Arquivo de Saúde

Cego, mas enxergando: o sentido visual subconsciente do cérebro

Benedict Carey

O homem, um médico que ficou cego após dois derrames sucessivos, se recusava a participar do experimento. Ele não podia ver nada, disse, e não tinha interesse em percorrer o trajeto com obstáculos - um corredor com coisas espalhadas - em prol da ciência. Por que se dar ao trabalho?

Quando ele finalmente tentou, algo incrível aconteceu. Ele percorreu em ziguezague o corredor, evitando uma lata de lixo, um tripé, uma pilha de papel e várias caixas como se pudesse ver tudo claramente. Um pesquisador permaneceu próximo dele caso tropeçasse.

“Era preciso ver para acreditar”, disse Beatrice de Gelder, uma neurocientista de Harvard e da Universidade de Tilburg, na Holanda, que com uma equipe internacional de pesquisadores do cérebro relatou sobre o paciente na segunda-feira (22), na revista “Current Biology”. Um vídeo está disponível online em www.beatricedegelder.com/books.html.

O estudo, que incluiu abundantes imagens do cérebro, é a demonstração mais dramática até o momento da chamada visão cega, a habilidade natural de sentir as coisas usando o sistema visual primitivo, subcortical - e inteiramente subconsciente - do cérebro.

Os cientistas informaram previamente casos de visão cega em pessoas com danos parciais nos lobos visuais. O novo relato é o primeiro a mostrá-la em uma pessoa cujos lobos visuais - um em cada hemisfério, sob o crânio na parte posterior da cabeça- foram completamente destruídos. A descoberta sugere que as pessoas com lesões semelhantes podem ser capazes de recuperar certo sentido visual rudimentar com a prática.

“É um relatório feito com muito rigor e a primeira demonstração disto em alguém com aparente ausência total do córtex estriado, a região de processamento da visão”, disse o dr. Richard Held, um professor emérito de cérebro e ciências cognitivas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que juntamente com Ernst Poeppel e Douglas Frost, escreveu o primeiro relato publicado da visão cega em uma pessoa, em 1973.

O homem no novo estudo, um africano que vivia na Suíça na época, sofreu dois derrames quando estava na faixa dos 50 anos, em um intervalo de semanas, e era profundamente cego segundo qualquer medição habitual. Diferente de pessoas que sofrem com lesões nos olhos, ou cegueira congênita na qual o sistema visual se desenvolve de forma anormal, seu cérebro era fora isso saudável, assim como seus olhos, de forma que dispunha das ferramentas necessárias para processar a visão subconsciente. O que ele carecia era dos circuitos que formam uma imagem clara e consciente.

A equipe de pesquisa empregou tomografias do cérebro e imagens de ressonância magnética para ver as lesões, não encontrando evidência de atividade visual no córtex. Ela também não encontrou evidência de que o paciente estava se locomovendo por ecolocalização, como fazem os morcegos. Tanto o paciente, T.N., quanto o pesquisador que o acompanhou, percorreram o trajeto em silêncio.

O próprio homem ficou tão surpreso quanto todo mundo por ter conseguido percorrer o trajeto de obstáculos.

“Segundo minha experiência, quanto mais instrução a pessoa tem”, disse De Gelder, “mais difícil é acreditar que possui esses recursos de que não está ciente para evitar obstáculos. E essa era uma pessoa com formação elevada”.

Os cientistas há muito sabem que o cérebro digere o que entra pelos olhos usando dois conjuntos de circuitos. As células na retina projetam não apenas para o córtex visual - as regiões destruídas neste homem- mas também para áreas subcorticais, que em T.N. estavam intactas. Eles incluem o colículo superior, que é crucial para o movimento dos olhos e pode ter outras funções sensoriais; e, provavelmente, os circuitos que correm pela amídala, que registra a emoção.

Em uma experiência anterior, um dos autores do novo trabalho, o dr. Alan Pegna, dos Hospitais Universitários de Genebra, apontou que o mesmo médico africano tinha visão cega emocional. Quando colocado diante de imagens de rostos atemorizantes, ele contraiu os músculos subconscientemente, da mesma forma que a maioria das pessoas, apesar de não poder ver conscientemente os rostos. O sistema visual primitivo, subcortical, aparentemente registra não apenas objetos sólidos, mas também fortes sinais sociais.

Held, o neurocientista do MIT, disse que nos mamíferos inferiores, estes sistemas parecem exercer um papel maior na percepção. Em um estudo envolvendo ratos publicado na revista “Science” da última sexta-feira, os pesquisadores demonstraram que as células nas profundezas do cérebro eram na verdade especializadas em registrar certas qualidades do ambiente.

Elas incluem células de localização, que disparam quando um animal passa por certos marcos terrestres, e células de direção da cabeça, que rastreiam para onde o rosto está apontado. Mas o novo estudo também encontrou forte evidência do que os cientistas, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim, chamam de “células de fronteira”, que disparam quando um animal está próximo de uma parede ou algum tipo de fronteira.

Todos esses tipos de neurônios, que existem em alguma forma nos seres humanos, também podem ter auxiliado T.N. em seu percurso do trajeto com obstáculos.

Com o tempo, e prática, pessoas com lesões cerebrais podem aprender a fazer maior uso desses sistemas subconscientes ou semiconscientes, e talvez até mesmo começar a construir uma certa visão consciente a partir deles.

“Não se sabe quão aguçada poderia ser”, disse Held. “Provavelmente seria um senso espacial vago, de baixa resolução. Mas poderia lhes permitir se movimentar de forma mais independente.”

Tradução: George El Khouri Andolfato
do The New York Times

Comentários

Biologia do odor humano

Uma variante genética explica por que uma pessoa pode cheirar bem para uns e mal para outros

Joan Carles Ambrojo - El Pais

Por que algumas pessoas cheiram diferente das outras? Como é possível que nosso odor corporal seja agradável para umas pessoas e horrível para outras? Como a alimentação ou os medicamentos influem no odor corporal? O olfato é um dos sentidos que os humanos foram perdendo em comparação aos outros animais. No entanto, alguns narizes prodigiosos e bem treinados podem chegar a distinguir e descrever com perfeição milhares de perfumes ou os aromas de uma sopa.

A povo hadzabe, da Tanzânia, continua perseguindo suas presas com arco e flecha, mas, principalmente, com seu nariz. “Eles são como nós, só que conservaram a capacidade de detectar a presença de animais e seus rastros pelo cheiro”, diz Jordi Serrallonga, arqueólogo da Universidade de Barcelona (UB) e chefe do núcleo de pesquisas “Hominídeo - Grupo de Origens Humanas”.

“A explicação é que eles mantiveram uma forma de vida no meio rural, que não sofreu a intromissão dos odores industriais”, acrescenta.

Por que o homem atual perdeu parte de sua capacidade olfativa? Uma das razões é que essa capacidade não é necessária para a sobrevivência, mas isso também se deu pela falta de treinamento, acrescenta Serrallonga. Entretanto, o caminho é reversível; quando uma pessoa perde um sentido como o da visão, compensa a deficiência aumentando a sensibilidade do ouvido ou do olfato.

Escolhendo o parceiro

O olfato é até hoje importante na hora de escolher um parceiro. “Sabemos que um dos elementos que intervêm é o odor, o sistema olfativo principal, e com certeza o sistema olfativo secundário, especializado na detecção de feromônios com significado sexual”, afirma Jordi Llorens, especialista em neurotoxicologia e fisiologia dos sistemas sensoriais da UB.

Cientistas das universidades de Rockefeller e Duke (EUA) publicaram na edição digital da revista Nature em setembro de 2007 um estudo que explicava que a percepção do odor corporal é determinada por uma variante genética. Isto poderia explicar porque o suor de uma pessoa pode ser desagradável para alguns ou passar despercebido para outros. Trata-se do receptor de odores OR7D4.

Essa mutação alteraria a percepção da androsterona, um feromônio presente no suor de homens e mulheres, resultante da degradação da testosterona. Isso explicaria que enquanto o suor de uma pessoa pode lembrar a baunilha para uns, para outros pode lembrar o cheiro da urina, e para uma terceira pessoa pode ser algo neutro.

Porém, os odores corporais estão muito relacionados com o meio em que vivemos e nosso estado de saúde. É possível, inclusive, diagnosticar algumas doenças pelo odor corporal, segundo o centro de investigação Monell Chemical Senses Center de Filadélfia, EUA.

Um grupo de pesquisadores identificou um perfil aromático do carcinoma da célula básica, um tipo de tumor de pele, segundo um estudo publicado este ano no British Journal of Dermatology. Descobriram que “o perfil de odor que provém dos pacientes com câncer de pele é marcadamente distinto da pele normal”, afirma a autora, Michelle Gallagher. No futuro, pode-se considerar o emprego de narizes eletrônicos como uma forma não-invasiva de detectar o tumor, acrescenta.

Existem outras doenças que podem claramente “ser percebidas pelo cheiro”, diz Jordi Llorens. Por exemplo, a leucinose ou doença da urina com cheiro de xarope de bordo [árvore não encontrada no Brasil, da qual se extrai o célebre “maple syrup” canadense].

Às vezes, ao pular uma refeição, o hálito pode ficar com um forte cheiro de acetona. Isso acontece quando se ingere poucos carboidratos e o corpo deve queimar gordura e músculo para obter energia, uma vez que a urina contém corpos cetônicos e esse odor característico é exalado pela boca. Os diabéticos podem ser propensos a passar pela experiência e devem evitar essas situações.

El Pais

Comentários

Brasileiros desconhecem danos do sol

Raios ultravioletas provocam danos crônicos e cumulativos nos olhos; catarata e doença macular podem surgir mais cedo
Usar óculos de sol sem filtro protetor é mais prejudicial, pois lentes escuras fazem a pupilas dilatarem ainda mais, deixando-as expostas

FERNANDA BASSETTE
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA DE S. PAULO

As pessoas ainda desconhecem os malefícios provocados nos olhos pela exposição à luz solar sem usar óculos com proteção adequada. Um levantamento feito pelo Instituto Penido Burnier, de Campinas, com 223 pacientes com mais de 50 anos, mostra que mais da metade deles (57,6%) não tinha conhecimento sobre isso.
Do total de pacientes ouvidos, 42% usam óculos com lentes corretivas porque possuem algum problema de refração (miopia ou hipermetropia, por exemplo), mas 70% deles não usam lentes protetoras (que além de corrigir o problema também protege os olhos contra a radiação solar), o que aumenta o risco de catarata precoce e doença macular relacionada à idade.
A catarata é uma doença que normalmente atinge pessoas com mais de 60 anos. Nesse caso, a radiação solar ataca o cristalino dos olhos, deixando-o opaco e turvo, causando dificuldades de enxergar e podendo evoluir para a cegueira.
Já a doença macular relacionada à idade atinge principalmente idosos. A radiação ultravioleta provoca lesões na mácula (região central da retina, responsável por 80% da visão), afetando tanto a visão para longe quanto para perto. Ela é considerada a principal causa de cegueira não-reversível do mundo.
Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, autor do estudo, um levantamento feito nos Estados Unidos com 834 remadores que passaram a maior parte da vida com os olhos expostos constantemente ao sol sem proteção mostrou que 30% (250) deles tiveram diagnóstico de catarata por volta dos 50 anos.
"Embora não exista comprovação científica relacionando esses casos de catarata nos remadores à exposição solar, os indícios são bastante fortes e já se fala nessa possibilidade, pois o dano provocado aos olhos acontece depois da exposição cumulativa aos raios solares, não acontece do dia para a noite", avalia o oftalmologista.
De acordo com o oftalmologista Renato Ambrósio Junior, membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), alguns estudos populacionais mostraram que os casos de catarata apareceram mais precocemente em pessoas das regiões rurais, pois elas ficavam diariamente expostas ao sol sem nenhuma proteção.
Risco aumentado
Segundo Ambrósio Junior, usar óculos de sol sem o filtro protetor é ainda mais prejudicial à saúde dos olhos, pois no escuro as pupilas ficam mais dilatadas, facilitando a entrada de luz. "Se a pessoa está usando um óculos escuro sem proteção, ela está mais exposta aos danos dos raios ultravioletas porque o escuro faz a pupila dilatar naturalmente", disse.
De acordo com os oftalmologistas, muitas pessoas desconhecem que os óculos comuns podem ter uma lente protetora e que os óculos de sol podem ter uma lente corretiva. "O filtro que protege os olhos da luz solar é uma película incolor, que não muda a cor da lente dos óculos", disse Queiroz Neto.
Ambrósio Junior afirmou que recomenda o uso diário de óculos com proteção solar para todos os seus pacientes. "Além de oferecer mais conforto, os óculos proporcionam proteção, já que nós estamos expostos à radiação ultravioleta diariamente, inclusive no inverno. Além disso, os danos são cumulativos e crônicos", disse.
Os médicos orientam as pessoas a mudarem os hábitos e protegerem os olhos como rotina, assim como protegem a pele com protetor solar. "Neste verão, o ideal para quem não gosta de usar óculos seria proteger-se com uso de bonés ou viseiras para criar uma barreira física", diz Queiroz Neto.

SOL EMITE TRÊS TIPOS DE RADIAÇÃO
Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, existem três tipos de radiação: UVA, UVB e UVC. As duas mais prejudiciais aos olhos são a UVA e a UVB, pois elas não são absorvidas pela camada de ozônio.

Folha de S. Paulo - 22/12/08

Comentários

Número de acidentes de trabalho sobe 27,6% de 2006 para 2007

Por Bianca Pyl [Quarta-Feira, 17 de Dezembro de 2008 às 13:34hs]

O número de acidentes de trabalho aumentou 27,6% em 2007, comparado com o ano anterior. O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou 653 mil ocorrências, segundo dados do Anuário Estatístico de 2007. O maior impacto deste aumento (98,6%) diz respeito aos acidentes sem Comunicações de Acidentes de Trabalho (CATs), registrados por meio do nexo técnico epidemiológico - mecanismo que relaciona doenças que ocorrem com maior incidência às atividades profissionais. Os acidentes de trabalho registrados em 2007, por meio da CAT, aumentaram 3,7% em relação a 2006.
No ano passado, foram registradas 2,8 mil mortes por acidentes do trabalho em todo o país. "No caso dos acidentes fatais, o nexo técnico epidemiológico não interfere", explica Fernando Donato Vasconcelos, médico e auditor fiscal da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso (SRTE/MT). A nova metodologia não se aplica aos trabalhadores informais e só abrage o universo dos segurados pelo INSS.
Segundo ele, a caracterização do acidente envolve dificuldades na delimitação do que é o fator de risco ou causal, suas circunstâncias de ocorrência e a relação com o trabalho. Por isso, os números podem ser ainda maiores em função da subnotificação. "Comparando as estatísticas da Previdência Social com dados de Boletins de Ocorrência nos distritos policiais, por exemplo, temos níveis de subnotificação de cerca de 90%. Ou seja, a realidade de acidentes do trabalho é muito pior do que aparece nos dados oficiais".
Dados do governo federal mostram que acidentes e doenças do trabalho custam, anualmente, R$ 10,7 bilhões aos cofres da Previdência Social, responsável pelo pagamento do auxílio-doença, auxílio-acidente e aposentadorias.
Prioridade e planejamento
Para Fernando Donato, a primeira medida para diminuir o alto índice de acidentes repousa na priorização da questão dentro do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). "O problema não é novo. As iniciativas para combatê-lo foram se perdendo ao longo dos anos. Antigamente a segurança e saúde do trabalhador era uma secretaria dentro do MTE. Atualmente há um número pequeno de auditores especialistas no tema. Os recursos são limitados".
Para Junia Barreto, diretora do Departamento de Segurança e Saúde do Trabalho (DSST) do MTE, o que houve foi uma mudança de planejamento e não de prioridades. "Em nenhum momento, nos últimos anos, o planejamento de segurança e saúde foi deixado de lado. O que aconteceu, e que era necessário acontecer, é que o planejamento, que anteriormente era limitado à área, passou a englobar também os aspectos trabalhistas propriamente ditos".
Segundo a diretora, a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do MTE estabelece diretrizes para o planejamento. Neste ano, as prioridades determinadas têm como base os números de acidentes por setor econômico. Essas áreas serão alvos de fiscalizações em todo o território nacional. "Para os setores prioritários, são estabelecidas estratégias e táticas de intervenção, que podem incluir, além de uma fiscalização intensiva, outras metodologias, como notificação coletiva, reuniões, mediações". As superintendências regionais do MTE também podem definir suas prioridades.
Em 2007, o setor que mais acumulou acidentes de trabalho foi a indústria, com 129 mil ocorrências, seguido pelo setor de serviços, com 70,5 mil acidentes. Porém, o setor mais fiscalizado foi o comércio, com 43.461 ações, seguido da indústria, com 31.918 ações. Os dados foram apresentados pelo auditor fiscal Marcell Fernandes Santana, da SRTE/ES , durante o 26º Encontro Nacional dos Auditores Fiscais (Enafit). Das cinco divisões estabelecidas pela Previdência Social, o comércio é a que apresenta menor índice de acidentes e, apesar disso, foi o primeiro setor em número de fiscalizações do MTE.
Últimos três anos
No período de janeiro de 2005 a maio de 2008, 439 pessoas morreram em acidentes no trabalho no MT. As atividades econômicas com maior número de óbitos foram: transporte rodoviário de cargas (37), construção (30), criação de bovinos (22), madeireira (22) e cultivo da soja (19).
No mesmo período, quase 2 milhões de CATs foram emitidas no Brasil. E os setores que mais se destacam em números de ocorrências registradas são: as atividades de atenção à saúde; a construção; os transportes terrestres; os supermercados; o abate e preparação de produtos da carne e de pescado e o setor sucroalcooleiro. Fernando Donato pondera, entretanto, que nem sempre o problema é mais grave nas áreas de maior incidência. "No caso da área de saúde, por exemplo, são poucos acidentes que são fatais, o contrário ocorre no caso dos transportes".
No transporte de cargas, uma das principais causas de acidentes é a jornada exaustiva dos funcionários. "As empresas impõem um ritmo que leva um grande volume de caminhões na estrada, e com motoristas, inclusive, usando drogas para se manterem acordados. Alguns empregadores argumentam que as estradas é que são ruins, mas já foi comprovado que não são problemas nas estradas que causam acidentes", avalia Fernando.
No caso dos frigoríficos - que são muitos no Mato Grosso -, as condições de trabalho são insalubres, os trabalhadores são submetidos a altas e baixas temperaturas em curto intervalo de tempo. "No corte das peças é o estágio em que ocorrem mais acidentes", descreve o auditor fiscal Fernando.
A falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como a tela de proteção e o cinto, é a principal causa dos problemas na construção civil. "Nas madeireiras acorrem muitos acidentes porque os proprietários tiram um equipamento de proteção instalado na serra para que ela trabalhe mais rápido. Na derrubada de árvores também há casos de acidentes com motosseras".
Dados alarmantes
Foram contabilizadas 143 mortes por acidentes de trabalho no estado do Mato Grosso em 2007. O estado aparece em oitavo lugar na média de acidentes do trabalho fatais. Por outro lado, quando se analisa a Taxa de Mortalidade Específica [TME] por acidentes, calculada pelo número de óbitos notificados de trabalhadores segurados sobre o total de segurados, Mato Grosso passa à primeira posição na média referente ao período 1997-2006.
Enquanto a média nacional do período foi de 14,68 mortes por 100 mil segurados da Previdência Social e a de São Paulo, o estado com maior número absoluto com 7.668 mortes, foi de 11,12 mortes por 100 mil segurados, Mato Grosso apresenta uma média de 47,26 mortes por acidente do trabalho por 100 mil segurados do INSS.
A SRTE/MT criou o Comitê Estadual de Prevenção de Acidentes do Trabalho para tirar o estado do topo dessa lista. Participam do organismo, o INSS, a Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego, Cidadania e Assistência Social (Setecs), a Secretaria de Estado da Saúde (Ses), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Coordenadoria de Saúde do Trabalhador da Secretaria de Estado de Saúde (CSTSES). "A nossa pretensão é envolver a Polícia Rodoviária Federal, por conta dos acidentes de transporte e trazer a universidade para esse debate também", relata Fernando, da SRTE/MG.
O INSS é parceiro do MTE na análise dos acidentes de trabalho. Por meio do projeto Sirena, o instituto repassa informações do seu banco de dados para subsidiar a investigação das causas de óbitos e acidentes graves. Após o encerramento da análise, o MTE envia suas conclusões à Procuradoria do INSS para a possível proposição de ações regressivas contra os responsáveis, com o objetivo de recuperar para os cofres públicos os recursos gastos com benefícios previdenciários.
Bianca Pyl, da Repórter Brasil.

Bianca Pyl

Por: Revista Fórum

Comentários

Imbra: aumento de queixa contra clínica leva a alerta sobre serviços odontológicos

Reclamações contra empresa em SP subiram de 5 para 145; Procon recomenda atenção ao assinar contrato

Fabiane Leite
O Estado de S. Paulo - 8/12/08

O Procon de São Paulo está fazendo alertas para que pacientes tenham cuidado ao assinar contratos de serviços de odontologia, principalmente em razão do acúmulo de reclamações neste ano contra a Imbra Tratamentos Odontológicos, rede especializada em implantes dentários a preços populares.

As reclamações contra a empresa saltaram de 5 em 2007 para 145 neste ano - média de 13 por mês -, segundo o órgão de proteção e defesa dos consumidores. O número é quase o triplo de protestos relacionados a outras clínicas odontológicas. Até setembro, último mês disponível, eram 51 contestações, pulverizadas entre diversos serviços. Também supera as queixas contra profissionais autônomos e convênios.

Renata Molina, técnica do Procon, diz que as críticas dos clientes referem-se principalmente à descontinuidade dos serviços, alterações do tratamento e dos valores ao longo do contrato e dificuldades para receber o que foi pago quando há desistência antes mesmo do início dos procedimentos - ou quando o prometido ao cliente não é alcançado. A Imbra destacou que o número de contestações é ínfimo (mais informações nesta página).

“Há casos em que o cliente entrega os cheques e depois é informado de que não tem massa óssea para fazer os implantes. Isso teria de ser verificado previamente. São questões que demonstram falhas no processo”, diz Renata. “Não estamos falando da compra de uma roupa, mas de um tratamento de saúde”, completa ela, ressaltando que o marketing expressivo feito pela empresa e a possibilidade de parcelamento dos tratamentos têm atraído os consumidores.

Renata recomenda ao paciente exigir identificação dos profissionais responsáveis pelo tratamento, descrição de como será executado o serviço, detalhamento de cronograma, valor e condições de pagamento.

“Estou até hoje sem os quatro dentes que fui implantar”, diz o motorista Florinaldo da Silva, de 37 anos, que depois de dois meses de espera foi informado pela Imbra que faltavam pinos para a realização do procedimento. “Disse que não queria mais e até hoje não me devolveram R$ 570″, diz Florinaldo, que tem salário de R$ 1,2 mil.

PROCESSO

A dona de casa M., de 51 anos, retirou todos os dentes superiores por indicação de dentistas da empresa, que antes haviam recomendado limpeza, clareamento dental, tratamentos de canal e colocação de três coroas (capas para os dentes). Mudaram o plano de tratamento: apontaram danos irreversíveis e sugeriram implantes.

Ela, no entanto, acabou saindo da clínica sem os dentes, depois que os profissionais tiveram dificuldades para fixar os pinos. Até hoje usa prótese na arcada superior. “Ela foi desrespeitada, humilhada e abandonada. E foi obrigada a buscar tratamento psicológico para sanar os prejuízos emocionais”, diz seu advogado, Luiz Antônio Lourenço da Silva.

M. fez diversos protestos na clínica e em sites de defesa dos consumidores e foi processada pela empresa. Foi julgada à revelia, pois a Justiça apontou que sua então advogada perdeu prazo para recurso. Uma liminar (decisão provisória da Justiça) determinou então que M. pague uma indenização de R$ 21 mil à empresa em razão dos protestos, que supostamente teriam afastado outros clientes. Uma segunda liminar também a proibiu de fazer reclamações contra a Imbra em sites. Seus advogados, agora, recorrem das duas decisões.

A Imbra informou que a cliente teria se excedido durante os protestos e causado prejuízo financeiro ao afastar clientes.

Conselho faz advertência por problemas em propaganda

O Conselho Regional de Odontologia de São Paulo censurou publicamente a Imbra em agosto deste ano por propaganda antiética em razão de problemas, como anúncios que não informavam o nome e números dos dentistas responsáveis, além de propagandas sobre suposto serviços gratuitos, o que também é proibido pelo código de ética da categoria.

Segundo Marco Antônio Manfredini, integrante da comissão de ética do conselho, a oferta de serviços gratuitos é também classificada como concorrência desleal. A empresa terá de pagar multa de R$ 3.000.

“Não existia comunicação nesta área e tudo que é novo tivemos de aprender com o tempo, construir e ajustar”, afirmou o presidente da Imbra, Jorge Rocha, que não é dentista mas tem acompanhado as discussões no conselho.

“Quando você está criando a evolução alguém tem de pagar o ônus de ser o primeiro”, completou Rocha

Comentários

Justiça de SP anula sentença que condenou fabricantes de cigarro a indenizar fumantes

A 7ª Câmara Cível do TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) anulou nesta quarta-feira a decisão de primeira instância que condenou as fabricantes de cigarro Souza Cruz e Philip Morris a pagar indenizações de R$ 1.000 a todos os fumante do país por cada ano de consumo.
O processo contra as duas empresas foi movida pela Adesf (Associação de Defesa da Saúde do Fumante) em 1995. A sentença que condenou as duas companhias foi proferida em 2004.
A Souza Cruz e a Philip Morris recorreram, alegando que não foi dada oportunidade de ampla defesa às rés, já que as fabricantes não puderam produzir quaisquer provas.
O pedido foi acatado pelo tribunal. Com a decisão, o processo volta para a primeira instância para produção de provas e novo julgamento. (Folha Online)

Comentários

Estudo revela que 536 mil mulheres morrem em decorrência da gravidez por ano

O Relatório sobre a Situação da População Mundial 2008, divulgado na íntegra na última quarta-feira pelo UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), alerta que o número de mulheres que morrem em decorrência da gestação e do parto permanece basicamente inalterado desde 1980. A média é de 536 mil mortes por ano em todo o mundo. Outros cerca de 15 milhões de mulheres sofrem lesões ou adoecem.
A publicação sugere que abordagens sensíveis às diferenças culturais são ferramentas essenciais para ações focadas na promoção da saúde reprodutiva e sexual, bem como para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
A redução da mortalidade materna e a prevenção de lesões, ressalta a UNFPA, dependem de um melhor atendimento durante a gestação e o parto, além de serviços de emergência em casos de complicações e do acesso ao planejamento familiar.
Como exemplo, o texto cita que diversos governos e mesmo a comunidade internacional em geral consideram a mutilação genital feminina uma “violação” aos direitos humanos e um “perigo” à saúde mental e física das mulheres. Entretanto, de acordo com o relatório, a prática permanece “disseminada” e “arraigada” em algumas comunidades.
“Ela pode até mesmo ser considerada essencial para o ingresso na vida adulta e para a aceitação plena na comunidade. As mulheres que não se submetem podem ser consideradas feias e sujas. Acabar com essa prática implica levar em consideração todos os diferentes significados culturais e descobrir alternativas relevantes, em estreita cooperação com a comunidade”, destaca a UNFPA.
A publicação cita exemplos positivos como o de monges budistas no Camboja e de líderes locais no Zimbábue, que se destacam no combate ao HIV e à aids. Alianças bem-sucedidas, segundo o relatório, devem buscar parcerias amplas que incluam organizações de mulheres, jovens e trabalhadores, “para se fortalecer de forma conjunta”.
Já em relação à religião, a UNFPA reconhece que essa questão, por ser tema central na vida de muitas pessoas, influencia nas decisões e ações “mais íntimas”, mas que os apelos à religião podem ser utilizados para justificar violações consideradas “lamentáveis” dos direitos humanos –como o assassinato de mulheres em nome da “honra” ou mesmo os “crimes passionais”.
A participação dos homens na implementação e na execução de programas de saúde reprodutiva também é apontada pelo relatório como uma forma de garantir “sensibilidade cultural” e de vencer resistências. (Agência Brasil)

Comentários

Senado também aprova descriminalização do aborto

A lei foi aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados em meio a uma forte polêmica, e retornou à Câmara de Senadores, onde teve aprovação prévia

A lei foi aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados em meio a uma forte polêmica, e retornou à Câmara de Senadores, onde teve aprovação prévia

11/11/2008

Da redação,

Vermelho

A Câmara de Senadores do Uruguai aprovou nesta terça-feira (11) a Lei de Saúde Sexual e Reprodutiva, que descrimina o aborto até a décima segunda semana de gravidez em todo o país. A lei, que teve a aprovação da Câmara dos Deputados na semana passada, foi impulsionada pelos legisladores da coalizão de esquerda Frente Ampla. No entanto, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, é contra a lei e anunciou que vetará a medida.

No Senado, a lei foi aprovada com o voto a favor dos legisladores governistas (17) e o voto contra do Partido Nacional e do Partido Colorado, de oposição (13).

A lei foi aprovada na semana passada pela Câmara dos Deputados em meio a uma forte polêmica e por pouca margem (49-48), mas retornou à Câmara de Senadores, onde teve aprovação prévia, porque foi parcialmente modificada pelos deputados e os senadores tiveram que ratificar essas mudanças, que não foram de fundo.

População apóia

Segundo uma pesquisa divulgada um dia antes da votação, 57% dos uruguaios são a favor da lei que legaliza o aborto e 63% rejeitam a possibilidade de veto concedido pela Constituição a Vázquez, médico de profissão, que anunciou que exercerá esse poder.

Entre os entrevistados, 42% são contra e 1% não tem opinião formada ou preferiu não opinar. Dos 57% que são a favor do aborto, a grande maioria (65%) é de jovens, 67% têm nível sócio-econômico alto e 72% são eleitores da governante coalizão de esquerda Frente Ampla.

Alternativas ao veto

Segundo a senadora governista Mônica Xavier, mesmo o veto de Vásquez à lei, existe uma possibilidade remota de o projeto vir a ser aprovado. "Se o presidente realmente vetar e existir vontade do Poder Legislativo de questionar essa decisão, serão necessários os votos de três quintos de cada Câmara, algo que me parece um pouco difícil", lembrou a parlamentar.

De acordo com a agência mexicana de notícias Cimac, há outros parlamentares uruguaios que defendem o uso de um referendo para que a população possa decidir se o projeto votado nesta terça-feira entrará em vigor ou não.

Sociedade em polvorosa

Nos últimos anos, debates acalorados sobre o tema vê mobilizando forças favoráveis e contrárias à descriminalização do aborto no Uruguai. Na semana passada, pouco antes da decisão favorável da Câmara dos Deputados, o arcebispo de Montevidéu, Nicolas Cotugno, chegou a ameaçar de excomunhão os parlamentares que votassem a favor do projeto.

A atual legislação uruguaia para a questão do aborto vigora desde 1938 só tolera a interrupção da gravidez em casos de estupro ou risco de morte para a mãe. Segundo cifras do governo, ocorrem anualmente no país cerca de 33 mil abortos, mas há estimativas que calculam um número até duas vez maior – o Uruguai tem atualmente cerca de 3,3 milhões de habitantes.

Apesar das ameaças, a Igreja Católica decidiu na semana passada que não irá excomungar nenhum político do país.

Comentários

Estudo aponta que uso de insulina transgênica gera distúrbios físicos e doenças

03/11/2008
Transgénicos Da AS-PTA
Um dos argumentos mais comumente utilizados em defesa da segurança dos alimentos transgênicos é o de que a insulina utilizada no tratamento dos diabéticos há muitos anos é transgênica e não apresenta riscos. O mesmo dizem das vacinas que aplicamos em nossos bebês — ressaltando que em nenhum momento somos alertados sobre o fato de estes produtos terem sido fabricados através da modificação genética.
Entretanto, são numerosos os relatos sobre efeitos colaterais da insulina “humana” transgênica.
Um exemplo é um artigo publicado no South Gippsland Sentinel Times, da Austrália, em setembro deste ano, dando conta de terríveis efeitos vivenciados por um usuário da insulina transgênica.
O autor relata que usando a insulina transgênica seu controle de açúcar no sangue era deficiente. Os resultados de seus testes eram irregulares e normalmente diferentes do esperado.
Após descobrir que usava insulina transgênica e que a insulina animal natural ainda existia no mercado, decidiu mudar. Como resultado, seu controle do açúcar no sangue melhorou imediatamente e substancialmente. O mais surpreendente foi que sua necessidade diária de insulina diminuiu em 15-20%, sem que tivesse havido qualquer mudança em sua dieta, nos exercícios praticados ou na rotina de aplicação das injeções.
O autor diz ter percebido que, olhando para trás, deu-se conta de que foi logo após ter começado o tratamento com a insulina transgênica que ele desenvolveu a doença de Crohn — uma doença inflamatória intestinal cujas complicações incluem artrite, inflamações oculares e erupções de pele. No entanto, após retomar o uso da insulina natural, sua doença de Crohn tem regredido sem o uso de medicamentos.
Mas o problema relatado com mais freqüência, e relatado também pelo autor do artigo no South Gippsland Sentinel, é perda dos sintomas alertando o estado de hipoglicemia, o que pode levar ao coma e à morte em alguns casos. Segundo o autor, também estes sintomas voltaram a se manifestar normalmente quando voltou a usar a insulina animal.
Os outros efeitos colaterais relatados incluíram cansaço extremo, ganho de peso, mal estar freqüente, perda de memória e confusão mental, irregularidade dos açúcares no sangue, sono constante, mudanças de humor e dores nas juntas.
Quinze dias após a publicação deste artigo, um leitor também australiano publicou uma resposta, que começa com os dizeres: “Ao autor do artigo ‘Os efeitos colaterais da insulina transgênica’, não há como agradecê-lo o suficiente por suas informações”.
O leitor diz ser diabético tipo 1 desde pequeno e, após ter usado na infância insulina suína e bovina, foi durante os últimos 20 anos usuário da insulina transgênica, que ele acreditava ser o melhor tratamento disponível.
“Desde que li seu artigo e então comecei a pesquisar sobre o assunto na internet, estou chocado com o repentino despertar para o fato de que sofri durante os últimos 20 anos de um conjunto de sintomas bizarros e não diagnosticados e provavelmente desnecessários. Li, em um fórum sobre diabetes, página após página de experiências de outras pessoas que usaram insulina transgênica. Meus problemas são similares, se não idênticos, aos de sua lista de efeitos colaterais”, continua a carta.
O leitor relata que nos piores momentos sua confusão mental era tão grande que disseram a ele que provavelmente tinha um tumor cerebral. Mas todos os especialistas e exames não deram respostas. Recebeu uma variedade de explicações vagas, tendo até sido sugerido que ele poderia ter epilepsia, mas ninguém sugeriu que a insulina transgênica poderia ser um problema para ele.
Entre os problemas que teve, ele relata fadiga crônica, fibromialgia, severa perda de memória, cansaço, letargia, enxaquecas, variações de humor, depressão, suores noturnos, febres, desmaios, inchaço facial, indisposição matinal, dores no corpo e nas juntas… “eu já havia sucumbido ao fato de que esta era simplesmente a minha sina”, relata ele.
Este leitor também contou que seus sintomas de hipoglicemia haviam sido substituídos por náusea, o que dava a impressão de que seu nível de açúcar no sangue estava alto quando na verdade estava baixo.
“Após ler seu artigo e então pesquisar sobre suas queixas”, continua o leitor, “eu esperançosamente decidi voltar a usar a insulina bovina… Em apenas 12 horas de uso eu fiquei mais ágil, dormi em uma nuvem pela primeira vez em 20 anos, e minhas dores no corpo começaram lentamente a diminuir. Meu inchaço facial que me impedia de sair de casa e o edema em minhas pernas foram embora. Minhas questões neurológicas continuam comigo. Espero que com o tempo passem, mas quem sabe que danos permanentes restarão? Sinto agora pelos meus 20 anos perdidos, que poderiam ter sido tão melhores para mim e para a minha família”.
O autor conclui dramaticamente dizendo crer que sua geração de dependentes de insulina foi usada como cobaia enquanto as indústrias farmacêuticas rolaram em dinheiro e gozaram de boa saúde.
O site da organização Insulin Dependent Diabetes Trust (IDDT) informa que nenhum estudo de larga escala e de longo prazo foi feito comparando insulina “humana” transgênica com insulina animal natural. As pesquisas realizadas até hoje foram grosso modo feitas em condições de laboratório e/ou usando pequeno número de pessoas.
Segundo a organização, a primeira pesquisa sobre insulina “humana” transgênica, feita em 1980 pelo professor Harry Keen, envolveu 17 homens saudáveis e não-diabéticos e, em 1982, a insulina “humana” recebeu a aprovação para uso geral. Este é um prazo incrivelmente curto para a aprovação de uma nova droga, especialmente considerando que a insulina “humana” transgênica foi o primeiro medicamento geneticamente modificado a ser usado em pessoas.
Quando de sua criação, em 1994, o IDDT enviou questionários a todos os que contataram a organização e analisou as 100 primeiras respostas (os questionários recebidos subsequentemente foram todos muitos similares aos 100 primeiros).
As informações recebidas deste primeiro grupo foram as seguintes:
A análise mostrou que em média os efeitos adversos não apareceram antes de 13 meses após o início do tratamento com a insulina “humana” transgênica:
- 41% - perda de sintomas de hipoglicemia
- 34% - extremo cansaço ou letargia
- 9% - sono o tempo inteiro
- 32% - ganho de peso de 9,5 kg ou mais
- 28% - mal estar o tempo todo
- 24% - perda de memória ou confusão mental
- 9% - níveis de glicose no sangue caindo e subindo erraticamente
- 8% - descritos por suas famílias como “não mais a mesma pessoa”
- 5% - mudanças de humor, descritos como de difícil convivência
- 7% - dores, especialmente nas pernas e juntas

Declarações que também apareceram com freqüência nos questionários foram: “eu não sabia que existia insulina animal”, “eu nunca soube que havia outras alternativas” e “eu nunca tinha me dado conta de que a insulina ‘humana’ não era derivada de humanos”.
Para os interessados, há muito o que pesquisar sobre este tema na internet. Mais uma vez é impressionante constatar as nefastas práticas da indústria biotecnólogica e a terrível irresponsabilidade dos órgãos regulamentadores — a primeira forçando a entrada no mercado de produtos novos, pouco avaliados e cujos efeitos colaterais são verdadeiras incógnitas, e os segundos permitindo que enormes contingentes de pessoas sejam expostos a riscos e mazelas desnecessárias, sequer oferecendo à população a graça da informação.
Pensar nos possíveis riscos das vacinas transgênicas atualmente aplicadas em larga escala em bebês (inclusive recém-nascidos) é aterrorizante. A depender dos órgãos regulamentadores — que seguem rigorosamente o Princípio da Proteção das Indústrias — saberemos dos eventuais problemas depois que forem constatados nas vítimas.

 

Por: MST

Comentários

USP produz 1ª linhagem brasileira de células-tronco embrionárias

celulas tronco - celulas tronco

É o 1.º resultado prático desde a legalização desse tipo de pesquisa, em 2005; uso de embrião ainda gera polêmica
Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) produziram a primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas do Brasil. As células foram obtidas de embriões que estavam congelados em clínicas de fertilização in vitro e que foram doados para pesquisa com a autorização dos genitores. É o primeiro resultado prático obtido no Brasil desde a legalização das pesquisas com embriões humanos, em 2005, pela Lei de Biossegurança - que foi questionada na Justiça e reconfirmada em maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Até agora, mesmo com a autorização legal, como não havia linhagens produzidas no País, pesquisadores brasileiros interessados em trabalhar com células embrionárias humanas eram obrigados a importar linhagens congeladas de laboratórios estrangeiros. “Precisamos ter autonomia. Não podemos ficar dependendo da tecnologia dos outros para sempre”, disse ao Estado a geneticista Lygia Pereira, do Instituto de Biociências da USP, que produziu a linhagem em colaboração com a bióloga Ana Maria Fraga.
Cerca de 250 embriões, segundo Lygia, precisaram ser descongelados para chegar a essa primeira linhagem. A pesquisa é polêmica porque, para obter as células, é preciso destruir os embriões congelados, que a Igreja e outros críticos consideram seres humanos.
Os embriões foram doados pelas clínicas Centro de Reprodução Humana Prof. Franco Junior, de Ribeirão Preto, e Fertility, de São Paulo, que também fez a extração inicial das células. Eram todos embriões “sobressalentes”, que estavam congelados havia mais de três anos - como exige a lei - e não seriam mais usados para fins reprodutivos, segundo os pesquisadores. Em todos os casos, os casais assinaram um termo de consentimento autorizando a doação.
DIFICULDADES
A maioria dos embriões não resiste ao descongelamento e deteriora-se naturalmente após alguns minutos ou horas - o que ocorreria também se a intenção fosse usá-los para reprodução humana. Dos 250 que foram descongelados, só 30 chegaram ao estágio mais avançado de blastocisto - um embrião de cinco dias e aproximadamente cem células, do qual podem ser extraídas células-tronco (CTEs) pluripotentes, com capacidade para se diferenciar em qualquer tecido do organismo adulto.
Foi um desses blastocistos que deu origem à linhagem batizada de BR-1, que no início da semana já estava com mais de 1 bilhão de células. A paternidade dos embriões é mantida em sigilo pelas clínicas, para proteger a privacidade dos doadores.
Lygia agora continuará a multiplicar as células in vitro, distribuindo amostras para os pesquisadores que quiserem trabalhar com elas. A grande vantagem das células-tronco, além da pluripotência, é que são “imortais”: podem ser multiplicadas in vitro indefinidamente, sem perder suas características.
Com isso, Lygia repete pela primeira vez no Brasil o que foi feito dez anos atrás pelo pesquisador James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), que derivou a primeira linhagem celular de embriões humanos em 1998.
“A única vantagem de começar dez anos depois é que já entramos um passo à frente, com a experiência acumulada de vários laboratórios para nos guiar”, diz a geneticista da USP, que também produziu a primeira linhagem de células-tronco embrionárias de camundongo, em 1999, e o primeiro camundongo transgênico do País, em 2001.
Desde então, centenas de linhagens de CTEs já foram produzidas em vários países, entre eles alguns europeus, China, Coréia, Israel e Estados Unidos. Mas ninguém sabe ao certo quantas, já que os trabalhos viraram “rotina” e deixaram de ser publicados em revistas internacionais. “Há muitas linhagens por aí, sem dúvida, mas quantas mais, melhor”, disse ao Estado o pesquisador William Lensch, do Children?s Hospital de Boston e do Instituto de Células-Tronco de Harvard.
Apesar de haver muitas linhagens de CTEs disponíveis para importação, Lensch considera essencial que países como o Brasil sejam capazes de derivar suas próprias linhagens - que foi, de fato, a grande oportunidade aberta pela Lei de Biossegurança. “Claro que você pode encomendar algumas células no correio, mas, se você aprende a produzi-las por conta própria, vai aprender muito mais.”
“O mais importante é o domínio da técnica”, avalia também o pesquisador Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que utiliza células-tronco (importadas de Harvard e Wisconsin) para estudar o desenvolvimento de neurônios. Ele deverá ser um dos primeiros usuários da linhagem BR-1. “Certamente é algo que terá uma importância enorme para a comunidade científica brasileira, estimulando outros grupos a trabalhar nessa área”, diz.
Estudos comparativos mostram que há muitas diferenças entre linhagens - algumas são melhores para formar neurônios, outras para fibras musculares, etc. E ninguém sabe explicar por quê. “Há muita pesquisa básica que ainda precisa ser feita nessa área”, diz Lensch.
As células-tronco embrionárias humanas são extremamente difíceis de se cultivar. Após uma série de tentativas frustradas ao longo dos últimos dois anos, Lygia e Ana só comemoraram na quinta-feira passada, quando receberam o resultado de um teste comprovando que as células expressavam genes marcadores da pluripotência - especialmente um chamado Oct-4. “Isso mostrou que eram células-tronco pluripotentes”, explica Ana.

Comentários

Luta contra contaminação SHELL/Basf leva a programa de saúde inédito no país

Referência em contaminação é única no Brasil e beneficia toda população

shell - shell

A luta que o Sindicato Químicos Unificados e a Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq) travam contra a SHELL Brasil e Basf S.A. em razão da criminosa contaminação ambiental e humana por elas produzida no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia, levou à construção de um programa inédito e que, agora, após uma fase inicial de implantação, passa a ser referência primeira e única em todo o Brasil em casos semelhantes.

Mais abaixo, conheça o texto integral do protocolo deste programa e o relatório final sobre o crime de contaminação ambiental SHELL/Basf cometido na planta industrial das duas multinacionais, no município.

A Atesq é uma entidade criada originariamente pelos ex-trabalhadores da SHELL e Basf, todos contaminados pelas duas multinacionais e demitidos sem qualquer atenção à saúde, mesmo portadores de diversos sintomas, inclusive com a ocorrência de mortes.

Sociedade beneficiada

Shell 1 - Shell 1

Esta conquista do Unificados e da Atesq ganha grande dimensão, pois, o Termo de Ajuste e Conduta (TAC), nome oficial do programa, será aplicado em todos os casos de contaminação ambiental e humana que vierem a ocorrer no país – e mesmo nos já em estudo -, independente de já haver ou não sintomas de doenças adquiridas.

Ou seja, ao contrário do que ocorre até hoje nos casos de contaminação, quando é preciso esperar o surgimento da doença e depois tentar tratar, com este programa haverá pesquisa antecipada e, assim, estará sendo preservada a saúde.

De início, 6 mil pessoas

A implantação prática do TAC teve início no primeiro semestre deste ano. Deverão ser atendidas cerca de 6 mil pessoas entre ex-trabalhadores diretos e terceirizados da SHELL/Basf e seus familiares (a contaminação pode ter chegado por meio de roupas e pertences), mais os moradores e trabalhadores nas chácaras vizinhas à planta industrial das duas multinacionais e todos que por uma razão ou outra estiveram expostos.

Este atendimento está ocorrendo por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) em Campinas e pela Secretaria Municipal de Saúde de Paulínia.

O Protocolo do programa

O programa inédito recebeu o nome oficial de PROTOCOLO DE ATENÇÃO E VIGILÂNCIA À SAÚDE DE POPULAÇÕES EXPOSTAS AOS CONTAMINANTES AMBIENTAIS GERADOS PELAS EMPRESAS SHELL, CYANAMID E BASF, EM PAULÍNIA/SP – 2007.

CLIQUE AQUI para ler o protocolo oficial na íntegra.

O Relatório Final

O relatório oficial final sobre as contaminações no bairro Recanto dos Pássaros recebeu o nome de AVALIAÇÃO DAS INFORMAÇÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO DOS TRABALHADORES DAS EMPRESAS SHELL, CYANAMID E BASF A COMPOSTOS QUÍMICOS EM PAULÍNIA/SP – RELATÓRIO FINAL AGOSTO/2005. leia Mais

Os caminhos da conquista

shell 3 - shell 3

A luta que levou à criação do programa pioneiro que é o TAC teve início em 2002, com a denúncia da contaminação pela SHELL/Basf, a demissão dos trabalhadores e o fechamento das fábricas.

À época, as multinacionais garantiram que iriam cuidar da saúde dos trabalhadores. Ainda nesta fase, o Unificados e os ex-trabalhadores prepararam um primeiro projeto para o atendimento então prometido pelas empresas, o que nunca ocorreu.

Na seqüência, e ao longo dos anos, foram inúmeras as visitas, pressões, negociações, manifestações e reivindicações pelo direito à saúde junto às secretarias municipais de Saúde de Campinas, Paulínia e Cosmópolis; secretaria estadual de Saúde; Ministérios da Saúde, Trabalho e Meio Ambiente; Justiça do Trabalho e Justiça Civil; Vigilância Sanitária e Cetesb. Foi feita denúncia até na Organização das Nações Unidas (ONU), que enviou uma representante para receber mais informações.

Em todas as entidades e órgãos governamentais percorridos, entre outros específicos, um problema comum sempre surgiu em todos: como fazer um estudo e o tratamento das conseqüências desta contaminação adquirida se ainda não existiam parâmetros laboratoriais, clínicos, científicos e literatura específica?

Justiça Federal

A última porta a ser batida foi a da Justiça Federal, na qual foi protocolada toda documentação até então acumulada, mas sem que os ex-trabalhadores tivessem o atendimento à saúde, um direito constitucionalmente garantido.

E a Justiça Federal começou a pressionar, a cobrar e a exigir providências de todos os órgãos públicos, em todas as instâncias, com responsabilidade legal pelo tratamento.

A partir daí foi formado um grupo de trabalho integrado por representantes de diversos órgãos municipais, estaduais e federais, representantes do Unificados e da Atesq, mais a contribuição de profissionais da área da saúde engajados em movimentos em defesa da vida.

Participe das reuniões

A Atesq e o Sindicato Químicos Unificados fazem reuniões semanais sobre este crime de contaminação ambiental e humana SHELL/Basf, nas quais avaliam o momento e discutem novas ações. Nas três primeiras quintas-feiras do mês elas são realizadas no sindicato em Campinas e na última na subsede de Paulínia.

Caso SHELL: câncer já fez 15 vítimas

Número de casos da doença entre ex-moradores do bairro Recanto dos Pássaros supera em 37 vezes a média paulista

V  tima da Contamina    o - V  tima da Contamina    o

Antônio de Pádua Mello, ex-morador do bairro Recanto dos Pássaros, em Paulína/SP (FOTO: LEANDRO FERREIRA/AAN)

Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br

Uma das principais estratégias de defesa das empresas que provocaram contaminações na região de Campinas é admitir que solo, subsolo e lençol freático foram afetados por substâncias químicas, mas ao mesmo tempo contestar a relação delas com doenças que tenham surgido ou possam se manifestar em ex-trabalhadores e moradores de áreas atingidas. Mas há evidências que comprovam haver uma relação de direta da contaminação com doenças. De um grupo de 130 ex-moradores do bairro Recanto dos Pássaros, contaminado pela SHELL em Paulínia, há 15 casos de pessoas que morreram por causa de câncer ou estão com a doença segundo levantamento feito para a quarta reportagem da série do Correio sobre contaminação.

O levantamento foi feito pelo ex-morador Antônio de Pádua Mello, que afirma ter sido constatado nas pessoas que passaram por exames até sete diferentes produtos que contaminaram a região onde moravam. Essa estatística significa uma média de 11,5 casos de câncer a cada 100 pessoas. “Não é normal ocorrer tantos casos. É claro que alguma coisa errada havia na fábrica”, disse Mello.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a média prevista no Estado de São Paulo é de 327 para cada 100 mil homens e 306 para cada 100 mil mulheres. Isso dá uma média de 0,32 caso a cada 100 em para homens e 0,3 em cada 100 na população feminina. Ou seja, entre os moradores do Recanto dos Pássaros a média é 37 vezes maior.

Uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) está pedindo que a SHELL e Basf paguem uma indenização de R$ 620 milhões para custear equipamentos e laboratórios para atendimento das vítimas como forma de ressarcir os gasto do Sistema Único de Saúde (SUS) com o tratamento de ex-funcionários e ex-moradores do Recanto dos Pássaros.

No pedido de tutela antecipada, a Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região também pede que as empresas sejam obrigadas a contratar um plano de saúde vitalício, com ampla cobertura, para todos os trabalhadores expostos aos riscos de contaminação, incluindo-se aqueles que desempenhavam suas atividades no Recanto dos Pássaros.

Uma primeira audiência foi realizada em maio, mas as empresas recorreram e conseguiram adiar a decisão da Justiça. O caso continua sendo avaliado e outras audiências serão realizadas. A Procuradoria do Trabalho apresenta os resultados de exames para sustentar sua reivindicação.

Avaliações na população realizadas em 2001 indicaram que 156 pessoas — 86% dos moradores do bairro —, apresentavam pelo menos um tipo de resíduo tóxico no organismo. Desses, 88 apresentam intoxicação crônica, 59 tinham tumores hepáticos e da tireóide e 72 estavam contaminados por drins. Das 50 crianças avaliadas, que na época tinham até 15 anos, 27 manifestavam um quadro de contaminação crônica.

Paulo Souza, ex-morador do bairro e atual secretário de Defesa e Desenvolvimento do Meio Ambiente de Paulínia disse que antes de serem notificados do problema da contaminação, começaram a perceber que havia algo errado. “Eu colocava cloro na minha piscina e a água ficava preta. Depois apareceu gente da empresa dizendo para não comermos o que era produzido nas chácaras e não beber a água. Mesmo assim, eles não admitem que a gente estava sendo contaminado”, afirma.

O NÚMERO

620 MILHÕES DE REAIS É o valor da indenização pedido pelo Ministério Público do Trabalho para a SHELL e Basf custearem tratamentos de saúde.

Plano inédito monitora Mansões de Sto. Antônio

Trabalho é desenvolvido pelo Ministério da Saúde junto com a Prefeitura de Campinas

Um trabalho pioneiro está sendo desenvolvido por meio de uma parceria Ministério da Saúde com a Prefeitura de Campinas diretamente com a população exposta à contaminação ambiental do loteamento Mansões Santo Antônio. A área foi contaminada por produtos químicos da fábrica Proquima, que funcionou no local de 1973 a 1996.

Segundo Janete de Prado Alves Navarro, sanitarista e coordenadora da Vigilância de Saúde Ambiental de Campinas, o projeto está sendo implantado desde o ano passado e pretende criar procedimentos para tratar casos de contaminação em todo o País.

“Estamos definindo quais são as competências de cada órgão envolvido, identificando as pessoas que moram ou trabalharam na área, capacitando profissionais sobre como comunicar a população nesses casos sem criar pânico ou prejudicar os contaminados e criando um protocolo de acompanhamento”, disse.

Esse protocolo define quais os contaminantes identificados que podem causar problemas à saúde, o que fazer para acompanhar as pessoas afetadas, quais exames elas devem fazer, a cada quanto tempo devem ser avaliadas e o que é necessário para garantir tratamento.

“Muitas doenças podem se manifestar só dentro de 15 ou 20 anos. Por isso, estamos discutindo a gestão da saúde, como melhorar a capacidade de atendimento, os exames e equipamentos para tratar esses casos”, afirma. Até pedidos de verbas para garantir esse atendimento estão sendo feito agora ao governo federal.

O método de investigação que avalia o histórico da ocorrência e as implicações na saúde tem como base a metodologia norte-americana da Agency for Toxic Substances and Disease Registry (ATSDR), que dimensiona o risco e controla a exposição humana aos contaminantes ambientais.

O objetivo do governo federal ao desenvolver esse programa em Campinas é estabelecer um protocolo brasileiro de investigação de áreas contaminadas por produtos químicos e das populações expostas. Além da área das Mansões Santo Antônio, outras quatro áreas localizadas em diferentes cidades brasileiras estão incluídas no projeto piloto.

Um dos maiores desafios encontrados pelo grupo em Campinas é a forma de abordagem com a população afetada e a identificação de seus interesses e temores. No caso do Mansões, o primeiro temor dos moradores foi com a perda financeira por causa da desvalorização dos imóveis. Muitos ex-trabalhadores contaminados na construção também têm problemas para conseguir empregos depois que o caso virou público.

Essa resistência é comum em casos de contaminação. Paulo Souza, que foi um dos primeiros a denunciar o caso de contaminação no Recanto dos Pássaros, em Paulínia, diz que no início enfrentou a revolta dos caseiros que temiam perder seus empregos nas chácaras. Mas depois que diversos trabalhadores começaram a morrer jovens, eles perceberam a gravidade do caso.

Histórico

A contaminação ambiental das Mansões Santo Antônio foi ocasionada pela já extinta indústria de produtos químicos Proquima. A empresa esteve instalada no local por mais de 20 anos e trabalhava com a recuperação de solventes.

Após encerrar suas atividades, a empresa vendeu o terreno para a construtora Concima que, em 1997, iniciou a construção de um condomínio. Em abril de 2002, a Prefeitura foi informada oficialmente pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) sobre a situação inadequada do local.

A população foi orientada a não utilizar água que provenha do solo. Equipes da Secretaria de Saúde de Campinas interditaram 19 poços e lacraram uma nascente.

Também foram embargadas, em setembro de 2002, quatro construções que estão naquela área. As obras tiveram que ser suspensas porque, por necessitarem de movimentação de solo, poderiam oferecer risco à saúde dos trabalhadores. Ainda hoje está sendo negociado com a construtora um acordo para remediação da área. (MA/AAN)

FONTE: Reprodução na íntegra (texto e foto)
de reportagem publicada na edição de hoje
(quarta-feira, 12 de dezembro de 2007),
do jornal Correio Popular, de Campinas/SP.

A HISTÓRIA COMPLETA NO SITE DO SINDICATO

Leia toda a história sobre o crime de contaminação ambiental e humana (nos moradores e em seus trabalhadores) praticadas pelas multinacionais SHELL Brasil e Basf S.A., na planta industrial situada no bairro Recanto dos Pássaros, em Paulínia/SP, no site do Sindicato Químicos Unificados: http://www.quimicosunificados.com.br/noticias.php?id_secao=12

10 de dezembro de 2007

Contaminados SHELL/Basf enfrentam futuro sombrio

Sem dinheiro e sem emprego, parte de ex-funcionários
morreu e parte convive com perspectiva de doenças que ainda virão

trabalhadores da shell - trabalhadores da shell

Reunião de ex-trabalhadores da SHELL e da Basf, no Sindicato dos Químicos Unificados, Regional de Campinas (foto: Eduardo Beck/AAN)

Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br

Quarenta e oito, até a semana passada. Esse é o número de ex-funcionários da SHELL e da Basf de Paulínia mortos desde 1977. A conta macabra é feita e refeita pelo grupo que se reúne toda quinta-feira no Sindicato dos Químicos em Campinas. Eles sabem que podem ser os próximos a entrar na contabilidade. Muitos estão doentes e outros torcem para que as substâncias acumuladas em seus corpos não se manifestem. O grupo faz parte da Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas (Atesq), que existe há 5 anos e luta para que as multinacionais custeiem tratamentos de saúde dos trabalhadores e seus familiares.

“As substâncias que nos contaminaram se manifestam a médio e longo prazos e podem atingir até a terceira ou quarta geração de nossas famílias”, disse Antonio de Marco Rasteiro, diretor da associação, para a segunda matéria da série do Correio Popular sobre contaminações. Dos 48 colegas mortos, nenhum tinha mais de 60 anos e muitos foram vítimas de câncer. Eles ainda não têm as contas fechadas com as causas de cada uma das mortes.

Cerca de 10 ex-trabalhadores morreram vítimas de acidentes, mas nem nesses casos eles descartam ligações com a contaminação. “Eles podem ter passado mal antes dos acidentes”, diz Rasteiro. O que pode parecer exagero, para esses ex-funcionários faz sentido. Eles sentem na pele os efeitos das substâncias químicas que carregam.

Além dos contaminados da SHELL e Basf em Paulínia, a associação também reúne contaminados em Cubatão, Osasco, Mauá, Rafard e outras localidades onde houve unidades industriais com casos confirmados. Rasteiro diz que no Estado de São Paulo são 1.822 áreas contaminadas, sendo mais de mil de postos de combustíveis e cerca de 800 de indústrias.

A SHELL nega que eles tenham sido contaminados durante o tempo em que trabalharam lá. “(É) importante destacar que a existência de contaminação ambiental não implica necessariamente em risco ou danos para a saúde das pessoas. Dessa forma, não é possível afirmar que trabalhadores estejam contaminados pelo fato de terem trabalhado em uma instalação onde foi detectada uma contaminação do solo em área restrita”, informou a empresa por meio de sua assessoria de imprensa.

Os trabalhadores dizem que sofreram exposição crônica às substâncias e que as empresas os mantiveram em contato com as elas mesmo depois de fazer a autodenúncia de contaminação, em 1995. “Eles informaram que apenas estava sendo feito um trabalho para diminuir o impacto ambiental e não falavam sobre a gravidade da contaminação”, disse Rasteiro.

Ele diz que a contaminação afetou até a edificação onde funcionaram as fábricas. “Já tiraram 626 caminhões de entulho e 450 toneladas de ferragem do local”, afirma. Ainda diz que havia contato direto com as substâncias, pois havia falhas de engenharia e de procedimento no manejo dos produtos.

Ação

O grupo entrou em 2002 com uma ação coletiva pedindo que a SHELL e a Basf custeiem tratamentos médicos. Neste ano, o Ministério Público entrou com outra ação e novas negociações foram retomadas há seis meses, segundo o advogado da Adesq, Vinicius Cascone. Ele diz que a ação da associação é apenas para o tratamento de saúde e, pedidos de indenização, devem ser feitos individualmente.

Os trabalhadores afirmam que nunca passaram por tratamento custeado pelas empresas, apesar de apresentarem inúmeros problemas. Segundo a SHELL, todos os ex-funcionários foram convidados para as avaliações de saúde por diversos anúncios publicados no segundo semestre de 2001 nos principais jornais da região, por telegramas e telefonemas.

A empresa também afirma que por mais de três anos deixou à disposição dos ex-empregados que trabalharam em sua antiga fábrica uma das mais respeitadas clínicas especializadas em saúde do trabalhador e toxicologia ocupacional para avaliação de saúde.

Essa clínica recebeu mais de 250 ex-empregados e realizou cerca de duas mil consultas. A clínica permanecia acompanhando os ex-trabalhadores avaliados, do ponto de vista médico, para aprofundar o diagnóstico e orientar as devidas condutas segundo a SHELL.

Sem renda, muitos se tornaram dependentes

Sinval José Ramos, de 50 anos, trabalhou por 24 anos e seis meses na SHELL e na Basf. Quando fez exames de perícia em 2002, foi detectado que era portador de hepatite tóxica. Desde lá, ele ficou afastado pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), até que em junho teve seu benefício cortado. A perícia do instituto avaliou que ele está apto para voltar ao trabalho, apesar de ele ter determinações médicas de que não pode nem pensar em trabalhar em indústrias químicas.

Desde então, quem sustenta sozinha a casa onde vivem com dois filhos é a esposa. Ele chegou a ganhar em primeira instância uma ação indenizatória de R$ 175 mil e mais dois salários mínimos por mês. Mas a vitória foi em primeira instância e a SHELL está recorrendo. “Não sei o que fazer, pois sei que não vou conseguir emprego, como o que vem ocorrendo com vários colegas”, disse Ramos.

É o caso de Carlos Henrique Leoni, 46 anos, que trabalhou na SHELL entre 1985 e 1998. Ele foi contaminado por metais pesados, sente dores constantes na região do fígado e tem inchaços abdominais. Por dois anos e três meses ele também sobreviveu de rendimentos vindos do afastamento pelo INSS. Mas há seis meses o benefício foi cortado.

“Dizem que eu estou apto para trabalhar, mas quando chego nas empresas e passo por avaliações, depois que chegam os exames médicos não sou chamado mais. Eles não dizem o motivo, mas sei que é por causa da contaminação”, diz Leoni. Separado, ele vive com um filho de 17 anos e, depois de vender o carro para pagar contas, está precisando da ajuda da mãe para se sustentar.

Ricardo Luis Mendes Gonçalves, de 45 anos, trabalhou na SHELL de 1986 a 2002. Em 1999 foi detectada uma artrose no fêmur e em 2000 uma doença renal. A empresa o encaminhou para tratamento, mas ele continuou trabalhando no período. Exames detectaram metais pesados em seu organismo.

Casado e com dois filhos, ele está afastado pelo INSS há cinco anos. Em abril de 2008 voltará a passar por uma avaliação da perícia do instituto e teme ter o mesmo destino de seus colegas que perderam o benefício. (MA/AAN)

Projeto-piloto vai garantir atendimento específico

Um projeto-piloto desenvolvido pelas secretarias de Saúde de Campinas e Paulínia está utilizando uma ferramenta específica para o atendimento de ex-moradores e ex-trabalhadores de áreas contaminadas. O projeto é o resultado de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) firmado pelas secretarias e Ministério da Saúde com o Ministério Público do Trabalho.

O objetivo é oferecer atendimento específico a ex-moradores e ex-freqüentadores do Recanto dos Pássaros, além de ex-trabalhadores da SHELL, Cyanamid e Basf, levando-se em consideração que são pacientes que tiveram exposição prolongada a diversas substâncias químicas perigosas. Eles passam por avaliações clínicas e são orientados a informar que foram expostos aos contaminantes específicos todas as vezes que futuramente passarem por atendimentos de saúde.

Com esses dados, será possível observar quais as doenças que estão se manifestando nessas pessoas, a incidência e a possível ligação com as substâncias que contaminaram a região onde moravam, freqüentavam ou trabalhavam. Os trabalhos começaram a ser desenvolvidos no primeiro semestre e, a partir de outubro, foram convidadas a participar 24 pessoas escolhidas por sorteio.

“Em janeiro de 2008 apresentaremos os resultados desse projeto-piloto e, a partir daí, o SUS (Sistema Único de Saúde) poderá desenvolver seus programas de atenção e vigilância à saúde de populações expostas a contaminação utilizando essa ferramenta”, disse o médico-sanitarista Carlos Alberto Henn, coordenador do grupo técnico do projeto.

Há seis áreas de contaminação no Brasil onde estão sendo desenvolvidos projetos do gênero, mas o de Paulínia e Campinas é o pioneiro e o primeiro em que o sistema está sendo implantado. A idéia é que as informações estejam disponíveis on-line a todos os médicos do SUS, podendo ser acessadas sempre que esses pacientes precisem de atendimento em qualquer cidade do País. (MA/AAN)

Fonte: Reprodução na íntegra (texto e foto)
de reportagem publicada na edição de hoje
(segunda-feira, 10 de dezembro de 2007),
do jornal Correio Popular, de Campinas/SP.

08 de dezembro de 2007

jornal - jornal

Caso SHELL: famílias continuam em hotel

Há mais de quatro anos, ex-moradores de chácaras contaminadas
por pesticidas vivem sem qualquer perspectiva e privacidade

shell 4 - shell 4

Antonia acorda todas as noites há quatro anos e meio no quarto do hotel onde mora com sua família em Paulínia. Seu sono é interrompido pelos rugidos do leão do zoológico que funciona no bosque ao lado. Ela está acostumada com os lamentos noturnos do animal e não se incomoda em ser acordada. “O que me deixa triste toda vez que o ouço é perceber que eu e ele passamos pela mesma situação. Vivíamos em liberdade, no meio da natureza, e hoje estamos enjaulados sem ter feito nada para merecer isso”, diz. Antonia Pelegrini é uma das ex-moradoras do bairro Recanto dos Pássaros, contaminado por uma fábrica da SHELL, tema que abre uma série de reportagens que o Correio publica a partir de hoje.

A família de Antonia é uma das duas que desde 2003 vive no hotel de Paulínia com despesas custeadas pela empresa. Em 2001, a multinacional começou a comprar chácaras do bairro afetado pela contaminação. Em 2003, todos os moradores que ainda viviam no local foram transferidos de suas chácaras por ordem da Justiça com gastos pagos pela SHELL, muitas delas indo para o hotel.

A empresa admitiu que contaminou a área por meio de uma autodenúncia após detectar contaminação em uma área interna em 1993, quando fez uma avaliação para vender sua unidade de agrotóxicos. Mas ela não admite ter contaminado seus ex-funcionários e nem os ex-moradores. Os exames e diagnósticos feitos pelo toxicologista Igor Vassilieff não são aceitos pela SHELL e o caso se arrasta na Justiça. O especialista detectou a presença de metais pesados e organoclorados, substâncias usadas na fabricação de pesticidas, no organismo dos moradores.

Enquanto isso, ex-proprietários, caseiros que trabalhavam nas chácaras e ex-funcionários vivem um calvário marcado por humilhações, privações e o medo constante de estarem desenvolvendo doenças causadas pela contaminação que a multinacional não admite existir.

Antonia viu os filhos crescerem e o marido morrer no período em que está no hotel. Hoje, os filhos têm 11, 15 e 24 anos e mal podem receber os amigos no local onde moram. “Por melhor que seja o hotel, você não pode receber amigos e familiares como se fosse sua casa. Só tenho um pouco de privacidade dentro do quarto. Ao abrir a porta e pisar no corredor, já estou em um local público”, diz.

Os filhos não têm onde brincar com os amigos ou namorar. A vontade de fazer um lanche de noite, coisa corriqueira para quem mora em casa, pode se transformar em um transtorno. É preciso se vestir e se arrumar para descer até o restaurante pegar algo. Para driblar esse problema, Antonia tem um microondas dentro do quarto e guarda comida.

Vale

Situação bem diferente ela vivia cinco anos atrás, quando morava na propriedade de 20 alqueires que a família de seu marido comprou na década de 60. A região do bairro era zona rural, um vale onde viviam pequenos produtores. Em 1977, a SHELL instalou na região sua fábrica de agrotóxicos.

Valdemar Labello, marido de Antonia, estava com câncer na bexiga e morreu vítima de complicações cardíacas em 2005. Não está comprovada a ligação da contaminação com a doença. Ele criava gado e tinha um pequeno comércio na chácara. O sonho do casal era criar os filhos no meio da natureza, com muita saúde, tranqüilidade e espaço. Quando apareceram funcionários da empresa levando água e pedindo para que não bebessem mais o que retiravam dos poços e aconselhando a não comer ou comercializar o que produziam por lá, o casal começou a perceber que o sonho estava se tornando um pesadelo. Após 2003, ao saírem da propriedade, precisaram vender o gado, o cavalo, fechar o comércio.

Os cães e o gato foram levados para um canil. Os móveis e outros pertences, guardados em um barracão até que uma nova casa ou chácara seja comprada. Antonia não entende por que a SHELL paga todas essas despesas mensais e não aluga uma casa ou chácara, que ficaria muito mais barato para a empresa e muito mais aconchegante e humano para a família. “O que mais incomoda é a insegurança e a dúvida sobre o futuro causadas pelo situação que vivemos aqui”, afirma.

Ressarcimento

Antonia quer ser ressarcida pela propriedade que perdeu e pelo lucro cessante, levando em consideração que a família vivia da renda gerada pela propriedade rural. Também quer indenização por danos morais e garantia de acompanhamento médico. Por isso, não aceitou a proposta inicial feita pela SHELL. A outra moradora que está com sua família no hotel vive a mesma situação. Mas prefere não falar com a imprensa. Cansou até de dar entrevistas sobre o caso e sua situação.

SAIBA MAIS

Em 2001, o Correio Popular conquistou o Prêmio Esso com a série de reportagens Contaminação em Paulínia, produzida pelos repórteres Mário Rossit e Marcelo Villa, sobre os graves danos ambientais e à saúde dos moradores do bairro Recanto dos Pássaros, causados pelo vazamento de pesticidas da antiga fábrica da SHELL entre os anos 70 e 90. Entre as reportagens da série, o jornal detalhou o resultado dos exames toxicológicos que apontaram a contaminação de 153 moradores das chácaras do Recanto dos Pássaros com drins, produtos cancerígenos manipulados pela SHELL. A reportagem relatou o drama humano de moradores que já haviam desenvolvido tumores e passavam por tratamentos de saúde.

Caseiros e proprietários enumeram dificuldades

Os caseiros e pequenos proprietários que fizeram acordo com a SHELL para deixar o Recanto dos Pássaros estão passando necessidades. Os que tinham famílias de até cinco pessoas receberam R$ 25 mil para comprar uma casa e os com mais de cinco, R$ 30 mil. Com isso, conseguiram apenas casas muito modestas e precisaram colocar mais dinheiro para fazer o negócio.

Quando moravam nas chácaras, eles tinha uma renda mensal de cerca de R$ 800,00, além de casa, luz e água de graça e os alimentos garantidos pelo plantio e criações. Também não pagavam o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Muitos deles tomavam conta das chácaras e trabalhavam meio período fora. Com a mudança, passaram a ter mais gastos e dificuldades para conseguir empregos.

Lúcia Aparecida do Nascimento, Claudomiro de Oliveira, José Francisco do Nascimento, Maria Aparecida Bueno de Souza e Jovair Souza vivem essa situação. Os irmãos Clóvis Rodrigues Bueno e Benedito Aparecido Rodrigues Bueno eram proprietários. Eles receberam R$ 67 mil pela chácara de 1.945 metros quadrados. Também perderam a fonte de renda e, com o dinheiro, compraram duas casinhas e colocaram dinheiro do bolso.

Reunidos em uma casa no Nosso Teto, bairro popular de Paulínia, eles contaram as mesmas histórias de doenças e dificuldade em conseguir trabalho. Muitas das crianças têm problemas como dor de barriga e outras doenças desde o nascimento. Muitos casos de câncer e doenças de pele são relatados por eles.

Tratamento

Eles tiveram tratamento médico de especialistas por poucos meses depois que saíram do bairro, que foram bancados pela Prefeitura de Paulínia. Com a SHELL, eles continuam brigando na Justiça para conseguir custeio para tratamento médico.

Os tratamentos realizados pelo toxicologista Igor Vassilieff foram interrompidos e eles não recebem mais medicamentos. As consultas e tratamentos são feitos em postos de saúde e não há atendimento por especialistas. Novas perícias que deveriam ser feitas por ordem judicial foram canceladas duas vezes.

Para conseguir emprego, eles dizem enfrentar preconceito pelo fato de terem morado no Recanto dos Pássaros. Muitos empregadores querem evitar os ex-moradores por acreditar que eles terão a produtividade afetada pelos problemas de saúde. (MA/AAN)

Multinacional nega contaminação humana

A SHELL não respondeu por que mantém as famílias hospedadas em hotel e não em casas ou chácaras, o que seria mais barato para a empresa e confortável para os ex-moradores. Segundo comunicado da multinacional, “Os valores sobre remoção, bem como de negociações entre a SHELL e ex-moradores do Recanto dos Pássaros são assuntos particulares e, dessa forma, não são divulgados pela empresa … (a empresa) sempre buscou entendimento com as famílias hospedadas no hotel. No entanto, diante das negativas recorrentes às diferentes propostas apresentadas pela empresa o assunto se encontra, atualmente, sob mediação do Judiciário”.

A multinacional também afirma que fez exames de sangue em 159 moradores e ex-moradores em laboratórios no Brasil e no Exterior, e que não há evidência de pessoas intoxicadas. Os resultados foram apresentados, de acordo com a empresa, a especialistas em toxicologia, que confirmaram a inexistência de evidências de doenças relacionadas com a contaminação ambiental Quanto ao relatório de saúde apresentado pela Prefeitura de Paulínia, a SHELL encaminhou para a análise de especialistas que apontaram erros de metodologia, processos e interpretação. Por isso, o trabalho está sendo contestado na Justiça pela multinacional. Informa ainda que não é possível afirmar que trabalhadores estejam contaminados pelo fato de terem trabalhado em uma instalação onde foi detectada uma contaminação do solo em área restrita.

A empresa de agrotóxicos da SHELL foi implantada em Paulínia em 1977. Em 1993, durante auditoria para a venda da unidade para a American Cyanamid foi feita a autodenúncia. A partir de 2000, a unidade passou a ser ocupada pela Basf, que também responde a processos de ex-trabalhadores por supostas contaminações.

Os planos de recuperação ambiental do bairro prosseguem com uma barreira hidráulica e uma estação de tratamento de águas subterrâneas em pleno funcionamento. A prioridade da SHELL é dar continuidade à recuperação ambiental daquela área onde funcionou sua antiga fábrica. Os projetos de remediação são constantemente apresentados pela empresa às autoridades competentes, segundo informou a empresa.

As análises ambientais e de risco realizadas pela SHELL, baseadas em modelos internacionais, apontam para a inexistência de risco à saúde se observada a restrição ao consumo e uso das águas subterrâneas. (MA/AAN)

Orgulho de ver o progresso chegar deu lugar à depressão

Muitos ex-moradores que viviam no hotel não agüentaram os inconvenientes, a impessoalidade e o desconforto de viver fora de sua própria casa. Antônio de Pádua Mello morou no hotel até pouco mais de dois anos, quando sentiu que estava tendo ataques cada vez mais fortes causados por uma insuficiência respiratória. A vida no hotel o deixava cada vez mais deprimido e ansioso, o que agrava seu estado de saúde e levou a várias internações.

“Chegava no hospital quase morto. Precisava sair de lá se quisesse continuar vivendo”, afirma Mello. Em setembro de 2004, a SHELL chamou seu advogado para negociar. Sua chácara foi avaliada em R$ 670 mil e ele pediu R$ 400 mil para vendê-la à multinacional. A empresa disse que pagaria, desde que ele retirasse todas as ações judiciais. Mello recusou, mas, passado algum tempo e com sua saúde piorando, acabou aceitando.

“Tive a ilusão que saindo de lá iria esquecer da história ruim e melhorar da minha depressão. Mas continuei mal, nem consigo sair e ir para o Centro de Campinas ver familiares”, diz Mello. Ele comprou uma casa em Barão Geraldo e vive com a mulher, um filho, nora e neta. Por um período, a filha e o genro também moraram com ele.

Mas nada se compara com o período em que vivia na chácara com toda a família: três filhos, cinco netos, a mulher e a sogra. Quando ele viu a SHELL se instalando no local, não foi contra. “Fiquei até orgulhoso de ser vizinho de uma multinacional. Era o progresso chegando”, lembra.

Mas quando começou a poluição, com o mau cheiro invadindo sua casa ele viu que o progresso poderia cobrar um preço muito alto. “O incinerador da fábrica era obsoleto e o cheiro era insuportável. Precisava colocar ventiladores dentro de casa voltados para a janela”, diz Mello.

Ex-gerente de uma rede de lojas aposentado, Mello recebe aposentadoria de R$ 1.150,00 e precisa gastar parte do dinheiro que sobrou após comprar a casa para pagar suas contas mensais. “Estou vivendo assim até o dinheiro acabar, depois não sei como vou viver. O que ganho não dá para pagar as despesas da casa e os remédios que precisamos usar”, diz. (MA/AAN)

Marcelo Andriotti
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
marcelo.andriotti@rac.com.br

Mais informações

Para mais informações e detalhes, falar ou escrever para Antonio de Marco Rasteiro, fone (19) 3305.5235, e-mail rasteirom@ig.com.br , coordenador da Atesq - Associação dos Trabalhadores Expostos a Substâncias Químicas.
Site: www.quimicosunificados.com.br

Comentários

Não existe grande Outro

Desmentindo a suposta crise da psicanálise, as intuições centrais de Freud adquirem somente agora seu pleno valor. Como a ética lacaniana pode nos orientar diante das inúmeras escolhas morais da atualidade?

Slavoj Zizek

Nestes últimos anos, uma nova onda triunfante proclama a morte da psicanálise: graças aos avanços recentes das neurociências, aí está ela, relegada ao lugar onde desde sempre pertenceu, no quintal pré-científico e obscurantista da busca dos sentidos ocultos, em companhia dos confessores religiosos e dos decifradores dos sonhos. Como disse Todd Dufresne, ninguém na história do pensamento humano esteve tão enganado sobre seus postulados fundamentais - com exceção de Marx, acrescentariam alguns, sem dúvida. E, de fato, como se poderia prever, em 2005, o lamentavelmente célebre Livro negro do comunismo, somando todos os crimes do comunismo, foi seguido do Livro negro da psicanálise, enumerando todos os erros teóricos e todas as manipulações clínicas da psicanálise. Nesse sentido negativo, pelo menos, a solidariedade profunda entre o marxismo e a psicanálise agora é mostrada aos olhos de todos.

Há algo de verdadeiro nessa oração fúnebre. Há um século, Freud situava a psicanálise na série de três humilhações sucessivas do homem, as três “feridas narcísicas”, como ele denomina. Em primeiro lugar, Copérnico demonstrou que a Terra girava em torno do Sol e nos privou conseqüentemente, a nós, humanos, do lugar central no universo. Em seguida, Darwin demonstrou que éramos o produto de uma evolução cega, privando-nos assim de nosso lugar privilegiado entre as criaturas vivas. Enfim, quando o próprio Freud tornou visível o papel predominante do inconsciente nos processos psíquicos, tornou-se claro que nosso eu não é nem mesmo senhor em sua própria morada.

Hoje, cem anos mais tarde, uma outra imagem aparece: as últimas descobertas científicas parecem infligir toda uma série de humilhações suplementares à imagem narcísica do homem: nosso próprio espírito não é nada além do que uma máquina de calcular e de produzir séries de dados, sendo nosso sentido da liberdade ou da autonomia simplesmente “ilusões do utilizador” dessa máquina… Conseqüentemente, aos olhos das neurociências atuais, a própria psicanálise, longe de ser subversiva, parece pertencer mais ao campo humanista tradicional ameaçado pelas últimas humilhações.

Morte da psicanálise?

A psicanálise está realmente ultrapassada? A resposta parece ser sim, em três níveis conectados entre si: 1) o nível do saber científico, onde o modelo cognitivista-neurobiológico do espírito humano parece suplantar o modelo freudiano; 2) o da clínica psiquiátrica, onde o tratamento psicanalítico perde seu espaço rapidamente em relação às terapias clínicas e à terapia comportamental; 3) o do contexto social, onde a imagem de uma sociedade de normas sociais que reprimem as pulsões sexuais do indivíduo não parece mais válida aos olhos da permissividade hedonista que predomina hoje em dia. Entretanto, no caso da psicanálise, o serviço fúnebre talvez seja um pouco precipitado. Em oposição às verdades “evidentes” dos críticos de Freud, é preciso afirmar que o tempo da psicanálise chegou somente agora e que as intuições centrais de Freud também adquirem somente agora seu pleno valor.

Um dos lugares-comuns da crítica cultural conservadora é que, em nossa época permissiva, faltam às crianças limites rígidos ou interdições. Essa falta causa frustrações a elas, levando-as de um excesso a outro. Só um limite rígido instituído por uma autoridade simbólica pode garantir não somente a estabilidade, mas a satisfação mesma (a satisfação trazida pela violação do proibido, pela transgressão dos limites). A fim de tornar claro o modo pelo qual a denegação funciona no inconsciente, Freud evocava a reação de um de seus pacientes a um sonho centrado em torno de uma mulher desconhecida: “Quem quer que seja esta mulher em meu sonho, eu sei que não é minha mãe”. Uma clara prova negativa, segundo Freud, de que aquela mulher era sua mãe. Não há modo melhor de caracterizar o paciente típico de hoje do que imaginar sua reação oposta ao mesmo sonho: “Quem quer que seja esta mulher em meu sonho, tenho certeza que ela tem algo a ver com minha mãe!”
Em nenhuma parte esse papel paradoxal da psicanálise é mais claro que no caso dos sonhos. Se pedirmos a um intelectual médio hoje para nos dizer resumidamente do que fala a teoria dos sonhos de Freud, ele responderia provavelmente: para Freud, um sonho é a realização fantasmática de algum desejo inconsciente e censurado por quem sonha, que é, em princípio, de natureza sexual. Agora, tendo essa definição em mente, voltemos ao início de A interpretação dos sonhos, quando Freud procura uma interpretação detalhada de seu sonho acerca da “injeção aplicada em Irma” - é razoável supor que Freud sabia o que ele estava fazendo e que escolheu cuidadosamente um exemplo apropriado para introduzir sua teoria dos sonhos. Entretanto, é aqui que encontramos a primeira grande surpresa: a interpretação desse sonho por Freud não pode nos deixar de lembrar uma antiga piada soviética que passava na Rádio Erevan (”É verdade que Rabinovitch ganhou um carro novo pela loteria nacional?” “Em princípio sim, ganhou. Só que não era um carro, mas uma bicicleta e não era nova, mas usada e ele não ganhou, roubaram dele!”): o sonho é a realização do desejo sexual inconsciente daquele que sonha? Em princípio, sim. Só que o desejo no sonho que Freud escolheu para demonstrar sua teoria dos sonhos não é nem sexual, nem inconsciente e, ainda mais, não é nem mesmo seu…

Dois sonhos

O sonho começa por uma conversa entre Freud e sua paciente Irma sobre o fracasso de seu tratamento devido a uma injeção infectada. No curso da conversa, Freud se aproxima dela, inclina-se em direção a seu rosto e olha para o interior de sua boca, confrontando-se com uma visão horrível de uma carne vermelha viva. Neste ponto de horror insuportável, a tonalidade do sonho muda, e o horror de repente se transforma em comédia: três médicos, amigos de Freud, aparecem enumerando, num jargão pseudo-profissional ridículo, as múltiplas razões (que mutuamente se excluem) pelas quais o envenenamento de Irma pela injeção infectada não foi culpa de ninguém (não houve injeção; a injeção estava limpa…). Assim, o desejo do sonho, o “pensamento latente” exprimido nele, não é nem sexual, nem inconsciente, mas é o
desejo (plenamente consciente) de Freud de obliterar sua responsabilidade no fracasso do tratamento de Irma. Como, conseqüentemente, isso concorda com a tese da natureza sexual e inconsciente do desejo expresso nos sonhos?

É aqui que é preciso introduzir uma distinção crucial: o desejo inconsciente do sonho NÃO é o pensamento latente do sonho que é deslocado/traduzido na textura explícita do sonho, mas o desejo inconsciente que se inscreve através da distorção mesma do pensamento latente na textura explícita do sonho. Aí reside o paradoxo do Traumarbeit (o trabalho do sonho): queremos nos desembaraçar de um pensamento insistente, mas incômodo, do qual somos plenamente conscientes, então nós o distorcemos e o traduzimos no hieróglifo do sonho. No entanto, é através da própria distorção desse sonho-pensamento que um outro desejo, bem mais fundamental, se inscreve no sonho, e esse desejo é inconsciente e sexual.

É preciso acrescentar uma complicação suplementar aqui: por que exatamente nós sonhamos? A resposta de Freud é falsamente simples: a função última do sonho é de permitir àquele que sonha prolongar seu sono. Interpreta-se geralmente essa resposta em relação aos sonhos que temos justamente antes de despertarmos, quando alguma perturbação exterior (barulho) ameaça nos despertar. Nessa situação, quem está dormindo imagina rapidamente (durante o sonho) uma situação que incorpora esse estímulo exterior e consegue, assim, prolongar o sono por um tempo. Quando o sinal exterior torna-se forte demais, ele finalmente desperta… Mas será que as coisas são verdadeiramente tão simples assim? Num outro sonho acerca do despertar n’A interpretação dos sonhos, um pai cansado, que havia passado a noite velando o caixão de seu jovem filho, adormece e sonha que seu filho se aproxima dele em chamas, dirigindo-lhe esta censura assustadora: “Pai, você não vê que estou queimando?” Logo após, o pai acorda e descobre, por causa da queda de uma vela, que o tecido do sudário de seu filho morto pegou realmente fogo - a fumaça que ele sentiu durante seu sono incorporou-se ao sonho onde seu filho estava em chamas para prolongar seu sono. Mas será que o pai realmente acordou quando o estímulo exterior (a fumaça) se tornou forte demais para ser contido nos limites do roteiro do sonho? Não seria o inverso? O pai construiu primeiramente o sonho a fim de prolongar seu sono, isto é, para evitar o desagradável despertar? No entanto, o que ele encontra no sonho (literalmente a questão ardente, o espectro inquietante de seu filho censurando-lhe) é bem mais insuportável do que a realidade exterior e, então, o pai acorda, escapa para a realidade exterior. Por quê? Para continuar a sonhar, para evitar o trauma insuportável de sua própria culpa na morte dolorosa de seu filho.

A fim de tomar a medida exata do sentido completo desse paradoxo, é preciso comparar este sonho com aquele sobre a injeção aplicada em Irma. Nos dois sonhos, há um encontro traumático (o olhar da carne nua da garganta de Irma; a visão do filho em chamas). Contudo, no segundo sonho, aquele que sonha acorda na mesma hora, enquanto que, no primeiro sonho, o horror é substituído pelo espetáculo louco das desculpas profissionais. Esse paralelo nos dá a chave última da teoria dos sonhos de Freud: o despertar no segundo sonho (o pai acordando para a realidade a fim de escapar do horror do sonho) tem a mesma função que a súbita transformação em comédia, a mesma função que essa troca entre nossos três médicos ridículos do primeiro sonho. Ou seja, nossa realidade ordinária tem precisamente a estrutura de uma troca louca que nos permite evitar o encontro com o verdadeiro trauma.

Adorno já disse que a máxima nazista bem conhecida “Deutschland, erwache!” (Alemanha, desperta-te!) significava, de fato, seu exato oposto; quer dizer, a promessa de que, se você respondesse ao chamado, estaria autorizado a continuar a dormir e a sonhar (a evitar o encontro com a realidade do antagonismo social). O trauma que encontramos no sonho é, assim, de certo modo, bem mais real do que a própria realidade (social exterior). Um poema de Primo Levi relata o destino de uma lembrança traumática herdada da vida no campo de concentração. Na primeira estrofe, Levi está no campo, adormecido, tendo sonhos intensos: voltando ao lar, comendo, contando à sua família sua experiência quando, de súbito, ele é despertado pelo grito cruel do soldado polonês: “Wstawac!” (De pé! Levanta-te!). Na segunda estrofe, ele está em casa, após a guerra e a libertação. Assim, sentado à mesa em sua casa, bem alimentado, ele conta sua história à sua família quando, de súbito, o chamado emerge violentamente em seu espírito “Wstawac!”…

É crucial aqui, com certeza, a inversão da relação entre o sonho e a realidade nas duas estrofes: seu conteúdo é formalmente o mesmo (as cenas agradáveis do repouso no lar, da refeição e da narração aos seus próximos são interrompidas pela intrusão da injunção “De pé!”). Mas a tranqüilidade do sonho, na primeira estrofe, é cruelmente interrompida pela realidade da ordem, enquanto que, na segunda estrofe, a agradável realidade social é interrompida pela ordem brutal alucinada (ou, antes, imaginada). Essa inversão exprime