Reportagem especial: Cuba em Imagens
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Cuba em imagens: a ilha ensina a América Latina
Texto e fotos de Alexandre Barbosa *
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Estive em Cuba em janeiro de 1998, uma semana antes da chegada do Papa João Paulo II. Foi um dos períodos mais difíceis na história da ilha, sete anos após o colapso da URSS e cercada por vizinhos ainda dominados pela hegemonia neoliberal.
O Brasil tinha reatado relações com Cuba, mas ainda seguia a cartilha dos EUA não fazia investimentos na economia cubana que era, não pela vontade do povo ou dos dirigentes cubanos, muito dependente de investimentos estrangeiros.
Na época, os EUA tentavam aumentar a condição de quintal das nações latino-americanas com as negociações para a implantação da ALCA. Apenas a vitória, nos anos seguintes, de governos mais populares (ou nacionalistas) na Venezuela e mais tarde no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Equador, Bolívia e Nicarágua permitiriam à Cuba melhores condições de sobreviver ao bloqueio estadunidense.
O que a indústria jornalística não leva em consideração (clique aqui para ler a crítica à cobertura midiática sobre a renúncia de Fidel Castro ao governo de Cuba) é que a economia e a vida política cubanas não podem ser analisadas apenas pela renda per capita ou por outros fatores típicos de uma nação ocidental capitalista.
Cuba é um outro mundo, forjado desde o século XIX numa luta feroz para se tornar uma nação livre. A revolução de janeiro de 59 foi o maior passo neste processo iniciado por José Martí e o que os cubanos alcançaram: independência, ensino, saúde e educação gratuitos para todos são vitórias que centenas de nações não podem se orgulhar.
Nos primeiros anos da revolução, o governo cubano tentou acelerar a industrialização. As viagens internacionais do então ministro Che Guevara não eram apenas para vender o açúcar mas para trazer tecnologia. Infelizmente, o criminoso bloqueio dos EUA, que condenava a sanções os que negociassem com Cuba, levou a ilha a se refugir ainda mais na proteção, muitas vezes até imperial, da URSS.
Mesmo assim, Cuba sobreviveu. Sobreviveu ao fim da URSS, às tentativas de invasão norte-americanas e até às exigências soviéticas, pois tentou espalhar a revolução popular para outras partes do mundo, com o envio de soldados ou treinamento de guerrilheiros. Como as fotos abaixo mostram, Cuba é um país que cultua sua memória, que tem maravilhas naturais e, apesar do bloqueio econômico, é um povo sorridente e senhor de sua condição de país independente.
A história das lutas de Cuba
A lembrança de Che Guevara
Atrações turísticas
O cotidiano em Cuba
Cuba faz questão de manter vivo seu passado de lutas
Memorial José Martí: ao fundo a casa onde nasceu Martí e um trecho de sua poesia mais famosa - Guantanamera, yo soy un hombre sincero…
Por toda a parte de Cuba há museus. Na Praça da Revolução, há o Memorial José Martí, em homenagem ao idealizador da independência cubana e que morreu logo no desembarque da primeira investida contra as tropas espanholas.
Outra atração é o Museu da Santería, religião de origem africana, em que é possível ver as divindades que os africanos cultuavam e que ainda são muito fortes no Caribe.
O mais impressionante é o Museu da Revolução. Lá estão guardadas as memórias da luta na Sierra Maestra, o iate Granma usado pelos guerrilheiros para desembarcar em Cuba, armas que combateram os invasores de Playa Girón e centenas de outros objetos.
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O Granma está imortalizado no Museu da Revolução, com ele, 82 guerrilheiros desembarcaram no litoral cubano para iniciar a revolução.
Veículo utilizado durante a campanha na Sierra Maestra
Tanque utilizado para combater os mercenários financiados pela CIA durante a invasão de Playa Girón.
O Museu da Revolução apresenta centenas de objetos, desde as carteirinhas de comunistas, passando por fotos até armas e utensílios utilizados durante a guerrilha.

Durante a invasão de Playa Girón, em 1961, Fidel Castro convocou o povo cubano para a resistência. É essa data que marca a virada da Revolução Cubana para uma revolução anti-imperialista e comunista, o que não foi proclamado em 1959. Os mercenários foram detidos e no museu há turbinas de aviões, barcos e outros objetos capturados.
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A presença de Che em Cuba
A Plaza de la Revolución é o local utilizado para os grandes discursos de Fidel Castro e sede do governo cubano.
Como Comandante, o primeiro cargo de Che Guevara no novo governo cubano foi em La Cabanã, fortaleza que guarda a baía de Havana desde a época colonial. Até hoje, está intacta a sala que Che utilizou.

No mausoléu construído para Che Guevara, há objetos de uso cotidiano com lâminas de barbear, boinas e até a famosa jaqueta de couro utilizada por ele durante a foto de Alberto Korda que o eternizou. Ao lado, a maca em que o corpo de Guevara foi transportado na Bolívia.
Com a morte de Guevara na Bolívia, seu exemplo de guerrilheiro que não se apega a cargos e que dá a vida pela revolução está presente no imaginário cubano. Se Fidel Castro sofreu o desgaste dos anos no poder, Che permanece um ídolo até para os cubanos que estão descontentes com os caminhos da revolução. Ouvi isso de um taxista que trabalha no aeroporto.
Em Santa Clara, onde Che Guevara venceu uma batalha decisiva para a guerrilha cubana, foi construído um mausoléu. No alto, a estátua lembra a figura do guerrilheiro. Ao dar a volta por esse monumento, o visitante pode entrar no local em que estão os restos mortais de Ernesto Guevara e os outros guerrilheiros mortos na Bolívia.
Há uma praça em frente à estátua, em que músicas em homenagem a Che tocam o tempo todo.

Além de Che, outra figura importante na Revolução Cubana foi Camilo Cienfuegos, à direita nesta reprodução em cera. Camilo morreu logo nos primeiros anos da Revolução Cubana e estava presente sempre nos discursos e textos de Che.
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Cuba é um país rico em atrações turísticas

Hoje, viajar para Cuba está mais tranqüilo. Há vôos diretos de São Paulo, pela Cubana Aviaciones.
Os aviões são russos e o refrigerante servido é a Tropicola, produzida na Ilha, o que dá um charme diferente para o passeio.
Na cabine do pioto, os comandos estão escritos no alfabeto cirílico, utilizado pela Rússia.

A cerimônia do cañonazo atrai turistas à fortaleza de La Cabaña. Guardas se vestem com roupas coloniais e disparam um tiro de canhão na baía de Havana. Durante séculos a região teve intenso combate de piratas.
O Hotel Nacional é o mais tradicional de Cuba. Antes da Revolução, servia de ponto para a máfia norte-americana se reunir, pois oficialmente, os encontros eram proíbidos nos EUA. No entanto, até Frank Sinatra fez shows para os mafiososo. Logo após a Revolução foi centro de formação profissional, principalmente para as prostitutas que teriam de aprender um novo ofício. Hoje, é um hotel caro para turistas, mas que oferece os melhores serviços.
As playas del este ficam a poucos quilômetros de Havana. Quem alugar um carro, pode chegar facilmente em poucos minutos. São praticamente desertas durante a semana além de belíssimas, com um impressionante mar azul. Recomenda-se para quem não quer o agito de Varadero.
La Bodeguita del Medio, ao lado de La Floridita, são os bares mais famosos de Cuba. A tradição manda deixar o nome nas paredes forradas de autógrafos, inclusive de personalidades, como o presidente chileno Salvador Allende.


Depois de passar por Santa Clara, outra cidade que merece visita é Trinidad, que mantém construções do século XVII.
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As lições que Cuba ensina
"Os americanos? Nós os chutamos daqui como se fosse uma bola de futebol", disse um cubano de camisa florida e sorriso estampado no rosto. Disse-me essa frase em meio a outras de menor conteúdo político, como que era possível fritar um ovo na calçada nos dias de calor.
Não me identiquei como jornalista para grande parte dos cubanos com que falei. Apenas fiz uma entrevista com um economista, que me recebeu na casa dele depois de uma conversa na rua. Para ele, Cuba vivia numa democracia. "Não chamo de democracia o fato de alguém sair com um cartaz na rua gritando contra o governo, mas poder contar com todas as garantias de educação e saúde gratuitas".
Entre os demais cubanos há os que defendem o regime com força. Geralmente são os mais velhos, que viram o que era o país antes da Revolução e não querem as mesmas interferências e escândalos de corrupção. Não querem abrir mão de suas conquistas. Entre os mais jovens, há dois grupos: os que trabalham com turismo e os que vivem no cotidiano da ilha.
O perigo do turismo
Em Havana, o turismo, apesar de ter sido a salvação inicial para a economia embargada, acabou gerando uma classe de privilegiados, com acesso a dólares o que lhes permite comprar produtos no mercado negro.
Os cubanos podem conseguir produtos para o dia-a-dia nos mercados estatais como azeite e combustível. No entanto, com o embargo econômico, a venda de açúcar não gera dividendos suficientes para fornecer esses produtos em grande quantidade, o que levou ao racionamento. Os cubanos encontraram no mercado negro, movido a dólares, o caminho para complementar os produtos necessários. Nas ruas próximas aos hotéis, há prostitutas e vendedores de rum e cigarro, além de guias que prometem levar os turistas para todos os lugares. Tudo na busca por dólares.
Aos olhos do mundo ocidental, isto poderia soar a fracasso. No entanto, os índices educacionais, de saúde e esportivos mostram que Cuba, nesses quase 50 anos, fez uma opção diferente. Não há carrões pelas ruas, nem casas com piscina ou salas com TV de plasma, verdade. Mas, em Santa Clara, onde dormi uma noite na casa de cubanos comuns, presenciei uma cena que não seria comum em várias casas brasileiras. A cubana Yaldrey acordou cedo para ir ao colégio técnico gratuito, levando de baixo do braço os livros que recebeu gratuitamente e vestindo o uniforme também gratuito. Yaldrey cuida bem de seus livros, porque no próximo ano, outro cubano irá precisar deles. Se Cuba fosse um fracasso, isso não seria uma cena comum.
Família de cubanos em Santa Clara. De roupa escura, à frente, a jovem Yaldrey, estudante da escola "Ernesto Che Guevara".
Rua de Habana Vieja. Não se pode olhar Cuba com o ponto de vista do capitalismo ocidental.
Vista aéra da cidade de Havana, capital de Cuba.
Na praça dos Correios acontece semanalmente uma feira de livros, paraíso para os leitores de clássicos do marxismo.
Pela ruas de Havana, a cena dos carros velhos é comum.
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* Alexandre Barbosa, idealizador do site latinoamericano.jor.br é jornalista formado pela UMESP (turma de 97), mestre em Ciências da Comunicação pela USP (2005) e especialista em jornalismo internacional pela PUC-SP (2000). Atualmente é professor universitário de cursos de comunicação social e consultor em comunicação institucional.
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