Arquivo de Socialismo

O acirramento do confronto ideológico em torno de Cuba

Escrito por Gabriel Brito

Mar-2010 – Correio da Cidadania

Nas últimas semanas, todos os antagonismos ideológicos exaltados a partir do modo de vida cubano voltaram a ocupar grande parte do debate público. Abordada com ênfase pela grande mídia, a morte de Orlando Zapata Tamayo por conta de sua greve de fome num presídio de Havana acirrou a guerra de informações a respeito do que se passa na Ilha. Ainda mais porque se consumou exatamente no dia em que uma comitiva brasileira, comandada pelo próprio presidente Lula, chegara ao país.

Como se sabe, Zapata Tamayo foi apresentado à opinião pública como dissidente perseguido politicamente, o que é veementemente negado pelas fontes locais, além de nebuloso, de acordo com o que informam órgãos internacionais. Assim, puderam voltar a execrar a ‘ditadura’ que vigora há mais de 50 anos e silenciaria todo desejo de mudança ansiado pela população.

Como exemplo da indignação com o perecimento do preso, o implacável editorial de 27 de fevereiro da Folha de S. Paulo, cujo início lamenta que, "pela quarta vez em seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dispôs a endossar, entre sessões de fotos, tapinhas nas costas e desconversas macunaímicas, o mais ditatorial regime do hemisfério americano".

Para os mais desavisados, parece que a onda de violência política em Cuba atinge os mais descontrolados e alarmantes índices, sendo o povo local completamente impedido de qualquer participação e decisão em seu cotidiano. Não é bem assim. Como destacou o jornalista Breno Altman, do Opera Mundi, a população tem participação regular e constante nos processos decisórios. "A Constituição de 1976, reformada em 1992, estabeleceu o ordenamento jurídico do modelo. Um dos principais ingredientes foi a criação do Poder Popular, com suas assembléias locais, municipais, provinciais e nacional", aclara.

E ao contrário do que se pode pensar, não é um processo tão dessemelhante ao da nossa chamada democracia participativa, pois os representantes dessas instâncias, que não aceitam indicações de possíveis nomes por parte do PC, são escolhidos pelo voto. Aliás, o próprio regime teve sua orientação base, o socialismo, referendado pela população, como conta Altman.

"A Constituição prevê mecanismos de consulta popular. Dispondo desse direito, o dissidente Oswaldo Payá, líder do Movimento Cristão de Libertação, reapresentou à Assembléia Nacional do Poder Popular, em 2002, uma petição com 10 mil assinaturas para que fosse organizado referendo que modificasse o sistema político e econômico na ilha. O governo reuniu 800 mil registros para propor outro plebiscito, que tornava o socialismo cláusula pétrea da Constituição. Por causa da quantidade de assinaturas, teve preferência. Cerca de 7,5 milhões de cubanos (65% do eleitorado), apesar de o voto em referendo ser facultativo, votaram pela proposta defendida por Fidel Castro".

Ou seja, o povo cubano pode ter dúzias de críticas ao funcionamento de sua nação, mas não há nenhuma intenção da maioria em retornar ao capitalismo, o que é, obviamente, o cerne do debate e alvo oculto de uma mídia que, lembremos, é comercial e busca o lucro em seus negócios.

Humanistas

No entanto, as paixões que o assunto desperta de lado a lado não deixam a contenda ideológica arrefecer tão facilmente. "Nada disso se confunde com a revoltante ‘ternura’, para lembrar o célebre dito de Che Guevara, que o governo Lula ‘não perde jamais’ quando se trata de emprestar apoio a um regime decrépito, ditatorial e homicida", completa em tom histérico a Folha, não sem antes lamentar a ‘placidez’ com que o ministro das relações exteriores, Marco Aurélio Garcia, tratou dos problemas de direitos humanos na ilha.

É de se reconhecer neste ponto um paradoxo monumental na mídia brasileira (destacando que outros como Globo e Estadão engrossaram as críticas no mesmo tom). Os mesmos veículos indignados com dita tirania do governo de Raul Castro promoveram enorme grita contra o Plano Nacional de Direitos Humanos, que visa criar instrumentos de aprofundamento de nossa democracia (como controle social na mídia), mas que foi tratado pelos mesmos como stalinista, totalitário e por aí afora.

De quebra, a Folha e seus articulistas aproveitam o ensejo para minimizar conhecidas atrocidades do que entendem por democracia nos EUA, quando esta também foi questionada por Garcia ("Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro"), apontando para as mundialmente famosas violências e ilegalidades em Guantánamo.

"É o clássico expediente de voltar contra outro país as acusações que se referem, especificamente, à tirania que se quer apoiar. É inegável que Bush maculou as tradições democráticas de seu país a pretexto da ‘guerra contra o terror’. É também evidente que nunca faltou, nos EUA, liberdade para protestos contra o governo - coisa impensável sob o sistema castrista". Além de ser questionável o fato de haver espaço para contestações num país cujos sindicatos são nulos, não há margem alguma para comparações do que também parecem ataques aos direitos humanos por parte dos EUA.

A própria imprensa comercial vive noticiando mortes de civis em ofensivas do exército norte-americano em localidades como Paquistão, Afeganistão e Iraque, sendo, aliás, os dois últimos países ocupados militarmente. A unilateralidade da potência também se viu em Copenhagen, quando sua delegação simplesmente se recusou a quaisquer conversas prévias acerca de diminuição de emissões de gases estufa, quando o mundo clama por mudanças de paradigma em favor do meio-ambiente.

São muito fortes as evidências que levam a crer que Zapata Tamayo não era um ‘preso de consciência’, como se difunde incessantemente. De acordo com o pesquisador e ensaísta Enrique Ubieta Gomez (diretor da revista La Calle Del Medio), por exemplo, "era um preso comum, cujos problemas com a justiça começaram em 1988, ou seja, quinze anos antes da confecção da lista (de presos políticos da Anistia Internacional, de 2003). Em sua larga carreira delitiva foi processado por "violação de domicílio", ‘lesões menos graves’, ‘furto’, ‘lesões e porte de arma branca’, ‘perturbação da ordem’ e ‘desordens públicas’", informa. Muito contrastante com o que escreveu Janio de Freitas, tratando Tamayo como "um operário que aderiu à militância política contra o regime".

Tal informação, mesmo tendo aparência contundente, pode ser, de fato, contestável, ainda mais sabida a considerável impenetrabilidade da vida cotidiana na ilha. Mas ainda assim há elementos de sobra, como a ausência de seu nome nas listas internacionais, que ao menos podiam fazer tal versão de sua vasta folha corrida ser investigada a fundo.

Até porque qualquer analista sério sabe que existe, e sempre existiu, sabotagem política liderada pelos Estados Unidos, cujos planos de destruição da Revolução local sempre foram famosos, além de até hoje manterem o embargo e a declaração de guerra contra os cubanos.

Como escreveu no Observatório da Imprensa o advogado Fabio de Oliveira Ribeiro, é impossível não tratar a abordagem do episódio como ‘propaganda política’ por parte dos detratores e inimigos do regime cubano, o que é o caso da grande mídia nacional e internacional e seus governos volúveis na compreensão de atentados aos direitos humanos.

1 vale mais do que 2000?

E para comprovar o interesse político, e possíveis ardis, em torno do desfecho da vida de Tamayo, é necessário comparar a repercussão e indignação nos meios de comunicação com a revelação de que na Colômbia se encontrou uma fossa comum com 2000 corpos, enterrados por paramilitares e soldados do exército local nos últimos cinco anos.

Trata-se de um fato infinita e indiscutivelmente mais brutal. Nessa década, cerca de 14 mil pessoas foram assassinadas pelas forças oficiais e os ‘paras’. E quase todos por serem líderes comunitários, sindicais ou representantes populares. De quebra, relatório recente da Coalizão Colombiana Contra a Tortura apontou que o Estado é o responsável pela maior quantidade dos casos de torturas e outras violações aos direitos humanos que correm a solta por lá. E nunca se viu a nossa mídia denunciar o regime de Uribe - muito menos a potência do hemisfério norte - de ‘homicida’ ou algo que o valha.

"A Anistia Internacional não menciona em nenhum momento as supostas atividades políticas que o levaram a prisão. A razão é relativamente simples: Zapata nunca realizou atividades anti-governamentais antes de seu encarceramento. Pelo contrário, a organização reconhece que foi condenado em maio de 2004 a três anos de prisão por ‘desacato, alteração da ordem pública e resistência’. Essa sanção é relativamente leve se comparada com a dos 75 opositores condenados em março de 2003 a penas que vão até 28 anos de cadeia ‘por terem recebido fundos ou materiais do governo estadunidense para realizar atividades que as autoridades consideram subversivas e prejudiciais a Cuba’, como reconhece a AI, o que constitui um grave delito em Cuba – e também em qualquer país do mundo", escreveu Salim Lamrani, do Le Monde Diplomatique.

"Aqui, a AI não pode escapar de uma evidente contradição: por um lado qualifica essas pessoas de ‘prisioneiras de consciência’, e por outro admite que cometeram um grave delito de aceitar ‘fundos ou materiais do governo estadunidense’", completa.

Outros que não desfrutaram da mesma sensibilidade da opinião pública foram os hondurenhos. Recém assaltados em sua democracia pelo golpe de Estado comandado pelas oligarquias locais, mais de cem daqueles que poderiam também ser qualificados de ‘dissidentes’ foram executados. No entanto, não tiveram a mesma visibilidade. Além disso, o pleito que ‘legitimou’ Porfírio Lobo como novo presidente foi assistido por escassos 13% de eleitores, outra ignorada evidência de desaprovação ao golpe.

"Na França em 2010, até 24 de fevereiro, houve 22 suicídios nas cadeias; em 2009, foram 122 suicídios nas prisões francesas; em 2008, 115", conta Lamrani, conformando outro exemplo que não causa a mesma comoção.

Em tempos de crise, divergência ideológica acirrada

Enfim, como diz o ministro Marco Aurélio Garcia, há problemas de direitos humanos em todo o mundo. Cuba não escapa a tal lógica, por certo. Porém, como citado por diversos de seus defensores, "não mantém centros de tortura ou realiza prisões e execuções extrajudiciais", não está em guerra alguma e oferece condições de emancipação individual - através, por exemplo, de sua saúde e ensino reconhecidamente qualificados e universalizados - em níveis bem maiores do que praticamente todas as ditas democracias.

Debater os processos cubanos é importante, até porque a crise do capital faz o mundo indagar se o atual modelo de economia e desenvolvimento se sustenta; e nisso os cubanos oferecem um ótimo elemento de reflexão, que é o questionamento ao sistema que tem exaurido as riquezas do planeta e comprometido de forma cada vez mais temerária seu ambiente.

Cuba, com todos os seus defeitos e lentidões para promover mudanças e evoluir o regime, oferece uma outra visão de mundo e sugere outra partilha de riquezas. É isso que causa ojeriza nas potências que afundaram Copenhagen, lideradas pelo seu mais inacessível interlocutor (EUA), precisando sufocar e denegrir ao máximo a pequena ilha que não abre mão de sua opção anticapitalista.

Só assim para começar a compreender porque num mundo de 6 bilhões de habitantes e 4 bilhões de miseráveis as polêmicas e o cotidiano de apenas 13 milhões de pessoas centralizam tantas atenções e ‘indignações’.

Gabriel Brito é jornalista.

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Tentemos ver Cuba sem fanatismos

Escrito por Duarte Pereira

05-Mar-2010 – Correio da Cidadania

Para mim, infelizmente, o lamentável e desnecessário falecimento do prisioneiro Orlando Zapata não está esclarecido. Sabemos, por nossas experiências durante a ditadura militar, que é fácil etiquetar oposicionistas e presos políticos como delinqüentes comuns, bandidos, terroristas, agentes de potências estrangeiras.

Será mesmo que Zapata recebeu o tratamento médico e POLÍTICO adequado? Será mesmo que não existe tortura em Cuba, nem prisões arbitrárias, nem condenações sem provas consistentes? Dizia-se o mesmo da União Soviética, da China e da Albânia, para citar alguns exemplos. Será preciso repetir que os fins não justificam quaisquer meios, e que, se os meios não são adequados aos fins, os resultados podem ser inversos aos pretendidos?

Por que, passadas tantas décadas da vitória da revolução popular e dos esforços para construir o socialismo, Cuba ainda precisa de métodos como os revelados no episódio para supostamente defender-se? Os revolucionários, especialmente os revolucionários socialistas e marxistas, devem ser exemplares no tratamento de prisioneiros.

É difícil saber o que realmente aconteceu com Zapata (e com outros) sem liberdade de informação e investigação, sem autonomia do Poder Judiciário, sem atuação desimpedida de advogados, para recordar algumas medidas democráticas. As razões para as dúvidas são várias. Em minha experiência política, nunca soube, de presos comuns, nem de agentes da CIA que tenham feito greves de fome até a morte. Também é uma novidade para mim que espiões freqüentem as embaixadas dos países a que servem abertamente.

Os verdadeiros espiões, que não podem faltar em Cuba, devem enrustir-se com muito mais cuidado e devem receber instruções e passar informações por meios muito mais sofisticados e eficazes. Não seria inusitado que, à semelhança do que aconteceu em outros países, alguns desses verdadeiros espiões estivessem infiltrados em órgãos do Partido Comunista, do governo popular e dos serviços repressivos.

Duas lições aprendi ao longo de anos de militância e estudo, e delas não abro mão. A primeira é que é impossível separar revolução democrática e revolução socialista, democracia e socialismo, pois não pode haver socialização efetiva da economia sem democratização da política e da cultura. E os trabalhadores precisam garantir sua emancipação não apenas do capitalismo, mas também do burocratismo que tem emergido das tentativas de construção de sociedades socialistas, com sua seqüela de novos privilégios, novas desigualdades e novas opressões.

A segunda lição é que a pior contribuição que podemos dar à causa democrática e socialista em nosso país e nos demais é continuar silenciando diante dos excessos, erros e crimes cometidos por regimes revolucionários – sejam proletários, populares ou simplesmente antiimperialistas.

Duarte Pereira é jornalista.

 

1. Escrito por Antonia Angulo

Tentemos ver Cuba sem fanatismos

Concordo com a questão principal colocada pelo jornalista Pereira. O cerne do debate é se era necessário que Cuba carregue com essa dúvida. Estive em nov. de 2009 em Havana num evento internacional, por primeira vez, gostei da cidade e das pessoas. Mas, percebi no evento que a sociedade civil não tem uma representação. O Estado fala por ela. Isto sem reconhecer os grandes avanços em saúde e educação, nos últimos anos com sérias dificuldades na saúde. É importante acompanhar as questões de direitos humanos não apenas em Cuba mas em toda América Latina.

2. Escrito por Alexandre Zourabichvili

O Senhor Pereira poderia, na sua busca da verdade, se interessar pelas fitas e gravações que mostram as conversas entre os médicos e a familia do preso comum O.Z.Tamayo. Nelas a mãe agradece os médicos pelos esforços en tentar salvar a vida do filho. Uma outra gravação interessante revela a conversa entre uma representante da máfia anticubana de Miami e um empregado dessa mafia baseado em Cuba. Este empregado presta contas e fala sem qualquer vergonha nenhuma de seus esforços pra convencer a mãe de O.Z.Tamayo em não ir ao hospital visitar o filho(pois a visita da mãe poderia dar vontade ao filho de viver e desistir da greve de fome). Ele diz que vai tentar de novo convencer a mãe a organizar uma reunião de imprensa contra o governo de Cuba em lugar de ir visitar o filho, as duas coisas "sendo incompatíveis" segundo este sujeito. Está clara por essas gravações a manipulação dessa máfia branca pronta a manipular e sacrificar a vida de um negro pra fins de convencer Obama em não abandonar o bloqueio economico e político dos Estados Unidos contra Cuba. Essas gravações, claro, não foram divulgadas pela "grande" midia "democrática" brasileira. Vejam-nas no www.aporea.org ou no www.granma.cu

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A atualidade de Antonio Gramsci.

 

Gramsci

O Instituto Zequinha Barreto através da sua secretaria de formação realizou no dia 06 de março de 2010 no auditório do Sindicato dos Químicos Unificados – Regional Osasco o curso sobre “A Atualidade de Antonio Gramsci” com o Profº EDSON MIAGUSKO e Doutor em Sociologia formado pela Universidade de São Paulo (USP).

Miagusko fez a apresentação sobre os temas:

O contexto das idéias de Gramsci

A noção de hegemonia

Idéias de Gramsci e o Brasil

Teve uma participação muito boa entre os participantes havia estudantes de história, trabalhadores e sindicalistas que estavam no curso para poder entender mais sobre “Antonio Gramsci e assim que acabou ficou definido entre os participantes e o professor que iremos dar continuidade no curso e aprofundar sobre os temas que ficaram pendentes devido à hora como, por exemplo,”.

Sociedade Civil e Sociedade Política

Bloco Histórico entre outros

Veja algumas fotos do curso:

 

 Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (18) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (29) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (30) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (31)  Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (38) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (39) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (36) Curso A Atualidade de Gramsci 06-03-2010 (5)

 

ASSISTA O VÌDEO SOBRE O CURSO:

A atualidade de Antonio Gramsci.

Entrevista com o Profº EDSON MIAGUKO

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte1

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 2

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 3

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 4

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 5

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 6

“A Atualidade de Antonio Gramsci” Parte 7

Para saber mais sobre os cursos de formação do Instituto Zequinha Barreto

e-mail; socialismoedemocracia@gmail.com

e-mail: pedrinagsilva@yahoo.com.br

Telefone 3695-0661 – Falar com Pedrina

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Cuba é uma ditadura?

Breno Altman

Postado: Brasil de fato

Essa discussão é um capítulo importante na agenda da contra-ofensiva à hegemonia do pensamento de direita

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O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues (Folha de S.Paulo), no último dia 11/02, respondeu afirmativamente à pergunta que faz as vezes de título desse artigo. Com ressalvas de contexto, identificando no longo bloqueio norte-americano uma das causas do que chamou de “fechamento político”, Dutra assumiu a mesma definição dos setores conservadores quando abordam a natureza do regime político existente na ilha caribenha.
Essa discussão é um capítulo importante na agenda da contra-ofensiva à hegemonia do pensamento de direita. Afinal, a possibilidade do socialismo foi estabelecida pelos centros hegemônicos não apenas como economicamente inviável e trágica, mas também como intrinsecamente autoritária.
Quando o colapso da União Soviética permitiu aos formuladores do campo vitorioso declarar o capitalismo e a economia de livre-mercado como o final da história, de lambuja também fixaram o sistema político vigente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos como a única alternativa democrática aceitável.
Não foram poucos os quadros de esquerda que assumiram esse conceito como universal e abdicaram da crítica ao funcionamento institucional dos países capitalistas. Alguns se arriscaram a ir mais longe, aceitando esse modelo como paradigma para a classificação dos demais regimes políticos.
Na tradição do liberalismo, base teórica da democracia ocidental, a identificação e a quantificação da democracia estão associadas ao grau de liberdade existente. Quanto mais direitos legais, mais democrático seria o sistema de governo. No fundo, democracia e liberdade seriam apenas denominações diferentes para o mesmo processo social.
Pouco importa que o exercício dessas liberdades seja arbitrado pelo poder econômico. As disputas eleitorais e a criação de veículos de comunicação, por exemplo, são determinadas em larga escala pelos recursos financeiros de que dispõem os distintos setores políticos e sociais.
No modelo democrático-liberal, afinal, os direitos formais permitem o acesso irrestrito das classes proprietárias ao poder de Estado, que podem usar amplamente sua riqueza para mercantilizar a política e seus instrumentos, especialmente a mídia. Basta acompanhar o noticiário político para se dar conta do caráter cada vez mais censitário da democracia representativa.
A revolução cubana ousou ter entre suas bandeiras a criação de outro tipo de modelo político, no qual a democracia é concebida essencialmente como participação popular. Ao longo de cinco décadas, mesmo com as dificuldades provocadas pelo bloqueio norte-americano, forjou uma rede de organismos que mobilizam parcelas expressivas de sua população.
A maioria dos cubanos participa de reuniões de células partidárias, do comitê de defesa da revolução de sua quadra, dos sindicatos de sua categoria, além de outras organizações sociais que fazem parte do mecanismo decisório da ilha. Não são somente eleitores que delegam a seus representantes a tarefa de legislar e governar, ainda que também votem para deputados – o regime cubano é uma forma de parlamentarismo. Esse tipo de participação talvez explique porque Cuba, mesmo enfrentando enormes privações, não seguiu o mesmo curso de seus antigos parceiros socialistas.
O modelo cubano não nasceu expurgando seus opositores ou instituindo o mono-partidarismo. Poderia ter se desenvolvido com maior grau de liberdade, mas teve que se defender de antigos grupos dirigentes que se decidiram pela sabotagem e o desrespeito às regras institucionais como caminhos para derrotar a revolução vitoriosa. Na outra ponta, as diversas agremiações que apoiavam a revolução (além do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel, o Diretório Revolucionário 13 de Março e o Partido Socialista Popular) foram se fundindo em um só partido, o comunista, oficialmente criado em 1965.
Os círculos contra-revolucionários, patrocinados pelo governo democrata de John Kennedy, organizaram a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Aliaram-se a CIA em algumas dezenas ou centenas de tentativas para assassinar Fidel Castro e outros dirigentes cubanos. Associados a seguidas administrações norte-americanas, criaram uma situação de guerra e passaram a operar como braços de um país estrangeiro que jamais aceitou a opção cubana pela soberania e a independência.
A restrição das liberdades foi a salvaguarda de uma nação ameaçada, vítima de uma política de bloqueio e sabotagem que já dura meio século. Os Estados Unidos dispõem de diversos planos públicos, para não falar dos secretos, cujo objetivo é financiar e apoiar de todas as formas a oposição cubana. Vamos combinar: já imaginaram, por exemplo, o que ocorreria se um setor do partido democrata recebesse dinheiro cubano, além de préstimos do serviço de inteligência, para conquistar a Casa Branca?
Claro que o ambiente de guerra e a redução das liberdades formais impedem o desenvolvimento pleno do modelo político fundado pela revolução de 1959. Vícios de burocratismo e autoritarismo estão presentes nas instâncias de poder. Mas ainda nessas condições adversas, o governo cubano veio institucionalizando interessante sistema de participação popular. O contrapeso ao modelo de partido único, opção tomada para blindar a revolução sob permanente ataque, é um sistema de organizações não-partidárias que exercem funções representativas na cadeia de comando do Estado.
A Constituição de 1976, reformada em 1992, estabeleceu o ordenamento jurídico do modelo. Um dos principais ingredientes foi a criação do Poder Popular, com suas assembléias locais, municipais, provinciais e nacional. Seus representantes são eleitos em distritos eleitorais, em voto secreto e universal. Os candidatos são obrigatoriamente indicados por organizações sociais, em um processo no qual o Partido Comunista não pode apresentar nomes – aliás, ao redor de 300 dos 603 membros da Assembléia Nacional não são filiados comunistas.
O Poder Popular é quem designa o Conselho de Estado e o Conselho de Ministros, principais instâncias executivas do país, além de aprovar as leis e principais planos administrativos. Seus integrantes não são profissionais da política: continuam a desempenhar suas atividades profissionais e se reúnem, em âmbito nacional, duas vezes ao ano para deliberar sobre as principais questões.
A Constituição também prevê mecanismos de consulta popular. Dispondo desse direito, o dissidente Oswaldo Payá, líder do Movimento Cristão de Libertação, reapresentou à Assembléia Nacional do Poder Popular, em 2002, uma petição com 10 mil assinaturas para que fosse organizado referendo que modificasse o sistema político e econômico na ilha.
O governo reuniu 800 mil registros para propor outro plebiscito, que tornava o socialismo cláusula pétrea da Constituição. Teve preferência pela quantidade de assinaturas. Cerca de 7,5 milhões de cubanos (65% do eleitorado), apesar do voto em referendo ser facultativo, votaram pela proposta defendida por Fidel Castro.
Tratam-se apenas de algumas indicações e exemplos de que o novo presidente petista pode ter sido um pouco apressado em suas declarações. As circunstâncias históricas levaram Cuba a restringir liberdades. Mas seu sistema político deveria ser analisado com menos preconceito, sem endeusamento do modelo liberal, no qual a existência de direitos formais amplos não representa garantias para um funcionamento democrático baseado na participação popular.

Breno Altman é jornalista e diretor do sítio Opera Mundi (www.operamundi.com.br)

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Médicos de Cuba en Haití: la solidaridad silenciada

Assista os Vídeos abaixo e vão perceber quem está no Haiti para ajudar o povo Haitiano antes e depois do terremoto!

 

 

Médicos cubanos en Haití

 

Médicos cubanos trabajan las 24 horas en Haití

 

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Daniel Bensaid: a atualidade de um comunismo radical

 

 A crise, social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não retrocede diante de seus próprios limites e cuja desmedida e irracionalidade crescentes ameaçam ao mesmo tempo a espécie humana e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade de um comunismo radical”, invocado por Benjamin diante do aumento dos perigos do período entre guerras. Em seu último artigo, Daniel Bensaïd, falecido terça-feira, em Paris, analisa a atualidade do Manfiesto Comunista.

Daniel Bensaïd

Gravemente enfermo há vários meses, morreu terça-feira (12), em Paris, Daniel Bensaïd. Militante de esquerda desde a adolescência, Bensaïd foi um dos fundadores da Jeunesse Communiste Révolutionnaire (JCR), em 1966, e participou ativamente do movimento de Maio de 68, antes de participar da criação da Ligue Communiste (LCR), em 1969. Durante muitos anos, foi dirigente da LCR e da Quarta Internacional. Em 2009, engajou-se na criação de um novo partido de esquerda na França, o NPA (Novo Partido Anti-Capitalista).
Professor de Filosofia na Universidade de Paris VIII, Bensaid publicou diversos livros de filosofia e debate político, ajudou a construir as revistas Critique Communiste e ContreTemps e participou ativamente da criação da Fundação Louise Michel, defendendo nestes espaços um marxismo aberto e não dogmático. Também foi um participante ativo do processo de construção do Fórum Social Mundial.
Publicamos a seguir o último texto de Daniel Bensaïd, intitulado “Potências do comunismo”, uma análise sobre a atualidade do Manifesto Comunista:


Potências do comunismo
Em um artigo de 1843 sobre “os progressos da reforma social no continente”, o jovem Engels (20 anos) via o comunismo como “uma conclusão necessária que se é claramente obrigado a tirar a partir das condições gerais da civilização moderna”. Um comunismo lógico em resumo, produto da revolução de 1830, na qual os operários “voltaram às fontes vivas e ao estudo da grande revolução e se apoderaram vivamente do comunismo de Babeuf”. Para o jovem Marx, em troca, este comunismo não era ainda mais do que “uma abstração dogmática”, uma “manifestação original do princípio do humanismo”. O proletariado nascente havia “se jogado nos braços dos doutrinários de sua emancipação”, das “seitas socialistas”, e dos espíritos confusos que “divagam como humanistas” sobre “o milênio da fraternidade universal” como “abolição imaginária das relações de classe”.
Antes de 1848, este comunismo espectral, sem programa preciso, estava presente na atmosfera do tempo sob as formas “pouco polidas” das seitas igualitárias ou dos sonhos icarianos. No entanto, já então a superação do ateísmo abstrato implicava um novo materialismo social que não era outra coisa que o comunismo. “Assim como o ateísmo, enquanto negação de Deus, é o desenvolvimento do humanismo teórico, também o comunismo, enquanto negação da propriedade privada, é a reivindicação da vida humana verdadeira”. Longe de todo anticlericalismo vulgar, este comunismo era “o desenvolvimento de um humanismo prático”, para o qual não se tratava já só de combater a alienação religiosa, mas sim a alienação e a miséria sociais reais de onde nasce a necessidade da religião.
Da experiência fundadora de 1848 - ano que marca a primeira publicação do Manifesto Comunista, de Marx - à experiência da Comuna de Paris (1871), o “movimento real” que busca abolir a ordem estabelecida tomou forma e também força, dissipando as “loucuras sectárias” de então e expondo ao ridículo “o tom de oráculo da infalibilidade científica”. Dito de outra forma, o comunismo, que foi primeiramente mais um estado de espírito ou um, por assim dizer, “comunismo filosófico”, encontrava finalmente a sua forma de expressão política. Em um quarto de século, concretizou-se a sua mudança: de seus modos iniciais de aparição, de caráter filosófico e utópico, à sua forma política, por fim encontrada: a da emancipação.
1. As palavras da emancipação não saíram incólumes das tormentas do século passado. Pode-se dizer delas, como dos animais da fábula, que não morreram todas, mas que todas foram gravemente feridas. “Socialismo”, “revolução”, “anarquia” não estão em situação muito melhor que “comunismo”. O socialismo implicou-se no assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, nas guerras coloniais e colaborações governamentais até o ponto de perder todo o conteúdo à medida que ganhava em extensão. Uma metódica campanha ideológica conseguiu identificar, aos olhos de muitos, a revolução com a violência e o terror. Mas, de todas as palavras ontem portadoras de grandes promessas e sonhos de futuro, a do comunismo foi a que sofreu maior dano, por causa de sua captura pela razão burocrática do Estado e sua submissão a um empreendimento totalitário. Resta saber se, entre todas essas palavras feridas, há algumas que vale a pena reparar e pôr de novo em movimento.
2. É necessário para isso pensar o que ocorreu com o comunismo do século XX. A palavra e a coisa não podem ficar fora do tempo das provas históricas a que foram submetidos. O uso massivo do título “comunista” para designar o Estado liberal autoritário chinês pesará muito mais durante longo tempo, aos olhos da grande maioria, do que os frágeis brotos teóricos e experimentais de uma hipótese comunista. A tentação de subtrair um inventário histórico crítico conduziria a reduzir a idéia comunista a “invariantes” atemporais, a fazer dela um sinônimo das idéias indeterminadas de justiça ou de emancipação, e não a forma específica da emancipação na época da dominação capitalista. A palavra perde então em precisão política o que ganha em extensão ética ou filosófica. Uma das questões cruciais é saber se o despotismo burocrático é a continuação legítima da Revolução de Outubro ou o fruto de uma contra-revolução burocrática, verificada não só pelos processos, as purgas, as deportações massivas, mas também pelas convulsões dos anos 30 na sociedade e no aparato de Estado soviético.
3. Não se inventa uma nova palavra por decreto. O vocabulário se forma com o tempo, por meio de usos e experiências. Ceder à identificação do comunismo com a ditadura totalitária stalinista seria capitular diante dos vencedores provisórios, confundir a revolução e a contra-revolução burocrática, e fechar assim o capítulo das bifurcações, o único aberto à esperança. E seria cometer uma irreparável injustiça para com os vencidos, todas as pessoas, anônimas ou não, que viveram apaixonadamente a idéia comunista e que a vivenciaram contra suas caricaturas e falsificações. Vergonha daqueles que deixaram de ser comunistas ao deixar de ser stalinistas e que só foram comunistas enquanto foram stalinistas! (1)
4. De todas as formas de nomear “ao outro” necessário e possível do capitalismo imundo, a palavra comunismo é que conserva maior sentido histórico e carga programática explosiva. É a que evoca melhor o comum da partilha e da igualdade, o funcionamento comum do poder, a solidariedade frente ao cálculo egoísta e à concorrência generalizada, a defesa dos bens comuns da humanidade, naturais e culturais, a extensão aos bens de primeira necessidade de um espaço de gratuidade (desmercantilização) dos serviços, contra a rapina generalizada e a privatização do mundo.
5. É também o nome de uma medida diferente da riqueza social daquela da lei do valor e da avaliação mercantil. A competição “livre e não falseada” repousa sobre “o roubo do tempo de trabalho do outro”. Pretende quantificar o inquantificável e reduzir a sua miserável medida comum, mediante o tempo de trabalho abstrato, a incomensurável relação da espécie humana com as condições naturais de sua reprodução. O comunismo é o nome de um critério diferente de riqueza, de um desenvolvimento ecológico qualitativamente diferente da corrida quantitativa pelo crescimento. A lógica da acumulação do capital exige não só a produção para o lucro e não para as necessidades sociais, mas também “a produção de novo consumo”, a ampliação constante do círculo do consumo “mediante a criação de novas necessidades e pela criação de novos valores de uso”… “Daí a exploração da natureza inteira” e “a exploração da terra em todos os sentidos”. Esta desmedida devastadora do capital funda a atualidade de um eco-comunismo radical.
6. A questão do comunismo é primeiro, no Manifesto Comunista, a da propriedade: “Os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: supressão da propriedade privada” dos meios de produção e de troca; não confundir com a propriedade individual dos bens de uso. Em “todos os movimentos, põem na frente a questão da propriedade, seja qual for o grau de evolução que tenha atingido, como a questão fundamental do movimento”. Dos dez pontos que concluem o primeiro capítulo, sete concernem às formas de propriedade: a expropriação da propriedade latifundiária e a vinculação da renda da terra aos gastos do Estado; a instauração de uma tributação fortemente progressiva; a supressão da herança dos meios de produção e de troca; o confisco dos bens dos emigrados rebeldes; a centralização do crédito em um banco público; a socialização dos meios de transporte e a construção de uma educação pública e gratuita para todos; a criação de manufaturas nacionais e a ocupação (para plantio) das terras sem cultivar. Estas medidas tendem todas elas a estabelecer o controle da democracia política sobre a economia, a primazia do bem comum sobre o interesse egoísta, do espaço público sobre o espaço privado. Não se trata de abolir toda forma de propriedade, mas sim “a propriedade privada de hoje, a propriedade burguesa”, o “modo de apropriação” fundado na exploração de uns pelos outros.
7. Entre dois direitos, o dos proprietários apropriarem-se dos bens comuns, e o dos despossuídos à existência, “é a força que decide”, diz Marx. Toda a história moderna da luta de classes, da guerra dos camponeses na Alemanha às revoluções sociais do século passado, passando pelas revoluções inglesa e francesa, é a história deste conflito. Resolve-se pela emergência de uma legitimidade oposta à legalidade dos dominantes. Como “forma política encontrada da emancipação”, como “abolição” do poder de Estado, como realização da república social, a Comuna ilustra a emergência desta nova legitimidade. Sua experiência inspirou as formas de auto-organização e de auto-gestão populares aparecidas nas crises revolucionárias: conselhos operários, soviets, comitês de milícias, cordões industriais, associações de vizinhos, comunas agrárias, que tendem a desprofissionalizar a política, a modificar a divisão social do trabalho, a criar as condições de extinção do Estado enquanto corpo burocrático separado.
8. Sob o reino do capital, todo progresso aparente tem sua contrapartida de regressão e de destruição. Em última instância, não consiste em mais do que mudar a forma de servidão. O comunismo exige uma idéia diferente e alguns critérios diferentes do que os do rendimento e da rentabilidade monetária. A começar pela redução drástica do tempo de trabalho obrigatório e a mudança da própria noção de trabalho: não poderá haver completo desenvolvimento individual no ócio ou no “tempo livre” enquanto o trabalhador permanecer alienado e mutilado no trabalho. A perspectiva comunista exige também uma mudança radical da relação entre o homem e a mulher: a experiência da relação entre os gêneros é a primeira experiência da alteridade e enquanto subsista essa relação de opressão, todo ser diferente, por sua cultura, sua cor, ou sua orientação sexual, será vítima de formas de discriminação e de dominação. O progresso autêntico reside, enfim, no desenvolvimento e na diferenciação de necessidades cuja combinação original faz de cada um e de cada uma um ser único, cuja singularidade contribui para o enriquecimento da espécie.
9. O Manifesto concebe o comunismo como “uma associação na qual o livre desenvolvimento de um é condição do livre desenvolvimento de todos”. Aparece assim como a máxima de um livre desenvolvimento individual que não deveria ser confundido nem com as ilusões de um individualismo sem individualidade submetido ao conformismo publicitário, nem como igualitarismo grosseiro de um socialismo de quartel. O desenvolvimento das necessidades e das capacidades singulares de cada um e de cada uma contribui para o desenvolvimento universal da espécie humana. Reciprocamente, o livre desenvolvimento de cada um e de cada uma implica o livre desenvolvimento de todos, pois a emancipação não é um prazer solitário.
10. O comunismo não é uma idéia pura, nem um modelo doutrinário de sociedade. Não é o nome de um regime estatal, nem o de um novo modo de produção. É o de um movimento que, de forma permanente, supera/suprime a ordem estabelecida. Mas é também o objetivo que, surgido deste movimento, o orienta e permite, contra políticas sem princípios, ações sem continuidade, improvisações diárias, determinar o que aproxima e o que afasta deste objetivo. Neste sentido, não é um conhecimento científico do objetivo e do caminho, mas sim uma hipótese estratégica reguladora. Nomeia, indissociavelmente, o sonho irredutível de um mundo diferente, de justiça, de igualdade e de solidariedade; o movimento permanente que aponta para a derrocada da ordem existente na época do capitalismo; e a hipótese que orienta este movimento na direção de uma mudança radical das relações de propriedade e de poder, a distância dos acomodamentos com um mal menor que seria o caminho mais curto para o pior.
11. A crise, social, econômica, ecológica e moral de um capitalismo que não retrocede diante de seus próprios limites e cuja desmedida e irracionalidade crescentes ameaçam ao mesmo tempo a espécie humana e o planeta, volta a colocar na ordem do dia “a atualidade de um comunismo radical”, invocado por Benjamin diante do aumento dos perigos do período entre guerras.
Nota
(1) Ver Mascolo, D. (2000) A la recherche d´un communisme de pensée. Paris : Editions Fourbis, p. 113.

Fonte: Agência Carta Maior - http://www.agenciacartamaior.com.br

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A democracia socialista no centro do debate em Cuba

A mobilização atual da sociedade cubana é um esforço declarado, pelo menos de parte da intelectualidade e de dirigentes políticos, pelo aprofundamento da democracia e do socialismo no país, em favor de uma maior participação popular nas decisões. Esse clima se reflete também na imprensa, acusada nos debates populares de omitir assuntos considerados inconvenientes e de não retratar adequadamente a realidade do país. Mas, se é verdade que a mídia cubana deixa a desejar na cobertura das grandes questões nacionais, é igualmente verdade que ela tem sido sensível às críticas da sociedade. A análise é de Hideyo Saito.

Hideyo Saito (1)

Postado: Carta Maior

O que escondem as autoridades e dirigentes de empresas cubanas, empenhados em dificultar o trabalho de jornalistas e fotógrafos que tratam de oferecer informação pública à população? Como fazer do direito à informação uma realidade cotidiana em Cuba? Essas perguntas foram feitas em matéria de destaque publicada no jornal Granma, porta-voz do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, na edição de 23 de novembro de 2009. No texto, assinado pela jornalista Katia Siberia García e intitulado “Jornalismo com fobias”, são citados exemplos de autoridades que dificultam o acesso à informação por parte da imprensa. De acordo com Katia García, geralmente esses dirigentes exigem que o repórter mostre autorização escrita dos escalões superiores para aceitarem responder a seus questionamentos (2).
Outro artigo, este de 29 de agosto de 2009, assinado pelo colunista do Juventud Rebelde, José Alejandro Rodríguez, denunciou a “obsessão doentia” de autoridades de diversos escalões em não fornecer informações negativas, para pretensamente cuidar da imagem do país, do ministério, da empresa ou da província. Todas se escudam em desculpas de que as críticas depreciam as conquistas da revolução. O jornalista, porém, atribui essa concepção a “oportunistas e indolentes”, argumentando que “as sociedades também necessitam de espelhos para se olhar e perceber suas rugas, que são reversíveis, ao contrário das que marcam os rostos humanos.”
Nesse sentido, escreve ele, o pior desserviço à revolução “é o silêncio, a simulação, a dupla moral, o conformismo, a complacência diante dos problemas que se armam sob os nossos olhos”. Rodríguez lembra que houve muita resistência em aceitar a idéia que a corrupção estivesse incubada na sociedade cubana, mas graças aos que insistiram em denunciar o assunto o país acabou criando, em meados de 2009, uma Controladoria Geral para cuidar especificamente do assunto. O jornalista, por fim, adverte: o socialismo europeu desapareceu porque permitiu que prevalecesse essa atitude de avestruz diante dos problemas que se avolumavam (3).
Um terceiro jornalista cubano, Manuel David Orrio, concentrou sua crítica no funcionamento da própria imprensa, ao comentar uma nota publicada na BBC Mundo sobre um filme cubano que aborda o assunto de forma contundente (4). Trata-se do curta-metragem “Brainstorm”, de Eduardo del Llano, exibido em abril de 2009 no Festival de Cinema Pobre, realizado anualmente na cidade de Gibara (a quase 800 km de Havana). A película mostra o conselho de direção de um jornal discutindo qual será a manchete do dia, até que a conversa é encerrada por uma chamada telefônica ao diretor, em que alguém de fora determina a escolha. O correspondente da BBC, Fernando Ravsberg, escreve que a sátira de Llano não é nada exagerada: na vida real, ninguém se atreve a publicar uma notícia politicamente importante sem que haja um claro sinal de cima (5). O diretor da película é um jovem realizador, autor de vários filmes polêmicos, alguns exibidos em festivais cubanos com bastante sucesso, mas nenhum ainda apresentado em circuito regular de cinema. Sobre o tema de Brainstorm, ele declara: “O jornalismo cubano muitas vezes está de costas para a realidade ou a enfeita demais. Não é um jornalismo combativo como o que queremos. Não queremos algo meramente informativo e didático” (6).
Resolução partidária defende jornalismo crítico
Voltando às matérias, elas são também expressão do clima de efervescência vivido atualmente pelo país. A primeira delas, inclusive, menciona uma resolução, de fevereiro de 2007, do Burô Político do PCC (instância mais alta do partido), que exorta a imprensa local a praticar um jornalismo crítico e determina que, com exceção do segredo militar e de segurança do estado, ninguém tem o direito de negar informações à população.

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Uma, duas, três… milhares de Rosas Vermelhas

Rosa Luxemburgo No segundo domingo de janeiro acontece tradicionalmente a maior manifestação de esquerda em Berlim. Lembra a data do assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, em 15 de janeiro de 1919. A maioria dos manifestantes este ano era composta por veteranos militantes, muitos deles conhecidos pela expressão francesa “soixante-huiters” – “a geração de 68” – ou mais velhos, e por gente muito jovem, o que vem a ser um termômetro muito interessante do que está acontecendo hoje em dia na Alemanha e na Europa. O artigo é de Flávio Aguiar.

Foto: Flávio Aguiar

Postado: Carta Maior

No segundo domingo de janeiro acontece tradicionalmente a maior manifestação de esquerda em Berlim. Lembra a data do assassinato de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, em 15 de janeiro de 1919.
Milhares de manifestantes acorreram ao “Städtischer Zentralfriedhof Friedrichsfelde”, Cemitério Central Municipal de Friedrichsfelde, onde se encontra o Memorial em homenagem aos dois e outros socialistas e militantes proeminentes da esquerda alemã. Eram 40 mil segundo os organizadores, 20 mil segundo a polícia. De qualquer modo, era uma multidão enorme, sob um frio de rachar e uma camada de 30 cm. de neve, acumulada neste inverno extremamente rigoroso e caótico em toda a Europa.
É tradição que os manifestantes levem rosas vermelhas ou cravos da mesma cor para o Memorial: são milhares e milhares de flores que cobrem as duas lápides, aos pés do monumento.
Segundo o jornal Berliner Zeitung de 16 de janeiro, a imensa maioria dos manifestantes era composta por veteranos militantes, muitos deles conhecidos pela expressão francesa “soixante-huiters” – “a geração de 68” – ou mais velhos, e por gente muito jovem, o que vem a ser um termômetro muito interessante do que está acontecendo hoje em dia na Alemanha e na Europa. Da geração que chegou à maturidade política no período que antecedeu ou que sucedeu a queda do muro de Berlim, em 1989, e que hoje está, grosso modo, entre os 40 e os 50 anos, pouco mais, pouco menos, muito pouca gente, comparativamente às outras gerações, estava lá.
Há quem despreze solenemente a manifestação, dizendo que ela é um “ajuntamento de aposentados da antiga DDR” – a ex-Alemanha Oriental. Não é verdade. Inclusive porque 20 anos depois da queda do muro a realidade política da esquerda na Alemanha mudou muito, e hoje o espectro político da esquerda alemã que se proclama como tal – a começar pelo novo partido Die Linke (A Esquerda) – é muito variado e caminha com pernas próprias, não podendo mais ser considerada apenas ex-isso ou ex-aquilo. A presença maciça de jovens demonstra isso. Além desse partido, e das frações tradicionais e fragmentárias da extrema esquerda (inclusive o Partido Comunista Alemão), também acorrem à manifestação militantes e simpatizantes de tendências à esquerda dos Partidos Verde e Social Democrata, além de outros independentes, curiosos, turistas, vendedores de bottons, livros, camisetas, e, é claro, boas salsichas (as “wurst”), que não poderiam faltar, além de outros acepipes. Os manifestantes vêm de toda a Alemanha e de outros países também.
Neste ano a manifestação se realizou sob o signo de movimentada polêmica em torno do cadáver de Rosa Luxemburgo. A faísca da discussão foi um torso de mulher, sem cabeça, mãos e pés, encontrado no porão da Charite, o grande complexo hospitalar público de Berlim onde fica o Instituto Médico Legal daqui.
O diretor do Instituto, dr. Michael Tsokos, levantou a suspeita de que este poderia ser o remanescente do verdadeiro cadáver de Rosa. Para embasar sua suspeita, argumenta com notáveis semelhanças entre este torso – a começar por ter ele uma perna mais curta que a outra, por ter estado submerso – e as descrições que se tem de Rosa Luxemburg. Argumenta também com o que considera possíveis incongruências nas autópsias de Rosa, em 1919, além de certos sinais característicos da revolucionária, então com quase 48 anos, não constarem dos documentos. Já havia, de longa data, boatos sobre o cadáver de Rosa “nunca ter deixado a Charité”, ou de que “ele fora enterrado sem a cabeça”.
Explique-se: em 1919 Rosa e Liebknecht foram aprisionados por uma divisão de cavalaria do Exército Alemão que passara a integrar os Freikorps – organizações para-militares de extrema direita – que foram chamadas ou liberadas pelo governo, cujo líder era o social-democrata Friedrich Ebert – para reprimir o movimento de trabalhadores que, no pós-Primeira Guerra, seguindo o exemplo soviético, haviam proclamado uma República Socialista. A repressão pelos Freikorps foi extremamente brutal, provocando a morte de milhares de militantes esquerdistas (os números vão desde 1.300 a 5.000) no começo de 1919. E o seu estopim foi a prisão e execução, depois de tortura, de Rosa e Karl.
O cadáver de Karl foi entregue à polícia como vítima de um assassinato “por desconhecidos”. O de Rosa foi jogado no Landwehr Kanal, um dos tantos canais que cortam Berlim e fazem-na ter mais pontes do que Veneza. Quatro meses depois ele foi encontrado e levado à Charité para identificação e autópsia. Segundo a suspeita do dr. Tsokos, então, o cadáver enterrado como sendo de Rosa não seria na verdade o dela, na pressa para pôr fim à questão. Para complicar as coisas, o lugar onde se encontravam os corpos de Karl e Rosa, no mesmo cemitério de Friedrichsfelde, foi saqueado e profanado pelos nazistas em 1935, que sumiram com eles. As lápides hoje aos pés do monumento em homenagem aos socialistas cobrem túmulos, na verdade, vazios.
A hipótese de que o cadáver descoberto no porão da Charité fosse o de Rosa despertou a fúria de muita gente, a começar pelo diretor anterior do IML, dr. Volkmer Schneider. Este chamou à liça um historiador, Klaus Gietinger, que começou a levantar documentos para provar que o cadáver enterrado em 1919 era de fato o da revolucionária. E acusou o dr. Tsokos de uma manobra sensacionalista para promover um futuro livro, que ele está escrevendo, sobre casos curiosos de identificação (ou falta de) de corpos na medicina forense. Por sua vez, Gietinger também preparou um livro sobre o caso, com os documentos que reuniu. E assinale-se, há outros historiadores, como Jörn Schütrumpf, que sustentam a tese de Tsokos.
É claro que tudo poderia ser resolvido por um exame de DNA, se houvesse elementos disponíveis. O dr. Tsokos encontrou uma sobrinha neta de Rosa que vive em Israel, mas o parentesco é muito distante para permitir uma identificação (ou não) segura. Há o túmulo dos pais de Rosa, em Varsóvia, mas esta sobrinha neta até agora não deu permissão para que ele seja aberto – o que é muito estranho. A esperança do novo diretor do IML volta-se agora para uma história peculiar, a de que Rosa teria dado uma mecha de seus cabelos para Paul Levi, um advogado social-democrata com quem teria tido um envolvimento. Levi morreu em 1930, mas em 1933 sua família emigrou para os EUA. Talvez a tal de mecha ainda exista, o que poderia levar a uma prova conclusiva sobre se o cadáver na Charite era ou não o de Rosa.
De qualquer modo, seria ainda preciso explicar o que um corpo sem identificação, nem, pelo visto, preocupação por que fosse identificado, ficou no porão do complexo hospitalar durante pelo menos 90 anos (o exame de carbono-14 comprovou que o corpo era daquela época), o que, por si só, mereceria uma investigação pelo Ministério Público. Que, aliás, colocou o corpo sob sua jurisdição até segunda ordem.
A polêmica mostra, em todo caso, que Rosa ainda é, além de uma inspiração internacional, uma espécie de “oco” na história alemã.
Para completar este artigo, uma referência a um acontecimento insólito e patético ao final da manifestação. Bem no finzinho, depois até que um grupo radical já tinha entoado a Internacional, um pequeno ajuntamento de jovens desfraldou uma bandeira que era de alguma “Juventude Comunista”. Sabe-se lá por quê, parece que há uma proibição quanto a essa bandeira. Um bando de policiais veio então e a apreendeu, sob protestos generalizados. Felizmente os manifestantes foram sensatos (no meu entender mais do que os policiais, que pareciam ter tomado aquela atitude por nada mais terem tido a fazer durante a manifestação) e limitaram-se a exprimir seu descontentamento de viva voz, sem recorrer a outros métodos que poderiam ser considerados uma provocação.
Um dos descontentes com a medida policial, o que desfraldara a bandeira, perguntou por quê a apreensão fora feita. Ouviu de um policial que a bandeira fora proibida. Retrucou o manifestante: “Sim, foi proibida lá [isto é, na antiga Berlim Ocidental], mas não aqui [isto é, na antiga Berlim Oriental, onde fica o cemitério].
O pequeno incidente mostra que as distâncias estão presentes; para aquele manifestante descontente, a força policial era de invasores; e o seu território, um território ocupado. O que mostra que existem ainda outros “ocos” na história alemã.

 

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51 anos de Revolução Cubana: socialismo é humanidade

  *Base do PCB em Cuba
                                                                      (estudantes brasileiros)
       O primeiro dia de cada novo ano é muito mais que o reveillon para um rebelde povo. Foi num dia como este, há 51 anos, que o heróico povo cubano livrou-se definitivamente das garras da grande águia do norte e iniciou seu próprio caminho de soberania, liberdade e justiça. O triunfo da revolução cubana é o culminar de quase 100 anos de incansáveis batalhas e sacrifícios das massas e seus verdadeiros heróis.
       A cada novo ano de resistência socialista, o processo cubano nos enche de esperança revolucionária, com inquestionável exemplo de que os povos oprimidos do mundo podem escolher um caminho alternativo ao domínio imperialista e à exploração do capitalismo. Essa esperança torna-se ainda mais concreta se buscamos compreender a história deste processo, real e presente, que se forjou em um movimento de gerações revolucionárias. Façamos assim, um breve resgate histórico, que além de uma singela homenagem ao povo cubano é também um legado para o nosso próprio caminho revolucionário.
       Recordemos que Cuba constituiu-se como colônia espanhola no século XVI e, desde então, sua economia foi baseada no trabalho do escravo negro e na produção açucareira. A partir de meados do século XIX acentuaram-se as contradições entre a metrópole e as elites crioulas locais, em virtude das crises econômicas mundiais de 1857 e 1866, da baixa nos preços do açúcar e da decadência do império espanhol. Tais contradições culminaram nas guerras de libertação nacional: a “Guerra dos 10 anos” (1868-1878), liderada por Carlos Manuel de Céspedes, e a Guerra de Independência (1895-1898), na qual surge o líder José Martí, um homem muito à frente de sua época, cujas idéias patriotas e humanistas, somadas a sua exemplar prática como revolucionário, o consagraram herói nacional de Cuba. Desde a
guerra de independência Martí já alertava o perigo que vinha da América do Norte, em um chamado ao povo cubano pela sua real libertação.
       Durante esse processo, o incipiente movimento das massas de trabalhadores, ainda com precárias formas de organização e politicamente pouco ativas, não pode fazer contraponto à força das classes senhoriais. Os chamados criollos não conduziram as lutas de libertação do domínio espanhol para uma revolução política contra ordem existente, temendo que o controle político militar do movimento se deslocasse para os grupos sociais identificados com a pressão popular por revolução democrática. Assim, as forças do movimento de libertação nacional foram canalizadas para uma “revolução dentro da ordem” que, assegurando a permanência das
oligarquias, estabeleceu entre elas e os EUA um pacto que permitiu ir até o fundo a “modernização da colonização indireta”, através da incorporação financeira e comercial de Cuba aos EUA. Em 10 de dezembro de 1898, com a assinatura do Tratado de Paris entre EUA e Espanha, Cuba deixou de ser colônia espanhola para estar subordinada ao imperialismo ianque.
Em 1o de janeiro de 1899 foi oficializada a ocupação militar estadunidense em Cuba. No ano de 1901, a Emenda Platt foi adicionada à Constituição cubana, permitindo a intervenção estadunidense em caso de segurança nacional. Foi através de tal emenda, que os EUA criaram a base militar de Guantanamo, existente até hoje, mesmo com a abolição da Emenda Platt em 1934. Dessa maneira a burguesia internacional fincou suas garras em Cuba, realizando em 1902 a expropriação de terras dos camponeses por empresas como American Tobacco Company, Cuban American Sugar e a United Fruit Company.
        O despertar cubano, ainda que sob a frustração do sonho patriótico, serviu como experiência para as lutas que se travariam nas décadas seguintes, sendo agora o crescente imperialismo dos EUA o principal inimigo, assim como já deixava claro José Martí.
        No inicio do século XX se organiza o movimento operário em Cuba, bem como o movimento estudantil, influenciados pelas conquistas da Revolução de Outubro, a Revolução Mexicana, e as reformas universitárias ocorridas em diversos países da América (como Argentina, Chile e Peru). São constantes greves obreiras e estudantis no país. Em 1904, Carlos Baliño (que fundou junto com Marti o Partido Revolucionário Cubano), fundou o Partido Socialista Obreiro, que se converteu em Partido Socialista de Cuba. Em 1923 foi fundada a Federação Estudantil Universitária, por Julio Antonio Mella, que em 1925, junto a Baliño, fundou o Partido Socialista Popular (equivalente ao primeiro Partido Comunista de Cuba). Em 1939 foi fundada a Confederação de Trabalhadores Cubanos.
        A necessidade da luta antiimperialista volta com vigor no processo revolucionário iniciado em 1933, desencadeado pelos efeitos da crise do capital de 1929. A organização dos movimentos de massa, especialmente do movimento operário e estudantil, culminou com a derrocada do ditador Geraldo Machado e a instituição do chamado “Governo dos 100 dias” que foi duramente reprimido pelas forças Ianques. Tal movimento evidenciou o papel contra revolucionário da burguesia nacional e dos latifundiários, dependentes e associados aos interesses do Império.
        No contexto pós II Guerra Mundial acirraram-se as contradições e a miséria no país, configurando marcadamente fortes condições objetivas para a retomada do processo revolucionário. Diante do crescimento do movimento de massas e da possibilidade de uma vitória eleitoral do partido ortodoxo (com ideais patrióticos e democráticos), em 1952 Fulgencio Batista aplicou um golpe de Estado, novamente com amplo apoio das forças militares do norte.
        As massas populares se opuseram à ditadura e sua atividade cresceu na mesma proporção ao agravamento da situação do país. O movimento operário foi ilegalizado, sendo a luta contra a ditadura organizada dentro dos sindicatos clandestinos, com orientação do Partido Socialista Popular.
        Nesse processo desempenhou um papel determinante a vanguarda revolucionária que dirigiria as atividades das massas no sentido de terminar as tarefas iniciadas nas lutas contra o colonialismo espanhol e nos combates da geração de 1930. Fidel e Raúl Castro, Melba Hernandez, Haydeé e Abel Santamaría, junto a outros 117 jovens mártires, organizaram os corajosos ataques ao Quartel Moncada e ao Quartel Carlos Manuel de Céspedes, inaugurando uma nova fase na luta revolucionária cubana, em que a guerra civil oculta passava a ser aberta e a luta armada a forma fundamental de enfrentamento ao regime.
        O ataque ao quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, teria como objetivo obter armas, dar a conhecer o movimento revolucionário que surgia e incorporar as grandes massas populares. O fracasso militar do assalto levou os revolucionários sobreviventes à prisão e à organização do Movimento 26 de Julho (M-26-7). Na cadeia, os revolucionários trataram de preparar-se teoricamente, ao mesmo tempo em que conduziam a organização e fortalecimento do movimento através da campanha de anistia. É neste contexto que Fidel escreve sua magistral defesa que anunciava os princípios norteadores da revolução cubana: “A historia me
absolverá”.
        Após sua saída da prisão, em 1955 os revolucionários são perseguidos e ameaçados.
Fidel se exila no México e desde aí busca nos exilados cubanos o financiamento para o preparo militar do M-26-7, que seguiu se articulando e crescendo na ilha, com grande inserção no meio estudantil e operário. No México, Fidel conhece Ernesto Guevara, que passa a ser conhecido como Che. Em 2 de dezembro de 1956, desembarcam 82 revolucionários em Cuba, depois de uma longa viagem desde o México a bordo do Iate Granma, entre eles Fidel, Raúl y Che. Esses,
apoiados pelo forte movimento construído em solo cubano, iniciam o braço armado guerrilheiro na Sierra Maestra.
       O M-26-7 unificou os combatentes do Diretório Revolucionário 13 de março, de José Antonio Echeverría, e o Partido Socialista Popular, de Blas Roca, em torno da estratégia revolucionária de libertação nacional, cuja luta antiimperialista constituiu um elemento central.
O objetivo foi buscar, através da revolução nacional, a instauração da democracia, da soberania popular e um desenvolvimento independente. Palavras de ordem que de início serviam tanto ao proletariado como a setores da burguesia nacional, mas que forjaram as bases para um direcionamento socialista da revolução à medida que a organização das classes oprimidas ganhou espaço. Da unidade entre o M-26-7, o Diretório Revolucionário e o PSP surgiu o equivalente social e político do partido revolucionário, que abriu o caminho para a revolução das massas exploradas.
       Com o triunfo da revolução em 1o de janeiro de 1959 os representantes das oligarquias e o imperialismo foram varridos do governo revolucionário recém instaurado. A radicalização do processo revolucionário cubano significou não apenas a criação do primeiro Estado socialista da América Latina, mas também a esperança e o exemplo dos povos oprimidos deste continente.
       O dia 1o de janeiro foi apenas o inicio das vitórias contra o imperialismo e exploração do povo cubano. Neste mesmo ano, o governo revolucionário iniciou a nacionalização de empresas pertencentes ao grande capital internacional, entre estas 36 indústrias açucareiras, que dominavam 40% da produção de açúcar do país. Realizou-se também a primeira Reforma Agrária, que distribuiu 50% das terras cubanas a cerca de 600 mil famílias. Nacionalizaram-se a saúde e a educação. Em 22 de dezembro de 1961, graças ao trabalho de mais de 100 mil jovens, professores e trabalhadores, Cuba se tornou o primeiro país da América livre de
analfabetismo. Nesse mesmo ano Fidel Castro profere seu inesquecível discurso declarando a Revolução Cubana de caráter socialista.
Do triunfo revolucionário aos dias atuais
       A medida que avançavam as conquistas do heróico povo cubano, crescia também a contra-ofensiva do império. Ainda em 1961 a CIA financia e organiza o ataque de 1200 mercenários a Playa Girón, derrotados pelo povo combatente. Foi então que para organizar o povo cubano e defender suas conquistas foram criados os Comitês de Defesa da Revolução – CDR, possibilitando a construção do socialismo e da democracia popular em cada bairro. Depois desse, vieram muitos outros ataques, como a explosão de uma avião em 1976 que matou 73 pessoas, cujo autor, Juan Posadas Carrilles, segue livre sob proteção ianque.
       Além dos ataques terroristas, em 1962 EUA expulsam Cuba da Organização dos Estados Americanos, OEA, e declara o bloqueio econômico à Ilha, buscando impedir que outros países comercializem ou desenvolvam qualquer tipo de relação com este país. Com o bloqueio genocida, Cuba estreita suas relações com a União Soviética, através de acordos comerciais, militares e de solidariedade. Também nesse período, em 1965, concluiu-se o processo de
unificação dos grupos revolucionários em um único partido. Dessa forma se constituiu o Partido Comunista de Cuba, de caráter marxista-leninista, com Fidel Castro como Secretário Geral.
       Os feitos da revolução cubana seguiram impressionando nos anos seguintes. Em poucos anos Cuba desenvolve-se como potência científica em diversas áreas, como a medicina e a farmacologia. Torna-se o país com maior expectativa de vida e menor mortalidade infantil das Américas, números comparáveis aos mais desenvolvidos países europeus. Desenvolve-se no âmbito dos esportes e cultural, sendo, por exemplo, o país de todo mundo com o maior percentual de escritores per capita, mostra do nível intelectual alcançado pelo povo durante o socialismo. Nas artes plásticas, na dança, na música, no cinema e no teatro a revolução deixou
também sua marca: um povo culto é um povo livre, parafraseando José Martí.
       O socialismo cubano também não acabou em si mesmo. Os cubanos deixaram marcas de emancipação em diversos países. Na África, para exemplificar, contribuíram com os esforços para a libertação nacional de várias nações, como Angola, Etiópia, Congo e Moçambique, sendo sua participação fundamental para o fim do regime Apartheid na África do Sul.
       Na década de 80, os acordos com o campo socialista passaram a responder por 85% do intercâmbio de mercadorias realizado por Cuba. Na década de 90, com a desintegração da URSS e do socialismo no leste europeu, teve inicio uma das épocas mais difíceis da história do
aguerrido povo cubano: o período especial.
       No primeiro ano após a dissolução do campo socialista do leste europeu e da União Soviética, o produto interno bruto decaiu 33%. A questão energética foi uma das mais prejudicadas, colapsando o transporte. Um exemplo do caos gerado foram as muitas safras de alimentos que apodreceram no campo, já que sem combustível para o transporte não podiam ser deslocadas às cidades. Faltavam alimentos, remédios e outros produtos essenciais. Nesse contexto, o cruel bloqueio imperialista tornou-se ainda mais perverso.
       Mesmo com tamanhas dificuldades, em pleno período especial, o povo cubano ratifica sua vontade de seguir construindo o socialismo em plebiscito nacional, com mais de 90% dos votos e uma participação de quase 100% da população. Talvez, por tão heróica resistência e convicção do rumo escolhido, que Fidel considera o Período Especial “o mais glorioso dos 50 anos da Revolução Cubana”. Nessa etapa as idéias criativas para superar as dificuldades foram
muitas, como o desenvolvimento de um efetivo programa de agricultura urbana, referência mundial, que hoje emprega cerca de 400 mil cubanos e produz alimentos para milhões.
       Em contraponto, o período especial gerou também uma série de novas contradições cujas soluções tornaram-se, atualmente, os principais desafios para o avanço do socialismo em Cuba. Para reverter o processo de carência e dependência econômica criaram-se diversas empresas mistas (parcerias entre o Estado - sócio majoritário – e empresas capitalistas), com a finalidade de aumentar e diversificar a produção agrícola e industrial. Para incrementar a arrecadação do Estado, Cuba foi obrigada a abrir-se ao predatório turismo internacional.
       Com tais medidas, Cuba pôde evitar a ofensiva da contra-revolução capitalista e manter as mais importantes conquistas da revolução. No entanto, este longo período de dificuldades materiais foi bastante marcante na determinação da consciência social. Um grande contingente de cubanos deixou o país durante os anos do período especial, e problemas como a prostituição, o mercado negro e a corrupção, tornaram-se presentes. As desigualdades internas foram intensificadas, especialmente quanto à valoração do trabalho: um trabalhador do turismo, um taxista particular, alguém que recebe dinheiro de um familiar no exterior ou que
aluga um quarto para estrangeiros têm maiores possibilidades de consumo que um exemplar operário, um médico ou um reconhecido professor universitário.
       Essas contradições têm sido os maiores desafios do Estado cubano, do Partido Comunista e das organizações de massa do povo. A fim de avançar na superação delas, o governo revolucionário tem proposto à população uma série de reformas - cabe ressaltar que elas têm um caráter absolutamente distinto das contra-reformas que vem sendo aplicadas no Brasil. Uma delas trata da legislação trabalhista e objetiva aumentar a produtividade industrial e a agilidade dos serviços, por meio de incentivos materiais aos trabalhadores mais dedicados e comprometidos com a revolução. Tal medida vem no sentido de reafirmar o principio socialista
de “receber de acordo com seu próprio trabalho e esforço”, rumando assim no sentido de diminuir a burocratização dos serviços e a corrupção, que estagnam a produção. Outra importante medida adotada recentemente é a distribuição das terras ociosas do Estado aos pequenos agricultores e a garantia de condições para produzir, com o objetivo de aproximar Cuba da soberania alimentar.
       Mesmo com tantas dificuldades, Cuba segue sendo vanguarda no que se refere à solidariedade internacional. Atualmente estudam em Cuba cerca de 50 mil estrangeiros, dos mais diversos cursos universitárias, sendo a maioria medicina. Além disso, são bastante conhecidas as missões cubanas de solidariedade na área de saúde e educação, hoje presentes em mais de 70 países, em especial nos que estão em guerra ou que sofrem de catástrofes naturais. Somente na Venezuela são mais de 35 mil cubanos, entre médicos, profissionais da saúde e educadores. Outro relevante exemplo do internacionalismo do socialismo cubano é o projeto Escola Latino Americana de Medicina - ELAM, idealizado pelo Comandante Fidel Castro em um momento em que toda a América Central havia sido assolada por três furacões. Este ano o projeto comemorou 10 anos de existência, com uma grande quantidade de médicos atuando em toda a América Latina, incluindo, por exemplo, a fundação de hospitais populares.
Atualmente, cerca de mil brasileiros estudam em Cuba.
       Ainda assim os ataques imperialistas não cessam. O assassino bloqueio segue vigente, mesmo com as sucessivas votações contrárias nas assembléias da ONU, em que apenas 3 nações do mundo se mantêm favoráveis a sua continuidade. Os prejuízos para Cuba são incalculáveis: em apenas 8 horas de bloqueio o governo cubano poderia reparar cerca de 40 creches ou em 1 dia comprar 139 ônibus de transporte urbano. O caso dos cinco heróis cubanos é outro exemplo da desumanidade que impõe o monstro do norte - como definia Simon Bolívar – presos por lutar contra o terrorismo dos EUA.
       Muitos insistem em deturpar o caminho escolhido pelo povo cubano, mas os fatos não escondem a verdade: em 51 anos o socialismo humanizou a sociedade cubana. Cuba é o único país das Américas em que a violência, tão crescente no Brasil, é insignificante. Havana, uma capital com quase 3 milhões de habitantes, é tão tranqüila quanto uma pacata cidade do interior, em que assassinatos e seqüestros ficam restritos aos romances policiais. Cuba é um país que trabalha cotidianamente para superar a desigualdade de direitos entre os gêneros, para superar o racismo, a discriminação e tantas formas de opressão, tão enraizadas em nossas sociedades. Outros não cansam de afirmar que a Revolução Cubana é coisa do passado e que o socialismo morreu junto com a URSS. Para esses respondemos que não somente é presente o socialismo em Cuba, mas que vem fortalecendo seus princípios e ideais à medida que avançam os processos revolucionários na América Latina. Em contrapartida, processos como o venezuelano e o boliviano, sem a Revolução Cubana provavelmente não existiriam e o caminho da barbárie a que conduz o capitalismo aparentaria ser a única via para a humanidade. Cuba e o socialismo nos permitem seguir sonhando com a utopia de um mundo
humano, no mesmo sentido em que dedicaram suas vidas tantos mártires nesses 51 anos de revolução. Por eles e pelas gerações futuras o povo cubano jamais abandonará as trincheiras conquistadas.
                                                                   *Base do PCB em Cuba.
                                                       La Habana, 31 de dezembro de 2009.

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Socialismo e individualidade

Chris Harman

Um argumento muito utilizado pelos defensores do capitalismo para tentar desacreditar o socialismo é o de que este destruiria a individualidade e reduziria tudo a uma conformidade sombria. E, por tabela, tentam passar a idéia de que o capitalismo proporciona para as pessoas vidas variadas e excitantes.

Nada poderia ser mais distante da verdade. O capitalismo proclama a individualidade como uma das suas virtudes mais elevadas. Fala-se de "liberdade de escolha", de se poder comprar qualquer produto desejado.

Isto é uma ilusão. A escolha que nos é oferecida é comprar os produtos semelhantes das multinacionais que dominam o mundo - McDonald ou Burguer King, Levi´s ou Wrangler, Pepsi ou Coca-cola. As ruas principais de quase todas as cidades médias são praticamente idênticas entre si, oferecendo os mesmos bens de consumo.

A maioria das pessoas usam roupas parecidas, comem comidas semelhantes, fazem compras nos mesmos lugares, dirigem carros praticamente idênticos, e vivem em casas ou apartamentos semelhantes. Este é um processo que está acontecendo no mundo todo, com o crescente controle das corporações globais. Também se baseia em quanta "liberdade de escolha" as pessoas dispõem para comprar. A individualidade está reservada para muitas poucas pessoas - a minoria que possui e dirige as enormes empresas que dominam a economia. Dos demais espera-se que trabalhem para essas empresas, realizando trabalhos monótonos em linhas de montagem ou escritórios, dos quais se exclui o máximo possível de individualidade.

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O caráter socialista da revolução brasileira

Anita Leocádia Prestes [*]
Boa noite a todos. Em primeiro lugar eu queria agradecer ao Ivan Pinheiro e à Direção Nacional do PCB o convite para participar hoje deste debate, desta mesa sobre estratégia e tática da Revolução brasileira. Como o tempo não é muito, vou procurar entrar imediatamente no assunto.
Em primeiro lugar, eu gostaria de sublinhar que, assim como meus antecessores nesta mesa registraram, considero o caráter da revolução brasileira – o que é a mesma coisa que a estratégia – como socialista. Por quê? Porque temos o domínio do capital, ou seja, no Brasil há tempos pode-se falar de um modo de produção capitalista. Não há dúvidas a respeito disso; em outras palavras, o modo de produção dominante no Brasil é o capitalismo, ainda que se trate de um capitalismo marcado pela dependência do imperialismo.
Parece-me que não é possível negar o caráter dependente do capitalismo brasileiro; outra coisa é estudar mais e discutir com maior profundidade as transformações pelas quais tem passado essa dependência. Imagino, pelo pouco que entendo desse tema, que as formas de dependência do capitalismo brasileiro das grandes empresas do capitalismo mundial, ou seja, das grandes potências imperialistas, muito mudou, e deve ter mudado bastante nesses últimos 20 / 30 anos. Por isso, é preciso se conhecer melhor, pesquisar essa questão.
Tenho sérias dúvidas quando se fala em sub-imperialismo brasileiro, ou imperialismo brasileiro; parece-me que a dependência ainda é muito séria e que não pode ser negada.

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A barbárie está aí

Escrito por Gilvan Rocha

06-Out-2009 – Correio da Cidadania

IMAGEM_capaSocialismoBarbarie Há mais de cem anos que Frederico Engels afirmou viver a sociedade capitalista um dilema: "o socialismo ou o caos". Anos depois, Rosa Luxemburgo dava ênfase à colocação feita por Engels, dizendo que o dilema da sociedade capitalista era "o socialismo ou a barbárie".

Certa esquerda sempre teve um comportamento declamatório à literatura socialista, repetindo frases sem atentar para o seu significado. Poderíamos fazer uma lista infinda de tais afirmações cientificamente fundamentadas e sucessivamente repetidas como peças declamatórias, sem se fazer a menor reflexão sobre o seu conteúdo. Dentre elas podemos destacar: "socialismo ou a barbárie".

Não estamos nos dando conta que o capitalismo marcha celeremente para o desastre. Não atentamos para o fato de que a cada dia ele tritura vidas, destrói a natureza, corrompe os costumes de forma cada vez mais acentuada. É a iminência de explosões sociais que podem levar as massas populares ao saque, à depredação, à vingança social sem rumo e sem resposta.

Enquanto isso, a grande maioria das pessoas se perde em torno de infindáveis disputas de grupos ou partidos, em batalhas mesquinhas, sem se darem conta da profundidade da crise que estamos mergulhados.

"Socialismo ou barbárie" não é simplesmente frase de efeito. Encerra um dilema concreto da sociedade capitalista que tenta manter-se de forma obstinada pouco lhe importando os interesses gerais da humanidade. Daí, a razão pela qual se proclama triunfante a "derrocada do socialismo".

Para nós outros, a questão coloca-se de outra forma: a inviabilidade do socialismo implica, inevitavelmente, a negação do capitalismo pela barbárie, pelo desastre histórico.

Como tudo o mais, o capitalismo não é eterno, bem se sabe. Mas devemos envidar esforços, enquanto é tempo, para que seu fim não nos conduza à grande tragédia do fim da humanidade.

Para tanto, há que se impor, como solução, a negação do capitalismo pela afirmação do gênero humano.

Gilvan Rocha é presidente do CAEP - Centro de Atividades e Estudos Políticos.

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Morre um aliado inseparável de Fidel na Revolução Cubana

15/09/2009

Rui Ferreira

Operamundi

O vice-presidente cubano, Juan Almeida Bosque, foi o primeiro negro cubano que se colocou ao lado de Fidel Castro quando este decidiu fazer a revolução. Acompanhou-o no assalto ao Quartel Moncada em 1953, considerado o início do levante. Fracassada a tentativa, ambos foram presos e julgados em Santiago de Cuba. Seguiram-se dois anos de prisão, o exílio no México e depois, em 1956, o regresso à ilha rumo à Serra Maestra, a bordo do iate Granma.

 

Fidel sempre o considerou um amigo, entre outras razões porque Almeida foi o único homem que, no meio de um combate, teve a coragem de enfrentar Ernesto “Che” Guevara, então ainda um simples médico da força guerrilheira. Cercados por uma poderosa força militar do ditador Fulgêncio Batista, que os surpreendeu logo ao desembarcarem, Che teve um momento de debilidade e sugeriu uma retirada.

JFKalmeida3“Che, aqui ninguém se rende. ‘Cojones’!”, gritou Almeida no meio da escuridão da noite. Durante muitos anos, a frase foi atribuída ao Comandante Camilo Cienfuegos, mas nos anos 1980, o agora presidente Raúl Castro confirmou, num discurso, que era de Almeida. E acrescentou que foi a reação “correta de um revolucionário”.

Sua morte foi um choque para a maioria dos cubanos, que o viram pela última vez há dois meses, durante sessões do parlamento cubano, e ele parecia bem de saúde. Segundo um comunicado oficial, foi vítima de ataque cardíaco na última sexta-feira (11). Foi enterrado ontem.

Almeida conheceu Fidel no início da década de 1950, através de um amigo militante do Partido Ortodoxo. “O Fidel não teve que me convencer muito para me colocar a seu lado. Sou negro, toda a minha família sofreu com o racismo antes de revolução e eu percebi logo que era o homem indicado para salvar nosso país”, contou o carpinteiro Almeida, numa entrevista concedida à revista Cuba Internacional há uns 30 anos.

Desde então, não se separaram. Almeida permaneceu ao lado de Fidel em todas as primeiras batalhas. Na Serra Maestra, em cujo cemitério foi enterrado, recebeu a patente de comandante e foi nomeado chefe de uma das frentes de combate.

Governante ideal

Dizem historiadores cubanos que Fidel sempre pensou que Almeida era o homem ideal para governar o oriente do país, a zona mais rebelde de Cuba e habitada majoritariamente por negros. Por isso, logo em 1959, quando o poder revolucionário se consolidou, o ex-presidente o enviou para Santiago de Cuba, onde permaneceu por 15 anos à frente do governo civil da região.

Foi durante sua passagem pelo cargo que as tropas norte-americanas estacionada na Base Naval de Guantánamo atacaram a tiros vários soldados fronteiriços cubanos, matando pelo menos quatro. Apesar de Fidel ter dirigido a manobra de defesa, foi Almeida o encarregado de mobilizar as tropas.

De volta a Havana em 1975, Almeida é encarregado de organizar o primeiro congresso governamental do Partido Comunista, de onde sai membro do birô político e com a patente honorífica de “comandante da Revolução”, atribuída apenas ao atual ministro de Comunicações e Informática, Ramiro Valdés, e ao vice-presidente Guillermo García, o primeiro camponês da Serra Maestra, que aderiu à revolução de Fidel.

Compositor premiado

almeida_bosque Mas Almeida também se distinguiu noutro terreno. É considerado um importante compositor de boleros e canções populares cubanas. Escreveu mais de 300 e obteve vários prêmios em festivais de música.

A sua canção mais importante é, possivelmente, La Lupe, dedicada à santa mexicana, que escreveu durante a travessia do Granma entre o México e a Serra Maestra. “Nenhum de nós sabia se ia sobreviver ao desembarque. Sempre pensei que devia restar uma última homenagem ao México por nos ajudar e deixar alguma coisa escrita”, explicou Almeida na entrevista à Cuba Internacional.

“Sempre escutei com prazer as suas canções, em especial aquela em que, com grande emoção, se despedia de seus sonos com um apelo a vencer ou morrer pela pátria”, escreveu hoje, numa de suas reflexões, Fidel Castro, em referência a La Lupe.

Almeida 15 meses depois de Vilma Espín, que foi presidente da Federação de Mulheres Cubanas, esposa do presidente Raúl Castro e a mulher de mais alta hierarquia da revolução.

Dentro do círculo de poder da primeira geração revolucionária, além de Fidel (83 anos) e Raúl (78), permanecem vivos o primeiro vice-presidente, José Ramon Machado Ventura (78), os comandante Ramiro Valdés (77) e Guillermo Garcia (81), assim como o ministro da Defesa, general Julio Casas Regueiro (73), e o ministro do Interior, Abelardo Colomé Ibarra (70).

Há dois meses, ao anunciar a realização do sexto congresso do Partido Comunista no próximo ano, o presidente cubano admitiu que será o último da geração que fundou a revolução - o último foi realizado em 1997. Por isso, deverá delinear o rumo político do processo revolucionário e da renovação da sociedade, ainda baseados no modelo soviético.

Vítima de ataque cardíaco na última sexta-feira (11), Juan Almeida Bosque foi o primeiro negro cubano que se colocou ao lado de Fidel Castro quando este decidiu fazer a revolução

Vítima de ataque cardíaco na última sexta-feira (11), Juan Almeida Bosque foi o primeiro negro cubano que se colocou ao lado de Fidel Castro quando este decidiu fazer a revolução

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A urgência da unidade na esquerda socialista

Escrito por Fernando Silva e Júnia Gouvêa

28-Jul-2009 – Coreio da Cidadania

foicemartelo2 Há em curso, em amplos setores das representações políticas e sindicais combativas da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, um debate a respeito da unidade da esquerda socialista para enfrentar o cenário político em tempos de crise e também com vistas às eleições de 2010.

Do nosso ponto de vista, a questão da unidade tem que começar desde já e ser pautada fundamentalmente no movimento de massas e nas lutas sociais, apresentando alternativas imediatas desde a perspectiva dos trabalhadores para enfrentar a crise, em relação intrínseca com a luta pela superação do capital. Nestes tempos de recessão, de ataques aos direitos da classe trabalhadora e de fragmentação da esquerda socialista - entre setores, movimentos e correntes -, é imperioso apresentar de forma unitária um projeto, capaz de construir uma resistência unitária que responda às necessidades imediatas da classe e que tenha claramente um perfil anti-sistêmico, de ruptura com o capitalismo.

Tal é a ofensiva atual do grande capital e dos seus governos - tanto governos tucanos estaduais como o governo federal - sobre direitos da classe trabalhadora, que não sem alguma perplexidade constata-se um avanço na criminalização dos movimentos sociais e suas ações sob a vigência da "era Lula".

Apenas para ficar no terreno do movimento sindical, recentemente pudemos verificar tal unidade de "procedimentos" intimidatórios entre governos tucanos e petistas. Na greve dos trabalhadores da USP, coube ao governo Serra a primazia de tentar impedir o direito de greve com a ocupação e repressão militar do campus da USP. Na greve dos trabalhadores do INSS, coube ao governo Lula tentar impedir o direito de greve através de: liminar que proibia a greve quase uma semana antes de a mesma ser iniciada, imposição de multas pesadas aos sindicatos da categoria, corte de ponto dos servidores, interditos proibitórios e o uso da força da Polícia Federal. Procedimentos todos similares aos adotados pelo governo FHC durante a greve dos petroleiros de 1995.

É nesse difícil e complexo cenário que está posta a responsabilidade para a esquerda socialista e combativa (que não se deixou cooptar pelo governo Lula-Sarney e companhia bela), de construir a unidade para apresentar uma alternativa de uma verdadeira, renovada e reorganizada esquerda, em primeiro lugar no terreno da luta de classes.

Esta será a melhor forma para a esquerda socialista construir condições de se apresentar nas eleições de 2010.

A próxima eleição será a do balanço da "era Lula" e das conseqüências que seus dois mandatos trouxeram para a esquerda brasileira, balanço este que obrigatoriamente teremos que fazer.

Será o momento de tentar romper a falsa polarização entre o bloco PSDB/DEM e a candidatura do bloco de sustentação do governo Lula, atualmente de Dilma Roussef, que está levando o próprio Lula a assumir o papel de condutor da "tropa de choque" para bancar a permanência de Sarney, ou seja, o esvaziamento de mais um dos inaceitáveis escândalos de corrupção, agora envolvendo o Senado, em troca do apoio do PMDB nas eleições de 2010. Aliás, outra similaridade de procedimentos da era "Lula" com os governos da "era FHC"

Caberá à oposição de esquerda estabelecer a verdadeira polarização de projetos e programas para o Brasil também no terreno eleitoral.

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Cuba: 50 anos de resistência

 

Por Lúcia Rodrigues

A exigência da libertação dos cubanos presos nos EUA, a luta pelo fim do bloqueio e pelo reconhecimento do diploma dos médicos formados na Ilha, pelo governo federal são algumas das bandeiras aprovadas pelos militantes presentes à Conferência Paulista de Solidariedade a Cuba

A conferência paulista de solidariedade a Cuba, que ocorreu no sábado, 30, na quadra do Sindicato dos Bancários, no centro da capital, reuniu centenas de militantes de movimentos sociais, como MST, Consulta Popular e partidos políticos (PSOL, PT, PC do B, PCB e PCML). Todos reafirmaram o apoio à Ilha, que comemorou no dia 1º de janeiro o cinquentenário da revolução socialista que mudou os rumos da América Latina.

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