Negociação para evitar demissões
Diante de um cenário nada animador para 2009, a Volkswagen do Brasil intensificará o diálogo com os sindicatos para buscar um maior alinhamento entre produção e demanda durante o próximo ano. A idéia da montadora é convencer os representantes dos trabalhadores sobre a necessidade de flexibilização das horas semanais de trabalho, para que a produção possa se adequar melhor aos períodos de maior ou menor demanda e, assim, evitar demissões. Leonardo Rodrigues / Valor
Thomas Schmall, presidente da Volkswagen do Brasil: ajuste necessário
O presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, disse que a empresa já vem conversando com os sindicatos sobre essa possibilidade, porém ainda não houve definição. Afirmou que a proposta está sendo bem recebida, mas revelou que as negociações estão mais difíceis com os sindicalistas de Curitiba, que representam os metalúrgicos da fábrica de São José dos Pinhais, região metropolitana da capital paranaense. Por meio da assessoria de imprensa, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC disse que as negociações são normais e que fazem parte de uma série de medidas para evitar o desemprego no setor. O Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba não respondeu aos pedidos de entrevista.
De acordo com Schmall, "vai sobrar mão-de-obra" na empresa, caso não seja fechado um acordo sobre a flexibilização da carga de trabalho. O que a Volks propõe é que os metalúrgicos, que ganham por hora, trabalhem menos em períodos de menor demanda e mais em épocas de aquecimento do mercado. "O sindicato mais flexível corre menos risco de ter demissões", resumiu o executivo.
Mesmo sem fazer projeções para o desempenho da empresa em 2009, Schmall disse acreditar que as vendas globais de automóveis podem cair até 20% em relação a este ano. No caso específico da Volkswagen, informou que só será possível desenhar um cenário para o próximo ano a partir de janeiro, quando será avaliado o impacto das medidas de incentivo adotadas pelo governo, que reduziu a tributação do IOF para o financiamento de forma geral e o IPI sobre as vendas de veículos.
No primeiro fim de semana após o anúncio, a Volkswagen informou ter vendido 4,4 mil carros, 30% a mais do que no final de semana anterior. Schmall disse estar satisfeito com a postura do governo em meio às dificuldades da indústria e não descartou que novos pacotes possam ser anunciados. "Tudo vai depender da demanda."
Schmall disse ainda que o desaquecimento do mercado em 2009 levará as montadoras a buscarem corte de custos e aumento de produtividade para se manterem competitivas. A Volkswagen irá manter o investimento de R$ 3,2 bilhões programado para o Brasil até 2011. Na avaliação do executivo, só o investimento possibilita às empresas continuarem inovando e brigando por clientes em tempos de mercado apertado.
Apesar da forte desaceleração observada desde outubro, a montadora estima as vendas irão crescer mais que 6% em 2008. Segundo o gerente-executivo de planejamento e marketing, Fabricio Biondo, a alta sobre 2007 está hoje em 12,2%. Biondo afirmou que a retomada do mercado de veículos usados é um dos desafios para a recuperação das vendas de novos. O problema, segundo ele, é que o financiamento de usados é normalmente feito por bancos médios, que passam por dificuldades de liquidez.
Na crise de 1998, acordos iniciaram nas autopeças
De São Paulo
17/12/2008
Os sindicatos de trabalhadores elegeram a manutenção dos empregos como principal ponto de negociação com o setor privado. Convencidos que a crise é passageira e que para combatê-la é preciso preservar os postos de trabalho, dirigentes sindicais têm negociado férias coletivas, banco de horas, redução da jornada de trabalho e até suspensão temporária dos contratos de trabalho.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, mostra-se disposto a negociar medidas para preservar os empregos. O presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, disse que a empresa já vem conversando sobre a flexibilização da jornada. Sem isso, "vai sobrar mão-de-obra" na empresa, diz. Estados e municípios estão sendo chamados a participar das negociações.
Volks propõe flexibilidade a sindicatos para evitar cortes
Murillo Camarotto, Valor Online, de São Paulo
17/12/2008
A discussão sobre a necessidade de flexibilização dos direitos trabalhistas no Brasil ganhou força no início dos anos 90, quando o então presidente Fernando Collor de Mello promoveu a acelerada abertura econômica do país. Collor ficou apenas dois anos no poder - de 1990 a 1992. Assim, a primeira mudança na legislação trabalhista depois da Constituição de 1988 foi efetivamente adotada por Itamar Franco, que assumiu o lugar de Collor depois de seu impeachment. No fim de seu governo, em 1994, Itamar editou a MP 794, que instituiu a participação dos trabalhadores nos resultados das empresas.
As principais iniciativas para modificar as relações do trabalho ocorreram nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Foram principalmente para flexibilizar o tempo de trabalho (banco de horas e liberação do trabalho aos domingos), para flexibilizar a contratação (contrato por tempo determinado, contrato parcial, cooperativas de trabalho) e para flexibilizar as formas de solução de conflitos (incentivo à mediação e arbitragem privada, criação da Comissão de Conciliação Prévia).
Empresários e trabalhadores foram protagonistas ativos dessas mudanças. Um dos momentos-chave ocorreu em fins de 1997, quando o país sofria as conseqüências da "crise asiática". Havia ameaça de demissões em massa. O primeiro setor a se manifestar foi o de autopeças de São Paulo. Anunciava que a manutenção de 8 mil empregos dependia de acordos sindicais que implicassem a redução da jornada de trabalho com redução de salário. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, ligado à Força Sindical, fechou acordo que aceitava cortes salariais em proporção inferior à jornada
Em seguida, foi a vez de a Volkswagen ameaçar demitir 10 mil trabalhadores no ABC. O Sindicato dos Metalúrgicos da região, ligado à CUT, acabou fechando acordo que previa estabilidade por 12 meses, reduzia adicionais pagos no trabalho noturno, ampliava o banco de horas e aceitava um plano de demissões voluntárias - 4 mil funcionários aderiram a ele.
Legislação já permite negociação de direitos
Marta Watanabe, de São Paulo
17/12/2008
A legislação em vigor permite várias formas de flexibilização de direitos em contratos de trabalho. É possível negociar não só um adiamento do reajuste salarial da categoria como também a suspensão do contrato de trabalho até a redução de salários. Essas iniciativas, porém, devem ser explicitadas em convenção ou acordo coletivo e fica por conta de representantes de empregados e empregadores negociar itens como manutenção de benefícios ou alguma estabilidade.
Para o advogado Fábio Medeiros, do escritório Machado Associados, a legislação e a Constituição Federal em vigor já permitem uma boa margem de negociação entre empresas e sindicatos de trabalhadores. Ele chama atenção para uma mudança feita na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 2001 permitindo a suspensão temporária do contrato de trabalho por período que varia de dois a cinco meses. Além de estabelecida em convenção ou acordo coletivo, essa medida precisa ter o consentimento formal do trabalhador envolvido.
Hartung vai sugerir reunião para discutir demissões na Vale
Vera Saavedra Durão, Chico Santos e Ana Paula Grabois, do Rio
O governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, atendendo a pedido de João Batista Cavalieri, presidente do Sindicato dos Ferroviários do Espírito Santo e Minas Gerais (Sindfer) - que reúne os trabalhadores da Vale da Estrada de Ferro Vitória a Minas, dos portos da empresa em Tubarão na Grande Vitória e das pelotizadoras -, se comprometeu a articular reunião com o governador de Minas, Aécio Neves, mais a direção da Vale, os sindicatos e o presidente Lula, para fazer uma discussão nacional contra as demissões na mineradora.
Cavalieri se reuniu na segunda-feira com Hartung para lhe propor liderar um movimento contra as demissões da mineradora junto aos governadores de todos os Estados onde ela tem operações. Mas, numa primeira etapa, como os trabalhadores mais atingidos com as 1.300 demissões feitas no Brasil e no exterior são os do Espírito Santo e Minas, o sindicato solicitou reunião de emergência dos governadores destes estados com o presidente da Vale, Roger Agnelli e o presidente Lula, explicou o sindicalista ao Valor.
Segundo Cavalieri, dos demitidos pela Vale 1.038 são funcionários em logística e minas da Vale nos dois Estados. Foram demitidos 380 empregados da estrada de ferro , mais 450 funcionários das minas do quadrilátero ferrífero de Minas. No Rio, foram demitidos 150 na sede da Vale e mais 180 nas minas de Carajás, no porto de São Luís e nas minas de Sergipe.
Cavalieri adiantou que vai participar amanhã da reunião do conselho de administração da Vale, pois representa os trabalhadores da mineradora neste comitê. O governador do Espírito Santo o autorizou a falar em seu nome, no conselho, para convidar o presidente Roger Agnelli e diretores da companhia e até acionistas a participar da reunião que vai articular para evitar novas demissões. O sindicalista considera muito importante conversar com Agnelli sobre as questões que ele levou ao presidente Lula para flexibilizar a CLT.
Segundo informou o sindicalista, está previsto alguma flexibilização das leis trabalhistas no artigo 471 da CLT, que permite suspensão temporária do contrato de trabalho, dispensando a empresa temporariamente de recolher INSS, FGTS e do pagamento do 13º . "Isso só é possível caso seja celebrado um acordo entre a empresa e os sindicatos aprovado em assembléia e com a concordância por escrito do empregado que sofrerá a suspensão temporária dos seus direitos", diz o sindicalista.
"Os trabalhadores estão sentindo que o discurso da direção das empresas é usar a crise para sair demitindo, mas nós vamos lutar para evitar demissões em massa", declarou Cavalieri. Para ele, os empregados da Vale só vão ter condições de discutir algo no campo da exceção (da CLT) se for colocado com transparência pelo conselho da empresa qual será a contribuição das outras áreas da empresa no corte de custos. "Não adianta ficar só nas nossas costas."
No Sul Fluminense, os sindicalistas tentam evitar demissões no setor metalúrgico em meio a uma leva de férias coletivas que atinge cerca de 14,3 mil empregados entre dezembro e janeiro, segundo cálculos do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense. Representantes do sindicato têm conversado com a direção das empresas e sugerido alternativas como a criação de banco de horas, a redução de benefícios e planos de demissão voluntária para evitar os cortes sem justa causa até fevereiro, depois do período das férias coletivas.
Na Peugeot-Citrö en, 3,2 mil dos funcionários da fábrica de Porto Real (RJ) estão em férias desde 8 de dezembro até 5 de janeiro. O terceiro turno da produção, formado por cerca de 700 empregados, ainda permanecerá em casa até o início de abril, em licença-remunerada equivalente a 75% do valor do salário.
Das três unidades que a fábrica de pneus Michelin possui no país, duas estão em férias coletivas desde segunda-feira. Cerca de 3 mil trabalhadores das fábricas de pneus de caminhões e ônibus da empresa ficarão parados até a primeira semana de janeiro.
Os trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), por sua vez, aceitaram negociar uma das quatro propostas apresentadas pela empresa: a criação de um banco de horas com validade até abril para computar as horas extras que deverão ser compensadas ou pagas de dois em dois meses, o que dá uma certa folga para a empresa.
Nesse ínterim o trabalhador pode ficar sem salários ou receber uma "ajuda compensatória" e que deve também ser negociada entre trabalhadores e empresas. Para a suspensão existem algumas condições. Uma delas é o empregador custear um programa de qualificação para os trabalhadores durante a suspensão. O cumprimento desse item permite ao trabalhador solicitar o benefício do seguro-desemprego. O valor varia de acordo com a faixa salarial, sendo pago em até cinco parcelas, conforme a situação do beneficiário.
Para Medeiros, trata-se de um instrumento interessante. "A empresa terá até cinco meses para se reorganizar e estudar a necessidade ou não de manter toda a massa de trabalhadores."
Segundo o advogado, a opção permite que o empregador economize em encargos, inclusive recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mas o trabalhador não poderá contar com o período de contrato suspenso para contagem de aposentadoria ou de férias. Caso o trabalhador seja dispensando durante a suspensão de contrato ou no período de três meses após o retorno ao trabalho a empresa terá de pagar uma multa em favor do empregado.
A força de negociação dos sindicatos de trabalhadores deverá fazer diferença nesse caso. O advogado lembra que qualquer contrapartida adicional, como estabilidade de emprego durante determinado período, por exemplo, deve ser discutida e explicitada em convenção ou acordo coletivo. O mesmo vale para a manutenção de benefícios durante o período de contrato suspenso, como o reembolso de despesas com mensalidade escolar ou o plano de assistência médica.
Medeiros diz que há a possibilidade de prorrogação do prazo de suspensão do contrato de trabalho. Novamente, porém, isso só poderá ser feito por meio de convenção ou acordo coletivo, com consentimento do trabalhador. Caso o trabalhador não concorde, a empresa só poderá demitir o funcionário sem justa causa. Apesar da prorrogação ser possível, não é permitida mais de uma suspensão do contrato de trabalho por um período de 16 meses.
A redutibilidade salarial, lembra Medeiros, também é permitida pela Constituição Federal, desde que prevista em convenção ou acordo coletivo. Isso abre uma possibilidade para a redução de jornada com diminuição dos vencimentos. Os novos horários e valores deverão ser discutidos e naturalmente, diz, levarão em consideração o praticado no mercado de trabalho. Nesse caso, diz ele, a empresa reduz o pagamento de encargos tributários e previdenciários calculados sobre a folha. Os trabalhadores mantêm o emprego, mas terão férias e décimo terceiro calculados sobre uma base menor.
Outra medida mais comum, aponta Medeiros, é a redução do reajuste salarial ou até mesmo sua supressão. Isso pode trazer fôlego de caixa para a empresa. "Neste ano, por exemplo, tivemos dissídios em média entre 9% e 11%, o que pode ser um grande custo levando em conta não só a folha, mas também repercussões como décimo terceiro e férias."
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