/2003, que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD). Segundo ele, a adoção real deste princípios dariam um diferencial à nova tecnologia, como a inclusão social, a democratização da informação e o uso de funcionalidades interativas para criar uma rede de educação à distância.
Na avaliação de Nelson Wortsman, da empresa de software Brasscom, a TV digital só ganhará penetração se as pessoas virem neste meio algo que faça diferença em suas vidas e que tenha um diferencial de fato em relação aos outros.
Valdecir Becker, diretor da ITV Produções Interativas, argumenta na mesma direção. “Creio que o motivo [da baixa penetração] seja o conteúdo. Além de ainda não termos interatividade, que deve começar no primeiro semestre do ano que vem, há pouco conteúdo em alta definição. Então, mesmo para quem tem condições financeiras de ter o equipamento, o investimento ainda não está valendo a pena”, avalia.
Sem alta definição, interatividade ou mais canais
Matéria veiculada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” revela que as emissoras veiculam apenas 10% de seus programas em alta definição. Para Roberto Franco, diretor de tecnologia do SBT, “à medida que mais pessoas aderirem, elas nos forçarão a aumentar a quantidade”. Aparece aí novamente o dilema: não há oferta porque não há demanda e vice-versa.
Em relação à interatividade, o middleware Ginga, que seria a única inovação nacional no sistema dito nipo-brasileiro, permanece ainda não finalizado por conta de problemas de royalties com um de seus componentes. “O atraso [do Ginga] tem gerado um passivo de set top box não interativos”, lamenta Gustavo Gindre.
Já a ausência de um modelo que privilegie a multiprogramação dificulta a concorrência da TV digital aberta com outros serviços, que oferecem mais canais. Enquanto as emissoras públicas irão promover a multiplicação de suas programações, as comerciais, que reúnem 95% da audiência desta mídia, não devem apostar nisso.
“A multiprogramação é modelo de negócio, cada emissora determina o seu. A Globo, que tem programação ‘premium’, jamais vai trabalhar com multiprogramação, o negócio dela é alta definição. Já a TV Senado ganha com a multiprogramação, porque pode exibir o plenário em um canal e as comissões em outro, já que quando tem CPI as comissões dão muito mais ibope que o plenário", diz Carlos Fructuoso, que participa do Fórum SBTVD, espaço que congrega empresas e pesquisadores na articulação da implantação desta nova tecnologia no país.
"A TV aberta comercial tem medo de qualquer outro modelo de negócios. Portanto, falar em ‘interatividade’ ou aumento do número de programações disponíveis tornou-se um anátema no Fórum do SBTVD", reforça Gustavo Gindre. Neste cenário, não há nenhuma garantia que as classes mais ricas deverão adquirir o conversor, o que pode ocasionar em uma barreira à redução dos preços dos conversores.
Se é fato que o cronograma de início das transmissões nas cidades está sendo bem atendido - com emissoras operando nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Campinas - as dificuldades apontadas continuam como um dilema com perspectivas nada animadoras de solução. Após uma preocupação inicial com o ritmo da migração das emissoras e com o preço dos conversores, a questão volta-se novamente ao modelo adotado.
No atual, ganham as emissoras ao preservarem o espectro para si e impedirem a entrada de novos concorrentes. Mas perdem estas e a sociedade com um projeto pela metade, que desperdiça as potencialidades e, com isso, ainda permanece sob a etiqueta de curiosidade, distante da população.
* Com informações de Agência Estado, Uol Tecnologia, Infomoney e B2B Magazine.

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A mídia e a cobertura da crise

Por Luis Nassif em 3/12/2008

Reproduzido do blog do autor, 3/12/2008

Outubro foi o mês em que o mundo parou. Estava nítido no comportamento das pessoas e daqueles indicadores que captam mais rapidamente o humor da economia.

Agora, começam a aparecer os novos indicadores confirmando esse quadro. Como é o caso do Relatório sobre Produção Industrial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado na terça-feira (2/12).

A produção industrial anual caiu de 6,8% em setembro para 5,9%, em outubro. A queda é substancial, para espaço de tempo tão curto.

De setembro a outubro houve recuo em 15 dos 27 ramos pesquisados. A maior queda foi de produtos químicos – 11,6% no mês, -20,9% nos últimos três meses. Mas houve avanço em 12 ramos industriais, entre os quais os destaques foram alimentos (0,7%) e outros equipamentos de transportes (2,0%).

Dado subjetivo

Aí se entra em um ponto importante para a análise. Até setembro, o consumo e a produção vinham crescendo a um ritmo recorde para a década. A queda, portanto, foi em cima de um patamar relativamente elevado.

Por exemplo, entre janeiro e outubro o crescimento acumulado foi de 5,8%, fundado em 21 das 27 atividades pesquisadas. A liderança coube a veículos automotores, com 16% de crescimento, graças ao aumento da produção de automóveis e caminhões.

Importante notar também que as quedas de outubro foram agravadas por fatores eminentemente psicológicos, de setores que concederam férias coletivas ou paralisações técnicas não planejadas, muito mais em função do aumento da incerteza geral do que (ainda) de fatos objetivos.

Parte desse processo se deve à chamada "escandalização" da crise, promovida por grandes órgãos de imprensa. Não se pode minimizar a crise, tem que se dar a ela o devido peso. Mas, em um contexto em que o fator expectativa é relevante, a dramatização da crise acaba aprofundando a própria crise.

É um fenômeno que foi bem analisado pelo megainvestidor George Soros em seus livros. Tem-se os fatos – problemas no mercado de crédito, queda em preços de commodities, queda do nível de atividade mundial. E tem-se a avaliação sobre os fatos.

A avaliação é um dado subjetivo. Por exemplo, se um consumidor acha que a crise será muito brava e passa a temer por seu emprego, a tendência será reduzir suas compras. Reduzindo, derruba a produção e leva o empresário a demitir. Do mesmo modo, se o empresário julga que a crise será maior, deixará de investir, dará férias coletivas e demitirá. Se o banco acha que a crise será grande, tratará de reduzir seus empréstimos.

Pauta da hora

Esses movimentos não se dão em cima de dados objetivos, mas da percepção sobre o que poderá ser a crise. É aí que o papel da mídia passa a ditar as regras do jogo e poderá se constituir em um tiro no pé.

Obviamente não se trata se sonegar informações, mas de saber como tratar as notícias em ambientes nervosos. Dia desses, um jornal anunciou "fuga de dólares", pelo fato do fluxo ter ficado negativo em US$ 850 milhões – valor ínfimo, para caracterizar uma "fuga".

Uma previsão de 3% de crescimento do PIB – média superior à da década – é tratada como se fosse recessão profunda. Fatos positivos são escondidos no pé de página.

Nosso desafio, nos próximos meses, será mostrar o tamanho da crise sem enveredar pelo pessimismo estéril.

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Mello: Na TV Globo a mais-valia vale mais

Por Redação Fórum [Terça-Feira, 2 de Dezembro de 2008 às 20:41hs]

Revista Fórum

 

Foi o que descobri lendo a seguinte notícia, publicada no site do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do município do RJ (SJPMRJ):
A TV Globo continua sem pagar integralmente as horas extras feitas pelos jornalistas durante as viagens. Assim que a diretoria atual tomou posse, há um ano e dois meses, a presidente do Sindicato, Suzana Blass, e o vice-presidente, Rogério Marques, se reuniram com o gerente de relações sindicais da emissora, Edmundo Lopes, e com a diretora de negociação e remuneração, Nadia Sahade, para expor o problema. Edmundo pediu um ano para avaliar a questão e dar uma resposta ao sindicato.
No último dia 17 de novembro a diretoria do Sindicato voltou a se reunir com o gerente, numa conversa que durou duas horas. Edmundo disse que, ao longo deste ano, várias reuniões foram feitas com chefes de setores de Jornalismo e que algumas alternativas estão em estudos.
A TV Globo alega que dificilmente conseguiria solucionar o problema até dezembro, porque o ano já está acabando. Mas garantiu ser do interesse da empresa estabelecer critérios e resolver a questão o mais rápido possível, provavelmente já no início de 2009. Os jornalistas da Globo torcem por isso.
Nas viagens das equipes de reportagem pelo Brasil ou ao exterior o trabalho é puxado. As reportagens são realizadas em jornadas diárias longas, para que a viagem não se prolongue. Muitas vezes são feitas em lugares remotos e em condições extremamente difíceis. No entanto, a TV Globo se limita a pagar uma média de quatro horas extras diárias, não se sabe com base em quais critérios. Em algumas ocasiões isso significa pagar metade das horas realmente trabalhadas. A injustiça fica mais gritante se comparada à realidade do técnico de áudio (radialista) que acompanha a equipe e que – de forma correta – recebe todas as horas extras que faz. O mesmo deveria acontecer com os jornalistas.

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A imprensa periódica no século XIX

Marco Morel
Professor da UERJ e pesquisador do CNPq
Autor de “As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e
sociabilidades na cidade imperial (1820–1840)”, São Paulo: Hucitec, 2005

A imprensa periódica produzida no Brasil (uma novidade do século XIX) pode ser considerada um palpável agente histórico, com sua materialidade no papel impresso e efetiva força simbólica das palavras que fazia circular. Os agentes que a produziam e os leitores / ouvintes que, de alguma forma, eram receptores e também retransmissores de seus conteúdos, geravam o abstrato, mas com freqüência invocado, Reino da Opinião Pública. Hoje em dia é cada vez mais questionável a visão que enquadra esta imprensa apenas como uma espécie de papel sagrado ou “elitista” e desvinculado das tramas sociais.

As teias da nação

Várias redes de sociabilidade, dentro das condições da época, formaram-se pelo Brasil que buscava se constituir em nação. Diversificados foram os espaços que serviram de base para tais articulações – alguns já estabelecidos, comportando ou não transformações; outros já existentes. Grupos políticos com alguma estabilidade e identidade formavam-se baseados em vínculos diferenciados, como vizinhança, parentesco, clientela, trabalho (livre ou escravo), disputas pelos aparelhos governamentais e instâncias de representatividade, interesses materiais ou afinidades intelectuais, em torno de chefes, cidades, regiões ou sob determinadas bandeiras, que poderiam mudar com os contextos. Associações secretas, reservadas ou públicas ganham novo impulso a partir da Independência. Nesta perspectiva, a imprensa surge em vários pontos do território e abrange as diferentes regiões e províncias de Norte a Sul e de Leste a Oeste do Brasil e se constitui, ela própria, em elemento articulador dos laços nacionais.

Não se deve desprezar, dentro destes laços que se articulavam (criavam, mantinham ou refaziam), com densidades desiguais, esta forma de associação bastante específica em suas características, embora articulada com as demais teias de poder. A imprensa periódica, já presente na América portuguesa regularmente desde o século XVII, através das publicações portuguesas e de outros países da Europa, passa a ser produzida no Brasil em 1808 e se consolidaria a partir de 1821. Não se colocava como mero veículo, mas mecanismo de participação política, espaço de produção de referências e campo de embates simbólicos.

As próprias tipografias, além de local de produção gráfica dos livros, jornais, revistas e folhetos, eram ao mesmo tempo espaço de venda, de encontro entre redatores e leitores, porta de comércio de outras mercadorias, ponto de discussão política, disseminação cultural e rodas de amizade e até, eventualmente, residência do impressor, gerando assim novas significações nos espaços urbanos.

A imprensa não era apenas “atraso” e “oficial”

Uma questão recorrente na historiografia brasileira sobre a imprensa, mais particularmente sobre o surgimento dos periódicos em princípios dos oitocentos, é a ênfase no atraso, na censura e no oficialismo como fatores explicativos destes primeiros tempos da imprensa. Tais características não me parecem, em termos analíticos, suficientes para explicar a complexidade e compreender as características de tal imprensa, gerada numa sociedade em mutação, do absolutismo em crise. Sem negar aqueles três fatores, em geral mais facilmente perceptíveis até pelo acúmulo de trabalhos nesta linha, é importante acrescentar outro elemento: o de que o surgimento da imprensa periódica no Brasil não se deu numa espécie de vazio cultural, mas em meio a uma densa trama de relações e formas de transmissão já existentes, na qual a imprensa se insere. Ou seja, a imprensa periódica pretendia, também, marcar e ordenar uma cena pública que passava por transformações no âmbito das relações de poder e de suas dimensões culturais e que dizia respeito a amplos setores da hierarquia da sociedade, em suas relações políticas e sociais. A circulação de palavras – faladas, manuscritas ou impressas – não se fechava em fronteiras sociais e perpassava amplos setores da sociedade que se tornava brasileira, não ficava estanque a um círculo de letrados, embora estes, também tocados por contradições e diferenças, detivessem o poder de produção e leitura direta da imprensa.

Neste sentido, a leitura de jornais típicos do universo cultural do Absolutismo do período de D. João VI, como a Gazeta do Rio de Janeiro, Idade de Ouro do Brasil ou O Patriota não pode ser negligenciada, como se fossem papéis insípidos por estarem sob controle governamental: representam um campo de disputas e mutações, seja em sua vertente cortesã e da Coroa, comercial, científica e literária.

A pluralidade de saberes

A imprensa periódica nasceu no Brasil há quase 200 anos e os estudos já existentes sobre sua história, apesar de significativos, ainda são limitados, proporcionalmente à presença que tais expressões tiveram na sociedade. É possível incorporar ao estudo da história da imprensa não só a Literatura (crônicas, folhetins, poesias, teatro, novelas e romances), mas também a iconografia, tomando como base, respectivamente, o Romantismo, o Realismo, além das caricaturas e charges, da formação do público (inclusive feminino) e da relação entre redatores e escritores no século XIX. Delineia-se uma trajetória do aperfeiçoamento técnico pelo qual a imprensa passou para que fosse possível publicar imagens cada vez mais aperfeiçoadas em suas páginas, num discurso visual.

A imprensa impunha-se como uma vigorosa forma de retórica, seja em reforço de tribunas já existentes, seja ela própria como palco. O pensamento político é marcante em suas páginas, não apenas como reflexo de idéias já definidas, mas como espaço de produção de concepções de vertentes variadas: Absolutismos, liberalismos, positivismos, jacobinismos, socialismos, capitalismos – sejam utópicos ou pragmáticos, libertários ou repressores. As idiossincrasias pessoais mesclam-se a referências mais ordenadas. A imprensa é um espaço de progresso, liberdade, razão e reflexão, mas também de coerção, controle, conservadorismo e manipulação.

Esta imprensa, plural e complexa, integra diferentes comércios e relações de poder: anúncios, imigração, agricultura, indústria, os pontos de contato com a escravidão e os primeiros movimentos reivindicatórios dos trabalhadores manuais dos prelos.

Parece-me simplista querer desenhar um etapismo e assinalar fases políticas sucedidas por outras informativas, culturais ou econômicas na trajetória dos órgãos impressos. A imprensa ao longo do século XIX sempre foi marcada por embates políticos, poderes econômicos e criações culturais em suas formas as mais diversas e desde o início buscou maneiras de se modernizar, que mudavam com o tempo, as técnicas de imprimir e redigir e os interesses em jogo. A modernização da imprensa não é uma prerrogativa do século XX, se levarmos em conta a polissemia das concepções de modernidade.

Alguns obstáculos de conhecimento talvez se colocassem para o melhor contato dos estudiosos com a imprensa. Na tradicional historiografia, identificada como positivista ou historicista, a imprensa aparecia, em geral, como fonte privilegiada na medida em que era vista como autêntica narradora dos “fatos” e da “verdade”. Tal perspectiva, embora pioneira no uso da imprensa, tornou-se limitada e acabou sendo o principal argumento para o relativo abandono que sucederia. Isto é, com a renovação dos estudos históricos e a ênfase numa abordagem que privilegiava o sócio-econômico, a imprensa entrelaçou-se às discussões sobre ideologia e “superestrutura” e passou a ser relegada a uma condição subalterna, pois seria apenas “reflexo” superficial de idéias que, por sua vez, eram subordinadas estritamente por uma infra-estrutura sócio-econômica.

Tal postura, que entendia a imprensa (com certo desdém) como mero “veículo” de idéias e de forças sociais e como “falsificadora da verdade” acabou, por sua vez, cedendo à subseqüente transformação historiográfica. A renovação das abordagens políticas e culturais redimensionou a importância da imprensa, que passou a ser considerada como fonte documental (na medida em que enuncia discursos e expressões de protagonistas) e também como agente histórico que intervém nos processos e episódios, não “reflexo”. Força ativa, não mero registro de acontecimentos.

É com estas e outras dimensões ainda inexploradas que os pesquisadores e cidadãos em geral podem encarar, postados num tempo cada vez mais midiático, o século que gerou o surgimento da imprensa no Brasil.

Biblioteca Nacional Digital

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A TV e a negação do Brasil

Entrevista com Joel Zito Araújo

Formação: Doutor em Comunicação pela ECA/USP. Cineasta e roteirista.

Obra: Realizou a partir de 1984, 24 documentários e 22 médias metragens. Em 2000, dirigiu o documentário A negação do Brasil, sobre a participação de atores negros na televisão, lançado também em livro, pela Editora Senac (São Paulo, 2000). Seu último filme Filhas do Vento… é protagonizado pelas atrizes Ruth de Souza, Léa Garcia, Thaís Araújo e pelo ator Milton Gonçalves.

Você não pode discutir cidadania se o país não tiver orgulho da sua composição multiética, multirracial, multicultural – esse é um tema muito forte. Outro tema também importante no meu trabalho, e vai estar em A Negação do Brasil, é que eu acho que qualquer trabalho, ele tem de ter um compromisso com a auto-estima, com a valorização do componente racial negro no Brasil. Então, A Negação do Brasil fala dessa contradição de um país que é marcadamente multirracial, em que a cultura negra e a população negra tiveram e têm um papel importantíssimo no jeito de o país ser, na cultura do país, e no entanto, o país na televisão, não só na telenovela, mas também no cinema, está preso a uma estética que é uma estética do branqueamento.

 

Salto – Joel, a respeito desse livro-filme: A Negação do Brasil. Primeiro, eu queria lhe perguntar: o que surgiu primeiro – o livro ou o filme?

Joel – Primeiro foi o filme, depois o livro.

Salto – Então, primeiro você gravou, depois você escreveu. Como é que surgiu essa idéia? Podemos observar que o livro e o filme têm essa dinâmica de mostrar um período longo do desenvolvimento da cultura brasileira, dos anos 60 aos anos 90, e abordam, principalmente, essa não identidade do brasileiro na tela. Como é que surgiu, para você, a necessidade de mostrar isso? A idéia partiu de que ponto?

Joel – Eu tenho uma carreira de cineasta de cerca de 18 anos e tenho optado pela questão racial desde 1988. Acho que é um tema tabu, um tema que a sociedade brasileira precisa discutir, precisa debater, então esse é o tema de todos os meus artigos e do meu livro e é o tema da maior parte dos meus documentários e do meu filme agora, As Filhas do Vento. A idéia, especificamente, de A Negação do Brasil, que trata a história do negro na telenovela brasileira, veio de uma bolsa que eu ganhei em 1994, de uma fundação norte-americana, chamada McCartney Foundation. Ela me possibilitou pesquisar, nos Estados Unidos, a história do negro no cinema, na televisão, em 1994. E lá eu conheci um trabalho de um documentarista que morreu no final dos anos 80, ele fez um belo documentário sobre a história do negro na televisão norte-americana. No dia em que vi esse documentário, eu falei: “Nunca me passou pela idéia que é uma boa forma de refletir as relações raciais no Brasil, pegando a forma como o negro é representado na televisão”. Então, voltei dos Estados Unidos, no final de 1994, com esse projeto de fazer uma coisa parecida. Só que quando comecei a pesquisar, senti que a melhor forma de discutir seria pegar aquilo que é paixão nacional, ou seja, uma das grandes paixões nacionais do país, além do futebol, que é a telenovela.

Eu achei que fazer um documentário sobre toda a história da televisão era amplo demais, a telenovela me daria o material suficiente para isso. Então, começa daí e continua com essa intenção, quer dizer, para quem conhece meus outros trabalhos, eu tenho uma preferência por discutir a mídia e o papel da mídia nas relações raciais no Brasil. Especialmente A Negação do Brasil tem a ver com isso, o filme trabalha alguns conceitos que são muito importantes para mim, que eu acho fundamentais. Eu acho que o Brasil tem muita vergonha do seu componente racial, não branco, especialmente dos negros e dos índios; ou seja, o Brasil tem dificuldade de se ver como uma sociedade multirracial. Então, uma das ênfases do meu trabalho é a de promover e de discutir a realidade do país, inclusive.

Você não pode discutir cidadania se o país não tiver orgulho da sua composição multiética, multirracial, multicultural – esse é um tema muito forte. Outro tema também importante no meu trabalho, e vai estar em A Negação do Brasil, é que eu acho que qualquer trabalho, ele tem de ter um compromisso com a auto-estima, com a valorização do componente racial negro no Brasil. Então, A Negação do Brasil fala dessa contradição de um país que é marcadamente multirracial, em que a cultura negra e a população negra tiveram e têm um papel importantíssimo no jeito de o país ser, na cultura do país, e no entanto, o país na televisão, não só na telenovela, mas também no cinema, está preso a uma estética que é uma estética do branqueamento. Quer dizer, nós amamos o branco, as apresentadoras dos programas infantis são louras, a maior parte dos apresentadores de telejornal são brancos, enfim, o país acha que ser Primeiro Mundo é ser branco. Eu normalmente brinco que nós estamos no atraso, porque a Paris onde essa estética televisiva se inspira é uma Paris do século XIX, porque a Paris de hoje é multirracial. Nova York também é multirracial, quer dizer, a televisão norte-americana e o cinema norte-americano, que é um cinema de sucesso em nível mundial, é multirracial. No entanto, a estética da nossa telenovela e de nosso cinema continua sendo unirracial, continua sendo a valorização do branco, de tomar o branco como modelo de humanidade, como modelo de referência para todo mundo. E esse título A Negação do Brasil significa que nós estamos negando aquilo que devia ser o nosso objeto de maior orgulho, que é exatamente o fato de a gente ser um país multirracial.

Salto – Agora, dentro dessa ideologia que você fala do branqueamento e até do desejo de euro-norte-americanização das elites, você, quando pesquisou o tema, e se fincou na telenovela, procurou só se reportar ao negro quando ele teve papel subalterno, ou quando ele não teve acesso aqui e ali, e em alguns momentos em que os personagens eram negros e atores brancos eram escalados. Você só se reportou a isso, ou você procurou identificar por que aquilo era direcionado dessa maneira, ou seja de onde surgia essa política de branqueamento cultural? Era da elite que decidia televisão? Tinha resposta de público? Era o público que não conseguia ver o negro numa posição social superior àquela em que sempre foi mostrado? Você tentou fazer uma análise sobre esse aspecto?

Joel – A ideologia do branqueamento, ela foi política de Estado no Brasil, no final do século XIX. O governo brasileiro, ele proibiu a entrada de imigrantes vindos da África, vindos da Ásia e fez campanhas na Europa. Nesse sentido, iludiu, inclusive, trabalhadores italianos, prometendo coisas que aqui não foram dadas a eles, para que eles viessem para o Brasil, com intenção deliberada de “branquear”. Um representante do governo brasileiro, no início do século passado, no início do século XX, chamado Oliveira Viana, foi num congresso na Europa falar que no Brasil, graças a Deus, em 100 anos, devido a essa política oficial do governo brasileiro, não haveria mais negros. Então, foi uma política de Estado que veio até Getúlio Vargas. Getúlio Vargas manteve esse tipo de proibição em 1940. Ela deixou de ser obviamente uma política de Estado, mas essa coisa se tornou um elemento cultural, um elemento inconsciente no Brasil, então negros e brancos no Brasil, inconscientemente, partilham essa visão de que o belo, o culto, o desejável, o ser moderno, o ser Primeiro Mundo, é ser branco. Enfim, essa coisa está presente na cultura brasileira. Obviamente, parcelas e mais parcelas de afro-brasileiros têm descoberto o quanto isso é prejudicial a si mesmas e ao país, e mesmo intelectuais e artistas brancos também percebem isso. São ondas e ondas que vão crescendo, criticando esse tipo de coisa, mas eu acho que na América Latina, isso não é uma posição isolada do Brasil; a colonização, tanto portuguesa quanto espanhola, impôs esse tipo de divisão, essa visão de promoção do branqueamento.

Na minha pesquisa, que deu origem ao filme e ao livro, eu comecei a pensar e comecei a discutir porque nenhum dos autores de televisão, porque que nenhum dos diretores defendiam, abertamente, a incorporação do negro de forma subalterna. Eles falavam: — “Não, isso acontece por acaso”. Isso era o que diziam até mesmo aqueles autores que mais deram papéis para atores negros, autores e diretores. Por exemplo, Herval Rossano é uma pessoa que, ao mesmo tempo, em A escrava Isaura, escolheu uma branca para fazer o papel da escrava negra Isaura. Ele faz uma leitura, junto com Gilberto Braga, da escrava Isaura tal qual era o romance, no século XIX, ele traduziu o romance de uma forma literal. Porque, no século XIX, o autor, Bernardo Guimarães, quando pensou na escrava Isaura, ele queria fugir do estereótipo da mulata sedutora, da mulata que destrói os lares. Então, ele tentou trazer traços de branqueamento, de pureza, enfim, esse tipo de coisa que era muito comum como estereótipo para convencer as pessoas o quanto era errada a escravidão. Mas só que ele fez em um outro contexto, em que o público leitor era branco.

Joel – (…) Enfim, quando eu levantei todos esses dados, pensei no porquê de essa televisão não respeitar essa demanda, cada vez mais presente por parte da população negra, de ver papéis positivos de negros. Pois, se a televisão está preocupada com o consumidor, por que ela não respeita a existência de cerca de 5 milhões de consumidores de classe média negra? O que é que está por trás? Será que é o racismo? Eu acho que não existe nenhuma deliberação entre aqueles que produzem telenovela, entre aqueles que produzem comercial, uma deliberação que diga “olha só pode ter 10% de papéis para atores negros nas telenovelas e desses 10%, 8% devem ser dedicados à empregada doméstica ou ao motorista”. Acho que não existe essa deliberação. Na verdade, o que está por trás de tudo isso é essa política oficial de governo, criada há mais de 100 anos, que virou um elemento de cultura, virou um elemento inconsciente. Esses produtores estão seguros de que a população brasileira acha que o belo é ser branco, portanto, colocar pessoas negras, bonitas, sabe, é uma coisa irreal. Bem, então daí veio essa discussão, que eu trago no meu filme, contra esse tipo de estética do branqueamento, porque eu acho que é um elemento inconsciente da cultura brasileira.

Salto – Disso que você está falando aí, tem um trecho aqui que eu acho interessante, até uma dúvida. O livro fala da 1ª família de classe média negra na TV, em 1969, na novela Vidas em Conflito, apresentando o Zózimo Bulbul, Natália Thimberg, Leila Diniz. Mas aos poucos o enredo foi alterado, e principalmente o enredo que envolvia os personagens negros. Por que houve essa alteração?

Joel – É, o autor confessou que houve alteração por dois motivos: por pressão dos patrocinadores e por pressão do público que assistia à novela, ou seja, eu acho que a gente continua tendo coisas parecidas. Eu acho que o público mudou muito. A Próxima Vítima é um exemplo não só da aceitação como do encanto que o público teve com uma família negra de classe média na telenovela. Aquela família, com aqueles atores, teve enorme retorno de audiência, no entanto, depois daquilo nunca mais apareceu uma família negra de classe média na telenovela, e essa é uma grande curiosidade, para todos nós. Na publicidade também temos uma situação difícil. Agora, por exemplo, no Dia das Mães: não se vê, na publicidade, nenhuma mãe negra recebendo presentes de filhos negros. Enfim, essa coisa parece estranha para todos nós. E o negro é um consumidor no Brasil. Enfim, embora a população negra seja majoritariamente pobre, ela consome sabonete, ela consome perfume, consome sorvetes e consome uma série de presentes. Então, essa questão diz respeito ao lado do patrocinador, ao lado do produtor, e também à audiência. Eu acho que a televisão começa a se chocar com a audiência. No passado, acho que a audiência, se eu for pensar nos anos 70, se eu for pensar nos anos 60, eu acho que a audiência nem sempre questionava essa representação dos brasileiros como todos brancos. Mas hoje eu acho que existe uma contradição muito forte que tem que ser superada.

Salto – Então, você classificaria A Próxima Vítima como um grande salto para a televisão?

Joel – Não foi o salto pela história, uma vez que já tinha aparecido família negra de classe média antes na televisão, poucas mas apareceram. Foi um salto no sentido de observar uma mudança na audiência, além de uma aceitação, um encanto de ver uma família de classe média negra, ele é um indicador de que o imaginário e a mentalidade dos brasileiros mudaram, nesse sentido.

Salto – Gostaria de que você abordasse mais sobre a televisão brasileira. O brasileiro não se vê representado na televisão brasileira, na sua opinião?

Joel – No meu ponto de vista, a televisão brasileira, ela está num retrocesso, ela está com temor de ousar. Por exemplo, eu acho que a Rede Globo nos anos 70, quando ela conseguiu ser líder de audiência ultrapassando a TV Tupi, isso se deveu muito à ousadia da Rede Globo. A Rede Globo foi mudando um tipo de programação mais popularesca, começando a investir em minisséries, em telenovelas mais inovadoras, com autores que tinham coragem de ousar, haja vista O Bem Amado, novelas interessantes da Janete Clair, como por exemplo Pecado Capital que, naquela época, colocou um psiquiatra negro. Enfim, teve várias ousadias do ponto de vista da Rede Globo, naquele período. Agora eu acho que a televisão, como um todo, hoje, ela é muito conservadora, ela está muito mais repetindo fórmulas e só quer apostar naquilo em que ela tem segurança de audiência. E isso acaba sendo uma loucura, porque a audiência está caindo, a audiência de tudo isso, porque é tudo fórmula repetida. Então, acho que existe um descompasso cultural entre a dramaturgia e essas fórmulas com a população. Eles têm apostado naquilo que é extremamente popularesco, de mau gosto. Enfim, a televisão perde o compromisso com o lado da educação, com a promoção de valores culturais interessantes e inovadores.

Ela quer investir muito mais em um modelo de programa apostando numa visão policialesca bárbara do que investir em alguma coisa que leve a uma reflexão sobre isso e que leve ao avanço da mentalidade do brasileiro. Então, acho que essa é a grande contradição da televisão hoje, ela não quer trazer coisas novas, ela não quer ousar, ela não quer arriscar. Bem, e a outra contradição muito grande é que a televisão é profundamente desrespeitosa com um componente racial não branco da população brasileira, em especial da maioria negra e indígena, porque ela não promove nada… Aqui eu estou falando em termos absolutos obviamente, que tem uma coisa aqui, ali e acolá, o próprio interesse do programa de vocês em me convidar para falar sobre isso mostra uma atitude diferente. Mas, como regra, a televisão desrespeita o desejo do componente racial negro, que é muito grande, e também do componente racial indígena, de ver coisas positivas sobre si mesmos. Então, eu acho que essa falta de apostas é que está levando a essa decadência profunda da televisão brasileira, no momento atual.

Salto - Nesse “popularesco” da TV, que são os que recebem uma maior fatia publicitária, vez por outra, ou quase sempre, é o negro que está por trás da violência. Mas nos “Big Brothers Brasil”, o negro começa a aparecer. No popularesco que explora a violência, o negro está como réu, como diabo, e no Big Brother o negro já é apresentado forte, bonito. Talvez esse seja um movimento muito incipiente de jogar o negro no horário nobre nessa postura não serviçal.

Joel- É óbvio que comparando a forma como o negro é colocado no Big Brother, ela é muito mais positiva do que num programa popularesco, em que normalmente os apresentadores se portam como advogados de acusação, assim sem nenhum compromisso, condenando na primeira fala. E aí é a população mais pobre de maioria negra que é condenada abruptamente nesse tipo de programa, enquanto que com o Big Brother explora-se mais essa curiosidade juvenil, nessa fase de passagem para a vida adulta, na fase dos romances, da paquera, da sexualidade. Então, eu diria que, se for pegar por esta faceta, o Big Brother é muito mais positivo para a identidade negra, quer dizer, tem uma certa positividade, enquanto o programa popularesco não tem. Agora, o que acho que é necessário e que a gente tem que explorar mais, é que o Brasil precisa de mais dramaturgia, na televisão, precisa de explorar mais a vivência e histórias positivas da comunidade negra, da comunidade indígena, de outras comunidades. Eu estou falando obviamente que o Brasil, ele é muito mais multirracial e multiétnico do que negro, índio e branco. Você tem uma comunidade árabe muito grande, você tem uma comunidade oriental muito grande. Quer dizer, tudo isso tem que vir à tona na devida proporção, mostrando a diversidade racial no país. Bem, mas eu acho que tem muitas histórias bonitas para contar, eu vou dar um exemplo aqui, saindo da negritude, que é o meu tema predileto. Gaijin, o filme da Tisuka Yamasaki, aliás ela está fazendo o Gaijin II agora, foi um filme de enorme impacto, porque nós tomamos conhecimento do que foi a imigração dos japoneses no Brasil, de como eles chegaram nas fazendas para trabalhar e foram tratados como escravos, a epopéia deles. Foi tão bonito, todo mundo adorou aquele filme, tanto que agora ela está fazendo Gaijin II. Então, eu acho que tem uma série de histórias bonitas que podem ser contadas e que o Brasil vai gostar de ver essas histórias. Acontece que quando se contam histórias de epopéia no Brasil, normalmente é, mais uma vez, a epopéia dos italianos. Aí os portugueses ficam chateados, eles resolveram colocar uns portugueses também, na epopéia dos italianos. Enfim, essa coisa que é muito repetitiva, e mais do que repetitiva, é o empobrecimento das possibilidades culturais. Eu acho que isso é devido a uma série de problemas, um deles é que a televisão no Brasil precisa se reorganizar, se descentralizar. O patrocínio cultural precisa se descentralizar.

O outro problema é que a televisão no Brasil tem que estar aberta ao produtor independente, às idéias novas, às visões novas, sair dessa burocracia. Todas as televisões no Brasil funcionam como empresas públicas, ou como feudos familiares. A coisa mais comum é um filho de ator virar ator. Eu não fiz nenhuma estatística, mas a impressão que eu tenho é de que pelo menos 30% a 40% dos novos atores que entram são filhos de atores, quer dizer, é um feudo familiar esse negócio. Porque o nosso modelo não está baseado na produção independente e, dessa forma, deixa de estar baseado na incorporação das novas criatividades que surgem, que saem desse seio acolhedor e pouco fértil para produzir novas idéias sobre o Brasil, novas criações. Então, acho que a crise da televisão e a saída para a renovação cultural do Brasil é a descentralização. Acho que isso cabe ao governo, criar regras de patrocínio que incentivem o aparecimento do novo, que incentivem o aparecimento de novas visões, em que se veja o Brasil de forma multirracial, multiétnica, que se promovam as culturas regionais, que vão além da questão étnica ou racial ou da questão de gênero.

Então, é por aí que eu vejo uma nova cultura, um novo florescimento cultural do Brasil, porque senão a gente vai estar nessa estagnação. O cinema está passando por um florescimento cultural, ainda que, de certa forma, ainda atenda a uma visão mais antiga ou a determinados estereótipos da televisão. Por exemplo, Cidade de Deus. Cidade de Deus é um grande sucesso, mas do meu ponto de vista é um filme que consolida na tela, com suas imagens, a visão que a classe média tem das favelas, no Brasil. Então, ali o que você vê é a reafirmação desse medo, parece que na Cidade de Deus, e em todas essas favelas, o narcotráfico é tudo. Mas o narcotráfico é uma parte, a gente tem que ver a outra parte. Na verdade, se a gente quiser sair desse caos que é a violência nas favelas, nós temos que incentivar, nós temos de fazer parcerias com as pessoas de bem da favela que querem sair disso e não demonizar a favela como um todo, que é a sensação que se tem do filme Cidade de Deus.

Salto - Do lado dos bastidores, na televisão, faltaria essa visão negra produzindo, gravando. Porque no cinema até tem, mas na televisão a gente não vê isso, assim.

Joel – Porque o Paulo Lins se prepara como roteirista. Tem vários autores que estão se preparando, que estão se preparando para serem roteiristas. Joel – A televisão tem que ter olhares étnicos, olhares regionais sobre o Brasil. Por exemplo, uma pessoa que nasce na cultura nordestina, precisa de poder produzir coisas relativas a essa cultura, mostrando a universalidade dessa cultura e a regionalidade. Eu quase são conheço autores de Belém ou de Manaus produzindo televisões, a realidade amazônica é bem distinta da realidade do Sul ou litorânea. Eu acho que a televisão tem que ter espaço para isso. A televisão comercial devia ousar e a televisão pública devia ter verba para boas produções. Eu acho que a televisão hoje passa por uma crise assustadora. O que está acontecendo com a TV Cultura, com a TVE, é uma coisa assustadora: há falta de recursos, de equipamentos, de bons salários e de incorporação de pessoas. O que existe é um certo abandono e um dos papéis da TV Educativa, da TV Cultura era o de ter recursos para incorporar novas visões sobre o Brasil, para incentivar esse tipo de reflexão, agora produzindo com qualidade e não nessa situação precária. Eu, por exemplo, fui uma pessoa que passei uma parte da minha juventude vendo bons programas nas TVs Educativas do Brasil. Hoje eu percebo o empobrecimento, empobrecimento por uma questão de grana mesmo, por um lado. E por outro lado, eu acho que também tem de renovar quadros, tem de incorporar nossos olhares, tem de incorporar jovens e pessoas de meia idade, como eu. Enfim tem que haver uma reflexão racial sobre o Brasil, uma preocupação de valorização do componente racial negro. Eu acho que isso vai ajudar muito na televisão, da mesma forma que eu acho que se deve estar atento para o componente indígena, para outros componentes. Essa é com certeza a possibilidade de um florescimento cultural e de uma renovação da televisão no Brasil.

Salto – Para o Salto, numa entrevista, anterior, você disse que era possível educar o olhar. Então, como é possível educar esse olhar de crianças e jovens em relação ao que é mostrado na TV?

Joel – Vou dar um exemplo: quando o jovem que mora na favela só vê louras como apresentadoras de programas infantis, ele passa a ter uma idéia de que o sucesso, de que a realização na vida é estar ao lado de uma loura. Então, é natural que, quando ele se torna um jogador de sucesso, ele vai querer casar com uma loura, como exemplo de sucesso, e passa a ter vergonha do seu grupo racial. E pior do que isso, ele quer um rompimento com a favela e não um compromisso de melhorar o lugar em que ele nasceu, o componente racial. Então, era importante que fossem produzidos programas infantis com outros, tipos de apresentadoras, contando histórias…

Salto – Vamos continuar falando sobre televisão, teledramaturgia e sobre a necessidade do olhar do negro.

Joel – Eu só queria concluir uma coisa. Eu tenho as minhas contribuições, mas sei dos limites, são coisas que eu venho refletindo há um certo tempo, nós precisamos, por exemplo, do ponto de vista educativo, nós precisamos de histórias, de famílias de garotos indígenas que tenham um herói indígena. Assim, como o exemplo do filme Tainá, que é um belo filme. Imagine o impacto do filme Tainá, não sei se vocês chegaram a ver Tainá, Uma Aventura na Selva, a história de uma garotinha de uma tribo que fica amiga de um menino branco e ajuda esse menino em um problema da família dele, que estava sendo perseguida por bandidos e tal. Ela é uma heroína. É uma história de parceria, de amizade, então, imagina o impacto positivo nas crianças indígenas ao ver uma heroína indígena, o quanto aquilo não trouxe de esperanças, não abriu o mundo para jovens garotas, em Belém ou Manaus, inclusive pelo desejo de fazer cinema. Então, essas crianças passam a ver a possibilidade de ter um futuro igual a qualquer um brasileiro comum e não apenas viver na marginalidade. Nós precisamos inovar, precisamos produzir histórias que valorizem essas histórias familiares de outros componentes raciais e regionais que não o branco. Obviamente, o branco também tem que ter o seu direito, a gente só não pode ter essa desproporção absurda que é o Brasil. O Brasil se comporta como se fosse um país que tivesse 98% de brancos e só 2% de negros e índios. Nos Estados Unidos, que de fato tem 11% de população negra, se você vê a televisão norte-americana e o cinema norte-americano, você tem a impressão de que os negros nos Estados Unidos são metade da população, tal a nossa carência de ver coisas parecidas. Então, mais uma vez, eu insisto na importância de valorizar a presença do garoto na sala de aula, desenvolver o gosto de estudar significa possibilitar que os olhos desses garotos e garotas vejam uma imagem positiva de si mesmos e da sua família.

Salto – O que você vê na TV? Você gosta de ver televisão?

Joel – Eu já vi muita televisão, atualmente eu estou “por aqui” de televisão, eu quase não vejo televisão ultimamente. Eu dou uma olhadinha na novela como é um tema de minha especialidade, para saber como é que as histórias estão se passando, mas me decepciono porque é uma repetição, a cada telenovela é uma repetição muito grande. Então, a rigor, na televisão, eu vejo só telejornal atualmente, acho que a qualidade da programação da televisão no Brasil decaiu profundamente e as TVs Educativas, a TVE e a TV Cultura, onde eu já vi tanta coisa boa, hoje passam por uma crise lamentável, que precisa de socorro urgente.


Núcleo Piratininga de Comunicação

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Após um ano, TV digital chega a 0,3% da população brasileira

Redação - Folha Online
05.11.2008

A TV digital atingirá 645 mil espectadores até o final deste ano, quando completará um ano em operação desde sua estréia oficial. O dado, que corresponde a 0,3% da população, foi divulgado nesta terça-feira (4) pelo Fórum SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital), com base nos dados da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).
O número de 645 mil telespectadores surge da estimativa de venda de receptores. De acordo com a associação, a previsão de vendas até o fim de 2008 é de 150 mil receptores fixos (conversores embutidos ou externos). A associação considera que cada aparelho atinge 3,3 telespectadores e ainda acrescenta nesta conta 150 mil receptores móveis (como de celulares), para os quais se calcula uma pessoa por dispositivo.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, divulgada em 2006 indicam que 93% dos domicílios possuem televisores no país. Para fins de comparação: 42 milhões de pessoas têm acesso a internet (23%), de acordo com pesquisa do Ibope do segundo trimestre deste ano.
As cidades de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia já recebem oficialmente o sinal digital. As próximas a estrear serão Porto Alegre, ainda neste mês, e Salvador, no próximo.
O fórum já confirmou que a transmissão chegará a 2009 sem a interatividade. Isso porque o Ginga, sistema que leva ao aparelho o uso interativo, ainda está em fase de especificação por parte da equipe que colabora com o fórum. Depois, as especificações para a tecnologia ainda precisam ser aprovadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
A previsão mais otimista é que a interatividade funcione em algum momento do próximo semestre.
A reportagem entrou em contato com o Ministério das Comunicações, que não quis se pronunciar sobre os dados.

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A mídia que balança o berço

Maria Helena Masquetti - Le Monde Diplomatique Brasil
06.11.2008

 

Nestes tempos de crianças expostas a tantos tipos de mídia, o velho provérbio “a mão que balança o berço governa o mundo” propicia uma reflexão sobre quem é realmente a maior autoridade na estrutura familiar. Tomando-se por autoridade aquele que provê a manutenção da família, supõe-se que ambos, marido e mulher, dividam entre si esse papel de governar a educação dos filhos. No entanto, cada vez mais, as crianças expressam valores e anseios contrários aos da educação recebida em casa e na escola. O fato é que elas dependem dos exemplos adultos para a construção de sua identidade. E, por acreditarem no que ouvem ou vêem, em sua lógica infantil, passam a ver a mídia [1] como outra autoridade dentro de casa.
Por meio dos sites, jogos eletrônicos, revistas, mensagens comerciais e programas inadequados, a mídia propõe-se a satisfazer, de várias formas, os desejos infantis que, pela manobra persuasiva, converte em necessidades. Expresso em números (Interscience, 2003), o resultado desse bombardeio de mensagens e apelos comerciais é de 80% de influência das crianças nas compras da família. Isso concorre para diminuir a autoridade dos pais perante os filhos. A propósito, há alguns meses, muita gente viu um comercial de automóvel equipado com um aparelho de DVD, insinuando que a atuação dos pais pode ser dispensável na vida dos filhos mediante a aquisição de determinada tecnologia. A mensagem mostrava dois carros na estrada. Num deles, os pais se desesperavam por não saber como conter as rusgas entre os filhos pequenos enquanto, no outro, equipado com o aparelho DVD, o clima era de total tranqüilidade pela atenção das crianças presa à tela.
O que melhor explica o fato dos filhos aderirem tão mais prontamente a tantas mensagens da mídia e desdenhar os ensinamentos dos pais é a permissividade expressa por ela das duas formas mais sedutoras para a criança: a ausência do “não”, palavrinha incômoda porém decisiva para a demarcação dos limites imprescindíveis à socialização; e a reverência irrestrita às vontades das crianças que só faz ampliar nelas a fantasia de poder ter tudo.
Um pequeno recorte na trama do filme de Curtis Hanson: “A Mão que balança o berço” – título, aliás, inspirado no citado provérbio, como explicita a fala de um de seus protagonistas –, ilustra essa atração dos pequenos por adultos complacentes demais com os desejos infantis. A trama gira em torno de uma babá aparentemente dedicada e afetuosa que começa a se apropriar das duas crianças de um jovem casal de forma lenta e sedutora. Valendo-se de sua maior disponibilidade de tempo junto aos pequenos, a babá permite à garotinha mais velha – cerca de cinco anos – assistir a um gênero de filme vetado à ela pelos pais em função de sua pouca idade. Como é de se esperar, a garotinha logo entende a babá como mais amorosa que seus pais.
De modo geral, tal cumplicidade com os caprichos infantis está presente em diversos tipos de mídia dirigidos às crianças. E a tendência é antecipar-se, cada vez mais, essa interferência na educação delas. Por isso, quem tiver hoje nos braços seu recém-nascido já não pode deixar para mais tarde a preocupação com os impactos da comunicação midiática na formação dos pequenos. Ela já está do lado do berço na forma dos programas para bebês.
Se nos faltam ainda dados de pesquisa para saber o que acontecerá, daqui a alguns anos, com os bebês “educados” via TV, não faltam experiências e estudos sobre a formação do psiquismo. Um bebê não tem estrutura mental para saber sequer quem é e o que é; não tem idéia de suas dimensões físicas; desconhece o mundo à sua volta e, sobretudo, é fusionado com sua mãe, tendo-a como uma extensão de si mesmo. Como concluiu o psicanalista e pediatra Donald Winnicott, um dos mais brilhantes estudiosos do desenvolvimento infantil, “não existe tal coisa chamada bebê, significando com isso que se decidirmos descrever um bebê, encontrar-nos-emos descrevendo um bebê e alguém. Um bebê não pode existir sozinho, sendo essencialmente parte de uma relação”.
Sendo assim, o que pensar sobre a relação de um bebê com um aparelho de televisão que fala e age, sem estabelecer um contato real com ele? Uma das primeiras formas de contato da criança com o mundo é a identificação projetiva, mecanismo psíquico por meio do qual ela projeta aspectos de si mesma sobre o outro enquanto sente como seus determinados aspectos deste outro em virtude do estado de fusionamento em que se encontra. Sendo assim, é fundamental refletir sobre o quê um bebê irá projetar na caixa de uma TV (sem sua mãe dentro), com uma seqüência de imagens ainda sem sentido ou valor para ele? E, pior ainda, que aspectos ele tomará do aparelho e da produção eletrônica como partes de si mesmo?
Se não podemos prever o futuro, olhemos o que já acontece, no presente, com tantas crianças que nos rodeiam, no cotidiano ou na prática clínica: natural nos primeiros anos de vida, o narcisismo (amor a si mesmo) e a onipotência (certeza de poder ser e ter tudo) andam durando além do previsto quando, até por volta dos seis anos, deveriam ter se convertido na capacidade de se preocupar com o outro. O que estará estimulando, então, nas crianças, o prolongamento dessas características? Quem pensou em interesse comercial, acertou no x da questão que envolve hoje a preocupação com os impactos da publicidade e de determinados tipos de entretenimento na formação das crianças. Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo do marketing é implantar o quanto antes na criança a necessidade de consumir.
Como diz Suzan Linn, doutora em Educação e professora de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, em seu livro Crianças do consumo – A Infância Roubada, “quando nos referimos a produtos especificamente projetados para crianças “do berço à universidade” pode ser o máximo que alguém possa almejar, mas muitos fabricantes buscam lealdade à marca que dure do berço ao túmulo”.
Na reportagem “A perigosa relação do bebê com a TV”, do Jornal Observatório da Imprensa – a jornalista Leneide Duarte-Plon destaca um dos trechos do manifesto assinado pelos cientistas franceses Pierre Delion e Bernard Golse publicado por este jornal: "Numa época em que se fala muito de ecologia, é preciso que nos conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de desenvolver uma forma de dependência em relação à tela luminosa é uma forma de ecologia do espírito. Por isso, é urgente que nos mobilizemos para a criação de uma moratória que proíba a existência desses canais, antes que a ciência possa conhecer melhor a relação da criança pequena com a tela".
Pelo tanto que evoluímos, chega a parecer irreal que tenhamos hoje que nos revolver em argumentos para impedir que se continue penetrando um terreno tão frágil e misterioso como a psique de um bebê. E isso sob a proposta, desculpe, descabida de ampliar-lhe a inteligência e a criatividade como afirmam alguns argumentos de vendas desses programas para os pequenos.
Nascidos em berço de ouro ou em cestos pobres de palha, as perspectivas dentro de cada bebê estão intactas nessa fase do broto e não demandam outros cuidados além dos prescritos pela natureza. Os mais caros entre eles são o calor do seio materno, o alimento saudável, as vozes amorosas e a mão protetora que governa seu passo a passo até o contato pleno com a vida real.
Se há tanta preocupação com o desenvolvimento dos bebês, que ela seja convertida, então, para a melhora social do “berço” que os abrigará ao nascer. Nada substitui o amor e os efeitos que só ele pode produzir na construção de um novo indivíduo. Recordando uma vez mais a sabedoria e prudência de Winnicott: “Ainda temos muito que aprender sobre os primeiros tempos de uma criança e talvez só as mães possam dizer o que queremos saber”.
[1] A mídia é, muitas vezes, legitimada pela audiência que os pais lhe prestam.
* Maria Helena Masquetti é psicológa do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, e  assina, no “Le Monde Diplomatique Brasil”, a coluna Consumo & Direitos.

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Cobertura do caso Eloá por redes de TV é questionada em audiência na Câmara

Jonas Valente – Observatório do Direito à Comunicação
12.11.2008

 

O sensacionalismo não é uma prática nova no jornalismo brasileiro. No caso da televisão, o impacto das imagens faz com que tal atitude seja potencializada em nome de ganhos de pontos de audiência às custas da espetacularização da miséria e da desgraça humana. A dramatização constitui uma narrativa emocional em cima de um determinado episódio de modo à manter a atenção das pessoas ligada à tela. Mesmo que os fatos reais ocorram em velocidade aquém do necessário para manter uma transmissão incessante, "esquenta-se" o tema com repercussões e atualizações sem novidades.
O mais recente caso do uso deste recurso foi o acompanhamento das redes de TV do seqüestro da jovem Eloá Pimentel, em Santo André, pelo seu ex-namorado, e que terminou com o assassinato da menina. Em audiência realizada na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (11) para discutir a atuação das emissoras comerciais neste episódio, pesquisadores e deputados criticaram duramente a atuação destes grupos não só nas notícias produzidas como na interferência em seu desfecho. Para parte dos presentes, diferente de outros casos de seqüestro, neste os veículos estabeleceram uma relação direta com o autor, Lindemberg Alves Fernandes, com recorrentes entrevistas e conversas ao vivo, criando uma espécie de "mediação paralela".
"A cobertura teve participação indireta neste assassinato", sentenciou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP). Uma das formas desta incidência teria sido a intensa transmissão das imagens ao vivo, o que teria dado à Lindemberg um status de celebridade. "Tivemos uma grande cena de big brother, onde houve vigilância constante em tempo real", acrescentou a psicóloga Maria Luiza Oliveira, presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Para o deputado Luis Bassuma (PT-BA), a veiculação contínua do caso em tempo real teria feito com que Lindemberg dilatasse o seqüestro. "Ao se ver o tempo todo assediado, [o seqüestrador] provocou um prolongamento daquilo que me pareceu uma cena de prazer mórbido", disse o parlamentar.
Apologia à violência
Na avaliação do pesquisador sênior do Núcleo de Mídia e Política da Universidade de Brasília, Venício Lima, a cobertura do "caso Eloá" está inserida dentro de um contexto mais amplo de apologia à violência e promoção da cultura do sucesso. "A violência passa a ser naturalizada e tratada como algo banal. Parece ter criminoso que se inspira na mídia, que se fortalece na certeza que se tornará em celebridade disputado por câmeras, sairá do anonimato impotente e se tornará estrela”, comentou Lima. “Já a cultura de sucesso faz com que pessoas não estejam preparadas para receber um ‘não’, como, no caso, ser rejeitado pela namorada.” Estes dois aspectos da produção de informação e cultura nos meios de comunicação teriam, segundo o pesquisador, atuado diretamente sobre os envolvidos no episódio.
O promotor de justiça de São Paulo Augusto Rossini, que participou da última etapa da negociação com Lindemberg Alves, também esteve presente na audiência. Rossini afirmou em uma entrevista à Rede Record que as redes influenciaram de fato no desfecho do seqüestro. Para além dos aspectos levantados por outros presentes, o promotor citou interferências operacionais como a dificuldade da polícia falar com o seqüestrador por conta das linhas de telefone em seu poder estarem ocupadas pelas conversas com a imprensa.
Para Ivan Valente, as redes de televisão infringiram o Código de Ética dos Jornalistas, especialmente em seu Artigo 11º, que proíbe o jornalista de divulgar informações "de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes". O deputado questionou diretamente os dois representantes das emissoras presentes à audiência, da Recod e da Globo, como viam sua atuação no episódio e se haviam feito alguma auto-crítica sobre ela.
Auto-complacência
Os dirigentes das redes Globo e Record esquivaram-se dos questionamentos a afirmaram que suas emissoras não foram sensacionalistas nem trabalharam fora dos preceitos éticos. "Nós não tivemos nenhum benefício de audiência e não perseguiríamos isso em nenhuma hipótese. Como normas gerais, temos no nosso jornalismo para eventos onde há sinais de banditismo noticiar tudo sempre, mas mantendo e tendo em vista a integridade das vítimas potenciais e também a investigação da polícia", afirmou Evandro Guimarães, vice-presidente institucional das Organizações Globo.
Incomodado com a retórica de Guimarães, Ivan Valente perguntou diretamente o que o executivo achava das entrevistas com o Lindemberg durante o seqüestro, prática apontada como a mais efetivamente influente no curso do episódio. "Não me cabe este julgamento de mérito. O que posso lhe garantir é que estamos avaliando tudo o que foi feito", respondeu o representante da Rede Globo.
Márcio Novaes, da Record, afirmou que sua emissora também pautou-se pelos princípios da ética e que a avaliação interna é uma prática cotidiana. Para ele, há um desafio em encontrar pontos de equilíbrio entre o que é correto e inadequado, especialmente pelo fato de "não terem inventado até hoje uma faculdade de bom senso". Um dos limites que garantiria este bom senso seria a legislação, que na opinião de Novaes foi respeitada pelas redes na cobertura do caso. O representante da Record também apelou para a recorrente justificativa da importância dos grupos de comunicação no país ao utilizarem sua liberdade de expressão.
Controle social e regulamentação
O pesquisador Venício Lima rebateu, afirmando que o debate não tratava de liberdade de expressão, mas de "controle social sobre situações específicas de cobertura". Sendo impossível confiar unicamente às emissoras o julgamento sobre o correto, defendeu a necessidade de estabelecer limites e mecanismos de controle da sociedade sobre o conteúdo veiculado. "O mercado não pode ser o único critério de regulação espontânea do conteúdo da mídia de massa. A exemplo de outros países, é inadiável que se cumpra a Constituição Federal e se construam formas de controle social que impeçam a cobertura que a mídia fez no seqüestro de Santo André.”
O promotor Augusto Rossini defendeu a regulamentação do sigilo em casos de investigação ou atuação policial como uma forma de evitar a interferência prejudicial da cobertura neste tipo de episódio, em especial a influência que os relatos possuem sobre os agentes do sistema de justiça e segurança (como juízes e jurados) para o julgamento dos casos. "Há de se fazer regulamentação. Não dá para pedir ao juiz isenção. Há influência sim e isso tem de ser fortemente tratado. Decretando-se o sigilo, ningu&#